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Capoeira: O Último Movimento Novo

Capoeira: O Último Movimento Novo

O “Movimento Novo” da Capoeira foi um encontro cultural anual organizado com o objetivo de promover a união e a troca de conhecimentos em um ambiente de comunhão e aceitação das diferenças.

Nascido em 2008 e finalizado em 2018, O Movimento Novo se caracterizou pela qualidade dos jogos e da música; pela filmagem e edição profissional dos vídeos na Internet; pelo incentivo a uma cultura de aceitação das diferenças; pelo cuidado ao bem-estar físico e emocional dos participantes e pelo protagonismo dos jovens.

Os eventos do Movimento Novo marcaram a capoeiragem da segunda década do século 21, influenciando toda uma geração, tanto na forma de jogar, quanto na forma de pensar.

Capoeira: O Último Movimento Novo Notícias - Atualidades Portal Capoeira

Histórico do Movimento Novo

Em 2008, três jovens capoeiristas (Itapuã, Ferradura e Lobisomem) se reuniram informalmente para conversar sobre questões como:

“Por que não existem mais diversas rodas de rua como na década de 70?”; “Por que capoeiristas de escolas diferentes não se encontram sem que a roda acabe em violência generalizada?”, “O que podemos fazer para mudar este cenário?”.

A partir destes questionamentos, decidiram fazer uma roda com um máximo de 30 capoeiristas convidados, de estilos diversos, que trouxessem diferentes experiências para compartilhar.

A primeira edição do Movimento Novo, em 2008, trouxe estas reflexões. Durante a roda, vários jogos interessantes foram filmados e divulgados na internet. Os 3 mais vistos foram estes:

É interessante notar que o vídeo mais visto em 2008 teve, à época, milhares de visualizações na recém divulgada rede do Youtube, algo que ainda era totalmente inovador. Vale lembrar que estamos falando dos primórdios da rede de compartilhamento de vídeos, popularizada apenas dois antes do primeiro Movimento Novo. Não havia celulares com câmeras e poucos capoeiristas postavam vídeos.

No ano seguinte, o Movimento Novo estourou na web. O vídeo mais visto foi este.

Analisando a quantidade atual de visualizações, vemos um crescimento total de 2000%, ou seja, de 25.000 views em 2008 para 500.000 views em 2009.

Na sequência, vieram outros jogos das edições seguintes, sempre com a marca de centenas de milhares de visualizações, como:

Com a vinda de vários participantes de forma contínua, decidiu-se fazer um CD, gravado de forma colaborativa e registrado em vídeo, com extratos como este:

Críticas ao Movimento Novo

Como era de se esperar, o Movimento Novo não veio sem enfrentar críticas, que variavam de frases como “primeiro tem que aprender o movimento velho para depois fazer o novo” até “o ritmo favorece os angoleiros”, passando por acusações de “desvirtuação da tradição” ou de “superexibição” dos participantes.

Era normal que o evento chocasse os mais conservadores. Afinal, o Movimento Novo não era um “grupo” ou um “estilo” de Capoeira; não “filiava” capoeiristas; não tinha fins lucrativos; não usava uniforme nem emblemas; não tinha uma hierarquia com liderença centralizada nem planos de expansão. Fora isso, utilizava a nascente mídia da Internet para divulgar os jogos em um momento em que isto não existia.

Todas estas “novidades” chocavam aqueles que não entendiam que o Movimento Novo simplesmente recriava o ambiente das antigas rodas de rua, onde ninguém mandava em ninguém e todos se confraternizavam para vadiar.

No fim, o que era para ser apenas um encontro de jovens cariocas se tornou um conceito inovador que marcou toda uma geração.

Mas como isso foi acontecer?

Em 2008 a grande questão dos organizadores era conseguir reunir jovens que nunca haviam convivido e que eram separados por ideologias de grupo.

Politicamente, os idealizadores do MN cresceram no mundo pós-guerra fria, onde já não fazia sentido o pensamento muito polarizado, como entre capitalismo e comunismo. Viram o nascimento da aldeia global integrada pelos celulares e pela internet e viveram no Brasil pós-ditadura, com liberdade de imprensa e de expressão.

Em termos econômicos é a primeira geração que conseguiu ganhar a vida somente dando aulas de Capoeira; a que viveu o período de maior violência, de 1990 a 1995, a ascensão da Capoeira como moda, de 1995 a 2000, e o declínio dos anos de ouro desta mesma moda, de 2000 a 2005.

A geração seguinte já foi diferente.

A galera que nasceu entre 1990 e 2000 nunca viu a Capoeira estourar como moda. Não assistiu semanalmente o mestre-e-modelo Beto Simas “Boneco” nos programas da Globo. Tampouco viu as estrelas populares da época, como Tiazinha ou Feiticeira, estampadas nas diversas revistas especializadas disponíveis em bancas de jornal Brasil afora.

Novela “Quatro Por Quatro” (1994), com Mestre Beto Simas Boneco na abertura

Novela “Malhação”, com Mestre Beto Simas Boneco (1996)

 

“Tiazinha” praticando Capoeira (1998)

“Feiticeira” na capa da Revista Capoeira (1998)

Esta geração também não viu quando o filme “Esporte Sangrento” e o videogame Tekken impulsionaram a Capoeira no exterior, abrindo um novo mercado de trabalho para os capoeiristas.

 

“Eddie Gordo”, do game “Tekken” (1997)

“Esporte Sangrento” ou “Only the strong” (1993)

Em termos políticos e econômicos, esta galera viveu o boom do Brasil democratizado no pós-plano real e a ampliação do acesso a Internet, consequentemente assistindo a milhares de vídeos no youtube, dos mais diversos capoeiristas.

É a geração que bebeu na fonte do Movimento Novo, assistindo a dezenas de vídeos do Ferradura, do Itapuã, da Tatiana, da Gege, do Guaxini etc., além de ter tido acesso a todo o repertório de vídeos da Capoeira antiga.

Este pessoal filma e posta os seus próprios vídeos nas redes sociais, fazendo tutoriais de movimentos e se integrando digitalmente com capoeiristas de todo o mundo. É uma geração que joga Capoeira misturando vários estilos e que nem sabe o que quer dizer a palavra “saroba” (Nota: Se você não sabe o que quer dizer a palavra “saroba”, procure algum velhinho de 40 anos e pergunte).

Quais os desafios do Movimento Novo atualmente?

A “era dos brutamontes” da Capoeira passou. Hoje em dia é raro ver um capoeirista “cravar” o outro de cabeça no chão ou mestres enviarem seus alunos para “fechar” a roda dos outros.

Podemos dizer que hoje em dia a Capoeira já está integrada. A maior parte dos capoeiristas procura reunir-se com pessoas de outros grupos e compartilhar experiências. Hoje, já há dezenas de rodas espalhadas pelo Brasil onde se comungam valores como integração, respeito e harmonia.

Entretanto, apesar de todo este avanço, ainda há questões grandes para os jovens de hoje, as maiores delas ligadas às lutas sociais que enfrentamos no Brasil, como machismo, homofobia, racismo e outras formas de relação opressiva.

Ainda hoje, podemos fazer perguntas como:

De que adianta juntar 150 capoeiristas de todos os sexos em um evento e ter somente homens em posições de poder?

De que adianta falar de Capoeira como integração e seguirmos discriminando gays, lésbicas e transexuais? (Se você tem dúvida em relação a isso, pense em quantas referências homossexuais você conhece na Capoeira e quantas você vê no Teatro, no Cinema, no Circo, na Dança e nas demais artes plásticas ou corporais).

De que adianta falar de cultura negra e apoiar políticos declaradamente racistas?

De que adianta formar jovens lideranças, se mantivermos os velhos padrões? De que adianta vivermos somente para reproduzir o que já estava errado?

A cultura, no Brasil de hoje, terá cada vez mais um papel político de resistência, onde os jovens terão que abrir novos caminhos e desafiar velhos dogmas. Como vão fazer para não reproduzir a opressão pedagógica, a militarização do ensino e a falta de abertura para o diálogo? Como vão vai lidar com o racismo, com o sexismo, com a LGTBfobia e a discriminação entre os próprios capoeiristas?

Como vão fazer para fazer diferente?

Estas e outras respostas são desafios aos jovens. Serão eles os responsáveis pelo futuro da Capoeira. E foi por isso que a edição de 2018 marcou o fim do ciclo Movimento Novo. A maior parte dos participantes fundadores do MN hoje tem entre 35 e 50 anos. Já não são exatamente tão “jovens”. Os futuros líderes tem como fazer mais e melhor. Suas cabeças são mais abertas e sua Capoeira mais disponível. O terreno está fértil para que novos movimentos sejam feitos.

Como foi o último Movimento Novo?

Diferentemente dos outros eventos, a última edição teve inscrição aberta pela Internet e uma seleção que levava em conta o gênero, a raça e a idade.

Um ciclo de palestras abria cada dia do evento e as rodas priorizavam a autogestão e a participação democrática, tendo parcelas muitas vezes negligenciadas -jovens e mulheres- como protagonistas em todo o processo.

Os debates sobre as questões sociais foram tão importantes quanto as rodas em si, promovendo uma cultura de convesa e compartilhamento de experiências que promete influenciar o comportamento de todos que participaram.

Mensagem final dos organizadores do Movimento Novo

Quem quiser fazer diferente deve saber que receberá críticas, pois o poder instituído sempre reagirá frente à mudança. Esperamos que estas críticas não os levem ao imobilismo.

Queremos estar juntos! Nos convidem para seus novos movimentos e contem conosco!

Axé,
Ferradura, Itapuã e a galera do Movimento Novo.

PS – Segue abaixo a última palestra, onde Ferradura fala um pouco do que pode ser o futuro do Movimento Novo:

 

Mestre Ferradura em Portugal – Aula Aberta e Roda de Capoeira

Mestre Ferradura em Portugal Aula Aberta e Roda de Capoeira

 

Dia 1 de maio no Porto

 

Dia 5 de maio em Sintra – Lisboa

 

Mestre Ferradura

Mestre Omri Ferradura Breda preside o IBCE e é uma das grandes referências mundiais no campo da Capoeira-Educação, ministrando desde 1995 classes regulares para a Educação Infantil em diversas escolas e projetos e sendo continuamente chamado para dar palestras e cursos em Universidades e cursos de formação de professores por todo o mundo.

Formado pela Escola de Capoeira Angola do Mestre Marrom – RJ, Mestre Ferradura dirige a Equipe de Capoeira-Educação Brincadeira de Angola, formada por professores experientes na área de Capoeira-Educação, com formações em pedagogia, fisioterapia, educação física, psicomotricidade, psicologia, música, teatro, circo e arte-educação. É neste ambiente interdisciplinar que se planejam os projetos educacionais aplicados em diversas instituições.

Seus artigos – “A capoeira como prática educatica transformadora”, “A Capoeira como prática pedagógica na Educação Infantil” e “Capoeira e educação libertaria para a formação de sujeitos autônomos” foram escolhidos pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro para representar a Capoeira no campo da educação.

Mestre Ferradura foi também escolhido pelo SESC Nacional para ministrar o Curso de Formação Continuada em Capoeira Infantil Brincadeira de Angola para todos os SESCs do país, como pode ser conferido neste link.

Mestre Ferradura em Portugal - Aula Aberta e Roda de Capoeira Capoeira Portal Capoeira

Na área artística, carrega na bagagem trabalhos de direção de capoeira em diversos campos, com nomes como Ariane Mnoucchkine (Diretora do Teatro do Soleil-Paris), Karim Anouz (Diretor do filme Madame Satã), Claudio Balthar (Diretor da Intrepida Trupe), Paola Barreto Leblanc (Diretora do filme Maré Capoeira) e João Falcão (Diretor da “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque).

O QUE É CONTRIBUIÇÃO CONSCIENTE? 

A contribuição consciente é uma forma de pagamento que oferece a cada um de nós uma rara oportunidade de escolher o quanto vai pagar por um serviço recebido, de acordo com sua avaliação a respeito da qualidade, dos benefícios que serão obtidos e de sua condição financeira atual.

Essa forma de pagamento garante que todos possam ter acesso ao conhecimento, independente da própria situação financeira. Incentiva a reflexão sobre o que cada um de nós escolhe apoiar e nutrir com o nosso dinheiro e questiona a valorização da arte.

 

PORTO DIA 1 DE MAIO

SINTRA – LISBOA DIA 5 DE MAIO

AULA E RODA ABERTA A TODOS…

Para participar, basta chegar e contribuir de forma consciente.

NÃO PERCA ESTA OPORTUNIDADE!!!

 

 

No Porto apoio logistico:

Mestre Ferradura em Portugal - Aula Aberta e Roda de Capoeira Eventos - Agenda Portal Capoeira 1

 

 

 

Em Lisboa apoio logistico/hospedagem:

Mestre Ferradura em Portugal - Aula Aberta e Roda de Capoeira Eventos - Agenda Portal Capoeira

7 Frases Que Você NUNCA Deve Dizer A Um Aluno

1. “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”

A pior das frases que um professor pode dizer a um aluno tem base em uma ideia obvia, mas muitas vezes deliberadamente ignorada: o exemplo vale mais do que as palavras.

Sabemos que quando apenas falamos algo a um aluno, desacompanhado do exemplo prático, a absorção das palavras é mínima. Imagine agora se esta mínima absorção for contrariada pelo exemplo.

Já foi extensivamente pesquisado que o cérebro grava melhor informações associadas, e que por isso, quanto mais variados forem os estímulos, maior será a aprendizagem.

Quando nos comportamos de maneira coerente com nosso discurso, o aluno recebe não apenas um estímulo auditivo, pois nosso comportamento vem acompanhado de cheiro, movimento, visualização e, mais importante, repetição. O bom exemplo reiteradamente exibido pelo professor implanta um ideal a ser seguido pelo aluno.

Resumindo: se você quer que seu aluno siga certas ideias, aplique-as em sua vida pessoal.

 

 2. “O aluno tem que se adaptar à Capoeira, não o contrário”

 

A Capoeira é como água. Se adapta a tudo. Se está num copo, toma a forma do copo. Se está na garrafa, se adapta a ela. Condensa-se, vira gelo, evapora. Toma a forma de rio, de oceano ou de chuva e mesmo assim sempre encontra um jeito de continuar sendo água.

Se não fosse assim, não teríamos tantos estilos, tantas escolas e tantas manifestações diferentes, como Capo-Jitsu, Capoeira Gospel, Capo-Terapia ou campeonatos diversos convivendo com rodas tradicionais, jogos improvisados ou apresentações de artistas de rua. Tampouco teríamos Capoeira sendo ensinada para idosos, pessoas com necessidades especiais ou crianças.

Dizer que o “aluno tem que se adaptar à Capoeira” é geralmente uma maneira do professor se eximir de encarar sua própria dificuldade em relação às peculiaridades de determinados aprendizes que desafiam sua capacidade de adaptação.

Talvez fosse bom aprendermos com a Capoeira a sermos mais “água”, tornando-nos “professores líquidos” capazes de responder às necessidades específicas de cada aluno ao invés de sermos “professores rochas”, encastelados em nossas posições.

 3. “A Capoeira é para todos, mas nem todos são para Capoeira”

 

 

Esta frase, exaustivamente repetida, é comum a diversas atividades, como esportes ou religiões.

 

 

Podemos entender que o ensinamento filosófico pretensamente apresentado se refere à necessidade do esforço individual, por parte do aluno, para se tornar, de fato, um membro reconhecido na comunidade.

Mas o que a frase não explica é: quem seria a pessoa que poderia determinar quem “é” e quem não “é” para a Capoeira? Quais são os critérios para definir um capoeirista “de verdade”?

Quando proferida por um professor, a frase traz em si uma declaração de veracidade sobre si próprio e uma dúvida sobre os demais. Botar em xeque a autenticidade dos alunos reforça a legitimidade do professor como alguém que “é para a Capoeira”, enquanto os alunos seguem imersos na dúvida sobre suas próprias condições.

Qual o objetivo disso, se não exercer um narcisismo exacerbado? Qual a função de colocar os outros em dúvida sobre suas legitimidades?

Talvez poderíamos trocar a frase para “A Capoeira é para Todos e Todos São Para a Capoeira. Inclusive Você!”

 

4. “Faço assim porque aprendi assim”

 

Essa frase segue a linha do “Bato nos meus filhos porque também apanhei, e nem por isso virei bandido”.

Da mesma forma que a pessoa que apanhou não virou bandido APESAR das pancadas, e não DEVIDO a elas, a pessoa que é ensinada de forma errada ainda assim pode aprender corretamente, simplesmente porque buscou o correto por conta própria.

O problema é que o aluno oprimido tende a reproduzir os erros pedagógicos quando se torna professor, repetindo novamente o ciclo de opressão-reprodução.

Isso não quer dizer que devemos jogar fora todos os ensinamentos de uma pessoa somente porque ela erra em alguns pontos, mas si que devemos filtrar as informações e escolheremos o que queremos reproduzir.

O conhecimento sobre a pedagogia evoluiu muito nas últimas décadas e a neurociência continuamente vem provando que bons estímulos cognitivos estão aliados a experiências prazerosas e não a relacionamentos opressivos.

O professor de Capoeira do século XXI não pode continuar sendo um reprodutor de modelos pedagógicos herdados do militarismo do século XIX. Temos que basear nossa didática em métodos que funcionam e em estratégias eficientes e transformadoras no campo emocional, social e político no qual o aluno está inserido.

A tradição existe para ser repetida em seus acertos, não em seus erros. Muitos comportamentos opressivos ainda seguem em voga no nosso meio, em nome de uma suposta tradição. Repetindo comportamentos do passado, que já estão “ultra-passados”, arcaicos e anacrônicos, não iremos promover nenhum tipo de revolução.

Por exemplo: antigamente as pessoas ajoelhavam no milho quando desobedeciam os professores, e nem por isso aprendiam melhor. Erros existem para aprendermos com eles, não para repeti-los.

Continuar os erros do passado em nome de uma suposta tradição é, no mínimo, preguiça pedagógica.

 

5. “No meu tempo era diferente”

 

Esta frase, em teoria, não apresenta problemas, pois obviamente todo tempo é diferente do outro. Como na alegoria do rio que nunca passa duas vezes no mesmo lugar, tudo está sempre em constante mudança.

No entanto, implicitamente essa frase traz sub-leituras, como: “No meu tempo era tudo mais verdadeiro”; “No meu tempo é que era bom”; “No meu tempo é que havia respeito” etc.

E o curioso disso é que a mitificação do “antigo” acontece em todos os “tempos” e lugares. Como na cantiga “Alegria do vaqueiro é ver a queda do boi, alegria do velho é dizer quem ele foi” o “velho”, independentemente de sua idade – sim, há velhos que são cronologicamente jovens-, está sempre falando sobre o passado para desmerecer o presente.

A pergunta que fica é: se a pessoa está viva, como pode falar sobre o “seu tempo” se ela está vivendo o momento de agora? Talvez a resposta seja que sua cabeça vive no passado, por dificuldade de se adequar ao presente.

Ao repetirmos infinitamente esta frase, passamos a ideia de que já somos passado e que os “áureos tempos” que vivemos nos fizeram ser melhores do que nossos alunos são. Nada poderia ser mais falso, pois no caso específico da Capoeira, nunca houve tempo melhor.

Se há 100 anos o capoeirista podia ser preso por “capoeirar”, hoje em dia é recebido com louvor em todos os cantos, seja em universidades e palácios governamentais, seja em comunidades populares ou em centros culturais.

Ainda há muito a melhorar e muitas barreiras a quebrar, mas mitificar uma “idade do ouro” que nunca aconteceu não ajuda a lutar por um presente melhor.

 

 6. “O aluno tem que respeitar o mestre”

 

Há um ditado que diz que é possível forçar um cavalo a um rio, mas não pode-se força-lo a beber de sua água. Exigir respeito é como exigir que o cavalo beba água.

Respeito é um conceito que implica em construção coletiva, não em obediência cega. É uma via de mão dupla, ensinada pelo exemplo. Se o mestre respeita os alunos; os mais velhos respeitam os mais novos e os alunos respeitam-se entre si, obviamente o mestre será respeitado pelos alunos também.

Eu não tenho como cobrar respeito do meu aluno, pois somente ele pode construir essa atitude para comigo. Mas eu tenho como respeitá-lo, mostrando com atitudes que levo em consideração sua presença, seus sentimentos e suas necessidades.

O ambiente a ser construído numa escola de Capoeira deve ser de respeito mútuo e de respeito a regras que beneficiem o coletivo. Desta forma o conceito será vivido por todos, não precisando ser mencionado.

Um líder que “exige respeito” dos alunos não respeita nem mesmo o próprio papel, portanto não tem como exigir respeito de ninguém.

 7. “Se machucou porque não treinou”

 

Essa é a clássica desculpa do professor para eximir-se de sua responsabilidade quanto a integridade física dos alunos.

A cena acontece assim: um jogo de Capoeira transcorre normalmente até que um dos jogadores resolve soltar um golpe a um milhão por hora. O golpe pega e machuca o outro jogador. O machucado vai ao hospital (geralmente sozinho) e volta remendado depois de alguns dias. O que machucou é isentado de responsabilidade, pois era a obrigação do machucado sair do golpe. Se não saiu, é porque precisava ter treinado mais, diz o professor, do alto de sua sapiência.

O aluno aceita a explicação e continua na Capoeira e um dia se torna professor, repetindo o mesmo ciclo por causa do tal “ensino como aprendi”. E nessa brincadeira as lesões vão pipocando por todo lado e muitos bons capoeiristas abandonam a arte por não quererem se machucar.

A ideia de que a Capoeira é uma “arte marcial” como a luta greco-romana ou um “Esporte de Combate” como o boxe leva a um discurso “guerreiro” que serve somente para desresponsabilizar o líder da aula sobre as lesões dos alunos.

 

O professor deve ter em mente que qualquer machucado ocorrido em sua aula é sua co-responsabilidade.

Independentemente de ter sido uma fatalidade ou um golpe intencional o aluno estava sob a sua supervisão e por isso não pode ser responsabilizado sozinho por algo que aconteceu coletivamente.É importante que haja um código de conduta no qual estejam previstos os comportamentos desejados pelos praticantes e o zelo com o corpo dos demais.

Em breve escreveremos novo artigo falando sobre golpes proibidos em nossas rodas!

Vamos fechar este artigo com uma fala que poderia ser facilmente escutada em muitas escolas de Capoeira:

E aí, o o que você achou? Deixe seu comentário e compartilhe este texto com os colegas!

Axé!

Ferradura

Campo Grande promove gratuitamente o Curso Brincadeira de Angola do IBCE

Campo Grande promove gratuitamente o Curso Brincadeira de Angola do IBCE

Mestre que é referência nacional em capoeira infantil, ministra curso pedagógico para ensinar capoeira a crianças em MS

“Brincadeira de Angola” será ministrada entre está quinta-feira e domingo, no Instituto Mirim de Campo Grande.

Omri Breda, o mestre Ferradura, uma das principais referências em educação infantil nacional e internacional no ensino a capoeira, ministra nesta semana em Campo Grande um curso de formação pedagógica.

A capacitação é voltada para o ensino da capoeira a crianças, aplicando o método “Brincadeira de Angola”, que foi criado por ele.

O curso é uma iniciativa do grupo Conterrâneo Capoeira,de Campo Grande, liderado pelo mestre Antonio Marcos de Lima, o mestre Liminha, e tem o apoio da secretaria municipal de Cultura e Turismo (Sectur), por meio do Fundo Municipal de Investimentos Culturais (FMIC).

O curso “Brincadeira de Angola” vai ser promovido na sede do Instituto Mirim, na avenida Fábio Zahran, 6.000, em Campo Grande. Começa nesta quinta-feira (8) e vai até domingo (11). Hoje e sexta-feira a programação vai das 19h às 21h30. No sábado, das 14h às 19h e no domingo, das 10 às 12h. É gratuito e tem vagas limitadas.

Segundo o grupo Conterrâneo, foram disponibilizadas 100 vagas para a capacitação, para praticantes e não praticantes, e 30 grupos de capoeira de todo o estado já confirmaram participação, representando os municípios de: Água Clara, Aquidauana, Corumbá, Dourados, Miranda, Nioaque, Ponta Porã e Três Lagoas, entre outros.

 Capoeira Portal Capoeira

Em 2016, Ferradura esteve em Campo Grande ministrando um outro curso, “Vamos Vadiar Angola”, em que os participantes experimentaram um dia de vivência voltada à consciência corporal, jogos dinâmicos, musicalidade e expressão criativa na capoeira Angola.

Serviço

Mais informações sobre o curso pelo telefone: (67) 99233-4249.

Veja Também:

 

Fonte: https://g1.globo.com

Praça Nelson Mandela tem aula grátis de capoeira para crianças

Praça Nelson Mandela tem aula grátis de capoeira para crianças

Iniciativa é um desdobramento do movimento ‘Ocupa Praça Nelson Mandela’, promovido pela Associação de Moradores e Amigos de Botafogo

RIO — As crianças que forem à Praça Nelson Mandela, em Botafogo, quarta-feira, entre 17h e 17h30m, poderão participar de uma aula gratuita de capoeira. A atividade usará o método “Brincadeira de Angola”, criado pelo Mestre Ferradura, com ênfase na aprendizagem significativa através de brincadeiras.

A iniciativa é um desdobramento do movimento “Ocupa Praça Nelson Mandela”, promovido no início de maio pela Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (Amab) com o objetivo de cobrar reforços na segurança da praça e, ao mesmo tempo, iniciar um processo de revitalização da área.

De acordo com números do Instituto de Segurança Pública (ISP), o número de roubos a transeuntes disparou no intervalo de um ano na área da 10ª DP, que abrange os bairros de Botafogo, Humaitá e Urca. Em março deste ano, foram registradas 88 ocorrências, contra 30 no mesmo período de 2016, o que representa uma alarmante alta de 193%. Em relação a fevereiro de 2017, mês em que foram registrados 40 roubos a transeuntes, o crescimento desse tipo de crime foi de 120%.

 

ver também:

  • CAPOEIRA ANGOLA EM BOTAFOGO – AULAS PARA INICIANTES

 

Fonte: O Globo

A CAPOEIRA COMO PRÁTICA EDUCATIVA TRANSFORMADORA

CAPOEIRA COM CRIANCAS NO RIO DE JANEIRO: A CAPOEIRA COMO PRÁTICA EDUCATIVA TRANSFORMADORA

Ferradura  (Omri Breda)  – professor especializado em capoeira na educacao infantil

Resumo

Educadores populares carecem muitas vezes de subsídios para o entendimento consciente dos modos de vida na África pré-colonial, da dimensão histórico-social da escravidão, do papel do africano e de seus descendentes nas lutas pela liberdade no Brasil e da função emancipadora da capoeira como ferramenta cultural. Em contrapartida, professores universitários tampouco dominam estes conteúdos; e a estes ainda soma-se o revés de faltar a experiência empírica da cultura brasileira. O trabalho visa caracterizar a capoeira como prática educativa transformadora. Nesse sentido, tendo em vista o ensino socialmente comprometido, consciente e historicamente embasado da Capoeira, recorremos aos estudos de  Emília Viotti da Costa, Ricardo Franklin Ferreira, Muniz Sodré entre outros para a fundamentação teórica. Utilizamos como estudo de caso o trabalho de capoeira infantil realizado no Rio de Janeiro para ilustrar como essa pratica pode se dar. Concluímos que a transmissão da Capoeira deve ser aliada a pesquisa e a reflexão crítica. embasada em conhecimentos muitas vezes não alcança todo seu potencial social, pois a maior parte dos professores têm um conhecimento restrito, difuso e muitas vezes ingênuo e estereotipado da história do negro no Brasil, na África e na diáspora. Este fato se dá por uma razão: os próprios professores foram submetidos ao longo de sua educação a um ensino que nega e distorce sua história e restringe o seu acesso a fontes mais profundas de pesquisa e conhecimento.

Palavras-Chave: Capoeira para criancas no RJ; Educação; Identidade