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Semana comemorativa dos 10 anos do Centro Cultural Aprendizes

O Centro Cultural Aprendizes foi criado em Fevereiro de 2000, por seu fundador, Márcio Jeová Neumann – Mestre King, na cidade do Rio de Janeiro.

O grupo tem como objetivo direto, difundir a capoeira como filosofia de seu trabalho, seja buscando o desenvolvimento do nível técnico, teórico e didático-pedagógico da capoeira como arte, luta, cultura, profissão e filosofia de vida, visando resgatar a valorização dos verdadeiros Mestres antigos, como autênticos representantes da manifestação cultural genuinamente brasileira.

Programação do Evento de 10 anos do CCA – Março/2010

Este evento acontecerá a partir do dia 1º de março, na AABB Tijuca – Rua Haddock Lobo, 227 – Tijuca, Rio de Janeiro/RJ, Brasil.
Será um Batizado e Troca de cordas, além de estarmos comemorando os 10 anos de fundação do Centro Cultural Aprendizes.

2ª feira (01/03/2010)
Roda de abertura – 19:30 – Av. 28 de Setembro – em frente ao Planeta do Chopp.

3ª feira (02/03/2010)

Roda na Quinta da Boa Vista – 09:00
Aulão com Mestre Burguês – 20:00 – Academia

4ª feira (03/03/2010)

Aulão com o Mestre King – 20:00 – Academia

5ª feira (04/03/2010)

Roda em Caxias – 17:30

6ª feira (05/03/2010)

Trilha na floresta da Tijuca (horário a ser confirmado)
Treino e bate-papo com os mestres e convidados – 20:00 – Academia
Roda aberta nos Arcos da Lapa – 22:30

Sábado (06/03/2010)

Roda no Largo do Machado – 09:00
Entrega de cordas e formatura – 13h / 17h – AABB – Rua Haddock Lobo, 227 – Tijuca / RJ

Domingo (07/03/2010)

Encerramento

Para maiores informações, favor entrar em contato com os telefones: (21) 2567-4147 ou (21) 8289-4852.

Email: capoeiraaprendizes@yahoo.com.br

Mestre King
Centro Cultural Aprendizes.

A saga do Negro Capoeira

Interlúdio de alguns capítulos para contar a saga do negro capoeira conhecido como King Kong
Crônica escrita por Mestre Tonho Matéria, onde o autor conta parte de sua própria história
 


Roberto? E quem disse que ele não era mole?
 
Um menino cheio de energia que fazia nas ruas do seu bairro um centro de vandalismo, uma espécie de membro da Nagoas que como um ser malta desequilibrava a esperança de paz dos seus vizinhos.
 
Carrasco lembra bem, certo dia quando encontrou pela primeira vez com ele na Praça da Sé sentado num dos bancos que ficava ali esperando alguém para o ócio, matutando algo que iria de uma forma não tão suntuosa, provocar um ato de alvoroço. Vestido com um macacão azul onde tinha o emblema do Liceu Arte e Ofício, que era o colégio onde estudava, isso era o que naquele momento demonstrava o nagoa. Sua mãe, dona Elza, uma negra descendente de africana legítima, ou seja, uma original filha de Luanda, não escondia o amor por ele, e nem conseguia dormir direito, porque seu quase primogênito não tinha horas para chegar a casa, vivia o tempo inteiro no meio das ruas, muitas vezes pongando em ônibus, o que chamamos de surfista de asfalto, desafiando a lei da sua própria gravidade.
 
Seu pai um quase Manuel Querino e sábio do seu povo onde, com gratidão, levava a vida inteira contando causos do tempo dos seus ancestrais. Ele era um homem de caráter forte e de sinceridade à flor da pele, conhecido como Mané do Burro, um mercador ambulante que vivia de calçadão em calçadão vendendo seus limões para levar pra dentro de casa o édulo que com muito esforço, e merecimento, era conseguido,  transformado-o em satisfação. Seus irmãos, dois descendentes também quase legítimos de Angolano, conhecidos como Barata e Negrura, eram os mais centrados de todos. Barata vivia falando consigo mesmo e não gostava muito de prosa. Já Negrura, por ser o mais velho dos três, tinha uma maneira diferente de se comportar com as pessoas. Ele andava jogando dama na porta do armazém de Branco, e assim levava sua calma vida de um rapaz que compreendia a vida que tinha.
 
Já seu irmão casula não, ele era um terror e não conseguia um minuto se quer deixar os vizinhos em paz. Muitas vezes foi preso pela guarda do bairro por estar fazendo baderna, e isso, simplesmente, por jogar pedra ao telhado do vizinho ou por procurar intrigas com quem passava quieto.
 
Ouve uma ocasião em que ele ficou de plantão na porta do mercadinho de Louro a espera de Panela, um garoto boxeador que morava na rua de baixo, conhecida como Rua das Pedreiras, por cisma. Só que teve um dia que ele se deu de mal com Panela, levando alguns cruzados no rosto, acompanhados de diretos e ganchos. E com isso levou-se anos e anos pra ser desmistificado esse rancor. Eles cresceram, se tornaram adultos, e não conseguiam se separar da infância. O menino era assim mesmo, um valente guerreiro que não sabia o que o destino estava protocolando para a sua vida.
 
Quando já trabalhando na Limpurb (Empresa de Limpeza Publica Urbana), continuava a cometer os mesmos atos de antes, era um erê com sua brasilerança de truculentos modos de agitar. Certa feita conseguiu escapulir da garupa do caminhão onde pegava os lixos que as donas de casa deixavam na porta, se ralando todo, tendo vários ferimentos em toda parte do corpo, e mesmo assim não aprendeu. A sorte dele foi que naquela época a empresa obrigava os seus funcionários a usarem um macacão cor de abóbora, com uma faixa em forma de um xis incandescente, para avisar aos motoristas que havia perigo, ou seja, homens trabalhando para limpar a cidade e ao mesmo tempo correndo risco de vida pendurado no que chamamos de "carro de lixo". Mas pra ele isso não importava muito e não tinha um valor se quer, não pensava muito em constituir família e nem tinha medo da morte tanto que fazia da sua vida um coquetel de riscos. Acredita-se que o mais importante disso tudo foi o que estava por vir, e nem ele mesmo teria noção disso.
 
O mais engraçado de tudo é a maneira como ele é, até hoje, conhecido e chamado no bairro por "Nenenquinha". E não perguntem qual a origem da palavra que ninguém saberá explicar. Talvez seja por conta de suas pelas travessuras, ou se, quando ainda era bebê, fosse a alcunha gerada por sua mãe por chamá-lo de Neném e os vizinhos de Quinha e daí surgiu Nenenquinha, uma junção de dois nomes carinhosos. Isso é uma hipótese! Na verdade o segredo do nome foi com dona Elza para o jardim dos espíritos de luz e lá ficou para sempre.
 
Voltando a falar de sua mãe, Elza foi uma verdadeira dona de casa que tinha em sua particularidade o segredo e sagrado dom de proteger. Proteção essa que virava noites e mais noites sentada na porta da casa esperando o último dos três filhos entrar e se deitar. Era uma pessoa maravilhosamente meiga e cheia de vigor. Não poupava uma bacia de roupa suja, ela lavava de ganho e mesmo aparentando seus 60 anos, que mais parecia uns 30 de tanta energia que esbanjava, não conseguia ser uma mãe descontente dos seus atos de ser sempre uma mãe exemplar. Brigava com qualquer um por causa dos seus bambinos, e não dispensava uma surra neles também. Na verdade todo povo de Ogum é assim mesmo, bastante guerreiro e imbatível.
 
Varias e varias vezes dona Edith ficava batendo papo até altas horas fazendo companhia a mãe Elza, como era chamada pelos meninos. Coitada, morreu cedo demais para uma mulher que era tão forte espiritualmente. Mais é isso mesmo, é o caminho de todos os negros que ainda vivem num quilombo sem ter certeza que a vida pode mudar a sorte de ser um doutor, o que na verdade aconteceu com seu tão protegido e amado filho.
 
Recordaremos um episodio que acontecera na Cidade Nova, quando um bloco de percussão passava arrastando o povão era uma zona danada, e ao mesmo tempo gostoso de ver o SPP passar tocando suas batucadas. Quando de repente, quem estava batendo nas pessoas? Ele, o próprio Roberto Nenenquinha, o temido pelas pessoas da área. O que tinha de bom era que ele nunca precisou usar armas para se defender, ele tinha já os punhos preparados para seus ataques sombrios. Mais com sempre terminava apanhando também ou indo preso.
 
Nenenquinha teve uma infância normal como qualquer criança do gueto tem. Foi vendedor de picolé e carregador de compra, e um dia tivera um sonho que iria modificar a sua vida. Aos pouco foi se descobrindo como negro e sabia que tinha uma razão mais profunda para se concretizar no universo, e ai conheceu uma dança que era uma mistura de luta que se espojava pelo chão e quem fosse de verdade o babalaô dessa dança não se sujava. Tomou gosto e mergulhou de vez e até hoje não conseguiu voltar do fundo do oceano dessa dança.
 
Que magia tem essa dança que não deixa ninguém viver sem falar nela? Principalmente quem a conhece e lhe tem como um guia protetor. Será que há magia e mistérios guardados com seus criadores que eles não conseguiram contar porque não tiveram tempo de achar um indivíduo capacitado de adquiri-la? Ou será que Deus colocou nas mãos do dona da estrada e mandou que ele se virasse sozinho por ai para sair emergindo de dentro de si essa dança num formato de dois corpos dentro de uma roda viva para dar significado ao mundo? Fica aqui essa interrogação.
 

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