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“Capoeira Gospel” cresce e gera tensão entre evangélicos e movimento negro

“Capoeira Gospel” cresce e gera tensão entre evangélicos e movimento negro

 

Estavam presentes o berimbau, o atabaque, a ginga e os saltos mortais. Quase tudo fazia lembrar um jogo de capoeira típico, mas, em vez dos cânticos que enaltecem os orixás ou trazem referências à cultura negra, os versos faziam louvor a Jesus Cristo e a roda era alternada com momentos de pregação e oração.

“Não deixa seu barco virar, não deixa a maré te levar, acredite no Senhor, só ele é quem pode salvar”, cantavam as cerca de 200 pessoas, reunidas na quadra de uma escola para o “1º Encontro Cristão de Capoeira do Gama” (cidade satélite de Brasília), numa tarde de sábado.

Era mais um evento de capoeira evangélica, também chamada de capoeira gospel, vertente que ganha cada vez mais adeptos no Brasil, principalmente por meio da palavra e do gingado de antigos mestres que se converteram à religião.

Se antes a prática enfrentava resistência dentro de igrejas, agora, nessa nova roupagem, é cada vez mais considerada uma eficiente ferramenta de evangelização.

“Hoje é difícil você ir numa roda que não tenha um (capoeirista evangélico), e vários capoeiristas viraram pastores. É um instrumento lindo de evangelização porque é alegre, descontraído, traz saúde, benefícios sociais”, afirma Elto de Brito, seguidor da Igreja Cristã Evangélica do Brasil e um dos palestrantes do evento.

Praticante de capoeira há 40 anos e convertido há 25, Mestre Suíno é líder do movimento “Capoeiristas de Cristo”, que estima reunir cerca de 5 mil pessoas no país. Ele realiza encontros nacionais em Goiânia há 13 anos – a edição de 2018 será pela primeira vez em Brasília.

 

Veja o Video da BBC

O mestre calcula ainda que já existem cerca de 30 “ministérios” de capoeira, ou seja, grupos diretamente ligados a igrejas.

“Há um cuidado para não chocar com as visões da igreja. Cuidado com a roupa, com o linguajar, com as músicas, mas que “não necessariamente tem que ser só música que fala de evangelho, de Deus”, explica.

Críticas

O crescimento da prática, porém, tem gerado incômodo entre capoeiristas tradicionalistas e o movimento negro, que veem na novidade uma forma de apropriação cultural e apagamento da raiz afrobrasiliera da capoeira, prática que surgiu como forma de resistência entre escravos, a partir do século 18.

Eles também reclamam que em algumas dessas rodas haveria discursos de “demonização” contra a capoeira tradicional e as religiões do candomblé e da umbanda.

O Colegiado Setorial de Cultura Afrobrasileira, que faz parte do Conselho Nacional de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, chegou a divulgar em maio a “Carta de repúdio à ‘capoeira gospel’ e à expropriação das expressões culturais afrobrasileiras”.

 

O documento, uma reação ao 3º Encontro Nacional de Capoeira Gospel convocado para junho deste ano, em João Pessoa (PB), reconhece que seguidores de qualquer credo podem praticar capoeira, mas cobra “respeito” a sua tradição.

“Temos lutado contra o racismo em suas diversas e perversas manifestações. A demonização perpetrada por pastores, mestres ou professores de ‘capoeira gospel’, ensinando o ódio e a intolerância contra as raízes da capoeira e contra seus praticantes não evangélicos, é um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana”, diz a carta.

 

 

 

Patrimônio

A capoeira, que no passado chegou a ser proibida, recebeu em 2014 o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco, órgão da ONU para educação. O Iphan, órgão responsável por sua “salvaguarda” no Brasil, reconhece em documento sua “ligação com práticas ancestrais africanas”.

A antropóloga Maria Paula Adinolfi, técnica do Iphan, diz que “não é possível impedir a capoeira gospel”, mas explica que o órgão está focado em “fortalecer ações que vinculam a capoeira à matriz africana” como “uma política de reparação do processo de apagamento da memória afrobrasileira e de genocídio do povo negro”.

 

Organizador do evento na Paraíba, Ricardo Cerqueira, o contramestre Baiano, recebeu, além da carta de repúdio, algumas ligações com críticas e até mesmo ameaças de processo. Seguidor da Igreja Batista, ele diz reverenciar os grandes mestres da capoeira, como os baianos Bimba, Pastinha e Waldemar, já falecidos, mas argumenta que a “capoeira não pertence à cultura africana”.

“O país é laico. Acho que cada um tem liberdade para fazer a sua capoeira da forma que quiser”, defendeu.

“Colocamos o nome gospel sem intenção de descaracterizar a capoeira, até porque nós usamos todos os instrumentos e cantamos também música secular”, disse ainda.

 

Diferenças

Além das músicas e orações, mais alguns detalhes diferenciam a capoeira evangélica da “capoeira do mundo”, explicou à reportagem Gilson Araújo de Souza, pastor evangélico e mestre capoeirista em Manaus.

Em geral, rodas evangélicas não chamam a troca de corda de “batismo” porque o termo deve ser usado apenas no seu sentido religioso, de se converter e receber o Espírito Santo. Além disso, alguns capoeiristas também evitam o uso de apelidos, que, segundo Souza, tem origem na época que a capoeira era perseguida.

“No mundo cristão, Deus nos chama pelo nome. Antes, eu era conhecido como mestre Gil Malhado, hoje sou chamado de mestre pastor Gilson. Não preciso me camuflar”, explica ele, que faz parte da Igreja de Cristo Ministério Apostólico.

 

“Anos atrás, eu enfrentei muita dificuldade para levar a capoeira para a igreja. O pastor batia a porta na minha cara, dizia que era coisa da macumba, que não podia. Hoje eu sou pastor e as portas se abriram”, conta também.

Segundo o mestre Suíno, a adoção do termo “gospel” fez parte desse processo de quebrar resistências. Era uma forma, observa, de convencer os pastores que a capoeira podia ser praticada dentro dos valores cristãos.

Hoje ele próprio repudia esse “rótulo” por causa da polêmica que tem gerado. Suíno afirma que, apesar de haver algumas práticas próprias da capoeira cristã, sua “essência” de capoeira é a mesma.

“Não existe capoeira gospel! Não queremos bagunçar a capoeira. Nós respeitamos os mestres, respeitamos os fundamentos da capoeira, respeitamos as tradições, e vamos defender porque quem não defende a capoeira não tem direito de ser capoeirista”, discursou, empolgado, durante o evento no Gama, cujo lema era “minha cultura não atrapalha a minha fé”.

 

Constante mutação

 

Diante da polêmica, o historiador da capoeira Matthias Röhrig Assunção ressalta que a prática já passou por muitas transformações desde seu surgimento.

Hoje, há três vertentes principais: a angola (mais lenta e gingada, tida como a mais próxima da “original”), a regional (mais acelerada, que incorpora movimentos de lutas marciais) e a contemporânea – uma mistura das duas primeiras que surgiu no Sudeste a partir dos anos 70 e foi o estilo que conquistou o mundo.

“Acho que capoeira tradicional não existe mais, todos (os estilos) são modernizados”, resume Assunção, que é professor do departamento de história da Universidade de Essex, na Inglaterra.

Embora não simpatize com a ideia de uma capoeira evangélica, o professor afirma que não se trata do primeiro processo de “apropriação” da prática.

“A capoeira gospel me parece ser mais uma estratégia desses grupos religiosos de ocuparem espaços e de ganhar adeptos, mas não vejo como parar isso, não tem como proibir”, observou.

“Historicamente, houve muitas apropriações da capoeira. Há uma apropriação nacionalista forte, rodas no exterior com as bandeiras do Brasil, o verde e o amarelo, por exemplo, em que a origem da capoeira, a história de resistência e a ligação com os africanos escravizados muitas vezes não têm destaque algum”, pondera.

 

Fonte: BBC – http://www.bbc.com/

Livro: Capoeira e Religiosidade (Espiritualidade)

Para alguém que foi criado na Europa ocidental, onde a religião, em grande parte, foi remetida para o domínio privado de cada pessoa, e que chega ao Brasil e vê os adesivos colados na parte de trás do carros dizendo “100% Jesus”, ou “Deus é fiel”, é como um pequeno choque cultural. Mesmo sabendo que o catolicismo ainda está forte na América do Sul, a ideia (talvez ultrapassada) do iluminismo, na qual a religião é apenas um estágio antes do laicismo e do conhecimento científico, é uma convicção que está fortemente impregnada na minha consciência.

Ver gente que exprime tão abertamente a sua ligação com uma religião, quase de uma maneira comercial, sem ser necessariamente muito conservador nem atrasado, é uma coisa que, no início, é difícil de aceitar ou compreender. Quando se entra no mundo da capoeira, uma arte marcial brasileira, também se percebe as ligações entre capoeira e as várias religiões, como as religiões dos afrodescendentes.

Estas religiões são interligadas e até fonte das demais expressões culturais africanas, que foram trazidas pelos escravos dos vários países da África no tempo de cativeiro. Religiões que por razão de sobrevivência segundo vários2  – foram trazidas ao sincretismo com a religião dominante dos senhores, o catolicismo. Ao lado disso ainda existem as crenças dos índios, de quem eu sabia muito menos, mas que na história da capoeira também têm um papel, com a pluralidade de religiões e crenças que existem entre eles3.

Como um holandês quase ateu vai conseguir entender este mundo de interligações e conexões religiosas que formam parte da base deste arte marcial que é a capoeira?
Na sociedade holandesa (como numa grande parte da Europa ocidental) a influência aparente da religião é muita mais fraca do que no Brasil: as igrejas ficam cada vez mais vazias e são utilizadas como centros culturais ou mesquitas4.

Lá, o raciocínio –o racionalizar de todos os fenómenos e o secularismo estão fortes e puxaram a fé para o domínio privado, se é que ainda existe. Neste domínio, o catolicismo batalha espaço com as várias formas de protestantismo, as religiões orientais, e o secularismo. Em 2008 o CBS (Instituto Central da Estatística holandês) fez uma pesquisa na qual 29% do povo holandês se considerou católico, 19% protestante (reformado, luterano, evangélico), 4% muçulmano, 6% disse ter outra religião (judeu, hinduísta, budista, cristão ortodoxo) e 42% sem religião5. Movimentos pentecostais estão presentes de maneira marginal e as religiões dos afro-descendentes não desempenham um papel significante para a sociedade.

Isto não é apenas uma enumeração de dados religiosos; isto nos diz algo sobre a sociedade onde isto acontece, que é bem diferente da sociedade brasileira. Não só porque tem relativamente menos fiéis, ou porque eles estão divididos de uma maneira diferente. É também porque quando vemos a religião como uma parte fundamental da cultura, a presença ou a ausência de uma oumais religiões, tem uma forte influência naquela sociedade.

Como consequência, chegamos a uma primeira divisão entre as culturas holandesa (e “o mundo ocidental”, como gostamos de dizer na Europa) e a brasileira. Temos que entender primeiro que para o africano que foi trazido para o Brasil, como para o indígena, mas também para o ‘catolicismo popular’6 , os aspectos da vida estão muito mais interligados do que o Europeu (ainda) reconhece7.

Não há uma divisão “secular”: sua religião determina o trabalho que você faz, a comida que você come, e como resolve os problemas físicos. A religião, para a maioria dos holandeses e no mundo ocidental tornou-se uma coisa particular, privada, que você pratica aos domingos na igreja. Mas para uma grande parte das pessoas em outras partes do mundo, as ligações religiosas existem em contexto pessoal e social. Para o europeu, estas coisas estão bem separadas.

A razão desta diferença é tema para um outro debate, e aqui não há espaço para entrar8. O que importa para meu propósito é que esta diferença existe. Porque, mesmo a situação social e religiosa na Holanda (e Europa ocidental) sendo bem diferente daquela que encontrei no Brasil, a capoeira se espalhou e se desenvolveu em ambos os países e continentes.

Claro que o berço da capoeira é o Brasil, e que ela tem muito mais história lá, e um nível alto que é mais amplo espalhado. Mas no fundo a capoeira ficou a capoeira. Há jogadores bons na Europa (e nos outros continentes) que podem se meter com qualquer um no Brasil, que entendem o jogo, sabem dos rituais e de tudo o mais. Não-Brasileiros que dão aula e se tornam contramestres e até mesmo mestres.

Tem gente cantando sobre a escravidão, sobre os orixás, os santos, fazendo orações, mesmo sem nunca terem vivido esta cultura. Não se consideram (necessariamente) religiosas, e as religiões ‘ligadas’à capoeira são, na grande parte, alheias à eles, porque não fazem parte da situação social onde eles vivem.

Como explicar este fenômeno? Como uma cultura que às vezes é tão diferente, é tão ‘facilmente’ incorporada no mundo inteiro por pessoas de culturas totalmente alheias, até que ponto os praticantes de capoeira incorporaram uma certa religiosidade ou espiritualidade que faz parte desta cultura onde a capoeira nasceu? Será então que a capoeira leva a uma certa religiosidade das religiões que são parte da cultura brasileira, ou devemos entender este fenômeno de uma maneira diferente?

Para começar a entender isto, considero as religiões e crenças de um ponto de vista acadêmico, quer dizer racionalizado, até mesmo categórico e talvez um pouco abstrato. Então eu não imagino falar sobre a espiritualidade de cada um, ou como todos os capoeiras convivem ou praticam suas religiões, ou qualquer outro aspecto que seja pessoal, individual.

Fé é fé e tem pouco de acadêmico;  ela também não é entendida por todos os fiéis da mesma maneira. E estou também consciente que a capoeira tem uma significação diferente para cada um que a pratica. O que eu procuro aqui é tentar entender uma parte deste fenômeno com os instrumentos e conhecimentos acadêmicos que eu tenho ao meu dispor9.

 

2. Ferretti (1997), Vassallo (2009)

3. Subsistem hoje tribos em um número muito pequeno, face o que houve antes. Mesmo assim, depois de cinco séculos de genocídios e agressões, distribuem-se em diferentes etnias e algumas nações indígenas; várias tribos com suas culturas próprias e, em seu interior, com sistemas religiosos peculiares. Mesmonos casos em que inúmeros do seus membros já se converteram a alguma confissão cristã. Então não é uma vaga espécie única de religião com um misterioso deus supremo: Tupã. Brandão, (2004) Mas a influência destas religiões e crenças no mundo de capoeira ainda é pouco pesquisada.

4. O que provavelmente também não vai durar muito tempo, vendo que os muçulmanos no ocidente já pensam de outra maneira sobre qual deveria ser a papel da sua religião dentro a sociedade.

5. CBS, 2009

7. Esta antiga forma de catolicismo ibérico politeísta forma parte central do meu argumento. Por isso vou entrar nesta forma mais adiante.

8. Por exemplo, só na maneira de preparar a comida já existem hábitos e costumes baseados na crença. E para quem é filho de santo, sabe-se que não pode comer alguns alimentos, de acordo com o santo.

9. Se a causa desta diferença foi o iluminismo europeu ou o desenvolvimento das sociedades modernas que passavam certo nível de complexidade e assim atingiram um alto nível de funcionalidade diferenciada onde não se pode manter a universalidade social de uma visão de mundo essencialmente religiosa, (Luckmann (1990) ou que há outras explicações, eu deixo para o leitor.

 

Dolf van der Schootcapofilosofo@gmail.com

Religiosidade na Capoeira

Dentre os vários aspectos expressos pela capoeira, o componente mítico-religioso sempre foi para mim, um dos que mais suscitou curiosidade. Debates, opiniões e muitas histórias contadas e recontadas através da tradição oral presente na cultura popular, são a motivação para a minha pesquisa nesse universo.

O aspecto mágico e misterioso, conhecido no universo da capoeiragem como “mandinga”, por exemplo, é um dos elementos importantes para uma compreensão mais aprofundada sobre essas questões. O substantivo “mandinga” se refere possivelmente à região Mandinga, na África ocidental, banhada pelos rios Níger, Senegal e Gâmbia. Entre os africanos trazidos para o Brasil, havia a crença de que nessa região habitavam muitos feiticeiros. Daí podemos compreender melhor o sentido que esse termo acabou ganhando na capoeira

O grande mestre Valdemar da Liberdade disse uma vez que os mestres de antigamente “…tinham muita mandinga, viravam folha, viravam bicho. Aquilo era próprio para barulho. Besouro era um grande capoeirista, mas tudo debaixo de oração”. Cobrinha Verde se dizia católico, mas não deixava de recorrer também às tradições religiosas africanas para o “fechamento de seu corpo” no sentido de se proteger dos inimigos “desse mundo e do outro”, dizia ele.

Os depoimentos dos capoeiras mais antigos evidenciam a mandinga enquanto componente fundamental da capoeira. O termo mandinga pode designar a malícia do capoeirista durante o jogo, fazendo fintas, fingindo golpes e iludindo o adversário. Mas pode referir-se também a uma certa dimensão sagrada, um vínculo que muitos praticantes de capoeira possuem com os preceitos de algumas religiões afro-brasileiras. Em geral, boa parte das manifestações de origem africana no Brasil, de uma forma ou de outra, trazem algum aspecto que evidencia uma aproximação maior ou menor com as religiões afro-brasileiras.

Mas dizer que a capoeira possui aspectos de religiosidade, não significa dizer que ela está diretamente ligada a essa ou àquela religião em particular, pois existem praticantes de capoeira de todas as religiões. Na capoeira não se pergunta qual a religião do capoeirista antes do jogo: simplesmente se convida para jogar.

A capoeira tem religiosidade, mas não tem religião !!!

A religiosidade da capoeira se manifesta através dos seus rituais, dos cânticos, da celebração, da memória dos seus ancestrais, da sua ligação com esse passado de luta e sofrimento. A dimensão do “sagrado” na capoeira se mostra através desses aspectos, e por isso podemos dizer que a religiosidade é um componente importante da capoeira, sobretudo da capoeira angola, embora muitos grupos de capoeira regional também valorizem essa dimensão.

Esses saberes populares que determinam a religiosidade presente na capoeira expressam um vasto campo de significados e de suas ligações com o “sagrado”, assim como muitas outras manifestações e tradições presentes no universo da cultura popular no Brasil. A dimensão do sagrado, tem para o povo simples de nosso país, um sentido muito especial e profundo e que determina suas crenças, seus modos de vida, seus sonhos, suas lutas, suas vitórias e suas derrotas.

 

 

Cultura afro é destaque em feira etnomatemática

Estudantes do ensino médio e fundamental da Escola Estadual Alberto Torres, no bairro de Bebedouro participaram no último sábado (13), da I Feira Afro Matemática, realizada a partir do projeto Pérola Negra Brasileira: História, importância e lutas do povo negro. Conheça e se orgulhe!, idealizado pelo professor da disciplina Allex Sander Porfirio. O evento também se estendeu para as disciplinas de física, religião e história e contempla a Lei Federal 10.639/03, que obriga a inclusão da história e cultura afro-brasileira e africana no currículo educacional.

Abordando uma temática diferente da qual estão acostumados em sala de aula, sete turmas, divididas em cinco equipes: música afro; búzios e capoeira; África: O berço da matemática; Eu tenho um sonho (Sobre Martin Luther King); e poemas de matemática demonstraram, por meio de peças teatrais, danças e paródias a relação que os assuntos têm com o continente africano, ressaltando os equívocos que existem até mesmo no ensino escolar.

A matemática também foi retratada através de poemas de Millôr Fernandes, em seqüências musicais africanas – que comemoravam boas colheitas e nascimentos – e ainda, em instrumentos como o reco-reco, utilizado por negros e índios.

Segundo o professor Alex, os sistemas de numeração, probabilidade e até de engenharia tiveram origem no continente africano, a exemplo da construção das pirâmides do Egito. "Os estudantes se mostraram entusiasmados para a realização da feira e tiveram a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a verdadeira história da matemática".

A estudante Jeisiane Milane, do 2° ano do ensino médio, mostrou junto com os colegas de turma, a relação numérica implícita no jogo de búzios e na capoeira e disse que antes não sabia que a matemática também fazia parte da cultura afro. "A capoeira tem passos que simbolizam figuras geométricas, como o triângulo e o círculo e nos búzios existe uma relação de probabilidade. Alguns dos estudantes tiveram até medo de pegar neles, por causa da forma como a religiosidade é ensinada, mas atividades como essa servem para acabar com o preconceito", conta a estudante.

Já o estudante do 1° ano, Igor Fernando disse que o trabalho serviu para que ele conhecesse mais sobre a matemática, que é discriminada e tida como difícil de aprender. "Ela não surgiu na Grécia, porque antes os africanos faziam traços com ossos, que serviam como calendário lunar e também davam uma quantidade de nós em cordas, para lembrar quando emprestavam alguma coisa, explica.

Para a professora de religião Heloísa Lima, que ministra a disciplina há três anos na escola Alberto Torres, mostrar que a religião afro é diferente do que as pessoas estão acostumadas a aprender tem sido uma tarefa difícil, porque existe grande resistência por parte de alguns alunos, pais e até de professores, que são evangélicos ou católicos.

"No último ano, devido a estarem mais acostumados com o tema os estudantes tiveram facilidade para aceitá-lo, já que na disciplina abordamos a história das religiões e mostramos que algumas Deus têm vários nomes e símbolos. Mas, ainda existe um contexto histórico que faz predominar a discriminação e esse é um trabalho de conscientização, ressaltou Heloísa.

A etnomatemática surgiu na década de 70, com base em críticas sociais acerca do ensino tradicional da matemática, como a análise das práticas matemáticas em seus diferentes contextos culturais. Pode ser entendida como um programa interdisciplinar que engloba as ciências da cognição, da epistemologia, da história e da sociologia.

 

Fonte: www.cojira-al.blogspot.com

Livro: Retratos da Bahia – Pierre Verger

Foi relançado recentemente pela editora Corrupio o livro Retratos da Bahia de autoria do etnólogo, professor, fotógrafo e escritor Pierre Verger.
 
Este livro (o preferido de Verger) reúne, segundo matéria do Correio da Bahia de 15 de fevereiro p.p., “251 fotografias em preto-e-branco feitas entre 1946 e 1952, pelas quais a cultura, o povo, a arquitetura, as crenças e personagens anônimos e ilustres são mostrados com a sensibilidade de um olhar amoroso”.
 
A magia da Bahia e do seu povo seduziram este francês que aqui resolveu fixar residência na década de 40 do século passado, e pesquisar a fundo as múltiplas relações afro-brasileiras aqui existentes.
 

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Crença disfarçada

 
Apenas 0,49% da população de Salvador, considerada a cidade mais negra do país, se declara adepta das religiões afros
 

Adriana Jacob
 
Mãe Carmen do Gantois diz que muitos filhos do candomblé não se assumem como tal

Pouca gente sabe, mas a cidade gaúcha de Rio Grande é o município brasileiro onde mais pessoas afirmam ser adeptas de religiões afro-brasileiras. O dado consta no estudo Retrato das religiões do Brasil, divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Na pesquisa, Salvador, que costuma ser considerada uma espécie de Meca quando o assunto são as religiões de matriz africana, aparece numa modesta 172a posição.

É isso mesmo. Menos de 1% dos soteropolitanos se declaram adeptos de religiões afro-brasileiras. No percentual exato, 0,49% da população da cidade mais negra do Brasil afirma crer na religião dos orixás, inquices e voduns. Entre os 5.507 municípios pesquisados, a capital baiana perde no item em questão para 171 localidades. No ranking das "dez mais", aparecem lugares de muito menos visibilidade, como Dezesseis de Novembro (RS), Carnaubeira da Penha (PE) e Divino de São Lourenço (ES).

O estudo, feito através do processamento dos microdados do Censo Demográfico 2000, causou polêmica entre babalorixás, ialorixás, e pesquisadores baianos. "Isso para mim não é surpresa nenhuma. Nossos ancestrais mascararam a religião, colocaram santos de igreja no lugar dos orixás, tiveram que negar sua origem. Isso se infiltrou no sangue e na mente de seus descendentes até hoje. Os próprios filhos do candomblé não se assumem como tal. Eu não condeno ninguém, são os resquícios da escravidão", afirma mãe Carmen Oliveira da Silva, ialorixá do Terreiros do Gantois, casa fundada em 1849.

Ela conta a história de uma adolescente que teve a foto publicada no jornal, associada a um terreiro. "Quando perguntaram na escola, ela disse que não era ela, negou. Muita gente não assume que é do candomblé, mas você vai numa festa para orixás e a casa está cheia", diz a sacerdotisa.

"Como o negro e sua cultura foram por demais desvalorizados, o que ocorre é que muitas pessoas preferem dizer que são da Igreja Católica. No fundo, é o racismo, a vergonha de sua condição de afro-brasileiro. Ainda existem aquelas pessoas que querem disfarçar", analisa a escritora, advogada e agbeni Xangô do também tradicional terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, Cléo Martins. "Já no Rio Grande do Sul, onde mais pessoas afirmam ser adeptas, a maioria é branca, então eles não têm essa crise de identidade".

O presidente da Fundação Palmares do Ministério da Cultura e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ubiratan Castro de Araújo, questiona a metodologia da pesquisa. "Se você perguntar qual a religião de uma pessoa na Bahia, a maioria ou não sabe, porque tem uma religião muito aberta, composta por várias coisas – ela vai no candomblé, na igreja, no centro espírita e na messiânica – ou diz que é católica porque foi batizada. A pesquisa em si é algo discutível, eu questiono essa metodologia porque ela não consegue perceber esse fenômeno sentido na Bahia", analisa o historiador.

Ele cita a si próprio como exemplo: "Eu integro a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, no Pelourinho, e vou me tornar ogã de Obaluaê de um terreiro. A minha religião é de dupla pertença, ligada aos negros católicos e à tradição afro. O ideal então seria perguntar quais são suas religiões, no plural", afirma.

Cléo Martins considera que, entre algumas pessoas existe uma síntese entre o candomblé e o catolicismo. "O coração da gente é livre, mas essas pessoas que são realmente praticantes das duas religiões jamais vão declarar que são adeptas das religiões afro-brasileiras", opina a agbeni Xangô, que é responsável pelo Alaiandê Xirê do Afonjá.

Em algumas situações, a discriminação chega a se concretizar. O babalorixá Balbino Daniel de Paula conta que uma das suas filhas-de-santo perdeu o emprego depois que a fotografia dela, vestida com roupas do candomblé, apareceu em um jornal. "Ela tinha um bom emprego num escritório, mas depois disso foi demitida", conta Balbino, que pe responsável por outro respeitado terreiro, o Ilê Axé Opô Aganju, em Lauro de Freitas.

Na opinião do antropólogo e ogã de um dos mais antigos terreiro de Salvador, a Casa Branca, Ordep Serra, muita gente ainda é hostilizada pelo preconceito e pela intolerância religiosa. "Em Salvador e região metropolitana, a gente tem mais de dois mil terreiros, não é possível que o número de adeptos seja tão pequeno. Essas estatísticas não trazem a realidade. Acho que muita gente não se declara como praticante do candomblé até por influência africana, onde não existe essa coisa excludente de ser apenas de uma religião".