Blog

sequências

Vendo Artigos etiquetados em: sequências

Capoeira Angola e Regional: Fugindo da aparência e ressaltando a essência

O dialogo que propomos aqui faz referencia ao universo das aparências no mundo da capoeira, ou seja, queremos tratar sobre os equívocos em relação à tradição herdada da obra de Bimba e Pastinha, que vez ou outra, são citados como forma de justificarem ou validarem praticas que em muito se distanciam da realidade dos estilos desenvolvidos no processo histórico da capoeiragem.

Iniciaremos falando um pouco sobre o conceito de Tradição em Capoeira, pois este tem sido mal compreendido e utilizado de forma errônea para validar posturas que em nada se relacionam com os ensinamentos básicos da arte. Neste sentido, precisamos entender que a tradição não pode ser encarada como algo imutável e/ou verdade única, pois a mesma sempre estará se desenvolvendo como fruto de cada tempo histórico e suas necessidades. Assim, em se tratando da capoeira, a grande maioria das coisas que chamamos de tradição atualmente foram inventadas por volta da década de trinta, fato que comprova a mutabilidade do tradicional, contudo,  não podemos negligenciar o valor destas transformações, ainda que recentes, para justificar inovações atuais incoerentes com os princípios capoeiristicos, pois ai estaríamos cada vez mais nos distanciando do potencial educativo simbólico de nossa arte.

Grupos intitulados atualmente de Angola ou Regional, tem apresentado um disparate metodológico e de fundamentos, quando investigamos a matriz do estilo que se dizem defensores, pois estes tentam fundamentar suas praticas em uma simbologia superficial e negligenciam princípios fundamentais dos estilos, ou seja, temos observado situações absurdas que estão paulatinamente confundindo os mais jovens e ainda criando paradigmas e verdades absolutas que em nada se relacionam com os trabalhos de Bimba e Pastinha.

No caso da Regional, temos observado a redução deste estilo a simples utilização das seqüências, da bateria com um berimbau médio e dois pandeiros surdos, balões, uso da marca alusiva ao signo de Salomão numa camisa e principalmente ao abuso em relação aos ensinamentos de Bimba e outros fatores, fato que consideramos lamentável, pois não vemos os mesmos grupos preocupados em desenvolver os laços afetivos entre seus membros da mesma forma fraterna e respeitosa da tradição Regional, sendo seus praticantes apenas “peças“ da engrenagem de negocio no mundo atual. Os capoeiristas desta “New Regional“ esquecem de investigar a sistematização do estilo e a relevância oral dos mais antigos que fizeram parte da convivência para construção deste processo, desconsiderando que cada símbolo estrutural da Regional só ganhara sentido se considerado num determinado contexto e quando associado a todo o conjunto da obra, ou seja, usar a bateria não basta, usar as seqüências não basta, falar de Bimba todo o tempo não basta, pois a verdadeira forma de revitalizar seu legado seria, em minha humilde opinião, considerar toda a complexidade daquilo que não ta descrito no manual da Luta Regional Baiana e sim na subjetividade das relações sociais dos praticantes e nos fundamentos iniciaticos ancestrais mantidos por Manoel dos Reis Machado.

Na Angola, o processo não esta muito diferente da Regional, pois se vestir amarelo e preto, mesmo sem saber de onde vem estas cores, jogar de forma acrobática e sem gingar muito, cantar de forma difícil de decifrar a letra e ainda ficar com trejeitos exóticos com “caras e bocas“, talvez só assim você seja considerado um “New Angoleiro“ e possa vender o seu “produto“ para alguém alienado por sua propaganda falaciosa. Absurdo, mas este tem sido o retrato da Angola no mundo, salvo os grupos sérios existentes e seus grandes mestres, que na maioria das vezes não estão no circuito internacional espetacularizado dos mega grupos.

Alguns grupos de angola, tem se comportado metodologicamente, como aqueles ditos “contemporâneos“, espetacularizando a pratica, mercadorizando as vivencias sob a forma de seqüências, que de tempos em tempos são modificadas como uma aeróbica na academia de ginástica, garantindo aos mestres/mercado o dinheiro do circuito internacional. Assim, pouco a pouco, a arte capoeira tem perdido lugar para uma pratica “DENOREX“, ou seja, aquilo que parece ser e não aquilo que de fato representa, pois hoje existe uma “industria“ estereotipada de modelos de mestres e praticantes, que tem transformado tudo e todos em algo possível de ser consumido, desvalorizando o aprender-fazendo, o respeito a diversidade e a valorização do Ritmo, Respeito e Ritual como princípios geradores da vadiagem.

Queremos ressaltar que nossa intenção não se articula com a depreciação da capoeira Angola e Regional, mas sim pela reafirmação da beleza e contribuição destes estilos para capoeiragem, pois acreditamos que o potencial simbólico da capoeira tem sido negligenciado pelas armadilhas da busca desenfreada por notoriedade e concorrência de mercado de grupos perdidos/encontrados na total obscuridade das perspectivas transformadoras para um mundo mais critico, criativo e autônomo.

Acreditamos que existem sim possibilidades a luz dos mais antigos e da obra dos que já se foram deste plano de existência, pois trabalhos como da FUMEB, do Mestre João Pequeno, Lua de Bobo e muitos outros, ainda representam um repositório dos fundamentos de nossa arte e neste sentido convocamos toda comunidade para um pensamento critico e investigativo sobre as “verdades“ da capoeira e seus falsos detentores, que lamentavelmente tem se multiplicado pelo mundo, considerando principalmente nossa inércia subserviente e desinformação sobre os princípios da capoeiragem na Bahia.

Jean Adriano Barros da Silva
www.guetocapoeira.org.br
Tel: 55 71 8109 2550 / 3363 4568 / 3366 4214
75 9168 7534 / 75 3634 2653
Bahia – Brasil

A Capoeira no Labirinto das Possibilidades

A Capoeira no Labirinto das Possibilidades
Historia, símbolos, significados e significantes.
Em um mundo de dualidades e dialéticas, tentaremos discutir algumas questões para além do certo e errado, preto e branco, sol e lua, dia e noite, bem e mal. Propomos uma "trialética" nas possibilidades, pois queremos dialogar com uma terceira lógica (polilogica) que acrescente sem inviabilizar ou sobrepor as anteriores, queremos cantar “cantando” de improviso ou tocar no improvável de um rítimo que ainda não pertença a ‘melodia” da vida cotidiana, inalterada e sistematizada pela repetição burocrática dos fazeres pensantes desde Aristóteles.
 
Para esclarecer o intuito deste trabalho, sugiro que imaginemos uma simples árvore, que ao ser olhada por um agricultor desperta o interesse por sua capacidade produtiva, já para homem faminto desperta a perspectiva de alimento por seus frutos, num marceneiro despertaria a idéia de construção de móveis e no cupim despertaria o alimento pela sua madeira, ou seja, mesmo um símbolo simples como uma árvore poderá despertar diferentes possibilidades de desejos e interpretações a partir dos significados dados a mesma por variados significantes.Trazendo para o mundo da capoeira, se pensarmos no berimbau, símbolo máximo da capoeiragem, logo entenderemos, pois o mesmo não fez sempre parte da capoeira, mas hoje é impossível pensar na capoeiragem sem ele, portanto, o que teria sido dessa necessária associação, se quando o primeiro berimbau que fosse introduzido na capoeira, alguém falasse: Epa…. Isso não pode, pois esse instrumento não faz parte das tradições da arte..?  Talvez um outro instrumento ocupasse o lugar do berimbau, ou não, mas a questão principal não é essa e sim, que em dado momento histórico o novo foi aceito, modificando as regras e sendo resignificado diante de uma comunidade, portanto pensar hoje em produção de conhecimento em capoeira passa necessariamente por reconhecer a mudança num contexto de significados e significantes.
 
Como arqueiro de nossa história tencionarei  o arco e flecha da vida, puxando a seta do saber para “traz” e apontando-a para frente, flecharei no futuro algumas possibilidades a partir de interlocuções com o passado e seus diferentes contextos. Pergunto-me se Bimba hoje teria uma Regional de sistematização tão próxima dos métodos de ginástica, mesmo sabendo que atualmente não estamos tão influenciados pelos mesmos nem vivemos uma ditadura facista  que nos obrigue a criar um método com a “cara” de nossa sociedade?  Ou consideraremos puro acaso esses acontecimentos?  Recuso-me e pela negação desses acasos proponho nos dias de hoje a “Polilogica”, ou seja, uma possibilidade de analise da capoeiragem que ultrapasse o certo e errado, tradicional e moderno, proponho partirmos para o funcional legitimado pelos atores sociais diretamente implicados nessa arte, defendendo o diálogo para os combinados palpáveis no cotidiano e não as tradições empoeiradas dos livros da estante ou de cabeças do mundo de “Peter pan”, que não admitem crescer, transformando suas práticas em verdadeiras “terras do nunca”.
 
Ainda temos a Regional de Bimba, Angola de Pastinha ou os berimbaus de Waldemar? Arrisco-me a dizer que não, e isso pelo simples fato de ter sido impossível para Bimba remontar a capoeira de Bentinho ou Pastinha à de Benedito, pois os tempos mudam as pessoas e as pessoas mudam os tempos, sendo a dinâmica cultural impossível de ser congelada ou “xerocada” em sua totalidade.  Quem se considerar “Capoeira XEROX” que atire a primeira pedra…
 
Quero deixar claro que não faço aqui apologia a essas aberrações vendidas por aí com o nome de capoeira, pois não estou defendendo a lógica de que qualquer mudança e necessária e justa, e sim que são legítimas as mudanças adaptativas da capoeira há nosso tempo, desde que as mesmas tenham referencias na ancestralidade histórica e funcional da arte.
 
Uma preocupação que não devemos deixar passar desapercebida e que não podemos confundir as mudanças funcionais adaptativas com a subserviência aos ditames do capital, ou seja, não podemos ingenuamente pensar que a dita capoeira “contemporânea” representa a modernidade, o estilo mais moderno e todo resto e coisa do passado, pois os elementos metodologicos dessa forma “bizarra” de capoeira não possuem nada de “novo”, haja vista, que ainda utilizam processos de estímulo-resposta, macro ginástica, adestramento e seqüências idiotizantes, como os velhos métodos de ginástica da década de trinta, sendo assim, o que existe de moderno nessa “nova-velha” capoeira? Talvez seja a aparência superficial ou o significado dado por um significante alienado e desprovido de elementos teóricos para identificar os equívocos do método hora mascarado pela falsa modernidade.
 
A capoeira contemporânea carioca propõe seqüências de ensino de mandinga, negarças e até mesmo de posturas para se colocar numa roda, ou seja, seria como tentar reproduzir em serie, seqüências, a poesia de Caetano Veloso, as pinturas de Rugidas, as composições de Chiquinha Gonzaga ou o canto de Paulo dos Anjos. Impossível, pois no máximo o que conseguem é fazer cópias mal feitas de uma coisa “Denorex”, que parece, mas não e…  A nossa capoeira não cabe nessa “industrialização de homens”, e isso não só pela minha vontade, mas por sua referencia histórica repleta de uma ancestralidade que em seu método, de ensino-aprendizagem, denota um caminho no sentido contrário ao positivismo dessa ciência “gelada” e dos ditames técnicos-metodologicos alienantes da classe dominante.
 
E necessário, portanto um processo de investigação da realidade que possa desnudar as contradições do modo de produção, revelando historicamente as ingerências do capital na maior parte de vida humana, incluindo a capoeiragem, ou seja, precisamos verificar criticamente o que chamamos hoje de capoeira e qual seu impacto na formação humana e que projeto de sociedade esta sendo defendido na sua prática diária, pois a falácia da capoeira “moderna” poderá facilmente se transformar facilmente na mentira que vira verdade por ter sido dita muitas vezes.
 
Sendo assim precisamos com certeza entender que a cultura e dinâmica e como tal transforma e sofre transformações, sendo assim, a capoeira de hoje deverá certamente ser diferente da de ontem, e não podemos temer ou resistir a isso, desde quando estejamos atentos as referências históricas da arte, sua base filosófica ancestral e as necessidades reais de construção de uma sociedade mais justa, autônoma, crítica e criativa.

Miudinho

Miudinho não é Angola,
Miudinho não é Regional…
Miudinho é um jogo manhoso,
é um jogo-de-dentro,
é um jogo legal…
 
* A letra completa da música se encontra no fianal da matéria.
 
  • Depoimentos:
 
Mestre Gato (BA) nos disse, em 1996, sob o sol de Itapuã:
 "O Miudinho, de Suassuna, é… …é a Angola jogada mais rápido!"
Mestre Brasília: "O Miudinho… é a Capoeira! Mestre Canjiquinha
também tinha um jogo assim, esse jogo-de-dentro
todo "suingado" e ligeiro. Isso é a Capoeira!"
Mestre Suassuna: "O jogo do miudinho gerou polêmica, porque está sendo mal interpretado. O pessoal está achando que é uma nova capoeira e não é nada disso. Eu simplesmente resgatei uma capoeira antiga, modernizei a maneira de jogá-la, mudei as seqüências… O nome miudinho surgiu porque eu estava observando que os capoeiristas estavam jogando muito longe um do outro e na nossa época a gente jogava bem pertinho; então, eu falava para o pessoal: ‘eu quero o jogo mais miúdo, mais dentro, joga bem miudinho’. Então, eu criei um toque no berimbau. O miudinho não é uma capoeira nova; é uma maneira diferente de se mostrar a capoeira. Assim como existe o jogo de Iuna, o jogo de São Bento Grande, existe o jogo de Miudinho."
 
  • Reflexão:
 
Uma coisa é inegável: o fato de que há algo aí, há um certo estilo de jogo característico, com toque específico, conhecido por Miudinho, cantado em prosa e verso por baianos e paulistas, jogado pelos "meninos de Suassuna", e cada vez ganhando mais adeptos e admiradores…
É preciso refletir um pouco sobre a história recente da Capoeira
para compreender o que significa o Miudinho
e o que dele dizem mestres como Brasília, Gato (BA), Acordeon, Decânio,ou o próprio Suassuna, criador do estilo;
Nascidos e crescidos em um círculo capoeirístico para o qual "a Capoeira é uma só, e quem comanda o jogo é o toque do berimbau", acostumados a jogar nas mais tradicionais rodas de Salvador – as dos Mestres Bimba, Pastinha, Waldemar, Gato, Caiçara, Traíra – estes mestres, como tantos outros de sua geração, sempre quiseram sinceramente ver suplantada a grande divisão que aos poucos se sedimentava – a divisão entre as capoeiras Angola e Regional…
Nas décadas de 1970 e 1980, a capoeira atravessou o período de sua grande expansão, a "Grande Diáspora" a que se referem alguns dos filhos daquelas rodas. A capoeira espalhou-se, de forma vertiginosa, pelo país inteiro, e daí para o mundo. Benefícios houve, inegavelmente, como o da inserção da capoeira nos currículos de educação física de universidades e escolas de primeiro e segundo graus; o desenvolvimento das metodologias de ensino; o crescente reconhecimento social da capoeira e, conseqüentemente, a ampliação dos mercados potenciais de trabalho; a aplicação da capoeira em trabalhos de grande valor social, como a adaptação de deficientes físicos e mentais, a reintegração de crianças e jovens marginalizados, a capoeira para a "terceira idade", as aplicações na fisioterapia. Ao lado dos benefícios, vieram também os prejuízos – as desfigurações, ou pelas deficiências de formação de jovens "mestres", ou pela exacerbação da agressividade, descambando para a violência.
Durante esse período, Mestre Suassuna, sempre atento à evolução das coisas, e preocupado com as desfigurações da arte-luta, terminou por elaborar (com a colaboração de alguns de seus discípulos formados) seqüências de treinamento que fixavam e preservavam o que havia de mais precioso em toda a movimentação da capoeira que viveu, viu e ensinou durante sua vida. Na década de 1990, passou estas seqüências (eram por volta de 12 seqüências individuais, e 2 de conjunto) a seus mais novos alunos. Alguns destes jovens já começam a ser bem conhecidos no mundo da capoeira: Boca-Rica, Habibs, Kibe, Mintirinha, Muriel, Wagner (Saroba), Denis, Taturana, Coruja, entre outros, donos de uma capoeira rica, vigorosa, bonita de encher os olhos.

Read More

Mestre Bimba um visionário

Mestre Bimba
 
 
 
Um visionário…. em meados da década de 30 ele ja sabia o valor da "Publicidade!"
 
 
 
Em 1932, Mestre Bimba funda a primeira Academia de Capoeira do mundo em recinto fechado.
 
 
 
Criou a primeira metodologia de ensino através de Seqüências de Ensino que permitia um aprendizado mais racional e num espaço de tempo menor.
 
{mos_sb_discuss:8}