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Capoeira e Suas Gravações Sonoras Históricas

Capoeira e Suas Gravações Sonoras Históricas

Regional, São Bento Grande de Angola e Reco-Reco

O fenômeno da capoeiragem é algo fascinante. Enquanto a parte da musicalidade avança cavalarmente, com novas roupagens rítmicas e cantadas – nem a Capoeira Angola escapa– vamos deixando para trás muitos registros sonoros históricos inexplorados. Na região de Rio Claro (SP), os amigos Prof. Pelicano e Prof. Guerreiro (Luis Lima), ambos do Grupo Muzenza, iniciam uma importante conversa em torno de uma dessas preciosidades sonoras: a gravação de Lorenzo Dow Turner [1]: “Então, São Bento Grande de Angola faz parte da Regional ou não?”. Segundo matéria do Portal Capoeira do camarada, de autoria do camarada Teimosia [2], além de Lorenzo Dow Turner, Franklin Frazier também foi responsável pelas gravações. Os registros foram feitos por volta de 1940, quando, em tese, a Luta Regional Baiana já estava “formatada”. Abem da verdade, meu primeiro contato com esses registros foi em 2006, quando a Dra. Leticia Vidor e colaboradores organizaram um curso de Extensão Universitária “A Capoeira na Academia”. Foi um curso fantástico, onde semanalmente vários temas eram exaustivamente debatidos por mestres e simpatizantes da capoeiragem em geral. Participaram Mestres Kenura, Alcides, Eli Pimenta, Janja, Emilio Careca, Cm Cenorinha, o saudoso Mestre Ananias, Mestre Marrom de Taboão da Serra, além de diversos representantes da “academia”. Até o Brincante Antonio Nobrega nos brindou com uma excelente palestra teórico-prática sobre a manifestação cultural “Cavalo Marinho”, e sua rica musicalidade e gestualidade. Foi emocionante ver como representantes de nossa cultura e arte podem alavancar toda uma trajetória cultural. Sem exaurir a lista de participantes, tivemos uma excelente aula de musicalidade com Mestre Dinho Nascimento, o Berimbau Blues do Morro do Querosene, região do Butantã, São Paulo.

Pois bem, retornando ao tema central dessa crônica, as gravações de Lorenzo e Franklin trazem reflexões interessantes. Para começar, tal registro apresenta Mestre Bimba e sua charanga cantando a Capoeira Regional, mas também conta com a participação do Mestre Cabecinha do grupo Estrela Capoeira Angola. Talvez uma das primeiras vezes em que Angola e Regional compartilham – de forma harmoniosa – um mesmo palco nos tempos antigos. Tempos em que a Regional buscava se firmar como uma nova forma de se praticar a capoeira da Bahia. Quando digo da Bahia é porque considero que também aconteceram outras Capoeiras, como a Capoeira-Luta de Sinhosinho no Rio Antigo, a de Pernambuco, que acabou enveredando para o Frevo, a Tiririca de Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro, Pato Nagua em São Paulo, e outras que devemos tê-las perdido ao longo do tempo antes mesmo de ter a chance de conhece-las melhor.

Mestre Bimba e seu conjunto contribuiu com 4 faixas registradas no documentário e Mestre Cabecinha completou adicionando outras 6 contribuições, num total de 10 faixas.

 

A charanga da Regional sendo lapidada

Algo que também chamou a atenção é que, na época, as 4 faixas de Mestre Bimba utilizaram o São Bento Grande de Angola como base principal de ritmo. Inexplicavelmente, mais tarde – principalmente em seus 2 discos (1962 e 1969) – este toque deixaria de fazer parte do cardápio de Mestre Bimba, quando o mesmo introduz seus “7 toques da Regioná”. O amigo Prof. Verga (Ederson Renato), exímio pesquisador e responsável pelo grupo Capoeira Fundamento Ancestral de São Pedro (SP) avaliou minuciosamente os registros, e também concluiu que a base das gravações de M. Bimba foi SBG de Angola. Aliás, Prof. Verga tem algumas teorias interessantes sobre o que pode ter acontecido na época. Sugiro aos amigos da região convidá-lo para uma Surra de Arame, e ouvi-lo a respeito.

Sobre as gravações, a própria charanga de Mestre Bimba tem uma peculiaridade. Diferentemente do que hoje se vende como “Charanga da Capoeira Regional”, os instrumentos não se limitavam a 2 pandeiros e um berimbau. Tanto é que um dos instrumentos marcantes nas gravações é o reco-reco, que pode ser observado nitidamente em todas as faixas. Confirmando como a cultura é algo sempre em transformação, e no caso da “Regioná”, a mesma ainda estava em “formatação” por volta dos 1940.

Um outro ponto interessante é velocidade da charanga. Observando a faixa 1 da gravação é possível contar pelo menos 63 marcações completas do “tá tum tá” do pandeiro por minuto. Já nas gravações dos 2 discos de Mestre Bimba, os ritmos são bem mais cadenciados (por exemplo, o São Bento Grande do disco de 1969 tem 48 batidas de “tá tum tá” do pandeiro por minuto, sugerindo que ao longo do temo a Regional pode ter curiosamente “desacelerado”, adotando um ritmo mais manhoso e cadenciado. O que contraria muitos discursos de jovens mestres que advogam que a Regional veio para subir o ritmo porque a Angola era muito lenta.

Mas Mestre Bimba dá uma lição para não ser esquecida. Lá pela faixa 4, assim fala o narrador:

Ao som do Pandeiro, e do Berimbau e do Caxixi, cantará Bimba e seu conjunto, interpretando Angola, num momento em que relembra seus antepassados.

O mestre sabia muito bem suas origens, e não teria porque negar a importância da capoeira angola na base fundamental de sua luta regional baiana. Boa parte das próprias “quadras” e “corridos” entoados por Mestre Bimba nessa gravação, e mesmo suas “louvações”, se confunde com a musicalidade corrente da época – ver os registros de Mestre Cabecinha e do Mestre Juvenal.

 

O que chama ainda mais a atenção é que, se compararmos a musicalidade, cadência, e a forma de “louvação” que Bimba utiliza na gravação, Mestre Cabecinha vai na mesma toada, demonstrando o quanto aquelas capoeiras ainda não estavam tão dissociadas.

É hora de mergulharmos em águas mais profundas da história da capoeiragem. E é com alegria que vejo localmente os Capoeiras se reunindo para debater o universo de nossa arte, o que deve ser feito de forma tranquila e aberta, sem amarras e despidos de pré-conceitos (pré no sentido de conceito a priori). Vai daí que iniciativas como esta da Confraria Rioclarense de Capoeira pode ser um ótimo palco para tais conversas. Com certeza os Mestres da região de Rio Claro estão pensando nas principais temáticas a serem discutidos. E a musicalidade está, sem dúvidas, no cardápio. Parabéns Prof. Guerreiro, Mestre Cuica (Wilson Santana), Prof. Maxi, Prof. Milton Soares e demais “confrários” pela iniciativa. Todos ganharão muito com esta iniciativa.

Capoeira e Suas Gravações Sonoras Históricas Capoeira Portal Capoeira 1

Aproveitando o “adeus adeus” desta crônica, se preparem que logo o Prof. Pelicano, de Santa Gertrudes-SP, vai nos brindar com um novo livro. O tema não é outro senão possíveis origens indígenas de algumas vertentes de nossa arte. Com certeza, uma obra para ler na reguinha. E claro, tudo que é novo amplia debates e suscita novas discussões. Prof. Pelicano, estamos no aguardo do lançamento do livro. Tanto a Confraria Rioclarense, quanto o Vadiando Entre Amigos serão palcos para os primeiros eventos de lançamento do livro.

 

Sobre as gravações sonoras históricas, logo voltamos ao assunto. Tem muito tempero neste guisado para ser apreciado.

 

Referências:
[1] https://www.youtube.com/watch?v=65SGEOFow7I
[2] http://portalcapoeira.com/tag/lorenzo

Nota de Falecimento: Mestre Boinha

Nota de Falecimento: Mestre Boinha

 

Mestre Boinha – Boaventura Batista Sampaio.

 

DISCÍPULO DE MESTRE BIMBA, DEFENSOR DA IDEOLOGIA DA CAPOEIRA REGIONAL E GRANDE CAPOEIRISTA.

 

Sobre Mestre Bimba:

“Mestre Bimba para mim é um pai. É um pai porque ele não foi para mim somente um mestre de capoeira, um educador e um orientador.”

 

[…] quando cheguei lá na Academia no início da década de sessenta para aprender Capoeira, não foi para adestrar o meu corpo, fui aprender pra brigar, meu objetivo na Capoeira era brigar, mas chegando lá em poucos meses, eu vi que era completamente diferente, eu queria aprender algo que não condizia com as normas de Bimba, percebi que estava fora das normas, então o mestre, um dia ao terminar a aula falou. Todo mundo pode ir, Boinha você fica sentado naquele banco. Os colegas saíram intrigados com aquela atitude do mestre. Então o mestre me passou um sabão, me deu um puxão de orelha, dizendo que a Capoeira era para educar e não simplesmente agressão.

 

 

Nossos mais sinceros pêsames a toda a família e a todos os “Filhos de Bimba”.

 

Texto do site Capoeira da Bahia de Mestre Decanio:

Nota de Falecimento: Mestre Boinha Geral Portal Capoeira

O capoeirista ao gingar deve estar relaxado! Para estar relaxado deve estar calmo. Para estar calmo deve estar confiante em si. Para confiar não pode ter medo. Para não ter medo necessita confiar no parceiro e em si mesmo. Para confiar no parceiro deverá obedecer ao ritual e aos preceitos de ética implicitos no jogo da capoeira da Bahia!
As fotos acima exibem a tranqüilidade e o prazer de Boinha, já na terceira idade jogando capoeira com um antigo parceiro.

Observem a foto de conjunto e os detalhes do contexto… tudo é alegria e prazer… o resto é lucro!
A capoeira-jogo pode e deve ser praticada na terceira idade para a manutenção da vitalidade e da alegria de viver!

FOTO-ANÁLISE – GINGADO Decanio e Boinha

Nota de Falecimento: Mestre Boinha Capoeira Notícias - Atualidades Portal Capoeira

A Origem do Escudo do Centro de Cultura Física Regional

Durante o longo período de luta pela regulamentação da capoeira pela FBP, para enquadrar a “academia” na legislação vigente, que não permitia o uso do termo academia, bem como de escola, em entidades esportivas sugeri a substituição do nome clássico para “Centro de Cultura Física”, mais expressivo e abrangente, complementado pelo atributo de “Regional Baiano”, alusivo à luta regional baiana.
Por ocasião da formatura da minha turma (Decanio, Nilton, e Maia) o uniforme de formatura da academia de Mestre Bimba era calça branca, camisa listada azul e branca e sapato de tênis branco, como se pode observar numa fotografia publicada em vários clássicos da literatura do nosso esporte.

Nota


Nosso quadro de formatura  incluiu o meu compadre Luizinho, servente de pedreiro, com a mão esquerda esmagada por acidente de trabalho, pertencente ao grupo de alunos do mato , mais antigo, formado sem solenidade.

Escolhemos como padrinho o nosso contramestre, Ruy Gouveia.
Compadre Luizinho era um testemunho vivo de que os defeitos físicos não impedem a prática da capoeira desde que podem ser contornados pela vontade do praticante.
Morreu tragicamente em acidente de trabalho, durante pintura do Elevador Lacerda, ao cair do andaime sem a proteção do cinto de segurança…

… na tentativa desesperada para se agarrar…
… às paredes ásperas da construção…
… desgastou os dedos e carpo…
… chegou à marquise onde encerrou sua carreira…
… de operário e de atleta…
… sem as mãos…
… cujos fragmentos marcaram….
… com sangue e pedaços de carne…
o seu protesto no concreto do edifício…

A dificuldade em aquisição das camisas listadas; vendidas em lotes de 11 jogadores, alguns reservas e goleiros, sem opção de escolha de tamanho por serem usadas pelos times de futebol, nos obrigou a procurar uma solução menos penosa.

Em torno de 1945 Mestre Bimba, atendendo a sugestão que lhe fiz, decidiu adotar a camisa de malha de algodão branca para os formados, conservando a antiga camisa listada azul e branca como distintivo para o mestre.

Para completar o uniforme e quebrar a monotonia da camisa branca, desenhei então um escudo com o signo de São Salomão consoante a tradição dos capoeiristas, que me acostumei a ver gravado pelos carroceiros na estrutura dos seus veículos de carga, com a troca da estrela de cinco pontas pela de seis pontas, para melhorar o efeito estético, acrescentando na área central, um pequeno círculo contendo a letra R, abreviação de Regional.

Optei pela estrela de seis pontos, formada pela superposição de triângulos equiláteros, pela simetria dentro do campo circunscrito pelo escudo ogival, forma que melhor se prestava ao efeito estético desejado.
Nos intervalos entre as pontas das estrelas apliquei traços arciformes azuis, circunscrevendo a estela central e, na parte superior da ogiva, dois traços verticais para quebrar a monotonia do fundo branco.
Naquela ocasião desenhei vários modelos, com molduras diferentes, bem como símbolos e siglas, dos quais as mãos habilidosas de Da. Berenice, minha Mãe Bena ( então Rainha e Senhora da Casa de Bimba) confeccionou os protótipos; modelos em tamanho natural, bordados em azul à mão, sobre tecido branco; dentre os quais a escolha do Mestre, e dos alunos consultados, recaiu, por unanimidade, no atual escudo.

Reforçava a escolha do signo de São Salomão como símbolo da regional o desenrolar da lenda da capoeira conforme Cisnando.
Para melhor efeito estético o escudo deve ser usado na região peitoral, e à esquerda, “do lado do coração”, pelo simbolismo sentimental!

A cruz desenhada acima da imagem estelar é a demonstração da aptidão inata da cultura africana para aceitar os conceitos estranhos sem perder  sua autenticidade  e assim sobreviver dentro dum ambiente hostil !

Cristianizando a Sabedoria de Salomão pela coroação crucial, o povo brasileiro criou um símbolo, a “Estrela de São Salomão”, capaz de pacificar o encontro de duas culturas conflitantes e que pode unir todos os capoeiristas do mundo!

Mestre Bimba

 


41-Quadro com os retratos e os nomes dos formados, paraninfo e homenageados, de modo similar ao costume das escolzs superiores. Nem sempre correspondem ao ano da graduação, pois esperavamos juntar 4 a 5 para completar o elenco, deste modo num mesmo quadro podemos encontrar alunos de diversas turmas.

 

42-Que não pertenciam a escolas superiores

 

Texto retirado do Livro:
A Herança de Mestre Bimba
Filosofia e Lógica Africanas da Capoeira
COLEÇÃO SÃO SALOMÃO

Donwload: http://portalcapoeira.com/Downloads/View-document-details/23-A-Heranca-de-Mestre-Bimba

 

Angelo A. Decanio Filho – Mestre Decanio

 

Vem Capoeirar: Festival de Arte, Cultura e Capoeiragem

Associação Sociocultural de Capoeira Regional Bimbaê, realizará nos dias 29 a 31 de Agosto de 2013, o “Vem Capoeirar: Festival de Arte, Cultura e Capoeiragem”, no município de Camaçari/BA, conforme programação anexa.

Dentro do evento, realizaremos o nosso I Concurso de Quadras e Corridos da Capoeira Regional. Os três primeiros colocados receberão premiações em dinheiro (totalizando R$ 800,00).

 

Inscrições e maiores informações: capoeirabimbae@gmail.com

 

Você é nosso convidado!

Assista nosso vídeo convite:

{youtube}Xxvovzrvaes{/youtube}

Barbacena sedia o I Fórum Regional de Capoeira

De sexta-feira (28) a domingo (30) Barbacena sedia o I Fórum Regional de Capoeira. A abertura acontece às 19h na UEMG, campus Barbacena, com uma palestra do Mestre Ray, de Belo Horizonte.

No sábado (29), rodas de capoeira no centro da cidade. A partir das 15h, cursos de capacitação de capoeira no Cefec com a presença de vários grupos da região e de outros estados.  As inscrições podem ser feitas no dia e no local do evento.

O ponto alto do sábado será a presença do ator e capoeirista Ailton Carmo, protagonista do filme “Besouro”. O longa conta a vida de Besouro Mangangá, um capoeirista brasileiro da década de 1920 a quem eram atribuídos feitos heróicos e lendários. A exibição gratuita do filme será no auditório da Fundac, a partir das 19h.

O encerramento do festival será no domingo  (30), a partir das 10h, na Epcar, com entrada gratuita. Na oportunidade serão graduados cerca de 30 novos alunos. A promoção é da equipe Oficina da Capoeira Barbacena. De acordo com Nicollas Guilarducci, o objetivo do festival é “divulgar a capoeira e a cultura afro-brasileira na cidade”.

 

BARBACENA

Conhecer Barbacena é conhecer uma das regiões mais importantes de Minas Gerais. A mais de 300 anos, Barbacena marcou presença em momentos decisivos na História.
A cidade possui uma média térmica de 17º C, um clima agradável, favorecendo a fruticultura e a floricultura, especialmente a de rosas.
Barbacena é conhecida em todo o Brasil, e também no exterior, como a “Cidade das Rosas”, em função da grande produção de primeira qualidade desta flor. No Brasil, o município também é conhecido como a “Cidade dos Loucos”, pelo grande número de hospitais psiquiátricos instalados no local. A cidade atraiu esses manicômicos em decorrência da antiga idéia, defendida por alguns médicos, de que seu clima ameno, com temperaturas médias bem baixas para os padrões brasileiros, faz com que os ditos “loucos” fiquem mais quietos e menos arredios, supostamente facilitando o tratamento.
Além disso abriga a EPCAR (Escola Preparatória de Cadetes do Ar), várias pousadas e chalés na Serra da Mantiqueira, além de um parque industrial bastante diversificado.

Mestre Decânio: O Doutor da Capoeira

Um dos grandes nomes da capoeira, que ficará eternamente registrado na história dessa arte-luta brasileira, sem dúvida nenhuma, é Ângelo Augusto Decânio Filho, ou “Doutor Decânio” como ficou conhecido no meio da capoeiragem.

Um dos principais e mais antigos discípulos do mestre Bimba, Decânio teve papel importante na constituição da Capoeira Regional, sendo um dos pilares juntamente com Sisnando – outro importante discípulo, nos quais Bimba se apoiou para a criação desse estilo de capoeira, bem como na definição das estratégias de obtenção de reconhecimento da capoeira junto à sociedade baiana, num período em que essa manifestação ainda era muito discriminada e vítima de preconceitos e ações violentas por parte do poder vigente.

Formado em medicina, foi ainda nos tempos de faculdade, em 1938, que Decânio conheceu mestre Bimba e logo se juntou a ele, exercendo papel fundamental na organização de sua academia, sendo responsável – ao lado de outros acadêmicos que também participaram dessa fase inicial de criação da Capoeira Regional – por ajudar Bimba a dar uma nova roupagem à capoeira que até então era praticada somente nas ruas, a partir da criação de um método de ensino baseado em sequências de golpes de ataque e defesa, bem como a estruturação do funcionamento da academia, que passava pela utilização de fardamentos, horário de treinos, organização de eventos, batizados, rodas de exibição, cursos de especialização entre outras atividades.

Decânio acompanhou Bimba durante muitos anos, mas sempre exercendo paralelamente as atividades como médico, o que muitas vezes não era tarefa fácil, mas ambas sempre exercidas com muito amor e dedicação. Mestre Decânio foi responsável por publicações importantes como os manuscritos do Mestre Pastinha entre outras obras de sua autoria, editadas pela Coleção São Salomão, por ele próprio criada.

Mestre Decânio formulou ainda uma teoria que é muito citada em trabalhos acadêmicos sobre capoeira – a teoria do “Transe Capoeirano” que segundo ele, trata-se de um estado físico-psíquico que o capoeirista atinge durante o jogo, em virtude de estímulos que vêm da musicalidade, do ritmo dos atabaques e agogôs, e da atmosfera propiciada pelo ritual da roda de capoeira, tudo isso explicado a partir de princípios científicos.

Era o mais antigo discípulo vivo de Bimba e, durante muitos anos, a maior referência da Capoeira Regional. Sujeito amável a sempre disponível, seja para uma conversa despretensiosa na varanda de sua casa de frente para o mar de Paripe, seja para colaborar com algum estudo ou pesquisa sobre capoeira, através de seus ricos depoimentos ou do vasto material de arquivo que o mestre foi juntando ao longo de tantos anos de vivência nesse universo.

O mestre Decânio nos deixou no último dia 01 de fevereiro de 2012, véspera da Festa de Yemanjá , prestes a completar 89 anos de idade. Deve estar agora ao lado de João Pequeno, seu vizinho e amigo inseparável, assim como de seu companheiro Sisnando, e finalmente reencontrando seu mestre Bimba, com quem deve estar agora proseando…. e olhando por todos nós aqui na terra !

 

Dica do Editor:


Não deixe de visitar o site Capoeira da Bahia, criado pelo ímpar Mestre Decânio, uma obra prima da capoeiragem…

Educadores devem defender projeto de sociedade nas escolas

O respeito à diversidade e a inclusão social do negro são temas que precisam fazer parte do currículo do educador segundo Petronilha Beatriz Gonçalves Silva, do Departamento de Teorias e Práticas Pedagógicas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). De acordo com a especialista em Ensino Aprendizagem – Relações Étnico-Raciais, os gestores de ensino são defensores de um projeto de sociedade, porém devem ter como meta em seu trabalho a equidade racial.

A afirmação foi feita durante o VII Encontro de Educação Étnico-Racial realizado nesta quarta-feira (9), na sede da Fundação Cultural Palmares (FCP), em Brasília. Organizado pela Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, com o apoio da FCP, o encontro tem como objetivo contribuir para a implementação da Lei 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira na rede nacional de ensino.

Compromisso – “O projeto de sociedade defendido por nós professores funciona de acordo com a relação que temos com os alunos, com o conteúdo que transmitimos e com o foco que damos a esses conteúdos”, explica a especialista chamando a atenção ao tamanho da responsabilidade dos gestores. Compromisso que segundo Eloi Ferreira de Araujo, presidente da Fundação Cultural Palmares, tornou-se imensurável com a última conquista da população negra: a aprovação da constitucionalidade das cotas raciais pelo Supremo Tribunal Federal, no último dia 26.

Para o presidente, o país vive um momento que favorece o ambiente da educação. “Uma situação que impulsiona as temáticas da população negra em seus desdobramentos no atendimento a 95 milhões de negros”, afirmou. “Já tivemos a liberdade por meio da abolição e o direito ao ensino a partir da aprovação das cotas. Falta-nos a terra para a qualidade de vida e isso conquistaremos com a educação”, completou.

Propagação – O coordenador Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, Jeferson Paz, disse que a parceria entre a Regional e a FCP é uma grande oportunidade de proporcionar aos gestores um debate qualificado sobre o ensino da história afro-brasileira. “São pessoas com amplas experiências pessoais e profissionais que podem tornar mais fácil o caminho dessas temáticas das decisões às escolas”, pontuou.

De acordo com Paz, o número de professores dos ensinos médio e fundamental no Plano Piloto é de 4.000. Eles atendem a 47.000 estudantes, 7,83% dos 600.000 que fazem parte da Rede de Ensino do Distrito Federal. “É preciso alertar para o papel cidadão dos professores e estudantes”, ressaltou. “Com apenas um debate como este é possível chegar a pelo menos 30.000 famílias, orientando-as para o combate ao racismo”, concluiu

Presente ao encontro, a deputada federal Érika Kokay, se comprometeu a encaminhar a temática da implementação da Lei 10.639 para debate por meio da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. “Precisamos impedir que elementos do passado como o colonialismo, a escravidão e a ditadura invadam a contemporaneidade colocando em risco a tão sonhada democracia”, afirmou. “Para isso, a reafirmação da história é fundamental para a desconstrução de uma cultura que é racista. Nosso objetivo é avançar no cumprimento do que estabelece a Constituição Federal”, concluiu.

Fonte: http://www.palmares.gov.br/

Bauru – SP: Prefeitura inaugura a Praça Mestre Bimba

O Prefeito Rodrigo Agostinho e os Secretários de Obras, Eliseu Areco Neto e do Meio Ambiente, Valcirlei Silva, inauguraram domingo (28/08), às 10 horas, a Praça Mestre Bimba, no jardim Contorno.

A praça, construída pelas Secretarias de Obras e Meio Ambiente, conta com área total de 4.970m², sendo 2.207m² de jardim, 1.115m lineares de mini-guias, 285m lineares de guias e sarjetas, 116,90m² para playground, 275,80m² para a pista de bicicross. O espaço recebeu 20 bancos de concreto, 16 rampas de acessibilidade, 16 lixeiras, 05 bebedouros, áreas de descanso e de capoeira.

A proposta da praça é a composição de equipamentos em formato circular (roda de capoeira, play-ground e área de descanso), que convidam para o diálogo e convivência, forma bem característica das construções tribais africanas e indígenas. A responsabilidade do projeto é da Arquiteta Elaine Fernandes, que doou o trabalho para a municipalidade.

O projeto da praça foi idealizado pela comunidade do Jardim Contorno, sob a liderança da Fundação Casa da Capoeira de Bauru. O projeto de denominação da praça foi de iniciativa do vereador Roque Ferreira. Mestre Bimba é considerado o fundador da Capoeira Regional.

Em razão da inauguração da Praça, a Secretaria Municipal de Cultura e Fundação Casa da Capoeira de Bauru realizam uma programação especial, que começa neste sábado, 27 de agosto, às 20 hs, com apresentação de filme sobre o Mestre Bimba e apresentações de capoeira com mais de 25 representantes de diversos estados brasileiros. As apresentações terão continuidade na manhã de domingo, às 9hs.

A praça fica no cruzamento das ruas Cristiano Pagani, Sebastião Pregnolato, Elias Murback e Dionísio de Aguiar, no Jardim Contorno.

O local tem espaço playground, pista de bicicross e área específica para jogar capoeira

 

Mestre Bimba

Manuel dos Reis Machado, mais conhecido como Mestre Bimba, nasceu em 23 de novembro de 1900, na cidade de Salvador, Bahia.

Com 12 anos de idade Mestre Bimba começou a aprender a capoeira com um africano chamado Bentinho. Mestre Bimba tornou-se um mestre na arte de tocar o Berimbau, um grande cantador e lutador, mesmo sendo a capoeira uma atividade ainda proibida naquela época. Após treinar por alguns anos com Bentinho, Mestre Bimba começou a dar aulas.

Frustrado com a forma limitada com que muitos capoeiristas percebiam e tratavam a capoeira, sua falta de respeito pela arte e seu valor enquanto cultura afro-brasileira, ele decidiu unir as habilidades de capoeirista e de lutador, aprendidas com seupai, para desenvolver a Capoeira Regional, um jogo mais rápido, onde técnica e estratégia eram elementos-chave. Junto com seu novo estilo, Mestre Bimba procurou também mudar a imagem ruim do capoeirista na sociedade da época e estabeleceu um novo padrão para a arte.

Ele foi o primeiro a realizar uma apresentação de capoeira, como uma forma de expressão da cultura brasileira, para empresários estrangeiros, a convite do então Governador do Estado da Bahia, General Juracy Magalhães.

O Ministério da Educação reconheceu a capoeira como esporte nacional nos anos 30. Em 1932, Mestre Bimba abriu sua primeira academia de capoeira, no Engenho de Brotas, em Salvador – Bahia. Em 1937, a capoeira sai do código penal e Mestre Bimba ganhou, da Secretaria de Educação, o título de professor de educação física e começou a ensinar capoeira para o exército e a polícia No Estado da Bahia.

O Centro de Cultura Física Regional, como era chamada a academia de Mestre Bimba, era conhecido não apenas como uma escola de capoeira Regional, mas também como um centro de cultura, onde a capoeira era ensinada como uma expressão cultural da herança africana e como uma possível profissão para muitos.

Após a morte de Mestre Bimba, seu filho, Mestre Nenel (Manoel Nascimento Machado) assumiu a academia do pai. Mestre Nenel é ainda o responsável pelo legado do pai e presidente da Escola de Capoeira Filhos de Bimba, em Salvador – Bahia.

Atualmente, Mestre Bimba é reconhecido como um revolucionário, por sua luta para legitimar a capoeira como um esporte e uma valiosa expressão da herança cultural africana no Brasil. Para capoeiristas em todo o mundo, Mestre Bimba é sinônimo de inovação, perseverança e determinação.

 

Fonte: http://www.redebomdia.com.br e Fundação Casa da Capoeira de Bauru (Alberto Bauru)

Capoeira, qual é a sua, Angola, Regional ou contemporânea?

Certamente o leitor atento as questões da capoeira terá feito a si próprio ou aos outros o tipo de pergunta que compõe o título dessa crónica. A resposta, se bem pensada, poderá ser por vezes dúbia, impõe particularidades existenciais e requer alguma reflexão.

Como sabemos o que convencionou-se chamar de capoeira Angola e Regional formou-se na década de 30 durante o Governo de Getúlio Vargas a partir das figuras eminentes dos Mestres Pastinha e Bimba. Estas fórmulas marcaram uma divisão clara na maneira de ver e praticar a capoeira até por que nasceram em oposição a outra. Se as divergências e as diferenças tendiam a ser mais óbvias no passado, bem menos são no presente se observarmos os processos de hibridação e novas formatações que ocorreram com a capoeira produzida pelos dois mestres.

Alguns autores chamam a atenção que para além de Bimba e Pastinha, destaca-se também a figura de um terceiro mestre no panteão dos importantes fundadores da capoeira que hoje jogamos. Trata-se de Washington Bruno da Silva, o Mestre Canjiquinha. Apesar de nunca ter criado um estilo propriamente, recordamos que o mestre criou dois toques, Samango e Muzenza e foi um importante divulgador da capoeira no sul do Brasil. A relevância do seu trabalho reside sobretudo na capacidade de síntese que realizou com o legado dos mestres Bimba e Pastinha, estabelecendo assim uma terceira posição que é hoje a postura da maioria dos grupos. Para além dos seus shows e excursões para o sul do Brasil o mestre participou de dois filmes importantes na década de sessenta como O pagador de Promessas e Barravento de Glauber Rocha, que ajudaram a popularizar a capoeira.

Destacamos a importância de alguns grupos na produção de uma nova atitude que envolve as duas formas basilares de fazer a capoeira, entre eles certamente o grupo Cordão de Ouro em São Paulo cuja simbiose de diferentes jogos produziu o miudinho. Contudo, arriscaria dizer que foi com o grupo Senzala que estas colagens ganharam maior proeminência e popularidade. O uso corrente do São Bento Grande de Angola e a mesma bateria utilizada na Capoeira Angola, contrasta com o jogo rápido, quase sempre em cima, a utilização de uma distinção hierárquica, as cordas, e uma atitude que em grande parte se aproxima da capoeira Regional. Mas afinal que formato é esse, é Angola ou Regional? A parte da resposta polémica, a verdade é que essa maneira de fazer capoeira, que alguns chamam simplesmente de Capoeira, nem Angola nem Regional, generalizou-se a partir da influência do Grupo Senzala principalmente. As fusões podem ainda se tornar mais complexas quando alguns grupos podem fazer uso da bateria da Capoeira Angola, tocar São Bento Grande de Bimba, numa atitude que de alguma forma mais se aproxima da Regional, contendo algo da Angola, ainda que de maneira discreta.

Na ausência de um termo mais adequada, convencionamos chamar de “capoeira contemporânea” toda prática da capoeira que de alguma maneira não se enquadra nem na Regional, tão pouco na Angola. Mestre Nestor Capoeira, a respeito da capoeira feita pelo grupo Senzala, batizou-a de estilo regional-senzala, nome que nunca chegou a propagar-se nos jargões correntes dos capoeiristas, penso que por força da sua pouca consistência. Embora o termo “capoeira contemporânea” tenha-se generalizado, tão pouco tornou-se consensual, pois alega-se, em argumento válido, que contemporânea pode ser também toda e qualquer capoeira que se pratica em nosso tempo, seja ela qual for. O argumento tem pertinência, mas não resolve o problema de uma nomenclatura clara que nos permita situar as diversas formas de fazer e ver a capoeira hoje. Apesar das respostas estéreis e inconclusivas a esse debate, tenho de admitir que classificar faz parte da liturgia das nossas sociedades e os nossos atores sociais, os capoeiras, também fazem-no, como forma de categorizar a capoeira que praticam ou atribuir autenticidade e legitimidade aos coletivos em que se encontram.

De volta ao termo “capoeira contemporânea”, constatamos que formalmente esse “estilo”, se assim o podemos chamar, nunca foi criado ou instituído por nenhum mestre ou grupo, nem tão pouco exista um toque ou uma liturgia do jogo que o singularize. É do meu entendimento, sem grande margens para dúvidas, que em grande parte o Grupo Abada capoeira, quer goste-se ou não, na figura do mestre Camisa, também ele herdeiro de um certo legado do Grupo Senzala, popularizou uma estética que muitos caracterizam como contemporânea. Infelizmente, talvez por força das ferramentas do mercado e da indústria cultural com o qual o grupo Abada soube sempre trabalhar bem, está estética tornou-se uma imposição na qual muitos praticantes embarcaram de forma acrítica. Tudo que estava fora desse formato dominante passou a ser qualificado de coicero, saroba, e outros tantos adjetivos de tom pejorativo. Sabemos entretanto que a “capoeira contemporânea” jogada pelo grupo Abada nada tem de inovador, e nada mais é do que uma estetização uniformizada da capoeira no seu formato corporal e musical com base na capoeira de Bimba e Pastinha.

Se por um lado as práticas habituais da capoeira Angola e Regional foram formalmente instituídas e legalmente sancionadas pelo estado com a abertura das suas academias, “outras capoeiras” podem ser também criadas e inventadas pela pujança da sua vivência, pelo cariz de sua ideologia, pela força da sua estética ou pela forma generalizada da sua prática e é, a meu ver, o que ocorre com a “capoeira contemporânea” que singulariza o grupo Abada capoeira. Nada impede que, após o falecimento do Mestre Camisa – a quem espero que viva por muitos anos – que ele possa ser visto como criador da capoeira contemporânea, muito embora nunca a tenha instituído formalmente. Não podemos subestimar a força dos atores sociais e a sua capacidade de apropriarem-se, inventarem ou recriarem as coisas que os rodeiam.

No que toca a Capoeira Regional sabemos que poucos reivindicam essa ascendência, e os que fazem andam envoltos em polémicas, por não tomarem parte direta dos grupos que descendem dos discípulos de Bimba ou por não estarem ligados ao mestre Bimba por laços familiares e consanguíneos. Apesar da figura imponente do criador da Regional a verdade é que a Regional, no formato estrito concebido pelo mestre, nunca vingou, mesmo entre alguns dos seus mais conhecidos discípulos. Raros são os grupos em que se usa um berimbau e dois pandeiros, as sequencias, os balões e quase tudo que o mestre instituiu.

O mesmo não se passa com a capoeira Angola, cujo crescimento conheceu maior impulso com a sua internacionalização, como quase tudo no Brasil que só ganha visibilidade ao cruzar as fronteiras nacionais. Constata-se que há entre os praticantes da capoeira Angola um senso de pertença mais apurado que os caracteriza, muito embora, não se possa dizer que a capoeira Angola que hoje se pratica seja verdadeiramente unânime nas suas características e mesmo precisas na realização dos rituais tal como Mestre Pastinha os concebeu. Os uniformes são de cores diversas, existem diferenças nos alinhamentos das baterias, nos rituais de compra do jogo, na nomenclatura dos golpes e até o uso de cordas, que não é comum, serve de complemento aos paramentos utilizados em alguns coletivos para diferenciar as graduações. Vendida como a “capoeira mãe”, a verdadeira e autêntica, o que é certamente uma boa estratégia de mercado, a capoeira Angola é tão crioula e híbrida quantas as outras, carente de legitimidade e autenticidade que se busca nos discursos de pureza e originalidade.

A verdade é que a diferentes bricolagens e experimentações feitas com a capoeira permitem nos dizer que há muito mais o que nos une, capoeiristas, do que o que nos separa, ainda que muitos prefiram dividir e categorizar. E se dúvidas restarem sobre as classificações de que falamos, resta ainda perguntar: qual é mesmo a capoeira que praticas ?

 

* Ricardo Nascimento

Geógrafo
Mestre em Sociologia da Cultura
Doutorando em Antropologia
Professor de Capoeira

Casa de Ferreiro Espeto de Pau!

O ditado popular título desse artigo, sem dúvida, sintetiza o que sucessivamente vem ocorrendo com os baluartes da nossa arte-luta brasileira, aqui em Camaçari. Infelizmente, em nossa “casa”, mais vale o que vem de fora, mais apreciado é o que passa por aqui sem deixar nem mesmo a poeira de sua alpercata. Valoriza-se mais, muito mais, o forasteiro do que o ferreiro que dia a dia, dentro de seu terreiro, molda a ferro e fogo a identidade de um povo. Quem leu o meu último artigo, sabe do que estou falando…

Em Camaçari, não temos números precisos, mas estimativas apontam que a população de capoeiristas gira em torno de cinco mil pessoas, organizados em mais de vinte grupos e associações dentro da Sede e nos distritos. Esta população é muitas vezes maior que qualquer outro esporte ádvena.

Em novembro do ano passado, com muito sacrifício e peleja, conseguimos dar uma nova possibilidade de vida a um aluno, o Camisa 7, do Projeto Social Crianças Cabeludas, aqui de Camaçari, que está na Europa (para ser justo, vale citar e mais uma vez agradecer o apoio recebido do secretário Vital Vasconcelos, da SECULT). Desde então, o garoto, hoje com 18 anos, vem “explodindo” nas rodas espanholas sendo aplaudido em várias cidades, como Marbella, Cádiz, Sevilla, Granada, Málaga e Córdoba (esta última, cidade onde atualmente reside e trabalha com Capoeira e cultura brasileira). A Capoeira por lá é um dos esportes mais requisitados. Estes dias recebi uma ligação dele, totalmente atônito pelo que acabara de saber. Lá, em Córdoba, na Espanha, cidade sem tradição em Capoeira, o nosso Grupo havia marcado uma audiência com o prefeito local, com uma pauta de reivindicação na mão, sendo a principal delas, a necessidade de disponibilização de um local próprio para a prática da nossa cultura brasileira. Meu aluno, tomado de espanto me disse: “professor, o prefeito doou um galpão para o Grupo treinar, sem mais demora. Já fomos conhecer o local e estamos reformando o espaço. É inacreditável!”

Creio que vocês não tenham a dimensão do que isso representa. É a nossa arte-luta Capoeira sendo extremamente valorizada lá fora, mas que aqui dentro, em sua pátria, sobrevive apenas com as migalhas que caem dos palcos dos grandes festivais midiáticos, patrocinados com o meu e o seu dinheiro.

Todos que conhecem a luta dessa molecada, lá no Parque das Mangabas, talvez tenham entendido o espanto de Camisa 7, pois durante seis anos, esse jovem treinou sob as mais duras intempéries, em plena via pública, lutando contra todo tipo de dificuldades; construindo, com seu próprio sangue, o caminho que o fez voar mais alto. E ai, eu me questiono: como ensinar que aqui é a terra do dendê, da Capoeira Regional do Mestre Bimba, da Angola de Mestre Pastinha? Como informar que aqui, em nossa Bahia, tivemos o lendário Besouro Mangangá, o malevolente Vermelho 27, Canjiquinha, Di Mola, e tantos outros baluartes da capoeiragem? Como explicar às crianças do Palheiro, em Monte Gordo ou de Machadinho, que em Camaçari, terra rica, cheia de Pólos e empresas, com seus quase R$ 100 milhões de receita/mês, vemos Mestres como Geni Capoeira (uma lenda viva da Capoeira mundial), Petróleo, Oliveira, Saci, Neguinho, Maré, Vando, Ismael, Paulinho, Zeca, Bobô, Grandão não terem seus trabalhos totalmente (é totalmente mesmo, 365 dias do ano, e não apenas nas esmolas ofertadas para a realização de eventos esporádicos) apoiados por quem tem a obrigação legal e moral de fazê-lo? Eu, com meus 33 anos de idade, sinceramente não entendo, senhores. Como, então, explicar isso para crianças que do “lucro” do Pólo só lhe é oferecida a poluição de suas ricas chaminés?

Arrepio-me em saber que no mês de setembro tenho que fazer novamente o “batizado e troca de graduações” das crianças das Mangabas, do Palheiro e de Machadinho. Mais uma vez terei que bater na porta de muita gente, e sei que boa parte dessas portas se fechará, inclusive por que escrevo linhas de protestos como estas, que nada mais pede do que nos devolvam em ações práticas e efetivas, o que eles colocam em seus cofres por conta da nossa Capoeira. Ou capoeirista não paga imposto? Não divulga (e vende) a imagem do estado em todo o mundo? Ou não somos patrimônio imaterial da cultura brasileira?

Enquanto nos acusam de “desorganizados” (argumento semelhante ao utilizado pelos republicanos para lançarem a Capoeira no código penal brasileiro de 1890) e sobre esse pretexto nos relegam à margem das políticas públicas para o desenvolvimento de ações afro-brasileiras no município (sim! Já existe legislação específica que estabelece o ensino da cultura afro-brasileira, entre elas a Capoeira, em toda rede de educação pública e privada, fundamental e médio – vide Lei 10.639/2003), ficamos à mercê da boa, ou melhor, má vontade de uns senhores engravatados que se acham entendedores do assunto. Já fiz o teste! Em agosto de 2010 apresentamos um projeto para o batizado do “Crianças Cabeludas” (só lembrando, este trabalho é desenvolvido há seis anos e é estritamente social, sem qualquer fim lucrativo), com um custo total de R$ 3.500,00 e conseguimos da prefeitura de Camaçari um apoio – pasmem! – de cerca de R$ 50,00, além da cessão do espaço para a realização do evento – que é público, diga-se de passagem! No mesmo mês, houve uma etapa do campeonato de longboard (de onde é mesmo esse esporte?), que teve o apoio, desta mesma prefeitura, muito maior que o solicitado pela “turma da vadiagem”. Fui lá questionar qual teria sido o critério adotado e me responderam simplesmente que: “surf dá mais visibilidade à prefeitura e o evento era internacional”. Em minha opinião isto representa, tão somente, novas desculpas para as velhas políticas de discriminação da Capoeira.

Se não bastasse isso, vale salientar que futebol, judô, vôlei, jiu-jitsu, boxe, surf, natação, karatê, basquete… Todos! Completamente todos os demais esportes são modalidades estrangeiras. Não que não devam ter apoio, claro que devem! Esporte, seja ele qual for, exerce um papel fundamental na formação da criança e do adolescente e na propagação de bons hábitos de saúde, dentre outros fatores socialmente positivos. Mas, cá pra nós, o poder público deveria ter maior zelo com nossa própria cultura, com o nosso único esporte genuinamente brasileiro. A Capoeira, senhores, deveria ser tratada com muito mais cuidado, respeito, honestidade e apoio. Estamos cansados de ouvir promessas e factóides, de ver leis que não saem do papel. Enquanto travamos discussões infindáveis, em fóruns que só servem para promoção política de alguns, lamentavelmente vemos, por exemplo, um mestre com mais 40 anos de história, como o Mestre Oliveira, do Grupo de Capoeira Estrela do Céu, no bairro Nova Vitória, educar e formar crianças e jovens em uma academia cujo teto nem mesmo existe e sem qualquer contribuição dos órgãos governamentais. É realmente um desrespeito não apenas ao ser humano, mas ao esporte, a cultura e ao patrimônio imaterial brasileiro.

Enquanto aqui, os nossos mestres antigos e também novos vivem das sobras – quando sobra! –, acabo de receber um convite da Fundação Casa da Capoeira de Bauru para participar da inauguração da Praça Mestre Bimba, no município de Bauru, São Paulo. Ou seja, na Bahia, a casa do Bimba, temos apenas uma rua e um monumento mal cuidados em homenagem àquele que foi um dos personagens decisivos para que a Capoeira saísse de “debaixo do pé do boi”. Mesmo antes de confirmar a minha presença (e consequentemente a do município de Camaçari), o desânimo já me abate, pois sei das absurdas dificuldades de se conseguir uma mísera passagem, através dos órgãos da prefeitura.

Concordo que a Capoeira é livre e que ela é luta de resistência, mas desafino quando tentam utilizá-la como massa de manobra (tal qual ocorria nos séculos XIX e XX). Fica evidente o que lamentavelmente pensam os nossos governantes sobre a Capoeira, pois, para eles, a “brincadeira de negros” só serve para ser apresentada aos turistas e chefes de estado como algo folclórico, bem como, em espetáculos em seus picadeiros políticos. Recentemente o Governador Jaques Wagner recebeu o título de cidadão baiano na Assembléia Legislativa da Bahia – ALB. E quem fez a recepção? Claro, os capoeiristas! Afinal de contas, são em momentos iguais a estes que a Capoeira representa a mais genuína imagem da Bahia – bem sarcástico mesmo! Todavia, são estes mesmos capoeiras que estão lutando, nesta mesma ALB, para que a profissão e, consequentemente, aposentadoria dos mestres seja legalmente reconhecida. Que incoerência!

Em Camaçari é igualzinho… É só chegar uma comitiva estrangeira, ou até mesmo brasileira, que logo é chamado o “povo da malandragem”, sempre posicionados nas portas da Cidade do Saber, para fazer o showzinho. Às vezes é pago um cachê miserável, é fornecido um lanchinho meia boca e, por fim, os colocam num ônibus para retornarem para os seus guetos, a fim de limparem a área.

Sou um bebê nisso de jogar os pés pro ar, tenho apenas 12 anos de roda. A estrada é muito longa até me tornar Mestre, mas sei que a minha voz, desde já, não poderá calar-se diante de tamanho desdém do poder público, em relação ao nosso tesouro. E não vou me calar, mesmo que isso me custe um apoio aqui, uma passagem acolá… Eu quero ver a minha Capoeira forte, pois “maior é Deus, pequeno sou eu!”.

 

Yê! Volta no mundo, camará!

 

Caio Marcel (admcaio@gmail.com) é administrador de empresas e formado em capoeira regional, pelo Grupo de Capoeira Regional Porto da Barra. Também é responsável e mantenedor do Projeto Social Crianças Cabeludas, nos bairros do Parque das Mangabas, Machadinho e Palheiro, em Camaçari/BA.