Blog

crônicas da capoeiragem

Vendo Artigos etiquetados em: crônicas da capoeiragem

Frede Abreu: O Grande pesquisador da Capoeira

Todos aqueles que amam a capoeira e se interessam em conhecê-la mais a fundo, suas histórias, seus personagens, os fatos importantes, enfim, todos aqueles que buscam compreender melhor essa rica manifestação da cultura afro-brasileira, devem muito àquele que foi um dos maiores, senão o maior pesquisador da capoeira de todos os tempos: Frederico José de Abreu, ou simplesmente Frede Abreu, como era conhecido no meio.

Frede Abreu não está mais entre nós, partiu pras “terras de Aruanda” em julho de 2013, mas deixou como legado uma obra importantíssima, através dos muitos livros, artigos, crônicas e textos que escreveu, além de um enorme e rico acervo organizado por ele composto de documentos, livros, fotografias, filmes, revistas, jornais, etc., que pode ser considerado o maior acervo sobre capoeira existente.

Mas o mais importante, é que Frede sempre foi um sujeito muito generoso. Ele sempre abriu as portas de sua casa – onde todo esse acervo era guardado – pra qualquer um que desejasse pesquisar e se aprofundar no conhecimento sobre a capoeira. Ele sempre acolheu de forma muito amável todos que o procuravam: pesquisadores, estudantes, capoeiristas, historiadores, e contribuiu de forma efetiva para a maior parte de toda a pesquisa produzida sobre capoeira no Brasil e também no exterior. É muito difícil encontrar algum livro, artigo, documentário, tese de mestrado ou doutorado sobre capoeira no qual ele não seja citado ou não tenha colaborado de alguma forma.

Frede viajou por todo o Brasil e também para o exterior, onde sempre era convidado a participar de eventos, conferências, seminários, palestras ou simples “bate-papos” sobre capoeira. E fazia isso sempre com muita boa vontade, prazer, simpatia e bom humor que caracterizavam esse baiano que nunca se recusou a dividir o seu amplo conhecimento sobre a nobre arte da capoeiragem, quando era requisitado, por quem quer que fosse.

Mas a contribuição de Frede Abreu para a capoeira vai ainda mais além: ele foi um dos responsáveis pelo retorno do mestre João Pequeno à capoeira. João tinha se afastado  da capoeira no início da década de 1980, depois da morte de Pastinha, e se dedicava a vender legumes e verduras numa barraca na Feira de São Joaquim, junto com sua esposa, a querida  “Mãezinha” como é conhecida por todos. Frede então articulou a volta de João, e foi o responsável pela organização da sua academia, que foi instalada no Forte Santo Antonio além Carmo, e se constituiu como o centro de todo o movimento de recuperação da capoeira angola, que nessa época passava por um momento difícil, num processo de franca decadência. Pela academia e sob a liderança de João Pequeno, passaram todos os mestres que foram importantes para o movimento de renovação e revigoramento da capoeira angola, desse período histórico em diante.

Há alguns anos, Frede conseguiu apoio do governo federal para enfim organizar o seu vasto acervo, criando o Instituto Jair Moura que durante algum tempo funcionou no bairro do Garcia em Salvador. Mas esse apoio não teve continuidade e todo o acervo voltou para a sua casa, num quarto onde tudo continua a ser guardado com muito zelo pela sua família.

Esperamos que as autoridades se sensibilizem com a importância da preservação e organização desse verdadeiro tesouro sobre a memória da capoeira que Frede reuniu com  tanto carinho e dedicação, durante tantos anos, e está ameaçado de se degradar pela falta de um local adequado sob a orientação de profissionais especializados.

Frede se foi, mas seu sorriso franco, seu fino senso de humor, sua disponibilidade e generosidade, seu carisma como ser humano e seus inestimáveis serviços prestados à capoeira ficarão eternizados entre todos aqueles que valorizam a memória social de um país que sofre de “esquecimento crônico”, como é o caso do Brasil.

Um axé meu amigo, onde quer que você esteja !

Capoeira sem mestre

Temos visto ultimamente, principalmente em alguns países europeus, o surgimento de vários grupos de capoeira cuja característica é a de não se vincular a nenhum mestre. Grupos que se caracterizam pela autogestão, cujos próprios integrantes se revezam na tarefa de “puxarem” os treinos e comandarem as rodas. Grupos que não se vinculam a nenhuma “linhagem” de capoeira. Muitos desses grupos, inclusive, se baseiam em vídeos do YouTube e outras ferramentas virtuais para aprimorarem suas sequências de movimentos, golpes, etc.

Entendo que essa iniciativa é, a princípio, muito interessante, pois as responsabilidades são assumidas coletivamente, dentro do princípio de horizontalidade de poder, onde “ninguém manda em ninguém”, onde não existe hierarquia, a não ser pelo tempo de vivência na capoeira de cada um.

Todas as formas autogestionárias devem ser saudadas e valorizadas nesse mundo atual, pois significam formas alternativas de se viver em coletividade, criando novas sociabilidades que se contrapõem à perversa lógica do capitalismo, em que sempre tem que haver alguém para mandar (os que têm dinheiro, e consequentemente poder), e alguém para obedecer (os quem não têm).

Porém, não podemos esquecer que a capoeira não se trata de mera atividade física, ou outra atividade social qualquer. Trata-se de uma manifestação cultural originada de tradições muito profundas, com raízes na ancestralidade africana e na história de luta contra a escravidão no Brasil. Tudo que a capoeira é nos dias atuais, foi fruto de um processo histórico em que foram se acumulando vivências de homens e mulheres que muito sofreram e lutaram, para que essa tradição fosse mantida e chegasse até os dias de hoje.

O mestre de capoeira representa o elo entre esse passado de lutas e sofrimentos, e o presente onde se encontra a capoeira atualmente, espalhada pelos quatro cantos do mundo. O mestre de capoeira tem a missão quase sagrada, de não permitir que esse elo se rompa ! De garantir que os saberes envolvidos na prática da capoeira, sejam transmitidos de forma a respeitar esse passado, a valorizar essa história dessa gente, de manter a tradição viva, mesmo entendendo que a cultura é dinâmica e vai se transformando através dos tempos.

Arrisco dizer que existem princípios vinculados à prática da capoeira que, se não forem mantidos e respeitados, correm o risco de fazer essa tradição se transformar numa simples prática corporal, ou num mero produto comercial, ou ainda, apenas em mais uma modalidade olímpica (como aconteceu com o judô). E sabemos que a capoeira é muito mais do que isso !

Por isso, entendo que o papel do mestre é muito mais do que simplesmente ensinar um movimento ou um golpe. O mestre deve ser detentor de um conhecimento que vai sendo adquirido ao longo da vida, que vai muito além da sua capacidade física de realizar determinado movimento. Ele deve ser consciente sobre o papel de ser o responsável pela transmissão desses conhecimentos para as gerações mais novas. E por isso deve se preparar durante boa parte de sua existência para poder cumprir essa missão. Isso geralmente leva bastante tempo e por isso também não acredito em mestres de capoeira muito jovens. Eles ainda têm muito que aprender antes de se considerarem mestres.

Então, pergunto eu aqui com meus botões:  como esses grupos autogestionários lidam com isso ? Preocupam-se somente em aprender e aperfeiçoar os movimentos para aplicá-los no jogo ? E as questões históricas, ancestrais, ritualísticas, que peso têm para eles ? Que preparo possuem essas pessoas para lidarem com essas questões ?  O que a capoeira perde, quando é encarada somente como esporte ou prática corporal  ?

Ficam essas questões para reflexão, ou pra quem se aventurar a respondê-las !

Pedro Abib

* Sobre a Ilustração escolhida pelo Editor: Capoeira: sem mestre – Lamartine Pereira da Costa

Sobre o Autor:

O Professor Lamartine Pereira da Costa é um ícone da Educação Física Brasileira e faz parte do seleto grupo de profissionais que contribuíram decisivamente para a evolução acadêmica, técnica e científica dessa área.

O Livro:

O livro completou cinquenta e um anos de publicação. De uma certa forma, podemos dizer que o autor antecipou-se ao movimento de crescimento da capoeira e percebeu a importância que a capoeira viria a assumir no cenário cultural brasileiro.

A publicação é datada: é retrato de um momento em que se acreditava que a capoeira se fortaleceria como um método ginástico, ou como uma modalidade de luta, mais do que uma manifestação de forte conteúdo cultural, étnica e social. É um interessante registro de uma época da história da nossa capoeiragem.

Luis Renato Vieira

Palavra do Editor

Em tempo iremos publicar uma matéria mais ampla sobre o tema aproveitando esta fantástica chamada do nosso grande camarada Pedrão… que se esmerou na cronica… e fazendo a chamada!

Um tema nuclear, importante e que deve fomentar uma discussão mais aprofundada sobre o cenário do ensino da capoeiragem em todos os níveis.

Luciano Milani – Editor

Mestre Bigodinho: Capoeira não se faz, se joga !

Mestre Bigodinho, batizado como Reinaldo Santana, nasceu em Conceição de Feira, no ano de 1933, mas foi no Acupe – distrito de Santo Amaro que se criou em meio a efervecência cultural do Recôncavo, onde também teve as primeiras lições na capoeiragem. Já rapaz, se mudou em 1950 para Salvador, onde logo conheceu Auvelino, mestre de Berimbau que o acolheu e ensinou os segredos da arte desse instrumento, que acabou tornando mestre Bigodinho famoso.

Mas não foi só tocando berimbau que Bigodinho encantava a todos, não ! Durante mais de 25 anos Bigodinho frequentou o famoso Barracão de Mestre Valdemar da Paixão, tempo em que, segundo ele, “menino e mulher não jogavam”. Conviveu com capoeiras famosos como Traíra, Zacarias, e tantos outros que frequentavam o Barracão, sendo ele também um dos capoeiras mais respeitados do lugar. Excelente cantor e compositor, ficou conhecido também pela forma muito particular de entoar as ladainhas e corridos que compunha.

Coordenou na década de 1960 o Grupo Resistência, no bairro da Lapinha, em Salvador. Sempre dizia que ele era do tempo em que polícia reprimia as rodas e ameaçava: “pare, senão eu furo o pandeiro e quebro o berimbau !”. Chegou a integrar também o Grupo Folclórico “Viva Bahia”, coordenado por Emília Biancardi, que teve importância na divulgação da capoeira pelo Brasil e também pelo mundo. Se tornou mestre em 1968.

Bigodinho se afastou da capoeira na década de 1970, ficando um longo período inativo. Voltou à cena somente na década de 1990, por influência de seu amigo Lua Rasta. Segundo o pesquisador Frede Abreu, mestre Bigodinho teve grande importância no processo de revitalização da Capoeira Angola nos anos 70/80, pelo conhecimento que possuía. Diz Frede que “ele conheceu e conviveu com muitos mestres antigos e sabia das coisas”.

Em 2007 aconteceu o “Tributo à Mestre Bigodinho”, uma iniciativa de seu amigo, o mestre Lua Rasta, que junto com o seu “bando anunciador”, formado por capoeiristas de todas as linhagens, fez das ruas do Acupe uma grande festa a céu aberto. Uma justa homenagem em vida que teve até registro em vídeo – o documentário com o mesmo nome, dirigido por Gabriela Barreto, onde pode-se ver a alegria de Mestre Bigodinho desfilando pelas ruas do lugar, sendo aclamado e reconhecido por todos ali presentes.

Bigodinho gravou um CD, juntamente com Mestre Boca Rica, que mostra um pouco do seu talento de cantor e compositor não só de músicas de capoeira, como também de samba-de-roda, outra paixão de Bigodinho, que era considerado também um exímio sambista. Era um boêmio nato, diziam seus amigos mais próximos.

Com sua perspicácia, dizia Bigodinho que a capoeira “é uma farmácia: está com dor na perna, no músculo…então você dá uns pulo de capoeira com a rapaziada, quando você volta já volta bom, aquela dor já saiu tudo”.

Morreu na Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro, mesmo local onde morreu o famoso Besouro Mangangá. Foi num dia cinzento, 5 de abril de 2011, data de aniversário de outro grande personagem da capoeira: Mestre Pastinha.

Para o Mestre Bigodinho: “ A capoeira não se faz, capoeira se joga. A capoeira é vadiagem, é o lazer que tinha dia de domingo…é jogo, é mandinga, é magia” !

Capoeira de Rua e Capoeira na Rua

Com o processo de expansão da capoeira pelo mundo que estamos assistindo hoje em dia, cada vez mais os espaços públicos têm sido ocupados por essa manifestação. Vemos a capoeira atualmente em parques, praças, jardins, praias, na rua e em todos os tipos de evento ao ar livre, em quase todas as partes do planeta.

É interessante observarmos que a origem da capoeira foi justamente essa: a rua. Pelo menos a capoeira como conhecemos hoje, que é aquela forma que essa manifestação adquiriu definitivamente no final do século XIX e início do século XX, a partir das chamadas “festas de largo” ocorridas na Bahia. Foi no espaço das ruas, durante essas festas populares da cidade de Salvador, que esse modelo de roda de capoeira que conhecemos hoje se estabeleceu e se difundiu pelo resto do mundo.

Porém, com o desenvolvimento dos métodos de ensino da capoeira, essa manifestação pouco a pouco foi migrando para os espaços fechados. Foi a época em que começaram a se difundir as academias de capoeira, e começaram a ficar cada vez mais raras as chamadas “rodas de rua”, com raras exceções.

Atualmente vemos um movimento muito forte de capoeira acontecendo nesses espaços públicos que tem a “rua” como palco. Isso é muito importante, pois dá visibilidade à essa manifestação e podemos dizer que essas apresentações públicas tem sido um dos fatores determinantes para que a capoeira vá ganhando mais adeptos a cada dia.

Contudo, vale fazer aqui uma diferenciação daquilo que compreendemos com os termos “capoeira na rua” e “capoeira de rua”. A maioria dessas apresentações de capoeira que assistimos nesses espaços públicos, podemos definir como “capoeira na rua”, pois tratam-se de grupos organizados que tem suas sedes, realizam treinos e rodas nesses espaços fechados e vez por outra, por ocasião de algum evento ou data especial, saem às ruas para fazer uma roda ou uma exibição.

O outro caso, menos comum, é a “capoeira de rua” que se caracteriza por grupos que se encontram exclusivamente nesses espaços para a prática da sua capoeiragem, não possuindo uma sede fixa, ou um espaço fechado onde se realizam treinos e rodas. Poucos grupos têm essa característica, mas é muito importante a permanência dessa forma de manifestação da capoeiragem, pois remete às tradições mais antigas dessa arte-luta.

Uma das rodas de rua mais famosas de Salvador é a do Mestre Lua Rasta. A roda acontece às noites de sexta-feira no Terreiro de Jesus, no centro histórico de Salvador. Se você está pensando em visitar o Brasil e participar dessa roda de capoeira, procure por hotéis em Salvador próximos ao centro histórico e faça uma visita ao Mestre Lua Rasta que você não irá se arrepender. Uma roda muito interessante, precedida pelo cortejo do “Bando Anunciador” de mestre Lua que percorre as ruas do Pelourinho anunciando que a roda vai se iniciar. Todo tipo de capoeirista frequenta passa por ali, muitos mestres também. mestre Lua aproveita e sempre dá algum recado recheado de ironia e crítica social. As vezes rola até um ensaio de Mouringue – luta muito parecida com a capoeira, original das Ilhas Reunion, ex-colônia francesa localizada na África. Quem não conhece essa roda, vale a pena conhecer !

Mestre Decânio: O Doutor da Capoeira

Um dos grandes nomes da capoeira, que ficará eternamente registrado na história dessa arte-luta brasileira, sem dúvida nenhuma, é Ângelo Augusto Decânio Filho, ou “Doutor Decânio” como ficou conhecido no meio da capoeiragem.

Um dos principais e mais antigos discípulos do mestre Bimba, Decânio teve papel importante na constituição da Capoeira Regional, sendo um dos pilares juntamente com Sisnando – outro importante discípulo, nos quais Bimba se apoiou para a criação desse estilo de capoeira, bem como na definição das estratégias de obtenção de reconhecimento da capoeira junto à sociedade baiana, num período em que essa manifestação ainda era muito discriminada e vítima de preconceitos e ações violentas por parte do poder vigente.

Formado em medicina, foi ainda nos tempos de faculdade, em 1938, que Decânio conheceu mestre Bimba e logo se juntou a ele, exercendo papel fundamental na organização de sua academia, sendo responsável – ao lado de outros acadêmicos que também participaram dessa fase inicial de criação da Capoeira Regional – por ajudar Bimba a dar uma nova roupagem à capoeira que até então era praticada somente nas ruas, a partir da criação de um método de ensino baseado em sequências de golpes de ataque e defesa, bem como a estruturação do funcionamento da academia, que passava pela utilização de fardamentos, horário de treinos, organização de eventos, batizados, rodas de exibição, cursos de especialização entre outras atividades.

Decânio acompanhou Bimba durante muitos anos, mas sempre exercendo paralelamente as atividades como médico, o que muitas vezes não era tarefa fácil, mas ambas sempre exercidas com muito amor e dedicação. Mestre Decânio foi responsável por publicações importantes como os manuscritos do Mestre Pastinha entre outras obras de sua autoria, editadas pela Coleção São Salomão, por ele próprio criada.

Mestre Decânio formulou ainda uma teoria que é muito citada em trabalhos acadêmicos sobre capoeira – a teoria do “Transe Capoeirano” que segundo ele, trata-se de um estado físico-psíquico que o capoeirista atinge durante o jogo, em virtude de estímulos que vêm da musicalidade, do ritmo dos atabaques e agogôs, e da atmosfera propiciada pelo ritual da roda de capoeira, tudo isso explicado a partir de princípios científicos.

Era o mais antigo discípulo vivo de Bimba e, durante muitos anos, a maior referência da Capoeira Regional. Sujeito amável a sempre disponível, seja para uma conversa despretensiosa na varanda de sua casa de frente para o mar de Paripe, seja para colaborar com algum estudo ou pesquisa sobre capoeira, através de seus ricos depoimentos ou do vasto material de arquivo que o mestre foi juntando ao longo de tantos anos de vivência nesse universo.

O mestre Decânio nos deixou no último dia 01 de fevereiro de 2012, véspera da Festa de Yemanjá , prestes a completar 89 anos de idade. Deve estar agora ao lado de João Pequeno, seu vizinho e amigo inseparável, assim como de seu companheiro Sisnando, e finalmente reencontrando seu mestre Bimba, com quem deve estar agora proseando…. e olhando por todos nós aqui na terra !

 

Dica do Editor:


Não deixe de visitar o site Capoeira da Bahia, criado pelo ímpar Mestre Decânio, uma obra prima da capoeiragem…

O Modismo da UFC e a Capoeira

Hoje em dia só se fala em UFC (Ultimate Fighting Championship). Essa luta oriunda do Jiu-Jitsu e outras formas de luta-livre foi criada pelo brasileiro Rorion Gracie nos Estados Unidos e por lá se desenvolveu. Atualmente vemos UFC em todos os lugares: horário nobre da televisão, jornais, telenovelas, capas de revista, transmissões ao vivo, comerciais de TV, outdoors espalhados por todo o país. Até um filme para o cinema foi produzido e tem estréia marcada para breve.

Todo mundo já conhece e sabe o nome dos golpes, as finalizações, o mata-leão, a gravata, os socos e pontapés. Já temos os nossos heróis – Minotauro, Anderson Silva e outros “brucutus” – que espancam os seus adversários sem dó nem piedade num espetáculo tão dantesco de brutalidade, que chega a respingar sangue das telas de LCD que assistimos confortavelmente de nossos sofás.

É incrível a capacidade que a mídia possui nas chamadas “sociedades da informação”, de criar modismos, heróis, gostos e preferências. Até há pouco tempo essa luta era apenas mais uma atração esportiva perdida entre milhares de outras nos canais fechados de televisão a cabo e, de repente, de uma hora para outra, passa a ser a nova “paixão nacional”. Alguém – certamente muito poderoso – decide de seu gabinete de gerência de alguma grande rede de televisão que o UFC é a bola da vez e pronto !

Todo um esquema é montado para que essa luta apareça em tudo quanto é programa, novela e comercial de TV. E como o nosso pobre país é totalmente influenciado por tudo que a telinha resolve mostrar (vide a mediocridade do Big Brother Brasil – um insulto à inteligência e à dignidade nacionais), rapidamente o UFC é incorporado ao nosso cotidiano, às conversas de bar e de salão de beleza, ao noticiário, aos sonhos infantis de futuros campeões da modalidade.

Aí chegamos naquela pergunta que não quer calar: por que não a capoeira ? Por que essa esquizofrenia de exaltar uma luta que apesar de ter sido criada por um brasileiro, tem toda a sua formatação e organização influenciada pela cultura norte-americana do show business ? E por que ao invés disso, não se criam os mesmos espaços na mídia e mecanismos de divulgação para a capoeira, que é uma das expressões mais legítimas da nossa cultura ?

Será que os responsáveis pela televisão e pela mídia em geral do nosso país ainda possuem aquela velha mentalidade colonizada, que procura supervalorizar expressões culturais que vem de fora (leia-se Estados Unidos da América) em detrimento daquilo que vem das tradições da nossa cultura e do nosso povo ? Ou será que trata-se de uma atitude deliberada de alienar cada vez mais o nosso pobre e sofrido povo brasileiro, afastando-nos a possibilidade de valorizarmos e conhecermos melhor nossa própria cultura, nossas tradições, nossos verdadeiros heróis ? Ou será que é tudo isso junto, somado ao desejo desenfreado pelo lucro fácil ?

Recentemente perdemos um dos grandes baluartes da capoeira aos 94 anos de idade – o Mestre João Pequeno de Pastinha que faleceu em dezembro último, e qual a repercussão desse fato na mídia ? Nos jornais locais da Bahia houve uma pequena cobertura e nada mais. A grandeza desse homem, o seu significado para a cultura brasileira que se espalhou pelo mundo através da sua capoeira angola, sequer tiveram um mínimo espaço de divulgação no noticiário nacional.

Boa parte dos cidadãos comuns, brasileiros de todas as idades e classes sociais, hoje em dia sabem o que é o UFC e quem são Minotauro ou Anderson Silva. Mas quantos desses sabem que foi o mestre João Pequeno ? Quantos sabem quem foi Pastinha ou Bimba ? Quantos conhecem a história da capoeira ? Quantos sabem dizer as diferenças entre a capoeira angola e a regional ? Ou quem foi Besouro Mangangá ? Ou ainda Zumbi dos Palmares ? Ou o mestre Salustiano da Rabeca ? Ou Cartola ? Ou Batatinha ? Ou Chico Mendes ? Ou Clementina de Jesus ? assim como tantos e tantos outros personagens da nossa cultura popular, heróis que deram dignidade à história desse pais.

Urgente se faz recuperar nossa auto-estima, exigir que nossa dignidade, nossa memória, nossas histórias, nossos verdadeiros heróis sejam valorizados e respeitados. Nada contra o UFC, nem seus lutadores, eles que tenham o seu espaço e seu público ávido por violência. O que precisamos exigir é que nossa cultura seja tratada pela mídia, com a mesma dignidade e valorização com a qual são tratados esses modismos que vez por outra invadem nossas casas, através da imposição sem critérios de uma programação medíocre e indecente que nos empurram goela abaixo.

Precisamos dispor de alternativas para elegermos aquilo do que gostamos e que valorizamos. Se só nos apresentam um tipo de música, de filme ou de programa de TV, é só disso que podemos gostar. Ninguém pode gostar daquilo a que não tem acesso, que não conhece. A gente quer ver a nossa cara na TV, ouvir música boa, assistir a filmes que nos façam pensar. A gente quer jogar e entender de capoeira. A gente não quer só comida !

João Pequeno foi para Terras de Aruanda

“Quando eu aqui cheguei, a todos eu vim louvar…”

Deve ter sido assim que mestre João Pequeno de Pastinha cantou quando chegou em terras de Aruanda, lugar mítico, para onde se acredita vão os mortos…que nunca morrem…como se crê em África !

Assim como João cantou tantas vezes essa mesma ladainha, onde quer que chegava para mostrar sua capoeira angola aos quatro cantos desse mundo … êita coisa bonita de se ver ! O velho capoeirista tocando mansamente seu berimbau e cantando…dando ordem pra roda começar. Os privilegiados que puderam compartilhar com João Pequeno esses momentos, sabem bem do que estou falando.

Foram 94 anos bem vividos. Aposto que daqui não levou mágoa, não era de seu feitio. Inimigos também não deixou, sua alma boa não permitiria. Partiu como um passarinho, leve e feliz, como vão todos os grandes homens: certeza de missão cumprida.

Deve estar agora junto de seu Pastinha, naquela conversa preguiçosa, que não precisa de muita palavra, que só os bons amigos sabem conversar. E seu Pastinha deve estar orgulhoso de seu menino. Fez direitinho tudo que ele pediu: tomou conta da sua capoeira angola com toda a dignidade, fazendo com que ela se espalhasse mundo afora. A semente que seu Pastinha plantou, João soube regar e cultivar muito bem. Êita menino arretado esse João Pequeno !

Nunca foi de falar muito. Só quando era preciso. E nessa hora saía cada coisa, meu amigo ! Coisa pra se guardar na mente e no coração. Mas muitas vezes falava só com o silêncio. Do seu olhar sempre atento, nada escapava. Observava tudo ao seu redor e sabia a hora certa de intervir, mostrar o caminho certo, quando achava que o jogo na roda tava indo pro lado errado. Até gostava de um jogo mais apertado, aquele em que o capoeira tem que saber se virar pra não tomar um pé pela cara. Mas só quando via que os dois tinham “farinha no saco” pra isso. João nunca permitiu que um jogador mais experiente ou maldoso abusasse de violência contra um outro inexperiente ou mal preparado.

Quando tinha mulher na roda então, aí é que o velho capoeirista não deixava mesmo que nenhum marmanjo tirasse proveito de maior força física ou malandragem pra cima de uma moça menos avisada no jogo, coisa comum na capoeira que é ainda muito machista. A não ser que ela tivesse como responder à provocação na mesma moeda. E era cada bronca quando via sujeito tratar mal uma mulher na roda, misericórdia ! Afinal, ele sempre dizia que “a capoeira é  uma dança, então como é que você vai tirar uma mulher pra dançar e bater nela ?“. Não pode !

A simplicidade, a generosidade, a humildade, a paciência, a sabedoria, a fala mansa e contida, sem necessidade de intermináveis discursos de auto-promoção, eram as características mais notáveis de João Pequeno, próprias de um verdadeiro mestre. Muito diferente do que se vê na grande maioria dos mestres da atualidade, diga-se de passagem, que auto-proclamam sua importância para a capoeira, que fazem e acontecem… que batem no peito e falam, falam, falam.

Nesses quase 20 anos de convivência muito próxima a João Pequeno, tive o privilégio e a oportunidade de aprender algumas das mais caras (e raras) lições de vida e humanidade, que jamais teria aprendido em qualquer universidade, nem sequer poderia obter através de algum diploma qualquer que fosse. Esse homem analfabeto que nunca frequentou os bancos da escola, foi responsável por um legado de ensinamentos que orientam milhares e milhares de pessoas em nosso país e também no mundo todo, que reconhecem o valor de João Pequeno como um dos mais importantes mestres da cultura popular e da tradição afro-brasileira de todos os tempos.

João Pequeno representa a voz de todos os excluídos, marginalizados, oprimidos que através da capoeira encontraram uma forma de lutar e resistir, manter viva a tradição de seu povo e dar legitimidade a uma cultura que foi sempre perseguida e violentada nesse país. O velho capoeirista soube conduzir muito bem sua missão de liderança, responsável pela recuperação da capoeira angola a partir da década de oitenta do século passado, quando após a morte do Mestre Pastinha, se encontrava em franca decadência. Quando se instalou no Forte Santo Antonio em 1981, João iniciou a partir de sua academia um movimento importantíssimo de revalorização da capoeira angola, fazendo com que ela se difundisse e se consolidasse como expressão da tradição popular afro-brasileira, presente hoje em mais de 160 países.

Mas João Pequeno nunca precisou ficar afirmando isso por aí, nem tampouco dizer da sua importância para a capoeira. João é considerado um dos grandes baluartes da capoeira angola, mas ele nunca saiu proclamando isso para ninguém. Na sua humildade nos ensinou que o reconhecimento de valor do mestre tem que vir dos outros, da comunidade da qual faz parte e nunca do próprio discurso muitas vezes carregado de vaidade e arrogância. João simplesmente jogava e ensinava sua capoeira. E por isso era grande !

E de lá, das terras de Aruanda continuará a iluminar os caminhos de todos nós.

João Pequeno não morreu !

por Pedro Abib

discípulo do mestre João Pequeno

 

Dica do Editor:

Portal Capoeira recomenda uma visita: 
Mestre João Pequeno de Pastinha

Religiosidade na Capoeira

Dentre os vários aspectos expressos pela capoeira, o componente mítico-religioso sempre foi para mim, um dos que mais suscitou curiosidade. Debates, opiniões e muitas histórias contadas e recontadas através da tradição oral presente na cultura popular, são a motivação para a minha pesquisa nesse universo.

O aspecto mágico e misterioso, conhecido no universo da capoeiragem como “mandinga”, por exemplo, é um dos elementos importantes para uma compreensão mais aprofundada sobre essas questões. O substantivo “mandinga” se refere possivelmente à região Mandinga, na África ocidental, banhada pelos rios Níger, Senegal e Gâmbia. Entre os africanos trazidos para o Brasil, havia a crença de que nessa região habitavam muitos feiticeiros. Daí podemos compreender melhor o sentido que esse termo acabou ganhando na capoeira

O grande mestre Valdemar da Liberdade disse uma vez que os mestres de antigamente “…tinham muita mandinga, viravam folha, viravam bicho. Aquilo era próprio para barulho. Besouro era um grande capoeirista, mas tudo debaixo de oração”. Cobrinha Verde se dizia católico, mas não deixava de recorrer também às tradições religiosas africanas para o “fechamento de seu corpo” no sentido de se proteger dos inimigos “desse mundo e do outro”, dizia ele.

Os depoimentos dos capoeiras mais antigos evidenciam a mandinga enquanto componente fundamental da capoeira. O termo mandinga pode designar a malícia do capoeirista durante o jogo, fazendo fintas, fingindo golpes e iludindo o adversário. Mas pode referir-se também a uma certa dimensão sagrada, um vínculo que muitos praticantes de capoeira possuem com os preceitos de algumas religiões afro-brasileiras. Em geral, boa parte das manifestações de origem africana no Brasil, de uma forma ou de outra, trazem algum aspecto que evidencia uma aproximação maior ou menor com as religiões afro-brasileiras.

Mas dizer que a capoeira possui aspectos de religiosidade, não significa dizer que ela está diretamente ligada a essa ou àquela religião em particular, pois existem praticantes de capoeira de todas as religiões. Na capoeira não se pergunta qual a religião do capoeirista antes do jogo: simplesmente se convida para jogar.

A capoeira tem religiosidade, mas não tem religião !!!

A religiosidade da capoeira se manifesta através dos seus rituais, dos cânticos, da celebração, da memória dos seus ancestrais, da sua ligação com esse passado de luta e sofrimento. A dimensão do “sagrado” na capoeira se mostra através desses aspectos, e por isso podemos dizer que a religiosidade é um componente importante da capoeira, sobretudo da capoeira angola, embora muitos grupos de capoeira regional também valorizem essa dimensão.

Esses saberes populares que determinam a religiosidade presente na capoeira expressam um vasto campo de significados e de suas ligações com o “sagrado”, assim como muitas outras manifestações e tradições presentes no universo da cultura popular no Brasil. A dimensão do sagrado, tem para o povo simples de nosso país, um sentido muito especial e profundo e que determina suas crenças, seus modos de vida, seus sonhos, suas lutas, suas vitórias e suas derrotas.

 

 

O Legado de Mestre Noronha

Muito sobre as memórias dos tempos dos valentões e dos grandes capoeiristas do início do século XX, chegou até nós graças a um costume que o Mestre Noronha (Daniel Coutinho por batismo) tinha, de anotar nomes, datas, locais e “causos” envolvendo os personagens envolvidos com a capoeiragem da Bahia. O “A.B.C. da Capoeira Angola” foi um livro organizado pelo nosso grande pesquisador da capoeira – Frede Abreu, a partir dos manuscritos deixados por Noronha, e se tornou um grande legado para todos aqueles que pretendem saber mais sobre esta arte-luta, e de tudo aquilo que estava ao seu entorno. Capoeira e seus personagens, a política e seus políticos, festas populares, economia, repressão policial, história do Brasil, são alguns assuntos abordados por este grande mestre da capoeira em seus manuscritos, que posteriormente à sua morte, Frede Abreu transformou em livro, como forma de perpetuar essa memória.

Noronha teve o privilegio de vivenciar os momentos áureos da capoeira baiana do início do século XX. E nos deixou relatos belíssimos desses tempos. Desde a perseguição dos capoeiras, devido à política vigente na época, até a sua visão de decadência dessa arte, norteada pela imagem das academias formadoras de capoeiras.

As elites queriam transformar a cidade de Salvador, em uma cidade de características européias. Em outras palavras, limpar ou erradicar, se necessário, das ruas, as tradições de origem negra, favorecendo a manutenção da ordem pública. visando atender as exigências da classe mais abastada. Nesse contexto social, de conflitos e de discriminação em relação às manifestações afro-brasileiras, é que vai se formando o menino Daniel Coutinho, no local que fazia parte do mapa central da criminalidade, da vadiação, da desordem e também do trabalho em Salvador.

Noronha sempre defendia que a “…capoeira viera da África, trazida pelos africanos, porém não era educada…”, tendo adquirido esta característica aqui no Brasil. Vivenciou ainda menino, por volta dos 8 anos de idade, a difícil arte da capoeira com um negro descendente de Angola, o velho Candido Pequeno. Tinha uma imensa admiração por este capoeira.

Em seus manuscritos, narra diversos casos envolvendo enfrentamentos com a polícia e com outros valentões, citando locais e nomes dos mais famosos capoeiras da época, envolvidos nesses conflitos, assim como ele próprio, respeitado e temido no universo dos “desordeiros”.

Noronha observava que antes de freqüentar qualquer roda, era preciso ter a consciência de que “…não era coisa de brincadeira, havia muita mardade neste meio…”. Não dispensava patuás, que servia para evitar os maus espíritos. Amuletos eram fundamentais. Sempre tinha uma oração, pedia graças ao divino Espírito Santo e aos Orixás. Sempre e sempre com o corpo fechado, não admitia chegar em roda despreparado. Falava sempre: “…a defesa para a nafé (navalha) a pessoa traz consigo mesmo. Sem ter arma, o capoeira tem sua defesa particular que admira o público…”.

Dizia que um bom aprendiz de capoeira angola, tem que obedecer às palavras do mestre, tem que aprender o jogo de dentro e o jogo pessoal para a sua defesa, sempre dando ênfase a tudo aquilo que “…desse vantagem para escapulir da polícia, pois ela não gostava do capoeira…”. Para ser mestre, dizia Noronha, “…tem que aprender toda a malícia que existe nesta malandragem…”.

Em seus manuscritos, Noronha descreve as famosas “festas de largo” de Salvador e a participação dos capoeiras nesses eventos. É justamente nesse contexto descrito por Noronha que surge e vai se estruturando o modelo de “roda de capoeira” tal qual conhecemos hoje, enquanto um ritual definido pela presença de instrumentos musicais e de certas “regras” que vão se transformando ao longo dos tempos. Antes disso a capoeira se expressava de outras maneiras, como as “maltas” no Rio de Janeiro. Mas o modelo de organização em forma de “roda de capoeira” que permanece até os dias de hoje e se espalhou pelo mundo todo, foi sendo estruturado nesses espaços e nesse período histórico, o qual Noronha nos relata com tanta riqueza de detalhes em seus manuscritos.

Noronha teve participação também no surgimento do primeiro Centro Esportivo de Capoeira Angola, na Ladeira da Pedra, no bairro da Liberdade, sendo Amorzinho, o próprio Daniel Coutinho, Totonho de Maré e Livino, entre outros, seus “…donos e proprietários…”. Porém, Noronha sempre registrou o grande esforço feito por Mestre Pastinha em manter e elevar o nome do centro, a partir de quando assume a direção do mesmo.

O mestre Noronha era um severo crítico dos capoeiras que não se dedicavam a conhecer melhor sua arte, que se diziam “grandes mestres” de capoeira e donos de academia. Dizia: “…eu mestre Noronha tenho todo o fundamento comigo porque me dediquei e aprendi toda a malandragem…”

 

Visite nossa seção de Downloads e baixe este o outros documentos de grande valor histórico…

Festa, Capoeira, Frevo e Samba

Todos sabemos que a contribuição africana para a formação da cultura brasileira é imensa. Os africanos trazidos para cá como escravos, acabaram sendo os principais responsáveis por constituir algumas das características mais marcantes da nossa cultura: a musicalidade, a espontaneidade, a expressividade corporal e a criatividade presente nas mais variadas manifestações das culturas tradicionais de nosso povo.

Nesse sentido, a capoeira, o frevo e o samba, são três das manifestações de nossa cultura que reúnem essas características herdadas dessa ancestralidade africana. Essas expressões têm muita coisa em comum, mas principalmente, chama-nos atenção o fato de estarem sempre ligadas à festa: algo sobre o que, nós brasileiros, diga-se de passagem, entendemos muito bem.

O samba, que surge em nosso país em diversos locais, assumindo diferentes formas e sotaques, sempre esteve ligado à necessidade dos africanos e seus descendentes em festejar, dançar, cantar, beber e comer, enfim, compartilhar seus momentos de alegria, mesmo apesar do duro sofrimento a que eram submetidos no passado, e de certa forma ainda hoje no presente. A festa sempre fez parte do samba – e o samba da festa. Onde quer que se juntem pessoas nesse país para comemorar alguma coisa, o samba quase sempre se faz presente.

A capoeira, que se constituiu como uma estratégia de enfrentamento à violência do regime escravagista e do poder opressor em nosso país, teve como cenário de expansão e consolidação justamente as famosas “festas de largo” no início do século XX, em Salvador da Bahia. É justamente nessas festas populares – como Bonfim, Iemanjá e Conceição da Praia – que se inicia o processo de afirmação e aceitação social da capoeira através dos grandes mestres que começam a ganhar notoriedade nesses espaços, tais como os famosos Bimba, Pastinha, Noronha, entre outros.

E o frevo, que ao que tudo indica, surgiu a partir dos blocos carnavalescos do Recife e Olinda, no início do século XX, onde a rivalidade entre essas agremiações, fazia com que houvesse o enfrentamento entre elas, quando os caminhos se cruzavam durante a festa. Por isso, a necessidade de haver valentões dispostos a esses enfrentamentos – geralmente capoeiristas, que iam à frente desses cordões e, ao som das orquestras de metais e percussão, evoluíam com seus passos ágeis e coreografias bem desenhadas, dando origem à essa dança tão popular no carnaval de Recife e Olinda.

Percebemos então, que o sujeito social que freqüentava cada uma dessas manifestações era o mesmo, ou seja, o capoeirista era também o dançarino de frevo e vice-versa. Isso acontecia também com o sambista no Rio de Janeiro, que inclusive se vestia de forma muito parecida com o capoeirista da época: terno branco, chapéu de palha, lenço de seda no pescoço, e muitas vezes também a famosa navalha. Sem falar na perseguição policial que ambos sofriam, por serem tidos como vadios, marginais e capadócios.

 

Esses elementos nos dão pistas interessantes para tentarmos compreender o contexto social desse período histórico, onde esses sujeitos sociais: o capoeira, o sambista e o dançarino de frevo, compartilhavam do mesmo universo e transitavam com muita desenvoltura nesses ambientes, tendo como pano de fundo, justamente, a festa.

A festa sempre teve lugar de destaque na cultura brasileira, e talvez isso explique um pouco do nosso espírito alegre, nosso bom humor e nossa postura otimista diante das dificuldades da vida. São nos espaços festivos que exercitamos nossa sociabilidade, nosso sentido comunitário, nosso compartilhar de dores e alegrias, nossa sentido de pertença e identidade. A capoeira, o samba e o frevo, são ótimos exemplos desse exercício de cidadania. São manifestações que possuem o forte poder de agregar pessoas em torno da celebração, do encontro e da valorização da vida.

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).