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Évora, um novo capítulo na Capoeira. O verdadeiro encontro de Bambas!

Évora, um novo capítulo na Capoeira. O verdadeiro encontro de Bambas!

Um novo tempo… ou o resgate dos velhos tempos??!!

Pensei, pensei e repensei…!
O que está errado com a nossa Capoeira…!!??
Évora, me trouxe uma felicidade e, ao mesmo tempo, uma angústia…!
Me fez perceber que estamos fazendo uma coisa errada, desencaminhando nossa capoeira para rumos irremediavelmente equivocados e provavelmente sem volta!
Mas demorei muito procurando a maneira certa de falar sobre isso…!
Não quero briga com nossos milhões de felizes jogadores de perna, hoje chamados de capoeiristas, espalhados pelos quatro cantos do Brasil, como também mundo afora!
Não quero criticar ninguém!

Quero apenas ser útil a essa Arte Secular que abracei e que me abrigou em seu seio de verdades, de mandingas e de tanta energia!!!

Estava ali, vendo aquela roda cheia de estrangeiros, em plena praça de Évora, onde uma centena de pessoas disputavam, tanto a oportunidade de se expressar naquela roda, como simplesmente assistir aos jogos que iam acontecendo, contagiando a todos com sua beleza e, principalmente, com a emoção que despertavam…!
Emoções fortes rolaram…
Quedas incríveis…!

Entradas perfeitas e saídas competentes… no tempo milimetricamente certos…!!!
Havia algo que eu não via há longo tempo!!
Havia um equilíbrio, uma verdade de roda e uma aceitação diferenciada pelo prejuízo que alguém levava durante os jogos!

Onde andaria esse espírito de jogo… que ninguém interrompe quando o jogo flui…!!??
Onde estariam esses nossos bambas de capoeira, que aceitam quando tomam um prejuízo e não se tornam – horrivelmente – agressivos…!!??
Onde estariam nossas rodas de capoeira em que todos vibram com os jogos, mas não tentam desprezar quem levou desvantagem!!??

Eram muitas perguntas que me vinham…!!!

Mas faltava uma questão básica:
o que havia de estranho em nossas rodas de capoeira desde o início da Capoeira Regional de Mestre Bimba, e essa realidade que estamos vendo proliferar nas nossas rodas…!!??Algumas luas depois de minhas inquietações, eu finalmente entendi o que estava errado:- Estamos traindo a causa primeira que Mestre Bimba viu na capoeira, a da objetividade… do jogo efetivo… o jogo de resultado… o fim da capoeira estéril, falsa, sem força e sem expressão… vendida em qualquer boteco… sem disciplina e sem profissionalismo!

Nós estamos inventando uma capoeira sem graça!

Estamos misturando nossa necessidade de nos expressar, de nos mostrar nas rodas, de uma forma tão sem sentido, que a maioria dos jogos não dura nem o tempo mínimo para acontecer alguma coisa: alguém já corre e compra…!! É como se a gente quisesse dizer: eu não jogo, mas não deixo ninguém jogar!!!!

Convenhamos…! Precisamos rever isso. Antes que seja tarde!!

Évora, um novo capítulo na Capoeira. O verdadeiro encontro de Bambas!

Temos excelentes atletas na capoeira…!
Temos excelentes capoeiristas, mas esses que tem essa competência não têm oportunidade de fazer um jogo bonito… alguém compra em poucos segundos seu jogo!!

O que Évora me mostrou foi mais de uma centena de pessoas educadas, capazes de abrir mão de seu próprio ego, para assistir um bom jogo, reunidas num mesmo evento…!!

Vi mestres criativos e organizados, que não interrompiam um jogo bonito, que sabiam a diferença entre um jogo comum e um especial, cheio de magia, de efetividade e, para mim o melhor, o gol no jogo…! o resultado… ou pelo menos momentos de grande vibração…!!

O que vi também foi uma razão para estarmos perdendo tantos bons capoeiras para outras artes-marciais: não estamos permitindo que ninguém desenvolva um bom jogo de capoeira! Esses jogos são fundamentais para desenvolvermos nossa capacidade de obter resultados no nosso aprendizado!!

Também acontece que, ao apagarmos o brilho dos jogos de nossa capoeira, nos tornamos sem graça para a platéia…!

Quem não estiver me entendendo, prestem atenção nas rodas que acontecem pelos quatro cantos: nenhum jogo dura mais de 5 segundos… quando muito!!! Aí eu me pergunto: como vamos desenvolver nossa Arte se ninguém tem tempo suficiente para se manifestar…!!!??? Sem poder fazer acontecer um jogo de decisão,  um jogo bonito??

Infelizmente estamos a cada dia perdendo o brilho de nossa Arte. E enquanto não revertermos essa situação a capoeira estará caminhando somente para o seu extermínio enquanto Arte e esvaziada de seus maiores conhecimentos: a Arte da Sobrevivência no meio de uma situação difícil…!

Depois de alguns meses em que estive naquela atmosfera de bambas do povo, sem estrelas, apenas capoeiristas de brilho, como deve ser, eu ainda sinto os ecos daqueles momentos e percebo que esse evento (2017) não foi um acidente. Isso se acumulou nos anos que Évora vem se tradicionalizando entre os que ali se refugiam, que se encontram e confraternizam em emoções e alegrias pulsantes, mesmo para os nossos capoeiristas europeus, tão serenos e racionais, eles também apreciam – quem não o faz!! – uma roda bonita, um jogo bonito, uma volta do mundo mandingada… uma boa Capoeira, sem sobrenomes… sem ninguém dominando os momentos da roda, a cantoria, os jogos, um verdadeiro celeiro de bambas, anônimos, só preocupados com uma única e exclusiva coisa: que a Capoeira possa descer ali, na milagrosa transcedência dos desiguais, dos diferentes, dos distintos, dos graduados e não graduados, transmutação de uma energia que se torna a verdadeira chama que todos buscamos para nossa arte, em paz, mas em seu pulsar mais sagrado, mais relutante contra essa hegemonia estéril que está tentando anular nossos fundamentos, transformando-os em regras estereotipadas, medidas pela espessura dos bíceps ou dos abdômens perfeitos…!

A roda é o lugar do mais fraco encontrar sua afirmação e sua emancipação enquanto ser igual, enquanto o portador da divina chama de Filho de Deus, que tantos pregam, mas tão poucos sabem o verdadeiro significado, na prática!

Por isso tudo é que só posso afirmar, depois de contabilizar todos os prós e contras, verificar a efervescência de tantos eventos, clamando por ser o melhor dos melhores, que o Nosso Encontro de Évora é uma dessas tradições que tem muito pra ensinar a todos quantos tem a humildade de aprender.

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Por isso que só nos resta panfletar essa rica experiência de todos quantos ali já percorreram:

Viva nossa Capoeira de verdade!!

Viva os capoeiristas que não estão permitindo que suas rodas se tornem estéreis e sem nenhum realismo!!
Viva Évora e sua capoeira de bambas de verdade!!!

Nagé, o Homem que Lutou Capoeira até Morrer

Nagé, o Homem que Lutou Capoeira até Morrer

Livro inédito de Frede Abreu tem lançamento dia 14 de dezembro no Forte da Capoeira “Nagé, o Homem que Lutou Capoeira até Morrer” é um dos últimos livros do pesquisador baiano que morreu em 2013 como um dos maiores estudiosos de capoeira do mundo .

Mesmo tendo sido um dos negros mais valentes da história da Bahia, Nagé teve sua história pouco contada e quase não figurou nas pesquisas, homenagens e registros históricos dos grandes capoeiristas baianos. Essa lacuna pode começar a ser preenchida a partir do próximo 14 de dezembro, às 18h, quando será lançado, no Forte da Capoeira, o livro “Nagé, o homem que lutou capoeira até morrer”, um dos últimos livros escritos pelo pesquisador Frede Abreu, que morreu em 2013 e é considerado um dos grandes estudiosos da capoeira no mundo.

Muitos valentões que ajudaram a construir e moldar o legado da arte-luta dos negros no Brasil foram esquecidos, apagados da memória da capoeira por questões políticas e sociais. Nagé foi um deles, apesar de eternizado pelas lentes do cineasta Alexandre Robatto e ressaltado também por intelectuais como o escritor Jorge Amado (“Nagé foi um assombro de valentia”), e pelo crítico de arte Wilson da Rocha (“Nagé foi um herói popular”), permanece invisível.

Nagé, o Homem que Lutou Capoeira até Morrer Capoeira Eventos - Agenda Portal Capoeira 1

“Nagé, de propósito ou sem querer, entrou no rol dos malditos da capoeira. Logo desta arte que, pelo menos no passado, foi celeiro de arruaceiros”, escreveu Frede Abreu, acrescentando: “Não se pode apagar da memória da capoeira a presença dessa brava gente desordeira.

Uma história de resistência dos oprimidos.” O autor ainda nos alerta: “Pelo que sei, não há nenhuma pesquisa ou “missão cultural” em andamento, nem ações governamentais na área da cultura, em perspectiva, para identificar esses personagens importantíssimos para a capoeira”. Com a publicação desse novo livro, Frede Abreu – que dedicou grande parte da sua vida aos estudos e à difusão das manifestações populares e divulgou antigos mestres e lutas similares à capoeira como a punga, o batuque, o tambor de crioula, a bassula e o mouringue – nos convida mais uma vez a conhecer e respeitar a memória de antepassados que muito contribuíram para eternizar o legado da capoeira.

O livro é ilustrado com fotografias inéditas, pesquisas e pertinentes discussões sobre a capoeira de rua e os mestres de outrora.

Na solenidade de lançamento, será realizada mesa de debate com pesquisadores e mestres de capoeira, onde destaca-se a presença da Mestra Janja Araújo e dos historiadores Antônio Liberac e Pedro Abib. Haverá roda de capoeira com expoentes da capoeira de rua, comandada pelo o Mestre Lua Rasta, discípulo de Canjiquinha, e uma roda de samba rural com o grupo Angoleiros do Sertão, do Mestre Claudio Costa.

O livro foi selecionado pelo edital setorial de culturas identitárias da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult – BA) , cuidadosamente editado pela Barabô Editora, sob a supervisão de Elza Abreu, filha e curadora do acervo deixado pelo pesquisador Frede Abreu.

SERVIÇO:

  • Lançamento do livro “Nagé, o homem que lutou capoeira até morrer” do historiador Frede Abreu.
  • Local: Forte da Capoeira – Santo Antônio além do Carmo
  • Data: 14 de dezembro de 2017
  • Horário: 18h

Programação:

18h – Lançamento com exposição fotográfica e debate com pesquisadores e mestres de capoeira;

19h – Roda de capoeira com o Mestre Lua Rasta;

20h – Roda de samba com os Angoleiros do Sertão e o Mestre Cláudio Costa.

Acesso: Entrada Franca

Livro: R$ 70 (valor promocional de lançamento)

 

Contatos:

Tatiane Freitas – VIVA Comunicação Interativa – 71 99211 5722

Elza Abreu – Coordenadora do Projeto – 71 992899632 ​

Sobre Frede Abreu.

Grande estudioso da capoeira, Frede escreveu sobre mestres como Bimba, Pastinha, João Pequeno, Canjiquinha, Waldemar, Caiçara e Cobrinha Verde. Ele fundou o Instituto Jair Moura, com acerco de mais de 40 mil títulos sobre capoeira e cultura afrobrasileira.

Frede foi historiador e pesquisador não acadêmico sobre a capoeira e seus textos se destacaram pela lucidez analítica. Dedicou a vida aos estudos e difusão da capoeira e manifestações populares, divulgou mestres desconhecidos e lutas similares à capoeira como a Punga, o Batuque, o tambor de crioula, a Bassula e o Mouringue. Como coordenador do evento Ginga Mundo promoveu diversos intercâmbios dessas culturas. Foi autor e co-autor de mais de dez títulos do tema como: “Barracão do Mestre Waldemar”, “Manuscritos do Mestre Pastinha”, “Improviso Poético e Como eu Penso?, “Capoeira Séc. XIX”, “Macaco Beleza”, “Bimba é Bamba”, “Capoeira no Ringue”, “Batuque, a luta braba”, entre outros.

Pela sua importância na pesquisa da capoeira, ele é citado na maioria das bibliografias, teses e dissertações sobre o tema. Frede deixou o maior acervo de capoeira que se tem conhecimento, com mais de 45 mil títulos sobre a temática, que ganhou dois prêmios Cultura – Viva da Capoeira. Ele também formou e coordenou três Pontos de Cultura com a temática capoeira, foi membro fundador da Academia do Mestre João Pequeno de Pastinha, Fundação Mestre Bimb, e conselheiro do Ministério da Cultura para a capoeira ser reconhecida como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

Porto: Encontro “Irmãos de Roda”

Todos DIFERENTES… JUNTOS pelo mesmo… CAPOEIRA

Porto: Encontro “Irmãos de Roda”

“A cada edição o Evento, que tem sido uma referência na Capoeira de Portugal, ganha mais corpo e mais visibilidade… os “Irmãos de Roda” extrapolam o contexto e a essência do que significa capoeiragem… fazendo valer a sua visão da unidade através das diferenças… e que tudo gira em torno da mesma capoeira…

O evento tem início nesta sexta-feira e continua até o próximo domingo, na cidade do Porto em Portugal.

 

 

 

Convidados:

Mestres – Barão, Bozó, Magôo, Ediandro, Caramúru, PernaLonga, Jean Pangolin, Nagô, entre outros…

ContraMestres – Careca, Milani, Fantasma,Sapo, Oria Zambi, Grilo, Kula, entre outros…

Professores – Thiago, Diego, Péle, Lesma, Wiris, Curinga, Filósofo, Carrapeta, Piu,
Stress, entre outros…

 

PARA MAIS INFORMAÇÕES:

julspedro@gmail.com

Tlm: 966883484

https://www.facebook.com/groups/235562903267370/

Contemplações: A Violência e a Capoeira 1ª Parte

Contemplações: A Violência e a Capoeira 1ª Parte

Vendo as rodas onde eu fui e vou, ouvindo os discursos de vários mestres, grupos e estilos que encontro, uma coisa me parece mais e mais clara: a relação entre violência e capoeira é bem ambígua.

Há golpes e quedas numa roda que são violentos, ao mesmo tempo que em outras rodas não são; há discursos que falam da não-violência, e lutam pela paz; existem tapas educados e comportamentos brutos. Se fala que um estilo de capoeira é mais violento que o outro; que hoje em dia a capoeira já não é mais tão violenta que já era (nos anos ‘80s e ‘90s), ou até mais violenta mas menos perigosa (o saudoso mestre João Pequeno), e que não deveria bater no aluno, porque aluno cresce (então pode bater no professor?).

Há mestres que dizem que capoeira é luta até a morte, e há outros que querem eliminar dela qualquer signo de violência. Há buscas de influências das outras artes marciais, e capoeiristas que querem se meter nas lutas de ringue. E há movimentos ‘pelo paz’, literalmente – como o ‘Ginga pela paz’ – e outros influenciados pelas teorias e práticas não violentas como a de Rosenberg.[1]

Capoeira é dito um jogo, e a gente diz que quando se torna briga, para de ser capoeira. Mas capoeira também é um arte marcial – talvez a arte marcial com a relação mais problemática à violência – então é luta também. E luta não tem violência não? Então, como é que é?

Contemplações: A Violência e a Capoeira - Capoeira Portal CapoeiraPara tentar entender, voltamos primeira para a história da nossa arte: A relação entre a capoeira e a violência na história sempre parece ser de ambiguidade. capoeira nasceu de uma situação violenta, que era a opressão e exploração do cativeiro. A gente conhece as histórias; capoeira é luta, ela precisava se adaptar ao contexto, até que no início de desenvolvimento dela, usava golpes simples mas violentos, como a cabeçada, o coice e a banda, fora das várias armas às vezes usadas também. Era uma coisa violenta mesma, que precisava ser, para sobreviver.

Isto não parou depois da abolição – a capoeira se encontrou sempre nos períodos e situações violentas: as maltas de Rio de Janeiro, as bandas no Recife, a guerra do Paraguai, a proibição da prática durante o Império, os valentões, e a própria marginalidade em que ela se desenvolveu e dentro ela sempre se movimentava, mesmo depois a divulgação dela fora das classes populares e a expansão pelo mundo.

Como um arte marcial, como luta pela liberdade, capoeira sempre teve uma ligação forte com a violência, será a violência do opressor, de estado ou da rua. E é por isso que os golpes dela primeiramente eram eficaz antes de ser bonito, e um capoeirista não era qualquer um: deveria poder lidar com a violência que ela(e)encontrava no percurso. Foi uma razão principal do porque o mestre Bimba decidiu desenvolver a luta regional Baiana; porque achava que a capoeira da sua época não podia mais enfrentar esta violência real, nem a competição das outras artes marciais estrangeiras que fizeram fama no Brasil na época.

Só que isto não é a história toda. Porque antes de fugir a senzala, de lutar com o opressor, o escravo também precisava viver e suportar a sua situação. Quer dizer que além de ser luta, a capoeira também é visto com uma forma de resistência cultural, uma expressão Afro-Brasileira que reforça a identidade e o espírito do Africano capturado, trazido para Brasil nas condições horríveis e destinado para fazer trabalhar forçado até o morte. Uma expressão cultural como a do candomblé e o samba. Expressões que ajudavam ele(a) a suportar essa condição e de não entregar a alma.

Uma resistência de alma, ou de espírito, não se faz com a violência; ela é uma resistência contra a violência física, muitas vezes por falta das outras medidas. É uma resistência do oprimido, do submetido. Então a estratégia deve ser diferente. É por isto que nesta interpretação – ou perspectiva – da capoeira, a violência é muitas vezes visto como algo alheia, algo de uma sociedade opressora que deveria se batalhar de outras formas. Algo que não deveria se copiar, para não incorporar o estado espiritual de opressor. Vem de lá a interpretação da capoeira como jogo, onde o lúdico virou um elemento muito mais importante. Porque a gargalhada desarma qualquer poder opressivo.

Os desenvolvimentos mais recentes de capoeira mostra uma flutuação entre essas duas interpretações: Quando a capoeira era mais violenta e marcial nos anos ’80 e ’90, nas últimas décadas vimos mais foco na perspectiva do jogo e o lúdico. Hoje em dia acho que podemos ver essas duas linhas de pensamento e interpretação nos vários estilos e tradições de capoeira. Sempre entrelaçadas; não há uma capoeira que é só lúdico, sem nenhum aspecto marcial, nem uma capoeira que é só de bater. Porque nos dois extremos costumamos dizer que ‘não é mais capoeira’.

Tudo bem. Mais então é isto? O estilo e a interpretação da capoeira determinam a relação com a violência dentro a capoeira? E um estilo é então quase nunca violento, e o outro quase sempre? Talvez é um pouco mais complicado que isto. Voltamos na próxima.

 


[1] Rosenberg, M.B. (2015) Non-Violent Communication: A language of life. Third Edition, Encinitas, PuddleDancer Press.

Uma História para partilhar… E se fosse você?

Uma História para partilhar… E se fosse você?

Essa é a história de Louise. Mas também é a sua, a minha, a de todos nós.

Quem nunca se machucou numa roda de Capoeira?

Qual capoeirista nunca foi a um hospital após um acidente no treino ou na roda?

Quem nunca chorou por estar impossibilitado de jogar devido a uma lesão?

↘️Quantas vezes já escutamos que uma pessoa machucada por um chute ou uma queda era culpada porque “deveria ter esquivado” ou então porque não havia “treinado o suficiente”?

↘️Quantas vezes já vimos pessoas saírem lesionadas das rodas e terem que se virar, indo sozinhas a um pronto-socorro, impossibilitadas de trabalhar no dia seguinte e precisando gastar dinheiro com remédios?

 É hora de pensar no que queremos para a Capoeira.

Assista o vídeo, emocione-se, reflita.

Comente e compartilhe.

 

Texto originalmente partilhado no Facebook do nosso amigo e colaborador Mestre Ferradura – Omri Ferradura Breda


Nota do Editor:

Pois é meu amigo Omri Ferradura Breda… Acho que o vídeo é fundamental para que possamos perceber que esta conexão tem uma nuclear necessidade de se fazer valer… Todos nós já passamos por isso… De forma mais leve ou até mais difícil… Este tipo de postura é reflexo da nossa vida…

Ajudar, preocupar, querer bem… É algo que infelizmente não é comum dentro do nosso contexto…

E só quem já passou por isso, só quem sentiu na pele, nos dentes, no nariz, nas costelas… Só quem passou horas no hospital é que entende… O tapinha nas costas… O tá tudo bem… O levanta não foi nada… Tá atrapalhando a roda…

Deveríamos refletir sobre isso com urgência e carinho… Capoeira ajuda Capoeira…

Luciano Milani

Núcleo SP de Capoeira Semente do Jogo de Angola comemora 15 anos

Núcleo SP de Capoeira Semente do Jogo de Angola comemora 15 anos

O evento dos 15 anos será nos dias 10, 11 e 12 de novembro. Veja a programação e saiba como se inscrever!

O Núcleo SP do Grupo Semente do Jogo de Angola irá comemorar seus 15 anos de Capoeira com diversas atividades no próximo final de semana (10, 11 e 12 de novembro). Toda a programação acontecerá no local do Semente, próximo ao viaduto da Washington Luís, na Avenida Vereador João de Lucca, 41, Zona Sul de São Paulo.

Na sexta-feira, as atividades serão gratuitas, com a recepção a partir das 19h. Depois, a noite se adentra com Roda de Capoeira, Samba de Roda e Sarau da Madrugada Especial dos 15 anos de Semente/SP.

No sábado e domingo, as atividades tem o valor de 120 reais ou 160 com almoço incluído. Serão aulas, bate-papo, rodas e confraternização. As inscrições devem ser feitas nesse link.

  • Veja a programação detalhada:

 

Núcleo SP de Capoeira Semente do Jogo de Angola comemora 15 anos Capoeira Portal Capoeira

Anotaí!

O quê?

Aniversário de 15 anos do Semente do Jogo de Angola SP

Inscrições pelo link: Inscrição
Quando? 10, 11 e 12 de novembro
Onde? Núcleo SP do Semente do Jogo de Angola: Avenida Vereador João de Lucca, 42.
Avenida Vereador João de Lucca, 42.

Capoeira Angola e Regional

CAPOEIRA ANGOLA E REGIONAL

Fugindo da aparência e ressaltando a essência.

 

O diálogo que propomos aqui faz referência ao universo das aparências no mundo da capoeira, ou seja, queremos tratar sobre os equívocos em relação à tradição herdada da obra de Bimba e Pastinha, que vez ou outra, são citadas como forma de justificarem ou validarem práticas que em muito se distanciam da realidade dos estilos desenvolvidos no processo histórico da capoeiragem.

Iniciaremos abordando um pouco sobre o conceito de “Tradição em Capoeira”, pois este tem sido mal compreendido e utilizado de forma errônea para validar posturas que em nada se relacionam com os ensinamentos básicos da arte. Neste sentido, precisamos entender que a tradição não pode ser encarada como algo imutável e/ou verdade única, pois sempre estará se desenvolvendo como fruto de cada tempo histórico e suas necessidades. Assim, em se tratando da capoeira, a grande maioria das coisas que chamamos de tradição atualmente foi inventada por volta da década de trinta, fato que comprova a mutabilidade do tradicional, contudo, não podemos negligenciar o valor destas transformações, ainda que recentes, para justificar inovações atuais incoerentes com os princípios capoeiristicos, pois aí estaríamos cada vez mais nos distanciando do potencial educativo simbólico de nossa arte.

Grupos intitulados atualmente de Angola ou Regional, tem apresentado um disparate metodológico e de fundamentos, quando investigamos a matriz do estilo que se dizem defensores, pois estes tentam fundamentar suas práticas em uma simbologia superficial e negligenciam princípios fundamentais das escolas tradicionais, ou seja, temos observado situações absurdas que estão paulatinamente confundindo os mais jovens e ainda criando paradigmas e verdades absolutas que em nada se relacionam com os trabalhos de Bimba, Pastinha e outros antigos mestres.

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No caso da Regional, temos observado a redução deste estilo a simples utilização das seqüências, da bateria com um berimbau médio e dois pandeiros surdos, balões, uso da marca alusiva ao signo de Salomão numa camisa e principalmente ao “abuso” em relação aos ensinamentos de Bimba e outros fatores, fato que consideramos lamentável, pois não vemos os mesmos grupos preocupados em desenvolver os laços afetivos entre seus membros da mesma forma fraterna e respeitosa da tradição Regional, sendo seus praticantes apenas “peças” da engrenagem de negócio no mundo atual. Os capoeiristas desta “New Regional” esquecem de investigar a sistematização do estilo e a relevância oral dos mais antigos que fizeram parte da convivência para construção deste processo, desconsiderando que cada símbolo estrutural da Regional só ganhará sentido se considerado num determinado contexto e quando associado a todo o conjunto da obra, ou seja, usar a bateria não basta, usar as seqüências não basta, falar de Bimba todo o tempo não basta, pois a verdadeira forma de revitalizar seu legado seria, em minha humilde opinião, considerar toda a complexidade daquilo que não está descrito no manual da Luta Regional Baiana e sim na subjetividade das relações sociais dos praticantes e nos fundamentos iniciáticos dos ancestrais mantidos por Manoel dos Reis Machado.

Na Angola, o processo não está muito diferente da Regional, pois se vestir amarelo e preto, mesmo sem saber de onde vêm estas cores, jogar de forma acrobática e sem gingar muito, cantar de forma difícil de decifrar a letra e ainda ficar com trejeitos exóticos com “caras e bocas”, talvez só assim você seja considerado um “New Angoleiro” e possa vender o seu “produto” para alguém alienado por sua propaganda falaciosa. Absurdo, mas este tem sido o retrato da Angola no mundo, salvo os grupos sérios existentes e seus grandes mestres, que na maioria das vezes não estão no circuito internacional espetacularizado dos mega grupos.

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Alguns grupos de angola, tem se comportado metodologicamente, como aqueles ditos “contemporâneos”, espetacularizando à prática, mercadorizando as vivências sob a forma de seqüências, que de tempos em tempos são modificadas como uma aeróbica na academia de ginástica, garantindo aos mestres/mercado o dinheiro do circuito internacional. Assim, pouco a pouco, a arte capoeira tem perdido lugar para uma prática “DENOREX”, ou seja, aquilo que parece ser e não aquilo que de fato representa, pois hoje existe uma “indústria” estereotipada de modelos de mestres e praticantes, que tem transformado tudo e todos em algo possível de ser consumido, desvalorizando, o aprender-fazendo, o respeito, a diversidade e a valorização do Ritmo, Respeito e Ritual como princípios geradores da vadiagem.

Queremos ressaltar que nossa intenção não se articula com a depreciação da capoeira Angola e Regional, mais sim pela reafirmação da beleza e contribuição destes estilos para capoeiragem, pois acreditamos que o potencial simbólico da capoeira tem sido negligenciado pelas armadilhas da busca desenfreada por notoriedade e concorrência de mercado de grupos perdidos/encontrados na total obscuridade das perspectivas transformadoras para um mundo mais crítico, criativo e autônomo.

Acreditamos que existem sim possibilidades a luz dos mais antigos e da obra dos que já se foram deste plano de existência, pois trabalhos como da FUMEB, do Mestre João Pequeno, Lua de Bobo e muitos outros, ainda representam um repositório dos fundamentos de nossa arte e neste sentido convocamos toda comunidade para um pensamento crítico e investigativo sobre as “verdades” da capoeira e seus falsos detentores, os quais lamentavelmente têm se multiplicado pelo mundo, considerando principalmente nossa inércia subserviente e desinformação sobre os princípios da capoeiragem na Bahia.

A “volta ao mundo” em capoeira

A “volta ao mundo” em capoeira

 

Dentre as diversas facetas do jogo da capoeira, à volta ao mundo talvez seja uma das mais emblemáticas, pois articula a convergência do imaterial com o plano material, ou, para os mais céticos desportistas, simplesmente representa um momento de reoxigenação muscular para quebra da Adenosina Trifosfato (ATP). Assim, de qualquer forma, este momento do ritual poderá ser determinante nos processos estratégicos constitutivos dos pares na disputa em roda.

É importante considerar que a capoeira possui uma matriz eminentemente afrodescendente, desta forma, diversos elementos simbólicos ritualísticos são oriundos de uma determinada matriz de leitura da realidade, portanto, muitos aspectos similares são perceptíveis nas práticas culturais do negro em território brasileiro.

A volta ao mundo em capoeira é perceptível quando em determinado momento do jogo, os capoeiras que hora disputavam a peleja corporalmente, interrompem o processo e circulam em sentido anti-horário pela parte mais extrema da roda. Neste sentido, “capoeiristicamente falando”, isso ocorre por diversos motivos, tais como:

  • Após um ataque perigoso e/ou forte, para acalmar quem atacou;
  • Após um ataque perigoso e/ou forte, para evitar o revide imediato;
  • Para acalmar o jogo;
  • Para pensar estratégias;
  • Para demonstrar conhecimento ritualístico;
  • Para entrar em conexão com o plano espiritual em busca de proteção.

Mesmo constatando uma infinidade de motivações para a volta ao mundo em capoeira, todas possuem um eixo comum, que é o fato das possibilidades se articularem com uma noção subjetiva de reconstrução da realidade, como se houvesse uma alternativa de se voltar no tempo e refazer os fatos já ocorridos.

A perspectiva descrita acima, obviamente, é uma metáfora subjetiva, pois materialmente, apesar dos estudos sobre a relatividade de Albert Einstein, ainda não temos registros oficiais de indivíduos que conseguiram voltar no tempo fisicamente, contudo, na imaterialidade do pensamento afrodescendente, este exercício é realizado constantemente para reavaliarmos atitudes e procedimentos de vida.

Quando estudamos a pratica do candomblé podemos perceber uma forte identidade entre a volta ao mundo da capoeira e o Xirê, que é uma parte do ritual em que o orixá é reverenciado com danças, toques e cantigas, de forma a se criar uma ambiência imaterial que invoque os mesmos a descerem do Orun, palavra que na mitologia Yoruba simboliza o céu ou o mundo espiritual, paralelo ao Aiye, mundo físico. Assim, a ordem mais comum é a passagem do plano material para o espiritual, sendo necessário para inverter esta lógica, no Xirê,, a dança em sentido anti-horário, criando-se a metáfora de `inversão`, fazendo com que o caminho seja feito do plano espiritual para o material.

A vinda do plano espiritual representa um contato com nossa ancestralidade, sendo este capitalizado por um processo ritualístico, mediado por uma circularidade anti-horária, com cantigas e toques percussivos, como em capoeira. Assim, tanto na volta ao mundo como no Xirê, percebemos a metáfora de inversão de lógicas, perdedor – ganhador, Orun – Aiyè, tempo que retrocede, dentre outras. Desta forma, possivelmente não é fruto do acaso tal semelhança, pois a capoeira foi desenvolvida a partir de uma teia cultural eminentemente africana, tendo em sua edificação ritualística diversos entrelaces com o povo negro.

É importante ressaltar que o reconhecimento de elementos comuns com o candomblé não atribui ao capoeira um caráter religioso exclusivo, nem tão pouco vincula sua pratica cotidiana em roda, mas, sem dúvidas, reafirma uma identidade cultural ancestral que precisamos conhecer e reconhecer.

 

Por: Mestre Jean Pangolin

“Capoeira Gospel” cresce e gera tensão entre evangélicos e movimento negro

“Capoeira Gospel” cresce e gera tensão entre evangélicos e movimento negro

 

Estavam presentes o berimbau, o atabaque, a ginga e os saltos mortais. Quase tudo fazia lembrar um jogo de capoeira típico, mas, em vez dos cânticos que enaltecem os orixás ou trazem referências à cultura negra, os versos faziam louvor a Jesus Cristo e a roda era alternada com momentos de pregação e oração.

“Não deixa seu barco virar, não deixa a maré te levar, acredite no Senhor, só ele é quem pode salvar”, cantavam as cerca de 200 pessoas, reunidas na quadra de uma escola para o “1º Encontro Cristão de Capoeira do Gama” (cidade satélite de Brasília), numa tarde de sábado.

Era mais um evento de capoeira evangélica, também chamada de capoeira gospel, vertente que ganha cada vez mais adeptos no Brasil, principalmente por meio da palavra e do gingado de antigos mestres que se converteram à religião.

Se antes a prática enfrentava resistência dentro de igrejas, agora, nessa nova roupagem, é cada vez mais considerada uma eficiente ferramenta de evangelização.

“Hoje é difícil você ir numa roda que não tenha um (capoeirista evangélico), e vários capoeiristas viraram pastores. É um instrumento lindo de evangelização porque é alegre, descontraído, traz saúde, benefícios sociais”, afirma Elto de Brito, seguidor da Igreja Cristã Evangélica do Brasil e um dos palestrantes do evento.

Praticante de capoeira há 40 anos e convertido há 25, Mestre Suíno é líder do movimento “Capoeiristas de Cristo”, que estima reunir cerca de 5 mil pessoas no país. Ele realiza encontros nacionais em Goiânia há 13 anos – a edição de 2018 será pela primeira vez em Brasília.

 

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O mestre calcula ainda que já existem cerca de 30 “ministérios” de capoeira, ou seja, grupos diretamente ligados a igrejas.

“Há um cuidado para não chocar com as visões da igreja. Cuidado com a roupa, com o linguajar, com as músicas, mas que “não necessariamente tem que ser só música que fala de evangelho, de Deus”, explica.

Críticas

O crescimento da prática, porém, tem gerado incômodo entre capoeiristas tradicionalistas e o movimento negro, que veem na novidade uma forma de apropriação cultural e apagamento da raiz afrobrasiliera da capoeira, prática que surgiu como forma de resistência entre escravos, a partir do século 18.

Eles também reclamam que em algumas dessas rodas haveria discursos de “demonização” contra a capoeira tradicional e as religiões do candomblé e da umbanda.

O Colegiado Setorial de Cultura Afrobrasileira, que faz parte do Conselho Nacional de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, chegou a divulgar em maio a “Carta de repúdio à ‘capoeira gospel’ e à expropriação das expressões culturais afrobrasileiras”.

 

O documento, uma reação ao 3º Encontro Nacional de Capoeira Gospel convocado para junho deste ano, em João Pessoa (PB), reconhece que seguidores de qualquer credo podem praticar capoeira, mas cobra “respeito” a sua tradição.

“Temos lutado contra o racismo em suas diversas e perversas manifestações. A demonização perpetrada por pastores, mestres ou professores de ‘capoeira gospel’, ensinando o ódio e a intolerância contra as raízes da capoeira e contra seus praticantes não evangélicos, é um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana”, diz a carta.

 

 

 

Patrimônio

A capoeira, que no passado chegou a ser proibida, recebeu em 2014 o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco, órgão da ONU para educação. O Iphan, órgão responsável por sua “salvaguarda” no Brasil, reconhece em documento sua “ligação com práticas ancestrais africanas”.

A antropóloga Maria Paula Adinolfi, técnica do Iphan, diz que “não é possível impedir a capoeira gospel”, mas explica que o órgão está focado em “fortalecer ações que vinculam a capoeira à matriz africana” como “uma política de reparação do processo de apagamento da memória afrobrasileira e de genocídio do povo negro”.

 

Organizador do evento na Paraíba, Ricardo Cerqueira, o contramestre Baiano, recebeu, além da carta de repúdio, algumas ligações com críticas e até mesmo ameaças de processo. Seguidor da Igreja Batista, ele diz reverenciar os grandes mestres da capoeira, como os baianos Bimba, Pastinha e Waldemar, já falecidos, mas argumenta que a “capoeira não pertence à cultura africana”.

“O país é laico. Acho que cada um tem liberdade para fazer a sua capoeira da forma que quiser”, defendeu.

“Colocamos o nome gospel sem intenção de descaracterizar a capoeira, até porque nós usamos todos os instrumentos e cantamos também música secular”, disse ainda.

 

Diferenças

Além das músicas e orações, mais alguns detalhes diferenciam a capoeira evangélica da “capoeira do mundo”, explicou à reportagem Gilson Araújo de Souza, pastor evangélico e mestre capoeirista em Manaus.

Em geral, rodas evangélicas não chamam a troca de corda de “batismo” porque o termo deve ser usado apenas no seu sentido religioso, de se converter e receber o Espírito Santo. Além disso, alguns capoeiristas também evitam o uso de apelidos, que, segundo Souza, tem origem na época que a capoeira era perseguida.

“No mundo cristão, Deus nos chama pelo nome. Antes, eu era conhecido como mestre Gil Malhado, hoje sou chamado de mestre pastor Gilson. Não preciso me camuflar”, explica ele, que faz parte da Igreja de Cristo Ministério Apostólico.

 

“Anos atrás, eu enfrentei muita dificuldade para levar a capoeira para a igreja. O pastor batia a porta na minha cara, dizia que era coisa da macumba, que não podia. Hoje eu sou pastor e as portas se abriram”, conta também.

Segundo o mestre Suíno, a adoção do termo “gospel” fez parte desse processo de quebrar resistências. Era uma forma, observa, de convencer os pastores que a capoeira podia ser praticada dentro dos valores cristãos.

Hoje ele próprio repudia esse “rótulo” por causa da polêmica que tem gerado. Suíno afirma que, apesar de haver algumas práticas próprias da capoeira cristã, sua “essência” de capoeira é a mesma.

“Não existe capoeira gospel! Não queremos bagunçar a capoeira. Nós respeitamos os mestres, respeitamos os fundamentos da capoeira, respeitamos as tradições, e vamos defender porque quem não defende a capoeira não tem direito de ser capoeirista”, discursou, empolgado, durante o evento no Gama, cujo lema era “minha cultura não atrapalha a minha fé”.

 

Constante mutação

 

Diante da polêmica, o historiador da capoeira Matthias Röhrig Assunção ressalta que a prática já passou por muitas transformações desde seu surgimento.

Hoje, há três vertentes principais: a angola (mais lenta e gingada, tida como a mais próxima da “original”), a regional (mais acelerada, que incorpora movimentos de lutas marciais) e a contemporânea – uma mistura das duas primeiras que surgiu no Sudeste a partir dos anos 70 e foi o estilo que conquistou o mundo.

“Acho que capoeira tradicional não existe mais, todos (os estilos) são modernizados”, resume Assunção, que é professor do departamento de história da Universidade de Essex, na Inglaterra.

Embora não simpatize com a ideia de uma capoeira evangélica, o professor afirma que não se trata do primeiro processo de “apropriação” da prática.

“A capoeira gospel me parece ser mais uma estratégia desses grupos religiosos de ocuparem espaços e de ganhar adeptos, mas não vejo como parar isso, não tem como proibir”, observou.

“Historicamente, houve muitas apropriações da capoeira. Há uma apropriação nacionalista forte, rodas no exterior com as bandeiras do Brasil, o verde e o amarelo, por exemplo, em que a origem da capoeira, a história de resistência e a ligação com os africanos escravizados muitas vezes não têm destaque algum”, pondera.

 

Fonte: BBC – http://www.bbc.com/

MS: 4º Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira

MS: 4º Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira

 

Evento ocorre nos dias 4 e 5 no Campus da UFMS em Aquidauana

Com foco na valorização de um dos mais importantes elementos da identidade brasileira, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e o Governo do Estado, realizam nos dias 4 e 5 de novembro o 4º Encontro Estadual do Plano de Salvaguarda da Capoeira. As atividades acontecem no Campus da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) em Aquidauana.

O evento reunirá capoeiristas, pesquisadores e gestores públicos, que irão dialogar os aspectos culturais e históricos da arte e seu papel como manifestação cultural, comumente marginalizada, mas que ganhou grande destaque após ser registrada como Patrimônio Imaterial do Brasil e da Humanidade pela Unesco.

A Superintendência Estadual do Iphan tem promovido uma série de reuniões voltadas para a mobilização dos Capoeiristas e todos os integrantes de grupos e parceiros da Capoeira em Mato Grosso do Sul com vistas à construção coletiva da política de salvaguarda, valorização e incentivo a este bem cultural patrimônio do Brasil presente no estado.

– No sábado, 04 de novembro de 2017, busca-se como principal meta a composição do Comitê Gestor da Salvaguarda da Capoeira no MS – colegiado que terá por metas implementar o Plano de Salvaguarda.

– No domingo, 05 de novembro de 2017, passados 02 (anos) da existência do Fórum Estadual da Capoeira no MS, rediscutir seus estatutos e formação de coordenações e votar os próximos mandatos.

Outro encontros:

  • 2014 – I Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira no MS; principal resultado: de articulação e aproximação com diferentes grupos de capoeiristas;
  • 2015 – II Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira no MS; principal resultado: formação do Fórum Estadual da Capoeira no MS;
  • 2016 – III Encontro Estadual de Salvaguarda da Capoeira no MS; principal resultado: redação do Plano de Salvaguarda da Capoeira no MS.

 

* Foto acervo PC