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Loucos pela Diversidade

Cerimônia de Premiação será na próxima quarta-feira (25) no Teatro de Arena da Caixa Cultural, no Rio

O Ministério da Cultura e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizam, no próximo dia 25, às 11 horas, no Teatro de Arena da Caixa Cultural, no Rio de Janeiro, a cerimônia de premiação do Edital Loucos pela Diversidade 2009, Edição Austregésilo Carrano.

55 iniciativas, selecionadas por meio de concurso público, foram contempladas com o prêmio, que teve investimento total de R$ 675 mil oriundos da Caixa Econômica Federal, parceira da Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (SID/MinC)e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por intermédio do Laboratório de Estudos e Pesquisa em Saúde Mental (LAPS), na realização do Edital.

O Prêmio Loucos pela Diversidade integra as ações da SID/ MinC para promover e garantir a participação das pessoas em sofrimento psíquico nas políticas públicas de cultura, e é resultado das propostas aprovadas na Oficina Nacional de Indicação de Políticas Públicas para Pessoas em Sofrimento Mental e em Situação de Risco Social, realizada em 2007, no Rio de Janeiro.

Ao todo foram 369 projetos inscritos que atuam na interface saúde mental e cultura para pessoas em sofrimento psíquico. Os prêmios foram divididos em quatro categorias, sendo, 7 deles destinados para instituições públicas, 8 para organizações da sociedade civil, 20 para grupos autônomos e 20 para pessoas físicas. Cada prêmio, para as três primeiras categorias, será de R$ 15 mil. Para os integrantes da categoria pessoas físicas o valor da premiação será de R$ 7,5 mil.

A cerimônia de premiação contará com a presença do Ministro da Cultura, Juca Ferreira, e do secretário da Identidade e Diversidade Cultural, Américo Córdula. Haverá um cortejo com o Coletivo Tá pirando, pirado, pirou! e uma apresentação musical do grupo de ações poéticas Sistema Nervoso Alterado. Ambos os grupos foram premiados no concurso.

Os Contemplados

Uma das iniciativas contempladas com o Prêmio Loucos pela Diversidade 2009, Edição Austregésilo Carrano, foi o Programa Igual Diferente, desenvolvido, desde 2002, pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. O programa tem como objetivo promover o estudo e a criação de arte, por meio de modalidades artísticas como a pintura, a escultura e a fotografia, para pessoas em situação de sofrimento psíquico.

A coordenadora do Programa Igual Diferente, Daina Leyton, considera iniciativas como o Prêmio Loucos pela Diversidade, fundamentais para o estímulo a programas que promovam a reintegração social das pessoas em transtorno mental que, na maioria das vezes, são vítimas de discriminação social. “É um marco no processo da promoção e da construção de ‘um outro olhar’ para a questão dos deficientes mentais. E, mais do que isso, é também um importante passo na quebra de preconceitos e um incentivo para que outras instituições desenvolvam atitudes semelhantes”, diz a coordenadora.

A SID/MinC publicará, no decorrer da próxima semana, uma série de entrevistas com os premiados do Edital Loucos pela Diversidade. A primeira será a entrevista completa com a coordenadora do Programa Igual Diferente do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Daina Leyton.

Crônica: “Iê” (*) – VIVA MEU MESTRE!

A Capoeira passa, nos últimos 20 anos, por uma expansão significativa: no Brasil cresceu, verticalizou  ao chegar na Universidade; no mundo, começa a horizontalizar.
 
A expansão  que resumimos, e mesmo por conta do crescimento vegetativo vem dar  margem à graduação de um maior número de Mestres. Neste avanço também   desponta o interesse e o envolvimento  comercial, aliás para expandir precisa criar um mercado. E como está o Mestre? A figura do Mestre? – vamos dizer assim do “Mestre dos novos tempos?” – aí é que nos interessa: A relação do  “capoeira” com o Mestre, e vice-versa.
O elemento motor da Capoeira,  é o Mestre. “O Mestre é uma marca de elevação, de supremacia, de predomínio, que nenhum outro ser humano consegue”, analisa  Mestre Benício.  E, é verdade: toda  relação de obediência   pressupõe uma troca que  traga um ganho, ou afaste um medo. Mesmo nas relações com Deus está escancarada a troca de qualquer favor ou fervor – pela salvação da alma; nas enfermidades – pela  cura, etc.; para com o feiticeiro – aquela mistura meio-deus/homem/diabo, dono de forças, situadas entre o divino e o temporal; entre o ético,  e o safado – a obediência   estava na base das  trocas de mesmo calibre: da  boa colheita, um bom emprego;  até à volta da mulher amada –  traidora,  corneadora  há  tanto tempo, mas gostosa.  Nas relações de Estado, não existe opção; nas relações de emprego, idem. Entre “os capoeiras” e o Mestre, não pressupõe troca alguma. Por que? –  Antes, porém: em que se apóia o Mestre de Capoeira para ser guardião de obediência, inclusive de quem não conhece?
 
-Na FAMA, se apóia na fama. Acho a explicação mais plausível. Se não, vejamos.
 
-“A superioridade cria inimigos”, este o mais geral princípio da guerra.
As relações entre o Mestre de Capoeira e os seus, é o ato mais voluntário dentre todas as relações humanas, (fora das relações estritamente familiares).  O capoeira orgulha-se em  reconhecer, delegar superioridade a “seu”  Mestre. Cada um  orgulha-se da fama do “meu” Mestre. Cada um  satisfaz-se, obediente, diante de um número qualquer de outros Mestres: Sem que haja o pedido da salvação da alma, o medo do inferno; ter de volta a namorada que outro tomou. Não há pedido, nem a expectativa de troca alguma.
 
-Dos Mestres, num encontro com tantos, não se espere mais que alguns minutos  do
saudar,  as alfinetadas, mútuas:  delicadas, sutis, maliciosas. Para que? – para atingir a FAMA do outro. Pela exibição intelectual. Nunca por superioridade, no sentido clássico. Sempre foi assim, mesmo antes das cordas e cordões, (que são novatos).
 
-Observa-se uma certa preocupação, por  “Mestres dos novos tempos” e até por
outros mais veteranos “em ser igual”, em “se mostrar igual” aos da Roda. Não! Não é. Nem pode  ser. Vejamos este exemplo, distante, mas serve como referência: Quando milhões de católicos conferem ao PAPA o seu grau de elevação, o fazem livremente. O Papa deixa de ser igual a outro padre, a outro bispo, etc. Dentre aqueles fiéis, quando alguém deixa de ser católico,  não lhe é imposta pena nem uma. Também o Papa não deixa de ser o Papa.
 
-Todo Mestre de Capoeira transita com a desenvoltura de qualquer um, em qualquer
lugar,. Mas não é igual:  ele recebeu a delegação, a autoridade,  “para não  ser igual”. Quando alguém resolver “sair”, romper o pacto,  o faz…. Mas, o Mestre continuará . E o pronome  “meu” é apenas um referencial: O Mestre é o Mestre, conquistou o título e recebeu a delegação para exerce-lo, se assim se pode dizer. Cada “capoeira” guarda o orgulho da superioridade do seu Mestre. Só assim continuará a Capoeira – encanto da alma.
 
-Por que choras Manavane? – Estou velho não posso cantar. – Tu gostas de cantar?
Perguntei-lhe num esforço, sem saber como agrada-lo. Imaginei-o cansado. O observava desde cedo. Eram cerca de 200 pares de dançarinos e numero incerto de guerreiros. Todo par ao entrar na dança passava diante do velho: afastavam-se dos corpos e lhe abriam os braços. O velho às vezes fazia um gesto, na maioria dos casos nem os olhava.  Os guerreiros cruzavam os braços e paravam por um instante na sua frente, às vezes em fila, às vezes individualmente… Ele me olha, pareceu-me tomado de cuidados comigo, e respondeu-me:   –  “Quando o preto canta, Chicuembo repousa… (Deus descansa).
 
-Crônica de um dos raros sábios portugueses que foi à África em data incerta, (talvez
fins do Séc. VI) narrando como   aquele povo obedecia à figura do Mestre. Aquele velho era um Mestre, o mais velho. Enquanto, por cansaço, ou por vontade, não ofertasse a outro Mestre, o lugar,  todos lhe rendiam reverências. E ele lembra que a figura do Mestre era igual em todos os lugares. Na Europa também o havia sido, dos ofícios às culturas.
 
(*) O “IE” entre aspas, indica que foi dito pelo Mestre, privativa do Mestre.
 
 
André Pêssego
Berimbau Brasil – SP/SP Grupo de Mestre João Coquinho.