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Esportivização de Práticas Corporais

Hoje ainda vivemos numa sociedade capitalista onde a população é dividida em classes sociais. Elas lutam por seus interesses buscando seus objetivos

O objetivo da classe trabalhadora, das camadas populares, tem origens históricas e uma conotação pela sobrevivência, ou seja, pelo direito ao emprego, ao salário, alimentação, habitação, saúde, educação, etc. São objetivos de condições  básicas  de   vida.

A classe proprietária tem como objetivo o de acumular riqueza, ampliar a margem de lucro, o patrimônio e de garantir sua posição privilegiada através do domínio do poder, estabelecida por uma ideologia dominante conquistada pela exploração. Não abre mão de seus interesses e nem pretende transformar a sociedade para uma mais justa onde todos tenham um tratamento digno de vida.

 

 

O domínio da classe proprietária é estabelecido por sua ideologia que nada mais é uma forma de alienação social que tem uma razão de pensar impondo seus interesses, seus valores, sua ética e sua moral a todos os indivíduos, desrespeitando as diversas culturas, os percursos históricos de cada etnia e suas posições sociais que se encontram. Nas escolas, nas universidades e toda a mídia faz a transmissão desta ideologia onde todos passam a assimilar esta consciência dominante e, o pior, a reproduzi-la.

 

 

Hoje, a razão estabelecida por esta ideologia dominante é apenas de ter lucro, de ampliar o lucro, que está à cima das questões básicas de sobrevivência onde todos, independentes de classe social, se comportam numa ótica individual soterrando o coletivo, o espírito comunitário, o próprio equilíbrio da natureza.

 

 

Desta forma, tudo que possa render lucro é absorvido neste sistema se transformando em mercadoria, em negócio, mesmo que tenha que se distanciar dos objetivos históricos, sociais e culturais que a gerou. Não escapa nada até mesmo o nosso corpo, nossa alma e nossas raízes.

 

 

O esporte que encontramos hoje tem uma conotação muito forte com o lucro, com o rendimento, para se sustentar na lei do comércio. Sua sustentabilidade esta diretamente relacionada com a amplitude do seu consumo.

 

 

Este processo que se encontra o esporte vem de uma concepção de uma prática corporal ocidental, traduzindo uma expressão de máxima produtividade mecânica do corpo incitada pela mente que está separada deste corpo, atendendo as regras de rendimento.

 

 

A partir desta ótica, as práticas corporais de outras culturas quando surge na sociedade tende a adecuar-se as regras de rendimento para sobreviverem no comércio das modalidades corporais, ou seja, a esportivização.

 

 

A esportivização de práticas corporais de outras culturas molda seus movimentos dando um caráter competitivo, mecanicista, distanciando-se de suas origens e de seus objetivos sócio-culturais.

 

 

É claro que tem outras maneiras de se fazer o esporte como por exemplo o esporte participativo, o educacional, tão bem colocado pelo professor Manoel José Gomes Tubino, em seu livro – Dimensões Sociais do Esporte; mas o que predomina na sociedade é o esporte de rendimento mesmo fora de seu contexto. Mesmo assim não se pode transformar qualquer prática corporal seja qual for o esporte desejado, pois se corre o risco de despoja-las de seus significados culturais.

 

 

O movimento do corpo nada mais é uma expressão com gestos, com ritmos, de sentimentos, de adornos e cores que significam a cultura e visão de mundo de cada povo construído ao longo do percurso histórico de cada um. Com muita certeza as práticas corporais da cultura ocidental são bem diferentes da cultura oriental, da africana, da indígena, etc. Todas elas têm sua importância pois traduzem visões de mundo diferentes com seus saberes e que estão presentes na composição da sociedade. Devem ser respeitadas porque formam a identidade de cada nação.

 

 

Um grande exemplo é a capoeira que já faz parte do currículo do curso de Educação Física. Mas quais capoeiras estão transmitindo nas Universidades ? A capoeira de Federação que almeja as Olimpíadas ? Ou a capoeira de academias que já mesclaram com outros fundamentos de artes marciais ? Ou a capoeira com a sua linguagem de resistência histórica que faz parte de uma totalidade cultural africana ?

 

 

Segundo Muniz Sodré “… a capoeira define-se como um jogo. Este termo não designa aqui simples distração, mas um conjunto ritualístico de procedimentos, voltados tanto para o combate contra um adversário como para a expressão do júbilo corporal, dentro do quadro histórico e mítico da etnia dita negro-brasileira, cujos valores são também ditos de tradição. Para o homem de tradição, ser não significa simplesmente viver, mas pertencer a uma totalidade, que é o grupo. Cada ser singular perfaz o seu processo de individualização em função dessa pluralidade instituída (o grupo), onde se assentam as bases de sustentação da vida psíquica individual”.

 

 

A capoeira faz parte de uma cultura africana onde o mundo visível (aiye) está entrelaçado com o mundo invisível (Orum) e que tramitam os ancestrais, as forças da natureza representadas pelos Orixás, compondo assim uma visão de mundo diferenciado que faz parte do sistema universal, no qual seu saber é muito transmitido pela  corporalidade.

 

 

A corporalidade faz parte da comunicação oral pois abrange varias formas de transmitir o saber. Marco Aurélio Luz descreve que : “dessas formas de comunicação, destaca-se a dramatização, que se compõe de diversos outros sistemas simbólicos que se combinam entre si, tais como  um sistema gestual que se exprime nas invocações, nas danças, cumprimentos, etc., num sistema musical polirítmico, composto também nos cânticos, KORIN, e dos poemas de louvação, ORIKI, dos sistemas de cores, do vestuário, das jóias e emblemas, das esculturas, etc., etc”.

 

 

A capoeira está concebida dentro desta cultura afro-brasileira. Sua construção vem destas raízes que estão presentes na alma do povo brasileiro. É preciso preservar a cultura popular porque ela traduz a vida, formada com o povo e com ele aprender seu sentido temporal, ajustado às várias etapas históricas do nosso caminhar.

 

 

Adulterar práticas corporais, com suas culturas, adequando por  forças externas, estranhas às suas origens e alheias às condições históricas que ajustam permanentemente sua expressão, significa soterrar nossas raízes.

 

 

Cláudio Accurso nos alerta para o risco destas adulterações: “É simplesmente, o de perda da identidade nacional, caminho inevitável à subordinação e ao desaparecimento da personalidade de um povo. Adulterar uma cultura com tudo que tem de tradição e forma de ser de uma coletividade significa nada mais nada menos que arrancar-lhe a memória. Quem perde a memória perde a capacidade de julgar conveniências; perde, portanto, a faculdade de estabelecer propostas que consultem seus interesses. Perder a memória é aceitar tutelas e suas conseqüências”.

 

 

Assim entendemos que existem várias práticas corporais e que deve ser respeitadas suas origens e seus significados. Não admitimos uma cultura dominante e que todas devam estar sob sua tutela, atendendo um sistema que visa apenas o lucro e convive com a exclusão social.

 

 

Referência Bibliográfica

  • Accurso, Anselmo da Silva. Capoeira: Um Instrumento de Educação Popular. Edição
    Independente. Porto Alegre, 1995.
  • Coletivo de Autores. Metodologia do Ensino de Educação Física. Cortez. São Paulo, 1992
  • Brandão, Carlos Rodrigues. O que é Educação. Brasiliense. São Paulo 1985.
  • Freire, Paulo. Educação e Mudança. Paz e terra. São Paulo, 1988.
  • Luz, Marco Aurélio. Agadá – Dinâmica da Civilização Africano-brasileira. SECNEB- Universidade Federal da Bahia. Salvador, 1995.
  • Rego, Waldeloir. Capoeira Angola – Trabalho Sócio-etnográfico. Itapuã. Salvador, 1985.
  • Santin, Silvino. Educação Física – Outros Caminhos. Ed. Da Escola Superior e Espiritualidade Franciscana . Porto Alegre,1990 .
  • Santin, Silvino. Da Alegria do Lúdico a Opressão do Rendimento. EST – Edições. Porto Alegre, 2001.
  • Sodré, Muniz. Mestre Bimba – Corpo de Mandinga. Manati. Rio de Janeiro 2002.
  • Sodré, Muniz. Capoeira e Identidade (Texto). Esporte com Identidade Cultural – Publicações INDESP. Brasília, 1996.

 

 

Anselmo da silva Accurso, professor de Educação Física, pós-graduado em Educação Popular.

Professor da disciplina de Capoeira da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS- RS,

Professor de Capoeira da Secretária Municipal de Esporte e Lazer – SME – POA/RS.

Professor da Associação Cultural de Capoeira Angola Rabo de Arraia – ACCARA.

A Ditadura na (DE)FORMAÇÃO do Capoeira

Discutir ensino / aprendizagem em qualquer área já se constitui numa tarefa difícil e arriscada pela gama de informações que o mundo moderno dispõe e por interlocuções com teorias pedagógicas contraditórias e às vezes até confusas. Agora imaginemos esse diálogo tomando como base uma arte com pouco mais de 400 anos, que a mais ou menos 100 anos atrás estava prevista no código penal da república como crime e hoje desponta no mundo inteiro como fenômeno de formação humana para cidadania…  Complicado! Mas esse será o nosso desafio nesse momento, discutir o processo de formação de capoeiristas a partir de interlocuções com algumas teorias pedagógicas de formação humana.
 
            Para problematizar o tema, tomaremos como referencia o processo de formação dos capoeiristas na atualidade nos grupos e associações de capoeira, pois acreditamos que desta forma poderemos dar conta de compreender alguns mecanismos de ingerência do modo de produção na capoeira e ainda garantir uma analise mais fiel das relações de ensino/aprendizagem nessa área.
 
Títulos, graduações e poder
 
             A partir da observação dos grupos de capoeira podemos perceber que muitos funcionam estruturados numa forte cadeia hierárquica, que atribui direitos e deveres aos praticantes, mediante seu estagio (graduação em capoeira), levando-se em conta sua experiência na arte, seu tempo de pratica e principalmente sua capacidade docente. Os membros desses grupos são preparados desde o começo para se tornarem mestres de capoeira, cantando, tocando, jogando e etc…  Seguindo essa lógica, existe um sistema de graduação que serve para mensurar o nível do capoeira a partir dos requisitos já citados, portanto ser capoeirista hoje significa prioritariamente estar a serviço desse modelo de formação que vive da farsa ou ingênua consciência da tradição de respeito ao mais antigo, que fortalece o poder do mais velho diante do mais novo, como forma de subjugá-lo, sendo assim, cria-se o imaginário de que quanto mais velho for, mais pessoas terá para mandar e mais inquestionável ficará. 
 
              Fica fácil compreender o mundo da capoeira na atualidade se pensarmos num quartel militar em que os mais novos sofrem com as ordens dos mais antigos e de maior patente, sonhando em se tornar mais velhos, pelo simples fato de poder retribuir tudo que passaram negativamente, despejando todo autoritarismo possível na relação com os mais novos que chegam. Paulo Freire já nos advertia em sua obra sobre o fato de que todo oprimido traz dentro de si, sendo gestado o opressor, e que a nossa luta pela liberdade é justamente sair das sombras e marcas de nossos opressores.
 
A formação docente
 
            Os níveis de graduação hoje estão divididos, na maioria dos grupos de capoeira, em fase de aluno, Formado, Professor, Contramestre e Mestre, sendo requisito básico para as trocas de estágios mais altos, a capacidade docente, ou seja, o nível do “trabalho” de capoeira, que para os adeptos dessa arte significa a quantidade de alunos que possuem ligados a ele, e o tempo que estes permanecem “ligados” a capoeira, toques, cantos e jogos…  Portanto se alguém quiser seguir praticando sem ter alunos, logo será “taxado” de mau capoeirista por seu grupo e pela comunidade.  A desculpa que alguns mestres usam e que só se aprende capoeira ensinando, hora, se compreendermos a relação de ensino/aprendizagem como um via de mão dupla, facilmente perceberemos o equívoco dos mestres, pois mesmo sem ministrar aulas, um capoeira aprende na própria relação com os outros, sendo o ato de estar como professor, apenas mais uma forma de aprender.
 
             Um outro ponto relevante nessa discussão e o fato de que a maioria dos Mestres vive financeiramente também da renda gerada por seus alunos que estão dando aulas, ou seja, cada novo professor funcionará como mais um “empregado” da engrenagem de lucro dos grupos, servindo de fonte de lucro para o Mestre, que cobra percentuais de participação na receita de seus alunos/professores para que possam permanecer ligados a este ser “iluminado” de sabedoria, o Mestre.
 
              Lamentavelmente, esta e só uma pequena mostra de ingerência do modo de produção capitalista no mundo da capoeira, pois inúmeras são as outras maneiras de mercadorização da capoeiragem na atualidade, estruturada por grupos e instituições afins que trabalham na lógica de macdonaldização da capoeira, com franquias, marcas, métodos enlatados e principalmente com toda uma sistematização sub-serviente ao lucro. Nessa lógica pouco importa o aprender fazendo, a herança “conflitiva” e “libertadora” da capoeira, a alegria do jogo, o berimbau bem tocado ou as lágrimas de um capoeira ao cantar uma ladainha, contudo a importância desses aspectos poderá ampliar rapidamente, basta engaiolar tudo num DVD, CD ou em alguma outra forma encaixotada para ser vendida nos mercados e bancas de revista da esquina.
 
            Às vezes fico me perguntando: como seria a capoeira sem os livros de Frederico Abreu? Sem os filmes de Jair Moura? Sem a sabedoria de Mestre Decanio? E tantos outros que escolheram continuar na capoeira sem seguir a lógica de ter grupo, formar “trabalhos”…   Com certeza a nossa capoeira perderia muito, pois deixaríamos de aprender com as alternativas pedagógicas deste exército de “professores informais” que fizeram a opção de ensinar ao “grupo da humanidade” que capoeira se aprende capoeirando e que ninguém escapa a educação, pois ela está tanto nas academias de capoeira, como nas rodas de rua, nos livros, nos filmes ou numa simples conversa de fim de tarde com Decanio na praia de Tubarão.
 
           Quero deixa claro que este trabalho não tem intuito de resolver o problema nem de firmar-se como verdade absoluta, mas propor uma reflexão objetiva sobre a formação de capoeiras, afirmando que não temos nenhuma pretensão profética apocalíptica das instituições de capoeira. Queremos e dialogar com alternativas de participação no mundo da capoeiragem que possam contribuir de diferentes formas para o crescimento da mesma com critica, autonomia e criatividade.
 
           Precisamos reavaliar os currículos de formação, os métodos de ensino e principalmente um sistema de graduação atual, que este pautado na hierarquização burocrática da capoeira voltada para o lucro.
 
           Por fim finalizo dizendo que esses pensamentos partiram de um individuo que faz parte de um grupo, segue um sistema de graduação, que vivenciou alguns dos equívocos de formação já citados e que esta inconformado e com pouca tolerância para continuar de maneira passiva e submissa fortalecendo um sistema que esta destruindo a capoeira na sua “matriz”, esterilizando-a e transformando seus representantes em reprodutores dos ditames do capital.
 

Florianópolis: Mercado em Movimento

MANIFESTO POPULAR: MERCADO EM MOVIMENTO
 
No dia 05 de julho de 2005 foi lançada a campanha “Mercado em Movimento” pela Central Catarinense de Capoeira Angola. Mesmo antes da tragédia que se abateu no Mercado, o incêndio de 19 de agosto a Central lançava esta campanha pela revitalização do Espaço Cultural Luiz Henrique Rosa no Vão Central do Mercado Público.
 
No ano de 1988 com a iniciativa do Contra-mestre Alemão do Grupo Ajagunã de Palmares, foi criada a  Roda de Capoeira no Mercado Público de Florianópolis sempre realizada aos sábados. Já teve a presença de importantes mestres e professores de Capoeira da Bahia, Sergipe, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
 
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