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Livro: Capoeira e Religiosidade (Espiritualidade)

Para alguém que foi criado na Europa ocidental, onde a religião, em grande parte, foi remetida para o domínio privado de cada pessoa, e que chega ao Brasil e vê os adesivos colados na parte de trás do carros dizendo “100% Jesus”, ou “Deus é fiel”, é como um pequeno choque cultural. Mesmo sabendo que o catolicismo ainda está forte na América do Sul, a ideia (talvez ultrapassada) do iluminismo, na qual a religião é apenas um estágio antes do laicismo e do conhecimento científico, é uma convicção que está fortemente impregnada na minha consciência.

Ver gente que exprime tão abertamente a sua ligação com uma religião, quase de uma maneira comercial, sem ser necessariamente muito conservador nem atrasado, é uma coisa que, no início, é difícil de aceitar ou compreender. Quando se entra no mundo da capoeira, uma arte marcial brasileira, também se percebe as ligações entre capoeira e as várias religiões, como as religiões dos afrodescendentes.

Estas religiões são interligadas e até fonte das demais expressões culturais africanas, que foram trazidas pelos escravos dos vários países da África no tempo de cativeiro. Religiões que por razão de sobrevivência segundo vários2  – foram trazidas ao sincretismo com a religião dominante dos senhores, o catolicismo. Ao lado disso ainda existem as crenças dos índios, de quem eu sabia muito menos, mas que na história da capoeira também têm um papel, com a pluralidade de religiões e crenças que existem entre eles3.

Como um holandês quase ateu vai conseguir entender este mundo de interligações e conexões religiosas que formam parte da base deste arte marcial que é a capoeira?
Na sociedade holandesa (como numa grande parte da Europa ocidental) a influência aparente da religião é muita mais fraca do que no Brasil: as igrejas ficam cada vez mais vazias e são utilizadas como centros culturais ou mesquitas4.

Lá, o raciocínio –o racionalizar de todos os fenómenos e o secularismo estão fortes e puxaram a fé para o domínio privado, se é que ainda existe. Neste domínio, o catolicismo batalha espaço com as várias formas de protestantismo, as religiões orientais, e o secularismo. Em 2008 o CBS (Instituto Central da Estatística holandês) fez uma pesquisa na qual 29% do povo holandês se considerou católico, 19% protestante (reformado, luterano, evangélico), 4% muçulmano, 6% disse ter outra religião (judeu, hinduísta, budista, cristão ortodoxo) e 42% sem religião5. Movimentos pentecostais estão presentes de maneira marginal e as religiões dos afro-descendentes não desempenham um papel significante para a sociedade.

Isto não é apenas uma enumeração de dados religiosos; isto nos diz algo sobre a sociedade onde isto acontece, que é bem diferente da sociedade brasileira. Não só porque tem relativamente menos fiéis, ou porque eles estão divididos de uma maneira diferente. É também porque quando vemos a religião como uma parte fundamental da cultura, a presença ou a ausência de uma oumais religiões, tem uma forte influência naquela sociedade.

Como consequência, chegamos a uma primeira divisão entre as culturas holandesa (e “o mundo ocidental”, como gostamos de dizer na Europa) e a brasileira. Temos que entender primeiro que para o africano que foi trazido para o Brasil, como para o indígena, mas também para o ‘catolicismo popular’6 , os aspectos da vida estão muito mais interligados do que o Europeu (ainda) reconhece7.

Não há uma divisão “secular”: sua religião determina o trabalho que você faz, a comida que você come, e como resolve os problemas físicos. A religião, para a maioria dos holandeses e no mundo ocidental tornou-se uma coisa particular, privada, que você pratica aos domingos na igreja. Mas para uma grande parte das pessoas em outras partes do mundo, as ligações religiosas existem em contexto pessoal e social. Para o europeu, estas coisas estão bem separadas.

A razão desta diferença é tema para um outro debate, e aqui não há espaço para entrar8. O que importa para meu propósito é que esta diferença existe. Porque, mesmo a situação social e religiosa na Holanda (e Europa ocidental) sendo bem diferente daquela que encontrei no Brasil, a capoeira se espalhou e se desenvolveu em ambos os países e continentes.

Claro que o berço da capoeira é o Brasil, e que ela tem muito mais história lá, e um nível alto que é mais amplo espalhado. Mas no fundo a capoeira ficou a capoeira. Há jogadores bons na Europa (e nos outros continentes) que podem se meter com qualquer um no Brasil, que entendem o jogo, sabem dos rituais e de tudo o mais. Não-Brasileiros que dão aula e se tornam contramestres e até mesmo mestres.

Tem gente cantando sobre a escravidão, sobre os orixás, os santos, fazendo orações, mesmo sem nunca terem vivido esta cultura. Não se consideram (necessariamente) religiosas, e as religiões ‘ligadas’à capoeira são, na grande parte, alheias à eles, porque não fazem parte da situação social onde eles vivem.

Como explicar este fenômeno? Como uma cultura que às vezes é tão diferente, é tão ‘facilmente’ incorporada no mundo inteiro por pessoas de culturas totalmente alheias, até que ponto os praticantes de capoeira incorporaram uma certa religiosidade ou espiritualidade que faz parte desta cultura onde a capoeira nasceu? Será então que a capoeira leva a uma certa religiosidade das religiões que são parte da cultura brasileira, ou devemos entender este fenômeno de uma maneira diferente?

Para começar a entender isto, considero as religiões e crenças de um ponto de vista acadêmico, quer dizer racionalizado, até mesmo categórico e talvez um pouco abstrato. Então eu não imagino falar sobre a espiritualidade de cada um, ou como todos os capoeiras convivem ou praticam suas religiões, ou qualquer outro aspecto que seja pessoal, individual.

Fé é fé e tem pouco de acadêmico;  ela também não é entendida por todos os fiéis da mesma maneira. E estou também consciente que a capoeira tem uma significação diferente para cada um que a pratica. O que eu procuro aqui é tentar entender uma parte deste fenômeno com os instrumentos e conhecimentos acadêmicos que eu tenho ao meu dispor9.

 

2. Ferretti (1997), Vassallo (2009)

3. Subsistem hoje tribos em um número muito pequeno, face o que houve antes. Mesmo assim, depois de cinco séculos de genocídios e agressões, distribuem-se em diferentes etnias e algumas nações indígenas; várias tribos com suas culturas próprias e, em seu interior, com sistemas religiosos peculiares. Mesmonos casos em que inúmeros do seus membros já se converteram a alguma confissão cristã. Então não é uma vaga espécie única de religião com um misterioso deus supremo: Tupã. Brandão, (2004) Mas a influência destas religiões e crenças no mundo de capoeira ainda é pouco pesquisada.

4. O que provavelmente também não vai durar muito tempo, vendo que os muçulmanos no ocidente já pensam de outra maneira sobre qual deveria ser a papel da sua religião dentro a sociedade.

5. CBS, 2009

7. Esta antiga forma de catolicismo ibérico politeísta forma parte central do meu argumento. Por isso vou entrar nesta forma mais adiante.

8. Por exemplo, só na maneira de preparar a comida já existem hábitos e costumes baseados na crença. E para quem é filho de santo, sabe-se que não pode comer alguns alimentos, de acordo com o santo.

9. Se a causa desta diferença foi o iluminismo europeu ou o desenvolvimento das sociedades modernas que passavam certo nível de complexidade e assim atingiram um alto nível de funcionalidade diferenciada onde não se pode manter a universalidade social de uma visão de mundo essencialmente religiosa, (Luckmann (1990) ou que há outras explicações, eu deixo para o leitor.

 

Dolf van der Schootcapofilosofo@gmail.com

Religiosidade na Capoeira

Dentre os vários aspectos expressos pela capoeira, o componente mítico-religioso sempre foi para mim, um dos que mais suscitou curiosidade. Debates, opiniões e muitas histórias contadas e recontadas através da tradição oral presente na cultura popular, são a motivação para a minha pesquisa nesse universo.

O aspecto mágico e misterioso, conhecido no universo da capoeiragem como “mandinga”, por exemplo, é um dos elementos importantes para uma compreensão mais aprofundada sobre essas questões. O substantivo “mandinga” se refere possivelmente à região Mandinga, na África ocidental, banhada pelos rios Níger, Senegal e Gâmbia. Entre os africanos trazidos para o Brasil, havia a crença de que nessa região habitavam muitos feiticeiros. Daí podemos compreender melhor o sentido que esse termo acabou ganhando na capoeira

O grande mestre Valdemar da Liberdade disse uma vez que os mestres de antigamente “…tinham muita mandinga, viravam folha, viravam bicho. Aquilo era próprio para barulho. Besouro era um grande capoeirista, mas tudo debaixo de oração”. Cobrinha Verde se dizia católico, mas não deixava de recorrer também às tradições religiosas africanas para o “fechamento de seu corpo” no sentido de se proteger dos inimigos “desse mundo e do outro”, dizia ele.

Os depoimentos dos capoeiras mais antigos evidenciam a mandinga enquanto componente fundamental da capoeira. O termo mandinga pode designar a malícia do capoeirista durante o jogo, fazendo fintas, fingindo golpes e iludindo o adversário. Mas pode referir-se também a uma certa dimensão sagrada, um vínculo que muitos praticantes de capoeira possuem com os preceitos de algumas religiões afro-brasileiras. Em geral, boa parte das manifestações de origem africana no Brasil, de uma forma ou de outra, trazem algum aspecto que evidencia uma aproximação maior ou menor com as religiões afro-brasileiras.

Mas dizer que a capoeira possui aspectos de religiosidade, não significa dizer que ela está diretamente ligada a essa ou àquela religião em particular, pois existem praticantes de capoeira de todas as religiões. Na capoeira não se pergunta qual a religião do capoeirista antes do jogo: simplesmente se convida para jogar.

A capoeira tem religiosidade, mas não tem religião !!!

A religiosidade da capoeira se manifesta através dos seus rituais, dos cânticos, da celebração, da memória dos seus ancestrais, da sua ligação com esse passado de luta e sofrimento. A dimensão do “sagrado” na capoeira se mostra através desses aspectos, e por isso podemos dizer que a religiosidade é um componente importante da capoeira, sobretudo da capoeira angola, embora muitos grupos de capoeira regional também valorizem essa dimensão.

Esses saberes populares que determinam a religiosidade presente na capoeira expressam um vasto campo de significados e de suas ligações com o “sagrado”, assim como muitas outras manifestações e tradições presentes no universo da cultura popular no Brasil. A dimensão do sagrado, tem para o povo simples de nosso país, um sentido muito especial e profundo e que determina suas crenças, seus modos de vida, seus sonhos, suas lutas, suas vitórias e suas derrotas.

 

 

Palmas: Sessão Solene para a entrega da comenda Zumbi dos Palmares

Aconteceu Sessão Solene para a entrega da comenda Zumbi dos Palmares, na Câmara Municipal de Palmas, criada com o objetivo de homenagear Entidades e pessoas que trabalham no Combate ao Racismo no Tocantins. Os homenageados foram Mãe Magna de Oxum (Aldenora Maria do Nascimento) pioneira na expansão da religião de Matriz africana em Palmas, o Grupo de Consciência Negra (GRUCONTO) e Mestre Timbau (Luiz Carlos Silva) que leva a capoeira aos moradores de periferias na cidade de Porto Nacional.

Representando o Prefeito de Palmas Raul Filho, a Secretária da Mulher Direitos Humanos e Equidade de Palmas, Rosimar Mendes frisou em seu pronunciamento a importância do combate ao racismo e também a outras formas de discriminação. Mendes também parabenizou o Vereador “Bismarque do Movimento pela autoria no projeto que cria a Comenda Zumbi dos Palmares”.

Entre os homenageados, Mestre Timbau frisou a importância da “prática da capoeira na periferia” e ressaltou a luta do povo negro e suas conquistas. Mãe Magna de Oxum frisou a importância do respeito às religiões. O representante do GRUCONTO, André Ribeiro, apontou “A importância do reconhecimento da luta de Zumbi dos Palmares e a valorização do povo negro” durante seu discurso na tribuna.

Para o Vereador Bismarque do Movimento a Comenda Zumbi dos Palmares é importante para valorizar “as lutas e conquistas do Movimento Negro e das religiões de Matriz africana no combate ao preconceito” afirmou durante pronunciamento.

A Câmara Municipal de Palmas é a única Instituição Tocantinense a premiar trabalhos de Combate ao Racismo no Estado. O Vereador Bismarque do Movimento é o autor do Projeto de resolução que cria a Comenda Zumbi dos Palmares. (Informações da ascom/VBM)

Crença disfarçada

 
Apenas 0,49% da população de Salvador, considerada a cidade mais negra do país, se declara adepta das religiões afros
 

Adriana Jacob
 
Mãe Carmen do Gantois diz que muitos filhos do candomblé não se assumem como tal

Pouca gente sabe, mas a cidade gaúcha de Rio Grande é o município brasileiro onde mais pessoas afirmam ser adeptas de religiões afro-brasileiras. O dado consta no estudo Retrato das religiões do Brasil, divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Na pesquisa, Salvador, que costuma ser considerada uma espécie de Meca quando o assunto são as religiões de matriz africana, aparece numa modesta 172a posição.

É isso mesmo. Menos de 1% dos soteropolitanos se declaram adeptos de religiões afro-brasileiras. No percentual exato, 0,49% da população da cidade mais negra do Brasil afirma crer na religião dos orixás, inquices e voduns. Entre os 5.507 municípios pesquisados, a capital baiana perde no item em questão para 171 localidades. No ranking das "dez mais", aparecem lugares de muito menos visibilidade, como Dezesseis de Novembro (RS), Carnaubeira da Penha (PE) e Divino de São Lourenço (ES).

O estudo, feito através do processamento dos microdados do Censo Demográfico 2000, causou polêmica entre babalorixás, ialorixás, e pesquisadores baianos. "Isso para mim não é surpresa nenhuma. Nossos ancestrais mascararam a religião, colocaram santos de igreja no lugar dos orixás, tiveram que negar sua origem. Isso se infiltrou no sangue e na mente de seus descendentes até hoje. Os próprios filhos do candomblé não se assumem como tal. Eu não condeno ninguém, são os resquícios da escravidão", afirma mãe Carmen Oliveira da Silva, ialorixá do Terreiros do Gantois, casa fundada em 1849.

Ela conta a história de uma adolescente que teve a foto publicada no jornal, associada a um terreiro. "Quando perguntaram na escola, ela disse que não era ela, negou. Muita gente não assume que é do candomblé, mas você vai numa festa para orixás e a casa está cheia", diz a sacerdotisa.

"Como o negro e sua cultura foram por demais desvalorizados, o que ocorre é que muitas pessoas preferem dizer que são da Igreja Católica. No fundo, é o racismo, a vergonha de sua condição de afro-brasileiro. Ainda existem aquelas pessoas que querem disfarçar", analisa a escritora, advogada e agbeni Xangô do também tradicional terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, Cléo Martins. "Já no Rio Grande do Sul, onde mais pessoas afirmam ser adeptas, a maioria é branca, então eles não têm essa crise de identidade".

O presidente da Fundação Palmares do Ministério da Cultura e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ubiratan Castro de Araújo, questiona a metodologia da pesquisa. "Se você perguntar qual a religião de uma pessoa na Bahia, a maioria ou não sabe, porque tem uma religião muito aberta, composta por várias coisas – ela vai no candomblé, na igreja, no centro espírita e na messiânica – ou diz que é católica porque foi batizada. A pesquisa em si é algo discutível, eu questiono essa metodologia porque ela não consegue perceber esse fenômeno sentido na Bahia", analisa o historiador.

Ele cita a si próprio como exemplo: "Eu integro a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, no Pelourinho, e vou me tornar ogã de Obaluaê de um terreiro. A minha religião é de dupla pertença, ligada aos negros católicos e à tradição afro. O ideal então seria perguntar quais são suas religiões, no plural", afirma.

Cléo Martins considera que, entre algumas pessoas existe uma síntese entre o candomblé e o catolicismo. "O coração da gente é livre, mas essas pessoas que são realmente praticantes das duas religiões jamais vão declarar que são adeptas das religiões afro-brasileiras", opina a agbeni Xangô, que é responsável pelo Alaiandê Xirê do Afonjá.

Em algumas situações, a discriminação chega a se concretizar. O babalorixá Balbino Daniel de Paula conta que uma das suas filhas-de-santo perdeu o emprego depois que a fotografia dela, vestida com roupas do candomblé, apareceu em um jornal. "Ela tinha um bom emprego num escritório, mas depois disso foi demitida", conta Balbino, que pe responsável por outro respeitado terreiro, o Ilê Axé Opô Aganju, em Lauro de Freitas.

Na opinião do antropólogo e ogã de um dos mais antigos terreiro de Salvador, a Casa Branca, Ordep Serra, muita gente ainda é hostilizada pelo preconceito e pela intolerância religiosa. "Em Salvador e região metropolitana, a gente tem mais de dois mil terreiros, não é possível que o número de adeptos seja tão pequeno. Essas estatísticas não trazem a realidade. Acho que muita gente não se declara como praticante do candomblé até por influência africana, onde não existe essa coisa excludente de ser apenas de uma religião".