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O ABC da Capoeira Angola – Os Manuscritos de Mestre Noronha

O ABC da Capoeira Angola – Os Manuscritos de Mestre Noronha

 

Um documento histórico de grande valor… Uma versão atualizada e completa com 120 páginas !!!

 

Preparamos uma nova versão, completa e atualizada, a versão que estava largamente disponibilizada em PDF na rede, do Livro: “O ABC DA CAPOEIRA ANGOLA – OS MANUSCRITOS DE MESTRE NORONHA“, continha apenas 18 paginas. Esta versão do livro nos foi enviado há cerca de 10 anos pelo incansável Mestre Decanio (em memória), uma das mais fantásticas figuras da Capoeira que defende a democratização da informação… para o mestre, boa informação é aquela que é transmitida…

 

O Livro originalmente foi enviado ao Mestre Decanio pelo escritor, historiador e pesquisador Fred Abreu que conseguiu publicar os manuscritos de Noronha, com o apoio do Governo do Distrito Federal, Programa Nacional de Capoeira/Projeto Capoeira Arte e Oficio, DEFER e CIDOCA/DF

 

Mais uma excelente novidade para toda a comunidade capoeirística!!!

 

o-abc-da-capoeira-angola-manuscritos-de-mestre-noronha

 

Fica a dica de uma ótima e importante leitura, aproveite!!!

 

Agradecimentos especias:

Fred Abreu, Angelo Augusto Decanio Filho, Bruno “Teimosia” e A Família de Daniel Coutinho o Mestre Noronha, que autorizou esta publicação.

 

Programa Nacional de Capoeira/Projeto Capoeira Arte e Oficio – DEFER – CIDOCA/DF

“É um documento emocionante por que demonstra a sede que nosso povo tem manter e propagar a tradição provando que têm consciência de um povo sem tradição é uma arvore sem raiz… qualquer abalo destrói… como venho dizendo há anos…”

Desejando muita saúde, felicidade e  axé!
Decanio

 

 

Visite a seção de “DOWNLOADS DA CAPOEIRA” e confira as novidades

O ABC da Capoeira Angola – Manuscritos de Mestre Noronha

O Livro originalmente foi enviado ao Mestre Decanio pelo escritor, historiador e pesquisador Fred Abreu que conseguiu publicar os manuscritos de Noronha, com o apoio do Governo do Distrito Federal, Programa Nacional de Capoeira/Projeto Capoeira Arte e Oficio, DEFER e CIDOCA/DF
Fica a dica de uma ótima e importante leitura, aproveite!!!

Agradecimentos especias:

Fred Abreu, Angelo Augusto Decanio Filho, Bruno “Teimosia” e A Família de Daniel Coutinho o Mestre Noronha, que autorizou esta publicação.

Programa Nacional de Capoeira/Projeto Capoeira Arte e Oficio – DEFER – CIDOCA/DF
“É um documento emocionante por que demonstra a sede que nosso povo tem manter e propagar a tradição provando que têm consciência de um povo sem tradição é uma arvore sem raiz… qualquer abalo destrói… como venho dizendo há anos…”
Desejando muita saúde, felicidade e  axé!
Decanio

O Legado de Mestre Noronha

Muito sobre as memórias dos tempos dos valentões e dos grandes capoeiristas do início do século XX, chegou até nós graças a um costume que o Mestre Noronha (Daniel Coutinho por batismo) tinha, de anotar nomes, datas, locais e “causos” envolvendo os personagens envolvidos com a capoeiragem da Bahia. O “A.B.C. da Capoeira Angola” foi um livro organizado pelo nosso grande pesquisador da capoeira – Frede Abreu, a partir dos manuscritos deixados por Noronha, e se tornou um grande legado para todos aqueles que pretendem saber mais sobre esta arte-luta, e de tudo aquilo que estava ao seu entorno. Capoeira e seus personagens, a política e seus políticos, festas populares, economia, repressão policial, história do Brasil, são alguns assuntos abordados por este grande mestre da capoeira em seus manuscritos, que posteriormente à sua morte, Frede Abreu transformou em livro, como forma de perpetuar essa memória.

Noronha teve o privilegio de vivenciar os momentos áureos da capoeira baiana do início do século XX. E nos deixou relatos belíssimos desses tempos. Desde a perseguição dos capoeiras, devido à política vigente na época, até a sua visão de decadência dessa arte, norteada pela imagem das academias formadoras de capoeiras.

As elites queriam transformar a cidade de Salvador, em uma cidade de características européias. Em outras palavras, limpar ou erradicar, se necessário, das ruas, as tradições de origem negra, favorecendo a manutenção da ordem pública. visando atender as exigências da classe mais abastada. Nesse contexto social, de conflitos e de discriminação em relação às manifestações afro-brasileiras, é que vai se formando o menino Daniel Coutinho, no local que fazia parte do mapa central da criminalidade, da vadiação, da desordem e também do trabalho em Salvador.

Noronha sempre defendia que a “…capoeira viera da África, trazida pelos africanos, porém não era educada…”, tendo adquirido esta característica aqui no Brasil. Vivenciou ainda menino, por volta dos 8 anos de idade, a difícil arte da capoeira com um negro descendente de Angola, o velho Candido Pequeno. Tinha uma imensa admiração por este capoeira.

Em seus manuscritos, narra diversos casos envolvendo enfrentamentos com a polícia e com outros valentões, citando locais e nomes dos mais famosos capoeiras da época, envolvidos nesses conflitos, assim como ele próprio, respeitado e temido no universo dos “desordeiros”.

Noronha observava que antes de freqüentar qualquer roda, era preciso ter a consciência de que “…não era coisa de brincadeira, havia muita mardade neste meio…”. Não dispensava patuás, que servia para evitar os maus espíritos. Amuletos eram fundamentais. Sempre tinha uma oração, pedia graças ao divino Espírito Santo e aos Orixás. Sempre e sempre com o corpo fechado, não admitia chegar em roda despreparado. Falava sempre: “…a defesa para a nafé (navalha) a pessoa traz consigo mesmo. Sem ter arma, o capoeira tem sua defesa particular que admira o público…”.

Dizia que um bom aprendiz de capoeira angola, tem que obedecer às palavras do mestre, tem que aprender o jogo de dentro e o jogo pessoal para a sua defesa, sempre dando ênfase a tudo aquilo que “…desse vantagem para escapulir da polícia, pois ela não gostava do capoeira…”. Para ser mestre, dizia Noronha, “…tem que aprender toda a malícia que existe nesta malandragem…”.

Em seus manuscritos, Noronha descreve as famosas “festas de largo” de Salvador e a participação dos capoeiras nesses eventos. É justamente nesse contexto descrito por Noronha que surge e vai se estruturando o modelo de “roda de capoeira” tal qual conhecemos hoje, enquanto um ritual definido pela presença de instrumentos musicais e de certas “regras” que vão se transformando ao longo dos tempos. Antes disso a capoeira se expressava de outras maneiras, como as “maltas” no Rio de Janeiro. Mas o modelo de organização em forma de “roda de capoeira” que permanece até os dias de hoje e se espalhou pelo mundo todo, foi sendo estruturado nesses espaços e nesse período histórico, o qual Noronha nos relata com tanta riqueza de detalhes em seus manuscritos.

Noronha teve participação também no surgimento do primeiro Centro Esportivo de Capoeira Angola, na Ladeira da Pedra, no bairro da Liberdade, sendo Amorzinho, o próprio Daniel Coutinho, Totonho de Maré e Livino, entre outros, seus “…donos e proprietários…”. Porém, Noronha sempre registrou o grande esforço feito por Mestre Pastinha em manter e elevar o nome do centro, a partir de quando assume a direção do mesmo.

O mestre Noronha era um severo crítico dos capoeiras que não se dedicavam a conhecer melhor sua arte, que se diziam “grandes mestres” de capoeira e donos de academia. Dizia: “…eu mestre Noronha tenho todo o fundamento comigo porque me dediquei e aprendi toda a malandragem…”

 

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CAPOEIRAS e CAPOEIRISTAS

Como meio de comunicação especializado, o Portal Capoeira tem publicado diversas notícias, artigos e matérias com uma dinâmica bastante interessamte. São em média mais de 10/12 artigos publicados semanalmente.
 
Todo este enorme leque de informações tem como pano de fundo a "nossa capoeiragem", seus personagens, causos, histórias e estórias, enfim um complexo emaranhado de temas e assuntos.
 
Foi com enorme prazer que recebemos uma carta de Marieta Borges Lins e Silva, Coordenadora do "Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha", na qual busca fazer um esclarecimento sobre a informação publicada na matéria "Fernando de Noronha: festa, Batizado & Trabalho Social", publicada no dia 28/08/07 e ainda de "quebra" nos brindou com a publicação de um trabalho sobre o assunto publicado no no Jornal da Capoeira (Miltinho Astronauta) e na Revista da Academia de Artes e Letras de Pernambuco.
 

Em anexo segue a carta e o trabalho de Marieta Borges Lins e Silva

Luciano Milani

Prezados senhores,

A respeito da matéria "Fernando de Noronha: festa, Batizado & Trabalho Social", publicado nesse Portal em 28/08/07, que registra o "SEGUNDO BATIZADO DE CAPOEIRA – FERNANDO DE NORONHA", ocorrido em 17/08/07, há uma afirmativa que: "a capoeira já existe a muitos anos no meio da comunidade, muitos dos capoeiras do Brasil da década dos anos 40 foram aqui aprisionado, a exemplo de Manduca da Praia, um dos capoeiristas mais temido da época", eu gostoria de informar que o envio de todos os capoeiristas do Brasil para o Arquipélago ocorreu em 1890, como 1º Ato da recém-instalada República no Brasil e, sobre o assunto, já publiquei artigos no Boletim de Capoeira, aos cuidados de Miltinho Astronauta, resgatando a verdade dos fatos.

Minha luta em favor do resgate da verdade dos fatos ocorridos em Fernando de Noronha tem três décadas de existência. Nesse tempo, procurei e identifiquei todos aqueles ligados à Capoeira, a partir do prof. Sérgio Luiz, de Guaruilhos/SP e de todos os que se dedicam ao tema, como André Lacé (RJ) e Leopoldo Vaz (MA).

Gostaria que a informação correta fosse divulgada. Ou seja, aquela que situa no final do século XIX a presença, na ilha, de todos os capoeiristas do Brasil, como medida disciplinar do governo republicano, que nomeou o Sr. Campaio Ferraz para "caçar" os capoeiristas todos e os embarcou em navios, rumo à prisão insular.

Para esclarecer o fato (que tenho divulgado sempre na ilha, junto aos três grupos de Capoeira hoje existentes, como fiz com todos os grupos que já existiram ali) envio, em anexo, o trabalho que fiz publicar no Boletim da Capoeira e na Revista da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, em duas versões: o texto integral e o mesmo resumido.

Grata pela correção que venha a ser feita.

MARIETA BORGES LINS E SILVA
Coordenadora do "Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha"

 

 
 
CAPOEIRAS e CAPOEIRISTAS.
Marieta Borges Lins e Silva

Sempre se falou muito sobre a Capoeiras e Capoeiristas. Em diferentes tempos e por razões diversas aplicaram-se penas aos praticantes dessa modalidade de desempenho físico, olhando-a como luta, como contravenção, como origem de danças populares – o frevo, por exemplo – como arte e, finalmente, como prática desportiva.
Estudiosos debruçaram-se em jornais e livros, de muitos tempos, à cata de razões que explicassem o fascínio que a Capoeira exercia sobre os homens, sobretudo os jovens, levando-as a aprendê-la e exercitá-la mesmo quando isso ocorria na marginalidade.

 
Artigos, reportagens, charges, estudos acadêmicos registraram esse saber que ia sendo identificado, construindo a história dessa forma de destreza corporal, tanto nos seus aspectos lúdicos ou conflitantes, como na grande repressão que gerou, estimulando debates em muitos níveis, tendo o tema como centro das atenções.
 
O que se sabe sobre essa prática? Como essa forma de luta atravessou os tempos, resistindo, mesmo perseguida?
No tempo da Monarquia, quando a Capoeira era praticada principalmente entre escravos, o castigo para quem assim procedesse era de 300 chibatadas (em 1820) e prisão em calabouço e cem açoites (em 1825). Já se dizia então que “os capoeiras infernavam as ruas da cidade de um modo escandaloso”. Os incidentes se multiplicavam em cada década. Os castigos, também. Os jornais destacavam a participação de homens brancos livres (não cativos) dentre os “magotes de capoeiras” que promoviam arruaças pela cidade… A capoeiragem era comum para muitas pessoas, livres ou escravas e era praticada em festas tradicionais, com correrias e insultos que abalavam a tranqüilidade das ruas.

No século XIX, a prática continuava a parecer ser maior entre a população preta e pobre. Esses eram dois condicionantes importantes, para atribuir ao povo mais carente o gosto pela Capoeira e, nele, considerar que somente os de cor negra eram praticantes. A realidade não era bem essa… Muitos filhos de família abastada, brancos na cor, também se deixavam envolver pela magia da Capoeira e tornavam-se membros de grupos, muitas vezes no anonimato.

 
Nos primeiros tempos de República instalou-se no Brasil o mais organizado processo de perseguição policial à Capoeira, por considerarem que sua prática seria uma “arma” nas mãos das classes “perigosas”, Na época, as cidades passavam por uma “limpeza urbana” e, de forma ostensiva, olhavam com desconfiança para aqueles que “formavam rodas e, com berimbaus, pandeiros e reco-recos, vadiavam freneticamente no jogo da capoeira”. A meta do poder era “exterminar totalmente os vadios e turbulentos capoeiras”. Eles nem precisavam ser autuados em flagrantes…Em decorrência dessa odiosa perseguição o Código Penal de 1890, deu à Capoeiragem um tratamento específico no seu artigo 402, preconizando: “Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem será o autuado punido com dois a seis meses de prisão”. No rastro desse primeiro instrumento jurídico outros foram surgindo, com Decretos de efeitos complementares, que buscavam as maltas de capoeiras e lhes davam voz de prisão.
 
A República recém-proclamada foi contaminada pela má vontade em relação aos capoeiras. Em reuniões oficiais, o assunto foi incluído para discussão e adoção de medidas coercitivas. E em janeiro de 1890, menos de dois meses depois do 15 de novembro de 1889, e motivado pelas acirradas discussões dos que integravam o Conselho de Ministros do Governo Provisório Republicano, o Chefe de Polícia Sampaio Ferraz, com apoio do Ministro da Justiça, Campos Salles, foi designado para executar a missão de exterminar os capoeiras de todo o Brasil. E ele – temendo as lutas que precisaria enfrentar para executar tal ordem, diante do envolvimento de gente graúda na prática da Capoeira – conseguiu sossegar Deodoro da Fonseca, recebendo dele a promessa de que teria “carta branca para agir como quisesse, desde que limpasse o país daquela gente”. Estava selado o destino desses “subvertores da ordem”: ficou combinado que “todos os capoeiras, sem distinção de classe e de posição, seriam encarcerados no xadrez comum da Detenção, tratados ali severamente e, pouco a pouco, deportados para o presídio de Fernando de Noronha, onde ficariam certo tempo, empregados em serviços forçados,”
 
As maiores perseguições ocorreram em 1890, 1891 e 1904. Muitos desses “subversivos” foram deportados para lugares distantes, como o Acre e a Ilha das Cobras, A maioria foi mesmo para Fernando de Noronha, onde funcionava uma Colônia Correcional para presos comuns de Pernambuco, desde a sua definitiva ocupação em 1737 e, naquela época, estava temporariamente subordinada ao Ministério da Justiça (entre 1877 / 1891).
 
Todos os envolvidos na trama para exterminar os capoeiras reconheciam que “a prática era uma arte, uma verdadeira instituição mas, radicada nos costumes, resistindo a todas as medidas policiais – as mais enérgicas e mais bem combinadas – esse flagelo dava eternamente uma nota de terror às próprias festas mais solenes e ruidosas, de caráter popular.” Em nota, no trabalho “Actas e Actos do Governo Provisório”, organizado por João Dunshee de Abranches Moura, publicado em 1907, fica evidente o medo que cercava a realização de quaisquer festividades, patrióticas ou religiosas, nos conturbados tempos pós-República, sobretudo à noite – quando a multidão de apinhava pelas ruas e praças – de que não ocorressem cenas sangrentas e aviltantes de confronto entre policiais e capoeiristas… Isso viria a culminar com a deportação daqueles considerados “indesejáveis” de todo o Brasil para o arquipélago distante, como medida saneadora de distúrbios públicos. E como, na arte da capoeiragem, desde os tempos da Monarquia, não somente os das “classes baixas” estavam envolvidos, mas também personagens ilustres e até políticos, achou-se por bem atingir logo esses homens no nascedouro da República, livrando o povo daqueles indivíduos que atentavam contra a ordem estabelecida.
 
A polícia, na época, conhecia bem quem eram os praticantes da capoeira. Facilmente organizou-se uma “lista” dos “facínoras que infestavam as cidades”, não atendendo a nenhum dos pedidos de condescendência e considerações para com nenhum deles… E muitos problemas advieram da rigidez na execução dessa tarefa.. A imprensa acirrou os posicionamentos. Os Ministros se dividiram em opiniões contra ou a favor das medidas que estavam sendo tomadas. Deodoro da Fonseca não recuou dos seus propósitos. E poucos meses depois começava a remessa, de homens de muitas classes e com muitos “padrinhos”, para o distante arquipélago, onde viveriam sua vida reclusa e submetida a trabalhos forçados.
 
Quem era o CAPOEIRA, naquele final do século XIX e começo do século XX?. Qual o seu padrão racial, onde vivia, que nível de escolaridade tinha, qual o seu ofício e faixa etária? Surpreendentemente, era no Rio de Janeiro que estava a grande maioria dos homens perseguidos. E muitos também havia na Bahia e em Pernambuco.
 
Marcos Breda e Mello Moraes, estudiosos da Capoeira, trouxeram luz sobre o assunto, relacionando os homens assim denominados como 1) oriundos – na sua maioria – das classes populares; 2) quase todos com trabalhos fixos (temendo prisão por vagabundagem); 3) a maioria negra ou mestiça, embora brancos fossem presos também; 4) o principal palco de conflito era o Rio de Janeiro – capital da República, embora até imigrantes fizessem parte desse “elenco marginal”; 5) as roupas eram facilmente identificadas nos pequenos detalhes.
 
É incrível reconhecer-se hoje – em tempos de liberdade – que essa prática tenha sobrevivido, impondo sua marca cultural nos séculos seguintes, como se uma “transição cultural subterrânea“ permitisse essa continuidade até os nossos dias e o reconhecimento até como Arte.
 
Olhada como uma forma de “luta corporal”, a Capoeira tem seus heróis em todos os tempos. Alguns nomes são mencionados com respeito, mesmo que tenham eles sofrido a dureza dos porões penitenciários e o exílio obrigatório. Manduca da Praia, Juca Reis. Ciríaco Francisco da Silva Thomas, Chico Carne Seca, Aleixo Açougueiro, Capitão Nabuco, são alguns deles.
 
Holloway, professor da Universidade Cornell, de Nova York, publicou nos “Cadernos Cândido Mendes” – estudos Afro-asiáticos, em 1989, um artigo que avalia a ação dos capoeiristas ao longo do século XIX e começo do século XX, com informações importantes para a compreensão desse esporte / luta / arte (seja como for hoje considerada), fazendo um importante “passeio” pelas ruas do Rio de Janeiro, identificando acontecimentos que levaram a Capoeira a ser extremamente perseguida.
 
Para Fernando de Noronha essa foi uma página da história que parece ter sido propositalmente ocultada, fazendo com que a presença, na ilha, de todos os capoeiristas brasileiros e estrangeiros, passasse desapercebida dos relatos que se sucederam, ainda que saibamos hoje que, até 1930, continuaram a ser enviados para lá esses homens marginalizados, por serem praticantes de uma forma de condicionamento físico. E, no entanto, nenhum lugar do Brasil tem um diferencial tão precioso e tão importante do que o arquipélago “perdido em meio a lindos tons de azul”. E por isso, em nenhum outro lugar do Brasil a Capoeira merece ser escrita com o brilho dos feitos do passado, mesmo que tenham sido dolorosos.
 
Bibliografia
 
ABRANCHES, Dunshee de. Actas e actos do Governo Provisório. Rio de Janeiro.
ASSUNÇÃO, M.R. & VIEIRA, L.R. Mitos, controvérsias e fatos: construindo a história da capoeira. In: Cadernos de Estudos Afro-Asiáticos. Rio de Janeiro: Cândido Mendes, nº 34. 1999
BRETAS, Marcos Luiz. Navalhas e Capoeiras – uma outra queda. In: Ciência Hoje, nº 59, Nov. 1989.
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BRIAND, Pol. Em torno da litografia dos Boxes de Géricault (1818). In: Association de Capoeira Palmares de Paris, dez.2004, www.capoeira-palmares.fr/histor/nireu.htm
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CARNEIRO, Edison. Capoeira. Coleção cadernos de Folclore, V. 1. MEC / Depto de Assuntos Culturais / FUNARTE / Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro.
CAVALCANTI, Nireu. Nireu Cavalcanti encontra registro de capoeira em 1789. In: Association de Capoeira Palmares de Paris, dez.2004, www.capoeira-palmares.fr/histor/nireu.htm
CARVALHO, A. Império e República ditatorial, Rio de Janeiro. Imprensa Mont’ Alverne, 1891
HOLLOWAY, H. O “Saudável Terror”: Repressão policial aos capoeiras e resistência dos escravos no Rio de Janeiro no século XIX. In: Cadernos de Estudos Afro-Asiáticos. Rio de janeiro: Cândido Mendes, nº 16. mar.1989. Rio de Janeiro.
LOPES, André Luiz Lacé. Juca Reis mulherengo e a mulher africana. In: Jornal do Capoeira, nº 58, jan/fev 2006. www.capoeira.jex.com.br
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MELO, Morais Filho. Tipos de rua: Capoeiragem e Capoeiras Célebres. In: Festas e Tradições Populares do Brasil. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia: São Paulo. EDUSP,1979.
MORENO, Raphael Pereira. A Literatura de Cordel e a Música na Capoeira. In: Jornal do Capoeira, nº 74, mai.2006. www.capoeira.jex.com.br
___. Capoeira do Rio, Bahia & Pernambuco. In: Jornal do Capoeira, . www.capoeira.jex.com.br
NETTO, Amorim. Fernando de Noronha: ilha da dor e do sofrimento. Rio de Janeiro. Ed. A Noite. 1938. 171p.
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OLIVEIRA, Marco Aurélio de Oliveira. Ndongo (Congo): uma luta de libertação – 1575. Jornal do Capoeira, nº 58, jan/fev. 2006. www.capoeira.jex.com.br
PIRES, A L.C.S. A capoeira no jogo das cores: criminalidade, cultura e racismo na cidade do Rio de Janeiro (1890-1937). Dissertação (Mestrado em História). Campinas-SP, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Depto de História, Universidade Estadual de Campinas, 1996.
___. Movimentos da cultura afro-brasileira: a formação histórica da capoeira contemporânea (1890-1950). Tese (Doutorado em História) Campinas-SP, Depto de História, Universidade Estadual de Campinas, 2001.
QUIRINO, Manoel Raimundo. A Bahia de Outrora. S/ed. 1916
REGO, Waldeloir. Capoeira Angola – Ensaio Sócio-Etnográfico. Ed. Itapuã, Salvador. 1968
SOARES, C.E. L. A negragada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro (1808-1890). Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1994.
___. A Capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de janeiro (1808-1850). Campinas-SP: Ed. UNICAMP, 2001.
SANTOS, Eduardo Alves (Mestre Falcon). Capoeira Nacional: a luta por liberdade II. In: Jornal do Capoeira, nº 53, dez 2005. www.capoeira.jex.com.br
___. Capoeira Nacional: a luta por liberdade III. In: Jornal do Capoeira, nº 58, jan/fev 2006. www.capoeira.jex.com.br
___. Na Roda com Mestres e Doutores. In: Jornal do Capoeira, nº 57, jan 2006. www.capoeira.jex.com.br
SILVA, Maria José (Marieta) Borges Lins e Silva & MELO, Roberto Salomão do Amaral e. Fernando de Noronha: a produção e o consumo de um espaço insular para o turismo histórico-cultural. In: Revista Espaço e Geografia. Depto de Geografia / Programa de Pós-Graduação em Geografia – ano 3, nº 1 (2000) – Brasília-DF: Instituto de Ciências Humanas, Universidade de Brasília, 1999
SITE “a Capoeira e seus personagens” – Anjos da Capoeira. 2002. s/autor. Rio de Janeiro.
VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Atlas das Tradições & Capoeira e Capóeirage, no Maranhão. In: Jornal do Capoeira, nº 64, mar.2006. www.capoeira.jex.com.br
___. Sobre a matéria “Segredo não é pra qualquer um”, Juca Reis & Fernando de Noronha. In: Jornal do Capoeira, nº 63, mar.2006. www.capoeira.jex.com.br
 
* Marieta Borges Lins e Silva é pesquisadora, coordenadora do “Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha”

Fernando de Noronha: Festa, Batizado & Trabalho Social

SEGUNDO BATIZADO DE CAPOEIRA – FERNANDO DE NORONHA
 
Foi realizado o segundo Batizado de Capoeira do Arquipélago de Fernando de Noronha, no dia 17 de agosto no Centro Cultural Clube das Mães.
 

O grupo MEIA LUA INTEIRA que já existe a seis anos desenvolvendo um trabalho social na ilha pelo professor Rogério (Cueca).

Na festa do Batizado foram formados novos capoeirista Principalmente crianças,que receberam do Mestre do Grupo Birilo e Contra Mestre Mula a Primeira graduação na capoeira.

 
Foram formados alunos mais antigos e houve troca de cordas.
 

O evento teve vários momentos emocionantes um deles foi a formatura do professor do grupo Fernando (Cabeção).

A comunidade compareceu em massa para ver a festa do Batizado,a capoeira já existe a muitos anos no meio da comunidade, muitos dos capoeiras do Brasil da década dos anos 40 foram aqui aprisionado, a exemplo de Manduca da Praia, um dos capoeiristas mais temido da época. Não só a comunidade mas também os turistas que na ilha estavam puderam ver de perto uma expressão corporal tão forte e bonita que é a CAPOEIRA,muitos se emocionaram com lagrimas e sorrisos.

 

grupo MEIA LUA INTEIRAA festa teve como intuito resgatar as raízes da capoeira que aqui já existia.
Foram Batizados,36 crianças e 6 adultos.
Com o feito a História da capoeira foi mais uma vez fortalecida no Arquipélago.

Por Cosme Johnny (Assessor de impressa do grupo) e Professor Cueca.

Veja mais FOTOS deste evento na galeria de fotos do Portal Capoeira (clique aqui)

Instituto Jair Moura propõe o “Centenário do Mestre Noronha”

1907-2007 – Centenário do Mestre Noronha.

 

Há controvérsias dirão, considerando a confusão quanto à data de nascimento de Daniel Coutinho, mais conhecido nas rodas de capoeira de antigamente como Noronha. Como o Instituto Jair Moura (IJM) vive procurando pretexto para homenagear este mestre, considerou a data do nascimento dele (1907), registrada no atestado de óbito, para celebrar em 2004 o ano do centenário de Noronha. Em conjunto com a família de Noronha, o IJM, mais o Projeto Mandinga e o Ponto de Cultura Vadeia Menino Vadeia, está planejando uma programação com cursos, rodas e exposições entre outras atividades. Também na pauta dos acontecimentos se inclui a reedição dos manuscritos do Mestre Noronha e a comercialização de postais, cartazes e camisas alusivas ao acontecimento, cuja renda deverá se reverter à família do homenageado.
 
No momento, como ponto de partida da programação, o Instituto Jair Moura está disponibilizando uma marca-selo, alusiva ao centenário que poderá ser impressa nas camisas dos grupos de capoeira. Os mestres KK de Manaus, Bocão de Minas, Sabiá e Balão da Bahia já aderiram.
 
Quem desejar aderir é só solicitar que o IJM disponibilizará a marca-selo pela Internet.
 
Instituto Jair Moura
Salvador, Bahia, BR
Rua Comendador José Alves Ferreira, 160. Garcia
 
http://institutojairmoura2.blogspot.com/
institutojairmoura2@hotmai.com

Alunos Nonhenses São Batizados na Capoeira

Para quem acha que Fernando de Noronha, é apenas uma ilha paradisíaca…. repleta de belezas naturais, lindas prais, tartarugas e golfinhos… Olha ai a "grata surpresa" que o camarada Miltinho Astronauta publicou no Jornal do Capoeira – www.capoeira.jex.com.br
 
Destacamos esta nota devido ao caracter importante da existência de um trabalho sério voltado para a capoeira na Ilha de Fernando de Noronha.

 Fernando de Noronha foi cenário do primeiro batizado de capoeira da história da Ilha. A cerimônia foi realizada no dia 26 de maio, sexta-feira, na quadra da Escola Arquipélago e contou com a participação de cerca de 50 alunos do grupo Meia Lua Inteira.
 
        O ritual contou com a participação do mestre Birilo, fundador do grupo, e do contramestre Mula, ambos do Recife. O professor noronhense Cueca completou a equipe que entregou à garotada, com média de 12 anos, a corda azul. Dois alunos adultos também foram homenageados. Jefferson Cachorrinho e Paulinho Canário receberam a corda marrom e com ela a permissão para ensinar.
 
        O grupo Meia Lua Inteira é uma entidade sem fins lucrativos que desenvolve esse trabalho social em Fernando de Noronha há cerca de quatro anos. Além do Brasil, ele possui representações na Áustria, Alemanha e Dinamarca.
 
Jornal do Capoeira – www.capoeira.jex.com.br
Edição 78 – de 18 a 24 de Junho de 2006
 

Fonte: Sistema Golfinho de Comunicação – www.noronha.pe.gov.br
Matéria enviada pela Profa. Marieta Borges Lins e Silva em 29 de Maio de 2006
 

A ORIGEM DA CAPOEIRA DA BAHIA SEGUNDO MESTRE NORONHA

O trecho abaixo reproduzido (escaneado) dos manuscritos de Noronha confirma a nossa versão da origem do jogo da capoeira ou, como preferimos chamar, da capoeira da Bahia

Transliteração datilográfica:

…"PORQUER E NOSSO PREVILEGIO. ACAPOEIRA VEIO DA AFRICA TRAZIDA PELLO AFRICANO TODOS NOIS SABEMOS DISCO POREM NÏ ERA EDUCADA QUEM EDUCOR ELLA FAMOS NOIS BAHIANO PARA SUA DEFEISA PESSOAL QUE ESTAR NOIUS MEIOS ÇOCIAL PORQUE É O ESPORTE MAIS ATRAENTE DO MUNDO"…

Versão em linguagem corrente

"Porque é nosso privilégio. A capoeira veio da África, trazida pelos africanos; todos nós sabemos disto; porém não era educada. Quem educou ela fomos nós, os baianos para sua defesa pessoal, que está no meio social, por que é o esporte mais atraente do mundo"…

Comentários

Apesar da baixa escolaridade, Noronha, era inteligente, observador e arguto, como a maioria dos mestres e capoeiristas de sua época, observando, analisando, deduzindo e concluindo a propósito da sua grande paixão, a capoeira.
Inserido em ambiente de cultura predominantemente oral, repetia a tradição, sem deixar de indagar a credibilidade das informações, cotejando-as com sua experiência pessoal e tentando inclui-las no contesto da época.

A tradição oral brasileira associava, naquela época, a capoeira aos africanos, especialmente angolanos, por ser praticada pelas classes populares, especialmente portuários e marítimos, constituída em sua grande maioria por africanos, seus descendentes (puros ou mestiços), indígenas e brancos pobres, aculturados ou boêmios; porém o Mestre Noronha percebeu que os componentes locais que lhe emprestavam um cunho regional, nitidamente distinto das manifestações angolanas.
Assim é que, apesar de a reconhece-la como fundamentada em elementos originalmente africanos, a capoeira é orgulhosamente encarada pelo Mestre como desenvolvida pelos baianos nos seus aspectos mais nobres, aqueles que lhe dão conteúdo educacional, social e permitem aplicações práticas (aptidão física, defesa pessoal, terapêutica) e lhe emprestam identidade própria.

Concorda portanto, o Mestre com tese por nós desenvolvida no início dos anos quarenta, da origem reconcaveana da capoeira.