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Doce de encanto de um velho felino

Bimba é Bamba

Estilo àgil do capoeirista atraía multidão ao ringue armado na Praça da Sé, palco de lutas e apostas que levavam soldados, estivadores e estudantes ao Parque Odeon.

Soldados, estivadores, estudantes e operários se paertavam nos bancos emtorno do ringue armado na Praça da Sé. Um cheiro forte de suor inundava a noite de inauguração do Parque de Odeon, um verdadeiro parque de lutas e apostas, naquele 6 de Fevereiro de 1936. Cercada pelas sombras das Igrejas centenárias, chegava a hora da luta mais esperada da noite, a que valia pelo título de campoeão baiano de capoeira. Enquanto os lutadores – Manoel dos Reis Machado, o Bimba, e Henrique Bahia – subiam no tablado, a multidão gritava em êxtase: “Bimba ´é bamba”. Numa das filas, um grupo de americanos se impressionava com o jogo cadênciado, cheio de passes de agilidade e contorções felinas de Bimba, que projectou seu adversário no chão com uma benção no peito, antes mesmo do final do primeiro round.

No dia seguinte, os jornais da capital baiana noticiavam com destaque a vitória. Esses mesmo jornais, um mês antes, haviam publicado, a pedido de Bimba, um desafio dele a todos os capoeiristas baianos no ringue. E as lutas no Parque Odeon continuaram. Em Março, Bimba venceu José Custódio dos Santos, o Zeí, em uma noite que teve público recorde. O jornal O Imparcial publicou: “Bimba é o favorito em vista de sua técnica inigualácel”. No mesmo mês, enfrentou o angoleiro Vitor Lopes, o Vitor H.U., que para surpresa do público, abandonou o ringue depois de receber de Bimba, logo no começo do combate, um galopante – nome técnico para um violento murro na cara – que o fez cair e sangrar. “Assim não vale!” gritou, apavorado. Bimba respondeu: “Isto aqui é luta, não é roda”, e foi apoiado pelo juiz. Sobre as disputas no ringue, anos depois Bimba diria, com orgulho: “O que mais durou ficou um minuto e meio.”

O Parque Odeon, apesar do sucesso, durou pouco tempo e foi desactivado em Julho do mesmo ano. Já a fama de Bimba, essa apenas começava a se alastrar e já trazia consequências, como contou um dos seus mais antigos discípulo, o Mestre Atenilo, morto em 86. “Perguntavam: é discipulo de Bimba? Bimba não ensina capoeira, ensina barulho”. O grupo de alunos, aos poucos, foi sendo banido da maioria das rodas da cidade. “A gente ficava na Roça do Lobo (onde Bimba dava aula), jogando uns com os outros, não tinha mais onde jogar.” No livro O relâmpago da capoeira regional, do Metsre Itapoan, Atenilo conta que, ao contrário do que muita gente pensava, Bimba e Pastinha (o grande Mestre de capoeira angola) tinham um bom relacionamento. “Pastinha tomou muita amizade com Bimba, que ele também tinha o segredo da capoeira”.

Um segredo que Bimba relutou em passar adiante, mas começou a compartilhar quando um jovem cearense branco, chamado Sisnando, foi procurá-lo em seu depósito de carvão no Curuzu, querendo aprender capoeira. O Mestre foi logo dizendo que aquilo não era coisa para branco, mas como o jovem insistiu, Bimba lançou o desafio: “Se você resistir por três minutos a uma gravata no pescoço dada por mim, eu te ensino”. Sisnando, que lutava jiu-jítsu, aceitou e, para surpresa de Bimba, resistiu bravamente. Era o começo de uma parceria que teve papel importante na criação da capoeira regional.

Mistérios da luta

Se antes os negros tinham que passar pelo suplício do tronco levados por mãos brancas, agora um negro desafiava com a sua força o branco que quisesse aprender os mistérios da capoeira. Teriam que provar que eram “raçudos”, suportando uma gravata no pescoço. Uma vez aprovados, seguiam os padrões de uma organização negra, a comando de um mestre negro. Integrantes de famílias influentes – Sisnando, por exemplo, era amigo do interventor Juracy Magalhães – “eles contribuíram para que Bimba oficializasse a primeira academia, difundisse seu método de ensino, penetrasse nos salões, ensinasse nas escolas e nos quartéis, profissionalizasse o seu ofício, viabilizasse economicamente os serviços da capoeira, se aproximasse do poder político”, explica Frede Abreu.

Mestre BimbaMas este “branqueamneto” e elitização da capoeira fez muita gente torcer o nariz para Bimba. Um exemplo da discriminação em relação ao criador da regional foi o 2º Congresso Afrobrasileiro, que foi considerado, nos anos 30, um dos mais importantes acontecimentos relacionados com os estudos do negro brasileiro. Durante o congresso, foi prevista a fundação da União dos Capoeirístas da Bahia, que não se concretizou, e houve apresentações do que se chamou do “melhor grupo de capoeira da Bahia, chefiado por Samuel Querido de Deus”. Na época foram divulgadas pelo pesquisador Edison Carneiro e pelo jornal Estado da Bahia listas com os nomes dos principais capoeiristas baianos, mas o nome de Bimba (e de qualquer outro praticante da regional) não aparecia em nenhuma delas.

O Mestre Waldemar da Paixão, senhor do conhecido reduto de angoleiros localizado no Corta-Braço, o Barracão de Waldemar, reconhecia o valor de Bimba, mas o questionava por ter abandonado a angola. “Ele abandonou a cor dele. Mas sabe o que é? O preto, para dar uma miçanga ao mestre, é um deus-nos-acuda. Não tinha dinheiro para pagar. O branco dava boa vida a Bimba”, afirma, em um depoimento no livro O Barracão do , de Mestre Waldemar, de Frede Abreu.

O exame de admissão à força foi dando lugar, nos tempo da academia, a um outro tipo de selecção: para aprender capoeira era preciso estar estudando ou trabalhando. Foi o que aconteceu com Jair Moura, que até hoje se recorda da primeira vez que viu Bimba jogando capoeira, em uma apresentação promovida pelo grémio do colégio onde estudava, o Carneiro Ribeiri, em 1947. “Aquilo me marcou muito, fiquei impressionado com os golpes magistrais, e como a minha turma tinha rivalidade com outros meninos do bairro, a capoeira me interessava por motivos práticos”, conta. Bimba, como era de praxe, exigiu uma autorização dos pais por escrito, mas o garoto Jair sabia ser impossível a façanha de conseguir tal permissão, afinal a capoeira ainda era vista com desconfiança pela sociedade. Só alguns anos depois, em 53, é que conseguiu entrar no grupo de Bimba, e onde só saiu em 1960, quando se mudou para o Rio de Janeiro.

Assim como Jair, mais e mais pessoas apareciam para aprender a capoeiragem com Bimba, em grande medida porque ele foi o primeiro a criar um método de ensino pedagógico para a capoeira. O começo de tudo, ainda na primeira aula, era um momento inesquecível para os futuros capoeiristas: Bimba pegava na mão do iniciante para ensiná-lo a gingar. Era quando o aluno sentia em si mesmo a energia do Mestre. Essa mesma forma de passar a experiência vem sendo seguida até hoje por um de seus filhos, Mestre Nenel, em sua academia no Pelourinho, que tem as paredes cheias de fotografias de discípulos de Bimba. “Aqui vêm pessoas do mundo inteiro, chegam entrevadas e em poucos dias estão em condições de jogar”.

Mestre BimbaSe há algo em comum entre todos os ex-alunos de Bimba é que não há um deles que não tenha ficado marcado pela personalidade do Mestre. “A academia era como se fosse uma extensão da casa da gente e ele era como se fosse um paizão, o cara que dizia o que era, como era, quais as atitudes a tomar na rua, como viver em sociedade, os perigos que tinha, toda aquela coisa da malandragem”, recorda outro discípulo de Bimba, o Mestre Itapoan. Ele conta que conseguiu o dinheiro para se matricular no judô, mas foi levado por um amigo para assistir à aula do Mestre, na academia do Centro Histórico e, na mesma hora, se matriculou na capoeira. “Ele era aquela figura forte, a academia lotada e ele sozinho, com o berimbau, comandando aquilo tudo, um respeito retado. Como eu tinha perdido o meu pai, aquela figura dele me encantou realmente”.

A simples presença do Mestre impunha respeito: quando ele entrava na sala, todos se calavam e esperavam sua ordem. Outras vezes, quando os alunos estavam brincando, ele só fazia olhar, que a brincadeira cessava. “Era um negócio muito forte”, afirma Itapoan, deixando perceber nas entrelinhas que a figura de Bimba ainda hoje lhe causa um certo arrepio, um nome que soa quase como um mito. Uma imagem que corresponde à que Mestre Acordeon, outro discípulo de Bimba, que hoje dá aulas nos Estados Unidos, projectou em uma de suas músicas em homenagem a Bimba: “Ele era forte na alma, tinha uma faca no olhar, que cortava agente de cima a baixo, quando ensinava a jogar”.

Artigo da Revista "Memórias da Bahia II" – Mestre Bimba – Rei Negro

Capoeira ajuda libaneses a suportar traumas da guerra

Levada por um mestre americano à Beirute, a capoeira brasileira ajudou libaneses a suportar os horrores da guerra.

O antropólogo americano Arbi Sarkissian, de origem armênia, introduziu a capoeira no Líbano no início de 2006. Durante a guerra entre Israel e o Hizbollah, em 2006, que devastou o sul do país e atingiu Beirute com bombardeios aéreos e navais, muitos alunos fugiram do Líbano ou se refugiaram em regiões mais seguras.

Mas mesmo em meio à guerra, quatro libaneses se reuniam para continuar praticando, e acabaram fundando o "Capoeira Sobreviventes", que conta até com uma comunidade no site de relacionamentos Facebook.

"A gente ficava deprimido com a guerra, com toda aquela destruição e mortes. Naqueles momentos, a capoeira ajudou a gente a manter nossa mente e espírito", disse a profissional em marketing Cynthia Daher, uma das "sobreviventes".

Sucesso

O mestre Sarkissian conta que no início o grupo era pequeno, mas que aos poucos o interesse foi aumentando: "Havia um grupo de amigos libaneses, que chamamos de núcleo. Eles tomaram gosto pela capoeira e começamos a fazer apresentações em casamentos e festas".

Atualmente o grupo conta com 20 alunos, inclusive três americanos. Sarkissian dedica cinco dias da semana para ensinar a luta e dança brasileira para alunos de nível iniciante e intermediário.

Ele aprendeu capoeira no ano 2000 quando conheceu mestres brasileiros em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ele conta que desde que começou a se interessar pela capoeira, a paixão pela cultura brasileira principalmente a baiana só aumentou.

"Eu havia feito o curso de Estudos Latino-Americanos na Universidade, estudando espanhol e português. Quando conheci os mestres brasileiros, fui convidado a praticar a capoeira e simplesmente me apaixonei."

Após visitar a Bahia duas vezes em 2005, para se aperfeiçoar no português e na capoeira, Sarkissian decidiu introduzir a arte em um país onde o Brasil é muito apreciado o Líbano.

Relaxamento

Segundo Sarkissian, o relativo sucesso do grupo se deve à visão das pessoas de que a capoeira pode ser uma forma de relaxar, exercitar e, acima de tudo, de se divertir.

Depois da guerra, os alunos retornaram, assim como as aulas de capoeira. "O que me surpreendeu é que ninguém abandonou, todos voltaram e o grupo aumentou", destacou Sarkissian.

De acordo com ele, os libaneses recebem muito bem as apresentações, às vezes feitas em praças e mercados públicos.

Amor pelo Brasil

Outro praticante, o escritor americano Jackson Allers disse que há uma atração natural pela cultura brasileira. "Muitos países têm um amor pelo Brasil, não apenas pelo seu futebol, mas também por sua arte, dança e música", afirmou Allers à BBC.

Sarkissian também ministra oficinas em que os alunos fabricam seus próprios berimbaus e outros instrumentos da capoeira. Além disso, alguns praticantes tentam aprender o português.

"Nós memorizamos as canções usadas na capoeira, mas eu precisava aprender o significado, queria aprender o idioma", disse Daher.

Nas noites de sexta-feira, um pequeno grupo se reúne para aprender português com o professor brasileiro Richard de Araújo, que está no Líbano por meio de um acordo entre os governos libanês e brasileiro para ensinar o idioma em um universidade pública.

"Dou aulas particulares para alguns praticantes de capoeira e outros que querem apenas aprender o idioma", explicou Araújo.

Para Daher, é emocionante começar a entender o significado do que canta nas rodas de capoeira. "Acho o português um idioma muito bonito e poético, estou apaixonada pelo Brasil", salientou.

Fonte: Folha Online

Recife: Daruê Malungo mistura capoeira e maracatu para mudar vida de jovens

Cerca de 120 jovens residentes na comunidade de Campina do Barreto, na Zona Norte do Recife, têm no Carnaval a chance de mostrar o que aprendem durante todo ano na ONG Daruê Malungo: a mistura de capoeira com o maracatu. Eles também são personagens do Vida Real desta quinta (31), que mostra quem faz a folia no Recife.

As duas atividades, maracatu e capoeira, se juntam para ensinar aos jovens importantes lições, como aprender a lidar com a vida. “A capoeira ajuda a ter jogo de cintura, algo fundamental para que vençamos na vida”, contou o coordenador do projeto, mestre Meia-Noite.

Para aprender a dançar capoeira ao som do maracatu, é preciso treinamento e companheirismo: “Aqui um ajuda o outro. Dessa forma, aprendemos mais rápido a unir os ritmos e a fazer amizades”, disse Jaqueline de Luna Almeida, uma das alunas do projeto.

O Daruê Malungo se apresenta nesta sexta-feira (01), na abertura oficial do Carnaval do Recife. Mais uma noite para que a harmonia da capoeira e a energia do maracatu contagiem os foliões, trazendo paz para a folia da cidade.

Fonte: http://pe360graus.com/ – Recife – BR

Capoeira é oferecida de graça aos moradores do Guará

Quem sonha em jogar capoeira, mas está com o orçamento apertado tem a chance de aprender, de graça, essa luta. O grupo N´Golo oferece aulas em cinco pontos do Distrito Federal: Centro Educacional 02 e Escola Classe 01, no Guará, Condomínio Residencial Park, na mesma cidade, Universidade Católica, em Taguatinga e Faculdade Alvorada, na Asa Norte.
 
A equipe do Você Repórter esteve no Guará no último fim de semana e pôde acompanhar uma apresentação do grupo. No primeiro domingo de cada mês os integrantes do N´Golo se apresentam no Arco da Cultura, ao lado da feira da cidade.
 
De acordo com o professor Igor Araújo, o objetivo é fazer uma confraternização entre os alunos e divulgar o trabalho para quem desconhece. "Queremos mostrar que tem pessoas de todas as idades aqui. Quem quiser pode se juntar a nós", conta.
 
Ao longo da apresentação, uma multidão de curiosos foi se formando no local. Entre eles estava o pequeno Gabriel Ferreira, de 7 anos. O garoto passeava pela Feira do Guará quando se sentiu atraído pelo som dos berimbaus.
 
Diversão
 
"Quero fazer essa aula porque é divertido e dá pra aprender muita coisa", comenta. Igor concorda: segundo ele, aprendizado é o que não falta na capoeira. "Além de tudo, os jovens aprendem, aqui, a ter disciplina. Eles percebem que existe a hora certa para jogar e que há uma hierarquia dentro do grupo", diz.
 
Além da disciplina, outro ponto forte do N’Golo é a união entre seus integrantes. Para a estudante Camila Alves, 17 anos, os amigos da capoeira são a segunda família. "A amizade é o que mais me admira no grupo. Sei que posso contar com todo mundo", destaca. Durante muitos anos, ela foi proibida pelo pai de aprender a luta. "Ele tinha preconceito, achava que era coisa de menino", diz. Mas, ao completar 16 anos, achou que era hora de lutar pelos seus direitos. Resultado: há 1 ano e 3 meses, a garota trocou o balé pela capoeira. "Estou adorando as aulas. Se a pessoa leva a sério, dá para ficar em forma".
 
Apoio
 
Para fazer as apresentações mensais, o N´Golo recebe apoio da Administração do Guará, que sede espaço sem cobrar nada por isso. O diretor regional de cultura Adilson Cordeiro opina que, além de trazer cultura para a cidade, esse tipo de apresentação ajuda a chamar clientes para a feira.
 
Ele acrescenta que, para dar mais incentivos a grupos que queiram se apresentar, a administração pretende fazer a reforma de todo o Arco da Cultura. "Já estamos trabalhando no projeto, que deve sair até o ano que vem", afirma.
 
 
Grupo N´Golo – Aulas gratuitas de capoeira em diferentes turnos. 
Inscrições e outras informações com mestre Igor, pelo telefone 8155-3106
 
Fonte: clicabrasilia.com.br – Brasília, DF, BR
Foto: Antônio Siqueira

Guga conhece crianças do BERIMBAU e elogia Projeto

GUGA CONHECE CRIANÇAS DO BERIMBAU E ELOGIA PROJETO 
 
Costa do Sauípe (BA) – O tenista Gustavo Kuerten fez a alegria de 150 crianças que integram o Programa Berimbau, criado para estimular o desenvolvimento do potencial da comunidade da Costa do Sauípe. O tricampeão de Roland Garros conversou, no final da tarde deste sábado, com os meninos, recebeu uma rápida "aula" e se arriscou no berimbau, além de assistir à uma roda de capoeira improvisada em sua homenagem.
 
Apoiado pela Fundação Banco do Brasil, o Programa Berimbau oferece aos moradores a oportunidade de aprender informática, corte e costura, educação ambiental, música e artesanato, entre outras atividades. Após o encontro, Guga tirou fotos com as crianças, distribuiu autógrafos e elogiou o projeto.
"Acho muito importante esse tipo de iniciativa, isso aumenta a auto-estima das crianças e dá a oportunidade para que elas desenvolvam seu potencial. Foi muito interessante conhecer esse projeto e aprender um pouco sobre o que essa molecada está fazendo. Adorei a roda de capoeira e o som berimbau", disse Guga, que ganhou o instrumento de presente. "Fiquei feliz de saber também que eles trouxeram as crianças para assistir aos jogos do torneio, alguns disseram que viram meus jogos e torceram por mim".
Além das atividades que já são desenvolvidas no Programa Berimbau, os idealizadores do projeto pretendem criar em breve pólos para a revitalização da cadeia produtiva de pesca, além de uma usina de reciclagem de lixo.
 
DGW Comunicação – Daniela Giuntini/ Wagner Prado/ Sérgio du Bocage e Flávia Tavares
Foto João Pires
 
http://www.tenisvirtual.com.br/noticias/dgw/2007/BraOpen/34a.html

A Ditadura na (DE)FORMAÇÃO do Capoeira

Discutir ensino / aprendizagem em qualquer área já se constitui numa tarefa difícil e arriscada pela gama de informações que o mundo moderno dispõe e por interlocuções com teorias pedagógicas contraditórias e às vezes até confusas. Agora imaginemos esse diálogo tomando como base uma arte com pouco mais de 400 anos, que a mais ou menos 100 anos atrás estava prevista no código penal da república como crime e hoje desponta no mundo inteiro como fenômeno de formação humana para cidadania…  Complicado! Mas esse será o nosso desafio nesse momento, discutir o processo de formação de capoeiristas a partir de interlocuções com algumas teorias pedagógicas de formação humana.
 
            Para problematizar o tema, tomaremos como referencia o processo de formação dos capoeiristas na atualidade nos grupos e associações de capoeira, pois acreditamos que desta forma poderemos dar conta de compreender alguns mecanismos de ingerência do modo de produção na capoeira e ainda garantir uma analise mais fiel das relações de ensino/aprendizagem nessa área.
 
Títulos, graduações e poder
 
             A partir da observação dos grupos de capoeira podemos perceber que muitos funcionam estruturados numa forte cadeia hierárquica, que atribui direitos e deveres aos praticantes, mediante seu estagio (graduação em capoeira), levando-se em conta sua experiência na arte, seu tempo de pratica e principalmente sua capacidade docente. Os membros desses grupos são preparados desde o começo para se tornarem mestres de capoeira, cantando, tocando, jogando e etc…  Seguindo essa lógica, existe um sistema de graduação que serve para mensurar o nível do capoeira a partir dos requisitos já citados, portanto ser capoeirista hoje significa prioritariamente estar a serviço desse modelo de formação que vive da farsa ou ingênua consciência da tradição de respeito ao mais antigo, que fortalece o poder do mais velho diante do mais novo, como forma de subjugá-lo, sendo assim, cria-se o imaginário de que quanto mais velho for, mais pessoas terá para mandar e mais inquestionável ficará. 
 
              Fica fácil compreender o mundo da capoeira na atualidade se pensarmos num quartel militar em que os mais novos sofrem com as ordens dos mais antigos e de maior patente, sonhando em se tornar mais velhos, pelo simples fato de poder retribuir tudo que passaram negativamente, despejando todo autoritarismo possível na relação com os mais novos que chegam. Paulo Freire já nos advertia em sua obra sobre o fato de que todo oprimido traz dentro de si, sendo gestado o opressor, e que a nossa luta pela liberdade é justamente sair das sombras e marcas de nossos opressores.
 
A formação docente
 
            Os níveis de graduação hoje estão divididos, na maioria dos grupos de capoeira, em fase de aluno, Formado, Professor, Contramestre e Mestre, sendo requisito básico para as trocas de estágios mais altos, a capacidade docente, ou seja, o nível do “trabalho” de capoeira, que para os adeptos dessa arte significa a quantidade de alunos que possuem ligados a ele, e o tempo que estes permanecem “ligados” a capoeira, toques, cantos e jogos…  Portanto se alguém quiser seguir praticando sem ter alunos, logo será “taxado” de mau capoeirista por seu grupo e pela comunidade.  A desculpa que alguns mestres usam e que só se aprende capoeira ensinando, hora, se compreendermos a relação de ensino/aprendizagem como um via de mão dupla, facilmente perceberemos o equívoco dos mestres, pois mesmo sem ministrar aulas, um capoeira aprende na própria relação com os outros, sendo o ato de estar como professor, apenas mais uma forma de aprender.
 
             Um outro ponto relevante nessa discussão e o fato de que a maioria dos Mestres vive financeiramente também da renda gerada por seus alunos que estão dando aulas, ou seja, cada novo professor funcionará como mais um “empregado” da engrenagem de lucro dos grupos, servindo de fonte de lucro para o Mestre, que cobra percentuais de participação na receita de seus alunos/professores para que possam permanecer ligados a este ser “iluminado” de sabedoria, o Mestre.
 
              Lamentavelmente, esta e só uma pequena mostra de ingerência do modo de produção capitalista no mundo da capoeira, pois inúmeras são as outras maneiras de mercadorização da capoeiragem na atualidade, estruturada por grupos e instituições afins que trabalham na lógica de macdonaldização da capoeira, com franquias, marcas, métodos enlatados e principalmente com toda uma sistematização sub-serviente ao lucro. Nessa lógica pouco importa o aprender fazendo, a herança “conflitiva” e “libertadora” da capoeira, a alegria do jogo, o berimbau bem tocado ou as lágrimas de um capoeira ao cantar uma ladainha, contudo a importância desses aspectos poderá ampliar rapidamente, basta engaiolar tudo num DVD, CD ou em alguma outra forma encaixotada para ser vendida nos mercados e bancas de revista da esquina.
 
            Às vezes fico me perguntando: como seria a capoeira sem os livros de Frederico Abreu? Sem os filmes de Jair Moura? Sem a sabedoria de Mestre Decanio? E tantos outros que escolheram continuar na capoeira sem seguir a lógica de ter grupo, formar “trabalhos”…   Com certeza a nossa capoeira perderia muito, pois deixaríamos de aprender com as alternativas pedagógicas deste exército de “professores informais” que fizeram a opção de ensinar ao “grupo da humanidade” que capoeira se aprende capoeirando e que ninguém escapa a educação, pois ela está tanto nas academias de capoeira, como nas rodas de rua, nos livros, nos filmes ou numa simples conversa de fim de tarde com Decanio na praia de Tubarão.
 
           Quero deixa claro que este trabalho não tem intuito de resolver o problema nem de firmar-se como verdade absoluta, mas propor uma reflexão objetiva sobre a formação de capoeiras, afirmando que não temos nenhuma pretensão profética apocalíptica das instituições de capoeira. Queremos e dialogar com alternativas de participação no mundo da capoeiragem que possam contribuir de diferentes formas para o crescimento da mesma com critica, autonomia e criatividade.
 
           Precisamos reavaliar os currículos de formação, os métodos de ensino e principalmente um sistema de graduação atual, que este pautado na hierarquização burocrática da capoeira voltada para o lucro.
 
           Por fim finalizo dizendo que esses pensamentos partiram de um individuo que faz parte de um grupo, segue um sistema de graduação, que vivenciou alguns dos equívocos de formação já citados e que esta inconformado e com pouca tolerância para continuar de maneira passiva e submissa fortalecendo um sistema que esta destruindo a capoeira na sua “matriz”, esterilizando-a e transformando seus representantes em reprodutores dos ditames do capital.
 

Capoeira como ponte para o português

Aula de capoeira não é mais novidade na Europa.
Junto com a prática do esporte, alunos europeus se interessam em estudar a língua portuguesa.
Hoje em dia, já é muito comum encontrar academias de capoeira em diversos lugares da Europa, inclusive em pequenas cidades.
Um dos países onde a capoeira vem se expandindo é a Alemanha. Porém, os alunos vêm se interessando também em aprender a língua-mãe da "dança".
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A IMPORTÂNCIA DAS CADEIRAS NO DESENVOLVIMENTO DO GOLPE DE VISTA E NA SEGURANÇA DO JOGO DE CAPOEIRA

Dedicado a Guanais e Lemos, que me fizeram aprender o mecanismo de perda de consciência, desmaio, pela hipertensão intracraniana por compressão das veias jugulares no colar-de-força.
 
Mestre Pastinha escreveu:
 

2.2.31 – …"eu não enventei"…

… "eu não enventei;”…

…”eu vi e achei bom”…

… “e aprendi no circo de cadeiras,”…

… “para aprender o jogo de dentro…"
(77a,11-b13)

… Nós todos vimos…

… achamos bom…

… aprendemos com os mais velhos!


A RELAÇÃO COMPLEMENTAR ENTRE ANGOLA E REGIONAL

O "branco" entra na "regional" de Mestre Bimba para aprender a brigar usando os dotes físicos adquiridos pela prática da capoeira e se deixa encantar pelo jogo de capoeira alcançando insensivelmente a capoeira lúdica de Mestre Pastinha através o jogo "de dentro" e de Iuna.
O "negro" dança o jogo de capoeira de Pastinha desenvolve reflexos, elasticidade mioarticular, força, equilíbrio, e coragem. Adquirindo instintivamente um sistema de defesa, de grande eficiência, baseado nos movimentos e reflexos adquiridos no jogo de capoeira.
A capoeira se desenvolve num processo circular, bi-polar, concordante com o sistema dialético da teoria Yin/Yang, consoante o qual em todo jogo existe a semente da maldade e em toda luta encontramos movimentos portadores do germe lúdico, dentro do conjunto do aperfeiçoamento do Ser.
De modo similar , enquanto Mestre Pastinha enfatizou os aspectos metafísicos, éticos e até religiosos da capoeira, preocupando-se com a perpetuação da sua obra; Mestre Bimba dedicou-se sobretudo aos componentes pragmáticos, legalização da sua prática, o aperfeiçoamento de sua técnica e a sua aplicação à defesa pessoal.
A complementação do embasamento somático pelos fundamentos psíquicos através as duas correntes geradas pelos criadores dos estilos "regional" e "angola", garante a unidade da capoeira como jogo e luta, ao tempo em que a transforma no "jeito brasileiro de aprender a ‘ser-estar’ no mundo" a que se refere César Barbieri, abrindo um leque de aplicações pedagógicas e terapêuticas cujos limites são imensuráveis.