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Rivalidade feminina nas rodas

Rivalidade e competitividade existem desde que o mundo é mundo e não é exclusividade feminina. Mas entre as mulheres a rivalidade normalmente é mais acirrada ou, pelo menos, mais perceptível.

Infelizmente é comum as mulheres se verem como oponentes ou inimigas uma das outras, e se posicionarem de tal modo como rivais que ganham a fama de fofoqueiras, invejosas e traiçoeiras.

Na capoeira não é diferente e, nas rodas, a rivalidade feminina também faz fama, causa desunião e, algumas vezes, acaba até em briga e puxões de cabelo.

Já me indignei com um campeonato onde o regulamento para as competições masculinas e femininas eram bem diferentes. Ao questionar, a explicação foi de que “as mulheres levam tudo para o lado pessoal”. Mesmo a contra-gosto, observando algumas mulheres nas rodas nos dias que se seguiram, fui obrigada a concordar.

Mas por que isso acontece?

Sem dúvida existe a herança dos tempos das cavernas, onde se destacar para conquistar um macho de qualidade era até mesmo questão de sobrevivência. Mas os tempos mudaram e, ao invés de largar a competição, ela foi levada para outras áreas da vida, como o trabalho, ou, no caso, as rodas.

É bom lembrar que, independente do sexo, querer se destacar, ser o melhor, faz parte da natureza humana e é até saudável pois estimula a superação.

O fundamental é reconhecer quando a rivalidade passa dos limites, pois assumir a vida como um jogo onde o outro é um adversário que precisa ser “vencido” costuma ser sintoma de imaturidade e baixa autoestima.

Nesta situação, o melhor remédio é reconhecer que todos têm seus pontos fracos e fortes e que, a melhor forma de evoluir, é através da ajuda mútua, e não da disputa.

E para quem foi eleita “a rival” de alguém, não há nada melhor do que um elogio sincero a algo que “a oponente” tenha de bom ou faça bem, pois conhecer as próprias qualidades é um ponto de partida para o resgate da autoestima e para o fim da necessidade de se auto promover passando por cima do outro.

Neila Vasconcelos – Venusiana
capoeiradevenus.blogspot.com

Crônica: O MESTRE DE CAPOEIRA

"…a cobra não tem braços,
  não tem pernas, 
  não tem mãos e não tem pés,
  e como ela sobe e não subimos nós…." 1.     
Aquela era uma noite de festas  um tanto profano, um tanto religioso: a antepenúltima noite  das esmolas do Divino. Os presentes em tudo variado: das distâncias;  das idades; dos cabedais. Mestre Benicio buscava  conversas entremeadas de filosofia e misticismo  – para agradar, atrair e alegrar a  todos. Pediram-no para falar da última viagem, da Capoeira  em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro – dos feitos dos Mestres.
 
– “O Mestre de Capoeira antes não dependia das cidades, pós-libertação é necessariamente urbano-periférico. Analfabetos ou pouco letrados, assumem o domínio do povo – dos “capoeira” aos presentes, passando pelos da circunvizinhança. Quase todos vivem num ambiente limitado: numa visão missionária; há os que imprimem viagem mundo afora. Conforto restrito, quase de pobreza material absoluta; de tão absoluta a compensa no seu imaginário pela fama, também absoluta – adquirida num encanto intelectual não se sabe de que origem; mas encanta, cativa, prende os praticantes, como os presentes quaisquer que sejam”.
 
– “A Capoeira não tem fim,  não teve começo. Já mestre – é  a primeira distinção conferida a uma pessoa em reconhecimento
pelo  fazer, ensinar e disciplinar – do plantio  ao cultivo; da caça à pesca; da dança às crenças”. Mestre Benício, professor, cantador e “contador”, negro de família forra, alforriada pelos Castro Alves”, como gostava de dizer. Dizia para enfatizar os valores de ser livre, conversava em zigue-zague, assim atraia a atenção de todos, e a todos satisfazia.
 
Ainda noitinha, frio de maio cortando, vento soprando leve mas constante, fogueira já com labaredas altas ajudando o clarão da lua. O anfitrião despacha mais uma rodada de licores em doses e espécies variadas – jenipapo, caju, mangaba, até de “pau-ferro” – “iche Maria!”.
 
Aduziu mais algumas considerações a este perfil  e contou-nos da simbiose homem-arte-crença. – "Adquire  ele todo o orgulho do seu estado, da sua condição. Recebe  dos seguidores, dos freqüentadores,   uma marca de superioridade do seu meio; uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nem um outro ser humano  consegue.
 
Mestre Benício a nada definia a tudo comparava. Como todo bom “capoeira”, quer trazer todos para o centro da conversa, precisa provocar uma discussão, dá margem à participação, dar a si a vaidade da contenda:
 
– “Toda relação de obediência pressupõe uma troca que traga um ganho ou afaste um medo”. Muitos dos presentes aproveitaram para cada um dar uma pitada. Platéia variada, uns lidos e corridos, outros nem tanto, conversa solta…
 
– “Mesmo a nossa obediência para com Deus requer  troca. Troca pela vida eterna; a volta da saúde  meio abalada…” Chamando
mais para o centro da Roda, provocando bem ao feitio de quem melhor conhece a alma humana – “para com  o  f e i t i c e i r o”, falou pausado – “dono de forças situadas entre o divino e o temporal; entre o ético e o safado –  a obediência está na base de trocas de mesmo calibre  – à volta da mulher traidora, safada, porém gostosona;  o namoro com o filho do vizinho; a traição com o primo, paixão de meninice, com quem não se casou impedida pelos pais.” Certa inquietação. Agora sim, chegou a hora! –  “Quem mais recorre ao feiticeiro é a mulher, quem mais faz promessas a todos os santos – é a mulher, quem antes enjoa do cônjuge é a mulher…” – provocou, para completar – “O Mestre de Capoeira encerra em si  o nível de obediência mais sadio, a mais voluntária das  obediências entre pessoas, fora das relações estritamente familiares. Entre ele e os seus não há um apelo, uma oferta, uma promessa. Na maioria das vezes ele, o Mestre, é o mais pobre do seu meio”.
 
Diante do sorriso geral, um cuxixo e outro,   prosseguiu impassível, não diria sádico, mas sem um  gesto de dó:
 
– "Na sua grande maioria, como que errantes, e os são; esguios pelos exercícios estafantes e o mau passadio;  nutrem-se como agentes da consciência do prestígio; dos  valores da inteligência voraz, iletrada  – a construir  uma FAMA  que o alimenta – apoiados na reverência dominadora, de um lado; de outro na crença que só é possível em quem julga ser responsável por uma banda do Mundo". Depois de tecer explicações do caminho percorrido, completa – "No passado muitos eram sapateiros, estivadores e tantos ferreiros, com forjas ordinárias no quintal acanhado da casa rota; alguns alfaiates – Mestres de Capoeira são vaidosos, gostavam de ostentar “as mãos finas”;  hoje,  tantos são pedreiros, serventes, pequenos comerciantes, carpinteiros; tantos meros biscateiros. Os que têm (tinham) meios de vida, afora a Capoeira, a tudo abandonam, se um projeto lhe surge – viagens noutras paragens, no estrangeiro, nos navios, para "levar a tradição".
 
Depois   de longo silêncio, João Pequeno, garimpeiro não negro, deu uma pitada: "Homens contaminados pela magia poderosa da música; pela perspectiva a que a luta vencida nos conduz; pela vaidade da exibição física; pela nobreza com que nos afaga o poder intelectual.”. Pedindo desculpas devolve a palavra ao Mestre Benício, que vai falando, agora dos seus receios –”.
 
– “De quanto ganha, pouco se sabe. O que se vê – é  ser muito inferior ao valor do  trabalho efetivo  realizado. Sempre pronto a acudir em  cada biboca. De concreto é que tudo faz pela arte, os elogios, pela admiração do povo; após cada luta,  cada apresentação continua como antes. Eu nunca quis saber  como chega em casa, de mãos vazias, a cada dia. Como patrimônio ou consolo – sempre querido, cercado; trilhando soberbo e doce. Na morada, afora grande acervo de áudio,  vídeo e escritos variados – nada tem que passe de um mocambo. Muitos viveram assim; muitos vivem ainda assim”.
 
– Dona Vitória Gama, mulher negra, professora, garimpeira, cantadeira e rezadeira, sempre pronta a ajudar a Mestre Benício com as datas e os nomes dos autores de cada feito, mantinha-se calada e sentada. Em nada coubera uma data, um nome, conversa genérica. Temperou a guela e interveio:
 
– “A superioridade cria inimigos, este é o mais geral princípio da guerra”. Consentida a intervenção, com gentilezas e mesuras pelo Mestre e  interesse pelos presentes, vai explicando o que conhece bem, estudos variados – Guerra e Revolução.
 
– “Não pensem que as relações na Capoeira são mornas. Não. São estremecidas. Não raro ao extremo. Nos encontros entre
 
Mestres, os mimos não duram mais que poucos minutos e  já surgem as alfinetadas –  tão maliciosas, sutis, para atingir a fama do outro; quanto cuidadosas, para zelar da pessoa.  A fama é o objeto da contenda. Esta é das diferenças entre guerra e Revolução: a renúncia à  superioridade faz a Revolução; a luta pela superioridade, causa a guerra”. (2)
 
– “Embora toda cultura seja conservadora, sendo a capoeira extremamente conservadora, pelo seu caráter igualitário  eu diria ser a Capoeira a única ação revolucionária no Brasil. A que avança, embora lentamente, como soe ser”. E finalizou –  “ao “capoeira” para com seu Mestre – nada lhe é mais de ofício que  engrandecer-lhe;  que ouvir de outros referências elogiosas”. E alfinetando, para manter a tradição –  “Eu gosto é de elogios e não de crítica, por isto procuro fazer bem feito, proclama cada Mestre”, finalizou.
 
Foguetes no alto do Morro Azul, (absurdo) o mais vermelho dos lajedos –  estão chegando, as esmolas, a bandeira, o Divino…
 
O velho Mestre vai arrematando da última viagem – “felizmente vi, soube e até conversei, com alguns Mestres doutores, de anel no dedo e tudo,  e olhe que todos novos, 30 a 40 e poucos anos.  Não me lembra de ninguém já nos 50 anos. Tem tantos já escrevendo livro, quem diria?”. E tacou nas notícias que o empolgavam – “Mestre dando aula na Inglaterra – ensinando mesmo, especializações diversas, nas Universidades, para formar doutores também”. E completa – “soube também de muitos “capoeiras”, entrando nas universidades;  como vi, eu próprio, muitos das universidades entrando na Capoeira…", parou, voz impostada. Notava-se um fio de esperança naquele negro “de família forra”, como dizia –  “Meu Deus, cinco séculos de escravidão e descaso!!!
 
 
Nota do autor: Validando as últimas afirmações de Mestre Benício, neste semestre, julho/agosto, o meu Mestre João Coquinho, Mestre do Grupo Berimbau Brasil, 42 anos de idade,  e quase isto de Capoeira; de muita luta e igual quantum de dificuldades, botará anel no dedo, bacharelando-se em Ciências Contábeis, aqui em São. Em data ainda não acertada.
 
 1 Canção de domínio público, africana;
 2 “Os Jacobinos Negros”,  CLR James.

Crônica: “Iê” (*) – VIVA MEU MESTRE!

A Capoeira passa, nos últimos 20 anos, por uma expansão significativa: no Brasil cresceu, verticalizou  ao chegar na Universidade; no mundo, começa a horizontalizar.
 
A expansão  que resumimos, e mesmo por conta do crescimento vegetativo vem dar  margem à graduação de um maior número de Mestres. Neste avanço também   desponta o interesse e o envolvimento  comercial, aliás para expandir precisa criar um mercado. E como está o Mestre? A figura do Mestre? – vamos dizer assim do “Mestre dos novos tempos?” – aí é que nos interessa: A relação do  “capoeira” com o Mestre, e vice-versa.
O elemento motor da Capoeira,  é o Mestre. “O Mestre é uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nenhum outro ser humano consegue”, analisa  Mestre Benício.  E, é verdade: toda  relação de obediência   pressupõe uma troca que  traga um ganho, ou afaste um medo. Mesmo nas relações com Deus está escancarada a troca de qualquer favor ou fervor – pela salvação da alma; nas enfermidades – pela  cura, etc.; para com o feiticeiro – aquela mistura meio-deus/homem/diabo, dono de forças, situadas entre o divino e o temporal; entre o ético,  e o safado – a obediência   estava na base das  trocas de mesmo calibre: da  boa colheita, um bom emprego;  até à volta da mulher amada –  traidora,  corneadora  há  tanto tempo, mas gostosa.  Nas relações de Estado, não existe opção; nas relações de emprego, idem. Entre “os capoeiras” e o Mestre, não pressupõe troca alguma. Por que? –  Antes, porém: em que se apóia o Mestre de Capoeira para ser guardião de obediência, inclusive de quem não conhece?
 
-Na FAMA, se apóia na fama. Acho a explicação mais plausível. Se não, vejamos.
 
-“A superioridade cria inimigos”, este o mais geral princípio da guerra.
As relações entre o Mestre de Capoeira e os seus, é o ato mais voluntário dentre todas as relações humanas, (fora das relações estritamente familiares).  O capoeira orgulha-se em  reconhecer, delegar superioridade a “seu”  Mestre. Cada um  orgulha-se da fama do “meu” Mestre. Cada um  satisfaz-se, obediente, diante de um número qualquer de outros Mestres: Sem que haja o pedido da salvação da alma, o medo do inferno; ter de volta a namorada que outro tomou. Não há pedido, nem a expectativa de troca alguma.
 
-Dos Mestres, num encontro com tantos, não se espere mais que alguns minutos  do
saudar,  as alfinetadas, mútuas:  delicadas, sutis, maliciosas. Para que? – para atingir a FAMA do outro. Pela exibição intelectual. Nunca por superioridade, no sentido clássico. Sempre foi assim, mesmo antes das cordas e cordões, (que são novatos).
 
-Observa-se uma certa preocupação, por  “Mestres dos novos tempos” e até por
outros mais veteranos “em ser igual”, em “se mostrar igual” aos da Roda. Não! Não é. Nem pode  ser. Vejamos este exemplo, distante, mas serve como referência: Quando milhões de católicos conferem ao PAPA o seu grau de elevação, o fazem livremente. O Papa deixa de ser igual a outro padre, a outro bispo, etc. Dentre aqueles fiéis, quando alguém deixa de ser católico,  não lhe é imposta pena nem uma. Também o Papa não deixa de ser o Papa.
 
-Todo Mestre de Capoeira transita com a desenvoltura de qualquer um, em qualquer
lugar,. Mas não é igual:  ele recebeu a delegação, a autoridade,  “para não  ser igual”. Quando alguém resolver “sair”, romper o pacto,  o faz…. Mas, o Mestre continuará . E o pronome  “meu” é apenas um referencial: O Mestre é o Mestre, conquistou o título e recebeu a delegação para exerce-lo, se assim se pode dizer. Cada “capoeira” guarda o orgulho da superioridade do seu Mestre. Só assim continuará a Capoeira – encanto da alma.
 
-Por que choras Manavane? – Estou velho não posso cantar. – Tu gostas de cantar?
Perguntei-lhe num esforço, sem saber como agrada-lo. Imaginei-o cansado. O observava desde cedo. Eram cerca de 200 pares de dançarinos e numero incerto de guerreiros. Todo par ao entrar na dança passava diante do velho: afastavam-se dos corpos e lhe abriam os braços. O velho às vezes fazia um gesto, na maioria dos casos nem os olhava.  Os guerreiros cruzavam os braços e paravam por um instante na sua frente, às vezes em fila, às vezes individualmente… Ele me olha, pareceu-me tomado de cuidados comigo, e respondeu-me:   –  “Quando o preto canta, Chicuembo repousa… (Deus descansa).
 
-Crônica de um dos raros sábios portugueses que foi à África em data incerta, (talvez
fins do Séc. VI) narrando como   aquele povo obedecia à figura do Mestre. Aquele velho era um Mestre, o mais velho. Enquanto, por cansaço, ou por vontade, não ofertasse a outro Mestre, o lugar,  todos lhe rendiam reverências. E ele lembra que a figura do Mestre era igual em todos os lugares. Na Europa também o havia sido, dos ofícios às culturas.
 
(*) O “IE” entre aspas, indica que foi dito pelo Mestre, privativa do Mestre.
 
 
André Pêssego
Berimbau Brasil – SP/SP Grupo de Mestre João Coquinho.

Lampião da capoeira

Fonte: Correio da Bahia

Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá, tinha fama de bandido e justiceiro no recôncavo baiano

Praça Batista Marques, antigo Largo da Cruz, onde Besouro enfrentou e debochou de 11 soldados, e conseguiu fugir , saltando da Ponte do Xaréu

O cabo José Costa saiu do quartel com passos firmes e apressados e tentou imprimir segurança à própria voz quando falou com os dez soldados que o acompanhariam na difícil missão que acabara de receber: prenderia Manoel Henrique vivo ou morto. A caminhada até o local onde o homem procurado estava pareceu estranhamente muito mais longa do que o comum, em parte devido ao calor escaldante de Santo Amaro da Purificação, em parte pelo nervosismo de cada um daqueles 11 homens. Sabiam que, ainda que estivessem armados, tinham uma tarefa quase impossível pela frente, e lutavam contra uma força que chegava a parecer sobrenatural. Talvez até a própria demora em chegar ao bar, no Largo da Cruz, fosse uma artimanha do tempo para proteger o temido Manoel.

Pode ser que o mesmo raio de sol que fez uma gota de suor escorrer pelo rosto do cabo José Costa tenha lançado um reflexo no fundo do copo de cachaça que Manoel Henrique entornava naquele instante. O certo é que ele pressentiu o perigo e, antes mesmo que o líquido transparente esquentasse seus músculos de lutador, já estava de pé, a tempo de escutar a ordem de prisão e lançar aos soldados seu inconfundível olhar de superioridade debochada. Antes que eles pudessem reagir, com movimentos rápidos e certeiros, rasteiras e rabos-de-arraia, desarmou um por um. O povo que assistia à cena, entre as frestas de janelas, e um ou outro que arriscou se aproximar foi testemunha de que Manoel largou as armas num canto e saiu andando tranqüilamente, com seu caminhar típico de capoeirista, deixando os soldados caídos no chão. Foi pior do que se os tivesse matado. Tanto que a vergonha dos policiais pela desonra foi mais forte que o medo. Levantaram-se rapidamente, a ponto de alcançarem o agressor quando passava exatamente pelo cruzeiro.

Quando ouviu os gritos e se virou, Manoel Henrique viu diante de si os 11 homens, agora com olhares sedentos de vingança, com armas empunhadas, prontos a atirar. Só teve tempo de, encostado na cruz de madeira, abrir os braços, numa entrega destemida à execução, corajoso até o fim. Não se ouviu nem mesmo a respiração das almas vivas quando abriram fogo sobre aquele que era o homem mais temido de todo o recôncavo, o único capaz de esvaziar ruas e feiras pelo simples mencionar de seu nome. Besouro Mangangá jazia no chão do Largo da Cruz. Mas qual não foi a surpresa quando os praças se aproximaram e viram Manoel se levantar, tão vivo quanto antes, e correr, em movimentos ágeis, pelo beco que leva à ponte do Xaréu. Sem hesitar, pulou da ponte, fazendo quase um vôo, e fugiu pelo mato.

Atrás de si, deixou policiais com uma expressão mista de raiva e surpresa, e um povo que, cada vez mais, se convencia de que estava diante não apenas do melhor e mais destemido capoeirista de todos os tempos, o único com coragem suficiente para – mais do que enfrentar – até debochar da polícia. Aqueles homens e mulheres começavam a acreditar que suas façanhas não eram apenas fruto de sua incrível agilidade e ousadia, mas de algo maior, uma espécie de sexto sentido, não explicado somente pelas forças que os homens conhecem. Já se comentava pelas redondezas de Santo Amaro que Besouro tinha o corpo fechado. Nenhuma arma de metal poderia atingi-lo mortalmente. O próprio apelido, aliás, vinha dessa crença: dizia-se que, quando se encontrava numa situação difícil, diante de inimigos numerosos demais, Manoel se transformava em besouro e saía voando.

Até hoje, há gente como Aloísio Lima, 92 anos, que garante ter assistido à cena relatada acima. Mais do que isso, seu Belo, como é conhecido em Maracangalha, afirma ter visto a cruz de madeira na qual Besouro se escorou, que hoje não existe mais, cravejada de balas.

Figura lendária

Existem diversas versões – algumas mais, outras menos espetaculares – para o episódio do Largo da Cruz. Mas essa é apenas uma das histórias que se contam sobre Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá. Difícil saber quais delas aconteceram de verdade, e, sobretudo, de que maneira aconteceram. Mais difícil ainda é descobrir como esse homem negro e pobre, nascido no fim do século XIX, numa época em que ser praticante de atividades ligadas à herança africana era considerado um crime, se tornou a figura mais respeitada no universo da capoeira. Sua fama cruzou os limites do recôncavo, chegou à capital baiana, ao restante do país e alcançou os quatro cantos do mundo.

Capoeirista corajoso num tempo em que não havia a divisão entre os estilos angola e regional, muito menos escolas de ensino da arte-luta, Besouro Cordão de Ouro – como também era conhecido – conseguiu a façanha de hoje ser um herói tanto para os seguidores do mestre Bimba, criador da regional, quanto para os discípulos de mestre Pastinha, líder máximo da capoeira angola. Mais impressionante ainda: teve menos de 30 anos de vida para construir toda essa fama, antes de ser assassinado, em 1924.

Hoje, não há nome mais cantado nas rodas de capoeira. Besouro inspirou a música Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, vencedora do Festival de Música da TV Record, na voz da cantora Elis Regina. Serviu de fonte também para um dos capítulos do livro Mar Morto, de Jorge Amado, e para o filme Besouro capoeirista, com o ator baiano Mário Gusmão. O curioso é que a mesma coragem e valentia lembradas nas canções, que o transformaram num herói, fizeram com que, em vida, tivesse fama de arruaceiro e fosse perseguido pela polícia em inúmeras ocasiões.

Mas como entender esse homem que ainda hoje provoca discussões apaixonadas? Um homem que é tido por alguns como um criminoso ousado, um fora-da-lei, e, ao mesmo tempo, é considerado por outros um justiceiro, protetor dos oprimidos? Não é à toa que há quem diga que Besouro representou para a capoeira o que Lampião foi para o cangaço.

Para tentar entender a história de Manoel Henrique, é preciso ter os olhos desconfiados e os ouvidos atentos de um capoeirista. Os casos de suas façanhas são contados por pessoas antigas, algumas que conviveram com ele, outras que ouviram falar de sua rebeldia. Entre uma roda e outra de capoeira, foi saveirista, vaqueiro e amansador de burro brabo. Chegou a ser soldado do Exército. Apesar da fama de violento, "não se tem notícia de que ele tenha matado alguém", afirma Antonio Reinaldo Lima dos Santos, o Lampião, capoeirista santo-amarense que desenvolve uma pesquisa sobre a vida de Manoel Henrique.

Até hoje, sua personalidade permanece envolta em mistério, fortalecendo ainda mais o mito em torno de seu nome. Sua certidão de nascimento nunca foi encontrada, nem documentos de identidade. Também não há qualquer imagem – seja fotografia ou pintura – dele. Besouro não deixou filhos conhecidos, nem mulher, nenhum grande amor que tenha ouvido suas confidências naquelas noites antigas. Seus amigos já partiram deste mundo. Sua única irmã viva não chegou a conhecê-lo: temia o próprio irmão.

Houve até quem desconfiasse da existência de Besouro. Sua passagem por esse mundo só foi comprovada há alguns anos, através de dois documentos encontrados no Arquivo Público da Bahia, em Salvador, e no de Santo Amaro. Neste último, Besouro é acusado por um crime cometido na Fazenda Rio Fundo, onde ele vivia como empregado de um poderoso proprietário da região. É naquele amplo terreno, em meio aos canaviais, que Besouro caminha, com seu inseparável facão. É lá, nas terras do poderoso José Antonio Rodrigues Teixeira, que começa nossa viagem em busca do mistério escondido no olhar daquele que Muniz Sodré afirmou ser tido como "o mestre dos mestres".


Fonte: Correio da Bahia