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Capoeira também ajuda na melhoria das notas

Esporte, aliado à escola, tem transformado o aprendizado das crianças e adolescentes em Itaitinga


A capoeira e a educação estão unidas em um projeto social que visa a transformação de vidas de crianças de quatro a 15 anos em Caracanga, distrito de Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Todos os sábados, um grupo de 40 meninos e meninas se reúne no pátio ao lado do Bar do Lula ou na sombra de um cajueiro em terreno vizinho para o treino com os instrutores do projeto “Eu, você, a escola e a capoeira”.

O projeto é realizado há quase dois anos pelo Centro Cultural Capoeira Água de Beber (Cecab) por Franco Silva e Juliana Monteiro, sob a orientação de Robério Batista de Queiroz, o mestre Ratto

Além de aprender os golpes que mais gosta – uau e meia lua de frente com armadura -, Marcos Levi Vieira Cavalcante, 12, melhorou as notas na escola. A mãe dele, Leila Maria Pires Cavalcante, conta que Marcos e seu irmão, João Marcos, 5, estão mais atentos e responsáveis e são incentivados a obedecer em casa e na escola pelo tio da capoeira, Franco Costa e Silva.

“A capoeira mudou a minha vida. Aprendi a jogar. Aumentou o meu físico e me ensinou a sorrir mais”, afirma Marcos Levi. A mãe dele diz que o filho gosta do tio Franco, que lhe ensina a ter zelo pela escola, a fazer as tarefas, a se comportar bem nas aulas e ainda empresta o berimbau para tocar em casa. “Tudo nesse mundo gira em torno da união”, disse ela com relação à integração do projeto social com a escola. “A gente só tem de agradecer por esse projeto, porque antes não tinha nada de lazer para as crianças. A violência, roubo e drogas estão até no interior”, lembra.

O projeto é realizado há quase dois anos pelo Centro Cultural Capoeira Água de Beber (Cecab) por Franco Silva e Juliana Monteiro, sob a orientação de Robério Batista de Queiroz, o mestre Ratto. O Cecab mantem no bairro Serrinha, em Fortaleza, outro projeto com capoeira, educação e crianças, que gerou a tecnologia social transposta para a realidade rural de Itaitinga.

O trabalho em Caracanga desenvolveu a confiança da comunidade no projeto. “Os adultos foram cativados pelas crianças” conta Sérvulo Pimentel, que coordena a iniciativa e deu a ideia para a criação da Associação de Moradores de Caracanga com objetivo de ter mais força na defesa dos interesses comuns. A presidente da Associação, Valéria Oliveira Gomes Sousa, afirma que o projeto não é só capoeira, mas a educação das crianças, com aulas de flauta e ensino de caligrafia. Os instrutores acompanham o comportamento das crianças e querem saber do boletim escolar, ela destaca.

Frequentar a escola é condição para participar da capoeira. O projeto trouxe também cursos de artesanato para as mães, informa a presidente da Associação. Segundo Valéria Sousa, o próximo passo é concluir a cobertura da sede da Associação em janeiro, que já tem as telhas e espera conseguir a madeira com o resultado de bingo que vai sortear uma cama-box, fruto de doação. O projeto social tem o apoio da diretora da escola local e do núcleo Flor Divina do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV), do qual o benefício à comunidade do entorno da unidade se originou, informa.

Um exemplo da integração acontece em março na realização do Dia do Bem pela UDV com atividades beneficentes realizadas na Escola de Ensino Fundamental Manuel Rodrigues de Paiva, conta Iris Cleide Lopes, a diretora da unidade na Caracanga. “A parceria com o projeto da capoeira é muito importante para a escola. Trabalhamos comportamento e respeito, e o tio Franco cobra dos meninos os mesmos valores”, ela afirma.

“Respeito ao próximo, a pai e mãe, isso se perdeu no meio do caminho”, lamenta a diretora. Segundo Iris Lopes, a escola hoje está fazendo o papel da família porque a maioria dos pais está se omitindo.

Edjane Damasceno de Lima, mãe de outro aluno da capoeira, Caio Damasceno de Sousa, 9, observa que a participação do filho no projeto influenciou no comportamento, no sentido de ficar mais atento na escola e melhorou as notas. O menino arranjou mais amizades, tornando-se mais responsável pelas atividades de casa, da escola e da capoeira. Agora, quando recebe alguma coisa, o filho agradece, ela diz, como exemplo.

Luciano Júnior Cavalcante, 11, resume em uma frase a sua opinião sobre o projeto social de que participa: “amo a capoeira”. A mãe dele, Aparecida de Souza Lima, assinala que os instrutores da capoeira demonstram compromisso porque vem todo sábado para os treinos, sem cobrar nada, com toda boa vontade. “Eles ajudam na educação, conversam muito sobre a escola e acompanham as notas e ensinam muitas coisas de uma maneira complementar ao que é ensinado na escola”.

No Dia da Criança, Elenira Oliveira do Carmo, mãe de Carlos Henrique do Carmo, 15, prestigiou a troca de corda do filho, agora branca e laranja, um grau a mais no aprendizado da capoeira. Filmou o momento com o celular. O filho mostrou habilidade na roda de capoeira. A solenidade incluiu batizado das crianças pequenas. “Aprendi a me comunicar, arranjar amizades boas e a tocar flauta. Não fico mais andando na rua”, disse.

Carlos Henrique disse que quer chegar a contramestre ou mestre na capoeira. A participação na arte marcial criada pelos negros escravos no Brasil, segundo ele, ajudou a melhorar as suas notas na escola e influi na sua educação como pessoa, testemunha. Circe Shara, 10, que também recebeu a corda branca e laranja, diz que estar na capoeira é muito melhor do que ficar no meio da rua brincando, com risco de acidente.

“Minha letra era horrível, agora está tão bonita”, declara Circe Shara sobre o resultado da prática de caligrafia. A aluna conta que aprendeu a tocar flauta e quer ser veterinária. Segundo ela, a capoeira incentiva para o estudo, ao qual dedica duas horas em casa, todo dia. Participar do projeto ajudou a tirar 10 na prova de história e geografia com o que aprendeu sobre a capoeira e a escravidão no Brasil. A atividade ajuda ainda na sociabilidade. “Conheci muitas amigas. Pessoas que via, mas não falava, por vergonha”, ela relata.

Encantamento

“Acreditamos na pedagogia do encantamento defendida por Paulo Freire que afirma ser necessário sentir para aprender”, diz o mestre Ratto ao explicar o projeto “Eu, você, a escola e a capoeira”. Segundo ele, a implantação do trabalho em Caracanga vem propor a utilização da capoeira como instrumento de sensibilização para a educação infanto-juvenil, despertando os jovens para a importância da escola e do estudo na formação do cidadão.

No Dia da Criança, antes do batizado e troca de faixas, Ratto reuniu as mães dos alunos para conversar sobre a importância da atividade que os filhos desenvolvem aos sábados. No encontro, propôs alguns exercícios corporais acompanhados pelas mães. Ao final, convidou quem queria participar de uma aula numa turma de mães.

É possível apresentar aos jovens os conhecimentos da arte da capoeira e também introduzir novos conceitos e ideia, sensibilizando-os para outras áreas do saber, sobretudo o conteúdo escolar, explicou o mestre Ratto.

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com

 

Jovens pacientes superam limites em aulas de capoeira inclusiva na AACD

Inclusão através do esporte para a superação de muitos limites. Essa é a fórmula para um grupo de 35 jovens pacientes da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), na Ilha Joana Bezerra, Zona Central do Recife. Todas as segundas, das 14h às 15h, eles têm encontro marcado com o mestre de capoeira voluntário Severino Santos de Almeida Júnior, o Mestre Júnior, responsável por levar ao universo das crianças a adaptação, do jogo, da luta, da tradição da Capoeira, criada pelos escravos africanos e trazida ao Brasil na época em que o País era uma colônia portuguesa.

O projeto, chamado de capoeira inclusiva, foi levado à entidade em Pernambuco pelo mestre em 2006, após um evento sobre a prática da capoeira na AACD de São Paulo, focada em pacientes amputados. “O que começou meio suspeito é, hoje, uma verdade”, comemora Mestre Júnior, de 44 anos, também professor de educação física e história, com 35 anos voltados à prática desse esporte e sua história, onde ele cita a seguinte máxima dita pelo Mestre Pastinha: “Capoeira é tudo que a boca come”. Confira videorreportagem do NE10:

A dinâmica da aula é desenvolvida após análise da ficha médica de cada aluno, assim como as atividades fisioterapêuticas desenvolvidas com a equipe da AACD. A partir dessa avaliação, o professor trabalha o lado lúdico do esporte e o enriquecimento muscular, já que a Capoeira trabalha o sistema Cardiovascular, Sistema auditivo que por sua vez aguça os reflexos do paciente e o Sistema Neurológico, através da música com os instrumentos da Capoeira (berimbau, pandeiro, atabaque e etc.) e ao som mecânico com CDS de Capoeira, associado aos valores desenvolvidos nos atletas: disciplina, superação e motivação. Apesar das diferentes especificidades, mestre Júnior garante: “A aula de um é para todos”. Para um dos alunos, Pedro Lucas, de 9 anos, conseguir entrar nas aulas, há três anos, foi a realização de um desejo. Entre risos envergonhados, o jovem afirma: “Eu queria muito entrar nesse grupo e minha mãe conseguiu”, conta. Quando questionado sobre de qual parte gosta mais, é taxativo: “Gosto mais de cantar”.

A capoeira inclusiva, além de desenvolver a habilidade social, auxilia na fisioterapia recomendada para cada aluno e contribui com a reabilitação do paciente. É o caso de Brenda Carlla, uma das mais velhas do grupo. “Eu percebi que desenvolvo mais. Antes da capoeira, eu caía muito quando pegava carona em bicicleta, agora não caio mais”, conta a jovem de 17 anos, que desde os dois anos de idade faz tratamentos na AACD e começou as aulas com o mestre Junior há seis anos. As aulas semanais são aguardadas ansiosamente não apenas pelos alunos, mas também por suas mães. Para Jacira Muniz, 45 anos, mãe de Thiago, de 14 anos, os resultados são gratificantes. “A gente que é mãe vê a evolução. A questão que ele faz de vir. Ele até mostra os movimentos que aprendeu. A capoeira faz a diferença”, comemora Jacira, que se dedica exclusivamente aos cuidados com o filho.

Marília Lima, 31 anos, mãe de José Ricardo, 7 anos, chegou a pensar em desistir de acompanhar os filhos na aula. O pequeno é portador da Síndrome de Lesch-Nyan, uma doença hereditária e metabólica rara que causa disfunção neurológica, cognitiva e alterações de comportamento. “Eu queria desistir, mas o mestre não deixou. Com a continuidade, ele melhorou bastante. Antes de entrar na capoeira, quase não tinha contato com outras pessoas. Agora, ele até pede para vir”, conta.

“Para mim foi muito importante. O pouco que eu consegui é muita coisa”

O outro filho, Matheus Guilherme, de apenas um ano e nove meses, também é portador de Lesch-Nyan. Se depender da mãe, será o mais novo paciente a ser apresentado ao poder de reabilitação da capoeira inclusiva.

Pedro Lucas já participa da capoeira inclusiva há três anos. O que mais gosta nas aulas é de cantar

AULAS – Para participar das aulas, o aluno precisa ser paciente AACD e enfrentar uma fila de espera com cerca de 70 pessoas. O requisito para começar o tratamento na entidade é a apresentação de um laudo médico que comprove a necessidade do paciente em realizar procedimentos de reabilitação física.

 

Além das aulas semanais, a instituição promove o Encontro de Capoeira Inclusiva. O evento marca o batismo e a troca de cordas das crianças e adolescentes que formam o grupo de capoeira da AACD. “Temos desde a graduação infantil especial, que são seis cordas, até a graduação adulta, com nove cordas”, explica Severino Júnior.
A Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) é uma instituição sem fins lucrativos que atende crianças e jovens de 0 a 16 anos com deficiência física e adultos amputados e lesionados.

Inaugurada em 1999, a AACD Pernambuco já ultrapassou 149 mil consultas clínicas e 833 mil terapias realizadas para crianças de todo o Norte e Nordeste. Atualmente, é mantida através de parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS) e realização de projetos com venda revertida à instituição.  Para marcar a triagem específica para cada patologia na AACD, o paciente ou seu responsável deve apresentar ao setor de Serviço de Atendimento Médico e Estatístico (Same) um relatório médico que descreva o diagnóstico e tratamento realizado na fase aguda ou inicial da doença, além das condições atuais em que o paciente se encontra. Após avaliação de uma equipe multidisciplinar, será elaborado o tratamento de reabilitação na AACD. Se por acaso a patologia não for tratada na associação, o paciente e família são orientados a realizarem o tratamento em instituições especializadas na deficiência relatada.

 

AACD Pernambuco
Endereço: Avenida Advogado José Paulo Cavalcanti, 155, Ilha Joana Bezerra Recife  Telefone: 3419.4000

Mestre Junior: (81)977018889/86192109

Foto: Malu Silveira / NE10

 

Rio Claro: Abordagem lúdica e pedagógica coloca bebês em contato com capoeira

Arte marcial misturada com dança, a capoeira teve início no Brasil no século XVI, servindo de instrumento da resistência cultural e física dos escravos frente à repressão dos colonizadores e senhores de engenho. Ao som de berimbau, o jogo mescla golpes mais rápidos e, também, lentos e próximos ao solo, cujo gingado e musicalidade são o diferencial desse esporte.

Em Rio Claro, a tradição é mantida com o passar das gerações. Para que a cultura afrodescendente continue sendo valorizada, bebês já estão tendo o primeiro contato com a capoeira. Com o apoio da Secretaria Municipal de Esportes, o Grupo Muzenza de Capoeira desenvolve projeto na Academia do Bairro Mãe Preta para o aprofundamento das padronizações técnicas e difusão do esporte.

De acordo com Luís Roberto de Lima, instrutor Guerreiro, que teve o primeiro contato com a arte aos sete anos de idade, a proposta em atender bebês é para colocá-los em contato com um momento histórico importante para o Brasil, além de incentivá-los para a música, cultura e atividades físicas. Sem riscos aos menores, reforça que as atividades desenvolvidas são lúdicas e pedagógicas. “Quis trabalhar com bebês para que o interesse pelo esporte seja despertado logo cedo, para que não se tornem indivíduos sedentários futuramente. Outro ponto é a possibilidade de lhes apresentar o contexto histórico da capoeira como uma expressão cultural brasileira”, comenta o instrutor.

Bananeiras, cambalhotas, exercícios em forma de gincana, uso de instrumentos musicais e alongamentos são as principais atividades desenvolvidas com os bebês de um e meio a quatro anos de idade. “Não tem perigo algum, ao contrário do que possam imaginar, pois a arte marcial não é aplicada, apenas elementos musicais, culturais e exercícios que trabalham e aperfeiçoam a coordenação motora e a musculatura”, reforça Guerreiro.

As aulas voltadas a essa faixa etária tiveram início há duas semanas, com vagas em aberto. São atendidos, também, grupos de seis a 12 anos e de jovens e adultos. Para o instrutor, a gratificação ao trabalhar com os menores consiste em ser uma opção frente à ociosidade das ruas, cuja arte faz parte da sua vida. “Ainda criança, estava próximo a uma praça, quando uma senhora me chamou para jogar capoeira com seu filho. A partir disso, interessei-me pela capoeira e, hoje, já são 12 anos atuando como instrutor”, conclui.

Mais informações, ligue: (19) 8325-3812 Guerreiro ou (19) 3533-5422/5433 Secretaria Municipal de Esportes. Acesse: www.muzenza.com.br. Local: Avenida 2-MP, esquina com Rua 16-MP, Parque Mãe Preta.

 

Aulas

As aulas acontecem de segunda, quarta e sexta-feira, na Academia do Bairro Mãe Preta, nos seguintes horários: das 18h30 às 19h, para bebês de um e meio a quatro anos; das 19h às 19h40, para alunos de seis a 12 anos; e das 19h40 às 21h, a jovens e adultos.

 

Grupo Muzenza

O Grupo Muzenza de Capoeira foi fundado em 5 de maio de 1972, no Rio de Janeiro, tendo como seu fundador Paulo Sérgio da Silva (Mestre Paulão), oriundo do grupo Capoarte de Obaluaê, do Mestre Mintirinha (Luís Américo da Silva). O Grupo se faz presente em 26 estados brasileiros e 35 países, buscando sempre os fundamentos e as raízes da capoeira. Desde 1975, é presidido por Ms. Burguês.

 

Fonte: http://jornalcidade.uol.com.br

Em busca do grupo perfeito…

Certa feita uma mãe, que havia sido praticante de capoeira, resolveu sair em busca do grupo ideal para seu filho, logo na primeira esquina percebeu uma academia com grande propaganda de aulas de capoeira. Em sua chegada ao local havia uma escada que dava acesso ao pavimento superior, onde funcionavam as aulas de capoeira. A escada era toda enfeitada com muitas fotos e banners com imagens de homens musculosos sem camisa executando movimentos aéreos, alongados e na maioria das vezes, com expressões faciais simulando raiva ou dor.

A mãe pensou:  …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira…..    Já no piso superior, a mãe notou que havia uma pessoa dando aula para muitas outras, na sala havia uma musica muito alta e com ritmo acelerado, as pessoas estavam perfiladas, todas de frente para um homem musculoso e com uma roupa cheia de marcas, como um estandarte humano de propaganda. Este homem também conduzia a aula com gritos fortes, palavras de ordem e uma voz intimidadora de grande expressão.  A mãe pensou:  …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira…..

A mãe, de forma paciente, aguardou o termino da aula e dirigiu-se para falar com o professor, inicialmente a mãe lhe perguntou: Que estilo de capoeira se pratica aqui, pois estou procurando um bom grupo para meu filho? O professor então, com um sorriso largo e simpático, tomou um gole de um isotônico famoso, da mesma marca que estava estampada em seu uniforme e disse: …Aqui nos praticamos a capoeira moderna, uma capoeira mais ágil, forte, bonita e acima de tudo, muito eficiente como luta……   A senhora já ouviu falar em Anderson Silva, campeão do UFC?  Antes da mãe responder o professor continuou: …..Pois então, como estou lhe dizendo, a capoeira hoje já esta ate no vale tudo e aqui nos ensinamos de tudo…. Pode ficar tranquila, aqui seu filho vai aprender a ser homem, pois eu mesmo vou acompanha-lo de perto, ensinando-lhe desde o nosso aperto de mão oficial de nosso grupo ate as melhores técnicas de finalização em situações de jogo mais duro. Aqui com certeza vamos coloca-lo no eixo e ele ainda estará pronto para resolver qualquer situação nas ruas.

A mãe agradeceu ao professor pela explicação e de maneira educada foi se despedindo e se afastando, quando o professor lhe disse: E sobre seu filho, quando a senhora ira traze-lo para fazer a matricula?….Tenha muito cuidado, pois os grupos de capoeira desta região não são bons…O nosso esta mais preparado para atende-la, pois temos muitas filiais espalhadas pelo mundo e eu ainda sou professor de Educação Física…..  A mãe, que já não suportava mais ficar calada, educadamente pediu um minuto de atenção ao professor, sentou-se em um local mais reservado com o mesmo e lhe disse: … Professor, como se chama? Ele respondeu:… Sou conhecido nas rodas como “Xicara sem alça”…   A mãe disse: … Muito prazer senhor Xicara…  Quero lhe agradecer novamente pelas explicações, mas não tenho intenção de matricular meu filho aqui, pois fiquei imaginando como se sente um parafuso torto recebendo marteladas para ficar no eixo….Com certeza, se o parafuso pudesse falar diria ..AI AI…Está doendo, e como meu filho pode falar, iria incomodar muito o senhor com seus gritos…. Sobre a parte da eficiência técnica para luta, penso que não será necessária para ele, pois tenho ensinado para meu filho que a melhor maneira de lidar com os conflitos será sempre o dialogo e por incrível que pareça, aprendi isso com um capoeira chamado Joao Pequeno de Pastinha, mas com certeza o senhor não deve conhece-lo, pois …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira….. A mãe continuou …Gostaria de encontrar um grupo para meu filho que fosse capaz de ensina-lo  a conviver com a diversidade e aqui o senhor me disse que ate o aperto de mão esta padronizado. Quero um grupo em que meu filho possa desenvolver sua individualidade na relação com o coletivo e que acima de tudo SEJA FELIZ…..Quando vi a forma que o senhor ensina, percebi logo que o senhor conhecia uma parte da Educação Física tecnicista, pois também sou professora de Educação Física, contudo, penso que este método adotado aqui não esta de acordo com a ancestralidade da capoeira, pois mata a autonomia e diminui o poder de criatividade e criticidade dos educandos, portanto professor “Xicara”, recomendo ao senhor que estude mais sobre a capoeira e os antigos Mestres e só depois tente verificar, qual corrente metodológica da Educação Física será mais apropriada para cumprir nossa tarefa ancestral com a capoeira.

O professor “Xicara sem alça” ficou em silencio, ainda perplexo com tudo que havia escutado da simples mãe. A mãe despediu-se e com um sorriso feliz, desejou ao professor um bom dia e lhe fez um ultimo pedido. Que buscasse os mais antigos e com eles tentasse entender o significado de SER capoeira, pois o objetivo principal da capoeira, como pratica humana, sempre será levar felicidade aos seus praticantes, independente de estilos e formatações mercadológicas, pois se esta capoeira atual representa a evolução, tenho medo de como será no tempo de meus netos.

A historinha acima, mesmo que de maneira fantasiosa, ilustra bem os conflitos vividos na capoeira nos dias de hoje, assim precisamos ficar atentos para não reforçarmos o “opressor” que vive sendo “gestado” internamente, por conta de nossa formação tradicional, adestradora e comercial.

 

Fraternalmente..

Mestre Jean Pangolin

 

“Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”
Nemo Nox

Jean Adriano Barros da Silva
www.guetocapoeira.org.br
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Oferendas e cânticos marcam celebração ao dia de Iemanjá

Grupos se reúnem na Praia de Pajuçara para homenagear a rainha das águas

As batidas dos tambores marcaram o ritmo. Os colares em cores vibrantes adornaram as vestimentas. Os cânticos foram acompanhados com uma leve dança. Em cortejo, as cestas levaram flores bem decoradas, comidas e lembranças. Foram as oferendas a Iemanjá, a rainha das águas, homenageada todo oito de dezembro. Crianças e adolescentes também foram às areias da praia da Pajuçara para reverenciar a mãe de todos os orixás e pedir o fim do preconceito contra as religiões de matriz africana.

Os grupos de candomblé e umbanda, vindos de várias partes de Alagoas, festejaram o orixá dos Egbá na Pajuçara, em Maceió, durante todo o dia. A celebração, que pretendia chamar atenção para o preconceito histórico contra as manifestações afro-brasileiras, aconteceu também para agradecer por tudo o que foi alcançado em 2010.

Mãe Fátima de Oiá saiu de São Miguel dos Campos com seu grupo para homenagear aquela que ela considera ‘a mãe maior de todas as nações’. “Hoje o dia é de festa, felicidade e união de todos os candomblés e nações. Isso representa o renascimento da mãe mais caridosa e dedicada” – contou a mãe de santo, que mantém 38 filhos de santo dançando em seu grupo.

Há 15 anos como mãe de santo, Mãe Fátima explica que as oferendas preparadas para o orixá são levadas para alto mar, onde são, segundo a crença, conduzidas pelas águas até a Terra de Orucaia, conhecida como Terra de Iemanjá. “É um lugar feliz e radiante. A terra dos encantos”, diz ela.

 

Rodas de capoeira

Fazendo parte dos festejos, grupos de percussão e rodas de capoeira animaram o ambiente. “A capoeira tem ligação com o movimento afro-brasileiro, por esse motivo, fomos convidados e aqui estamos para fazer parte da comemoração”, diz o presidente do grupo Muzenza, Marcelo Cardoso, conhecido como Mestre Girafa.

Na praça Multieventos, a roda de capoeira chamava a atenção dos transeuntes, que paravam para apreciar o gingado. Grupos de percussão, de maracatu e orquestras de tambores estendem a programação até o final do dia.

 

Candomblé: tradição passada de geração a geração

Ela tem apenas sete anos de vida, mas já sabe entoar os cânticos que homenageiam Iemanjá, a rainha das águas. No dia em que as religiões de matriz africana reverenciam a mãe de todos os orixás, neste 8 de dezembro, seguidores do candomblé e da umbanda levam os filhos para também participa da festa de louvor.

A pequena Ieda Vitória da Silva, de 7 anos, canta, dança e segue os passos da mãe. Ela praticamente nasceu num terreiro de candomblé e, nos dias em que já movimentação é grande para levar à Iemanjá as oferendas que significam uma espécie de agradecimento por tudo o que ela teria feito pelos seus seguidores.

“Desde quando a Vitória era bebezinha que eu a levo para todas as atividades festivas da nossa religião. Ela sabe todas as músicas e os passos que marcam o ritmo das batidas dos nossos hinos”, disse a mãe Catiana da Conceição.

“Viemos de Rio Largo para prestar as nossas homenagens à mãe das águas”, lembrou a menina, que faz parte do Grupo Santuário de Iemanjá.

 

Tarde ainda com muitas oferendas

E a Pajuçara continua tomada por grupos de candomblé e umbanda. Todos cantam e dançam em dezenas de rodas formadas nas areias da praia. No meio do círculo, as oferendas que serão lançadas no mar: perfumes de alfazema, sabonetes, talcos, flores, champanhe, espelhos, bonecas e adereços.

Além do ritual religioso, a festa de Iemanjá também reúne outras expressões da cultura afro, a exemplo de sambas de roda, grupos de capoeira e blocos afros.

 

A lenda*

Com a lenda conta que Iemanjá, filha de Olokum, casou-se com Olofin-Odudua, em Ifé, na Nigéria, e teve dez filhos, todos orixás. Depois de amamentá-los, ela teria ficado com os seios enormes, o que lhe causara vergonha. Cansada de viver em Ifé, Iemanjá fugiu e, chegando a Abeokutá, casou-se novamente, dessa vez, com Okerê. Mas, Iemanjá impôs uma condição para o casamento: que o marido jamais a ridicularizasse por conta dos seios volumosos. Entretanto, numa briga, Okerê teria ofendido Iemanjá, que, furiosa, fugiu novamente, encontrando num presente do pai o caminho para as águas. Ela nunca mais teria voltado para a terra e se tornou, assim, a rainha do mar. Nas datas em que é homenageada, em 02 de fevereiro e 08 de dezembro (Imaculada Conceição, para o Catolicisco), seus filhos fazem oferendas para acalmá-la e agradá-la.

* Com informações do portal da Capoeira – www.portalcapoeira.com

 

Pajuçara vira palco de articulação pela cultura afro-brasileira

E, com o objetivo d pedir o fim do preconceito contra as religiões afro-brasileiras, reuniram-se, durante toda a tarde desta quarta-feira (08), vários grupos culturais na praia da Pajuçara. Cada um, mostrando as suas ações que são desenvolvidas no dia-a-dia, apresentou-se nas areias da orla marítima de Maceió e pediu o fim do preconceito.

“Estamos aqui num em prol da liberdade de crença e em favor do sincretismo religioso. A intolerância religiosa tem que ser combatida em todos os templos e lugares. O mais importante é que tenhamos fé, independentemente da religião a ser seguida”, defendeu Sirlene Gomes, coordenadora do Cepa Quilombo, grupo temático de discussão contra o preconceito.

Além dele, estiveram presentes o Quintal Cultural (grupo de educação, cultura e formação), Coletivo Afro Caetés (maracatu), Centro Espírita Santa Bárbara (Umbanda), Corte de Airá (maracatu) e o Núcleo Cultural da Zona Sul (capoeira e bumba-meu-boi).

O encontro foi denominado de ‘articulação pela cultura popular e afro-alagoana’ e seus organizadores prometem novas ações ao longo do próximo ano. Por enquanto, eles conseguiram abrigo provisório na Secretaria de Estado da Cultura.

 

Conscientização com crianças

O Centro Espírita Santa Bárbara, cuja sede fica no Conjunto Village Campestre, trabalha o tema da umbanda com crianças com idades entre 4 e 8 anos. Os integrantes da entidade alegam que, para poder desmistificar as religiões de matriz africana, a educação religiosa precisa ser ministrada desde os primeiros anos de vida.

E, para as homenagens à Iemanjá na praia, o Centro levou crianças e adolescentes para que eles pudessem entender e presenciar as reverências à rainha das águas.

 

Fonte: http://gazetaweb.globo.com

Gazetaweb – Janaina Ribeiro, Roberta Batista e Daniel Dabasi

Pequeno capoeirista de Torres é exemplo de superação

Menino de 11 anos se esforça para vencer dificuldades impostas por doença

As palmas batem enquanto o pandeiro e o berimbau tocam. João Gabriel Schultz crava as mãos ao chão e com um misto de força e concentração joga as pernas para o ar. O menino de 11 anos surpreende a roda de capoeira com mais um movimento próximo da perfeição. Ele volta a “ficar de pé”, engatinha para as bordas da roda e observa os colegas naquela que é uma das aulas em que mais gosta.

A cena descrita poderia ser costumeira entre as tantas escolas de Torres em que é possível praticar capoeira como atividade complementar. Para João Gabriel, fazer parte desta rotina faz com que a palavra “costumeira” ganhe outro significado. Ele sofre de uma doença chamada artrogripose. Nasceu assim. O atrofiamento dos membros inferiores se deu quando o cordão umbilical enrolou-se em seus calcanhares e impediu o desenvolvimento das pernas durante a gestação.

— Ele acabou nascendo de cesária. Dificultou demais o parto. No pré-natal os médicos não viram nada, estava com peso bom, com tudo certinho — explica a mãe, Sônia Souza.

João Gabriel nasceu com 3,220 quilos e 49 centímetros em 23 de novembro de 1999. Passou três dias no hospital sem que os médicos conseguissem diagnosticar que tipo de doença fazia com que os dois pés ficassem dobrados para dentro. A mãe conta que passaram a entender o problema dele apenas um mês e 15 dias depois do nascimento.

— Tenho de correr a Porto Alegre porque o médico não conhece o problema dele.

João Gabriel usa as mãos para se locomover. Engatinha com desenvoltura pelos corredores da Escola Estadual de Ensino Fundamental Manoel João Machado. Isso quando não está ziguezagueando pelos colegas dirigindo seu triciclo – adaptado para os pedais serem usados com as mãos. Normalmente, chama atenção dos pais dos colegas e acaba ganhando a simpatia dos adultos. É o caso de Amilton Teixeira. Pai de uma menina que também estuda na Manoel João Machado, ele se encantou pelo guri ao vê-lo passar voando com o triciclo em uma noite de poesias. Acabou virando uma espécie de “padrinho” de João Gabriel. Teixeira e alguns amigos se juntaram e deram ao menino um computador, uma mesinha e uma cadeira. Ainda falta o triciclo novo que já mandaram encomendar.

— Eu vi aquele menininho abaixado. Depois descobri que ele não conseguia andar. Ele é cativante, um exemplo de vida. Me emociono de ver a perseverança dele. Acho que me ajudou mais do que estou ajudando ele — revela Teixeira.

Em dezembro, dois acontecimentos serão decisivos para João Gabriel. Colorado fanático, ficará de olho no Mundial de Clubes em Abu Dhabi, de camisa do inter e bandeira na mão. No final do mês, dia 22, terá uma consulta no Hospital São Lucas da PUCRS para definir como poderá ser feita a “remodelagem” das pernas. Como já foram feitas duas cirurgias nos pés, a única chance de ele vir a andar seria a colocação de um fixador na lateral dos membros inferiores. A mãe já faz contas: o aparelho custa entre R$ 5 mil e R$ 6 mil.

— O médico não garantiu e falou até na possibilidade de amputar, porque o problema é a canela e o pé. Se der certo em uma das perninhas, fazemos a outra, se não, temos de ver — projeta Sônia.

 

Alexandre Ernst | alexandre.ernst@zerohora.com.brhttp://zerohora.clicrbs.com.br/

Dandara: esposa, mãe e guerreira

Herói negro conhecido pela luta contra a opressão negra no Brasil, Zumbi dos Palmares é lembrado por sua luta e sua coragem no Dia da Consciência Negra, celebrado no próximo sábado.
Diz a sabedoria popular que por trás de todo grande homem, existe uma grande mulher. Prefiro dizer “ao lado”, mas o fato é que com Zumbi não foi diferente. Esposa de Zumbi e mãe de seus três filhos, Dandara foi muito além do papel de esposa, se tornando uma verdadeira guerreira.
Conforme informações do professor de história Kleber Henrique, no blog Cuca Livre, Dandara, como todos no quilombo, plantava, trabalhava na produção de farinha de mandioca, aprendeu a caçar, e, além disso, aprendeu a lutar capoeira, empunhar armas e liderou as falanges femininas do exército palmarino.
Dandara participou de todos os ataques e defesas da resistência de Palmares e não tinha limites para defender a liberdade e a segurança do Quilombo.
A esposa de Zumbi compartilhava a posição do marido contra o tratado de paz assinado por Ganga-Zumba. Entre outras negociações, o acordo requeria a mudança dos habitantes de Palmares para as terras no Vale do Cacau. Dandara, assim como Zumbi, via o tratado como a destruição da República de Palmares e a volta à escravidão.
Dandara morreu em 6 de fevereiro de 1694, após a destruição da Cerca Real dos Macacos, uma batalha sangrenta que deixou centenas de mortos. Ainda assim, acredita-se que ela se suicidou para não voltar a ser escrava, atirando-se da da pedreira mais alta de Palmares. Zumbi, que sobreviveu ferido a esta batalha, morreu no ano seguinte em 20 de novembro, data em que atualmente é celebrado o Dia da Consciência Negra.

Neila Vasconcelos – Venusiana
capoeiradevenus.blogspot.com

Bauru: Alberto faz da capoeira a sua causa

Ex-bancário, ele investiu recursos próprios para criar espaço para treinamento e divulgação da modalidade esportiva e cultural

Quando decidiu construir a Casa da Capoeira no Jardim Contorno, perto do residencial Camélias, o capoeirista Alberto de Carvalho Pereira Sobrinho, 44 anos, enfrentou resistência da vizinhança.

Conta que foi chamado para uma reunião e levou revistas de arquitetura para mostrar os projetos bonitos e modernos que o inspiravam. Não teve jeito. Ouviu que tudo o possível seria feito para embargar a obra. Encarou olhares tortos, ameaças de ter a vida transformada num inferno e fiscalização rigorosa.

Alberto não desistiu e a casa ficou pronta há quatro anos. Ex-bancário, ele usou o dinheiro da indenização trabalhista do Banespa e economias próprias para erguer o espaço de 180 metros quadrados, com área para treinamento, banheiros e biblioteca.

Preconceito

A resistência dos vizinhos tem relação com o preconceito à capoeira, justamente o que Alberto tenta combater. Ele idealizou a casa como um local para cursos, seminários, encontros e central de documentação e preservação da memória. Compra a briga de insistir com o poder público para incluir o esporte no currículo escolar da rede pública de ensino.

Alberto nasceu em Afogados da Ingazeira, no sertão de Pernambuco. Na adolescência, foi com a mãe e os irmãos para São Paulo. Viveu a saga dos nordestinos migrantes: trabalhou desde cedo e dividiu as despesas da casa com os seis irmãos.

A diferença é que a mãe fez questão de ser rigorosa com os estudos dos filhos. Todos saíram do Nordeste com o ensino médio concluído e, em São Paulo, conseguiram evoluir no mercado de trabalho.

Aos 14 anos, ele começou como boy numa construtora. Depois foi contratado pelo Hospital do Servidor, onde trabalhava meio período. Dividia o tempo entre o serviço, o cursinho e a capoeira, que o atraía desde a infância.

Começou a jogar com o professor Paulo Carioca, do grupo Netos de Amaralina. Descobriu a escola no metrô, quando o trem passava quase parando perto do antigo Carandiru e ele podia ver a placa.

“Fui lá e me matriculei”, lembra. Valores como a liberdade e a solidariedade, relacionadas à capoeira, foram os principais responsáveis pela aproximação.

Em São Paulo, fazia planos para o futuro com o irmão mais novo, Roberto. Queriam voltar a Pernambuco. Ele pretendia cursar agronomia e o irmão veterinária. Atenderiam o desejo da mãe de ver os filhos formados e teriam profissões que possibilitariam o trabalho junto a comunidades nordestinas.

Destino

A vida impôs outros rumos. Roberto, o caçula, morreu assassinado aos 23 anos. Alberto decidiu sair de São Paulo. Veio para Bauru, onde seguiu sua carreira de bancário até ser demitido sem justa causa do Banespa. Aqui conseguiu ir para a universidade. É formado em educação física pela Unesp e trabalha como professor em escolas estaduais e numa faculdade de Agudos, além das aulas na Casa da Capoeira e as atividades com o grupo Jogo de Dentro.

O capoeirista ainda não é mestre – e nem tem pressa.

Ele defende o conhecimento técnico do jogo associado à noção histórica e à percepção dos significados. Não concorda muito com quem é chamado de mestre apenas porque domina a parte técnica.

Um exemplo: o movimento que o capoeirista faz ao entrar numa roda simboliza a saída dos escravos do mundo real e a chegada ao universo lúdico. A rasteira, por sua vez, tem o significado de derrubar os problemas. Jogá-los no chão.

 

Dedicação é para ter reconhecimento

Não há arrependimento por causa dos investimentos financeiros e pessoais feitos na Casa da Capoeira, mas Alberto tem a sensação de impotência por ainda não ter conseguido vencer as disputas locais e unir os capoeiristas de Bauru em defesa do esporte, que também é manifestação cultural.

Ele garante que não desistiu de seu objetivo.

Sancionado em julho deste ano pelo presidente Lula, o Estatuto da Igualdade Racial reconhece a capoeira como desporto de criação nacional em todas as suas manifestações: esporte, luta, dança ou música.

Isso significa que está garantido o livre exercício da capoeira e também a possibilidade de reconhecimento público da prática.

O dono da Casa da Capoeira esteve recentemente na Câmara Municipal para divulgar aos vereadores e à população a regulamentação e pedir mais atenção à modalidade.

Mestre

Alberto pratica a capoeira regional, criada pelo Mestre Bimba, baiano de Salvador responsável por tirar a modalidade da marginalidade e torná-la mais popular, numa época em que havia o risco dela ser extinta, como aconteceu com outros folguedos que tiveram origem na escravidão e deixaram de ser praticados ao longo do tempo.

O documentário “Mestre Bimba, a capoeira iluminada”, conta a história de Manoel dos Reis Machado (1900-1974), descrito como o homem que dedicou a vida a dar dignidade à modalidade praticada inicialamente apenas por homens negros.

A praça localizada em frente à Casa da Capoeira, no Jardim Contorno, recebeu o nome de Mestre Bimba e é mantida por Alberto e outros vizinhos.

Ele adotou o espaço público. Há projeto de urbanização para o local, com pista para bicicross, espaço para caminhada, áreas de convivência e playground, no formato de roda de capoeira.

Outras metas

Também estão nas metas de Alberto conseguir que a Semel (Secretaria Municipal de Esportes) crie o cargo de técnico de capoeira, preenchido por meio de concurso público; a instalação de escola municipal de capoeira e a inclusão da modalidade como atividade curricular na rede municipal de ensino.

Hoje, ela já é ensinada como atividade extra em escolas da rede particular e em algumas unidades públicas.

Para a Casa da Capoeira, os planos são criar uma identidade visual e também um blog – tudo com o objetivo de divulgar o espaço e a manifestação esportiva e cultural que o local abriga.

Ah, é preciso informar.

Os vizinhos antes insatisfeitos não cumpriram a ameaça de infernizar a vida de Alberto, visto como estranho no Jardim Contorno quando chegou por lá com seus planos.

Agora ele e sua capoeira são bem vindos ao bairro.

A casa da Capoeira é uma associação de pessoas, interessadas na prática e fruição do jogo da Capoeira, entendendo o jogo como uma brincadeira SÉRIA.

 

A Capoeira, como todas as demais práticas corporais, enseja valores próprios que transcendem ao próprio jogo, “invadindo” outros espaços da nossa vida cotidiana, constituindo-se assim uma cultura própria.

Desse modo, o nosso interesse inicial é a prática, mas os nossos compromissos vão para além da prática:

  • Contribuir para a elevação do padrão técnico e cultural da capoeiragem da região de Bauru, através de ações diversas: cursos, workshop, seminários, encontros, etc.; através de seus próprios meios ou em colaboração com os poderes públicos e a iniciativa privada;
  • Contribuir para a preservação da memória e história da Capoeira na Região de Bauru, incentivando e realizando o trabalho de documentação dos vários espaços de prática e gravando em mídia eletrônica depoimentos dos Mestres responsáveis pela disseminação da prática na região;
  • Manutenção de uma biblioteca multimídia, que conte com livros, revistas, artigos, registros fonográficos (em vinil, k7 e CD) e registros cinematográficos (filmes, vídeoK7 e DVD); além da disponibilização desse material por meio eletrônico, resguardados os direitos autorais e/ou créditos aos autores.

 

Fonte: Agência BOM DIA – http://www.redebomdia.com.br/

A mamãe faz capoeira

Ela cuida dos filhos, da casa, do marido, muitas vezes trabalha fora e ainda consegue tempo para treinar e estar presente nas rodas.

A mãe capoeirista é uma mulher surpreendente que, fazendo milagre com seu tempo, consegue cultivar a felicidade da família e conquista o carinho e a amizade de todo o grupo.

É claro que a disponibilidade não é tão grande mas, mesmo precisando se afastar algumas vezes, a mãe capoeirista nunca abandona a capoeira. É o que diz Vilma, capoeirista há nove anos e mãe de Pâmela, que agora está com cinco anos de idade: “Eu pratico e incentivo minha filha a praticar capoeira mesmo com os contratempos da vida, pois a capoeira é esporte, lazer e cultura”.

Em alguns casos, a mãe capoeirista já traz a capoeira como parte da sua vida e a apresenta aos filhos quando eles ainda estão em sua barriga. É o caso de Raylana, fisioterapeuta, capoeirista há 13 anos, e mãe da Maria Eduarda, de 1 ano e 11 meses. “Ela ainda é muito pequena, mas quando vê DVD de capoeira comigo já bate palma”, afirma sorrindo.

Em outros casos, a mãe capoeirista é que conhece a capoeira através dos filhos, acompanhando-os nos treinos.

Em ambas as situações é uma mãe sempre presente e, muitas vezes, até “adota” as outras crianças do grupo, com cuidados, carinhos e conselhos que só uma mãe sabe dar.

Merecedora de nossa admiração, carinho e respeito durante todos os dias do ano, a mãe capoeirista merece ser lembrada e homenageada por todos, não apenas por seus filhos, no dia das mães que se aproxima.

Parabéns a todas as mamães que fazem a diferença no meio capoeirístico!

 

Neila Vasconcelos – Venusiana

capoeiradevenus.blogspot.com

Pungada dos Homens & A Capoeiragem no Maranhão

MESTRE BAMBA, do Maranhão

Jornal do Capoeira – 30.Julho.2005

Hoje, 29/07, fui ao Centro Histórico me informar sobre o Tambor-de-Crioula e a Punga, movido pela curiosidade de um artigo do Jornal do Capoeira -Capoeira em Sorocaba -em que é mencionado pelo Autor, Carlos Carvalho Cavalheiro, em que no Maranhão a Capoeira receberia também o nome de “Punga”, ligado àquela dança… achei estranho, pois nunca ouvira falar nisso… dei uma olhada no material que tenho sobre folclore maranhense e achei [em Reis, José Ribamar Sousa dos -Folclore Maranhense, Informes. 3 ed. São Luís : (s.e.), 1999, p. 35 -Tambor-de-Crioula]: “Caracteriza-se pela PUNGA ou UMBIGADA, onde é verdadeiramente observada em sua coreografia  a participação destacada da mulher”. Dançam o Tambor-de-Crioula apenas mulheres, cabendo aos homens, a percussão dos tambores. Nada relacionado com a Capoeira …

Procurei em outros autores alguma relação entre “punga” e “capoeira”, e não achei nada. Então fui ao Centro de Cultura Popular “Domingos Vieira Filho”, procurar alguns pesquisadores que pudesse me dar alguma informação, e também não haviam ouvido falar de que a Capoeira, enquanto manifestação cultural, fosse chamada de “punga”, conforme informa o ilustre pesquisador sorocabano. Conforme já publicado no nosso Jornal do Capoeira, havia o uso de “capoeira” ou “carioca”, o que estamos buscando ainda o que seria a “carioca”.

Voltei disposto a escrever um artigo, questionando essa informação. Então ouvi um toque de berimbau. Vinha de um sobrado, e a placa “Escola de Capoeira Angola “Mandingueiros do Amanhã””. Subi e encontrei Mestre Bamba… aproveitei a oportunidade para entrevistá-lo para uma nova pesquisa que estou realizando,junto com minha filha, sobre a relação “capoeira e renda”, para sua monografia de graduação em Economia. Já tinha o seu perfil, do Livro-Álbum sugerido pelo Mestre André Lace -e que em breve deverá ser publicado pelo Jornal do Capoeira. De nossa conversa -mais de duas horas -perguntei se sabia alguma coisa sobre “uma capoeira” denominada “punga””. “Já ouvi falar …” foi a resposta.

Pronto! Resolvido. Não haveria necessidade de contestar a informação do ilustre mestre paulista. E havia novidade para a história da capoeira … Falou-me Mestre Bamba -Kleber Umbelino Lopes Filho, nascido na Madre Deus, bairro de São Luís, em 12.04.1966, desde os doze na Capoeira, nove ensinando, e um (comemorou ontem) como Contramestre: dá aulas em um “Projeto Ago”, do grupo G-DAM, no município de Itapecurú-Mirim, junto a remanescentes quilombolas; no Povoado de Santa Maria dos Pretos encontrou uma variação do Tambor-de-Crioula em que os homens participam da roda de dança – Pungada dos Homens – em que utilizam movimentos semelhantes ao da capoeira -no entendimento de Mestre Bamba, esses movimentos foram descritos por Mestre Bimba -; os “desafiantes” ficam dentro da roda, um deles agachado, enquanto o outro gira em torno, “provocando”, através de movimentos, como se o “chamando”, e aplica alguns golpes com o joelho -a punga -:

  • Pungada na Coxa -também chamado “bate-coxa”, aplicado na coxa, de lado, para derrubar o adversário; segundo Bamba, achou-o parecido com a “pernada carioca” ou mesmo com o “batuque baiano”;

  • Pungada Mole -o mesmo movimento, aplicado nos testículos, de frente; aquele que recebe, protege “as partes baixas” com as mãos …

  • Pungada Rasteira/Corda -semelhante à “negativa de dedos (sic)”, de Bimba;

  • Queda de Garupa -lembra o Balão Costurado, de Bimba.

Mais, Mestre Bamba informou que há um vídeo, em que registrou todos os movimentos usados na “pungada dos homens”, identificando os golpes… ficou de disponibilizar… há a possibilidade de converter em fotografia…

Na saída, deu-me um jornal -Jornal Pequeno -em que é contada sua história (anexa).

DEU NO JORNAL PEQUENO – www.jornalpequeno.net

Quem passe, num rolé noturno pelo Centro da Cidade, sobretudo numa sexta-feira, subindo ou descendo a João Victal de Matos, rumo ao Largo do Carmo ou à Rua da Estrela (Reviver)… Chegando ao trecho que costura as Ruas da Palma e do Giz, não se poderá furtar à magia dos ritmos que ornamentam e cadenciam a Capoeira de Angola, que ali se manifesta entre solos e refrões, no compasso percussivo dos berimbaus e atabaques, do pandeiro, reco-reco, agogô e caxixi e sob o comando do Mestre Bamba

Eles são os Mandingueiros do Amanhã. Parar para ouvi-los, é encantar-se. E, uma vez encantado, o querer ver pra crer, sentir de perto, envolver-se nessa poesia acústico-cinética que se vai coreografando no gingado feiticeiro, se faz irresistível.

Assim, se você, passando por ali, uma noite dessas, ficar seduzido, tal qual pescador pelo canto da sereia, não tente quebrar esses encantos… Suba! Chegue lá… Sem delongas, sem cuidados: a ancestral, venerável, sábia Capoeira de Angola é fraterna, cordial, acolhedora… E o Bamba, na sua evidente simplicidade, é aquele que possui mesmo o carisma do Mestre -instrutor, orientador, conselheiro-amigo… Ali chegado, você será bem recebido. Não lhe faltará o sorriso alegre, a palavra amena, o convite para entrar e sentar, a água para beber, o clima para entrosar-se… E o companheirismo poderá ir-se formando, naturalmente, com a familiaridade conquistada nos contatos subseqüentes.

Estando lá, no recinto onde essa Capoeira se desenvolve (com muita alegria e animação), e estabelece como arte, artesanato, esporte e lazer, música, canto, dança, brincadeira, teatro… laboratório de expressão corporal, projeto educativo e de assistência social… doutrina, filosofia e escola de vida, você perceberá, numa leitura interativa, que tudo ali é temático e emblemático, no puxar dessas raízes transcendentais arraigadas no Coração da Mãe África: vasos, cortinas, quadros, painéis… conjuntos de berimbaus pendendo nas paredes… Toda a decoração (artesanal), enfim, articulada à natureza, se faz simbólica e evocativa de uma cultura ascendente, que remanesce, perpetuada no presente.

Olha lá! São 19:00h e os mandingueiros começam a chegar, caracterizados nas suas indumentárias (camisetas iconográficas -ou o que se pode inferir, o traje de gala dos capoeiristas: a veste branca, com a qual devem combinar os adereços). Vão entrando… E os mais devotos inclinam-se, tocam o solo e fazem o sinal da cruz. Vale ressaltar que, no contexto dessa ritualística, a sexta-feira é dia especial em que a tradição recomenda o branco. Não cabe, pois, o treinamento físico nem os fundamentos expositivos: sexta-feira é dia de roda. Roda (integrativa) de Capoeira.

E pronto: o espaço está aberto para o jogo. Mestre Bamba, solenemente de branco (da cabeça aos pés), toma posição na ala dos músicos, ensaiando os primeiros acordes, afinando e regendo a orquestra (monocórdia e percussiva), ao mesmo tempo em que vai solando os cantos (responsados em coro nos refrões), num variado repertório de inspiração cotidiana. Ao seu lado, a princesa Valdira, também de branco, ritmando o atabaque. Olhares e sorrisos se vão cruzando, em sintonia e mútua empatia, entre o casal. Os instrumentos já vibrando em harmonia… A onda sonora já contagiando, otimizando o ambiente… Mestre Bamba pondera e cala. Pede silêncio em volta. É preciso um reparo. Ouçamo-lo, que instrui, terna e docemente (retomando lições que já passara aos discípulos):

“Gente, não fiquem assim em duas filas, façam a roda! A Capoeira, nós já sabemos, é uma roda. Vocês lembram o que significa a roda? A roda é a integração, é a nossa união, a igualdade, a fraternidade… Quando ficamos em duas filas, assim de frente uns para os outros, ainda estamos separados e como que nos enfrentando. Em roda é que ficamos unidos e igualados. O mundo deve funcionar como uma roda, que move o carro da vida, com todo mundo de mãos dadas, solidário, um ajudando o outro”.

E assim falou o Mestre -que antes de ser o Bamba da Capoeira de Angola teve uma longa trajetória de trabalho e responsabilidade na luta pela sobrevivência…

Ele se chama Kleber Umbelino Lopes Filho. Sanluisense da Madre Deus (12.04.1966). Até os quatro anos de idade, freqüentou muito a Cohab, quando o pai ainda chefiava a família. “Minha avó paterna me levava muito pra lá, quando eu era menino”, ele diz. Depois é que, definitivamente, só lhe restou a Madre Deus, seu bairro natal, onde ele passou, praticamente, toda a infância, no trânsito da Rua do Norte para o Goiabal.

O pai (mecânico, caminhoneiro e motorista de ônibus, ainda vivo e residente no Tibiri, com outra família) separou-se deles, deixando a mãe, ainda muito jovem, os filhos pequenos, e ele (Kleber), o caçula, com apenas quatro anos, fato que o marcou profundo… “Sofri muito porque era agarrado com meu pai. Ele me levava pra assistir futebol”, ele confirma. E já em outra tonalidade: “Mas, minha mãe supriu tudo isso. Preencheu todos os vazios das minhas carências. Foi pai, mãe, amiga, educadora, foi tudo pra nós” -diz já refeito e altaneiro, orgulhoso dessa mãe admirável que se chamou em vida Marinildes Pinheiro Braga, mulher extraordinária, que “fazia de tudo para sobreviver e criar os filhos” -Kleber, Joarenildes e Itajacy: “lavava pra fora, era manicura, passando depois a cabeleireira, foi cobradora de ônibus, até arranjar um emprego fixo na Prefeitura. E nos fins-de-semana, ainda trabalhava no Clube Berimbau, fazendo a revista das mulheres”.         Essa heroína da família, entretanto, “faleceu em 2000, aos 53 anos, sem ter realizado o sonho da aposentadoria” -diz Kleber contristado.

Após a separação dos pais, a família, já incompleta, vai morar no fim da Rua do Norte, na fronteira com o Goiabal. Marinildes, então com 23 anos, procura o amparo dos pais. “Meu avô possuía, no fim da Rua do Norte, uma casa grande, com vários quartos pra alugar. Nós fomos morar no último”, relembra Kleber.

Iniciado no processo de alfabetização, em casa, estudando com a mãe, sua primeira escola foi a da União de Moradores da Madre Deus, onde ele cursou o primário (até a 4ª. série do Ensino Fundamental) e encontrou a sua “professora do coração”, a tia Zefinha que, nas suas próprias palavras: “foi a minha segunda mãe e uma mãe pra minha mãe”. Reiterando: “Tia Zefinha nos adotou, abaixo de Deus”.

Ainda com a palavra: “Concluído o primário na escola comunitária, o filho da tia Zefinha (Jorge Dias) me colocou pra estudar no Humberto Ferreira, no Canto da Fabril, pagando meus estudos até a 8ª. série. A partir daí, fui para o Coelho Neto, onde fiz todo o 2º. Grau (Ensino Médio). No Coelho Neto, fiz parte do time de futsal e fui campeão quatro vezes, ganhando prestígio na Escola. Fui bom aluno. Nunca dei desgosto pra minha mãe, em reconhecimento à luta dela”.

Para ajudar a mãe, ele começou a trabalhar muito cedo. Aos 14 anos, já “fazia bicos corriqueiros”, como: “carregar carradas de terra, vender água no Cemitério, pintar uma carneira”… Aos 17, vamos encontrá-lo no Sindicato dos Transportes, ajudando o padrinho Osmar Dias. De lá, foi para uma empresa de refrigeração (ar condicionado), a MC Dias, prestadora de serviços para o Banco Itaú, vinculado à qual, passou seis meses como faxineiro, limpando banheiros, etc. Nos intervalos, estudava. Dona Deusa (da Chefia do Banco), que o via sempre apegado aos livros e aos cadernos escolares, ficou sensibilizada e lhe deu uma oportunidade de entrar para o quadro de funcionários da Empresa. Ele começou como contínuo, passando a escriturário, chegando a Caixa. Nesse percurso ascensional, no Itaú, contou ainda com o apoio do gerente da Casa, ao qual rendeu homenagem, colocando no filho o nome de Mikael Kalil (como aquele se chamava). Passando-lhe a palavra: “No banco, pude ter melhores condições de dar conforto a minha mãe, de quem nunca me separei”.

E chegou o dia em que ele teve de sair do Itaú, numa dessas crises de contenção de gastos e de enxugamento do quadro de pessoal, por que passam as empresas financeiras. Na emergência de um novo trabalho, ele “pegaria o que aparecesse, fosse o que fosse” e assim foi. O próximo emprego foi na Gás Butano, “como pião carregador de botijão”. O gerente, então, descobrindo que ele era escolarizado, que já fora bancário, sendo, portanto, dotado de outras competências, digamos mais nobres, ficou constrangido e, não tendo melhor colocação a oferecer, o despediu. Ele foi para a Trevo pneus, ali trabalhando por dois anos, começando como motoboy, elevando-se, em seguida, à categoria de Caixa. Por último, militou na Cotepro -prestadora de serviços para a Caixa Econômica Federal -como digitador, ali ficando até maio de 2004, quando, por sugestão e orientação da princesa Valdira, abandonou tudo para devotar-se, exclusivamente, à Capoeira de Angola, com a qual selou um pacto profissional e missionário…

Seu primeiro contato efetivo (e afetivo) com essa modalidade de Capoeira data de 1978. Ele tinha 12 anos e começou a observar as rodas que professavam essa ginga/mandinga. “Eles não ensinavam crianças” -diz, referindo-se aos grupos que se reuniam e exercitavam ao ar livre, em espaços alternativos, pelas ruas da Madre Deus. Em 1980, conheceu o Mestre Eusamor (maranhense), hoje seu compadre, que o encaminhou na senda. Mas, é o Mestre Patinho, que vem a conhecer nos meados dos anos 90, que considera seu grande Mestre. E, à princesa Valdira (que conheceu também nesse período, quando tinha 27 e ela 17), ele deve esse encontro decisivo. Ei-lo que diz, num reconhecimento à princesa e ao Mestre):

“Valdira, é a pessoa que mais me incentivou e ajudou a me educar na Capoeira. Ela é a minha princesa, minha musa inspiradora, minha estrela-guia. Foi quem me levou pra conhecer o Mestre Patinho, no Laborarte, onde ela já treinava a Capoeira. Mestre Patinho é o meu Mestre, Meu Pai, na Capoeira de Angola. Foi ele quem me educou nessa Arte. Foi ele que me sagrou Mestre”.

Ele que já fora casado (aos 20) com Goreth, também da Madre Deus, mãe do seu primeiro filho Mikael Kalil (que teve de criar sozinho, com a ajuda da mãe Marinildes, pois a esposa os abandonou quando o primogênito tinha quatro anos), casou-se em segundas núpcias com a princesa Valdira (Valdira Barros, hoje advogada, militando no Centro de Defesa Marcos Passerini e Mestranda em Políticas Públicas, já em fase de defesa da tese de conclusão, na UFMA), com quem tem uma princesinha –Olga.

Em setembro próximo, mamãe Marinildes completará cinco anos de transição desta para a outra vida e a memória edificante dessa heroína que nunca desistiu de lutar pelos filhos que teve de criar só, com a ajuda de Deus e da tia Zefinha, ressoa forte na alma do Mestre Bamba, numa grande motivação para continuar essa luta, numa dimensão maior, em prol das crianças e dos jovens da Madre Deus e do Centro Histórico da sua Cidade. “Se não cuidarmos da criança e do jovem, vamos perdê-los para as drogas. É preciso criar oportunidades para que a nossa infância e juventude possa preencher sadiamente o seu tempo, encontrar um objetivo, um sentido na vida, que eleve a auto-estima delas, preparando-as para assumir a liberdade com responsabilidade”… Ei-lo que se expressa no seu idealismo.

E a Capoeira é o seu “abre caminhos”, o “carro-chefe” desses ideais. E nasce a Escola, fundada em 12.04.1996 (um aniversário do Mestre). Ele, que já liderava um grupo de capoeiristas integrado por jovens de 4 a 19 anos, vem a merecer desse povo uma festa surpresa, de aniversário, e então, emocionado, proclamou: “A partir de hoje nós somos uma Escola!” E batizou-a com o nome de “Mandingueiros do Amanhã“. Antes dessa proclamação, o grupo recebia aulas nas praças. Ele comprava sacos de açúcar, vazios, para fazer roupas, que sorteava entre o pessoal. Depois, passaram para a União dos Moradores, depois para a sede do Boi da Madre Deus, para Quintão, para o Quintinho… E o grupo ficou um ano parado, por falta de espaço, voltando a treinar nas praças. Mas, para a Escola, já solenemente consagrada e batizada, urgia um espaço definitivo, onde esta pudesse abrir-se mais para a comunidade. Essa oportunidade acontece com a ida de Abelha para a Holanda, deixando, para o grupo, o seu Cortiço do Abelha, ora transformado em Escola de Capoeira, funcionando nos três turnos, com aulas três vezes por semana: às segundas, quartas e sextas, e às terças, quintas e sextas, num programa que inclui “aula corporal, fundamentos sobre a Capoeira, história do negro, da Capoeira e toda a filosofia da Capoeira e do Mestre”. No momento, a Escola tem dois projetos em execução: o Solta Mandinga e o Orquestra de Berimbaus. O primeiro, empenhado na promoção de cursos gratuitos para crianças e jovens carentes, “conscientizando-os dos valores culturais e morais, imprimindo neles um sentido positivo para a vida”. O segundo, (uma homenagem ao Mestre Patinho), em que, crianças, jovens e adultos, formando uma orquestra, habilitam-se na percussão dos ritmos maranhenses: boi, tambor de crioula, cacuriá, lelê, mangaba, coco, caroço… Instrumentos são confeccionados pelos discípulos e vendidos para o público adepto. A orquestra já se apresenta, com sucesso, em espetáculos culturais, onde quer que seja, sobretudo na temporada junina.

Para o futuro, o sonho do Mestre Bamba é “viabilizar projetos sociais para o Centro Mandingueiros do Amanhã”, que é, na verdade, uma ONG” E tudo deveria, de preferência, funcionar na Madre Deus. “Está tudo na mão de Deus e da Madre de Deus”. E vamos ver o que Deus tem pra fazer…

GALERIA DE ANÔNIMOS ILUSTRES, por CORRÊA, Dinacy. GALERIA DE ANÔNIMOS ILUSTRES (Mestre Bamba). In JORNAL PEQUENO, São Luís, Sábado, 14 de junho de 2005, p.8 (Professora da Uema. Membro da AVL – Academia Arariense-Vitoriense de Letras).

Cordialmente,

 

Prof. Leopoldo Vaz, São Luis do Maranhão

Leopoldo Gil Dulcio Vaz

Professor de Educação Física do CEFET-MA

Mestre em Ciência da Informação

 

Fonte: http://www.capoeira.jex.com.br/