Blog

congo

Vendo Artigos etiquetados em: congo

A Capoeira na R.D.C

A Capoeira na R.D.C

 

Uma imersão no universo da Capoeira como um instrumento para a promoção da paz em áreas de conflito como em Kivu do Norte, na República Democrática do Congo.

 

A iniciativa é liderada pelo Governo do Brasil e do Canadá, UNICEF e AMADE-Mondiale e aborda a autoconfiança e a autoestima entre as crianças e suas famílias. O objetivo é o de reduzir as desigualdades e ajudar a curar traumas. Em um país devastado pela guerra de origens étnicas e mergulhado em interesses comerciais, é crucial reconstruir os laços comunitários e restaurar uma cultura de paz.

 
Duas vezes por semana, meninas no Hospital Heal Africa, no centro de Goma, aprendem a jogar Capoeira. Meninos no Centro de Trânsito e Orientação (CTO) CAJED também praticam esta arte marcial. O CTO é um espaço que ajuda para a reintegração social de crianças que foram vítimas de violência e recentemente desmobilizados de grupos armados.Tanto o hospital Heal Africa como o CTO CAJED são parceiros da UNICEF.

Com a prática, vem a auto-confiança, o fortalecimento emocional, a construção de laços comunitários, a superação de diferenças de gênero, a redução de desigualdades e a cura de traumas.

RDC

 

R.D. Congo: O maior país na África subsaariana

O conflito terminou oficialmente em 2002, mas este país devastado pela guerra na Região dos Grandes Lagos, na África Central, vive enormes desafios para curar os traumas gerados pelos conflitos armados que se perpetuam até os dias de hoje.

6 milhões de pessoas perderam suas vidas. Mais de 1 milhão foram deslocadas. As terras abundantes, água, biodiversidade e minerais subjugam a R.D.C alimentando tensões de longa data.

Apesar de ser um dos mais ricos países em minerais como diamantes, ouro, cobre, cobalto e zinco, a R.D.C figura na lista dos países menos desenvolvidos. O legado de anos de atrocidades, instabilidade e violência generalizada resultou em mais da metade da população vivendo abaixo da linha da pobreza.

A cada 5 minutos, 4 mulheres são vítimas de estupro. Dados da ONU indicam que mais de 200.000 mulheres e crianças congolesas foram vítimas de violência sexual.

O conflito gerou um êxodo em massa. 1,7 milhões de pessoas foram deslocadas (OCHA, Junho, 2016)

Muitas famílias tiveram que fugir de suas casas para buscar um lugar seguro.

 

Impacto social

 

“A Capoeira ajudou a que eu me erguesse novamente e é importante para que meninas que passam dificuldades, assim como eu, saibam que nem toda esperança está perdida” , disse Nadia, uma adolescente de 17 anos.

 
Este foi um depoimento dado pela jovem e publicado em Ponabana, um blog de jovens escritores congoleses. 

Nadia engravidou após sofrer violência sexual em um bairro em Goma. Ela encontrou na Capoeira um espaço seguro para libertar a sua mente e ganhar força psicológica. Estórias como a de Nadia se proliferam entre meninas e meninos beneficiados pela Capoeira.

 

Proposta de reportagem

 

Uma imersão no universo da Capoeira brasileira na R.D.C.

 
Durante cerca de vinte dias, a dupla formada pela jornalista luso-brasileira Fabíola Ortiz e pelo fotógrafo e videomaker Flavio Forner visitará localidades em Goma onde o projeto “Capoeira pela Paz” é implementado.

Forner e Ortiz são profissionais que se dedicam a cobrir temas sociais e de direitos humanos em ambientes hostis.

Eles pretendem visitar o hospital Heal Africa que cuida de mulheres e meninas vítimas de violência e ainda conhecer o CTO CAJED que abriga meninos recém desmobilizados de grupos rebeldes armados.

FABÍOLA ORTIZ

fabiola.ortizsantos@gmail.com

+1 (301) 919 1594 (Whatsapp EUA)
+45 52 824 116 (celular Dinamarca)
skype: fabiola_ortiz

Linkedin


FLAVIO FORNER

forner@gmail.com

+55 (11) 959 990 499 (celular Brasil)
skype: flavio_forner

Linkedin

 

 

O que pensamos

 
Um jornalismo em profundidade é crucial para a garantia dos direitos humanos, civis e políticos. É uma ferramenta importante para assegurar o acesso à informação de interesse público.Forner e Ortiz acreditam no papel do jornalismo independente para o debate público, para transformar a realidade e manter na pauta as metas dos desenvolvimentos sustentáveis, pregados pela ONU para 2030.Percebemos que existe a necessidade de abordagens inovadoras e criativas no jornalismo a fim de reportar sobre temas de traumas e conflitos.

Uma informação responsável tem um papel importante para dissolver tensões, reduzir conflitos e contribuir para o processo de cura de situações traumáticas.O jornalismo independente pode atuar como um elemento unificador em uma sociedade polarizada e tem um papel fundamental na prevenção, gestão e resolução de conflitos.

LEIA MAIS:

https://www.facebook.com/capoeirapaix/

Home


Foto Capa: UN, Abel Kavanagh, Jan 2016. MONUSCO, Província de Katanga.Foto: Stefano Toscano

A princesa Aqualtune

Não é apenas uma, duas ou três, são muitas as mulheres valentes e guerreiras que lutaram por si, pelo seu povo e por seus ideais.

Uma dessas mulheres é Aqualtune, princesa do Congo, que comandou um exército de dez mil homens em batalha contra os Jagas, guerreiros bárbaros que invadiram o Congo.

Com a interferência dos escravistas europeus que, com armas de fogo, desequilibravam as lutas dos povos africanos conforme seus interesses, o exército de Aqualtune foi derrotado e a princesa foi capturada e trazida ao Brasil nas condições sub-humanas de todo navio negreiro.

Aqualtune foi obrigada a manter relações sexuais com um escravo para fins reprodutivos e desembarcou já grávida no Porto de Recife. Foi leiloada e levada para um engenho em Porto Calvo, no sul de Pernambuco.

Foi no engenho que Aqualtune conheceu histórias sobre a resistência negra à escravidão e ouviu falar no Quilombo de Palmares. Com a mesma coragem e determinação que demonstrava em sua terra, Aqualtune organizou uma fuga para o quilombo e fugiu nos últimos meses de gravidez, acompanhada de outros escravos.

Já em Palmares, onde as tradições africanas eram preservadas, a princesa teve sua origem nobre reconhecida. 
Dois de seus filhos, Ganga Zumba e Gana Zona tornaram-se chefes dos mocambos mais importantes do quilombo e sua filha mais velha, Sabina, é a mãe de Zumbi dos Palmares.

Quanto à morte de Aqualtune, existem informações divergentes. Acredita-se que a princesa morreu queimada em 1677,quando sua aldeia foi incendiada durante uma batalha. Mas outras fontes citam que Aqualtune teria escapado, não sendo conhecida a data de sua morte.

Fontes:

A Terra da Liberdade
Criola.org
Casa de Cultura Mulher Negra
Meio Norte
Overmundo

Neila Vasconcelos – Venusianacapoeiradevenus.blogspot.com

21 anos da Fundação Cultural Palmares

Grupos folclóricos do Brasil e da Colômbia se encontram para celebrar os 21 anos da FCP. Tem ainda Luiz Melodia e Lazzo Matumbi

A sede da Fundação Cultural Palmares vai ser palco de uma extensa programação que promete muito agito e muita cultura popular. Na semana de 17 a 22 de agosto, para celebrar mais um ano de existência da instituição, fundada em 1988, tambores vão ecoar, convidando o público para uma grande festa com direito a muito samba no pé. São mais de dez grupos de dança e música regionais.

Amantes do Maracatu, Jongo, Samba de Roda, Tambor de Crioula, Congo terão a oportunidade de desfrutar um pouco da beleza e encanto da cultura afro-brasileira, acompanhando os cortejos, que mantêm viva a tradição da cultura popular. Poderão também acompanhar mestres de capoeira e os grupos folclóricos que virão da Colômbia especialmente para esta grande festa da diversidade: Grupo Benkos Kusuto da comunidade do Palenque de San Basílio e Grupo Bahía Trio, e o coletivo de artistas “Entre dos mares: ensamble musical de Colombia, Ecuador y Panamá”.

Durante os cinco dias do evento, tocadores, cantadores, dançarinos, reis e rainhas do congo e do maracatu, baianas do samba de roda vão comandar a festa e tomar de alegria o platô da sede da Fundação Palmares. Quem vier conhecerá a riqueza das manifestações culturais de matriz africana que ainda resistem aos tempos modernos.

As oficinas também entram na programação. Teremos Roberto Mendes nas oficinas de Chula, Mario Pam, nas oficinas de Percussão, e ainda uma oficina de ritmos afro del Caribe y el Pacifico.

Tem ainda a exposição fotográfica Negrice Cristal, de Januário Garcia; Cortejo da Lavagem – Terreiro Ilê Ase Ode Onisegum; e degustação de comida afro-brasileira.

Destaque ainda para a apresentação de Luiz Melodia e Lazzo Matumbi, que se apresentam no dia 22, no palco do Teatro Nacional (Censura Livre). Ao final do show, o público poderá assistir a um desfile de moda afro.

Também como parte das comemorações, haverá a entrega do Troféu Palmares. Uma homenagem da Fundação para personalidades que têm representatividade e destaque na luta contra o preconceito e a favor da igualdade racial. Serão homenageados:

# Mãe Beata de Iemanjá (Beatriz Moreira Costa): religiosa de matriz africana do candomblé, iniciada há mais de 50 anos, conhecida sacerdotisa e ativista social da cidade do Rio de Janeiro, dedica-se há décadas à valorização da cultura e da religião afro-brasileira, como também, pelos direitos das mulheres.

# Esther Grossi: professora, escritora e ex-deputada federal, autora da lei 10.639/2003 – que institui a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura da África e dos afro-brasileiros.

Conheça um pouco mais das atrações:

Contos do Congo: o Congado é uma manifestação cultural e religiosa de influência africana que em algumas regiões do Brasil desenvolve seu enredo sob o tema da vida de São Benedito, o encontro de Nossa Senhora do Rosário submergida nas águas e, em outras regiões, a representação da luta de Carlos Magno contra as invasões mouras. O grupo Contos do Congo surgiu em 2006 e vem mantendo as tradições e divulgando a arte e as origens do Congado mineiro, remetendo o público à mais pura expressão conga, fazendo com se vivencie a verdadeira Folia de Reis. O grupo nasceu da necessidade das pessoas preocupadas em se resgatar e preservar o congo nas suas mais diversas formas de manifestação cultural.

# O Jongo da Serrinha: é uma manifestação cultural essencialmente rural diretamente associada à cultura africana no Brasil e que influiu poderosamente na formação do Samba carioca.

# Maracatu do baque solto: o grupo destaca-se por preservar a essência do maracatu e manter uma trajetória marcada pela originalidade na criação de novos temas e adereços. Surgiu da organização de trabalhadores rurais, com o intuíto de preservar a cultura dos seus antepassados.

# Tambor de Crioula: é uma dança com raízes africanas, praticada no Maranhão, tanto no meio rural como no urbano, tendo como característica marcante a punga (espécie de samba de roda), evidenciada no toque dos tambores e na coreografia das mulheres. O grupo Tambor de Crioula é uma das maiores referências culturais nesse estilo musical.

# Samba de Roda Suerdieck: é um dos mais antigos e autênticos grupos de samba de roda do Recôncavo Baiano. Liderado por dona Dalva Damiana, o grupo foi fundado em 1958 na antiga fábrica de charutos Suerdieck, pelas funcionárias, que, no intervalo do trabalho, cantavam estrofes rimadas no ritmo do samba, ritmados com pedaços de madeira e as sobras das caixas de charuto.

Benkos Kusuto da comunidade do Palenque de San Basílio (costa do Pacífico colombiano): grupo formado por quatro dos músicos mais destacados e reconhecidos percussionistas da comunidade palenqueira.

# Bahía Trio: grupo de marimba tradicional, busca explorar todas as possibilidades melódicas através de conjuntos musicais folclóricos regidos pela improvisação e experimentação de ritmos de tradição africana com influência da sonoridade latina.

# “Entre dos mares: ensamble musical de Colombia, Ecuador y Panamá”: grupo formado por um combinado de artistas da Colômbia, Equador e Panamá, com uma proposta de integração da música afro-latina desses três países.

PROGRAMAÇÃO ANIVERSÁRIO DA PALMARES

17 a 22 de agosto

17/08

9 às 17h –   Oficina de Percussão – Mário Pam – Galpão FUNARTE

9 às 10h –   Abertura Solene do Aniversário da Fundação Cultural Palmares – Auditório FCP

10 às 12h – Abertura da Exposição: Negrice Cristal, do fotógrafo Januário Garcia e Café da manhã – Espaço Cultural Palmares

10 às 12h –  Oficina Chula – Roberto Mendes – Auditório FCP

18 às 20h -Mostra Cultural – Jongo da Serrinha–Rio de Janeiro, Grupo Benkos Kusuto de la comunidad del Palenque de San Basílio (Colômbia) – Platô da FCP

18/08

9h às 11h –  Oficina de Percussão Mário Pam – Galpão FUNARTE

9h às 11h –  Oficina Chula – Roberto Mendes – Auditório FCP

18 às 20h -Mostra Cultural – Maracatu do baque solto–Pernambuco e “Entre dos mares: ensamble musical de Colombia, Ecuador y Panamá” – Platô da FCP

19/08

9 às 18h –  Oficina de Percussão – Mário Pam – Galpão FUNARTE

18 às 20h -Mostra Cultural – Tambor de Crioula, Grupo Bahía Trio (Colômbia) e cantora convidada. – Platô da FCP

20/08

9 às 18h –  Encontro de Mestres de Capoeira – Auditório FCP

9 às 17h –  Oficina de Percussão Mário Pam – Galpão FUNARTE

18 às 19h -Mostra Cultural – Roda de Capoeira – Mestre Cláudio – Platô da FCP

21/08

10h – Cortejo da Lavagem – Terreiro Ilê Ase Ode Onisegum – Pai Ribamar – Platô da DEP

11h – Resultado da Oficina de Percussão – Platô da FCP

12h – Degustação de Comida Afro-Brasileira – Platô da FCP

13h – Mostra Cultural – Samba de Roda Suerdick–Bahia, Congada Contos do Congo–Minas Gerais – Platô da FCP

22/08

9 às 12h –  Oficina de Ritmos Afro del Caribe y el Pacífico – Galpão da Funarte                        
21h
#

Desfile de Moda – Estilista Rodinei SP Abertura: “Entre dos mares: ensamble musical de Colombia, Ecuador y Panamá”                                                                                       
#

Entrega do Troféu Palmares
#

Show Luis Melodia e Lazzo Matumbi – Teatro Nacional

Assessoria de Comunicação
Inês Ulhôa – assessora de imprensa (9966-8898) ines.ulhoa@palmares.gov.br
Jacqueline Freitas
Marcus Bennett
Telefones: (61) 3424-0164/ 0165/ 0166
www.palmares.gov.br

Olímpia – SP: 43º Festival do Folclore

O tabuleiro de Olímpia tem…
Diferenças culturais do Brasil dão charme e alegria ao Festival do Folclore de Olímpia em sua 43ª edição
Tradição, oralidade, anonimato e aceitação coletiva são características que unificam as diferenças da cultura brasileira.
 
Não é exagero dizer que a pequena Olímpia, com 48 mil habitantes, comporta as peculiaridades de um país inteiro durante o Festival do Folclore. Realizado há 43 anos, o tradicional evento atrai lendas vivas e muitas histórias para “boi dormir”.
 
 

Confira o panorama do evento realizado pela reportagem do BOM DIA nesta terça-feira.

 

 
Boi maranhense

O Grupo Sociedade Junina Bumba Meu Boi da Liberdade nasceu em São Luiz, no Maranhão, em 1956 e atualmente envolve mais de 160 pessoas.
 
Os bricantes reúnem-se para celebrar a imagem de seu padroeiro: São João Batista. A vestimenta do brincante é uma atração à parte. Ricamente coloridas, apresentam belos desenhos feitos com canutilho e miçanga. As imagens de santos são os temas mais presentes nas roupas.
 
Misto de maracatu rural, boi e congo, a performance do Bumba Meu Boi da Liberdade é repleta de personagens do imaginário nordestino: as índias tapuias, os vaqueiros e os sertanejos.
 
Pela primeira vez no Festival do Folclore de Olímpia, o grupo do Maranhão foi representado por 54 integrantes. Outro destaque são os chápéus de tia – grande sombreiros revestidos de fitas coloridas que ampliam os movimentos do brincante.
 
Folia paulista

Os anfitriões também mostraram seu talento nos palcos. A cia. de Reis “Os Visitantes de Belém”, de Olímpia (SP), por exemplo, contagiou o público pela animação dos instrumentistas e dos palhaços.
 
De acordo com o mestre Geraldo dos Santos, 60 anos, o grupo foi formado há pouco mais de dois anos, mas todos têm a “Folia de Reis” no sangue.
 
Ele conta que os palhaços representam os soldados do rei Heródes.
 
“As fantasias e máscaras serviram para despistá-lo enquanto os reis magos visitavam o Menino Jesus, em Belém”, comenta.
 
Folguedo catarinense

Florianópolis (SC) é representada pelo Grupo Folclórico Boi de Mamão Frankolino, da “E.B.M. Luiz Cândido da Luz”. Esta é a primeira vez que saem do Estado de origem para se apresentar no Festival do Folclore de Olímpia e em unidades paulistas do Sesc.
 
O projeto foi criado há cerca de três anos com o objetivo de resgatar o folguedo do Boi de Mamão – dança com similares em outras regiões. Além do personagem central, compõem a história o cavalinho, a Bernúncia – imitação de dragão chinês – e a Maricota.
 
“Representamos a luta entre o bem e o mal”, afirma o produtor cultural Ari Nunes. Ele explica que o nome original da brincadeira era Boi de Pano e há duas versões para a mudança. Não se sabe se, por falta de tempo, as crianças usaram uma fruta para construir a cabeça do animal ou se os dançarinos bebiam demais.
 
Congo capixaba

A banda de congo Panela de Barro, do distrito de Goiabeiras Velha, em Vitória (ES), é exemplo de que as tradições continuam vivas. O grupo existe há mais de 70 anos e faz questão de passar seus conhecimentos a crianças da comunidade com uma cia. mirim.
 
Com casacas, tambores, triângulos, chocalhos e cuicas, os folcloristas fazem referências a São Benedito e Nossa Senhora da Conceição por todo o Brasil.
 
A maioria das pessoas pertence a famílias de paneleiros. Esta, aliás, é a marca registrada da região. Segundo o chaveiro e tocador de casaca Lauro de Lima Silva, 45 anos, a legítima panela de barro é feita de uma argila especial, encontrada somente no Vale de Mulembá, no bairro de Joana D’Arc, zona oeste de Vitória. As peças são tingidas com tanino – produto obtido da casca da árvore do mangue – e utilizadas para o preparo de pratos como a moqueca e a torta capixaba.
 
Reisado sergipano

A companhia de reisado do vilarejo de Marimbondo, em Pirambu, Sergipe, é retrato da genealogia da família de Antonio dos Santos, 60 anos, o mestre Sabá.
 
A tradição vem de 1805, quando seus bisavós começaram a reunir familiares no Natal para celebrar a chegada do Menino Jesus. “Da minha bisavó passou para o meu avô, que passou para minha mãe, que passou para mim”, conta mestre Sabá, cujo o riso revela a persistência e a força do povo do sertão nordestino.
 
Hoje o reisado envolve cerca de 30 pessoas, todas elas ligadas à família Santos. Oito são filhos de mestre Sabá. “Se duvida, eu mostro o documento”, brinca. Genros, noras, sobrinhos e netos completam a lista.
 

A manifestação do reisado de mestre Sabá é uma profusão de ritmos que dominam a musicalidade nordestina. O mestre se arma de roupa colorida, relembrando o palhaço da típica Folia de Reis do sertão paulista. O coro feminino que o acompanha se reveste de verde e fitas coloridas para cantar a adoração ao Deus Menino.

 

 
Festival do Folclore viaja pelo artesanato de Minas

A força do artesanato de Minas Gerais é evidenciada no 43º Festival do Folclore de Olímpia. O pavilhão principal da Praça de Atividades Folclóricas reúne trabalhos de diversas regiões do Estado homenageado, que podem ser conferidos pelo público até sábado.
 
No vilarejo de Planalto de Minas, em Diamantina, a palha de milho dá vida a bonecas de todas as formas, inspiradas na personagem de Xica da Silva.
 
Conforme a artesã Maria Luzia de Paula, a confecção das bonecas é feita há 13 anos por 33 artesãos, que receberam apoio de vários órgãos técnicos como Embrapa para aprimoramento da produção. “Hoje usamos uma espécie de milho selecionado pela Embrapa cuja palha é mais resistente e permite fazer o corpo e a saia rodada da boneca”, conta.
 
Flor típica do serrado mineiro, a “sempre-viva” é matéria-prima dos artesãos de Galheiros, outro distrito de Diamantina. Seca e com longos cabos, é ideal para a confecção de arranjos e luminárias. Cerca de 30 famílias sobrevivem deste tipo de artesanato.
 
“Todos colhiam as flores para vender, mas, com o risco de extinção, recebemos apoio de várias entidades para iniciar a produção do artesanato de forma sustentável”, explica José Borges, integrante da comunidade de Galheiros.
 
Quem não dispensa bom gosto na escolha de esculturas vai se deliciar com os bustos feitos de barro pelo artista Paulo Avelar, de Sete Lagoas. Inspirado nas senhoras com lenços na cabeça e vestidos de chita que habitaram sua infância, ele recria figuras humanas e situações tipicamente caipiras como o vendedor de frangos e o fogão à lenha.
 
Também encantam os olhos de crianças e adultos as rosas criadas a partir de folhas naturais desidratadas, feitas pela artista Maria Tarraga, de Lambari.
 
“Colhemos a planta, cozinhamos para tirar a clorofila, tingimos e montamos a flor”, diz.
 
 
 
Fonte: Harlen Félix e Daniela Fenti – Bom Dia Rio Preto – http://www.bomdiariopreto.com.br

Capoeira conquista adeptos no mundo árabe

Quando o berimbau começou a tocar, havia 26 pessoas na pequena sala de ginástica em Rabat: a maioria marroquinos, meia dúzia de refugiados do Congo e uma dezena de belgas, franceses, espanhóis e angolanos. Apenas três, incluindo Braz, um dos instrutores, eram brasileiros.
Mas quase toda a aula de capoeira, além dos cantos, foi em português, língua que muitos começam a dominar. 
Depois da Europa e dos Estados Unidos, a capoeira está ganhando adeptos no mundo árabe.
 
No Marrocos, onde acaba de ser realizado um encontro internacional, existem grupos em pelo menos quatro cidades: Casablanca, Essaouira, Salé e na capital, Rabat.
 
Mas a arte marcial brasileira, desenvolvida pelos escravos vindos da África, já fincou seus pés também na Argélia e no Egito.
 
Integração
 
Para o instrutor Zohir Lakhdar, mais conhecido como Saguim, "a capoeira é um instrumento de integração" num mundo marcado por tensões sociais, culturais e religiosas.
 
Nascido há 32 anos na Bélgica, de pais marroquinos, ele aprendeu capoeira e português em Bruxelas, com o mineiro Venceslau Augusto de Oliveira – o Braz. Em maio de 2005 resolveu mudar-se para o Marrocos e introduziu a capoeira em Rabat.
 
Seguindo o exemplo de Braz, Saguim incorporou a capoeira a projetos de integração social.
 
Funcionário do Ministério das Relações Exteriores e de Desenvolvimento do Marrocos, nas horas vagas ele dá aulas de capoeira numa academia, a um grupo de meninos pobres de Rabat, a outro de adolescentes de Salé e a cerca de 20 refugiados do Congo.
 
Foi ele que organizou o encontro internacional, realizado no início do mês, com a participação de capoeiristas da Bélgica, França, Espanha e Brasil.
 
"Com tanto conflito, desemprego e pobreza, os jovens de hoje precisam de um modelo, para não caírem no fatalismo e no desespero", diz Saguim, que dá suas aulas num português salpicado de francês e árabe.
 
Segundo o marroquino Driss Jaouzi, de 33 anos, nada mais natural do que ter aula numa língua estrangeira.
 
"É o que acontece no mundo islâmico. Existem muçulmanos de muitas nacionalidades, mas na hora de rezar todos rezam em árabe. Sendo assim, por que não jogar capoeira em português, já que a capoeira é brasileira?" pergunta Jaouzi, o Tijolo.
 
Projetos sociais
 
Aluno de Braz em Bruxelas, Tijolo é seu braço direito nos projetos sociais que está desenvolvendo, tanto no Brasil e na Bélgica quanto no Congo.
 
Em Bruxelas, eles trabalham com jovens de bairros pobres da periferia – muitos deles filhos de imigrantes marroquinos.
 
O próprio Braz conta que é "fruto de um projeto social". Ele praticava capoeira desde os seis anos de idade com seus irmãos em Vila Maria – uma favela de Belo Horizonte que virou bairro.
 
"Na época, havia tanta violência que a favela era conhecida como Poca Olho", lembra Braz. "Mas o Projeto de Integração da Criança pela Arte (Poca) transformou um nome de conotação pejorativa em algo positivo."
 
Foi graças a um intercâmbio cultural que Braz viajou para a Bélgica, onde formou-se em educação física e acabou se instalando. Mas ele continua promovendo projetos sociais em Minas Gerais e, a partir deste ano, começou a trabalhar no Congo, com "meninos soldados" e orfãos da guerra.
 
"A capoeira é mais do que uma disciplina esportiva. É um instrumento para estabelecer certos parâmetros e canalizar energia, num mundo de violência."
 
Nas aulas durante o encontro internacional, Braz explicava que na capoeira "ninguém luta, todos jogam" e que "não existem adversários, apenas parceiros".
 
O mesmo recado foi dado pelo instrutor espanhol David Balarezo, o Bala, que vive em Madrid e desembarcou em Rabat com um grupo de capoeiristas espanhóis e duas educadoras sociais.
 
Diálogo
 
Mesmo sem a presença de instrutores, grupos de capoeiristas estão brotando em diversas cidades.
 
É o caso da associação Capoeira Mogador, de Essaouira – cidade turística na costa marroquina. Foi formada por jovens que descobriram a capoeira na Internet, graças a sites como You Tube.
 
Um deles, Redouan, de 27 anos, fabricou um berimbau. "Tinha mil defeitos. A corda estava mal-amarrada, o som estava errado, mas um turista me viu andando na praia com o instrumento e me perguntou se eu era capoeirista", conta Redouan. "Para minha sorte, ele era capoeirista e nos deu algumas aulas."
 
No Cairo, um grupo de 20 pessoas está treinando sozinho, enquanto espera que alguém responda a um anúncio de "busca-se professor" no site www.capoeira.com
 
Segundo o capoeirista belgo-marroquino Jaouzi, o sucesso da capoeira é a sua versatilidade.
 
"A capoeira é um diálogo, aberto a todos. Reúne tradição e muitas formas de expresão: canto, percussão, ginga e acrobacia. Ou seja, é sempre possível encontrar alguma coisa para fazer."
 
* Monica Yanakiew
De Rabat
 
Fonte: BBC Brasil.com –
http://www.bbc.co.uk/portuguese/

As Bantas Coisas de Alagoas – culturas negras, passado e presente

Às comemorações da saga palmarina acrescentemos um olhar na dinâmica das culturas afro-alagoanas de hoje, e outro nas trajetórias que as fizeram como são
Mais um novembro de merecidas comemorações nacionais à consciência negra. Em Alagoas, deveríamos acrescentar uma necessária atualização: a de que fomos e continuamos a ser um território marcadamente afro-brasileiro. Esta poderia ser uma espécie de contrapartida do presente à saga palmarina do passado.
Ao menos em Maceió, em certa medida continuamos cegos e ignorando a cidade negra sobre este chão, e diante dos nossos olhos. Temos grande escassez de estudos sobre diferentes características da afro-brasilidade e insistimos, por isso mesmo, em não reconhecer a imensa força simbólica de tal pertencimento cultural. Na verdade, nos habituamos a envolver muita coisa sob o pano enganoso do folclore; quando disso se faz apenas o discurso da pretensa herança "comum" do "povo" ou da "alma alagoana". Vistos assim, muitos elementos étnicos que nos formam perdem a identificação de suas matrizes, empobrecendo a compreensão sobre nós mesmos.
O fato é que há uma África específica que nos habita desde aqueles primeiros navios do atlântico negro, nos meados do século XVI. Esta é, em grande medida, uma África dos povos de tronco lingüístico banto (ou bantu), e que está em nossas palavras, em nossas "gingas" e "mogangas"; rasteiras e umbigadas de tantas capoeiras, sambas e batuques. Em nossos fazeres, saberes e sabores diários que degustamos na ignorância de sabê-los negros, africanos, alagoanos, afro-alagoanos.
Por isso, leitor, quando pronunciar "gunga" você estará falando da praia alagoana, mas, provavelmente sem o saber, estará também se referindo a "berimbau pequeno". Se disser "mutange" ou "cambona" estará falando banto; e se der de ombros ou apontar com o queixo ou beiço, se dançar um samba de roda, se improvisar o "passo" num frevo rasgado, ou jogar uma capoeira de Angola, se utilizar a quase totalidade de nossas expressões informais para a sexualidade, mas, também ainda, quando se dobrar ante a força de um Preto Velho num terreiro Umbanda ou "Xambá" – linha de culto afro-brasileiro de influências banto e cabocla – saiba, você estará exercendo seu lado "banto".
O português praticado em Alagoas é de tal forma marcado pela presença banta que Rodolfo Garcia, em seu Dicionário de Brasileirismos, não hesitou em afirmar que por aqui esta influência foi maior que aquela herdada dos ameríndios. Mas não somente assim estão presentes as inúmeras referências bantas em Alagoas e no Brasil.
Dos povos bantu herdamos valores morais, espirituais, religiosos, estéticos, sociais e políticos, técnicas corporais, tecnologias agrícolas, comportamentos coletivos associativistas, modelos de organização familiar e outros. E é por isso que o africano não contribuiu com a cultura brasileira, pois quem contribui o faz "de fora"; ele a constituiu, isto é, a elaborou "por dentro".
O termo bantu deriva de "ba-ntu" , plural de mu-ntu (pessoa, indivíduo), e se refere a uma imensa família etno-linguística da qual descendia o maior contingente de escravos trazidos para o Brasil, aqui chamados angolas, cambindas, congos, benguelas, moçambiques, entre outras denominações. Foram negros bantos provenientes, sobretudo, dos atuais territórios de Angola, falantes do quicongo, do quimbundo e do umbundo, entre outras línguas; da República Democrática do Congo (Congo-Kinshasa, ex-Zaire) e da República Popular do Congo (Congo-Brazzaville), falantes do quimbundo e do quicongo, entre outras, que constituíram a força de trabalho africana espalhada inicialmente na costa brasileira, entre os séculos XVI e XIX, formando a quase totalidade dos negros cativos em Alagoas. Os rebeldes de Palmares, por exemplo, eram seguramente bantos, em sua maioria e talvez mesmo em sua totalidade.
Os bantos formaram uma civilização capital no processo de povoamento do continente africano. Acredita-se que ali a expansão humana ocorreu do Norte para o Sul, ou seja do Egito à África do Sul. Os agrupamentos mais antigos também se estabeleceram na região abaixo do Saara, a Noroeste. E deste ponto partiram os bantos e os chamados sudaneses. Enquanto os sudaneses permaneceram na rota Oeste-Leste, até o atual Sudão oriental, estacionando acima da linha do Equador, os povos bantu espalharam-se rumo ao Sul, sendo hoje encontrados majoritariamente tanto na África ocidental quanto oriental.
As influências lingüísticas do tronco bantu localizam-se, quer em línguas preponderantes quer minoritárias, nos seguintes países africanos: Camarões, Guiné Equatorial (parte do Gabão), Angola, Congo-Kinshasa (República Democrática do Congo), Congo-Brazzaville (República Popular do Congo), Ruanda, Burundi, Uganda, Quênia, Tanzânia, Zâmbia, Botsuana, Namíbia, Moçambique e África do Sul. São milhões de bantos falantes de mais de 450 línguas de um mesmo tronco lingüístico!
Para o Brasil, as maiores contribuições vieram das línguas quimbundo, umbundo e quicongo, grandemente incorporadas no português que falamos. No nosso país, e ao contrário do que se passara na costa africana, não tivemos a formação de uma língua de contato, uma língua geral entre africanos e portugueses, como o crioulo, tamanha esta influência de línguas bantos no falar brasileiro. Apesar desta forte presença, os negros bantus sofreram imenso preconceito no Brasil, e não apenas do homem comum, mas de intelectuais do porte de Caio Prado Junior, Sílvio Romero, Afrânio Peixoto, Manuel Diegues Jr., e até mesmo de militantes negros como Édison Carneiro. Via de regra, foram vistos como mais "atrasados", ou como mais "submissos" que outras etnias africanas aqui aportadas pela escravidão.
Portanto, não foram apenas os negros bantos os escravos trazidos para o Brasil. Em menor volume, e provavelmente apenas na fase final do escravismo (fins do século XVIII e primeira metade do XIX) aqui chegaram os chamados sudaneses – por referência ao antigo Sudão, reino que compreendia desde o atual Sudão oriental até a costa ocidental, no atuais Benin, Senegal e Nigéria. Dos sudaneses os escravos chamados "malês" eram islamizados, sendo os demais chamados genericamente nagôs, sobretudo dos grupos jeje-mina e nagô-iorubá, e nos trouxeram a religião dos orixás, tal como a conhecemos hoje pelos nomes de Xangô, Candomblé, Tambor de Mina e outras denominações. Os malês se tornaram famosos por suas revoltas urbanas na Bahia, com uma pequena presença em Alagoas; já os demais são, até hoje, reconhecidos na linguagem litúrgica dos cultos e nalguns termos incorporados ao português brasileiro. Muito provavelmente, para estes sudaneses foi vantajoso permanecerem freqüentemente nas cidades brasileiras, e em particular em Salvador. Com o "feitor ausente", obtiveram condições mais favoráveis à rebelião e/ou preservação da língua e das crenças. Para os bantos, restou uma presença mais "invisível" e mais antiga, mas muito mais dilatada em diferentes domínios: a língua portuguesa do Brasil, as artes culinárias, corporais, musicais, os bailados e danças dramáticas brasileiras.
Manifestações
Estando em Alagoas por muito tempo no espaço rural, na Zona da Mata dos engenhos de açúcar, o negro escravizado possibilitou (tirei o termo para") que hoje Alagoas seja tomada como um celeiro de manifestações folclóricas, em particular nas músicas e danças, como os pagodes -não confundir com o pagodão paulista – e os sambas, outros nomes dos cocos alagoanos, inúmeros como dança e canto, segundo ensina Aloisio Vilela: coco topado, remado, travessão, cavalo manco, trupé repartido, o sete e meio, o xipapá, o falado, o dobrado, o tranquiado, o de entrega, o de roda, o de "pareia", o coco solto, etc. Invenções rítmicas, coreográficas da cultura popular de Alagoas que, como se sabe, resultaram de um contexto – nos sentidos social, psicológico, político e cultural – muito específico, o da escravidão; e depois o do mandonismo senhorial de compadrio, esta forma de relacionamento bastante conhecida, às vezes adocicada na pena romântica da crônica condescendente dos resenhistas de nossas origens. Diegues Jr. lembra, a propósito, que manifestações como o coco seriam produtos gestados pelos empregados das fazendas, mas para uso coletivo nos pátios, isto é, uma produção cultural de mediação social, uma criação "para fora", para todos. Deste modo também, ao que parece, muitas características estéticas foram misturadas às formas lusitanas (ou ibéricas) e ameríndias de folguedos e festejos. Assim, não se deve esperar que as referências afro-brasileiras sejam apenas aquelas nítida e claramente reconhecíveis como "africanas".
Foram dessas realidades negociadas a partir das fazendas e engenhos alagoanos que brotaram formas culturais ambivalentes ou ambíguas quanto ao reconhecimento social dos teores de negro-alagoanidades que as preenchem. Isso transparece com nitidez no chamado "folclore negro", que para Alagoas os estudos de Abelardo Duarte listaram: as danças do coco alagoano, do buá, do bate coxa, e ainda do lundu; as músicas do esquenta-mulher e dos barbeiros; a literatura oral negra do ciclo do Pai João, das cantigas de ninar e dos adágios populares; a escultura, como a estatuária fantástica, radicalmente distinta da européia; as profissões "de ganho", como os vendedores ambulantes e as baianas quituteiras da velha Maceió, no centro e em Jaraguá, lembradas por Félix Lima Jr; e os folguedos populares, hoje mais ou menos vivos e mais ou menos mortos, como o Bumba-meu-Boi, o Reisado, o Guerreiro, as desaparecidas Taiêras, as Baianas, o Quilombo, e o finado Maracatú.
Ora, se essa influência está assim disseminada, "hibridizada" ou "sincretizada" na forma "afro-brasileira" ou "afro-alagoana", o esforço de conhecê-la (ou reconhecê-la) é aquele de evitar que sejamos, por exemplo e por ignorância, racistas de nós mesmos. Também é preciso considerar este processo de fusão de referências como estando em pleno vigor, o que evita o congelamento dessas referências no tempo e no espaço. Somos bantos sim, pelas centenas de gestos e expressões corporais, de grupos de capoeiras e bandas afro, pelos instrumentos musicais, pelos brincantes de folguedos, pela maneira com que professamos, aberta ou veladamente, crenças mágico-religiosas. E por falar em religião, foi do sistema de crenças banto, aliás, que veio boa parte dos elementos que integram os cultos umbandistas. E foi como religião sincrética que o Xangô (ou Candomblé) ressurgiu com força em nossa cidade, desde os anos duros do início do século XX. Não sem razão o nosso Candomblé tem se autodenominado de "traçado", isto é misturado de nagô com umbanda, de orixás, inquices e caboclos. Xangô com Umbanda, como se diz, por força das linhas bantas ditas "de Angola".
O elogio a este processo sutil de misturas culturais deve soar como um signo da vitória da cultura sobre a raça, como uma fórmula a evitar que a mestiçagem seja lida como mera ideologia do recalque, mas, bem ao contrário, que represente a exata medida de nossa auto-referência. Isto em vez de restringir alargaria a definição do ser alagoano, quanto à cultura que se supunha sob este rótulo existir, mas também quanto à composição social desse mesmo ser.


Angolafobia
Por que é importante retomar esses laços afro-alagoanos?
Não fosse para gerar informação e atualização seria, ainda, para não pararmos nas generalidades sabidas, de gostos senhoriais e ainda tão vivos mesmo que extemporâneos, e que em salões ou colunas de jornais a tudo dilui numa confraternização sem fim da "gente alagoana".
É necessário retornar às pistas sugeridas nos poucos autores locais que se debruçaram sobre as afro-alagoanidades (à frente de todos, Abelardo Duarte), dispersas ou ofuscadas pela característica violência de nossa formação social. Foram séculos de ignorância, ironia e preconceitos, que obliteraram a clareza e obviedade do nosso cotidiano real, sem as mistificações discursivas, literárias ou outras. A vida real desta gente crescida no sururu, no mungunzá e no pé-de-moleque.
Quais seriam, então, os mais reais representantes desta África escondida em nós? Seriam quilombolas, papa-méis e, hoje, cata-papéis. Porque a pobreza herdou os negros alagoanos, e deu uma cor escura à pele da miséria. Esta gente apelidada de povo, mas, contudo, sempre exibida num corpo desossado como um polvo.
Insistimos em falar da Nega Jujú, uma imagem bem nossa e bela, mas, olhando direitinho, uma negra imaginária, uma "negra maluca" criada nos anos da era Vargas, naquela pequena, pacata e provinciana Maceió. Tudo bem, a Nega Jujú é mesmo um de nossos patrimônios imateriais.
Ora, mais importante e mais real, patrimônio esquecido, foi a Marcelina; porque negra real de terreiro, negra de Xangô, que apanhou com o pau do ódio às coisas de África, essa lembrança que se quis apagar com uma sova na gente crédula de seu passado.
Foi numa Alagoas – e numa Maceió – senhorial, violenta, e branca em sua vontade de negar-se a si mesma, que se calaram todos os que tinham voz ante o massacre das casas de cultos afro-brasileiros. E o pau cantou, deitou e rolou naquela noite de 1 de fevereiro de 1912. Eis aí uma data que ainda nada diz para quem dela poderia fazer a lei de seu reconhecimento e de sua memória social. Assim como o 20 de novembro, data nacional, por que não esta data local sobre a mesma causa? Ou continuaremos calados?
Calados ficaram todos os homens de voz daqueles anos duros e intolerantes: poetas, acadêmicos, políticos, jornalistas. Neste caso, poder-se-ia dizer, a riqueza herdou os envergonhados "homens bons", ditos de boa cepa ou "de família".
Não deixa de ser sintomático sobre a eficácia desta violência – chamada também de "operação Xangô" – e do silêncio que produziu, o fato de que já em 1935, quando lança o seu livro Folk-Lore Negro do Brasil, Arthur Ramos ainda se referir ao massacre de 1912 como "batidas policiais", quando hoje sabemos ter sido uma ação coletiva civil e de oposição ao governo de então. Foi justamente por não se tratar de ações policiais, corriqueiras em todo o país, que o "quebra de 1912" é acontecimento único de intolerância religiosa no Brasil. Um vexame histórico, uma vergonha secular da terra da liberdade! A partir de 1912, algumas coisas parecem ter mudado para sempre.
Maracatú (palavra banto)? Nem pensar nisso por aqui. Não, isso já seria, então, demais; pois o indisfarçável Xangô ou Candomblé (palavra banto) estava contido nessa gente de Maracatú. Melhor seria, e na prática o foi, trocá-lo por fórmulas mais brandas e católicas. Que tal uma igreja se fazendo chapéu? Mil vezes a Calunga se querendo santa. Ficou tão esquecido e ofuscado entre nós o Maracatú que Abelardo Duarte conta que por ocasião da IV Semana Nacional de Folclore de 1951, que se passou em Maceió, Théo Brandão quis organizar um grupo deste folguedo mas desistiu, pois "não havia jeito das "Baianas" do Maracatú dançarem no ritmo conhecido; só dançavam no ritmo das Baianas."
Tire-se, então, os batuques e umbigadas de tão bantas feições. Coloque-se em seu lugar algum passo quebrado dito mais folclórico, pincelado de lusitanismos e indianismos. Enfim, nada de tanta Angola em Alagoas. Uma agonia ou uma angolia? Angolofobia. Aliás, e a propósito, angola era como os portugueses se refeririam ao Reino de Dongo, e vem o termo do banto Ngola , ou "o divino".
E se poderia ler sossegadamente o belo poema erudito: "que medo danado de negro fujão". A poesia negra? Só se for na versão erudita. Lembranças do rio Congo? Só se for na poesia de Raul Bopp.
Congo, antigo reino banto aonde, à foz do rio de mesmo nome, chegou a expedição portuguesa de Diogo Cão em 1482, reino que de tão grande deu quatro novas nações africanas. Do Congo nem as congadas, correntes no Brasil, foram para nós atrativas. Na porta de nossas igrejas, nada, ou quase nada, dessas bantas "bagunças". Nada de tambores, nada de tão real e negra presença de África. Era um medo danado. Manuel Diegues Jr., no seu "O Bangüê (palavra banto) das Alagoas", insuflado pela pena de Alfredo Brandão deste repete o argumento do catolicismo dos escravos daqui, que assim "não se deram à prática de cerimônias religiosas próprias". Por isso, facilmente exterminamos os Maracatús – na verdade, poderíamos aceitá-los, desde que como uma folclórica e caricatural "Nega da Costa"; pois até mesmo como Taiêras deixamos morrer.
O mestre Félix, lá de Jaraguá, do Xangô e do Maracatú, naquela velha Maceió humilhada desapareceu das ruas. Quem quiser, no entanto, poderá encontrá-lo nos jornais dos anos 1930, brincando novamente o Carnaval, mas com adequado folguedo lusitano!
Ao horror dos Palmares, impregnado em séculos de senzalas bem seguras e de negros bem aprisionados, acrescentemos essas nossas maldades tardias: primeiro, aquela da Cabanada e seus negros "Papa-méis"; depois, de modo exemplarmente alagoano, a maldade do quebra-quebra de 1912. Quando veio este massacre dos terreiros, fizemos até festa sobre os pertences sagrados daquela gente (hoje, coleção Perseverança do Xangô alagoano, no IGHAL); humilhando por décadas a fé alheia, e impondo-lhes ou o total silêncio ou o Xangô "rezado" baixo, como ficou conhecido.
Por último, enforcamos o derradeiro rebelde negro do escravismo no Pilar, à margem do mesmo Mundaú que corria também logo ali abaixo da Serra da Barriga (mais uma vez o poeta Jorge de Lima, em Serra da Barriga: "Mundaú te lambeu, Mundaú te lambeu"). E assim fechamos por último, e com "chaves de ouro", o capítulo brasileiro do pânico à negritude altiva ou rebelde.
E depois? Bom, sempre esquecemos de dizermos negras até as lembranças recentes de um Moleque Namorador ou de um "Ras Gonguila", brincantes maiores do Carnaval; às vezes até da recentíssima Joana Gajurú, e de tantos outros personagens já agora bem esquecidos por nossa cegueira histórica.


Bruno César Cavalcanti
Professor de Antropologia e pesquisador do Laboratório da Cidade e do Contemporâneo (LACC) do Departamento de Ciências Sociais da UFAL.Juntamente com a Profª Rachel Rocha, realiza a pesquisa Mapeamento Cultural Afro-brasileiro de Maceió, LACC/Afro-Atitude/Universidaids MEC/MS/UFAL.

Mulheres Guerreiras Capoeiras

A escravidão migra do campo para as cidades e os escravos e escravas de ganho tornam-se essênciais nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Minas Gerais; estes escravos deviam gerar renda para seu próprio sustento e os que ainda não eram libertos, além disto deveriam levar parte do ganho aos seus senhores. Estes eram denominados pelos brancos como “boçais” quando não dominavam a língua portuguesa e “ladinos” aos que aqui nasciam ou chegavam após a proibição do tráfico em 1850. O comércio por eles promovido era o mais diversificado possível, de alimentos à utensílios domésticos.
 
Entre os negros e negras de ganho havia uma certa hierarquia a ser respeitada de acordo com o ganho e a etnia Malé, Ijexá, Cabinda, Nagô, Bantu… As mulheres escravas e forras que se dedicavam ao comércio muitas vezes eram consideradas inadequadas e imorais por se defenderem publicamente de agressões à elas causadas por fiscais da Coroa Portuguesa. Elas procuravam defender seus filhos e mercadorias do abuso português. Vamos falar um pouco destas guerreiras, Aqualtune, Dandara, Eva Maria do Bonsucesso, Teresa de Benguela, Luísa Mahin e outras.
 
Read More