Blog

Vendo Artigos etiquetados em: aí

A capoeira e os apelidos

Tenho acompanhado há a alguns meses algumas discussões sobre o uso de apelidos na capoeira. Acho a discussão válida, mas há alguns pontos que gostaria de comentar:

 

1) apelidos não são obrigatoriedade. Não é todo mundo que tem – o que para mim, indica que a coisa não é tão universal assim.

2) eu acredito no apelido que surge espontaneamente, decorrendo de uma situação específica. O que me incomoda é o apelido forçado. No dia do batizado, chega o mestre e diz “agora você é o Blablabla”. Aí falta contexto mesmo – é a imposição que vai de encontro à liberdade pregada pela capoeira. O apelido é Blablabla “porquê o meu mestre falou que é” é uma baita escrotice, se me perguntarem…

3) a questão do que é que denigre – não é todo apelido que rebaixa, independente da raça. Creio que todo capoeirista conhece casos de apelidos “bacanas” e “ruins”, aplicados a negros, amarelos e brancos.

Nem todo apelido é Macaco, Gambá, Minhoca, Magrelo, Cheiroso ou Urubu. Tem Velocidade, tem Coração, tem nomes de bairros, cidades natais, etc. E ainda assim, nem todo Macaco é negro, nem todo Gambá é mal-cheiroso. A variação de motivações é tão grande quanto, ou maior que a variação de nomes…

O bullying preocupa sim, especialmente nos apelidos que surgem naturalmente do grupo (e não do mestre): será que o Tripa Seca está mesmo feliz com o apelido dado pelos colegas de treino ? Isso precisa ser avaliado com cuidado pelo responsável, mas não necessariamente inibido – afinal de contas, vivemos em grupo, e o grupo age sobre nós assim como nós sobre ele.

A pessoa em cheque pelo apelido pode ter sofrimento sim, mas também pode usar disso para sair mais forte – é uma questão de maturidade (e por isso o olho do responsável é tão importante). Chamar um menino gordinho, de 12 anos, de “Baleia Encalhada” é uma coisa se ele sabe lidar com isso, e outra coisa muito diferente, se ele não sabe. A palavra-chave para mim, nesse caso, é “atenção”.

Ser mestre não é só ensinar a se posicionar na roda, mas também a se posicionar no mundo. Ele deve intervir quando perceber ser necessário, ou quando os envolvidos solicitarem. E principalmente, ele deve ter autocrítica – para não se tornar ele mesmo o causador do sofrimento.

Resumindo, não acho que a questão de ser contra os apelidos é “muito barulho por nada”, como muita gente grita por aí. Mas também não é o absurdo que tem sido pintado.

 

Tem muitos casos no mundo, e cada um deles é um.

 

Axé,

Teimosia (feliz com o apelido)

 

Fonte: http://campodemandinga.blogspot.com

A capoeira é o que a boca come, o olho vê, a mão pega, o pé pisa, o coração sente.

De capoeirista e auxiliar administrativo até virar apenas Roger

Ele já foi ajudante de obra e auxiliar de serviços gerais na empresa de construção do pai, depois vendedor de álbuns de “crianças fotogênicas” em vilas populares, auxiliar administrativo em uma financeira, divulgador e representante de discos na época das grandes gravadoras. Também já foi capoeirista, fez frevo e participou do Balé Popular do Recife por uns dois anos. Tudo isso foi o que ele fez antes de se tornar apenas Roger de Renor, figura recifense mais conhecida por seus programas televisivos e em rádios: primeiro foi o Sopa da Cidade, na antiga Rádio Cidade, depois o Som da Sopa, o Sopa de Auditório e agora o Som na Rural – que está sendo gravado e será exibido em cadeia nacional pela TV Brasil – e o programa Sopa Oi FM, além de ser diretor da TV Pernambuco desde o ano passado.

Um comunicador nato, Roger de Renor não é daquelas pessoas que conseguimos separar entre a figura pública e privada. Ele é um só, que participa da cena cultural do Recife por prazer e que acabou se transformando também em profissão. Além da atuação como dono dos lendários e extintos bares Soparia e Pina de Copacabana, esse cidadão recifense que se destaca onde chega por seu visual – agora, lembra um pirata tatuado e barbado – nos conta quem ele é.

A começar pelo nome, qual seria o nome de batismo de Roger de Renor? Rogério, Rogesvaldo, arrisquei a pergunta. “É Roger de Renor, mesmo. Meu pai se chamava Paulo Renor da Silva, e minha mãe é Maria Tereza Paiva Rosa e Silva. Eu e minhas três irmãs somos ‘de Renor’. Na realidade, o sobrenome dos meus pais era ‘Silva’. Hoje ninguém liga para isso, mas por preconceito com o ‘Silva’, que não tem nada de mais nesse sobrenome, resolveram colocar o ‘Renor’, que na realidade o segundo nome do meu pai, como se fosse Paulo Ricardo, por exemplo.”

Já o seu nome foi uma homenagem que sua mãe quis fazer a um artista circense que ela viu em um circo em Natal (RN). Roger acabou descobrindo que o seu homônimo fez parte do Circo Nerino, famoso na década de 1940, e sobre o qual escreveu o livro Circo Nerino. “E o meu nome é massa porque eu só sabia que minha mãe tinha se inspirado num artista de circo. Mas descobri o livro. Roger era um trapezista do circo. Tu acredita que o livro começa com uma mulher contando da vez que o circo tinha voltado para 
Olinda?” 

E Roger continua: “E uma mulher chega perguntando: ‘Cadê Roger?’ E o cara fala: ‘Roger tá aí’. ‘Ah, Roger tá aí? Então tudo bem.’ E ela entra, paga o ingresso, espera por Roger e não o encontra. Quando ela vai falar para o cara: ‘Você disse que Roger tava aí.’ O cara diz: “Você não viu, não? Ele é palhaço agora.’ Ela tinha conhecido ele como trapezista, ele era o galã do circo, andava em cima dos cavalos, fazia pirâmide humana. Como ele ficou velho, virou palhaço”, conta rindo.

“Ele era a referência que minha mãe tinha de artista de cinema, esse era o cara mais lindo que existia que tinha chegado na cidade de Natal. E o melhor é que eu conheci Roger, quando ele estava com 85 anos, quando ele veio para o Festival de Circo aqui no Recife e eu tinha sido convidado para apresentar o festival. Ele tomou cerveja comigo. E ele disse que tem Roger no Brasil inteiro por causa dele, um pessoal da minha faixa etária. Fiquei gostando ainda mais do meu nome, é uma história bacana.”

Nomes à parte, quem era Roger de Renor antes de se tornar uma das figuras mais conhecidas no cenário musical recifense? “Eu não gostava de estudar, minha escola era quase um colégio integralista. Não gostava de nada na escola, só da turma. No primeiro ano científico, parei de estudar.” Depois de passar por quatro escolas, resolveu fazer supletivo para concluir o Ensino Médio. 

SOPARIA – Nesse tempo também resolveu trabalhar com o pai, que tinha uma empresa de construção civil. “Meus pais não reclamaram, sinto até falta, acho que deveriam ter ficado no meu pé. Eu não sou como meu pai em relação a meu filho. Digo a ele que ele tem que estudar e pronto. Acho que meus pais deveriam ter feito assim. Mas eu fui trabalhar como auxiliar de serviços gerais, fiscalizava obras com meu pai.”

Depois Roger não quis trabalhar mais com o pai. “Virei vendedor de uns álbuns que eram vendidos em vilas populares, de crianças fotogênicas. Na verdade, um fotógrafo dizia que estava tirando foto para uma revista. Mas era tudo mentira. Depois de revelarem as fotos e publicarem num álbum, eu e outros vendedores tínhamos que voltar nesses lugares para vender essas fotos a esse pessoal bem pobre.” 

Também trabalhou em financeira e depois passou cerca de oito anos trabalhando para uma gravadora. “Eu ganhava bem, mais que o suficiente. Aí eu tinha vinte e poucos anos e tinha um carro, uma moto, apartamento alugado, era massa. Mas esse negócio era muito angustiante, eu gostava demais de música para vender disco. O disco, você vendia o produto, e não o conceito, a história, o lance da música. Era como quem vendia sapato, roupa.”

Enquanto trabalhava como representante de gravadora, Roger de Renor fazia o que gostava. Organizava festas na casa da mãe, fazia capoeira e até ensinou capoeira em academia e chegou até a participar do Balé Popular do Recife. “Como eu vivia essa vida boa aí, eu podia viver outra coisa boa. A única coisa boa que a escola me trouxe foi que não me fez ser um playboy foi a capoeira. Na capoeira aprendi a me relacionar com gente de todo nível social, aprendi a tocar pandeiro, berimbau. Ensinei em academia, participei de campeonato, sou capoeirista graduado, posso ensinar.”

Como um caminho quase que natural, Roger fez um curso de frevo na Casa da Cultura e fez um teste para o Balé Popular do Recife, onde passou mais de dois anos. “Fazia capoeira e frevo, caboclinho, coco. Imitava embolador. Participei do espetáculo Prosopopeia – um Auto de Guerreiro.” Também fez teatro, participou de alguns espetáculos no Recife, como Salto Alto, Arlequim. “Era muito bom. E eu ia ficar vendendo disco, cara?! Ficar naquele papo no lugar das revendas: ‘E aí, como vai?’ E o outro: ‘Agora que você chegou tá tudo bem’. ‘Não, que é isso?! Você que manda’. E o outro: ‘Eu não mando nada, você que manda e eu obedeço.’”, brinca.

“Não ia ficar envelhecendo naquela porra. Eu falei ‘Vou fazer qualquer negócio, aliás não vou fazer nada.’ Ainda trabalhei de segurança, chefe de camarim, fiquei sem fazer nada, tinha a grana que tinha recebido da gravadora, pensei em botar uma kombi com lanche, carrocinha de sanduíche, só pensamentos retardados. Eu não era mais menino e pensava nisso, só pra não entrar no negócio de trabalhar, só coisa que me divertisse. Foi quando resolvi botar o bar.”

Em 1991, Roger abriu a Soparia, no Pina, que era um esquema “para não trabalhar”. Num cenário não tão diferente do de agora, Roger conta que na época o Recife não tinha lugar para inde ir depois das 2h da manhã. “Ou você ia para o Hospital da restauração ou para Brasília Teimosa. Resolvi abrir a Soparia de meia-noite até 7h da manhã. “ Roger conta que abriu o bar numa meia-noite de Carnaval e não apareceu ninguém. Depois do Carnaval, o movimento foi aumentando, o bar passou a abrir às 7h da noite e ia até 5h, 6h da manhã. “É muito perigoso trabalhar com bar gostando de gente, de bebida, de festa… é um perigo.” 

Depois que a Soparia fechou, Roger abriu o Pina de Copacabana, na Rua da Moeda. Mesmo funcionando por apenas dois anos, entre 2000 e 2002, o bar até hoje é referência. Muita gente que nem frequentou o espaço – que depois foi reaberto como Novo Pina e que hoje já adotou um outro nome – até hoje costuma se referir ao espaço como “o antigo Pina”.

TATUAGENS – Além da barba fechada, dos brincos e anéis, Roger é todo estampado. Numa ocasião, durante uma entrevista, Roger falou que tinha quadros nas paredes do seu corpo para se referir às tatuagens. São dez ao todo, entre gatos, sereias e a mais curiosa: a palavra “Saudade”. “A primeira tatuagem foi a sereia, todas foram feitas a partir da Soparia, quando eu tinha uns 28, 29 anos. Tem essa aqui que vou retocar: ‘Saudade’, que fiz quando estava bêbado. Saudade é massa, porque é amor, né, querendo amar, bêbado. E uma vez uma mulher no elevador disse: “Soldado? Você é militar?”, conta rindo e brinca: “Deveria ter dito: ‘Não, é um cara que eu namorei, um recruta”, ri.

“Sou vaidoso, gosto muito de… não é uma história de ‘Preciso ter aquela roupa’. Mas não dispenso uma atividade física, se não correr na praia três dias na semana, fico agoniado. Ando de skate no Parque Dona Lindu, ando de bicicleta.”

Vaidoso, o produtor cultural, comunicador, apresentador ou seja lá qual a definição que melhor se encaixa para ele, tem uma paixão: motocicletas. “Eu comprei uma moto com 19 anos. Gosto por causa dessas fantasias mesmo, todos os clichês, vento na cara, zoada, fazer parte da natureza, os filmes, tem toda uma simbologia. Agora tenho a moto que mereço, uma Fat Boy, uma Halley Davidson 1660 cilindradas. Ela é linda, ela é um sonho”, fala como um menino que estivesse falando do seu brinquedo predileto. “Em vez de investir em carro novo, prefiro a moto, que é meu sonho. Também já viajei muito de moto, já fui muitas vezes para o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Ceará. Não conheço o Brasil todo porque ainda não fui pra cima nem pro Sul.”

Além da sua Fat Boy, Roger tem uma Caravan de 1978. E já teve um Landau. “Minha vaidade tá nisso. Também nem seja vaidoso, mas amostrado. Se fosse vaidoso, teria um carro zero. Mas prefiro ter uma Caravan azul, que é muito mais amostrado”, brinca e termina a entrevista mostrando o forro novo do carro. “Veja que lindo, né? E sou modesto, né? Agora diga que não é bonito?!.”

 

Fonte: http://ne10.uol.com.br/canal/cotidiano

Mestre Boneco quer retomar espaço perdido para o MMA

Mestre Boneco, que deu aulas para Halle Berry e vive em Los Angeles, busca a unificação de critérios para ‘vender’ a modalidade.

A capoeira já viveu seus tempos de moda no Brasil, mas com o crescimento de outras modalidades mais eficientes em um ringue de luta, como o jiu-jitsu e o boxe tailandês, a luta que se mistura com dança no ritmo marcado pelo berimbau ficou fora do “mainstream” da pancadaria. O surgimento do MMA (Mixed Martial Arts ou Artes Marciais Misturadas), esporte onde dificilmente a ginga e a plasticidade da capoeira têm vez, também vem de encontro à falta de um formato claro de competição, que fez com que a capoeira viesse a perder espaço na mídia e no mundo da luta em geral.

Um dos maiores expoentes da modalidade, Beto Simas, ou Mestre Boneco, afirmou, em entrevista ao iG, que a capoeira ainda está em estágio amador e que, para se desenvolver, precisa unificar suas regras e torneios. De Los Angeles, na Califórnia, onde vive desde 1999 e dirige o grupo Capoeira Brasil, ele, aos 49 anos, ainda vê a capoeira com força e grande quantidade de adeptos. Porém, não sabe precisar o número nem mesmo dos alunos do seu grupo, o Capoeira Brasil. A falta de um censo preciso é um dos problemas que Mestre Boneco tenta resolver. Segundo ele, não há dados ou estudos que possibilitem a “venda” de eventos da capoeira. Nos Estados Unidos, já trabalhou com artistas renomados como Hale Berry, que treinou para o filme “Mulher-gato”, e Brooke Shields. Entre os artistas brasileiros, rasga elogios à “casca-grossa” Elba Ramalho e lembra que o mais difícil de trabalhar foi o “frágil” Milton Nascimento.

 

Confira a entrevista de Mestre Boneco ao iG:

iG: No Brasil, a capoeira chegou a virar moda, mas parece ter perdido espaço para outro tipos de luta. Você acha que o crescimento do MMA brecou a evolução da capoeira?
Mestre Boneco: A capoeira teve uma época que estava muito na mídia, até porque eu consegui entrar na mídia trazendo a capoeira. Mas aí veio o MMA e o povo gosta de ver sangue. Começa a gerar dinheiro e vira um grande atrativo. Para mim a capoeira é uma arte ímpar, uma das que tem mais adeptos no país, apesar dos modismos, e não tem apoio ou uma promessa de você ficar milionário, como o futebol, o MMA. Então acho que é uma arte muito forte.

iG: É difícil ver um lutador de capoeira, por exemplo, disputando competições como os torneios de MMA. Isso interessa a vocês?
Mestre Boneco: Na verdade, a proposta nunca foi entrar nesse tipo de torneio, porque é mais do que uma luta. Mas pode muito bem um capoeirista estar voltado só para a luta. O Anderson Silva fez capoeira, acho que prepara muito bem. O MMA não é uma luta só, o cara é um lutador profissional, tem de saber várias lutas. Existe competição de capoeira, mas ainda é muito amador. Há competição de dupla, de contato, mas temos de bolar algo melhor. Tem de bolar um formato de competição de forma que não percamos a característica da capoeira. Senão vira caratê ou briga, e não é isso, o contato tem de ser voltado para a capoeira, é complicado. Quando o jogo fica duro na capoeira, o bicho pega. Existem campeonatos, mas temos muito a aperfeiçoar ainda. Só no Rio existem várias Federações, e por isso estamos criando uma comissão de mestres para que possamos dar validade a um Programa Estadual de Capoeira no Rio, estamos tentando fazer com que o nosso governador aprove.

iG: Você já tem algo pronto em relação a essa proposta de regras?

Mestre Boneco: Em relação a regras, tenho até muita coisa escrita, inclusive já realizei alguns campeonatos internos no Brasil e em Los Angeles. Mas, para fazer campeonatos abertos a outros grupos, acho que seria interessante que fizéssemos regras com a presença dos grupos com efetiva representatividade no mundo da capoeira.

iG: Como você ingressou na capoeira?
Mestre Boneco: Acho que foi destino. Estava na praia do Leblon num fim de semana, e vi um pessoal gesticulando, falando alto. Aí eu conhecia dois deles e algo me levou a ir falar. E me disseram que era capoeira, que haveria um evento e, se eu quisesse ir, era só pedir autorização aos meus pais que eles me levariam. Eram mais velhos do que eu, conhecia dois da rua. Aí fui e me apaixonei, nunca mais parei. Foi em 1974, 75, estou com 49 anos hoje. Eu queria viver disso, não sabia como faria, mas queria viver disso.

iG: Quantos alunos tem o grupo?
Mestre Boneco: São 70 instrutores espalhados pelo mundo, mas não sei dizer exatamente quantos alunos. Estamos fazendo esse censo agora, trabalhando em um recadastramento. Sei que é muita gente. São três fundadores do meu grupo, o Capoeira Brasil, o Mestre Paulão, Mestre Sabiá e eu. Cada um tem um núcleo muito grande, aqui nos Estados Unidos, na Austrália, na China, na Europa, estamos espalhados no mundo todo. Se eu disser um número, estou chutando.

iG: Quando você foi para Los Angeles?
Mestre Boneco: Mudei em 1999, foi uma loucura, queria colocar a capoeira no cinema, fiquei empolgado e vim. Já trabalhava com capoeira há muitos anos, estava um pouco cansado de dar aulas. Já fiz televisão na década de 90, aí fiquei animado. Queria estudar aqui, não era nem para dar aula, mas acabei abrindo uma academia, não teve jeito.

iG: Você criou um grupo de dublês para cinema, correto?
Mestre Boneco: Tenho uma rapaziada aqui que faz muito videoclipe, faz filme, preparei a Halle Berry para fazer a mulher-gato, o Robert Rey (Dr. Hollywood) também foi meu aluno… Teve a Alanis Morissette que me procurou. Dei aulas, mas não foi na academia, foi na casa dela. Mas esse pessoal é muito ocupado, viaja muito, acaba que o treino não tem aquela consistência.

iG: E desses artistas, quem foi o mais chato e o mais dedicado?
Mestre Boneco: O mais difícil de trabalhar acho que foi o Milton Nascimento. Ele é muito frágil e a aula tinha de ser com muito cuidado, o trabalho foi muito delicado. A Halle Berry foi bem dedicada, mas quem é casca-grossa mesmo é a Elba Ramalho. Ela é boa, tinhosa, não é mole não. Trabalhei também com a Brooke Shields quando fiz uma participação em um filme na década de 80.

iG: Falando como empresário, como você enxerga o mercado para a capoeira?
Mestre Boneco: Na verdade, o mercado é muito grande e muito próspero, estamos trabalhando justamente para melhorar esse campo. Uma coisa que já complica é que cada grupo tem uma graduação independente. E isso dificulta na hora de buscar patrocínio. Estou buscando uma unificação. Tenho um projeto de reestruturação do meu grupo que estou abrindo para todos os outros. Quando você busca um patrocínio, o cara quer dados e não há. O cara quer um censo, quer saber como são as graduações, ainda soa como algo meio amador. Há grupos profissionais, eu sempre vivi da capoeira e não vivo mal.

iG: Você considera a capoeira uma luta de fato ou uma dança? O que é a capoeira, na sua visão?
Mestre Boneco: Essa é a grande dificuldade para a capoeira crescer, porque ela é tudo isso junto. É dança, é luta, é brincadeira, é arte, é cultura, é acrobacia, é música, ritmo, tudo isso. Então temos de definir, estava debatendo isso no Rio. Temos de apresentar um projeto ao governador. A gente quer que ele homologue uma comissão que estamos formando para poder decidir quem pode dar aula ou não e outras coisas, como essa definição do que é a capoeira, porque isso interfere em todo o resto. Uma luta é só luta, cultura é só cultura, aí vão por esse viés, mas a capoeira é tudo isso.

iG: Dá para perceber maior dificuldade dos americanos para aprender a ginga ou é a mesma coisa?
Mestre Boneco: Essa história é papo. Tenho uma aluna aqui em Los Angeles que passa fácil por brasileira. E o mais legal aqui é que Los Angeles é uma cidade muito segregada. Tem área do negro, do latino, do asiático, mas a capoeira é uma mistura. A gente até saiu em uma matéria no L.A. Times por causa disso. Fizemos um documentário, que consegui vender para a televisão no ano passado, mostrando a capoeira no mundo tudo. Então fomos em várias cidades. Em Israel, foi muito legal, colocamos judeus e palestinos, que se matam, jogando capoeira, batendo palmas, se abraçando na maior harmonia. A capoeira é um instrumento de transformação.

iG: Como funciona essa questão dos apelidos? Qual é o critério para a escolha e porque resolveram chamar você de Mestre Boneco?
Mestre Boneco: O meu foi porque eu era da zona sul, no meio daquela negrada toda, a capoeira ainda era discriminada e tinha poucas pessoas claras, de cabelo escorrido… Aí quando cheguei, falaram logo: “Ah isso aí é boneco! O que está fazendo aqui?”. Mas a dificuldade faz a gente crescer. Os apelidos são da época que a capoeira era proibida, então os capoeiristas tinham apelidos para manter o anonimato. Por mais que a capoeira evolua, queremos manter a tradição.

 

http://esporte.ig.com.br

Capoeira: Esporte Olímpico ???

A capoeira como sabemos, não pode ser interpretada de forma simplista e reducionista. Dentre as suas várias possibilidades, ela pode ser caracterizada como jogo, luta, brincadeira, dança, arte, cultura, filosofia, educação. Alguns a consideram também como esporte. A riqueza de referências contidas na capoeira, permite essa diversidade de interpretações.

Gostaria de tecer aqui, algumas considerações sobre a caracterização da capoeira como esporte. Antes de mais nada, é preciso também esclarecer que o fenômeno “esporte” também possui vários sentidos e possibilidades de interpretação. O esporte tanto pode ser visto como atividade voltada para o lazer, visando a busca pela saúde e a educação das pessoas, o desenvolvimento da cooperação e da sociabilidade daqueles que o praticam, como também pode ser visto como uma prática altamente competitiva, excludente, discriminatória (pois só os mais fortes e habilidosos tem vez) em busca da vitória “a qualquer custo”, ou seja, mais um produto dessa nossa cruel sociedade capitalista.

Pois é, aqueles que defendem a capoeira como esporte, têm que deixar claro a que tipo de concepção de esporte estão se referindo. Se for a uma concepção de esporte que busque a integração, o prazer, a inclusão, a socialização das pessoas, aí então posso concordar com essa visão. Mas do contrário, sou muito crítico àquela visão que associa a capoeira ao esporte competitivo, onde campeonatos são organizados para se eleger o melhor, o mais forte, o mais habilidoso, o mais acrobático, onde juízes e regras vão transformando a alegria e espontaneidade de um jogo de capoeira, num clima tenso e pesado onde é travada uma batalha feroz e muitas vezes violenta.

A capoeira não pode ser reduzida a isso !  Gosto de ver um jogo de capoeira onde as pessoas sorriem e se divertem jogando. Onde há espaço para uma brincadeira marota, uma dissimulação, uma mandinga, uma “gaiatice” como se diz aqui na Bahia. Me pergunto como isso seria julgado por um juiz num desses campeonatos ? Quantos pontos valeria uma mandinga ou uma gaiatice de um capoeira malandro ? Por que um jogo de capoeira tem que ter um perdedor e um ganhador ?  Quem vai estabelecer os critérios do que é bom e o que é ruim num jogo de capoeira, para se definir a pontuação ?  É possível alguém definir isso em se tratando de uma prática tão complexa, rica e diversa como a capoeira ???

Nessa direção, muito me preocupa um certo movimento de querer transformar a capoeira em esporte olímpico. Aí seria, na minha opinião, a sentença de morte para a capoeira enquanto livre expressão do povo brasileiro. A capoeira tem beleza e valor, justamente por possuir essa diversidade, essa espontaneidade, essa alegria. No momento em que enclausurarmos a capoeira dentro de regras internacionais rígidas e competitivas – pois é isso que se exige de um esporte olímpico – a capoeira estará sendo destituída de seus elementos mais ricos, mais belos, estará perdendo a sua alma !!! Se o saudoso mestre Pastinha por aqui estivesse, certamente iria bradar contra isso.

Certo dia desses, fui convidado a um evento de capoeira onde, entre outras atividades, houve um campeonato. Fiquei observando de longe as reações, o clima de tensão, os semblantes fechados, as adversidades e as animosidades que aquilo tudo produzia nas pessoas que participavam do tal campeonato. Mas tive certeza mesmo dos malefícios que aquilo trazia, quando presenciei o choro inconsolável de uma menina de 10 anos, que perdera a final para uma outra menina um pouco mais velha. O jogo bonito que ela apresentou não lhe serviu de nada. A garota mais velha, para os juízes, foi mais “agressiva”. A medalha foi para ela !!!

É nisso que queremos que a nossa capoeira se transforme ????

Americano (Muniz Sodré), aluno de Bimba

Americano (Muniz Sodré),  aluno de Bimba, no filme “MESTRE BIMBA, A CAPOEIRA ILUMINADA”
 
Sobre as prisões de capoeiristas na Bahia do século passado :

“Do que eu sei, do que eu ouvi Bimba contar, negro que era capoeirista na rua era amarrado no rabo do cavalo e era levado até o quartel de modo  que se dizia que era melhor brigar perto do quartel porque aí a distância que lhe amarravam no cavalo não era tão grande.”

Mestre Itapoan, aluno de Bimba

Mestre Itapoan, aluno de Bimba, no filme “MESTRE BIMBA, A CAPOEIRA ILUMINADA”
 
Sobre a fase “Capoeirista de Rua” de Bimba :

“Mestre Bimba teve uma fase de capoeirista de rua. Chegou ao ponto inclusive, teve preso tantas outras vezes, que o delegado chamou ele uma vez e quis botar ele como inspetor de quarteirão do bairro que ele morava, porque aí, ele ia se policiar porque era o inspetor e não ia brigar entendeu? Ia ficar mais calmo. Mas ele disse que não que capoeira sempre teve contra a polícia, como é que ele ia ficar do lado da polícia?”

Entrevista com Mestre Brasília

Antonio Cardoso de Andrade, Mestre Brasília, um dos pioneiros da capoeira em São Paulo, autor do livro – “Vivência e Fundamentos de um Mestre de Capoeira”, publicado pela Editora Circuito LW.
 
(O livro pode ser adquirido, no Capoeiradobrasil, via e-mail: capoeiradobrasil@uol.com.br )
 
Mestre Brasília nos concedeu entrevista e conversou sobre o atual estágio de organização da capoeira. Ele pertence ao quadro de honra do Conselho Superior de Mestres de São Paulo e é vice-presidente da Federação de Capoeira do Estado de São Paulo.
 
  • Veja alguns trechos da entrevista:
 
Capoeiradobrasil: – Caro Mestre Brasília: é um grande prazer conversarmos com o senhor, e podermos compartilhar um pouco de sua grande sabedoria; temos a absoluta consciência de estarmos diante de um dos maiores mestres da capoeira mundial; conhecemos seu trabalho de longa data, desde os tempos pioneiros da capoeira em São Paulo. Sabemos de sua dedicação, da excelência de seu trabalho e de sua pessoa, tanto dentro como fora das rodas de capoeira.
Acreditamos que a capoeira vive hoje um momento muito especial, no processo de progressiva estruturação organizacional que deverá conduzi-la à maioridade, digamos assim, entendendo por isso o estágio de sua efetiva profissionalização e pleno reconhecimento social, como esporte e como parte valiosa do patrimônio cultural do povo brasileiro. O senhor, como um dos mais ativos participantes deste processo, como vê o momento atual?
 
Mestre Brasília: – Vejo com muita esperança. O fato de que a capoeira esteja se organizando é auspicioso, embora ela ainda esteja longe do ponto em que gostaríamos que estivesse. Hoje, contamos com a Confederação Brasileira de Capoeira, que congrega as Federações Estaduais e suas respectivas Ligas Regionais e Municipais, e eu estou lá, sempre apoiei, porque acho que é socialmente o mais correto trabalho de organização da capoeira que há, com respaldo do governo, nos níveis municipal, estadual e federal. Eles também acreditam como eu que a cultura brasileira deve ter um órgão que a preserve. Pode-se obter patrocínio e subsídios oficiais a partir do momento em que se tem um trabalho organizado e se adquire credibilidade social. E a Federação está aí para ajudar nisto. A capoeira precisa e merece ter pessoas trabalhando pelo seu engrandecimento, mas nós só vamos realmente obter maior credibilidade quando todos estiverem juntos, falando a mesma língua, e não cada um querendo puxar a brasa para o seu lado, cada um buscando satisfação e resultados pessoais; isso não vai levar a capoeira tão cedo aonde ela já deveria estar há muito tempo.
 
Capoeiradobrasil: – Sempre que o assunto é a “esportização”, ou, como agora, a “olimpização” da capoeira, levantam-se objeções de certos segmentos do mundo da capoeira, objeções que traduzem preocupações quanto à preservação da arte, ou dos aspectos lúdicos da capoeira, dos rituais e fundamentos. Isto nos leva a pensar nos critérios de avaliação e pontuação nos campeonatos e competições capoeirísticas. Como o senhor vê esta questão?
 
Mestre Brasília: – Eu, desde que comecei a praticar a capoeira, sempre venho praticando-a como esporte. Nunca como esporte competitivo, mas sempre como esporte. E se eu tivesse necessidade de competir, lá na roda, eu competia: era a minha vida que muitas vezes estava em jogo na roda, e eu tinha que competir, me defender. Se hoje ela pode ser um esporte legalizado, muito bem; a capoeira não é apenas esporte, é uma manifestação cultural brasileira que possui um conteúdo muito amplo: temos o ritmo, a poesia, a música, a coreografia, a defesa, o ataque, temos o espetáculo, temos a luta e temos o esporte.
 
Capoeiradobrasil: – O público tem muito interesse em saber se nas competições estes fatores – a musicalidade, o ritmo, a harmonia, a coreografia, etc – são também levados em consideração.
 
Mestre Brasília: – Sem dúvida. Toda luta tem um ritmo a seguir. Você tem que ouvir seu treinador. Na capoeira, você tem que saber ouvir a música, para que você tenha mais entusiasmo para lutar; mesmo em caso de competições, porque aí é o berimbau também que determina o tipo de jogo a fazer. Então, você tem de estar atento, para se defender, para atacar, para entrar na hora certa, na brecha de um adversário, ou para sair no tempo certo, você tem que estar atento, até mais do que normalmente. Para isso, é preciso treinar muito. Acredito até mesmo que a capoeira ainda venha a ser um esporte de ringue, profissional, mas no futuro. No momento, não vejo uma perspectiva de bons lutadores; vejo grandes entusiastas, aí, dizendo que estão lutando, mas que na realidade não estão lutando coisíssima nenhuma. Quando o cara entra no ringue para lutar, a vida dele e a de seu parceiro estarão em jogo. E a gente percebe, quando ele entra na roda se imaginando um lutador, que ele está cheio de brechas que, no caso de uma competição cerrada mesmo, esse cara poderia ser eliminado a qualquer momento, antes do que ele imagina. Acho que a capoeira ainda não está preparada para isso, mas ela pode se preparar, ela tem tudo para isso.
 
Capoeiradobrasil: –  No site www.capoeiradobrasil.com.br vamos pedir aos internautas que respondam à questão: “Deve a capoeira ser incluída no rol dos esportes olímpicos? Sim ou não, e por quê?” – Gostaríamos que o senhor fosse o primeiro a exprimir a sua opinião.
 
Mestre Brasília: – Pois bem: acho que, no momento, a capoeira ainda não tem condições de chegar às Olimpíadas, porque há modalidades esportivas com muito mais tempo e organização do que ela; mas o fato de que a olimpização tenha sido elegido como um objetivo é muito bom, pois vai orientar o processo de organização da capoeira, e aí eu dou todo o meu apoio, e espero ver o dia em que a capoeira integre as Olimpíadas. E não acho, de maneira nenhuma, que a inclusão da capoeira nas Olimpíadas traga qualquer prejuízo para ela. A capoeira é riquíssima, e é um pequeno segmento dela que vai para as Olimpíadas, e ela não vai perder nada, muito pelo contrário, ela vai é se enriquecer cada vez mais, no seu todo. Se as pessoas querem que a capoeira cresça, temos de nos acostumar com a idéia dela incluída nas Olimpíadas, sem dúvida alguma.
 
Capoeiradobrasil: – O senhor cresceu num tempo em que a divisão entre capoeira Angola e Regional não era bem nítida, ou não existia. Hoje, há várias divisões, várias “capoeiras”. Como o senhor dividiria hoje as variedades ou estilos de capoeira?
 
Mestre Brasília: – Dizem que Mestre Bimba, quando criou a Regional, chamou os angoleiros da época para conversarem sobre a unificação da capoeira. Alguns acharam que não, e ela continuou dividida. Na realidade, quando eu aprendi, o mestre dizia: capoeira é uma só, você deve ouvir o berimbau e jogar de acordo com o toque. Para cada toque há uma maneira específica. Não há modalidades diferentes, é o toque que determina as diferenças no jogo. Se você toca Angola, há uma maneira característica de jogar; se toca São Bento Grande da Regional, a característica do jogo é outra; se você toca São Bento Grande de Angola, é outra maneira; se toca Jogo de Dentro, outra maneira; se toca Iuna, é outra maneira de jogar. E o capoeirista tem que estar atento a tudo isso. Mestre Canjiquinha me dizia sempre, e eu acredito também nisso, a capoeira, no futuro, será uma só; ou melhor, o capoeirista vai ter que saber jogar tudo. Não é que ela será reduzida a uma só, mas o contrário: você vai ter que saber jogar a Regional e a Angola, tem que manter esta divisão, mas não é uma divisão política, de facções antagônicas, mas uma divisão cultural, percebe? Porque a Angola é a raiz, e Mestre Bimba, quando criou a Regional, levou para ela os movimentos da Angola aos quais achou que podia dar mais velocidade e acrescentou outros movimentos, mas 80% foram trazidos da Angola. Aplicou a isso uma didática específica, e pronto. Como ele enfatizava o aspecto de luta da capoeira, criou-se uma lenda. As pessoas que hoje fazem a capoeira com aquele espírito de luta, não estão fazendo a Regional do Mestre Bimba. A maioria toca São Bento Grande de Angola e diz que está jogando Regional. O toque de São Bento Grande de Angola chama para um jogo rápido, solto, mas é Angola. Mestre Canjiquinha, quando queria que nós jogássemos um jogo mais pesado, tocava Banguela; se queria jogo de dentro, tocava Jogo-de-Dentro; mas você pode jogar dentro tanto na Regional como na Angola, depende do toque, da situação, do momento e do jogador com quem você está jogando. Se você joga com um cara maldoso, você não vai jogar aberto com ele, não vai jogar descuidado, não vai fazer floreio na frente dele, a menos que você seja um cara inocente e entra na roda para “se espalhar”, como dizem, aí, vai sair com a cara quebrada, porque na primeira brecha, o cara maldoso vai entrar com tudo, pois as pessoas estão aí para fazer nome na roda, não há necessidade disso, mas as pessoas, por estupidez ou ignorância, fazem é isso mesmo, querem tirar proveito das outras, mas não deveria ser assim.
 
Hoje, fala-se aí em “capoeira contemporânea”; isso, na realidade, não é capoeira: é uma pequena parte dela, as pessoas estão pulando, e se fizessem isso de forma engrenada, ainda que bem, mas, assim, individualmente, cada um pula sozinho, é um circo mal organizado; um circo de acrobatas mal dirigidos. No entanto, ela pode ser executada de forma organizada, com coordenação e movimentos engrenados, fazendo toda essa movimentação que aí está hoje, pois a capoeira evoluiu; há quarenta anos, eu via capoeirista dar salto mortal na roda de capoeira, bonito, mas engrenado, um dentro do movimento do outro. Vi também João Grande e João Pequeno jogando no chão, e não era essa Angola que hoje o pessoal diz: ”isso aqui é Angola”; não, eles faziam tudo: bananeira, João Grande fazia a ponte, queda de rins, até a chamada volta-por-cima… e hoje, não: o pessoal fica com meia-lua de compasso pra lá e pra cá, passa a perna por cima do outro, só na meia-lua de compasso, e dizendo que estão jogando Angola.
Então, é isso: é preciso administrar toda esta parafernália de movimentos que os jovens acham que são contemporâneos, e inseri-los na capoeira realmente. Aí é que eu falo do estudo que o cara teria de ter: conhecimento do que havia antes; numa pesquisa médica, por exemplo, o pesquisador tem que conhecer os remédios que já foram criados antes, e hoje ele complementou; se ele não tiver esse conhecimento do que já foi feito antes, ele não poderá criar nada, e dizer que está fazendo uma capoeira contemporânea.
 
Capoeiradobrasil: – Mestre Brasília, neste final de entrevista, vou deixa-lo à vontade para falar do que achar melhor.
 
Mestre Brasília: – Pois bem: eu gostaria então de convidar as pessoas, os dissidentes, a conhecerem melhor a Federação e a Confederação, e que tragam a sua opinião. Venham somar conosco, venham aprender e, logicamente, trazer a sua contribuição, colocando nas reuniões as suas posições; acredito que, hoje, com o Conselho Superior de Mestres, nós poderemos aproveitar muita coisa, as pessoas estão mais abertas, eu converso com muitos capoeiristas, o carrancismo do passado está em baixa, o autoritarismo já não é tão presente como antigamente. As pessoas estão se conscientizando de que ele não leva a um trabalho construtivo. As grandes empresas de hoje ouvem cada vez mais, desde o seu faxineiro até seu mais alto funcionário. Por quê? Porque elas querem crescer. 
 
Mestre Gladson tem uma bela frase sobre isso: “não há ninguém tão incapaz que não tenha nada a ensinar, como não há ninguém tão sábio que não tenha nada a aprender”. Eu aprendo diariamente, junto com vocês, eu sinceramente me considero um aprendiz da arte da capoeira.