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Militância

Um debate político como o que acontece no Brasil neste momento, e não somente lá, se torna problemático quando cada campo oposto pensa em ter o domínio da verdade, enquanto o debate político – e as propostas expressadas nela – sempre trata de opiniões; de interpretações da realidade e perspectivas sobre como agir nessa realidade. Mas, quando as opiniões são vendidas como verdades, isso leva às posições absolutas e radicais, e suas consequências: aonde uma pessoa de 63 anos é apunhalada 12 vezes nas costas por uma pessoa de 35 anos, por causa de uma posição política que é diferente – como lamentavelmente aconteceu esta segunda-feira com o saudoso mestre Moa do Katendê. Pessoas da mesma cor, da mesma classe social, do mesmo bairro. Influenciada pelos discursos de ódio, sem levar em conta o absurdo que está fazendo, e a destruição e perda para a comunidade que foi feito com um só ato.

Quer dizer que tudo é relativo e por nada, porque ninguém está certo? Claro que não. São debates entre ideias; ideologias como o país tem que ser governado, como pessoas querem viver, o que é justo, o que é o bem, e o que não é. Mas ideias e ideologias são exatamente isto: opiniões. Opiniões que podem estar mais certos ou menos certos, de acordo com a realidade – da qual a constituição e as politicas implementadas anteriormente fazem parte – e os ‘fatos’.

Por isso a gente vê aquele bombardeamento continuo nas redes sociais e mídia – de um campo contra ou outro – com os ‘fatos’: para mostrar que a ideia deles é melhor que a dos outros. Porque, uma boa ideia ou ideologia é fundado nos fatos e realidade, ou dizemos, verdades concretas: a taxa de alfabetização, a porcentagem da pobreza, o salario mínimo de um trabalhador, o lucro de uma empresa, o numero de pessoas baleadas por ano, etc. Fatos que ainda podem ser manipuladas, como o Mark Twain nos ensinou[1], e como todos que trabalham com estatística, sabem: basta adaptar os parâmetros. Igualmente as leis podem ser mudadas; temos um parlamento para isto. Então, o que é verdade mesmo?

Vamos começar com a morte de um musico e mestre de capoeira. Aí, não há mais como escapar: é uma verdade para todos e todas, sem exclusão – não há quem não reconheça a morte aqui na terra. Então se uma verdade é verdade mesma, ela é para todos, sem exclusão. Uma verdade é então universal, e por ser universal, inclusiva. Então uma politica ‘de verdade’ só pode ser inclusiva.

 

Numa outra colunaeu já falei sobre o que é considerado ‘politico’ pelos vários pensadores políticos de hoje: é uma situação de desacordo, onde um elemento entra na situação estabelecida de onde sempre estava excluído, mesmo pertencendo à situação. (Como por exemplo podemos ver com pessoas ilegais, que estão num país, mais não ‘existem’ lá.) No momento que esse elemento aparece e exige ser incluído, ele mexe com a nossa percepção da realidade e – quando reconhecemos a sua verdade de exclusão – causa uma ruptura na situação, uma transformação – porque enquanto reconhecido, não podemos mais excluir. Uma verdade mostra sempre uma forma de exclusão existente, e exige de terminar isso.

 

Traduzida à sociedade Brasileira, vemos a exclusão dos LGBT; das mulheres como cidadãsiguais ao invés de objetos de desejo e mães de família; dos pobres e marginais; das descendentes de africanos e indígenas. Elementos da sociedade Brasileira que sempre foram excluídos e para que vários sujeitos políticos (indivíduos e movimentos) entraram numa luta de inclusão nas última(s) década(s). A reação reacionária que viemos hoje mostra que esse processo de inclusão não é automático, nem determinado; a gente pode simplesmente continuar negando esses elementos – podemos negar verdades. Por isto é um processo político – a gente tem a escolha. Seguindo Alain Badiou[2], há 3 maneiras de não-atuar e não dar consequência as verdades surgidas:

O primeiro chama-se simulacro– que é dar consequência numa verdade falsa. Uma verdade falsa parece uma verdade em todos os sentidos, mas em vez de promover a universalidade, ela organize uma mudança da situação baseada em particularidades; a promoção indefinitivamente de um conjunto específico – ‘os trabalhadores honestos’, ‘as verdadeiras Brasileiras’, ‘as famílias’ – sem dar meios ou voz para aqueles que vivem ao redor disso. É uma verdade exclusiva que, como nós vimos antes, é contraditória. E então uma verdade falsa, que só leva à guerra e ao massacre.

Segundo é a traição– a negação de uma verdade por causa de interesse próprio. Porque o aparecer – o evento – de um elemento excluído sempre causa uma crise na sociedade e na pessoa. Porque aqueles que reconhecem essa verdade têm que dar consequência à ela também – a verdade exige. O máxime para quem dá consequência a verdade é ‘Continuamos!’ (Como se escuta agora muito depois da morte de mestre Moa), mas a opinião sempre está conosco, sussurrando que a minha fidelidade à verdade pode estar errada, que talvez eu esteja fazendo um terror sobre mim mesmo, e que parece que estou causando a confusão que queria evitar, etc. Não é simplesmente uma renuncia de uma verdade (porque uma verdade não dá para ser renunciada), mas um convencimento de mim mesmo que não sou capaz de me tornar um militante, um sujeito diferente, de mudar. No fim então, é a traição de mim mesmo como sujeito político.

O último se chama odesastre– que é a crença que o poder de uma verdade é total e absoluto. Mas verdades só existem dentro do ambiente das opiniões – a gente se comunica, têm opiniões. Não há outra historia que a nossa, não há um mundo ‘verdadeiro’ a chegar. Nosso mundo é – e sempre será – feito do verdadeiro e do falso, do bem e do mal. O bem só é o bem enquanto ele não pretende mudar o mundo pelo bem (e assim arrancar o mal). Todo absolutismo de poder de uma verdade organiza um mal. Um mal que não só é destrutivo para a situação, mas também interrompe o processo da verdade em qual nome ele continua, porque não preserva a dualidade do sujeito. Por isto chamamos um desastre de verdade, causado pela crença no absolutismo de poder dela. Porque uma verdade não pode – nem consegue – mudar todos elementos duma situação; sempre há de ter elementos que restam inacessível por ela, e que reste a pertencer à opinião.

 

Essas três maneiras de agir ou não-agir numa verdade aparecida, Badiou chama o ‘mal’. Porque é a agencia do sujeito que é mal, não porque é induzido pela bíblia ou uma concepção abstrata do bem, mas simplesmente pelo ‘não agir’, ou agir numa concepção errada da realidade.

O que é o bem então? Se a gente pensa que a verdade é importante, que não queremos viver sem ela, que não queremos ser falsos, aí podemos colocar ‘uma verdade’ como tal. Não porque uma verdade é ‘o bem’, mas porque ela dá direção, como ‘o bem’. Uma verdade que é então inclusiva, universal. Reconhecer, seguir e estabelecer as consequências de uma tal verdade, sem cair numa das três formas do ‘mal’, podemos então chamar um agir ‘bom’. E isso é o trabalho de um militante.

Hoje em dia, a palavra ‘militante’ é rapidamente relacionada à violência, extremismo e até terrorismo. Também porque no Latino (de onde vem) quer dizer ‘servir como soldado’. Mas  como a luta não trata só de violência física, o militante também é aquele que ‘está lutando ativamente nas lutas ideológicas’[3]. Um militante é então aquele que luta pelos seus ideais, que são ideias políticos que concernem não só há ele ou ela. Militante luta para uma verdade que reconheceu e em que quer dar consequência – estabelecer uma nova situação. Não necessariamente com violência; Gandhi e King também são reconhecidos como militantes.

 

A capoeira foi usada como arma politica em vários instantes de historia, mas como também expliquei na mesma coluna, a capoeira é politica em si mesma também, e representa uma politica universal: porque na base não excluía ninguém, especialmente as pessoas nas margens de nossa sociedade. Então, um capoeirista só pode ser um militante dessa verdade, que é uma politica da universalidade, da inclusão, da igualdade. Toda outra posição de um dito capoeirista leva a seguir um simulacro, uma traição, ou um desastre – formas do mal.

Mestre Moa do Katendê, em o pouco tempo que conheci, era um militante de uma ideia inclusiva e não-violenta – os testemunhos se acha em Salvador, em São Paulo, Recife, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, e pelo mundo fora do Brasil. Mas mestre Moa agora se foi, assassinado por uma verdade falsa, uma ideia exclusiva, um discurso de ódio. Agora cabe a nós, mostrar que somos capoeira mesmo, que não só levantamos pernas e batemos palma, mas que representamos uma verdade inclusiva, universal. E que lutamos pelas nossas ideias; que somos militantes. E aí declaro: eu sou capoeira. E tu?

 

 

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(A imagem é parte de um fresco de uma escultura de Paul Day, chamada “The Meeting Place”, et encontra-se no St. Pancras Station em Londres.)

[1]“Há três formas de mentira: mentiras, malditas mentiras, e estatísticas” – Twain, M. (1906) ‘Chapters from My Autobiography’, North American Review.

[2]O seguindo argumento é uma interpretação e curta abreviação minha do trabalho de filosofo francês Alain Badiou. Badiou, A. (1995) Ética: um ensaio sobre a consciência do Mal, Rio de Janeiro, Relume-Dumará.

[3]Dicionário Larousse. Badiou trata a ideia do militante mais profundamente no: Badiou, A. (2009) São Paulo: a fundação do universalismo. São Paulo, Boitempo.

Fatos Curiosos: Capoeira e a Política

Fatos Curiosos: Capoeira e a Política de Antigamente…
 
Decretado por Marechal Deodoro da Fonseca o Decreto Lei 487 dizia que: A partir de 11 de Outubro de 1890 todo capoeira pego em flagrante seria desterrado para a Ilha de Fernando de Noronha por um período de 02 á 06 meses de prisão.
Parágrafo único: É considerada circunstância agravante pertencer o capoeira, a alguma banda ou malta, aos chefes impor-se-á a pena em dobro.
 
Os capoeiristas costumavam usar calças boca de sino e no período em que a capoeira ficou proibida por lei (1890-1937) a polícia, para detectar os capoeiristas, colocava um limão dentro das calças do indivíduo. Se o limão saísse pela boca das calças, a pessoa era considerada capoeiristas.
 
Os capoeiristas eram contratados pelos políticos para bagunçar no dia das eleições. Enquanto as pessoas desviavam a atenção para a confusão dos capoeiras um indivíduo colocava um maço de chapas na urna ou na linguagem da época "emprenhava a urna". Vencia as eleições o candidato que dispunha de maior n.º de capoeiras.
 
Em 1824, os escravos que fossem pegos praticando capoeira recebiam trezentas chibatadas e era enviados para a Ilha das Cobras para realizar trabalhos forçados durante três meses.
 
Milhares de capoeiristas foram para a Guerra do Paraguai, pois havia sido prometida a liberdade no final do conflito àqueles que participassem da batalha.
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