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De capoeirista e auxiliar administrativo até virar apenas Roger

Ele já foi ajudante de obra e auxiliar de serviços gerais na empresa de construção do pai, depois vendedor de álbuns de “crianças fotogênicas” em vilas populares, auxiliar administrativo em uma financeira, divulgador e representante de discos na época das grandes gravadoras. Também já foi capoeirista, fez frevo e participou do Balé Popular do Recife por uns dois anos. Tudo isso foi o que ele fez antes de se tornar apenas Roger de Renor, figura recifense mais conhecida por seus programas televisivos e em rádios: primeiro foi o Sopa da Cidade, na antiga Rádio Cidade, depois o Som da Sopa, o Sopa de Auditório e agora o Som na Rural – que está sendo gravado e será exibido em cadeia nacional pela TV Brasil – e o programa Sopa Oi FM, além de ser diretor da TV Pernambuco desde o ano passado.

Um comunicador nato, Roger de Renor não é daquelas pessoas que conseguimos separar entre a figura pública e privada. Ele é um só, que participa da cena cultural do Recife por prazer e que acabou se transformando também em profissão. Além da atuação como dono dos lendários e extintos bares Soparia e Pina de Copacabana, esse cidadão recifense que se destaca onde chega por seu visual – agora, lembra um pirata tatuado e barbado – nos conta quem ele é.

A começar pelo nome, qual seria o nome de batismo de Roger de Renor? Rogério, Rogesvaldo, arrisquei a pergunta. “É Roger de Renor, mesmo. Meu pai se chamava Paulo Renor da Silva, e minha mãe é Maria Tereza Paiva Rosa e Silva. Eu e minhas três irmãs somos ‘de Renor’. Na realidade, o sobrenome dos meus pais era ‘Silva’. Hoje ninguém liga para isso, mas por preconceito com o ‘Silva’, que não tem nada de mais nesse sobrenome, resolveram colocar o ‘Renor’, que na realidade o segundo nome do meu pai, como se fosse Paulo Ricardo, por exemplo.”

Já o seu nome foi uma homenagem que sua mãe quis fazer a um artista circense que ela viu em um circo em Natal (RN). Roger acabou descobrindo que o seu homônimo fez parte do Circo Nerino, famoso na década de 1940, e sobre o qual escreveu o livro Circo Nerino. “E o meu nome é massa porque eu só sabia que minha mãe tinha se inspirado num artista de circo. Mas descobri o livro. Roger era um trapezista do circo. Tu acredita que o livro começa com uma mulher contando da vez que o circo tinha voltado para 
Olinda?” 

E Roger continua: “E uma mulher chega perguntando: ‘Cadê Roger?’ E o cara fala: ‘Roger tá aí’. ‘Ah, Roger tá aí? Então tudo bem.’ E ela entra, paga o ingresso, espera por Roger e não o encontra. Quando ela vai falar para o cara: ‘Você disse que Roger tava aí.’ O cara diz: “Você não viu, não? Ele é palhaço agora.’ Ela tinha conhecido ele como trapezista, ele era o galã do circo, andava em cima dos cavalos, fazia pirâmide humana. Como ele ficou velho, virou palhaço”, conta rindo.

“Ele era a referência que minha mãe tinha de artista de cinema, esse era o cara mais lindo que existia que tinha chegado na cidade de Natal. E o melhor é que eu conheci Roger, quando ele estava com 85 anos, quando ele veio para o Festival de Circo aqui no Recife e eu tinha sido convidado para apresentar o festival. Ele tomou cerveja comigo. E ele disse que tem Roger no Brasil inteiro por causa dele, um pessoal da minha faixa etária. Fiquei gostando ainda mais do meu nome, é uma história bacana.”

Nomes à parte, quem era Roger de Renor antes de se tornar uma das figuras mais conhecidas no cenário musical recifense? “Eu não gostava de estudar, minha escola era quase um colégio integralista. Não gostava de nada na escola, só da turma. No primeiro ano científico, parei de estudar.” Depois de passar por quatro escolas, resolveu fazer supletivo para concluir o Ensino Médio. 

SOPARIA – Nesse tempo também resolveu trabalhar com o pai, que tinha uma empresa de construção civil. “Meus pais não reclamaram, sinto até falta, acho que deveriam ter ficado no meu pé. Eu não sou como meu pai em relação a meu filho. Digo a ele que ele tem que estudar e pronto. Acho que meus pais deveriam ter feito assim. Mas eu fui trabalhar como auxiliar de serviços gerais, fiscalizava obras com meu pai.”

Depois Roger não quis trabalhar mais com o pai. “Virei vendedor de uns álbuns que eram vendidos em vilas populares, de crianças fotogênicas. Na verdade, um fotógrafo dizia que estava tirando foto para uma revista. Mas era tudo mentira. Depois de revelarem as fotos e publicarem num álbum, eu e outros vendedores tínhamos que voltar nesses lugares para vender essas fotos a esse pessoal bem pobre.” 

Também trabalhou em financeira e depois passou cerca de oito anos trabalhando para uma gravadora. “Eu ganhava bem, mais que o suficiente. Aí eu tinha vinte e poucos anos e tinha um carro, uma moto, apartamento alugado, era massa. Mas esse negócio era muito angustiante, eu gostava demais de música para vender disco. O disco, você vendia o produto, e não o conceito, a história, o lance da música. Era como quem vendia sapato, roupa.”

Enquanto trabalhava como representante de gravadora, Roger de Renor fazia o que gostava. Organizava festas na casa da mãe, fazia capoeira e até ensinou capoeira em academia e chegou até a participar do Balé Popular do Recife. “Como eu vivia essa vida boa aí, eu podia viver outra coisa boa. A única coisa boa que a escola me trouxe foi que não me fez ser um playboy foi a capoeira. Na capoeira aprendi a me relacionar com gente de todo nível social, aprendi a tocar pandeiro, berimbau. Ensinei em academia, participei de campeonato, sou capoeirista graduado, posso ensinar.”

Como um caminho quase que natural, Roger fez um curso de frevo na Casa da Cultura e fez um teste para o Balé Popular do Recife, onde passou mais de dois anos. “Fazia capoeira e frevo, caboclinho, coco. Imitava embolador. Participei do espetáculo Prosopopeia – um Auto de Guerreiro.” Também fez teatro, participou de alguns espetáculos no Recife, como Salto Alto, Arlequim. “Era muito bom. E eu ia ficar vendendo disco, cara?! Ficar naquele papo no lugar das revendas: ‘E aí, como vai?’ E o outro: ‘Agora que você chegou tá tudo bem’. ‘Não, que é isso?! Você que manda’. E o outro: ‘Eu não mando nada, você que manda e eu obedeço.’”, brinca.

“Não ia ficar envelhecendo naquela porra. Eu falei ‘Vou fazer qualquer negócio, aliás não vou fazer nada.’ Ainda trabalhei de segurança, chefe de camarim, fiquei sem fazer nada, tinha a grana que tinha recebido da gravadora, pensei em botar uma kombi com lanche, carrocinha de sanduíche, só pensamentos retardados. Eu não era mais menino e pensava nisso, só pra não entrar no negócio de trabalhar, só coisa que me divertisse. Foi quando resolvi botar o bar.”

Em 1991, Roger abriu a Soparia, no Pina, que era um esquema “para não trabalhar”. Num cenário não tão diferente do de agora, Roger conta que na época o Recife não tinha lugar para inde ir depois das 2h da manhã. “Ou você ia para o Hospital da restauração ou para Brasília Teimosa. Resolvi abrir a Soparia de meia-noite até 7h da manhã. “ Roger conta que abriu o bar numa meia-noite de Carnaval e não apareceu ninguém. Depois do Carnaval, o movimento foi aumentando, o bar passou a abrir às 7h da noite e ia até 5h, 6h da manhã. “É muito perigoso trabalhar com bar gostando de gente, de bebida, de festa… é um perigo.” 

Depois que a Soparia fechou, Roger abriu o Pina de Copacabana, na Rua da Moeda. Mesmo funcionando por apenas dois anos, entre 2000 e 2002, o bar até hoje é referência. Muita gente que nem frequentou o espaço – que depois foi reaberto como Novo Pina e que hoje já adotou um outro nome – até hoje costuma se referir ao espaço como “o antigo Pina”.

TATUAGENS – Além da barba fechada, dos brincos e anéis, Roger é todo estampado. Numa ocasião, durante uma entrevista, Roger falou que tinha quadros nas paredes do seu corpo para se referir às tatuagens. São dez ao todo, entre gatos, sereias e a mais curiosa: a palavra “Saudade”. “A primeira tatuagem foi a sereia, todas foram feitas a partir da Soparia, quando eu tinha uns 28, 29 anos. Tem essa aqui que vou retocar: ‘Saudade’, que fiz quando estava bêbado. Saudade é massa, porque é amor, né, querendo amar, bêbado. E uma vez uma mulher no elevador disse: “Soldado? Você é militar?”, conta rindo e brinca: “Deveria ter dito: ‘Não, é um cara que eu namorei, um recruta”, ri.

“Sou vaidoso, gosto muito de… não é uma história de ‘Preciso ter aquela roupa’. Mas não dispenso uma atividade física, se não correr na praia três dias na semana, fico agoniado. Ando de skate no Parque Dona Lindu, ando de bicicleta.”

Vaidoso, o produtor cultural, comunicador, apresentador ou seja lá qual a definição que melhor se encaixa para ele, tem uma paixão: motocicletas. “Eu comprei uma moto com 19 anos. Gosto por causa dessas fantasias mesmo, todos os clichês, vento na cara, zoada, fazer parte da natureza, os filmes, tem toda uma simbologia. Agora tenho a moto que mereço, uma Fat Boy, uma Halley Davidson 1660 cilindradas. Ela é linda, ela é um sonho”, fala como um menino que estivesse falando do seu brinquedo predileto. “Em vez de investir em carro novo, prefiro a moto, que é meu sonho. Também já viajei muito de moto, já fui muitas vezes para o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Ceará. Não conheço o Brasil todo porque ainda não fui pra cima nem pro Sul.”

Além da sua Fat Boy, Roger tem uma Caravan de 1978. E já teve um Landau. “Minha vaidade tá nisso. Também nem seja vaidoso, mas amostrado. Se fosse vaidoso, teria um carro zero. Mas prefiro ter uma Caravan azul, que é muito mais amostrado”, brinca e termina a entrevista mostrando o forro novo do carro. “Veja que lindo, né? E sou modesto, né? Agora diga que não é bonito?!.”

 

Fonte: http://ne10.uol.com.br/canal/cotidiano

Opinião: Capoeira Capitalista

Dia destes um companheiro propôs reflexão sobre ter lá a Capoeira se transformado numa vergonha, a Capoeira capitalista.
Achei interessante a proposta de reflexão, embora a frase não se possa aplicar a toda Capoeira, mas sim a grandes porções dos estilos hoje massificados, a Angola, Regional e Contemporânea-Senzala. Sei bem que a caracterização desses estilos ainda não foi empreendida, mas, afora diversos outros itens, a simples observação das respectivas gingas, fornecerá elementos para considerá-los estilos massificados. Devo acrescentar aqui que massisficação em si não considero defeito.

Voltando ao ponto, a Capoeira de hoje é capitalista, sim, mas qual o significado disto? Porque agora essa novidade de Capoeira capitalista? Está muito custosa, cara, a Capoeira? Estilo novo?

Não! Não! É capitalista não por ser cara, não por ser custosa, mas por reproduzir, timtim por timtim, aspectos fundamentais da ideologia do sistema em que vivemos que não é outro senão o nosso vigoroso sistema capitalista, com todas as suas mazelas e benesses.

E que aspectos ideológicos são esses que a Capoeira capitalista reproduz?

Por exemplo, no sistema capitalista o respeito à autoridade, à hierarquia, é necessário ao funcionamento das instituições, certo? O dono é quem define as políticas do empreendimento.

Pois é, o respeito aos mestres de Capoeira, instrutores, treineís, contramestres, professores, etc, encaixa-se perfeitamente nos ditames daquele respeito à hierarquia. Respeito no sentido de que um manda e os outros obedecem, respeito no sentido de que os supostos saberes dos de hierarquia mais alta prevalecem, necessariamente, sobre a suposta ignorância dos de hierarquia mais baixa.

Essa história vai longe, se quisermos. Por exemplo, vez por outra são colocados alguns assuntos em votação nos grupos de Capoeira. Isto certamente que dá a eles alegre cunho democrático. Certo! E o que faz o sistema capitalista no Brasil? Mantém milhares de casas legislativas para, de maneira semelhante àquela, decidir democraticamente sobre assuntos de interesse das pessoas.

Para não me alongar muito, ficam aqui duas sugestões e um resumo.

Que cada um procure descobrir aspectos mórbidos típicos do sistema capitalista, e verifique a presença desses aspectos nos grupos de Capoeira que conhece.

A outra sugestão, e sei que não é fácil, é cada um colocar em prática ações não reprodutivas da ideologia do sistema, sem, contudo, bater de frente com as demais instituições apoiadoras da Capoeira e do sistema.

O resumo é que a Capoeira da atualidade vem funcionando como fiel reprodura das relações sociais correntes na sociedade, e aqui se incluem a exploração do trabalho alheio, autoritarismos, formas de distribuição de benefícios, escamotear a divulgação de contas, descasos diversos com as pessoas, etc. Certamente, não é essa a Capoeira que queremos.

Mestre Fernando Rabelo – http://capoeiracambara.blogspot.com/

A Capoeira por Lima Campos (1906)

Clássico da Literatura da Capoeira, com ilustrações de Kalixto
 
Jornal do Capoeira – www.capoeira.jex.com.br
Edição AUGUSTO MÁRIO FERREIRA – Mestre GUGA (n.49)
de 13 a 19 de Novembro  de 2005
Nota do Editor:
Temos publicado, aos poucos, algumas crônicas e textos da literatura clássica da Capoeira, sendo a maioria delas publicadas originalmente no Rio de Janeiro, entre o final do século XIX e início do século XX. O clássico que publicamos nesta edição – "A Capoeira", por Lima Campos, Revista Kosmos, 1906 – foi enviada foi há algum tempo pelo capoeira-pesquisador Carlos Carvalho Cavalheiro, Sorocaba, SP. Para abrilhantar tal clássico, o autor contou com famosas ilustrações de Kalixto. Tanto o texto quanto as ilustrações descrevem minúcias do cotidiano capoeirístico do Rio de Janeiro, com detalhes sobre seus jeitos, tipos e vestimentas. O facsimili enviado por Cavalheiro é parte integrante do acervo particular do historiador Adolfo Frioli. 
Miltinho Astronauta


A capoeira
(parte I)
 
Lima Campos, Rio de Janeiro
Revista Kosmos, 1906
 
"TYPOS E UNIFORMES DOS ANTIGOS NAGOAS E GUAYAMÚS SENDO OS PRINCIPAES DISTINCTIVOS DOS PRIMEIROS CINTA COM CORES BRANCA SOBRE A ENCARNADA E CHAPÉO DE ABA BATIDA PARA A FRENTE E DOS SEGUNDOS COM CORES ENCARNADAS SOBRE A BRANCA E CHAPÉO DE ABA ELEVADA NA FRENTE.
 Não te conto nada seu compadre! o samba esteve cuerêréca. No fim que houve uma chorumella de escacha. O Cara Queimada estava de sorte com a Quinota quando o marchante chegou. Ih! seu camarada! Foi um estrompicio!
O Marchante era sarado, foi logo encaroçando a joça. Eu tive que entrar com o meu jogo, sim, tu sabes, que não vou nisso, e ali eu estava separado, não havia cara que me levasse vantagem. Quando a coisa estava preta eu fui ver como era p’ra contar como foi."
"Das cinco grandes luctas populares: a savata francesa, o jiu-jitsu japonês, o box inglêz, o páu portuguêz e a nossa capoeira, temiveis pelo que possuem de acrobacia intuitiva de elasterio e de agilidade em seus recursos e avanços tacticos e em seus golpes destros é, sem duvida, a ultima, ainda desconhecida fóra do Brasil, mesmo na América, a melhor a mais terrível como recurso individual de defesa certa ou de ataque impune.
Nas outras (com bem limitada excepção de apenas alguns golpes detentivos ou de tolhimento no Jiu-jitsu e a limitadíssima excepção do celebre circulo defensivo descripto pelo movimento giratório contínuo do páu no jogo portuguêz) o valor está no ataque; na capoeira, porém, dá-se o contrario: o seu merito básico é a defesa; ella é por excelência e na essência defensiva
 
Leia Mais: Jornal do Capoeira

REVISTA PRATICANDO CAPOEIRA Nº 29

Cara a cara com Mestre Suino
Capoeirando 2005
Encontro Internacional Grupo Topázio
Entrevista exclusiva Mestre King
Mestre Moraes um dos maiores Angoleiros
Grátis CD Grupo GCAP


Uma revista direcionada para os capoeiristas
com muita informação e novidades.
Adquira a sua…

Entrevista com Mestre Brasília

Antonio Cardoso de Andrade, Mestre Brasília, um dos pioneiros da capoeira em São Paulo, autor do livro – “Vivência e Fundamentos de um Mestre de Capoeira”, publicado pela Editora Circuito LW.
 
(O livro pode ser adquirido, no Capoeiradobrasil, via e-mail: capoeiradobrasil@uol.com.br )
 
Mestre Brasília nos concedeu entrevista e conversou sobre o atual estágio de organização da capoeira. Ele pertence ao quadro de honra do Conselho Superior de Mestres de São Paulo e é vice-presidente da Federação de Capoeira do Estado de São Paulo.
 
  • Veja alguns trechos da entrevista:
 
Capoeiradobrasil: – Caro Mestre Brasília: é um grande prazer conversarmos com o senhor, e podermos compartilhar um pouco de sua grande sabedoria; temos a absoluta consciência de estarmos diante de um dos maiores mestres da capoeira mundial; conhecemos seu trabalho de longa data, desde os tempos pioneiros da capoeira em São Paulo. Sabemos de sua dedicação, da excelência de seu trabalho e de sua pessoa, tanto dentro como fora das rodas de capoeira.
Acreditamos que a capoeira vive hoje um momento muito especial, no processo de progressiva estruturação organizacional que deverá conduzi-la à maioridade, digamos assim, entendendo por isso o estágio de sua efetiva profissionalização e pleno reconhecimento social, como esporte e como parte valiosa do patrimônio cultural do povo brasileiro. O senhor, como um dos mais ativos participantes deste processo, como vê o momento atual?
 
Mestre Brasília: – Vejo com muita esperança. O fato de que a capoeira esteja se organizando é auspicioso, embora ela ainda esteja longe do ponto em que gostaríamos que estivesse. Hoje, contamos com a Confederação Brasileira de Capoeira, que congrega as Federações Estaduais e suas respectivas Ligas Regionais e Municipais, e eu estou lá, sempre apoiei, porque acho que é socialmente o mais correto trabalho de organização da capoeira que há, com respaldo do governo, nos níveis municipal, estadual e federal. Eles também acreditam como eu que a cultura brasileira deve ter um órgão que a preserve. Pode-se obter patrocínio e subsídios oficiais a partir do momento em que se tem um trabalho organizado e se adquire credibilidade social. E a Federação está aí para ajudar nisto. A capoeira precisa e merece ter pessoas trabalhando pelo seu engrandecimento, mas nós só vamos realmente obter maior credibilidade quando todos estiverem juntos, falando a mesma língua, e não cada um querendo puxar a brasa para o seu lado, cada um buscando satisfação e resultados pessoais; isso não vai levar a capoeira tão cedo aonde ela já deveria estar há muito tempo.
 
Capoeiradobrasil: – Sempre que o assunto é a “esportização”, ou, como agora, a “olimpização” da capoeira, levantam-se objeções de certos segmentos do mundo da capoeira, objeções que traduzem preocupações quanto à preservação da arte, ou dos aspectos lúdicos da capoeira, dos rituais e fundamentos. Isto nos leva a pensar nos critérios de avaliação e pontuação nos campeonatos e competições capoeirísticas. Como o senhor vê esta questão?
 
Mestre Brasília: – Eu, desde que comecei a praticar a capoeira, sempre venho praticando-a como esporte. Nunca como esporte competitivo, mas sempre como esporte. E se eu tivesse necessidade de competir, lá na roda, eu competia: era a minha vida que muitas vezes estava em jogo na roda, e eu tinha que competir, me defender. Se hoje ela pode ser um esporte legalizado, muito bem; a capoeira não é apenas esporte, é uma manifestação cultural brasileira que possui um conteúdo muito amplo: temos o ritmo, a poesia, a música, a coreografia, a defesa, o ataque, temos o espetáculo, temos a luta e temos o esporte.
 
Capoeiradobrasil: – O público tem muito interesse em saber se nas competições estes fatores – a musicalidade, o ritmo, a harmonia, a coreografia, etc – são também levados em consideração.
 
Mestre Brasília: – Sem dúvida. Toda luta tem um ritmo a seguir. Você tem que ouvir seu treinador. Na capoeira, você tem que saber ouvir a música, para que você tenha mais entusiasmo para lutar; mesmo em caso de competições, porque aí é o berimbau também que determina o tipo de jogo a fazer. Então, você tem de estar atento, para se defender, para atacar, para entrar na hora certa, na brecha de um adversário, ou para sair no tempo certo, você tem que estar atento, até mais do que normalmente. Para isso, é preciso treinar muito. Acredito até mesmo que a capoeira ainda venha a ser um esporte de ringue, profissional, mas no futuro. No momento, não vejo uma perspectiva de bons lutadores; vejo grandes entusiastas, aí, dizendo que estão lutando, mas que na realidade não estão lutando coisíssima nenhuma. Quando o cara entra no ringue para lutar, a vida dele e a de seu parceiro estarão em jogo. E a gente percebe, quando ele entra na roda se imaginando um lutador, que ele está cheio de brechas que, no caso de uma competição cerrada mesmo, esse cara poderia ser eliminado a qualquer momento, antes do que ele imagina. Acho que a capoeira ainda não está preparada para isso, mas ela pode se preparar, ela tem tudo para isso.
 
Capoeiradobrasil: –  No site www.capoeiradobrasil.com.br vamos pedir aos internautas que respondam à questão: “Deve a capoeira ser incluída no rol dos esportes olímpicos? Sim ou não, e por quê?” – Gostaríamos que o senhor fosse o primeiro a exprimir a sua opinião.
 
Mestre Brasília: – Pois bem: acho que, no momento, a capoeira ainda não tem condições de chegar às Olimpíadas, porque há modalidades esportivas com muito mais tempo e organização do que ela; mas o fato de que a olimpização tenha sido elegido como um objetivo é muito bom, pois vai orientar o processo de organização da capoeira, e aí eu dou todo o meu apoio, e espero ver o dia em que a capoeira integre as Olimpíadas. E não acho, de maneira nenhuma, que a inclusão da capoeira nas Olimpíadas traga qualquer prejuízo para ela. A capoeira é riquíssima, e é um pequeno segmento dela que vai para as Olimpíadas, e ela não vai perder nada, muito pelo contrário, ela vai é se enriquecer cada vez mais, no seu todo. Se as pessoas querem que a capoeira cresça, temos de nos acostumar com a idéia dela incluída nas Olimpíadas, sem dúvida alguma.
 
Capoeiradobrasil: – O senhor cresceu num tempo em que a divisão entre capoeira Angola e Regional não era bem nítida, ou não existia. Hoje, há várias divisões, várias “capoeiras”. Como o senhor dividiria hoje as variedades ou estilos de capoeira?
 
Mestre Brasília: – Dizem que Mestre Bimba, quando criou a Regional, chamou os angoleiros da época para conversarem sobre a unificação da capoeira. Alguns acharam que não, e ela continuou dividida. Na realidade, quando eu aprendi, o mestre dizia: capoeira é uma só, você deve ouvir o berimbau e jogar de acordo com o toque. Para cada toque há uma maneira específica. Não há modalidades diferentes, é o toque que determina as diferenças no jogo. Se você toca Angola, há uma maneira característica de jogar; se toca São Bento Grande da Regional, a característica do jogo é outra; se você toca São Bento Grande de Angola, é outra maneira; se toca Jogo de Dentro, outra maneira; se toca Iuna, é outra maneira de jogar. E o capoeirista tem que estar atento a tudo isso. Mestre Canjiquinha me dizia sempre, e eu acredito também nisso, a capoeira, no futuro, será uma só; ou melhor, o capoeirista vai ter que saber jogar tudo. Não é que ela será reduzida a uma só, mas o contrário: você vai ter que saber jogar a Regional e a Angola, tem que manter esta divisão, mas não é uma divisão política, de facções antagônicas, mas uma divisão cultural, percebe? Porque a Angola é a raiz, e Mestre Bimba, quando criou a Regional, levou para ela os movimentos da Angola aos quais achou que podia dar mais velocidade e acrescentou outros movimentos, mas 80% foram trazidos da Angola. Aplicou a isso uma didática específica, e pronto. Como ele enfatizava o aspecto de luta da capoeira, criou-se uma lenda. As pessoas que hoje fazem a capoeira com aquele espírito de luta, não estão fazendo a Regional do Mestre Bimba. A maioria toca São Bento Grande de Angola e diz que está jogando Regional. O toque de São Bento Grande de Angola chama para um jogo rápido, solto, mas é Angola. Mestre Canjiquinha, quando queria que nós jogássemos um jogo mais pesado, tocava Banguela; se queria jogo de dentro, tocava Jogo-de-Dentro; mas você pode jogar dentro tanto na Regional como na Angola, depende do toque, da situação, do momento e do jogador com quem você está jogando. Se você joga com um cara maldoso, você não vai jogar aberto com ele, não vai jogar descuidado, não vai fazer floreio na frente dele, a menos que você seja um cara inocente e entra na roda para “se espalhar”, como dizem, aí, vai sair com a cara quebrada, porque na primeira brecha, o cara maldoso vai entrar com tudo, pois as pessoas estão aí para fazer nome na roda, não há necessidade disso, mas as pessoas, por estupidez ou ignorância, fazem é isso mesmo, querem tirar proveito das outras, mas não deveria ser assim.
 
Hoje, fala-se aí em “capoeira contemporânea”; isso, na realidade, não é capoeira: é uma pequena parte dela, as pessoas estão pulando, e se fizessem isso de forma engrenada, ainda que bem, mas, assim, individualmente, cada um pula sozinho, é um circo mal organizado; um circo de acrobatas mal dirigidos. No entanto, ela pode ser executada de forma organizada, com coordenação e movimentos engrenados, fazendo toda essa movimentação que aí está hoje, pois a capoeira evoluiu; há quarenta anos, eu via capoeirista dar salto mortal na roda de capoeira, bonito, mas engrenado, um dentro do movimento do outro. Vi também João Grande e João Pequeno jogando no chão, e não era essa Angola que hoje o pessoal diz: ”isso aqui é Angola”; não, eles faziam tudo: bananeira, João Grande fazia a ponte, queda de rins, até a chamada volta-por-cima… e hoje, não: o pessoal fica com meia-lua de compasso pra lá e pra cá, passa a perna por cima do outro, só na meia-lua de compasso, e dizendo que estão jogando Angola.
Então, é isso: é preciso administrar toda esta parafernália de movimentos que os jovens acham que são contemporâneos, e inseri-los na capoeira realmente. Aí é que eu falo do estudo que o cara teria de ter: conhecimento do que havia antes; numa pesquisa médica, por exemplo, o pesquisador tem que conhecer os remédios que já foram criados antes, e hoje ele complementou; se ele não tiver esse conhecimento do que já foi feito antes, ele não poderá criar nada, e dizer que está fazendo uma capoeira contemporânea.
 
Capoeiradobrasil: – Mestre Brasília, neste final de entrevista, vou deixa-lo à vontade para falar do que achar melhor.
 
Mestre Brasília: – Pois bem: eu gostaria então de convidar as pessoas, os dissidentes, a conhecerem melhor a Federação e a Confederação, e que tragam a sua opinião. Venham somar conosco, venham aprender e, logicamente, trazer a sua contribuição, colocando nas reuniões as suas posições; acredito que, hoje, com o Conselho Superior de Mestres, nós poderemos aproveitar muita coisa, as pessoas estão mais abertas, eu converso com muitos capoeiristas, o carrancismo do passado está em baixa, o autoritarismo já não é tão presente como antigamente. As pessoas estão se conscientizando de que ele não leva a um trabalho construtivo. As grandes empresas de hoje ouvem cada vez mais, desde o seu faxineiro até seu mais alto funcionário. Por quê? Porque elas querem crescer. 
 
Mestre Gladson tem uma bela frase sobre isso: “não há ninguém tão incapaz que não tenha nada a ensinar, como não há ninguém tão sábio que não tenha nada a aprender”. Eu aprendo diariamente, junto com vocês, eu sinceramente me considero um aprendiz da arte da capoeira.