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Capoeira e Educação Libertária para Formação de Sujeitos Autônomos

CAPOEIRA E EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA PARA FORMAÇÃO DE SUJEITOS AUTÔNOMOS
as práticas de ensino nas rodas de rua do RJ Omri Ferradura Breda Professor especializado em capoeira na Educação Infantil

 

Introdução

O ensino da Capoeira como ferramenta educacional foi amplamente difundido a partir da década de 1990, da creche à universidade em todo o território nacional. Entretanto, é associado a uma visão restrita que considera apenas os aspectos motores, musicais e artísticos da prática. O papel libertário histórico da Capoeira é geralmente negligenciado. O trabalho visa caracterizar a Capoeira como prática educativa transformadora no desenvolvimento da autonomia. São analisadas experiências educativas espontâneas em rodas de Capoeira desenvolvidas nas ruas. Os conceitos de autonomia, autoritarismo, liberdade e disciplina em nível político, social e individual são aqui enxergados em sentido amplo e relacionados diretamente com as teorias de educação libertária. Nesse sentido, tendo em vista a pluralidade de visões acerca do tema, recorri aos estudos de Michael Alexandrovich Bakunin, Alexander Sutherland Neill, Paulo Freire, Maurício Mogika e Silvio Gallo, entre outros. Concluo apresentando como a Capoeira se legitima em poderosa ferramenta pedagógica para uma educação democrática.

Se existe uma palavra que define o papel da Capoeira nas lutas sociais de que tomou parte, determinando seu papel como arma de resistência cultural, essa palavra é liberdade.

Por ser esse conceito tão temido e oprimido ao longo da História, o negro capoeirista1 sempre representou uma ameaça ao sistema político brasileiro, conhecido pela seletividade com que contempla as liberdades individuais e coletivas da elite social e das camadas populares.

A Capoeira, pela sua própria origem e ancestralidade, foi duramente perseguida, e seus praticantes foram dizimados pela ação do Estado. A partir da Era Vargas, contudo, a ideologia ufanista foi paulatinamente incorporando-a como símbolo da Pátria, “Esporte Nacional”. O turismo passou a consumi-la e a determinar uma nova estética, baseada em acrobacias impressionantes. A prática rebelde passou a ser aceita, mas somente de forma normatizada, regulamentada, institucionalizada. Formas sutis de arregimentação social se revelaram mais profícuas do que a mera repressão.

O objetivo de conceder legitimidade sob os auspícios do Estado era melhor para poder controlar, vigiar e, em última instância, suprimir o caráter transgressor da Capoeira. Não obstante, a capacidade de adaptação, de disfarce, de camaleonização da cultura negra permitiu a ela mudar em muitos aspectos, preservando sua essência, seu caráter libertário.

Neste trabalho serão analisadas as potenciais contribuições da Capoeira na área da Educação, especialmente no tocante ao desenvolvimento da autonomia, nos níveis individual e político, tendo em vista o ensino socialmente comprometido.

A relevância do tema é afirmada levando em conta a abrangência nacional da Capoeira, sua aplicabilidade e presença em todos os ambientes educacionais formais e não formais nos mais diversos níveis sociais e a efetividade dos resultados atingidos em inúmeras instituições educativas.

Os objetivos deste trabalho são: analisar as contribuições da Capoeira para a construção da autonomia; caracterizar a Capoeira como prática educativa libertária e refletir sobre a sabedoria ancestral da educação espontânea não institucionalizada das rodas de Capoeira realizadas na rua.

Metodologia

Os principais marcos teóricos utilizados na conceituação das relações entre liberdade e autonomia foram os estudos de Bakunin, Alexander Neill, Paulo Freire, Maurício Mogika e Silvio Gallo. Os autores pesquisados divergem em relação a várias questões. O objetivo neste trabalho não é analisar a obra deles, e sim dialogar com eles, relacionando seus estudos à potencial contribuição da cultura afro-brasileira à educação.

Foram analisados, in loco, aspectos relacionados à didática da Capoeira em rodas de rua, na condição de professor-pesquisador dessa arte desde 1991. As observações específicas quanto ao caráter politicamente transformador da Capoeira nas práticas institucionalizadas ou não estão baseadas nessa experiência pessoal.

Desenvolvimento

O trabalho interliga o campo da educação ao da política, da sociologia e do saber popular. Esse modelo se justifica pela impossibilidade de explicar os fenômenos ligados à Capoeira fora de uma visão sistêmica. Segundo Mogika (1999), “na pedagogia e na psicologia humanistas o ser humano é entendido como um organismo complexo, no qual são indissociáveis mente, corpo e sociedade, isto é, ele é um ser bio-psico-social” (p. 61). Esta também é uma das principais características da cosmovisão africana: encarar o homem como um ser integral, no qual mente-corpo-espírito-sociedade estão interligados. A Capoeira como prática educativa situa a África na vanguarda do pensamento humanista, muitos séculos à frente da filosofia compartimentalizada ocidental só recentemente voltada ao holismo.

Definindo a Capoeira

Tentar conceituar a Capoeira requer um exercício de imaginação, dada a pluralidade de perspectivas assumidas pelos diversos praticantes e estudiosos do tema.

É na própria diversidade, na capacidade de assumir perspectivas opostas sem que uma anule a outra, que reside a força da Capoeira. Arte marcial, esporte, dança, teatro, folclore, todas essas definições parciais já foram utilizadas na tentativa de conceituá-la. É necessário afirmar essas diferenças como facetas de um todo para compreendê-la como arte que pode e deve se adaptar às diversas contingências históricas e sociais. Mestre Pastinha2, poeticamente chamou-a de “mandinga de escravo em ânsia de liberdade”. Ao afirmarmos que a Capoeira é caracterizada por uma atitude de afirmação da liberdade desde a sua gênese (“mandinga de escravo em ânsia de liberdade”), acreditamos que solidificar conceitos seria restringir essa arte a uma doutrina estanque; “provocar o seu sepultamento, negar sua principal força seria a negação do princípio básico da liberdade” (GALLO, on line). Ou seja, podemos apresentar aspectos da Capoeira, não defini-la.

Aceitando essa premissa iremos, sem assumir reducionismos, priorizar para fins deste trabalho um corte epistemológico que afirme a Capoeira como arte educativa libertária e socialmente comprometida com a mudança.

Autonomia e educação para a liberdade

A prática libertária da Capoeira tem como objetivo favorecer o desenvolvimento da autodisciplina e da autonomia no educando. Não obstante, a vivência dessa filosofia na prática diária não ocorre sem conflitos. Sendo assim, antes de analisarmos as relações de ensino-aprendizagem na Capoeira é fundamental definir como iremos trabalhar os conceitos de autonomia, liberdade, licenciosidade, autoridade, autoritarismo e disciplina.

Liberdade e autonomia

Bakunin defendia a liberdade como:

o direito absoluto de todo homem ou mulher de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para os seus atos, de determiná-los apenas por sua própria vontade e de (…) serem responsáveis primeiramente perante si mesmos, depois, perante a sociedade (p. 74). Para Mogika, o termo liberdade significa irrestrição; já a autonomia seria

a capacidade de definir suas próprias regras e limites, sem que estes precisem ser impostos por outro: significa que aquele agente é capaz de se autorregular. Logo, na palavra autonomia estão implícitos, simultaneamente, a liberdade relativa do agente (…) e a limitação derivada da relação com o mundo natural e social (MOGIKA , 1999, p. 59). Na roda de Capoeira o jogador não é proibido de fazer o que quer que seja, pois se trata de um jogo sem regras formais; porém a liberdade do indivíduo é contingenciada por acordos tácitos estabelecidos na relação com as liberdades dos demais. Exemplificando: um capoeirista não é proibido de, num acesso de raiva, gratuitamente arrancar os dentes de outro com um chute, mas se o fizer será punido pelo meio social. A decisão e a responsabilidade pelo autocontrole ficam a cargo do indivíduo. É nesse sentido que a prática da Capoeira vai auxiliar na formação da autonomia, posto que, segundo Freire (1996, p. 107), ela se constitui

“na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas” e que “uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade”. É no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade (idem, ibidem). Liberdade individual e licenciosidade

Concordo com Neill (1980) nas suas premissas básicas: 1) A liberdade trata dos direitos da pessoa; e 2) a licenciosidade consiste em ultrapassar os direitos alheios.

No exemplo citado, é clara a escolha que o indivíduo tem entre assumir um ou outro extremo; na prática da Capoeira, a capacidade de se disciplinar é o que garante ao jogador o gozo de sua própria liberdade.

Liberdade como valor político

A liberdade individual pregada pela Capoeira só se realiza em comunhão com a liberdade de todos, ou seja, esse conceito só pode ser vivido se estendido a todos. Bakunin (1980) entendia a liberdade de cada um como um valor que, longe de ser delimitado pela liberdade alheia, encontrava nela “sua confirmação e sua extensão ao infinito; a liberdade ilimitada de cada um pela liberdade de todos, a liberdade pela solidariedade, a liberdade na igualdade” (op. cit., p. 41). E ainda:

Não é verdadeiro que a liberdade de um homem seja limitada pela de todos os outros. Só sou livre quando minha personalidade, refletindo-se, como em inúmeros espelhos na consciência de outros homens livres (…), retorna-me reforçada pelo reconhecimento de todos. A liberdade de todos, longe de ser um limite da minha (…), é, ao contrário, sua confirmação, sua realização e sua extensão infinita (idem, p. 33). Portanto, nessa visão não há contradição entre a liberdade individual e conscientização política; pelo contrário, a primeira é condição complementar à segunda. Somente cidadãos autorregulados, autodisciplinados serão capazes de viver em “uma democracia participativa, em que cada pessoa participe ativamente dos destinos políticos de sua comunidade” (GALLO, on line).

Autoridade, autoritarismo e disciplina

A autoridade é uma qualidade que se demonstra pelo exemplo, pelo conhecimento e pelo respeito e empatia com o aluno. Ela não pode ser confundida com o autoritarismo, que se impõe na pressuposição de que o professor “sabe mais” (Capoeira, Biologia, Matemática) e deve ser “respeitado” por isso. Respeitado aqui significa ser ouvido sem contestação alguma por parte do aluno. A autoridade democrática, segundo Freire (1996), não necessita fazer discurso sobre si mesma, pois ela é uma realidade, assim como uma cadeira ou um sentimento.

Freire defendia que a autoridade do professor deve sempre ser acompanhada pela liberdade do aluno; somente dessa forma ela se legitima e oferece as condições para o surgimento da única disciplina que merece ser chamada como tal, a autodisciplina.

Resultado da harmonia ou do equilíbrio entre autoridade e liberdade, a disciplina implica necessariamente o respeito de uma pela outra. (…) O autoritarismo e a licenciosidade são rupturas desse equilíbrio (…), são formas indisciplinadas de comportamento. Assim como inexiste a disciplina no autoritarismo e na licenciosidade, desaparece em ambos, a rigor, autoridade ou liberdade (FREIRE, 1996, p. 89). A Capoeira de rua

A relação mestre-discípulo do período anterior era caracterizada pela liberdade dada ao aprendiz. A imensa maioria dos Capoeiras antigos passou por diversos tipos de ensinamento com diferentes mestres, sempre de forma não sistemática. Era no Mundo (e não na Academia) que se aprendiam os conhecimentos a serem aplicados no Mundo: a malícia, a malandragem, a violência, a arte. A Capoeira “acadêmica” sempre teve como contraparte as práticas livres de capoeiristas free-lancers, autônomos, desvinculados do sistema, que faziam da rua seu meio de expressão. Diferentemente de hoje, quando a maioria dos capoeiristas realiza rodas em seus próprios espaços, até a década de 1960 a norma eram as rodas de rua, feitas em praças públicas, feiras e festas populares. Essas manifestações espontâneas foram diminuindo de frequência nas décadas seguintes.

A Capoeira como capital cultural

Iremos analisar agora como as chamadas “rodas de rua” se caracterizam por espaços educacionais democráticos.

Tomemos como referência a chamada Roda Livre de Caxias, manifestação cultural realizada desde a década de 1970 no município de Duque de Caxias. Veremos como a trajetória da roda se confunde com a de seus fundadores. É a partir de seus exemplos concretos que demonstrarei o potencial transformador da Capoeira.

Rabelo (2005) narra o caminho traçado por esse grupo de jovens criados em áreas desfavoráveis da Baixada Fluminense, que souberam por meio da Capoeira transformar a adversidade em oportunidade.

Não bastasse a discriminação sofrida pela sua cor e classe social por parte da sociedade, esses jovens, por se recusarem a assumir os valores militarizados vigentes na época, eram também marginalizados no próprio meio da Capoeira institucionalizada. Buscaram, então, como alternativa, levar a Capoeira para a rua e dela fizeram a sua escola.

Mestre Cinésio Peçanha “Cobra Mansa”4 (radicado em Washington-DC, EUA), Mestre Rogério Peixoto (radicado em Kassel, Alemanha), e Mestre Jurandir Nascimento (radicado em Seattle – EUA), por meio da Capoeira, saíram da Baixada Fluminense para se tornarem “embaixadores culturais” brasileiros. Seus passaportes estão carimbados pelas dezenas de países por onde passam anualmente ministrando cursos de nossa cultura: Inglaterra, França, Alemanha e Finlândia. Para compreendermos como a Capoeira possibilitou uma educação autônoma para esses mestres, precisamos analisar as condições em que se deu a sua “formação escolar” na roda de rua. Tomaremos como exemplo a prática de seu atual guardião, Mestre (ou “Zelador”) Russo5.

A jornada de um intelectual orgânico brasileiro

Russo afirma em seus discursos públicos: “Só tive oportunidade de estudar até a admissão ao ginásio, os cinco primeiros anos; o resto foi a Capoeira que me fez “correr atrás”. Aprendi a oratória na prática de artista de rua, contando piada para manter o publico entretido ente um salto e outro por dentro de argolas incrustadas com facas”.

Russo é um orador popular; como percebido em seu discurso, a oratória pública foi exercitada inicialmente com o humor. Posteriormente, Russo refinou sua arte utilizando a própria Capoeira para suas reflexões filosóficas.

Durante a execução da roda, não raro interrompe seu andamento e mantém o povo que passa por lá atento às suas observações sobre variados temas. Por exemplo, partindo da discriminação sofrida no meio da Capoeira, Russo utiliza a indução, indo do particular para o genérico, para falar sobre a discriminação em geral, tocando publicamente em temas tabus, como preconceito de classe, cor, gênero, religião.

Após provocar a reflexão no público não capoeirista, Russo faz o caminho inverso: parte do geral para o particular, narrando como a sociedade de controle6 atua de tal forma que o Capoeira passa a reproduzi-la no seu campo individual, sem mesmo perceber a contradição entre a sua prática autoritária e a premissa básica da Capoeira, que é a liberdade.

Sem ter ouvido falar de Focault, Freire ou Gramsci, ele justifica a necessidade de falar em praça pública com o argumento de que “a palavra também é poder”; portanto, o povo pode e deve se utilizar dela. Sua erudição já lhe rendeu um livro publicado (RABELO, 2005) e diversos estudos acadêmicos sobre sua prática.

Howell (2004), a seu respeito, escreveu: “Russo é um “intelectual orgânico” respeitado pela coletividade. Apesar de pobre, já foi à Europa e aos EUA como convidado de honra. Sua formação foi puramente cultural e é um exemplo do potencial sucesso da educação cultural preconizada por Paulo Freire” (p. 21). A prática espontânea da Capoeiragem em espaços públicos e orientada para o povo auxilia na formação de uma consciência crítica em relação à cidadania e no desenvolvimento da autonomia. Mestre Russo é a prova viva disso.

Outro exemplo é a chamada Conexão Carioca de Rodas de Rua, liderada por diversos mestres de Capoeira desde o ano 2010. Esse movimento inclui, em um ambiente de não violência e de respeito mútuo, praticantes de diversas linhas de Capoeira, num processo educativo a que chamo “didática libertária das rodas de rua”.

A didática libertária da roda de rua

A maior parte das rodas de Capoeira leva o nome de quem as comanda, isto é: “Roda do Mestre Fulano ou Mestre Beltrano”. Isso não se dá nas rodas de rua. Em geral, elas se colocam com nomes dos logradouros que ocupam, muitas vezes escolhidos por serem locais representativos da cultura negra: Caxias, Arco do Telles, Cais do Valongo etc.

Em geral, a didática libertária da roda de rua tem como características principais a liberdade de ação igualitária; a descentralização da autoridade; a participação popular; e o internacionalismo, assim:

A liberdade de ação igualitária é a possibilidade de qualquer capoeirista, independentemente de seu grupo de Capoeira, idade, nacionalidade, tempo de serviço, status, posto dentro da Capoeira (mestre, professor, aluno) ou habilidade, se expressar musical, artística ou fisicamente sem receio de ser coagido ou reprimido por conta de sua condição. Na prática da roda isso se expressa no chamado “jogo de compra”, em que o capoeirista adentra a roda no momento em que julga apropriado, sem necessidade de pedir permissão a quem quer que seja. Na maioria das rodas esse procedimento resulta em desordem ou é desencorajado por conta da vaidade dos jogadores mais graduados, que insistem em se exibir um sem-número de vezes, nas rodas de rua não raro um jogo pode levar até vinte minutos sem interrupção. Minha teoria é de que a liberdade oferecida tende a gerar a autodisciplina. A descentralização da autoridade – Apesar da presença constante de diversos mestres na roda, estes não interferem constantemente em seu andamento, tampouco regulam a entrada ou o tempo de jogo dos participantes com a mesma rigidez autoritária que muitas vezes praticam em suas escolas. O controle é feito de forma tácita pela própria coletividade dos capoeiristas. Tende a imperar na rua o respeito pelo outro e, quando há excesso individual por parte de algum dos presentes, os demais zelam pelo bom andamento da roda, dialogando com este ou inibindo-o fisicamente. Acredito que essa falta intencional de uma autoridade central cria um clima de responsabilização coletiva pelo bem comum. “Neste sistema já não há propriamente poder. O poder baseia-se na coletividade, e torna-se a expressão sincera da liberdade de cada um, a realização fiel e séria da vontade de todos” (BAKUNIN, s/d, p. 60). A participação popular – Segundo Mestre Russo, um dos principais objetivos da roda de rua de Caxias é “devolver ao povo o que ao povo pertence: a sua própria cultura”. Ao contrário das rodas organizadas por grupos de Capoeira na rua, nas quais a participação popular costuma se restringir à condição de espectador, as rodas abertas caracterizam-se por serem de rua, ou seja, abertas ao povo, que ali atua de forma ativa. É comum a participação de mendigos, crianças de rua, esfarrapados e loucos lado a lado com capoeiristas profissionais. A liberdade é tão prezada que até mesmo “entidades espirituais” jogam7. O internacionalismo – Caracteriza-se pela afirmação da aceitação da alteridade e, consequentemente, pela negação a qualquer forma de discriminação na roda. A inimaginável cena de finlandeses, ingleses, americanos ou japoneses visitando a Baixada Fluminense é comum todos os domingos, na Praça do Pacificador, em Caxias, ou nas diversas rodas espalhadas pelas ruas do Rio. Esses estrangeiros são aceitos e participam de forma igualitária dentro de uma cultura notadamente brasileira. A Capoeira, sob essa ótica, de certa forma deixa de ser um “bem”, uma “posse” brasileira, e passa a ser uma cultura “brasileiro-universal”, pois essas pessoas são parte integrante do meio. É interessante perceber que, no imaginário popular, desde a fundação do Estado Novo a Capoeira tem sido representada como símbolo da Pátria, mas, paradoxalmente, atualmente tem botado em xeque a noção de identidade nacional, quando se une o enaltecido passado africano ao presente internacionalismo.

Segundo Gallo, a noção de identidade nacional foi concomitante à criação do Estado-nação:

a constituição dos Estados-nações europeus foi um empreendimento político ligado à ascensão e consolidação do capitalismo, sendo, portanto, expressão de um processo de dominação e exploração”; portanto, “é inconcebível que a construção de uma sociedade libertária possa se restringir a uma ou a algumas dessas unidades geopolíticas às quais chamamos países (on line). Ainda a esse respeito, no ideal de Bakunin (1980), seria necessário reduzir

o assim chamado princípio da nacionalidade, princípio ambíguo, cheio de hipocrisias e de armadilhas, princípio de Estado histórico, ambicioso, ao princípio muito maior, muito simples e único legítimo, da liberdade: cada um (…) tem o direito de ser ele próprio, e ninguém tem o direito de impor-lhe seus costumes, sua vestimenta, sua língua, suas opiniões e suas lei; cada um deve ser absolutamente livre em si.< Todas estas ideias estreitas, ridículas, criminosas, de grandeza, de ambição e de glória nacional são boas apenas (…) para enganar os povos e amotiná-los uns contra os outros, para melhor submetê-los (idem, ibidem, p. 57-58). A liberdade e a prosperidade das nações deveria levar à superação das diferenças regionais, “à comunicação entre todos os países, à abolição das fronteiras, dos passaportes e das alfândegas” (idem, ibidem, p. 91).

Ao defender a igualdade entre capoeiristas brasileiros e estrangeiros, a Capoeira supera o nacionalismo e se afirma como elo entre os povos. As rodas de rua são um encontro ecumênico, pluriétnico e multicultural. A didática da rua é a didática da Capoeira libertária, e em sua vivência a democracia se afirma.

Conclusão

As práticas da Capoeira ilustram o modo como se poderia aplicar o conhecimento popular na Educação, em uma concepção libertária e democrática. Porém, para que a autonomia individual se realize em ato político democrático, é necessário que o indivíduo se imbua de responsabilidade social, o que, entre outras coisas, num país como o Brasil significa fazer da ação pedagógica um instrumento de transformação social.

A ação política na Capoeira se caracteriza pela luta social em prol de uma sociedade justa que recuse a discriminação e as desigualdades sociais. Cada sujeito tem responsabilidade pela conscientização dos demais. Por isso é fundamental encarar a formação do sujeito autônomo como condição para a mudança.

Segundo Bakunin (s/d, p. 31), “a liberdade dos indivíduos não é absolutamente um fato individual (…). Nenhum homem pode ser livre fora e sem o concurso de toda a sociedade humana”.

O educador cultural deve estar sempre a favor da mudança, se quiser se fazer merecedor de seu papel. A mudança estimula seu aluno homem-mulher-criança a não se resignar diante dos inúmeros mecanismos de controle da liberdade que nos impedem de viver nossa condição humana em plenitude.

 

Bibliografia

ABREU, Frede. O barracão de Mestre Waldemar. Salvador: Zarabatana, 2003.

ÄLLIEZ, Eric (org.). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000.

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BAKUNIN, Michael Alexandrovich. Textos anarquistas. Porto Alegre: L&PM, 1980.

______. Socialismo e liberdade. Coletivo Editorial Anarquista.

BÉZIERS, Marie-Madeleine. O bebê e a coordenação motora. Rio de Janeiro: Summus, 1992.

BREDA, Omri. A Capoeira como prática educativa transformadora. Anais do I Seminário de Educação e População Negra. Niterói: PENESB/UFF, 2005.

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CORTELLA, Mário Sérgio. A escola e o conhecimento. São Paulo: Cortez, 2002.

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FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir – história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 1987.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1992.

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GALLO, Sílvio. Anarquismo e Filosofia da Educação. Disponível no site suigeneris.pro.br. Acesso em 02 out. 2005.

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HOWELL, George. Playing in the street: resistance, violence and identity in the suburbs of Rio de Janeiro. Anthropology dissertation. London: Goldsmith’s College, 2004.

MOGIKA, Maurício. Autonomia e formação humana em situações pedagógicas: um difícil percurso. São Paulo: Educação e Pesquisa, 1999.

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RABELO, Jonas. Capoeiragem – expressões da roda livre. Rio de Janeiro: Impresso, 2005.

SODRÉ, Muniz. Mestre Bimba, corpo de mandinga. Rio de Janeiro: Manati, 2002.

SOLER, Reinaldo. Jogos cooperativos para a educação infantil. Rio de Janeiro: Sprint, 2003.

Aulas de capoeira auxiliam na educação de jovens da LBV

Crianças e adolescentes que integram os programas socioeducativos da Legião da Boa Vontade (LBV) em João Pessoa estão participando de aulas de capoeira, ministradas voluntariamente pelo mestre Lucivan Laranjeira no Centro Comunitário de Assistência Social da Instituição.

A atividade é utilizada como ferramenta educacional para auxiliar no desenvolvimento motor, cognitivo, socioafetivo e do espírito de cooperação dos alunos e, ainda, para incentivá-los a valorizar a cultura brasileira e a prática esportiva.

Sobre a ação, o professor e mestre de capoeira, Lucivan Laranjeira, fala da satisfação de realizar a atividade com crianças e adolescentes da instituição. “Quando fiquei sabendo da possibilidade de desenvolver esse projeto na LBV, eu fiquei muito feliz. É mais uma oportunidade de contribuir. A minha recompensa maior é a de saber que um aluno meu poderia estar na rua fazendo o que não deve e hoje está aqui aprendendo sobre a cultura brasileira”, ressaltou.

A modalidade é caracterizada por golpes e movimentos ágeis e complexos, sendo uma expressão cultural brasileira que mistura arte marcial, esporte, cultura popular e música. O pequeno Pedro, de 7 anos, destacou o que já aprendeu participando das aulas de capoeira. “Já sei cantar as músicas que o professor ensinou e estou aprendendo os movimentos para um dia ensinar para outras pessoas”, concluiu.

Em João Pessoa, PB, o Centro Comunitário de Assistência Social, da Legião da Boa Vontade, está localizado na Rua das Trincheiras, 703 — Jaguaribe. Para outras informações, ligue: (83) 3198-1500.

 

http://www.ararunaonline.com

5º Encontro Alagoano Feminino de Capoeira

A capoeira é uma manifestação cultural brasileira que reúne características muito distintas. Trata-se de uma mistura de arte-luta praticada ao som de instrumentos musicais como o berimbau, o pandeiro e o atabaque.

A capoeira vem tendo aprovação das comunidades sendo incentivada em todos os locais que se faz presente. Sua prática vem sendo muito difundida no Estado entre as mulheres e encontramos resistência em praticá-la, desconhecendo que a atividade pode ser uma alternativa eficaz na melhoria das condições gerais do indivíduo, podendo, ainda, contribuir para a auto-estima e formação do caráter e da personalidade de quem a pratica.

Diante destes benefícios, podemos afirmar que a sua prática realmente se constitui em Política Pública, promovendo o Controle Social, através de Saúde, Educação, Esporte, Lazer, Cultura e Cidadania, pois somente por meio de uma prática cultural e física, é possível sanar vários problemas, podendo ser empregada para resgatar àqueles que já estão doentes, evitando que jovens e crianças enveredem pelo caminho das drogas.

Nos dias 16, 17 e 18 de agosto de 2013, sexta-feira (noite), sábado (tarde) e domingo (integral), realizou-se o 5º Encontro Alagoano Feminino de Capoeira (5º ENAFEC) e o 2º Batizado e Troca de Cordas do Grupo Legião Brasileira de Capoeira, com a presença de capoeiristas e comunidades dos diversos bairros, onde alcançamos nosso objetivo que é a integração social e comunitária, já que tivemos a presença de capoeiristas dos Estados de Pernambuco, Paraíba, Piauí, Sergipe, Bahia e Ceará. Durante os três dias, passaram pelo evento cerca de 270 pessoas, entre capoeiristas e simpatizantes.

No sábado, foi realizado o campeonato feminino, onde foram classificadas as capoeiristas que irão participar do Campeonato Sergipano de Capoeira no mês de setembro: Instrutora Pequena do Capoeira Muzenza, Graduada Lua do Ginga Brasil e a Graduada Muda do Capoeira Raça. Estiveram presentes vários grupos de capoeira, entre eles: Grupo de Capoeira Raízes Negras, Grupo Legião Brasileira de Capoeira, Capoeira Candeias, Centro Cultural Senzala de Capoeira, Grupo Capoeira Lua de São Jorge e Capoeira Escola Herança Brasileira. Destacamos, ainda, os novos graduados: Monitor André e Monitora Linda.

PROGRAMAÇÃO

Dia 16 – Praia de Sete Coqueiros (Pajuçara)
19h00 – Roda de Abertura

Dia 17 – SESC Poço
16h00 – Seletiva Feminina de Capoeira
Seleção de equipe feminina para participar do Campeonato Sergipano de Capoeira (Aracajú/SE)

Dia 18 – SESC Poço
07h30 – Inscrições
08h30 – Roda de abertura
09h00 – Benguela – Professora Smuft (Grupo Legião Brasileira de Capoeira)
09h30 – Maculelê – Monitora Índia e Instrutora Preta (Grupo de Capoeira Raízes Negras)
10h00 – Aulão Aberto – Instrutora Pequena (Capoeira Muzenza)
10h30 – Dinâmica para Crianças – Professora Larissa (FAL)
11h00 – Acrobacias – Professor Tubarão (Grupo de Capoeira Candeias)
11h30 – São Bento – Monitora Barbie (Grupo Legião Brasileira de Capoeira)
12h00 – Roda de intervalo
14h30 – Abertura do Batizado e Troca de Cordas com apresentação dos capoeiristas mais graduados
15h00 – Roda de Contramestres, Mestrandos, Professores, Instrutores e Monitores
15h40 – Roda de Crianças
15h50 – Roda de Mulheres
16h00 – Início do Batizado e Troca de Cordas
17h30 – Roda de encerramento
18h00 – Encerramento

PATROCÍNIO:

Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas – DIPS/SUVISA/SESAU
Secretaria de Estado da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos – SEMCDH
Serviço Social do Comércio – SESC

APOIO

Toka do Tatu (tatuagens)
Centro de Treinamento Leão de Judá
Trator Terra
Quentex Marmitas (quentinhas)
Nilda Moto
Quitéria Cabelos
WS Confecções
PH Água e Gás
Estúdio do Corpo (academia)
Só Esporte Magazine
CEFA – Centro Educacional Francisco de Assis
FMAC – Fundação Municipal de Ação Cultural
Escola Estadual Ladislau Neto
TV Pajuçara – Programa Esporte Campeão

MATÉRIA: http://tnh1.ne10.uol.com.br/video/esporte-campeao/2013/08/10/5-encontro-alagoano-feminino-de-capoeira

VÍDEOS

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AGRADECIMENTO

A Coordenação, Direção, Oficineiros, Palestrantes e Participantes do 5º Encontro Alagoano Feminino de Capoeira (5º ENAFEC) e do 2º Batizado e Troca de Cordas do Grupo Legião Brasileira de Capoeira realizado nos dias 16, 17 e 18 de agosto de 2013 agradecem e manifestam seu reconhecimento aos FUNCIONÁRIOS que compõem a administração do SESC Poço, diante do compromisso, responsabilidade e empenho em prestar apoio e assistência ao evento, contribuindo para o pleno funcionamento e na garantia de um evento tranqüilo.

Livro: Capoeira e Religiosidade (Espiritualidade)

Para alguém que foi criado na Europa ocidental, onde a religião, em grande parte, foi remetida para o domínio privado de cada pessoa, e que chega ao Brasil e vê os adesivos colados na parte de trás do carros dizendo “100% Jesus”, ou “Deus é fiel”, é como um pequeno choque cultural. Mesmo sabendo que o catolicismo ainda está forte na América do Sul, a ideia (talvez ultrapassada) do iluminismo, na qual a religião é apenas um estágio antes do laicismo e do conhecimento científico, é uma convicção que está fortemente impregnada na minha consciência.

Ver gente que exprime tão abertamente a sua ligação com uma religião, quase de uma maneira comercial, sem ser necessariamente muito conservador nem atrasado, é uma coisa que, no início, é difícil de aceitar ou compreender. Quando se entra no mundo da capoeira, uma arte marcial brasileira, também se percebe as ligações entre capoeira e as várias religiões, como as religiões dos afrodescendentes.

Estas religiões são interligadas e até fonte das demais expressões culturais africanas, que foram trazidas pelos escravos dos vários países da África no tempo de cativeiro. Religiões que por razão de sobrevivência segundo vários2  – foram trazidas ao sincretismo com a religião dominante dos senhores, o catolicismo. Ao lado disso ainda existem as crenças dos índios, de quem eu sabia muito menos, mas que na história da capoeira também têm um papel, com a pluralidade de religiões e crenças que existem entre eles3.

Como um holandês quase ateu vai conseguir entender este mundo de interligações e conexões religiosas que formam parte da base deste arte marcial que é a capoeira?
Na sociedade holandesa (como numa grande parte da Europa ocidental) a influência aparente da religião é muita mais fraca do que no Brasil: as igrejas ficam cada vez mais vazias e são utilizadas como centros culturais ou mesquitas4.

Lá, o raciocínio –o racionalizar de todos os fenómenos e o secularismo estão fortes e puxaram a fé para o domínio privado, se é que ainda existe. Neste domínio, o catolicismo batalha espaço com as várias formas de protestantismo, as religiões orientais, e o secularismo. Em 2008 o CBS (Instituto Central da Estatística holandês) fez uma pesquisa na qual 29% do povo holandês se considerou católico, 19% protestante (reformado, luterano, evangélico), 4% muçulmano, 6% disse ter outra religião (judeu, hinduísta, budista, cristão ortodoxo) e 42% sem religião5. Movimentos pentecostais estão presentes de maneira marginal e as religiões dos afro-descendentes não desempenham um papel significante para a sociedade.

Isto não é apenas uma enumeração de dados religiosos; isto nos diz algo sobre a sociedade onde isto acontece, que é bem diferente da sociedade brasileira. Não só porque tem relativamente menos fiéis, ou porque eles estão divididos de uma maneira diferente. É também porque quando vemos a religião como uma parte fundamental da cultura, a presença ou a ausência de uma oumais religiões, tem uma forte influência naquela sociedade.

Como consequência, chegamos a uma primeira divisão entre as culturas holandesa (e “o mundo ocidental”, como gostamos de dizer na Europa) e a brasileira. Temos que entender primeiro que para o africano que foi trazido para o Brasil, como para o indígena, mas também para o ‘catolicismo popular’6 , os aspectos da vida estão muito mais interligados do que o Europeu (ainda) reconhece7.

Não há uma divisão “secular”: sua religião determina o trabalho que você faz, a comida que você come, e como resolve os problemas físicos. A religião, para a maioria dos holandeses e no mundo ocidental tornou-se uma coisa particular, privada, que você pratica aos domingos na igreja. Mas para uma grande parte das pessoas em outras partes do mundo, as ligações religiosas existem em contexto pessoal e social. Para o europeu, estas coisas estão bem separadas.

A razão desta diferença é tema para um outro debate, e aqui não há espaço para entrar8. O que importa para meu propósito é que esta diferença existe. Porque, mesmo a situação social e religiosa na Holanda (e Europa ocidental) sendo bem diferente daquela que encontrei no Brasil, a capoeira se espalhou e se desenvolveu em ambos os países e continentes.

Claro que o berço da capoeira é o Brasil, e que ela tem muito mais história lá, e um nível alto que é mais amplo espalhado. Mas no fundo a capoeira ficou a capoeira. Há jogadores bons na Europa (e nos outros continentes) que podem se meter com qualquer um no Brasil, que entendem o jogo, sabem dos rituais e de tudo o mais. Não-Brasileiros que dão aula e se tornam contramestres e até mesmo mestres.

Tem gente cantando sobre a escravidão, sobre os orixás, os santos, fazendo orações, mesmo sem nunca terem vivido esta cultura. Não se consideram (necessariamente) religiosas, e as religiões ‘ligadas’à capoeira são, na grande parte, alheias à eles, porque não fazem parte da situação social onde eles vivem.

Como explicar este fenômeno? Como uma cultura que às vezes é tão diferente, é tão ‘facilmente’ incorporada no mundo inteiro por pessoas de culturas totalmente alheias, até que ponto os praticantes de capoeira incorporaram uma certa religiosidade ou espiritualidade que faz parte desta cultura onde a capoeira nasceu? Será então que a capoeira leva a uma certa religiosidade das religiões que são parte da cultura brasileira, ou devemos entender este fenômeno de uma maneira diferente?

Para começar a entender isto, considero as religiões e crenças de um ponto de vista acadêmico, quer dizer racionalizado, até mesmo categórico e talvez um pouco abstrato. Então eu não imagino falar sobre a espiritualidade de cada um, ou como todos os capoeiras convivem ou praticam suas religiões, ou qualquer outro aspecto que seja pessoal, individual.

Fé é fé e tem pouco de acadêmico;  ela também não é entendida por todos os fiéis da mesma maneira. E estou também consciente que a capoeira tem uma significação diferente para cada um que a pratica. O que eu procuro aqui é tentar entender uma parte deste fenômeno com os instrumentos e conhecimentos acadêmicos que eu tenho ao meu dispor9.

 

2. Ferretti (1997), Vassallo (2009)

3. Subsistem hoje tribos em um número muito pequeno, face o que houve antes. Mesmo assim, depois de cinco séculos de genocídios e agressões, distribuem-se em diferentes etnias e algumas nações indígenas; várias tribos com suas culturas próprias e, em seu interior, com sistemas religiosos peculiares. Mesmonos casos em que inúmeros do seus membros já se converteram a alguma confissão cristã. Então não é uma vaga espécie única de religião com um misterioso deus supremo: Tupã. Brandão, (2004) Mas a influência destas religiões e crenças no mundo de capoeira ainda é pouco pesquisada.

4. O que provavelmente também não vai durar muito tempo, vendo que os muçulmanos no ocidente já pensam de outra maneira sobre qual deveria ser a papel da sua religião dentro a sociedade.

5. CBS, 2009

7. Esta antiga forma de catolicismo ibérico politeísta forma parte central do meu argumento. Por isso vou entrar nesta forma mais adiante.

8. Por exemplo, só na maneira de preparar a comida já existem hábitos e costumes baseados na crença. E para quem é filho de santo, sabe-se que não pode comer alguns alimentos, de acordo com o santo.

9. Se a causa desta diferença foi o iluminismo europeu ou o desenvolvimento das sociedades modernas que passavam certo nível de complexidade e assim atingiram um alto nível de funcionalidade diferenciada onde não se pode manter a universalidade social de uma visão de mundo essencialmente religiosa, (Luckmann (1990) ou que há outras explicações, eu deixo para o leitor.

 

Dolf van der Schootcapofilosofo@gmail.com

Mogi Guaçú: Integração entre gerações – “cidadania em ação” leva capoeira aos idosos do centro dia

Integração entre gerações – “cidadania em ação” leva capoeira aos idosos do centro dia

Os idosos assistidos pelo Centro Dia do Idoso tiveram uma tarde diferente nesta terça-feira, dia 23. Eles acompanharam uma apresentação de capoeira feita por crianças e adolescentes de 11 a 14 anos, integrantes do Projeto Cidadania em Ação.

A apresentação, comandada pelo professor Renan Panciera, faz parte de uma iniciativa intergeracional do Centro Dia, com o objetivo de promover a integração dos idosos com crianças, adolescentes e jovens atendidos por outros programas sociais da Secretaria da Promoção Social.

O projeto envolvendo os idosos do Centro Dia começou no dia 14, com a apresentação de poesias, músicas e danças pelos integrantes do Programa Ação Jovem, que envolve adolescentes e jovens de 15 a 24 anos.

Os dois programas são desenvolvidos nos quatro núcleos do Cras (Centro de Referência em Assistência Social) da Prefeitura de Mogi Guaçu. As ações entre gerações envolvendo os assistidos do Centro Dia vão prosseguir em maio.

No dia 8, haverá apresentação de um grupo de dança, às 13h30. No dia 10, pela manhã, apresentação teatral. No dia 14, nova apresentação de dança. Todas as atrações envolvem os adolescentes e jovens do Cidadania em Ação.

Na apresentação desta terça-feira, os idosos assistiram a tudo sem perder um único movimento dos capoeiristas e aplaudiram no final.

 

O professor Renan, de 26 anos, que há quatro anos ministra aulas de capoeira no Cidadania em Ação, revelou ter sido sua primeira apresentação no Centro Dia. Disse que gostou muito da receptividade e que ficou impressionado com a atenção, interesse e respeito demonstrado pelos idosos.

A coordenadora do Cidadania em Ação, Roseane Bassi Vieira, ressaltou que este tipo de evento é importante porque proporciona a troca de experiências, vivências e informações entre as diferentes faixas etárias.

Uma das mais empolgadas com os resultados da apresentação de capoeira foi a coordenadora do Centro Dia, Daniele Aparecida Victal Luiz. Para ela, a energia dos mais jovens contagia os idosos, que sempre demonstram maior disposição depois destas apresentações.

 

Fonte: http://www.portalnovidade.com.br

V Aniversário do Grupo de Capoeira Angola Irmãos Guerreiros – Porto

De 05 à 07 de Abril de 2013 / 5th of April to 7th of April 2013

O núcleo do Porto celebrará o seu quinto aniversário e todos os Capoeriristas serão bem-vindos a celebrar connosco: Vamos vadiar!!
The group in Porto will celebrate its 5th birthday and all Capoeiristas are more than welcome to celebrate with us: Vamos vadiar!!

Proporcionaremos 3 dias de treinos de Capoeira, música e rodas para principiantes e avançados com:
3 days of Capoeira training and music classes for beginners and advanced and many rodas with:

CM Perna (Irmãos Guerreiros– SP/Bremen)

Fundador do primeiro Grupo Irmãos Guerreiros no “Velho Continente”, sediado à 8 anos em Bremen na Alemanha. No Cazua da Cultura, desenvolve diversas actividades para crianças, jovens e adultos, tendo a capoeira angola como mote principal mas também musica e percussão, o samba de roda e outras expressões da cultura afro-brasileira. O objectivo principal deste espaço cultural é levar a toda a Europa, e especificamente a Bremen um pouquinho da cultura afro-brasileira.

The founder of the first Irmãos Guerreiros’s Group in the “Old World” located in Bremen Germany since 8 years. At Cazua da Cultura he provides several activities for children, youth and adults being Capoeira angola its primary focus but also music, percussion, samba de roda and other forms of afro-brazilian culture expressions. The main objective of this cultural spot is to bring to Europe and expressly to Bremen a bit of the afro-brazilian culture.

Prof Kenneth (Irmãos Guerreiros – Salvador/Viena)

Iniciou-se na capoeira angola em 1987 no Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP).

Realizando trabalho enquanto Professor de capoeira com o Grupo Irmãos Guerreriros desde 2007, sediado em Viena, juntamente com seus alunos desenvolve diversos eventos de capoeira angola. A título de exemplo, o Solifest , projecto de solidariedade social e recolha de fundos para manutenção de um projecto social com crianças carentes na periferia de São Paulo; O “Dia da Consciência Negra”, evento que procura lembrar a resistência do negro à escravidão; e o Suncamp, evento reconhecido e valorizado por capoeiristas de toda a Europa.

He has starter capoeira angola in 1987 with Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP).

Working within Irmãos Guerreiros’s Group as a Professor since 2007, located in Vienna together with is students he directs several capoeira angola events. Solifest, a social solidarity and found rising program for needed children in São Paulo’s periphery; “Dia da Consciência Negra” to remember the African people resistance to slavery; and Suncamp a well known and respected event among european Capoeiristas, just to point out some examples.

Prof Tijolo (Irmãos – SP/Porto)

Praticante de Capoeira desde 1992, começa a exercer a função de Professor de Capoeira Angola no ano de 1997, sobre a orientação do Mestre Baixinho e Mestre Marrom (responsáveis do grupo). Desde então, foi responsável por leccionar esta arte no Centro Comunitário da Cuhabe Educandário (Bairro de São Paulo, Brasil). Actualmente, é o representante em países lusos do Grupo Irmãos Guerreiros, leccionando e divulgando a arte de Capoeira Angola no Porto e em Lisboa.

He’s been practicing Capoeira angola since 1992 and in 1997 starts is work as Irmãos Guerreiros’s Professor under Mestre’s Baixinho and Mestre’s Marrom advice. Since that date he was the person in charge to teach capoeira angola in Centro Comunitário da Cuhabe Educandário (a São Paulo district). Nowadays e is the main figure of the Grupo Irmãos Guerreiros in Portugal, teaching and spreading Capoeria Angola both in Porto and Lisbon.

Mestre Murah (Dança Afro-brasileira/ Afro-brazilian Dance – SP/Berlim)

Dançarino, coreógrafo, gestor cultural e professor de dança

Docente e coreógrafo em São Paulo, este mestre da dança privilegiou na sua trajectória artística a dança afro-brasileira, com raízes no Candomblé. „A dança tem grande importância no âmbito dos rituais“, explica Murah. Consagrado Babalorixá, chega à Europa onde desde 1991 trabalha em diversos projectos com o mestre de percussão brasileira, Dudu Tucci, formando um duo respeitado, premiado por performances como „Obaluaê“ (1993) e Dança dos Elementos (1997).

Actualmente, enquanto gestor cultural do Centro intercultural Forum Brasil no bairro de Kreuzberg, oferece diversos cursos de dança, canto e diversos workshops.

Dancer, choreographer, cultural manager and teacher, this dancing master has always privileged afro-brazilian dance (rooted in Candomblé) in is artistically trajectory. “Dance is of great importance in the rituals” explains Murah the respected Babalorixá. He has arrived in Europe in 1991. Since then he’s been working in duo with Dudu Tucci. They’ve been recognized and awarded for “Obaluâe” (1993) and Dança dos Elementos (1997).

Nowadays he is the manager of Centro Intercultural Forum Brazil in Kreuzberg district – Berlin. There you may find several dancing and chanting workshops.

Ortigueira: Capoeira na Casa da Criança

Capoeira na Casa da Criança: Conheça o Projeto com patrocínio da Eletrosul que mudou a rotina da instituição

Desde o início do ano, as crianças e adolescentes da Casa da Criança Padre Livio Donati, de Ortigueira, contam com uma atividade nova. Trata-se das aulas de capoeira, que vêm sendo ofertadas quatro dias por semana, para todas as turmas, graças a um projeto com patrocínio da Eletrosul.

Atualmente, a Casa da Criança e do Adolescente atende 160 crianças e todas participam das aulas de capoeira. Segundo a Assistente Social da Casa e coordenadora do projeto, Fabiane Alves Santana, antes havia aulas de outros esportes, como futebol, mas nem todas as crianças participavam.

“Com a capoeira vem sendo diferente, todos participam e adoram. Nossas crianças e jovens tiveram contato com a questão histórica e cultural da capoeira, por meio de aulas expositivas, além de aprender os movimentos, a roda, a musicalidade. Eles estão adorando tudo isso, trabalhamos com eles por completo, desde a coordenação motora até o conhecimento sobre a formação do Brasil e de suas raízes”, explica.

Para Paola Cristina dos Santos, de 17 anos, as aulas de capoeira são empolgantes. “Sempre pratiquei esportes, mas a capoeira é uma novidade. Movimenta 100% do corpo, conhecemos cada vez mais coisas novas e todos vão aprendendo com seus próprios erros. E o esporte pode mudar a vida de uma criança, às vezes o que faltava era uma oportunidade”, diz a aluna.

Como critério para continuar na Casa da Criança e também nas aulas de capoeira, é exigido das crianças boas notas na escola, assim como um bom índice de frequência escolar.”Percebemos que hoje elas melhoraram o desempenho na escola, o comportamento, porque estão se motivando pela capoeira. Isso pra nós é gratificante. Superamos os nossos objetivos com esse projeto”, conta a assistente social Fabiane.

 

http://portal.ortigueira.pr.gov.br

SP: Capoeira leva opção a morador da Zona Leste

Mais da metade dos alunos são crianças de baixa renda e, por isso, fazem as aulas gratuitamente

A roda de capoeira na Zona Leste agita a noite dos moradores do Jardim São Nicolau. Regados de muita música e  dança ao som dos instrumentos de percussão e  palmas, crianças, jovens e adultos participam do projeto social Identidade

A educadora explica que a maioria dos integrantes são crianças moradoras de áreas de risco e não possuem estrutura familiar adequada.Cultural. Encabeçado pela professora de Educação Física Viviane Gonçalves Rodrigues, a proposta possui o intuito de levar, através do esporte, novas perspectivas para a população de baixa renda do bairro periférico.

Cinco anos se passaram desde a primeira roda do grupo. Atualmente cerca de 50 pessoas fazem parte da iniciativa.  Viviane  fala entusiasmada dos rumos que o esporte deu na vida de alguns participantes. “Existem universidades que dão bolsa para capoeiristas por conta dos campeonatos universitários. Tem uma aluna que começou aqui conosco e hoje  é bolsista de relações públicas em uma universidade”, diz ela.

Outros esportistas que possuem as suas origens fincadas no esporte também contribuem com o trabalho social. É o caso de Carlos Eduardo Viscovini Herrera. O advogado cuida da parte burocrática do projeto e também é orientador das crianças que dão os primeiros passos na capoeira. Ele fala da importância de disseminar o esporte. “A capoeira está ligada à evolução histórica brasileira e também é importante passar isso para as crianças nas rodas”.

Instrumentos de percussão como berimbau, atabaque, pandeiro e agogô abrilhantam as reuniões do grupo. A estudante Agatha Francisco dos Santos diz que quando ouve os sons e a música fica incentivada a “jogar”. “A música me atrai bastante. O instrumento que eu mais gosto é o atabaque”, completa.

Os alunos de baixa renda não contribuem financeiramente. Nas turmas de adolescentes e adultos alguns pagam uma taxa de R$ 20 para manter o espaço, instrumentos e vestimentas.

Os interessados em participar devem comparecer pessoalmente na Rua Georg Riemann, 88.

Mais

Falta de dinheiro desanima o grupo

Associado ao  Capoeira V.I.P., de Cuiabá, o projeto  Identidade Cultura consegue manter mais de 50 participantes através do apoio da associação.  A mensalidade paga por cerca de 20 alunos também ajuda. Um desafio do grupo é a falta de ajuda dos órgãos públicos.

Questionada se existe alguma forma de ajuda financeiro ao grupo , a Secretaria Municipal de Cultura não se manifestou até ontem à tarde.

 

http://diariosp.com.br

Ponto de Cultura e Legião da Boa Vontade firmam parceria

Iniciativa dará continuidade a projeto de capoeira angola

O Ponto de Cultura ‘Batuque de Angola’ e a Legião da Boa Vontade (LBV) firmaram parceria para difundir a arte da capoeira angola. A iniciativa dá continuidade a um projeto que, durante os meses de agosto e setembro, ofereceu aulas de capoeira no espaço do Ponto de Cultura para crianças entre 7 e 11 anos atendidas pela LBV.

Segundo Jaquelene Linhares, coordenadora pedagógica do Ponto de Cultura, o projeto rendeu bons frutos. “As crianças mostraram muito interesse em continuar com as aulas de capoeira e a partir daí nós pensamos em abrir uma turma para que elas possam dar continuidade a essa aprendizagem”.

O projeto de extensão da LBV, coordenado pela educadora social Tatiane Souza, teve por objetivo passar conhecimento teórico e prático sobre a arte da capoeira para as crianças da instituição. “Elas adoraram as aulas. A maioria não conhecia e por não conhecer dizia que era chato, mas no final elas ficaram maravilhadas”, explica.

Para ela, o trabalho de divulgação da capoeira realizado pelo ‘Batuque de Angola’ despertou as crianças para a prática da atividade física aliada à difusão da riqueza da história e da cultura brasileira a partir das raízes africanas. “Durante a oficina elas puderam liberar as energias, conhecer os instrumentos e trabalhar questões como o respeito e a união”, destaca a educadora social.

Ponto

O Ponto de Cultura ‘Batuque de Angola’ atende a crianças e adolescentes do Bairro Industrial com aulas de capoeira e informática. O objetivo do projeto é promover o resgate da identidade cultural ligada às raízes africanas e a promoção da autoestima de jovens da comunidade.

A iniciativa do ‘Batuque de Angola’ é da Associação Abaô de Arte-Educação e Cultura Negra potencializada a partir da parceria da Secretaria do Estado da Cultura (Secult) e do Ministério da Cultura (Minc), através do Programa Cultura Viva. Em Sergipe, 30 instituições são beneficiadas pelo Programa ‘Pontos de Cultura’.

Através dessa parceria, iniciativas e projetos culturais já desenvolvidos por comunidades, grupos e redes de colaboração, são potencializados. Os Pontos de Cultura tem por finalidade fomentar a atividade cultural, aumentar a visibilidade das mais diversas iniciativas culturais e promover o intercâmbio entre diferentes segmentos da sociedade.

Fonte: Agência Sergipe de Notícias

Capoeira sem mestre

Temos visto ultimamente, principalmente em alguns países europeus, o surgimento de vários grupos de capoeira cuja característica é a de não se vincular a nenhum mestre. Grupos que se caracterizam pela autogestão, cujos próprios integrantes se revezam na tarefa de “puxarem” os treinos e comandarem as rodas. Grupos que não se vinculam a nenhuma “linhagem” de capoeira. Muitos desses grupos, inclusive, se baseiam em vídeos do YouTube e outras ferramentas virtuais para aprimorarem suas sequências de movimentos, golpes, etc.

Entendo que essa iniciativa é, a princípio, muito interessante, pois as responsabilidades são assumidas coletivamente, dentro do princípio de horizontalidade de poder, onde “ninguém manda em ninguém”, onde não existe hierarquia, a não ser pelo tempo de vivência na capoeira de cada um.

Todas as formas autogestionárias devem ser saudadas e valorizadas nesse mundo atual, pois significam formas alternativas de se viver em coletividade, criando novas sociabilidades que se contrapõem à perversa lógica do capitalismo, em que sempre tem que haver alguém para mandar (os que têm dinheiro, e consequentemente poder), e alguém para obedecer (os quem não têm).

Porém, não podemos esquecer que a capoeira não se trata de mera atividade física, ou outra atividade social qualquer. Trata-se de uma manifestação cultural originada de tradições muito profundas, com raízes na ancestralidade africana e na história de luta contra a escravidão no Brasil. Tudo que a capoeira é nos dias atuais, foi fruto de um processo histórico em que foram se acumulando vivências de homens e mulheres que muito sofreram e lutaram, para que essa tradição fosse mantida e chegasse até os dias de hoje.

O mestre de capoeira representa o elo entre esse passado de lutas e sofrimentos, e o presente onde se encontra a capoeira atualmente, espalhada pelos quatro cantos do mundo. O mestre de capoeira tem a missão quase sagrada, de não permitir que esse elo se rompa ! De garantir que os saberes envolvidos na prática da capoeira, sejam transmitidos de forma a respeitar esse passado, a valorizar essa história dessa gente, de manter a tradição viva, mesmo entendendo que a cultura é dinâmica e vai se transformando através dos tempos.

Arrisco dizer que existem princípios vinculados à prática da capoeira que, se não forem mantidos e respeitados, correm o risco de fazer essa tradição se transformar numa simples prática corporal, ou num mero produto comercial, ou ainda, apenas em mais uma modalidade olímpica (como aconteceu com o judô). E sabemos que a capoeira é muito mais do que isso !

Por isso, entendo que o papel do mestre é muito mais do que simplesmente ensinar um movimento ou um golpe. O mestre deve ser detentor de um conhecimento que vai sendo adquirido ao longo da vida, que vai muito além da sua capacidade física de realizar determinado movimento. Ele deve ser consciente sobre o papel de ser o responsável pela transmissão desses conhecimentos para as gerações mais novas. E por isso deve se preparar durante boa parte de sua existência para poder cumprir essa missão. Isso geralmente leva bastante tempo e por isso também não acredito em mestres de capoeira muito jovens. Eles ainda têm muito que aprender antes de se considerarem mestres.

Então, pergunto eu aqui com meus botões:  como esses grupos autogestionários lidam com isso ? Preocupam-se somente em aprender e aperfeiçoar os movimentos para aplicá-los no jogo ? E as questões históricas, ancestrais, ritualísticas, que peso têm para eles ? Que preparo possuem essas pessoas para lidarem com essas questões ?  O que a capoeira perde, quando é encarada somente como esporte ou prática corporal  ?

Ficam essas questões para reflexão, ou pra quem se aventurar a respondê-las !

Pedro Abib

* Sobre a Ilustração escolhida pelo Editor: Capoeira: sem mestre – Lamartine Pereira da Costa

Sobre o Autor:

O Professor Lamartine Pereira da Costa é um ícone da Educação Física Brasileira e faz parte do seleto grupo de profissionais que contribuíram decisivamente para a evolução acadêmica, técnica e científica dessa área.

O Livro:

O livro completou cinquenta e um anos de publicação. De uma certa forma, podemos dizer que o autor antecipou-se ao movimento de crescimento da capoeira e percebeu a importância que a capoeira viria a assumir no cenário cultural brasileiro.

A publicação é datada: é retrato de um momento em que se acreditava que a capoeira se fortaleceria como um método ginástico, ou como uma modalidade de luta, mais do que uma manifestação de forte conteúdo cultural, étnica e social. É um interessante registro de uma época da história da nossa capoeiragem.

Luis Renato Vieira

Palavra do Editor

Em tempo iremos publicar uma matéria mais ampla sobre o tema aproveitando esta fantástica chamada do nosso grande camarada Pedrão… que se esmerou na cronica… e fazendo a chamada!

Um tema nuclear, importante e que deve fomentar uma discussão mais aprofundada sobre o cenário do ensino da capoeiragem em todos os níveis.

Luciano Milani – Editor