Blog

guerra

Vendo Artigos etiquetados em: guerra

A guerreira Maria Felipa

Como lembrei no texto Onde estão as capoeiristas da história, em geral as mulheres capoeiras que se destacaram no passado ficaram esquecidas. Mas é importante conhecer a história dessas mulheres que são exemplo de coragem, persistência e determinação.

Uma dessas mulheres é Maria Felipa, a guerreira de Itaparica.

Maria Felipa de Oliveira viveu na Bahia no século XIX e teve um importante papel na Guerra da Independência, que ocorreu entre 1822 e 1824, para reafirmar a independência proclamada em 7 de setembro de 1822, até que esta fosse reconhecida por Portugal.

Na Bahia, assim como nas províncias de Cisplatina (onde atualmente é o Uruguai), Piauí, Maranhão e Grão-Pará, devido à concentração estratégica de tropas do Exército Português, as lutas foram mais acirradas. Quando a tropa portuguesa comandada pelo General Madeira de Melo tentou invadir a Ilha de Itaparica para controlar a guerra a partir da Bahia de Todos os Santos, Maria Felipa liderava as vedetas (vigias) da praia, um grupo de 40 mulheres que entrou no acampamento do exército português, atacou os guardas com galhos de cansansão, uma planta que provoca sensação de queimadura ao toque com a pele, e puseram fogo em 42 embarcações, promovendo baixas no exército.

Além de guerreira, Maria Felipa também atuou na gerra como enfermeira, socorrendo feridos, além de trazer para a resistência em Itaparica informações da guerra obtidas nas rodas de capoeira do Cais Dourado, para onde ia remando sua canoa.

Há quem acredite que Maria Felipa seja a identidade verdadeira de Maria Doze Homens, que ganhou este apelido após deixar doze homens no chão, porém não existe confirmação a respeito e há ainda outras versões, em uma das quais Maria Doze Homens teria sido companheira de Besouro Mangangá.

O atestado de óbito datado de 04 de janeiro de 1873, confirma que Maria Felipa sobreviveu à guerra e continuou levando sua vida na ilha por muitos anos, porém de seu nascimento nada se sabe.

A heroína foi retratada na obra de Ubaldo Osório, A ilha de Itaparica, e no romance Sargento Pedro, do escritor baiano Xavier Marques, onde são são contatos vários feitos atribuídos à capoeirista.

Fontes:

Capoeira Sou Eu

Conversa de Menina

Overmundo

Passeiweb

Wikipédia

Neila Vasconcelos – Venusiana
capoeiradevenus.blogspot.com

LIVRO BRASIL, NEGRO POR DECENDÊNCIA

Esta obra, visa levar ao conhecimento dos leitores, acontecimentos que marcaram nossa cultura, durante o período escravista e visa esclarecer o comportamento estabelecido pelos colonos portugueses, políticos, e ate mesmo pela igreja. Atos e conseqüências que levou a construção de projetos de leis, algumas aprovadas e cumpridas, outras vetadas. Leis estas contraditórias que gerou atos enlouquecentes para com a sociedade constituída por afro-descendentes.

Povo guerreiro, enviado ao Brasil como escravos, foram vendidos como mercadoria, procedentes de países como Angola, Benguela, Cabinda e Moçambique entre tantos outros. Ao chegar aqui, construíram historia, incrementaram a culinária brasileira, trouxeram alimentos como; a manga, o coco, o jerimum, a galinha d’angola, o azeite de dendê entre tantos outros que constitui necessários ao padrão de vida do consumidor brasileiro. Inovadores e criativos eles foram. Adaptaram aqui, formas de sobrevivências, como por exemplo: as vendas ambulantes, de verduras, peixes, roupas, calçados e artesanato. Costumes que ainda podem ser vistos pelas ruas do Brasil. Tudo isso se da devido à herança cultural deste povo.

Colaboradores da colonização do país, e com a miscigenação dos brasileiros, a constituição do mulato, cor em que o brasileiro é identificado quase em toda sua maioria. Introduziram palavras dos dialetos africanos na língua portuguesa, herdada da presença dos portugueses no Brasil em seu descobrimento no século XV.

Salve! Salve! Os índios, importantes edificadores de nosso país, grande influenciadores na culinária brasileira, com diversos alimentos como; a mandioca, o milho, a batata-doce, o cará, pinhão, cacau, amendoim, palmito, mamão e o caju, estas são parte das influências indígenas na alimentação brasileira.

Foram escravizados antes dos negros africanos, forçados ao trabalho escravo, no período do pau-brasil. Grandes contribuintes com nossa cultura brasileira, suas danças, lutas, costumes, culinária e até mesmo a língua, titulada “tupi-guarani”, que nomeou uma das maiores expressões culturais brasileira, hoje reconhecida internacionalmente, a caa-pu-eera (mato ralo) hoje introduzida como “a capoeira”.

Axé a todos os capoeiras, que bravamente escreveram sua historia no cenário brasileiro, em meio as dificuldades impostas pelo império, e mais tarde, pelo próprio governo, ainda sim sobreviveram e enrriqueceram a nossa cultura, hoje patrimônio do nosso Brasil, e de todos os que se orgulham de ser brasileiros.

Salve! A todos que lutaram bravamente em todas as guerras, como a do Paraguai, e em todas aquelas que passaram despercebida pela sociedade, e que nunca foram reconhecidas pelo poder público. Guerra essa travada entre si próprio, pelo fato de ser descendente de uma classe social menos favorecida, parabéns a todos os brasileiros, índios , africanos e descendentes, que moram nas favelas, nos morros, e que com unhas e dentes, sobrevivem a guerra do dia a dia e da descriminação.

 

Darcy Junior de Aguiar (Cascão)

De Zumbis a Zumbi dos Palmares

ZUMBI dos Palmares

Neto de uma princesa do Congo, ele nasceu em 1655, no Quilombo dos Palmares. Aos 23 anos, tornou-se líder do povoado, que virou o grande foco de resistência dos negros á escravidão. Mas o mérito não foi apenas de Zumbi.

Palmares foi ajudado por um conflito que distraiu os portugueses.

A Invasão Holandesa em guerra com a Espanha, que era dona de Portugal, os holandeses começaram atacar o Brasil em 1630. Isso atrapalhou a repressão a Palmares e soltou milhares de escravos. Os holandeses não ficaram por aqui.

Mas aprenderam o bastante para se tornar uma potência colonial. Que chegaria ao que com Guilherme 3° em 1688, rei da Holanda invadiu a Inglaterra com seu exército. Assumiu o trono e partiu para cima da França, na chamada guerra dos Nove Anos. Não deu muito certo.Tanto que,em 1697, Guilherme 3° decidiu fazer
acordo de paz,cedendo aos franceses parte de uma ilha no Caribe.

Que ganharia o nome de Haiti ele logo se tornou campeão na produção de açúcar e também na escravidão. Mas, aconteceu la maior revolta de escravos da história do mundo. Os negros conquistaram independência e expulsaram os brancos do país. Isso fez com que Haiti desenvolvesse uma cultura quase 100% africana.

Cuja lenda mais célebre são os Zumbis os haitianos acreditam que os bruxos são capazes de ressuscitar os mortos e transformá-los em zumbis (“espíritos”) Daí o nome dado a Zumbi dos Palmares, que tinha fama de sobrenatural.

Os escravos só aceitaram que ele estava morto quando sua cabeça decapitada foi separada do corpo. Como os zumbis dos filmes.

 

Fonte: http://www.rabodearraia.com/capoeira/blog/  – Revista Super Interessante

Haiti: Cenário é de guerra após terremoto

Haiti: Capoeira e Solidariedade

Segue narrativa do amigo e parceiro Flávio Saudade que desenvolve no Haiti um fantástico projeto social e cultural denominado GINGANDO PELA PAZ:

O GINGANDO PELA PAZ nasceu de atividades realizadas ao longo de quatro anos em diversas comunidades do Rio de Janeiro que tinham como foco a mobilização popular para temas de interesse público. A inspiração surgiu com a participação do Contramestre Saudade, à época com 21 anos de idade e professor em capoeira, no Serviço Civil Voluntário, projeto oferecido pelo Viva Rio que objetivava ser uma alternativa ao Serviço Militar obrigatório, e estava direcionado para jovens em situação de risco social que ainda não tinham concluído o ensino fundamental. O contato com disciplinas como Direitos Humanos e Cidadania, a participação em ações voluntárias em comunidades como as Campanhas contra a Dengue e de Paz no Trânsito, somada a experiências internacionais em países como Zimbabwe, África do Sul, Alemanha e Espanha, levou-o a idealizar um projeto que objetivasse fortalecer a atuação da capoeira para o desenvolvimento social.

 

Prezados,

Continuamos aqui na expectativa. Penso que eu, assim como milhares de pessoas daqui, estão com medo de entrar em suas casas; mesmo de ir ao banheiro. O corpo parece que ainda treme, aumentando ainda mais a preocupação. Dormimos fora da casa, no quintal. As pessoas com quem trabalho e um grupo de pesquisadores da Unicamp. Eles estavam no centro da cidade no momento do tremor e viram o Palácio do Governo destruído. É realmente inacreditável a situação aqui, inúmeras casas, prédios desabaram. igrejas, hospitais, supermercados, hoteis, lojas…

É impressionante que um povo que já sofre por tantas coisas, ainda tenha de sofrer mais este desastre. O número de vítimas deve ser grande, mortos, feridos; pessoas de todas as esferas sociais e diversas nacionalidades. Até agora ouvimos pessoas desesperadas, chorando pela rua…

Permaneço ansioso, pois a maior parte de nossos alunos e amigos são moradores de Bel Air, um dos bairros mais afetados. A grande maioria moram em pequenos barracos; em alguns deles famílias inteiras dividem um pequeno espaço… Em Porto Príncipe temos favelas nos morros. A maior parte das construções é feita com material de baixa qualidade, o que aumenta as chances de desabamentos.

Agora o momento é de trabalho. Da melhor maneira tentar minimizar o sofrimento dessas pessoas. O Haiti não tem estrutura para uma catástrofe dessas, e necessita de toda ajuda possível, com urgência. E mais ainda, precisa de coragem para reconstruir as suas vidas e renovar as suas esperanças, ainda que esta seja uma tarefa difícil.

Fraternal Abraço a todos.

Flávio Saudade

Brasileiro diz que cenário no Haiti é de guerra após terremoto

Ele e mais 15 pessoas estão abrigados em uma casa da ONG Viva Rio sem poder sair

O cenário na capital do Haiti, Porto Príncipe, é de guerra, de acordo com o ativista da organização não governamental (ONG) Viva Rio, Flávio Soares. Em entrevista à agência portuguesa Lusa, Soares disse que a cidade “está devastada, um caos”.

>>Detalhes da tragédia no Especial Haiti – http://www.abril.com.br/noticias/haiti-terremoto-desastre-tragedia/haiti-terremoto-desastre-tragedia.shtml

Ele e mais 15 pessoas, entre integrantes da ONG e pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estão abrigados em uma casa do Viva Rio sem poder sair.

“Está um caos. Muitos prédios desmoronaram, tem muita gente disputando comida, os mercados fecharam, muitas pessoas estão nas ruas, feridas, pessoas mortas sendo carregadas. A população precisa de ajuda urgente, há pessoas ainda vivas sob escombros, uma tristeza só”, descreveu.

O brasileiro relatou ainda que o risco de saques é iminente. “O clima é de insegurança. Temos luz e conseguimos comprar água, mas estamos sem telefone e tentando comprar comida. Não temos uma grande quantidade de mantimentos”, afirmou.

Soares disse que ainda não conseguiu contato com a embaixada brasileira que também foi atingida no terremoto. “Estamos tentando entrar em contato com alguém da embaixada para avisar que estamos aqui e para ter alguma orientação. Pelo que parece, as tropas ainda não estão nas ruas”, relatou.

O brasileiro coordena um projeto de capoeira com jovens haitianos e disse não ter tido notícias de nenhum de seus alunos. Mesmo com a tragédia, Flávio Soares disse que vai ficar no Haiti e não pretende voltar ao Brasil.

“Não podemos abandonar as pessoas no momento em que elas mais precisam. Mais que comida e água, elas necessitam de solidariedade, que olhemos nos olhos delas e demonstremos que estamos juntos, que lutamos juntos”, declarou.

Desde 2007, o Viva Rio atua no Haiti em projetos integrados de segurança e desenvolvimento para a redução da violência e de desmobilização de grupos armados na capital, Porto Príncipe.

 

Flávio Saudade
Contramestre em Capoeira
Coordonnateur Sport et Projet Gingando pela Paz
www.vivario.org.br
Mobile: (509) 38540202
http://flaviosaudade.wordpress.com

Crônica: A capoeira vai a luta

O Mestre Primeiro vem nos contar um pouco da história da capoeira, e de suas andanças nas rodas do mundo. Neste seu primeiro artigo, escrito para a Gazeta Carioca, que pela sua relevância e coerência, decidimos publica-lo em nosso PortalCapoeira.com, conta um pouco dos capoeirista na guerra do Paraguai.

Luciano Milani

Imagine um país de 100.000 habitantes e, de repente por necessidade de mão de obra é invadido por mais de 3.000.000 de pessoas, não dá para imaginar? Mais aconteceu, há dois séculos aqui no Brasil e assim nasceu à capoeira.

A capoeira é uma luta genuinamente brasileira, inventada por diversas etnias africanas em solo brasileiro e aprimorada por brasileiros descendentes de africanos aqui no Brasil.

No início esta luta rasteira era altamente eficiente, as pernadas, as cabeçadas, as rasteiras e alguns pulos eram o terror para quem decidia provar ou comprovar desta dança/luta que aqui nasceu. Que digam os paraguaios na guerra (massacre) que ocorreu quando enfrentavam a tropa dos zoavos baianos.

Em 1865 o Brasil, junto com a Argentina e o Uruguai, declarou guerra ao Paraguai.
O exército brasileiro formou seus batalhões e, dentro destes, um imenso número de capoeiras. Muitos foram “recrutados ” nas prisões; outros foram agarrados à força nas ruas do Rio e das outras províncias; aos escravos, foi prometida a liberdade no final do conflito.
Na própria marinha, o ramo mais aristocrático das Forças Armadas, destacou-se a presença dos capoeiras. Não entre a elite do oficialato, mas entre a “ralé” da marujada.

Marcílio Dias (o herói da Batalha do Riachuelo, embarcado no “Parnahyba”) era rio-grandense e foi recrutado quando capoeirava à frente de uma banda de música. Sua mãe, uma velhinha alquebrada, rogou que não levassem seu filho; foi embalde, Marcílio partiu para a guerra e morreu legando um exemplo e seu nome. (Correio Paulistano, 17/6/1890)

Os capoeiras do Batalhão de Zuavos, especialistas em tomar as trincheiras inimigas na base da arma branca, fizeram misérias na Guerra do Paraguai.

Manuel Querino descreve-nos “o brilhante feito d’armas” levado a efeito pelas companhias de “Zuavos Baianos” no assalto ao forte Curuzu, quando os paraguaios foram debandados. Destacam-se dois capoeiras nos combates corpo-a-corpo: o alferes Cezario Alves da Costa – posteriormente condecorado com o hábito da Ordem do Cruzeiro pelo marechal Conde d’Eu -, e o alferes Antonio Francisco de Melo, também tripulante da já citada corveta “Parnahyba” que, entretanto, teve sua promoção retardada devido ao seu comportamento, observado pelo comandante de corpos: “O cadete Melo usava calça fofa, boné ou chapéu à banda pimpão e não dispensava o jeito arrevesado dos entendidos em mandinga”. (REIS, L.V.S. Op.cit., 1997, p.55)_

O 31º de Voluntários da Pátria – policiais da Corte do Rio de Janeiro com grande percentagem de capoeiras – também se destacou na batalha de Itororó: esgotadas as munições,”investiu contra os paraguaios com golpes de sabre e capoeiragem” (COSTA, Nelson in SOARES, op.cit., 1944, p.258).
Devido a estas ações de bravura e temeridade, começou a surgir dentro do Exército e da Marinha, de maneira velada e não-explícita, o mito que o capoeira seria o “guerreiro brasileiro”.
Cinco anos depois, 1870, os sobreviventes da Guerra do Paraguai voltaram, agora transformados em “heróis”, e flanavam soltos pelas ruas do Rio. Muitos engrossaram as fileiras das maltas cariocas e, não raro, pertenciam também à força policial. Mas isto é outra história.

No século passado visando aumentar esta eficiência o reconhecido Mestre Bimba levantou a luta, deu mais agilidade, trouxe golpes traumáticos de outras artes marciais, acelerou e aprimorou a capoeira. E não só isso, conseguiu autorização para ensinar e praticamente difundiu esta capoeira eficiente como luta para o resto do mundo. Não posso esquecer de mencionar que a capoeira sempre foi marginal, no início disfarçada como dança, depois reprimida como chaga, por algum tempo alertada da polícia por assobio, praticada em vielas e becos escuros; já recente praticada somente na zona norte da cidade e graças a uns garotões que foram beber nesta fonte pelos idos dos anos 60, difundida em toda zona sul do Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo.

Esses garotões? o pessoal do grupo Senzala. Se citar alguns e deixar outros de fora posso ser injusto. E pelo mundo, graças ao grupo Abadá e a figura notória do Mestre João Grande.

 

Mestre Primeiro

A capoeira é uma expressão cultural afro-brasileira que mistura luta, dança, cultura popular, música, esporte, artes marciais e brincadeira. Não se sabe ao certo como e onde surgiu a capoeira, provavelmente no século XVII quando ocorreram os primeiros movimentos escravos de fuga e rebeldia, mas só no século XIX há registro de sua prática. Hoje a capoeira se divide em 3 estilos: angola, regional e contemporânea.

 

Tive o prazer de desfrutar da amizade de muitos e aprender a viver com outros, tive a honra de jogar capoeira em 1999 com o Mestre Valdomiro Malvadeza (discípulo de Mestre Pastinha) no Cruzeiro, Pelourinho/Bahia, da amizade posso citar: Mestre Mário Bom Cabrito, Mestre Gildo Alfinete, Mestre Mala da Bahia, Mestre Nestor Capoeira, Mestre Lua, Mestre Peixinho, Mestre Tony Vargas, Mestre Hulk, Mestre Mola, Mestre Mão Branca e desculpem os amigos que não citei, ficam na memória, guardo a verdadeira amizade no coração.

Quanto à vida meu principal professor foi o Mestre Leopoldina e falar sobre Leopoldina não pode ser numa coluna. Desde 1972 segui seus ensinamentos, interrompidos um dia antes de meu aniversário em 2007 na forma presencial e levados adiante toda vez que pego meu berimbau olho para o céu e canto “ … foi o meu Mestre, me botou neste caminho, me livrou de muito espinho, de Primeiro me chamou…”

 

Fonte: http://www.gazetacarioca.com.br

Capoeira ajuda libaneses a suportar traumas da guerra

Levada por um mestre americano à Beirute, a capoeira brasileira ajudou libaneses a suportar os horrores da guerra.

O antropólogo americano Arbi Sarkissian, de origem armênia, introduziu a capoeira no Líbano no início de 2006. Durante a guerra entre Israel e o Hizbollah, em 2006, que devastou o sul do país e atingiu Beirute com bombardeios aéreos e navais, muitos alunos fugiram do Líbano ou se refugiaram em regiões mais seguras.

Mas mesmo em meio à guerra, quatro libaneses se reuniam para continuar praticando, e acabaram fundando o "Capoeira Sobreviventes", que conta até com uma comunidade no site de relacionamentos Facebook.

"A gente ficava deprimido com a guerra, com toda aquela destruição e mortes. Naqueles momentos, a capoeira ajudou a gente a manter nossa mente e espírito", disse a profissional em marketing Cynthia Daher, uma das "sobreviventes".

Sucesso

O mestre Sarkissian conta que no início o grupo era pequeno, mas que aos poucos o interesse foi aumentando: "Havia um grupo de amigos libaneses, que chamamos de núcleo. Eles tomaram gosto pela capoeira e começamos a fazer apresentações em casamentos e festas".

Atualmente o grupo conta com 20 alunos, inclusive três americanos. Sarkissian dedica cinco dias da semana para ensinar a luta e dança brasileira para alunos de nível iniciante e intermediário.

Ele aprendeu capoeira no ano 2000 quando conheceu mestres brasileiros em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ele conta que desde que começou a se interessar pela capoeira, a paixão pela cultura brasileira principalmente a baiana só aumentou.

"Eu havia feito o curso de Estudos Latino-Americanos na Universidade, estudando espanhol e português. Quando conheci os mestres brasileiros, fui convidado a praticar a capoeira e simplesmente me apaixonei."

Após visitar a Bahia duas vezes em 2005, para se aperfeiçoar no português e na capoeira, Sarkissian decidiu introduzir a arte em um país onde o Brasil é muito apreciado o Líbano.

Relaxamento

Segundo Sarkissian, o relativo sucesso do grupo se deve à visão das pessoas de que a capoeira pode ser uma forma de relaxar, exercitar e, acima de tudo, de se divertir.

Depois da guerra, os alunos retornaram, assim como as aulas de capoeira. "O que me surpreendeu é que ninguém abandonou, todos voltaram e o grupo aumentou", destacou Sarkissian.

De acordo com ele, os libaneses recebem muito bem as apresentações, às vezes feitas em praças e mercados públicos.

Amor pelo Brasil

Outro praticante, o escritor americano Jackson Allers disse que há uma atração natural pela cultura brasileira. "Muitos países têm um amor pelo Brasil, não apenas pelo seu futebol, mas também por sua arte, dança e música", afirmou Allers à BBC.

Sarkissian também ministra oficinas em que os alunos fabricam seus próprios berimbaus e outros instrumentos da capoeira. Além disso, alguns praticantes tentam aprender o português.

"Nós memorizamos as canções usadas na capoeira, mas eu precisava aprender o significado, queria aprender o idioma", disse Daher.

Nas noites de sexta-feira, um pequeno grupo se reúne para aprender português com o professor brasileiro Richard de Araújo, que está no Líbano por meio de um acordo entre os governos libanês e brasileiro para ensinar o idioma em um universidade pública.

"Dou aulas particulares para alguns praticantes de capoeira e outros que querem apenas aprender o idioma", explicou Araújo.

Para Daher, é emocionante começar a entender o significado do que canta nas rodas de capoeira. "Acho o português um idioma muito bonito e poético, estou apaixonada pelo Brasil", salientou.

Fonte: Folha Online

Crônica: O MESTRE DE CAPOEIRA

"…a cobra não tem braços,
  não tem pernas, 
  não tem mãos e não tem pés,
  e como ela sobe e não subimos nós…." 1.     
Aquela era uma noite de festas  um tanto profano, um tanto religioso: a antepenúltima noite  das esmolas do Divino. Os presentes em tudo variado: das distâncias;  das idades; dos cabedais. Mestre Benicio buscava  conversas entremeadas de filosofia e misticismo  – para agradar, atrair e alegrar a  todos. Pediram-no para falar da última viagem, da Capoeira  em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro – dos feitos dos Mestres.
 
– “O Mestre de Capoeira antes não dependia das cidades, pós-libertação é necessariamente urbano-periférico. Analfabetos ou pouco letrados, assumem o domínio do povo – dos “capoeira” aos presentes, passando pelos da circunvizinhança. Quase todos vivem num ambiente limitado: numa visão missionária; há os que imprimem viagem mundo afora. Conforto restrito, quase de pobreza material absoluta; de tão absoluta a compensa no seu imaginário pela fama, também absoluta – adquirida num encanto intelectual não se sabe de que origem; mas encanta, cativa, prende os praticantes, como os presentes quaisquer que sejam”.
 
– “A Capoeira não tem fim,  não teve começo. Já mestre – é  a primeira distinção conferida a uma pessoa em reconhecimento
pelo  fazer, ensinar e disciplinar – do plantio  ao cultivo; da caça à pesca; da dança às crenças”. Mestre Benício, professor, cantador e “contador”, negro de família forra, alforriada pelos Castro Alves”, como gostava de dizer. Dizia para enfatizar os valores de ser livre, conversava em zigue-zague, assim atraia a atenção de todos, e a todos satisfazia.
 
Ainda noitinha, frio de maio cortando, vento soprando leve mas constante, fogueira já com labaredas altas ajudando o clarão da lua. O anfitrião despacha mais uma rodada de licores em doses e espécies variadas – jenipapo, caju, mangaba, até de “pau-ferro” – “iche Maria!”.
 
Aduziu mais algumas considerações a este perfil  e contou-nos da simbiose homem-arte-crença. – "Adquire  ele todo o orgulho do seu estado, da sua condição. Recebe  dos seguidores, dos freqüentadores,   uma marca de superioridade do seu meio; uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nem um outro ser humano  consegue.
 
Mestre Benício a nada definia a tudo comparava. Como todo bom “capoeira”, quer trazer todos para o centro da conversa, precisa provocar uma discussão, dá margem à participação, dar a si a vaidade da contenda:
 
– “Toda relação de obediência pressupõe uma troca que traga um ganho ou afaste um medo”. Muitos dos presentes aproveitaram para cada um dar uma pitada. Platéia variada, uns lidos e corridos, outros nem tanto, conversa solta…
 
– “Mesmo a nossa obediência para com Deus requer  troca. Troca pela vida eterna; a volta da saúde  meio abalada…” Chamando
mais para o centro da Roda, provocando bem ao feitio de quem melhor conhece a alma humana – “para com  o  f e i t i c e i r o”, falou pausado – “dono de forças situadas entre o divino e o temporal; entre o ético e o safado –  a obediência está na base de trocas de mesmo calibre  – à volta da mulher traidora, safada, porém gostosona;  o namoro com o filho do vizinho; a traição com o primo, paixão de meninice, com quem não se casou impedida pelos pais.” Certa inquietação. Agora sim, chegou a hora! –  “Quem mais recorre ao feiticeiro é a mulher, quem mais faz promessas a todos os santos – é a mulher, quem antes enjoa do cônjuge é a mulher…” – provocou, para completar – “O Mestre de Capoeira encerra em si  o nível de obediência mais sadio, a mais voluntária das  obediências entre pessoas, fora das relações estritamente familiares. Entre ele e os seus não há um apelo, uma oferta, uma promessa. Na maioria das vezes ele, o Mestre, é o mais pobre do seu meio”.
 
Diante do sorriso geral, um cuxixo e outro,   prosseguiu impassível, não diria sádico, mas sem um  gesto de dó:
 
– "Na sua grande maioria, como que errantes, e os são; esguios pelos exercícios estafantes e o mau passadio;  nutrem-se como agentes da consciência do prestígio; dos  valores da inteligência voraz, iletrada  – a construir  uma FAMA  que o alimenta – apoiados na reverência dominadora, de um lado; de outro na crença que só é possível em quem julga ser responsável por uma banda do Mundo". Depois de tecer explicações do caminho percorrido, completa – "No passado muitos eram sapateiros, estivadores e tantos ferreiros, com forjas ordinárias no quintal acanhado da casa rota; alguns alfaiates – Mestres de Capoeira são vaidosos, gostavam de ostentar “as mãos finas”;  hoje,  tantos são pedreiros, serventes, pequenos comerciantes, carpinteiros; tantos meros biscateiros. Os que têm (tinham) meios de vida, afora a Capoeira, a tudo abandonam, se um projeto lhe surge – viagens noutras paragens, no estrangeiro, nos navios, para "levar a tradição".
 
Depois   de longo silêncio, João Pequeno, garimpeiro não negro, deu uma pitada: "Homens contaminados pela magia poderosa da música; pela perspectiva a que a luta vencida nos conduz; pela vaidade da exibição física; pela nobreza com que nos afaga o poder intelectual.”. Pedindo desculpas devolve a palavra ao Mestre Benício, que vai falando, agora dos seus receios –”.
 
– “De quanto ganha, pouco se sabe. O que se vê – é  ser muito inferior ao valor do  trabalho efetivo  realizado. Sempre pronto a acudir em  cada biboca. De concreto é que tudo faz pela arte, os elogios, pela admiração do povo; após cada luta,  cada apresentação continua como antes. Eu nunca quis saber  como chega em casa, de mãos vazias, a cada dia. Como patrimônio ou consolo – sempre querido, cercado; trilhando soberbo e doce. Na morada, afora grande acervo de áudio,  vídeo e escritos variados – nada tem que passe de um mocambo. Muitos viveram assim; muitos vivem ainda assim”.
 
– Dona Vitória Gama, mulher negra, professora, garimpeira, cantadeira e rezadeira, sempre pronta a ajudar a Mestre Benício com as datas e os nomes dos autores de cada feito, mantinha-se calada e sentada. Em nada coubera uma data, um nome, conversa genérica. Temperou a guela e interveio:
 
– “A superioridade cria inimigos, este é o mais geral princípio da guerra”. Consentida a intervenção, com gentilezas e mesuras pelo Mestre e  interesse pelos presentes, vai explicando o que conhece bem, estudos variados – Guerra e Revolução.
 
– “Não pensem que as relações na Capoeira são mornas. Não. São estremecidas. Não raro ao extremo. Nos encontros entre
 
Mestres, os mimos não duram mais que poucos minutos e  já surgem as alfinetadas –  tão maliciosas, sutis, para atingir a fama do outro; quanto cuidadosas, para zelar da pessoa.  A fama é o objeto da contenda. Esta é das diferenças entre guerra e Revolução: a renúncia à  superioridade faz a Revolução; a luta pela superioridade, causa a guerra”. (2)
 
– “Embora toda cultura seja conservadora, sendo a capoeira extremamente conservadora, pelo seu caráter igualitário  eu diria ser a Capoeira a única ação revolucionária no Brasil. A que avança, embora lentamente, como soe ser”. E finalizou –  “ao “capoeira” para com seu Mestre – nada lhe é mais de ofício que  engrandecer-lhe;  que ouvir de outros referências elogiosas”. E alfinetando, para manter a tradição –  “Eu gosto é de elogios e não de crítica, por isto procuro fazer bem feito, proclama cada Mestre”, finalizou.
 
Foguetes no alto do Morro Azul, (absurdo) o mais vermelho dos lajedos –  estão chegando, as esmolas, a bandeira, o Divino…
 
O velho Mestre vai arrematando da última viagem – “felizmente vi, soube e até conversei, com alguns Mestres doutores, de anel no dedo e tudo,  e olhe que todos novos, 30 a 40 e poucos anos.  Não me lembra de ninguém já nos 50 anos. Tem tantos já escrevendo livro, quem diria?”. E tacou nas notícias que o empolgavam – “Mestre dando aula na Inglaterra – ensinando mesmo, especializações diversas, nas Universidades, para formar doutores também”. E completa – “soube também de muitos “capoeiras”, entrando nas universidades;  como vi, eu próprio, muitos das universidades entrando na Capoeira…", parou, voz impostada. Notava-se um fio de esperança naquele negro “de família forra”, como dizia –  “Meu Deus, cinco séculos de escravidão e descaso!!!
 
 
Nota do autor: Validando as últimas afirmações de Mestre Benício, neste semestre, julho/agosto, o meu Mestre João Coquinho, Mestre do Grupo Berimbau Brasil, 42 anos de idade,  e quase isto de Capoeira; de muita luta e igual quantum de dificuldades, botará anel no dedo, bacharelando-se em Ciências Contábeis, aqui em São. Em data ainda não acertada.
 
 1 Canção de domínio público, africana;
 2 “Os Jacobinos Negros”,  CLR James.

Coletânea de videos sobre Mestre Bimba

Uma coletânea de videos antigos sobre Mestre Bimba.
 
Nos primeiros dois videos o Mestre fala sobre o berimbau e toca o "Hino da Capoeira Regional"
No terceiro video o Mestre é entrevistado em Goiânia
 
Video 1:
 
Mestre Bimba toca o "Hino da Capoeira Regional" – extraído do filme "Dança de Guerra", dirigido por Jair Moura (1968)
 
Mestre Bimba plays the "Hymn of Capoeira Regional" – excerpt of the movie "Dança de Guerra", directed by Jair Moura (1968)
 
Video 2:
 
Mestre Bimba explica como são feitos os seus berimbaus – extraído do filme "Dança de Guerra", dirigido por Jair Moura (1968)
 
Mestre Bimba explains how his berimbaus are made – excerpt of the movie "Dança de Guerra", directed by Jair Moura (1968)
 
Video 3:
 
Entrevista curta como Mestre Bimba em Goiânia. Infelizmente, o áudio está ruim…
 
Short interview with Mestre Bimba in Goiânia (Goiás state, Brazil). Sadly, the audio track is pretty bad…
 
{jgtabber}[tab ==Video 1==]{youtube}1NyXLGtqo5o{/youtube}[/tab][tab ==Video 2==]{youtube}ZH2GVIwSdWM{/youtube}[/tab][tab ==Video 3==]{youtube}vDI_kH0Q0QA{/youtube}[/tab]{/jgtabber}

  

Cortesia: Bruno Souza – Teimosia

Reflexão: Sobre o Estatuto da Igualdade Racial…

SOBRE O ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL,
Mestre João Coquinho,  Andre Pessego
Capoeira Berimbau Brasil – SP.SP
 
A pá de cal – “… julgo de indispensável necessidade indicar-vos que é conveniente facilitar a entrada de BRAÇOS ÚTEIS”,  trecho do texto da fala do trono de 3-5-1830.
            Aquela visão exprime a Doutrina de Estado do Estado Brasileiro, (ainda hoje).  E, sob ela se deram as tratativas para o fim da escravidão africana entre nós.  
            O embate abolicionista se dera de todo em desvantagem para o negro, vejamos: o negro chegara ao Sec. XIX contando apenas com a “graça” da biologia; então tudo se resumiu em discutir o modelo europeu, de indenização ao senhor; desprezando o norte americano de melhor estágio econômico social  do escravo;  –  é só comparar!.     
            Do trabalho, os EUA utilizou o trabalho escravo,  de baixo custo, como atrativo na política de imigração; feita a imigração/colonização sem custos monetário, ao Estado.
           no Brasil, foi proibido ao estrangeiro a utilização do escravo;  foi criada a lei  885, de 4-10-1856, para bancar a imigração/colonização, que avança pela república.  
          No Séc. XIX o conhecimento do negro estava restrito ao manejo da terra. Do manejo das oficinas do ferro a grande maioria perdera, ante as proibições.  Portanto, o seu único meio de sobrevivência tinha de ser a terra: como proprietários de pequenas glebas; ou via serviços prestados. As glebas não lhos foram dadas; da prestação de serviço ao estrangeiro foi proibido;  do nacional foi sendo  retirado e jogado nos monturos urbanos.

            De concreto somente duas proposições:  a de José Bonifácio, e a de  Montezuma.  Ambos encaminhando  a solução para a Terra, em forma de indenização.

            DO MOMENTO DA INDENIZAÇÃO
            A história do Brasil se confunde com indenização. Indenização aos que não fizeram, aos mal sucedidos, aos sem feito, iniciando com o fracasso de alguns dos titulares de Cias Hereditárias. Quanto a indenização do negro, há como que um pacto do diabo que proíbe a todos – brancos e negros – de ao menos ventilarem do assunto.
            O Sen. Paulo Paim, apresentou o projeto que lhe foi possível, acreditamos mesmo com o fito de que viesse a abrir o leque. Um programa de quota deverá ser um dos caminhos para a travessia – no antes, durante e algum tempo após a indenização.
            Indenização requer mais que um acordo, um abraço nacional, a que se junte as duas  bandas da Nação. Uma   consciência em torno de um entendimento e um postulado:
a)      para o Brasil ganhar alguém terá de "perder" algo; este alguém não poderá ser o negro;
b)      será necessário, um acordo que rompa, na brevidade de um dado instante, dentre as chamadas  cláusulas pétreas a  "cláusula do direito adquirido”, com relação à terra.
 E, sem a Terra tudo o mais é tolice,  e é preciso que não haja mais    e n g a n a ç ã o.
Não haverá igualdade, integração do negro sem a posse da terra. Toda imigração européia se deu no compromisso terra; a imigração japonesa, nos dois momentos principais – começo do Sec. XX e no pós guerra se deram e só se deram em cima da posse da terra. Um e outro contingente só se integrou por terem tido as suas sesmarias.
DA HISTÓRIA DAS QUOTAS:  da educação

            O que foram  as cotas educacionais nos EUA? Ora,  abolição se consolida após uma guerra entre o Norte, abolicionista e o Sul escravocrata. Aquela guerra veio  deixar claro a separação de convivência entre brancos e negros. Que fez o Governo? separou – escolas para brancos e para negros, ao invés de ficar com filosofice, – cada um com sua cota. Assim,  já em 1866,  um ano após o fim da Guerra., torna obrigatória a criação de escola para a “gente de cor”, (colored schools). Em 1867, somente na Geórgia, elas eram 143 unidades. Na Pensilvânia, muitas eram móveis, sobre rodas.

            O Estado Brasileiro, hoje não dispõe destas condições, há de haver um arranjo. As cotas, se não for o ideal é o possível. Mas, o SENAI do início da industrialização não houve cotas, nem discriminação. Foi o único momento em que houve ganho para o negro.   

            É bom que se diga já existem estruturas e programas variados com dotações orçamentárias, que são cotas, somente não contemplam ao negro, por falta de um “quê de vontade”. Falta disciplinar. E sempre existiram –  O que são, sempre foram os programas de incentivo regionais, setoriais, etc? – Quotas para  indo-europeus.

DE OUTRAS  QUOTAS EXISTENTES.
            A quota emprego, para esta o tesouro não precisará empregar um só tostão, basta  constar de lei tornando obrigatória a divisão dos cargos de Direção nas empresas e organismos públicos, como Banco do Brasil; universidades; nas Forças Armadas, notadamente a quota dos oficiais generais,  etc .etc,  em todos os níveis. Adotadas nelas as empresas privadas as adotarão de imediato, sem custo, sem incentivo, naturalmente.
   DAS LEIS DE INCENTIVO À CULTURA.
            As leis de incentivo às manifestações culturais, como estão são meramente fonte de enriquecimento ilícito. Se cotizada será de enorme utilidade na restauração das origens culturais, históricas, do negro. A guisa de exemplo.
Será necessário  esquartejar os recursos na sua concessão, de qualquer fonte,

(empresa): 50% para as manifestações urbanas, sendo 25%  via empresas organizações; 25% via amadores, os próprios artistas, etc; 50% para as manifestações de cunho rural, interioranas, do mesmo modo, 25% via entidades, empresas; 25% de modo amadores, avulsos; organizações informais. O Mesmo aplicar-se-ia aos patrocínios de esportes.

   DA QUOTA ÁGUA ( água de beber camará). (O mesmo vale para a “Luz”).
            A miséria institucionalizada, gera a indiferença, o alimentar da miséria…
            Neste instante,  MAIS DA METADE da população negra brasileira, nas grandes cidades, para beber tem de furtar a água. E todos sabemos disto. E todos fechamos os olhos. “Nos acostumamos” – os que furtam,  os que sabem, os que vêem; os que dizem não saber.
            Que seja instituída uma cesta água de 15 m3, mês, por família não alcançada no Imposto de Renda e aposentados, já. Dando amparo legal à quota que já existe de fato.
            DAS FORÇAS ARMADAS,
            A abolição  da escravidão nos EUA se concretiza, em último momento, pela intervenção das suas Forças Armadas, custando-lhes uma guerra intestina de 5 anos,  custando-lhes, de perdas em vidas e patrimônio, ainda o assassinato do Presidente Lincoln, em 14-4-1685, um dia antes do fim da guerra norte-sul, 15-4-1685.
            Das Forças Armadas Brasileiras basta que se diga – a segunda maior devedora do negro brasileiro, atrás do cristianismo: a maior desgraça do negro – em todas as épocas, em todos os lugares.
            Não tenhamos ilusão, é preciso o engajamento, a participação ativa das Forças Armadas para que se possa concretizar a indenização, (integração),  do negro brasileiro.
           

 

     
 

       

Escola de semba

Nas ruas de Luanda, os angolanos reaprendem sua cultura depois de 40 anos de guerra civil.
e redescobrem seus laços com o Brasil
 
 
 
 
texto e fotos: Ricardo Beliel, de Luanda
publicado: Edição 158


 
 
Os inúmeros mercados ao ar livre de Luanda, a capital angolana, há sempre um pequeno grupo de músicos cantando, em seus próprios dialetos, canções de terras distantes e esquecidas. Um desses músicos é o ex-soldado Tomás Dalakutola, que ficou cego após a explosão de uma granada num combate em Kalandula, no norte do país.
 
 
Feito a mão
Não é raro que músicos façam seus
instrumentos, como os tambores
ngoma
(acima), moldados a partir de troncos de
árvores, ou as marimbas (abaixo).


 
Ele seus amigos Joaquim Leovela e Pedro Salvador fugiram da guerra na província do Malanje para cantar as histórias de seu povo nas ruas da capital. As músicas são interpretadas por Tomás numa viola de três cordas, a kambanza, enquanto os outros dois ditam o ritmo com garrafas, zagaias e tambores ngoma. Longe dos fuzis e morteiros, os três dividem um pouco da esperança de resgatar a cultura popular oculta pela fumaça dos combates por décadas. Uma cultura que começa finalmente a ecoar na viola de Tomás e na bateria das "escolas de semba". Sim, semba, com "e" mesmo, o ritmo que ganha cada vez mais as ruas do Carnaval angolano e deixa à mostra os inegáveis laços desta terra com o Brasil.
 
O resgate da cultura angolana é um fenômeno em evidência. Como Tomás, muitos deixaram as agruras da guerra na província do Malanje para tentar a sorte na música pelas ruas da capital.
 
São quase sempre histórias dramáticas, como a do quarteto de adolescentes Tunjila Tuajokota, que faz sucesso nas transmissões da Rádio Nacional de Angola. Dois deles perderam a visão em conseqüência do sarampo contraído numa fuga pela savana que durou dois anos.
Adotados durante a guerra pelo diretor musical Dumay Missete, os garotos descobriram o sucesso, mas não perderam as raízes: o repertório no estilo diémbe só é executado depois de aprovado por um grupo de anciãs de uma comunidade de migrantes malanjinos na favela de Palanca.
Oficialmente terminada em 2002, a guerra civil angolana durou 40 anos, deixou 1 milhão de mortos e provocou danos, muitos deles irreversíveis, na diversidade cultural do país. Embora unidos pelo português, kikongos, kimbundus, umbundus, lunda côkwes, mbundas, nyaneka-humbis, helelos, ociwambos e khoisans falam cada um seu dialeto e mantêm tradições próprias. Para fugir da guerra, muitos desses grupos abandonaram suas terras ancestrais, mas não sem antes perder grande parte da população adulta nos combates. Por pouco, diversas manifestações centenárias da cultura oral não foram pelos ares numa explosão de minas.
 
Em Luanda, há sempre um pequeno grupo de músicos nos diversos mercados ao ar livre
 
Preocupado em salvar esse tesouro, um grupo de voluntários liderados por Amarildo da Conceição criou o Núcleo Nacional de Recolha e Pesquisa da Literatura Oral. Eles saem à procura dos mais velhos nas comunidades de refugiados caçando endas, contos, narrativas genealógicas, receitas medicinais e espirituais, danças, músicas e até mesmo poemas guardados há gerações. "Os depoimentos são colhidos a mão, sob o risco de perda de várias passagens desse sábio discurso", lamenta Amarildo. Embora não seja realizado um censo desde 1981, calcula-se que 60% dos 11 milhões de angolanos sejam analfabetos.
 
Os axiluandas, moradores da Ilha de
Luanda, vivem da pesca e cultivam
tradições como a festa de Kianda,
semelhante à nossa Iemanjá



 
 
 
No bairro Operário, o som do batuque anuncia
o ensaio do Grupo Experimental de Dança Tradicional Kilandukilo. Dançarinos e músicos deixam a casa branca de esquina e colocam uma grande marimba sobre um tapete de palha estendido no chão de terra e enchem as ruas com seus tambores ngoma. Sob as ordens de Maneco Vieira Dias, fundador e diretor do grupo, os dançarinos exibem a seus vizinhos as coreografias baseadas em tradições tribais. Aos poucos, platéia e dançarinos confundem-se numa grande festa. Por um momento a guerra é esquecida e são todos tomados por uma nostalgia única de suas origens. A saudade de um tempo em que viviam em paz nas florestas do Kwanza Norte e do Malanje ou nas savanas do Huambo e do Bié. Luanda é hoje uma cidade de imigrantes – só que são todos angolanos.
 
Na pronvíncia de Huila,
as mulheres pastoras
mumuilas indicam seu
status social pelo
número de colares
que ostentem



 

  
 
 
Luanda lembra a Salvador baiana. Tem também sua Cidade Baixa. Aqui, num velho sobrado construído pelos portugueses no século 19, reúne-se o mais antigo grupo de capoeira do país, o Abadá. Ao contrário do que possa parecer, a capoeira não nasceu em Angola. Foi trazida para cá pelo mestre brasileiro Camisa em 1996, quando fundou o grupo. Mas Cabuenha, Galo, Zinga, Catorze, Zindungo, Índio e Muxi, os decanos do Abadá, reconhecem na capoeira brasileira as influências de lutas seculares praticadas por seus ancestrais – como a ginga da bassula, da Ilha de Luanda, o jogo da kambangula e o n’golo, ambos de Benguela. O berimbau é idêntico ao que se toca no Brasil, embora por aqui eles o chamem de hungo.Samba, cafuné, canjica, capoeira, cuíca, farofa, fubá, ginga, jongo, quilombo e macumba são todas palavras que têm origem em Angola. Foram trazidas até nós nos porões dos navios negreiros, embarcadas com os escravos comprados no porto de Luanda há quatro séculos. Se mais de 5 mil quilômetros de Oceano Atlântico não conseguiram apagar a vigorosa e mágica influência da cultura bantu dos angolanos em nosso país, 40 anos de guerra civil também não puderam exterminar uma diversidade de manifestações culturais que na Angola de hoje continuam quase idênticas às da época em que navegaram os mares da escravidão.
Poemas, cantigas e lendas estão sendo gravados e anotados por voluntários na tentativa de manter viva a cultura
 
É também na Baixa que acontece o Carnaval de Luanda. Durante três dias, diversos grupos desfilam ao longo da Avenida Marginal, ladeada por um belo casario colonial. O ritmo preferido é o semba – que, como o nome propõe, é a origem do nosso samba. Há quem já sugira o nome de "escola de semba" a essas agremiações, embora o Carnaval angolano seja na verdade regado a uma verdadeira democracia de ritmos: kabetula, kazukuta, ndimba, varina, cidrália, dizamba e, é claro, o semba. Grupos como o Unidos do Caxinde, a União Operária Kabocomeu e a União Mundo da Ilha chegam a desfilar com mais de mil integrantes, acompanhados por uma pequena bateria composta por tambores, dikanza (reco-recos), cornetas, bumbos de lata, chocalhos e puítas (cuícas).
Os primeiros registros do Carnaval angolano datam de 1857, segundo um boletim oficial do Governo Geral. O documento chamava a atenção para a festa popular dos kimbundus que ocorria em Luanda e nas cidades de Cabina, Malanje, Benguela e Lobito. Por influência dos portugueses, os personagens principais da festa são reis, rainhas, princesas, condes, vice-condes e comandantes. Todos negros e com o semba no pé. As mulheres que dançam vestidas com panos multicoloridos são, em geral, peixeiras da Ilha de Luanda ou das comunidades de Samba Grande e Corimba ou quitandeiras dos bairros de Sambizanga e Kilamba Kiaxi. Mas há também mulheres no meio da bateria. Uma delas é Luciana Pedro, do União 54, que começou a tocar com a mãe na década de 40. Ela diz sentir-se satisfeita entre os homens. "Sem o som da banheira (uma espécie de bacia) que toco, eles não conseguem extrair bem a batida do batuque, porque a banheira serve para dar ritmo ao semba."
Passados os sangrentos anos de guerra civil, o Carnaval de Luanda ganha sabor de festa e se reaproxima cada vez mais da alegria dos carnavais de Salvador ou do Rio. Enquanto redescobrem o prazer de festejar, os angolanos também restauram os laços históricos com o Brasil. Lampejos de memória já surgem no país inteiro. Na Ilha de Luanda, 50 mil pescadores homenageiam em setembro as yanda, as sereias do mar, num culto que lembra muito a festa de Iemanjá. 
 
No passado, Angola influenciou a cultura e a língua no Brasil; hoje importa a capoeira e o amor pela música
 
 
Os reis e rainhas dos
grupos carnavalescos
remontam aos tempos
da colônia



 
 
 
 
 
No Arquivo Nacional estão guardados os registros de venda de escravos para o Brasil, com nomes que podem dar pistas da árvores genealógica de muitas famílias brasileiras. Na Baía do Mussulo fica o misterioso Museu da Escravatura, no mesmo lugar onde por três séculos levas de cativos eram vendidos e embarcados em navios negreiros rumo ao outro lado do Atlântico. Os músicos cegos do Malanje talvez nunca tenham lido as palavras do escritor angolano José Eduardo Angalusa. Mas certamente eles concordariam com o trecho em que ele afirma: "O passado é como o mar; nunca sossega".
 
 
Museu da Escravatura onde funcionou o
mercado de escravos que iam para o
Brasil