Blog

pensar

Vendo Artigos etiquetados em: pensar

Capoeira, Identidade e Diversidade

A capoeira, desde seus primórdios, sempre se caracterizou por ser uma prática em que a diversidade foi sua marca principal. Constituída no Brasil a partir de elementos provenientes de danças, lutas e rituais de diferentes regiões da África, é fato também que incorporou muitos outros elementos presentes aqui no Brasil, vindos da cultura indígena e da própria cultura européia, através dos imigrantes pobres e marginalizados que viviam por aqui e compartilhavam desse mesmo universo da capoeiragem. A navalha é um desses elementos, só para citar um exemplo.

Portanto, falar em capoeira, obrigatoriamente nos faz pensar em diversidade. Não se pode afirmar ao certo o local exato do surgimento dessa manifestação. Por isso, seria mais coerente pensar que a capoeira foi se desenvolvendo de forma diversificada em várias partes do Brasil com suas especificidades e formas diferentes de se manifestar.

Hoje em dia, a capoeira está espalhada por mais de 160 países em todo o mundo, e com certeza essa expansão faz com que ela vá adquirindo características diversas em cada local onde se instala. Existem muitas formas de se praticar a capoeira, incluindo aí o uso das novas tecnologias. Cada vez mais pessoas procuram a capoeira pelas mais diversas razões. A capoeira acolhe todo o tipo de diversidade: etnia, gênero, classe social, faixa etária, ideologia política, credo religioso etc, e talvez seja essa a sua maior contribuição no mundo atual: ensinar a convivência entre os diferentes e o respeito às diferenças.

É preciso levar em conta e valorizar toda essa diversidade presente na capoeira, mas por outro lado, é preciso também ficar atentos para que não se percam elementos importantes que constituem a capoeira enquanto herança da cultura afro-brasileira, sobretudo no que diz respeito ao conteúdo histórico referente à luta pela libertação do negro escravo no Brasil, as suas formas tradicionais de transmissão do aprendizado, baseada na figura do mestre e a sua resistência enquanto manifestação popular responsável pela construção e reconstrução cotidiana da identidade cultural de seus praticantes.

A capoeira vem se tornando um poderoso instrumento de afirmação de identidades afro-descendentes e de recuperação da auto-estima de jovens em situação de risco no Brasil e em várias partes do mundo, e essa vocação da capoeira tem que ser potencializada através de políticas públicas que possam favorecer sua expansão, porém tomando as devidas precauções contra a sua descaracterização cultural e sua transformação em mera mercadoria de consumo nessa sociedade capitalista contemporânea.

Observa-se com muita preocupação essa tendência de mercadorização da capoeira, através de grupos muito bem organizados e espalhados pelo mundo todo, em que o único objetivo é ampliar o mercado consumidor, o que muitas vezes se transforma numa guerra entre esses grupos na disputa por novos alunos, caracterizando um processo de espetacularização da capoeira, deixando em segundo plano a preocupação com a preservação dos seus princípios e valores humanos, éticos e filosóficos.

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, que de modo ímpar nos descreve os causos e histórias do Recôncavo Baiano e seus “Personagens” as vezes quase lendários… Pedrão, como prefere ser chamado nos leva de modo solto e intuitivo ao universo da capoeiragem com uma narrativa simples e repleta de mandigagem…

Luciano Milhoni*

* (Pedrão em referência a um tipo/marca de cachaça e fazendo analogia ao grande camarada Plínio – Angoleiro Sim Sinhô, que em sua envolvente e alegre presença sempre brincava com o termo “teimando” em chamar-me pelo nome da cachaça, pela qual ambos, Pedrão e Plínio tem imenso apreço, apesar de eu ser um eterno abstêmio.)

Capoeira que vence a deficiência

Morador do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, Sebastião Silva Gabriel, de 30 anos, conhecido por todos como Tião, acaba de entrar para o elenco oficial do Unicirco Marcos Frota, que se apresenta até dezembro na Quinta da Boa Vista. O artista, que tem paralisia cerebral e cadeirante, faz parte do grupo de capoeiristas acrobáticos do circo.

O convite veio após Marcos Frota ver Tião jogando capoeira. O próprio ator e empresário o chamou. Vencer as limitações impostas pela deficiência é a especialidade de Tião. Ele estudou em escola comum, terminou o ensino médio e chegou a prestar vestibular. Como não passou, está fazendo curso para tentar a prova novamente:

— Quero cursar Serviço Social, mas não sei como ficam as coisas agora que integro a equipe do circo. Tenho que ver minha agenda.

Ciente de que é um exemplo de vitória e inclusão social da pessoa com deficiência, Tião explica de maneira simples como conseguiu vencer na vida.

— O segredo é não pensar, só viver. Se pensar na dificuldade, a pessoa não consegue nada — afirma.

 

Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/bairros/

A Capoeira no Labirinto das Possibilidades

A Capoeira no Labirinto das Possibilidades
Historia, símbolos, significados e significantes.
Em um mundo de dualidades e dialéticas, tentaremos discutir algumas questões para além do certo e errado, preto e branco, sol e lua, dia e noite, bem e mal. Propomos uma "trialética" nas possibilidades, pois queremos dialogar com uma terceira lógica (polilogica) que acrescente sem inviabilizar ou sobrepor as anteriores, queremos cantar “cantando” de improviso ou tocar no improvável de um rítimo que ainda não pertença a ‘melodia” da vida cotidiana, inalterada e sistematizada pela repetição burocrática dos fazeres pensantes desde Aristóteles.
 
Para esclarecer o intuito deste trabalho, sugiro que imaginemos uma simples árvore, que ao ser olhada por um agricultor desperta o interesse por sua capacidade produtiva, já para homem faminto desperta a perspectiva de alimento por seus frutos, num marceneiro despertaria a idéia de construção de móveis e no cupim despertaria o alimento pela sua madeira, ou seja, mesmo um símbolo simples como uma árvore poderá despertar diferentes possibilidades de desejos e interpretações a partir dos significados dados a mesma por variados significantes.Trazendo para o mundo da capoeira, se pensarmos no berimbau, símbolo máximo da capoeiragem, logo entenderemos, pois o mesmo não fez sempre parte da capoeira, mas hoje é impossível pensar na capoeiragem sem ele, portanto, o que teria sido dessa necessária associação, se quando o primeiro berimbau que fosse introduzido na capoeira, alguém falasse: Epa…. Isso não pode, pois esse instrumento não faz parte das tradições da arte..?  Talvez um outro instrumento ocupasse o lugar do berimbau, ou não, mas a questão principal não é essa e sim, que em dado momento histórico o novo foi aceito, modificando as regras e sendo resignificado diante de uma comunidade, portanto pensar hoje em produção de conhecimento em capoeira passa necessariamente por reconhecer a mudança num contexto de significados e significantes.
 
Como arqueiro de nossa história tencionarei  o arco e flecha da vida, puxando a seta do saber para “traz” e apontando-a para frente, flecharei no futuro algumas possibilidades a partir de interlocuções com o passado e seus diferentes contextos. Pergunto-me se Bimba hoje teria uma Regional de sistematização tão próxima dos métodos de ginástica, mesmo sabendo que atualmente não estamos tão influenciados pelos mesmos nem vivemos uma ditadura facista  que nos obrigue a criar um método com a “cara” de nossa sociedade?  Ou consideraremos puro acaso esses acontecimentos?  Recuso-me e pela negação desses acasos proponho nos dias de hoje a “Polilogica”, ou seja, uma possibilidade de analise da capoeiragem que ultrapasse o certo e errado, tradicional e moderno, proponho partirmos para o funcional legitimado pelos atores sociais diretamente implicados nessa arte, defendendo o diálogo para os combinados palpáveis no cotidiano e não as tradições empoeiradas dos livros da estante ou de cabeças do mundo de “Peter pan”, que não admitem crescer, transformando suas práticas em verdadeiras “terras do nunca”.
 
Ainda temos a Regional de Bimba, Angola de Pastinha ou os berimbaus de Waldemar? Arrisco-me a dizer que não, e isso pelo simples fato de ter sido impossível para Bimba remontar a capoeira de Bentinho ou Pastinha à de Benedito, pois os tempos mudam as pessoas e as pessoas mudam os tempos, sendo a dinâmica cultural impossível de ser congelada ou “xerocada” em sua totalidade.  Quem se considerar “Capoeira XEROX” que atire a primeira pedra…
 
Quero deixar claro que não faço aqui apologia a essas aberrações vendidas por aí com o nome de capoeira, pois não estou defendendo a lógica de que qualquer mudança e necessária e justa, e sim que são legítimas as mudanças adaptativas da capoeira há nosso tempo, desde que as mesmas tenham referencias na ancestralidade histórica e funcional da arte.
 
Uma preocupação que não devemos deixar passar desapercebida e que não podemos confundir as mudanças funcionais adaptativas com a subserviência aos ditames do capital, ou seja, não podemos ingenuamente pensar que a dita capoeira “contemporânea” representa a modernidade, o estilo mais moderno e todo resto e coisa do passado, pois os elementos metodologicos dessa forma “bizarra” de capoeira não possuem nada de “novo”, haja vista, que ainda utilizam processos de estímulo-resposta, macro ginástica, adestramento e seqüências idiotizantes, como os velhos métodos de ginástica da década de trinta, sendo assim, o que existe de moderno nessa “nova-velha” capoeira? Talvez seja a aparência superficial ou o significado dado por um significante alienado e desprovido de elementos teóricos para identificar os equívocos do método hora mascarado pela falsa modernidade.
 
A capoeira contemporânea carioca propõe seqüências de ensino de mandinga, negarças e até mesmo de posturas para se colocar numa roda, ou seja, seria como tentar reproduzir em serie, seqüências, a poesia de Caetano Veloso, as pinturas de Rugidas, as composições de Chiquinha Gonzaga ou o canto de Paulo dos Anjos. Impossível, pois no máximo o que conseguem é fazer cópias mal feitas de uma coisa “Denorex”, que parece, mas não e…  A nossa capoeira não cabe nessa “industrialização de homens”, e isso não só pela minha vontade, mas por sua referencia histórica repleta de uma ancestralidade que em seu método, de ensino-aprendizagem, denota um caminho no sentido contrário ao positivismo dessa ciência “gelada” e dos ditames técnicos-metodologicos alienantes da classe dominante.
 
E necessário, portanto um processo de investigação da realidade que possa desnudar as contradições do modo de produção, revelando historicamente as ingerências do capital na maior parte de vida humana, incluindo a capoeiragem, ou seja, precisamos verificar criticamente o que chamamos hoje de capoeira e qual seu impacto na formação humana e que projeto de sociedade esta sendo defendido na sua prática diária, pois a falácia da capoeira “moderna” poderá facilmente se transformar facilmente na mentira que vira verdade por ter sido dita muitas vezes.
 
Sendo assim precisamos com certeza entender que a cultura e dinâmica e como tal transforma e sofre transformações, sendo assim, a capoeira de hoje deverá certamente ser diferente da de ontem, e não podemos temer ou resistir a isso, desde quando estejamos atentos as referências históricas da arte, sua base filosófica ancestral e as necessidades reais de construção de uma sociedade mais justa, autônoma, crítica e criativa.

3 de Agosto: Dia do Capoeirista – Matéria V

DATAS COMEMORATIVAS : Dia do Capoeirista (03/08) – Fonte Almanaque Brasil
Século 19. Abolida a escravidão, nas principais cidades portuárias negros se oferecem para carregar móveis, mercadorias, dejetos. Defendem-se por meio da capoeira. Ora empregando a agilidade, ora valendo-se também de cacetes e facas.
Maltas aterrorizavam a população. Com a República, em 1889, Deodoro da Fonseca (1827-1892) inicia campanha de combate à capoeira. Em outubro de 1890, promulga a Lei 487, de Sampaio Ferraz, que prevê de dois a seis meses de trabalho forçado na Ilha de Fernando de Noronha. No art. 402, “Dos vadios capoeiras”, lê-se:
Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correria, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumulto ou desordem, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal.
Pena – prisão celular de dois a seis meses.
Parágrafo único – é considerada circunstância agravante pertencer o capoeira a algum bando ou malta. Aos chefes e cabeças se imporá a pena em dobro.
Ao assumir o poder com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas liberou uma série de manifestações populares, entre elas a capoeira, que hoje aspira até a figurar nos jogos olímpicos.
Espírito do Capoeirista
1- Conhecer-se é dominar-se. dominar é triunfar.
2- Sempre ceder para vencer.
3- Capoeira é o que possui, inteligência para compreender aquilo que não lhe ensinam, paciência para ensinar o que aprendeu, e fé para acreditar naquilo que não compreende.
4- Quem teme perde, já está vencido.
5- Somente se aproxima da perfeição quem procura com constância, sabedoria, e sobre tudo com muita humildade.
6- Saber cada dia um pouco mais e usá-lo todos os dias para o bem é o caminho dos verdadeiros capoeiristas.
7- Quando verificarmos com tristeza, que não sabemos nada, terá feito o teu primeiro progresso na capoeira.
8- O corpo é uma arma, cuja a eficiência depende da precisão com que usa a sua inteligência.
9- Praticar capoeira é ensinar a inteligência e pensar com velocidade e exatidão e, ao corpo obedecer com justiça.
10- A fraqueza é susceptível, a ignorância é rancorosa, o saber e a força dão a compreensão, quem compreende perdoa.
11- O homem que domina sua mente jamais será escravo.
12- O que parece dificuldade constitui a chance de seu progresso.
13- Em tudo que fizeres, põe tua esperança a frente;
14- Um Mestre é alguém que tem a coragem de pensar, acreditar e até errar;
15- O importante é que transmita seus ensinamentos.

Fonte: Almanaque Brasil
Fonte: http://www.ufg.br/datas/data.php?d=622

Mestre Cobra Mansa: “Que 2006 seja um ano de muita paz, saúde…”

Prezados companheiros de vida,

Mais um ano se encerra e a sensação que temos é que, apesar de muita coisa concluída, muito ainda há para se fazer.
Corremos para dar conta de nossas obrigações, vamos tão rápido que, por vezes, deixamos de retribuir pequenos gestos de amizade e companheirismo.
 
Este é um momento para reavaliar nossos atos e definir nossos projetos, reconhecer que as circunstâncias têm influência sobre nós, mas que somos responsáveis por nós mesmos !
 
Desejo a você liberdade para pensar e agir em prol de seus sonhos, mantendo-se sempre com olhar adiante de seu presente.
 
Que 2006 seja um ano de muita paz, saúde, felicidades, sucesso e muita roda de capoeira para todos.
 
 M Cobra mansa