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Portugal, Leiria: Ginga e Camaradagem

Capoeira: o exercício que é mais difícil ver do que fazer

O espetáculo vai começar. A roda está formada e a bateira dá sinal para que os berimbaus e atabeques começem a soar. O ritmo tem três tempos e todos acompanham ou com instrumentos ou a cantar e bater palmas. Para o centro da roda vão dois capoeiristas que fazem o jogo. É assim que se faz a festa da capoeira.

Em Leiria, a modalidade desportiva que oferece simultaneamente uma experiência cultural, música e dança, existe há 11 anos. Primeiro em ginásios e desde 2009 com espaço próprio, 100 por cento dedicado à modalidade, na Academia Ginga Camará (“ginga” significa movimento + “camará” significa camaradagem = a movimento de camaradagem).

O grupo assinalou o quarto aniversário do espaço, localizado em Gândara dos Olivais, a 19 de dezembro.

Papagaio e Pastilha

Desenvolvida no Brasil, a capoeira surgiu como um sistema de defesa entre os escravos africanos. Contudo, a prática era proibida e os capoeiristas introduziram movimentos de dança à luta para disfarçar. O mesmo acontecia com as alcunhas que adotavam para escapar às autoridades. Hoje em dia, a tradição continua a existir.

Jimmy Papagaio, isto é, “Contramestre Papagaio” é o fundador do grupo. Natural do Brasil, desde cedo conviveu com a modalidade e, em Portugal, procurou sempre alimentar este mix de desafio-desporto-experiência-tradição. “Normalmente, ninguém acha que é capaz de fazer, porque é mais difícil ver do que fazer”, considera. Não é preciso uma preparação física perfeita, já que os exercícios se adaptam às idades e capacidades de cada um e a perfeição também se conquista.

Pedro Sintra, o “Instrutor Pastilha”, por exemplo, acompanha os mais pequenos, desde os 4 anos. Nesta categoria a principal dificuldade está na concentração, algo próprio da idade, enquanto nos adultos se trabalha mais a coordenação dos membros inferiores e superiores com os movimentos do resto do corpo e o ritmo.

Apesar de ser considerada uma arte marcial, “na base da capoeira não há contacto físico entre quem joga. Há um movimento base, a ginga, e depois um movimento de ataque e um de defesa, em que os adversários interpretam o gesto contrário e respondem com outro movimento. Há ainda os movimentos de floreio, onde estão as acrobacias e mortais”, justifica o instrutor. E tal como no judo e no karaté, a graduação do capoeirista depende da cor da corda que usa à cintura. A atribuição acontece uma vez por ano, no batismo, e depende da prática e empenho de cada um.

Além do espaço de Leiria, frequentado por 40 atletas, o Ginga Camará tem também delegações em Alcobaça, Condeixa, Lisboa e em Pescara, Itália, num projeto de dois antigos alunos.

 

Fonte: http://www.regiaodeleiria.pt

Marina Guerra
marina.guerra@regiaodeleiria.pt

Berimbau, a arma da feminilidade das mulheres Bantu

 

“Berimbau, a arma da feminilidade das mulheres Bantu. Após uma terrível batalha, a deusa protectora transformou o arco do guerreiro no primeiro instrumento musical da tribo, para que a música e a paz substituíssem as armas e guerras para sempre.”

 

Existe um facto que goza de certa autoridade, sendo que, quando se pesquisa sobre o berimbau africano, seja ele de que nome, origem, ou tamanho for, é impossível ignorar que o gênero feminino desempenha um papel extremamente considerável em relação aos arcos musicais.

A popularidade do berimbau cresceu transversalmente da arte afro-brasileira mais conhecida por Capoeira. A Capoeira, até certo ponto, era de acesso restrito a um ambiente masculino. Significantemente, as portas foram abertas para o sexo oposto e já se conquistou bastante espaço por meios de dedicação e empenho.

Porém, as mulheres na esfera capoerística ainda se encontram vítimas de regras discriminatórias, consideradas pela comunidade como tradição. Regras essas que não as permite tocar o berimbau e, em certos momentos, não poder participar durante a roda.

A mulher africana, apesar de viver em constantes normas estritas e rigorosas entre elas, sendo as responsabilidades matriarcas, no último centenário foi a que mais fortificou a presença, e a popularização do berimbau africano na plateia continental e internacional.

Através do som melódico e hipnotizante do instrumento de uma corda só, orgulhosamente canta-se cantigas de centenas de anos atrás, transmitidas pelos seus antepassados.

Canções que contam estórias das glórias dos seus povos, sobre a felicidade, a tristeza, o amor, o ódio, a paixão, a traição, as desventuras de casamentos e cantigas infantis.

Não somente a mulher é tradicionalmente considerada a base da família, mas também compõe, canta e constrói os próprios instrumentos que toca.

Cito duas personalidades da música tradicional Bantu-Nguni e herdeiras da tradição de tocadoras de arcos musicais, como a Princesa Zulu Constance Magogo e a Dona Madosini Mpahleni, que hoje em dia goza de noventa anos de idade.

Com esta chamada, conto com mais reconhecimento e consideração para com as mulheres, não somente na capoeira mas também no berimbau e outros instrumentos musicais.

 

{youtube}yEve7Yrw8iM{/youtube}

*Aristóteles Kandimba, angolano, pesquisador, cronista, cineasta e professor de capoeira Angola.
kandimbafilms.blogspot.com
https://www.facebook.com/pages/Angola-Ministry-of-Culture-Pictures-Events/150849848265087?fref=ts
(Mitologia Bantu-Nguni, Zulu – Africa do Sul)

 

Matéria sugerida por Nélia Azevedo – (Portuguesa)

Livro Jogo de Discursos é lançado em Pernambuco e Minas Gerais

O livro Jogo de Discursos: A disputa por hegemonia na tradição da capoeira angola baiana, de autoria do jornalista e capoeirista Paulo Magalhães, terá dois lançamentos nacionais neste mês de maio.

No dia 18, sábado, a partir das 19:00, o lançamento será em Olinda (PE), no 1º Encontro da ACANNE Pernambuco. Realizado nos dias 17, 18 e 19 pela Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro, no Espaço Alternativo, o evento contará com oficinas do Mestre Renê Bitencourt (BA) e rodas de capoeira angola. O evento é organizado pelos capoeiristas Eduardo Ramos (Baygon) e Marco Antônio (Baixinho), e constitui um marco na articulação de mais uma linhagem angoleira no estado de Pernambuco.

No sábado seguinte, dia 25, a partir das 14:00, o lançamento ocorrerá na Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa (MG), durante X Encontro de Culturas de Raiz – Lapinha Museu Vivo. Em seguida, haverá a mesa redonda: “Cultura de Raiz e Globalização”, com a participação dos mestres Zé do Lenço (BA), Dunga (MG) e Ernestino (PI), representantes da velha guarda do samba, do reinado de N. Srª do Rosário, pesquisadores e representantes do poder público. O evento é organizado pela Associação Cultural Eu Sou Angoleiro, sob a direção do Mestre João Bosco, e a programação completa pode ser encontrada no endereço http://www.eusouangoleiro.org.br/.

O livro Jogo de Discursos: A disputa por hegemonia na tradição da capoeira angola baiana trata da diversidade de concepções sobre a tradição na capoeira angola, a partir de mestres representantes de diferentes linhagens. As estratégias políticas de legitimação da capoeira angola e) as disputas em torno de sua organização ao longo da história são discutidas, utilizando fontes como jornais, observação direta e cerca de 20 entrevistas com mestres angoleiros renomados.

 

Maiores informações:

Paulo Magalhães: (71) 8741-1251 / 9273-7765

Eduardo Ramos (Olinda): (81) 9882-7467

Gercino Alves (Lagoa Santa): (31) 8561-5456

 

Serviço

 

Pernambuco:

O quê: Lançamento de Jogo de discursos: a disputa pela hegemonia na tradição da capoeira angola baiana no 1º Encontro da ACANNE

Quando: 18 de maio, a partir das 19h

Onde: Espaço Alternativo (Av. Guararapes, 847 – Jardim Atlântico – Olinda – PE)

Quanto: entrada gratuita

 

Minas Gerais:

O quê: Lançamento de Jogo de discursos: a disputa pela hegemonia na tradição da capoeira angola baiana no X Encontro de Culturas de Raiz – Lapinha Museu Vivo

Quando: 25 de maio, a partir das 14h

Onde: Museu da Lapinha (Gruta da Lapinha, acesso pelo km 44 da MG-010, direção Serra do Cipó – Lagoa Santa – MG)

Quanto: entrada gratuita

Capoeira sem mestre

Temos visto ultimamente, principalmente em alguns países europeus, o surgimento de vários grupos de capoeira cuja característica é a de não se vincular a nenhum mestre. Grupos que se caracterizam pela autogestão, cujos próprios integrantes se revezam na tarefa de “puxarem” os treinos e comandarem as rodas. Grupos que não se vinculam a nenhuma “linhagem” de capoeira. Muitos desses grupos, inclusive, se baseiam em vídeos do YouTube e outras ferramentas virtuais para aprimorarem suas sequências de movimentos, golpes, etc.

Entendo que essa iniciativa é, a princípio, muito interessante, pois as responsabilidades são assumidas coletivamente, dentro do princípio de horizontalidade de poder, onde “ninguém manda em ninguém”, onde não existe hierarquia, a não ser pelo tempo de vivência na capoeira de cada um.

Todas as formas autogestionárias devem ser saudadas e valorizadas nesse mundo atual, pois significam formas alternativas de se viver em coletividade, criando novas sociabilidades que se contrapõem à perversa lógica do capitalismo, em que sempre tem que haver alguém para mandar (os que têm dinheiro, e consequentemente poder), e alguém para obedecer (os quem não têm).

Porém, não podemos esquecer que a capoeira não se trata de mera atividade física, ou outra atividade social qualquer. Trata-se de uma manifestação cultural originada de tradições muito profundas, com raízes na ancestralidade africana e na história de luta contra a escravidão no Brasil. Tudo que a capoeira é nos dias atuais, foi fruto de um processo histórico em que foram se acumulando vivências de homens e mulheres que muito sofreram e lutaram, para que essa tradição fosse mantida e chegasse até os dias de hoje.

O mestre de capoeira representa o elo entre esse passado de lutas e sofrimentos, e o presente onde se encontra a capoeira atualmente, espalhada pelos quatro cantos do mundo. O mestre de capoeira tem a missão quase sagrada, de não permitir que esse elo se rompa ! De garantir que os saberes envolvidos na prática da capoeira, sejam transmitidos de forma a respeitar esse passado, a valorizar essa história dessa gente, de manter a tradição viva, mesmo entendendo que a cultura é dinâmica e vai se transformando através dos tempos.

Arrisco dizer que existem princípios vinculados à prática da capoeira que, se não forem mantidos e respeitados, correm o risco de fazer essa tradição se transformar numa simples prática corporal, ou num mero produto comercial, ou ainda, apenas em mais uma modalidade olímpica (como aconteceu com o judô). E sabemos que a capoeira é muito mais do que isso !

Por isso, entendo que o papel do mestre é muito mais do que simplesmente ensinar um movimento ou um golpe. O mestre deve ser detentor de um conhecimento que vai sendo adquirido ao longo da vida, que vai muito além da sua capacidade física de realizar determinado movimento. Ele deve ser consciente sobre o papel de ser o responsável pela transmissão desses conhecimentos para as gerações mais novas. E por isso deve se preparar durante boa parte de sua existência para poder cumprir essa missão. Isso geralmente leva bastante tempo e por isso também não acredito em mestres de capoeira muito jovens. Eles ainda têm muito que aprender antes de se considerarem mestres.

Então, pergunto eu aqui com meus botões:  como esses grupos autogestionários lidam com isso ? Preocupam-se somente em aprender e aperfeiçoar os movimentos para aplicá-los no jogo ? E as questões históricas, ancestrais, ritualísticas, que peso têm para eles ? Que preparo possuem essas pessoas para lidarem com essas questões ?  O que a capoeira perde, quando é encarada somente como esporte ou prática corporal  ?

Ficam essas questões para reflexão, ou pra quem se aventurar a respondê-las !

Pedro Abib

* Sobre a Ilustração escolhida pelo Editor: Capoeira: sem mestre – Lamartine Pereira da Costa

Sobre o Autor:

O Professor Lamartine Pereira da Costa é um ícone da Educação Física Brasileira e faz parte do seleto grupo de profissionais que contribuíram decisivamente para a evolução acadêmica, técnica e científica dessa área.

O Livro:

O livro completou cinquenta e um anos de publicação. De uma certa forma, podemos dizer que o autor antecipou-se ao movimento de crescimento da capoeira e percebeu a importância que a capoeira viria a assumir no cenário cultural brasileiro.

A publicação é datada: é retrato de um momento em que se acreditava que a capoeira se fortaleceria como um método ginástico, ou como uma modalidade de luta, mais do que uma manifestação de forte conteúdo cultural, étnica e social. É um interessante registro de uma época da história da nossa capoeiragem.

Luis Renato Vieira

Palavra do Editor

Em tempo iremos publicar uma matéria mais ampla sobre o tema aproveitando esta fantástica chamada do nosso grande camarada Pedrão… que se esmerou na cronica… e fazendo a chamada!

Um tema nuclear, importante e que deve fomentar uma discussão mais aprofundada sobre o cenário do ensino da capoeiragem em todos os níveis.

Luciano Milani – Editor

João Pequeno foi para Terras de Aruanda

“Quando eu aqui cheguei, a todos eu vim louvar…”

Deve ter sido assim que mestre João Pequeno de Pastinha cantou quando chegou em terras de Aruanda, lugar mítico, para onde se acredita vão os mortos…que nunca morrem…como se crê em África !

Assim como João cantou tantas vezes essa mesma ladainha, onde quer que chegava para mostrar sua capoeira angola aos quatro cantos desse mundo … êita coisa bonita de se ver ! O velho capoeirista tocando mansamente seu berimbau e cantando…dando ordem pra roda começar. Os privilegiados que puderam compartilhar com João Pequeno esses momentos, sabem bem do que estou falando.

Foram 94 anos bem vividos. Aposto que daqui não levou mágoa, não era de seu feitio. Inimigos também não deixou, sua alma boa não permitiria. Partiu como um passarinho, leve e feliz, como vão todos os grandes homens: certeza de missão cumprida.

Deve estar agora junto de seu Pastinha, naquela conversa preguiçosa, que não precisa de muita palavra, que só os bons amigos sabem conversar. E seu Pastinha deve estar orgulhoso de seu menino. Fez direitinho tudo que ele pediu: tomou conta da sua capoeira angola com toda a dignidade, fazendo com que ela se espalhasse mundo afora. A semente que seu Pastinha plantou, João soube regar e cultivar muito bem. Êita menino arretado esse João Pequeno !

Nunca foi de falar muito. Só quando era preciso. E nessa hora saía cada coisa, meu amigo ! Coisa pra se guardar na mente e no coração. Mas muitas vezes falava só com o silêncio. Do seu olhar sempre atento, nada escapava. Observava tudo ao seu redor e sabia a hora certa de intervir, mostrar o caminho certo, quando achava que o jogo na roda tava indo pro lado errado. Até gostava de um jogo mais apertado, aquele em que o capoeira tem que saber se virar pra não tomar um pé pela cara. Mas só quando via que os dois tinham “farinha no saco” pra isso. João nunca permitiu que um jogador mais experiente ou maldoso abusasse de violência contra um outro inexperiente ou mal preparado.

Quando tinha mulher na roda então, aí é que o velho capoeirista não deixava mesmo que nenhum marmanjo tirasse proveito de maior força física ou malandragem pra cima de uma moça menos avisada no jogo, coisa comum na capoeira que é ainda muito machista. A não ser que ela tivesse como responder à provocação na mesma moeda. E era cada bronca quando via sujeito tratar mal uma mulher na roda, misericórdia ! Afinal, ele sempre dizia que “a capoeira é  uma dança, então como é que você vai tirar uma mulher pra dançar e bater nela ?“. Não pode !

A simplicidade, a generosidade, a humildade, a paciência, a sabedoria, a fala mansa e contida, sem necessidade de intermináveis discursos de auto-promoção, eram as características mais notáveis de João Pequeno, próprias de um verdadeiro mestre. Muito diferente do que se vê na grande maioria dos mestres da atualidade, diga-se de passagem, que auto-proclamam sua importância para a capoeira, que fazem e acontecem… que batem no peito e falam, falam, falam.

Nesses quase 20 anos de convivência muito próxima a João Pequeno, tive o privilégio e a oportunidade de aprender algumas das mais caras (e raras) lições de vida e humanidade, que jamais teria aprendido em qualquer universidade, nem sequer poderia obter através de algum diploma qualquer que fosse. Esse homem analfabeto que nunca frequentou os bancos da escola, foi responsável por um legado de ensinamentos que orientam milhares e milhares de pessoas em nosso país e também no mundo todo, que reconhecem o valor de João Pequeno como um dos mais importantes mestres da cultura popular e da tradição afro-brasileira de todos os tempos.

João Pequeno representa a voz de todos os excluídos, marginalizados, oprimidos que através da capoeira encontraram uma forma de lutar e resistir, manter viva a tradição de seu povo e dar legitimidade a uma cultura que foi sempre perseguida e violentada nesse país. O velho capoeirista soube conduzir muito bem sua missão de liderança, responsável pela recuperação da capoeira angola a partir da década de oitenta do século passado, quando após a morte do Mestre Pastinha, se encontrava em franca decadência. Quando se instalou no Forte Santo Antonio em 1981, João iniciou a partir de sua academia um movimento importantíssimo de revalorização da capoeira angola, fazendo com que ela se difundisse e se consolidasse como expressão da tradição popular afro-brasileira, presente hoje em mais de 160 países.

Mas João Pequeno nunca precisou ficar afirmando isso por aí, nem tampouco dizer da sua importância para a capoeira. João é considerado um dos grandes baluartes da capoeira angola, mas ele nunca saiu proclamando isso para ninguém. Na sua humildade nos ensinou que o reconhecimento de valor do mestre tem que vir dos outros, da comunidade da qual faz parte e nunca do próprio discurso muitas vezes carregado de vaidade e arrogância. João simplesmente jogava e ensinava sua capoeira. E por isso era grande !

E de lá, das terras de Aruanda continuará a iluminar os caminhos de todos nós.

João Pequeno não morreu !

por Pedro Abib

discípulo do mestre João Pequeno

 

Dica do Editor:

Portal Capoeira recomenda uma visita: 
Mestre João Pequeno de Pastinha

3ª Caminhada em Homenagem aos Mestres da Tradição Afro-brasileira ressalta a força das matriarcas negras


Afoxé Asè Omo Odé, casas de Candomblé e Umbanda de Goiás, grupos de Capoeira e Congada reverenciam três importantes mestres: Pai João de Abuque, Mestre Bimba e Mestre Pastinha; destacam a história do capoeirista Manoel Pio de Sales (Mestre Sabu) e reconhecem a luta e a coragem de duas matriarcas negras de Goiás: Maria Dalva Mendonça e Maria José Alves, em uma grande caminhada no dia 17 de setembro, a partir das 15h, no Setor Pedro Ludovico

Nas culturas e religiosidades de matriz africana, os anciãos e as anciãs ensinam o tempo todo. Em situações do cotidiano, transmitem aos mais novos seus saberes e valores, e assim esse aprendizado é assimilado, principalmente por que alguns detalhes só se aprendem com a prática coletiva. Com o objetivo de reconhecer e valorizar a atuação desses mestres e mestras é que a Associação Desportiva e Cultural de Capoeira Mestre Bimba realiza no próximo dia 17 de setembro (sábado), a partir das 15h, a terceira edição da Caminhada em Homenagem aos Mestres da Tradição Afro-brasileira.

A atividade é aberta ao público e reúne membros do Afoxé Asè Omo Odé, casas de Candomblé e Umbanda de Goiás, grupos de Capoeira e Congada Ilé Ibá Ibomim (Casa de Pai João de Abuque, na rua 1059, quadra 134, lote 04), que de lá saem em cortejo pelas principais ruas do Setor Pedro Ludovico (rua 1064 e Avenida Circular), relembrando e celebrando música e dança a história de mestres e mestras.

O cortejo retorna à Rua 1059, e em frente à Casa de Pai João de Abuque será realizado o encerramento do evento, com uma programação cultural que inclui o show “Divas Negras”, com as cantoras Clécia Santana, Henusa Mendonça e Janaína Soldera; shows das bandas “Visual Ilê” e a “A trilha” e apresentações de capoeira e samba de roda.

 

GUARDIÕES DA CULTURA

Por meio da tradição oral, mestres e mestras transmitem suas orientações sobre a vida, ensinam a importância de relembrar os antepassados, homens e mulheres que são as raízes nas quais a população negra busca a força para dar continuidade a sua história de luta e resistência. Por sua sabedoria, sua experiência de vida, e as memórias que carregam e partilham, é que são considerados guardiões e guardiãs do saber, dessa herança que trazem dentro si.

Como ocorre já pelo terceiro ano consecutivo, a Caminhada em Homenagem aos Mestres da Tradição Afrobrasileira resgata a história de Pai João de Abuque (mais antigo babalorixá e primeiro ancestral do candomblé goiano); Mestre Bimba (o criador da capoeira regional) e Mestre Pastinha (um dos ícones da capoeira angola). Este ano também reverência Manoel Pio Sales – Mestre Sabu (pioneiro da capoeira angola no Estado), e destaca a história de vida e luta de duas mulheres negras, como Maria Dalva Mendonça (matriarca do Movimento Negro em Goiás e fundadora da Comunidade Visual Ilê) e Maria José Alves (em memória – uma das matriarcas das congadas de Goiás).

“Homenagear nossos ancestrais, e este ano em especial as mulheres significa reverenciar a própria cultura afro-brasileira em Goiás. Precisamos falar desses mestres e mestras, pois sem eles não estaríamos aqui hoje. E sem dúvida, a atuação de Dona Dalva e Dona Maria José revelam a coragem e a resistência das mulheres negras”, enfatiza Luis Lopes Machado (Mestre Luizinho), filho de Mestre Bimba e organizador da caminhada.

 

MESTRES E MESTRAS DA TRADIÇÃO AFRO-BRASILEIRA

Maria Dalva Mendonça

Nascida em Pires do Rio. Ela fala com orgulho de suas origens africanas (Angolana) e indígenas (Tapuia). Fundadora da Comunidade Visual Ilê e da Escola de Samba Flora do Vale, Dona Dalva, como é conhecida, é figura importante do movimento negro e de mulheres, do samba, das congadas e das religiões de matriz africana no Estado.

Dona Maria José Alves (em memória)

Natural de Catalão/GO, um das matriarcas das congadas de Goiás, teve uma atuação significativa em vários movimentos sociais (de mulheres, negros, idosos e trabalhadores). Foi também uma das fundadoras da Pastoral do Negro e assumiu diversas funções de liderança na Vila João Vaz, onde estava especialmente à frente da Festa do Rosário e da Congada.

Manoel Pio de Sales (Mestre Sabu)

Nasceu na Cidade de Goiás, viveu por 20 anos em Salvador e foi o pioneiro da Capoeira Angola no Estado. Sempre imponente em seu terno branco, Mestre Sabu é sem dúvida a figura de um valente, daquele que usa da mandinga para superar com dignidade os desafios que surgem em seu caminho.

Pai João de Abuque

Em sua casa de candomblé foram iniciados muitos filhos-de-santo, tantos que nem lembrava mais quantos. E são esses filhos e filhas que hoje dão continuidade à herança deixada por esse mestre, mantém o Ilè Iba Ibomim e também o Afoxé Asè Omo Odé, bloco criado na década de 1990 que levou a tradição afro-brasileira para os carnavais d Goiânia. E ainda hoje, persiste em levar às ruas e palcos as bênçãos dessa religiosidade e a história de seus antepassados, em especial Pai João de Abuque, que em setembro de 2006, tornou-se o primeiro ancestral do candomblé goiano.

Mestre Bimba

Foi um homem a frente do seu tempo. Imaginava e acreditava na expansão da capoeira. E se hoje outros mestres estão pelo mundo afora ensinando essa filosofia de vida, eles devem muito a luta de Manoel dos Reis Machado, mais conhecido como Mestre Bimba, que nos anos de 1930 defendeu o reconhecimento da capoeira regional e da tradição de matriz africana. Faleceu em fevereiro de 1974, em Goiânia. Mas permanece vivo na memória e na continuidade que seus discípulos e filhos, entre eles Luiz Lopes Machado (Mestre Luizinho) dão ao seu exemplo de vida e luta.

Mestre Pastinha

Considerado o guardião da capoeira tradicional, Vicente Joaquim Ferreira Pastinha (Mestre Pastinha) considerava a capoeira não apenas uma luta, mas uma forma específica de ser e estar no mundo. Por isso, destacou o aspecto esportivo e lúdico da capoeira, definindo as regras, os cantos, a utilização dos instrumentos e a hierarquia dentro do jogo. Falecido em novembro de 1981, seus ensinamentos continuam nas rodas de capoeira e na atuação de novos mestres que mantém essa importante expressão cultural afro-brasileira.

 

MEMÓRIA E RESISTÊNCIA

A 3ª Caminhada em Homenagem aos Mestres da Tradição representa o desejo e o empenho em manter vivas as tradições de matriz africana, e principalmente, o exemplo de resistência de mestres e antepassados. E exatamente com esse objetivo é que em 1999, Luiz Lopes Machado (Mestre Luizinho, filho caçula de Mestre Bimba) criou a Associação Desportiva e Cultural de Capoeira Mestre Bimba, e desde então desenvolve atividades e projetos que promovam e divulguem a cultura e religiosidade afrobrasileira em Goiás.

Mestre Luizinho destaca ainda que a Caminhada é realizada  “em memória e em reverência a esses mestres e mestras de ontem e de hoje, que pelo som dos atabaques, pelas expressões corporais, pelos ritmos, pelos signos e valores de nossa religiosidade, pelas cores e estampas que o Afoxé Asè Omo Odé e várias expressões culturais e religiosas afro-brasileiras levarão para as ruas de Goiânia a beleza e a força da ancestralidade negra”.

Para realização desta terceira caminhada, a Associação Desportiva e Cultural de Capoeira Mestre Bimba tem como parceiros: Pontão de Cultura República do Cerrado, Belcar Caminhões, Secretaria de Estado de Políticas Públicas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial (Semira), Assessoria Especial de Políticas Públicas para a Igualdade Racial da Prefeitura de Goiânia (Asppir), Canela di Ema Produções, OlhO Comunicação Estratégica, Grupo Calunga de Capoeira Angola, Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (AGEPEL), Grupo de Capoeira Angola Barravento, DJ Claudinho, Sindicato dos Docentes da UFG (Adufg) e Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG (Facomb).

 

Serviço:

3ª Caminhada em homenagem aos mestres da tradição afrobrasileira

Data: 17 de setembro

Horário: 15 horas

Percurso: Saída do Ilè Ibá Ibomim (Casa de Pai João de Abuque)

Rua 1059, quadra. 134, lote 04, St. Pedro Ludovico

Mais Informações: Janaína Gomes (62) 8522-2792/ Ceiça Ferreira (62) 8191-2122

Anexo fotos de 2010 (Crédito: Ana Rita Vidica, José Jair Bazán e Gabriel Moreira Paiva).

Assessoria de Imprensa: OlhO Comunicação Estratégica Fone: (62) 3541-5960 Celular: (62) 8445-2741Site: www.olhocomunica.com.brTwitter: twitter/OlhOComunica

Nietzsche e a tradição

Trombei há pouco com esse artigo: http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_7_10.htm

A abrangência do texto começa pelas “festas de boi”, mas eu creio que podemos expandí-la para qualquer folguedo popular, capoeira incluída. E justamente caminhando nessa linha de pensamento, de festas populares sendo alteradas com o decorrer do tempo, de personagens transitando entre festas, me lembrei de uma conversa que tive com um amigo faz um tempo: o que é a tradição, e como ela nos serve ?

Na época, acabamos indo esbarrar em  Nietzsche (“Alvorada”):

Conceito de moralidade dos costumes.

Em comparação com o modo de vida de todos os milênios de humanidade, nós, humanos conteporâneos, vivemos uma era imoral: o poder do costume está fantasticamente enfraquecido, e o senso de moral, tão rarefeito que poderia ser descrito mais ou menos como evaporado. Isso é o motivo de perguntas fundamentais sobre a origem da moralidade serem tão difíceis para nós, recém-chegados – e mesmo quando as formulamos, descobrimos ser impossível enunciá-las – porquê elas soam estranhas ou porquê elas parecem depreciar a própria moralidade !

Isso é, por exemplo, o caso da proposição mestra: a moralidade não é nada além da obediência aos costumes, de quaisquer tipos que eles possam ser; os costumes, entretanto, são o modo tradicional de nos comportarmos e avaliarmos. Nas coisas nas quais nenhuma tradição comanda, não há moralidade; e quão menos a vida é determinada pela tradição, menor o círculo da moralidade. O ser humano livre é imoral porquê em todas as coisas ele está determinado a confiar apenas em si mesmo, e não em uma tradição: em todas as condições da humanidade, “mal” significa o mesmo que “individual”, “livre”, “caprichoso”, “não-usual”, “inédito”, “incalculável”.

Julgada pelos padrões dessas condições, uma ação realizada não porquê a tradição comanda, mas por outros motivos (por exemplo, porquê é útil ao indivíduo), ainda que sejam exatamente os motivos pelos quais a tradição foi um dia criada, é chamada imoral e sentida como imoral por aquele que a realizou: porquê não foi realizada com obediência à tradição.

O que é a tradição ? Uma autoridade maior à qual se obedece, não porquê ela comanda o que é útil para nós, mas simplesmente porquê ela comanda. O que distingue então o sentimento de existência da tradição, do sentimento de medo em si ? É o medo da presença de um intelecto superior que comanda, de um poder incompreensível e indefinido, de algo mais que pessoal – há superstição nesse medo. Originalmente, toda a educação e cuidado com a saúde, casamento, cura de doenças, agricultura, guerra, discurso e silêncio, negociação com outros povos e com deuses, pertencia ao domínio da moralidade: tais atividades demandavam que se observasse prescrições sem que se pensasse como um indivíduo.

Originalmente, entretanto, tudo era costume, e quem quer que desejasse se elevar acima disso devia tornar-se um ditador de leis e curandeiro e algum tipo de semi-deus: isso quer dizer, ele tinha que criar costumes – algo assustador, mortalmente perigoso !

O fato é que a conversa nunca terminou, mas as pulgas continuam me mordendo a orelha. “Tudo o que é demais, é muito”, “toda unanimidade é burra”, diz o povo… Em excesso, até carinho da mamãe e canja de galinha fazem mal. E o excesso de zelo com a tradição, como fica ? Não corremos o risco de engessar a história que nós próprios construímos diariamente ?

Outro dia postei um vídeo no YouTube, e achei um comentário interessante:

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“Nunca vi um angoleiro que prestasse colocar joelho no chão, dar aú na frente da cabeça do camarada, ou botar a cabeça no pé do camarada… é por isso que esses dois estão na praça da Republica, sem uniforme, e sem nexo…”

De onde vem a tradição de “não por o joelho no chão” ? Será provinda daquela necessidade antiga de “não sujar a roupa” ? O conceito ainda se aplica em tempos modernos ? Eu não coloco o joelho no chão porquê aprendi assim – mas qual o motivo real, o rationale por trás ? E quanto à falta de uniforme ? Quanto tempo um costume precisa existir para virar tradição ? Uniformes na capoeira existem há uns 70-80 anos… A roda na praça da República acontece há uns 40 anos (até onde sei) – já deu tempo de ter criado as suas próprias tradições ? Existem tradições universais, dentro da capoeira ?

 

* Teimosia – http://campodemandinga.blogspot.com

22 de agosto: Dia do Folclore

Veja o rico floclore do Brasil, região por região

Em 22 de agosto, o Brasil comemora o Dia do Folclore. A data foi criada em 1965 através de um decreto federal. No Estado de São Paulo, um decreto estadual instituiu agosto como o mês do folclore.

Folclore é o conjunto de todas as tradições, lendas e crenças de um país. O folclore pode ser percebido na alimentação, linguagem, artesanato, religiosidade e vestimentas de uma nação. Segundo a Carta do Folclore Brasileiro, aprovada pelo I Congresso Brasileiro de Folclore em 1951, “constituem fato folclórico as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular, ou pela imitação”.

Para que serve?

O folclore é o modo que um povo tem para compreender o mundo em que vive. Conhecendo o folclore de um país, podemos compreender o seu povo. E assim conhecemos, ao mesmo tempo, parte de sua História. Mas para que um certo costume seja realmente considerado folclore, dizem os estudiosos que é preciso que este seja praticado por um grande número de pessoas e que também tenha origem anônima.

Qual a origem da palavra “folclore”?

A palavra surgiu a partir de dois vocábulos saxônicos antigos. “Folk”, em inglês, significa “povo”. E “lore”, conhecimento. Assim, folk + lore (folklore) quer dizer ”conhecimento popular”. O termo foi criado por William John Thoms (1803-1885), um pesquisador da cultura européia que, em 22 de agosto de 1846, publicou um artigo intitulado “Folk-lore”. No Brasil, após a reforma ortográfica de 1934, que eliminou a letra k, a palavra perdeu também o hífen e tornou-se “folclore”.

Qual a origem do folclore brasileiro?

O folclore brasileiro, um dos mais ricos do mundo, formou-se ao longo dos anos principalmente por índios, brancos e negros.

Região Sul

Danças: congada, cateretê, baião, chula, chimarrita, jardineira, marujada.
Festas tradicionais: Nossa Senhora dos Navegadores, em Porto Alegre; da Uva, em Caxias do Sul; da Cerveja, em Blumenau; festas juninas; rodeios.
Lendas: Negrinho do Pastoreio, do Sapé, Tiaracaju do Boitatá, do Boiguaçú, do Curupira, do Saci-Pererê.
Pratos: Baba-de-moça, churrasco, arroz-de-carreteiro, feijoada, fervido.
Bebidas: chimarrão, feito com erva-mate, tomado em cuia e bomba apropriada.

Região Sudeste

Danças: fandango, folia de reis, catira e batuque.
Lendas: Lobisomem, Mula-sem-cabeça, Iara, Lagoa Santa.
Pratos: tutu de feijão, feijoada, lingüiça, carne de porco.
Artesanato: trabalhos em pedra-sabão, colchas, bordados, e trabalhos em cerâmica.

Região Centro-Oeste

Danças: tapiocas, congada, reisado, folia de reis, cururu e tambor.
Festas tradicionais: carvalhada, tourada, festas juninas.
Lendas: pé-de-garrafa, Lobisomem, Saci-Pererê, Ramãozinho.
Pratos: arroz de carreteiro, mandioca, peixes.

Região Nordeste

Danças: frevo, bumba-meu-boi, maracatu, baião, capoeira, caboclinhos, bambolê, congada, carvalhada e cirandas.
Festas: Senhor do Bonfim, Nossa Senhora da Conceição, Iemanjá, na Bahia; Missa do Vaqueiro, Paixão de Cristo, em Pernambuco; romarias – destaca-se a de Juazeiro do Norte, no Ceará.
Pratos – Arroz de Hauçá, Baba-de Moça, Frigideira de camarão, Bolo-de-Milho e outros.

Região Norte

Danças: marujada, carimbó, boi-bumbá, ciranda.
Festas: Círio de Nazaré (Belém), indígenas.
Artesanato: cerâmica marajoara, máscaras indígenas, artigos feitos em palha.
Lenda: Sumaré, Iara, Curupira, da Vitória-régia, Mandioca, Uirapuru.
Pratos: caldeirada de tucunaré, tacacá, tapioca, prato no tucupi .

Principais manifestações folclóricas:

BUMBA-MEU-BOI – Auto ou drama pastoril que por tradição é representado durante o período natalino, como sobrevivência das festividades cristãs medievais, em que o culto do boi se fazia em homenagem ao nascimento de Cristo. De tradição luso-ibérica do século XVI, nasceu dos escravos e pessoas agregadas aos engenhos e fazendas.

PASTORIL – Festa de origem portuguesa, onde “pastoras” vestidas de azul e encarnado, se apresentam diante do presépio em atitude de louvor ao Menino Jesus. Representado durante o Natal.

REISADO – De origem ibérica, é caracterizada por um grupo de pessoas que se reúne para cantar e louvar o nascimento de Cristo. Os praticantes personificam a história dos gladiadores romanos, dos três reis magos e a perseguição aos cristãos. A época principal de exibição são as festividades natalinas, sobretudo no período dos Santos Reis, e o local é de preferência diante de uma lapinha ou presépio. O enredo mais autêntico é registrado em Juazeiro do Norte.

CANINHA VERDE – Dança-cordão de origem portuguesa, introduzida no Brasil durante o ciclo da cana-de-açúcar. Apresenta também elementos de outros folguedos, tais como: casamento matuto (quadrilha junina), mestres e a formação de cordões (pastoril).

DANÇA DO COCO – Surgiu nos engenhos de açúcar, entre os negros existentes no Ceará. Nasceu da cantiga de trabalho, ritmada pela batida das pedras quebrando os frutos, transformando-se, posteriormente, em dança, surgindo uma variedade de temas e formas de coco (coco de praia, do qual participa apenas o elemento masculino, e o coco do sertão, dançando aos pares, homens e mulheres). Dançado em roda, numa forma rítmica altamente contagiante e sensual.

MANEIRO PAU – Surgiu na região do Cariri na época do cangaço. Caracteriza-se por uma dança cujo entrechoque dos cacetes e o coro dos dançarinos produzem a musicalidade e a percussão necessárias. No Crato, o grupo de Maneiro Pau associado à Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto realiza a dança com características dramáticas. É representado nos sítios, subúrbios e pés-de-serra do Crato e cidades vizinhas por ocasião de comemorações diversas.

FOLIA DE REIS – Originalmente, festa popular dedicada aos Três Reis Magos em sua visita ao Deus Menino. É caracterizada por um grupo de pessoas que visitam amigos ou conhecidos, a partir do dia 2 de janeiro ou nas vésperas dos Reis (5/1). Nas visitas eles cantam e dançam versos alusivos à data, ao som de instrumentos e solicitam alimentos e dinheiro. É tradicional utilizar a arrecadação para a ceia no dia de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro). A visita noturna tem mais graça quando se torna uma surpresa.

TORÉM – Dança indígena originária dos descendentes dos índios Tremembé, nativos do povoado de Almofala, no distrito de Itarema, o Torém surgiu por volta do século XVIII no Ceará. É simples e imitativa da fauna local, tendo como ponto alto o momento em que é servido o “mocororó”, uma bebida fermentada do caju, bastante forte. O espetáculo é de grande plasticidade.

DANÇA DE SÃO GONÇALO – Como parte integrante da bagagem cultural do colonizador lusitano, a dança que integrava o culto a São Gonçalo do Amarante, bastante popular em Portugal, foi introduzida no Brasil, sendo, talvez, um dos ritmos mais difundidos do catolicismo rural brasileiro. No município de São Gonçalo do Amarante a dança é realizada durante a festa do santo padroeiro e apresentada em nove jornadas, num ambiente de muita fé e animação. São Gonçalo é o protetor dos violeiros e das donzelas casamenteiras.

MARACATU – De origem africana, consiste num desfile de reis. Apresenta-se em forma de cortejo carnavalesco que baila ao som de instrumentos de percussão, acompanhando uma mulher que na extremidade de um bastão conduz uma bonequinha ricamente enfeitada – a calunga. A dança se dá em passos lentos e cadenciados.

Parabés a todos os folcloristas e mantenedores das tradições

Fonte: André Cristiano Siewert
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“A cultura não deve sofrer nenhuma coerção por parte do poder,
político ou econômico, mas ser ajudada por um e por outro em todas 
as formas de iniciativa pública e privada conforme o verdadeiro humanismo, 
a tradição e o espírito autêntico de cada povo.”
( Papa João Paulo II )

Capoeira Angola e Regional: Fugindo da aparência e ressaltando a essência

O dialogo que propomos aqui faz referencia ao universo das aparências no mundo da capoeira, ou seja, queremos tratar sobre os equívocos em relação à tradição herdada da obra de Bimba e Pastinha, que vez ou outra, são citados como forma de justificarem ou validarem praticas que em muito se distanciam da realidade dos estilos desenvolvidos no processo histórico da capoeiragem.

Iniciaremos falando um pouco sobre o conceito de Tradição em Capoeira, pois este tem sido mal compreendido e utilizado de forma errônea para validar posturas que em nada se relacionam com os ensinamentos básicos da arte. Neste sentido, precisamos entender que a tradição não pode ser encarada como algo imutável e/ou verdade única, pois a mesma sempre estará se desenvolvendo como fruto de cada tempo histórico e suas necessidades. Assim, em se tratando da capoeira, a grande maioria das coisas que chamamos de tradição atualmente foram inventadas por volta da década de trinta, fato que comprova a mutabilidade do tradicional, contudo,  não podemos negligenciar o valor destas transformações, ainda que recentes, para justificar inovações atuais incoerentes com os princípios capoeiristicos, pois ai estaríamos cada vez mais nos distanciando do potencial educativo simbólico de nossa arte.

Grupos intitulados atualmente de Angola ou Regional, tem apresentado um disparate metodológico e de fundamentos, quando investigamos a matriz do estilo que se dizem defensores, pois estes tentam fundamentar suas praticas em uma simbologia superficial e negligenciam princípios fundamentais dos estilos, ou seja, temos observado situações absurdas que estão paulatinamente confundindo os mais jovens e ainda criando paradigmas e verdades absolutas que em nada se relacionam com os trabalhos de Bimba e Pastinha.

No caso da Regional, temos observado a redução deste estilo a simples utilização das seqüências, da bateria com um berimbau médio e dois pandeiros surdos, balões, uso da marca alusiva ao signo de Salomão numa camisa e principalmente ao abuso em relação aos ensinamentos de Bimba e outros fatores, fato que consideramos lamentável, pois não vemos os mesmos grupos preocupados em desenvolver os laços afetivos entre seus membros da mesma forma fraterna e respeitosa da tradição Regional, sendo seus praticantes apenas “peças“ da engrenagem de negocio no mundo atual. Os capoeiristas desta “New Regional“ esquecem de investigar a sistematização do estilo e a relevância oral dos mais antigos que fizeram parte da convivência para construção deste processo, desconsiderando que cada símbolo estrutural da Regional só ganhara sentido se considerado num determinado contexto e quando associado a todo o conjunto da obra, ou seja, usar a bateria não basta, usar as seqüências não basta, falar de Bimba todo o tempo não basta, pois a verdadeira forma de revitalizar seu legado seria, em minha humilde opinião, considerar toda a complexidade daquilo que não ta descrito no manual da Luta Regional Baiana e sim na subjetividade das relações sociais dos praticantes e nos fundamentos iniciaticos ancestrais mantidos por Manoel dos Reis Machado.

Na Angola, o processo não esta muito diferente da Regional, pois se vestir amarelo e preto, mesmo sem saber de onde vem estas cores, jogar de forma acrobática e sem gingar muito, cantar de forma difícil de decifrar a letra e ainda ficar com trejeitos exóticos com “caras e bocas“, talvez só assim você seja considerado um “New Angoleiro“ e possa vender o seu “produto“ para alguém alienado por sua propaganda falaciosa. Absurdo, mas este tem sido o retrato da Angola no mundo, salvo os grupos sérios existentes e seus grandes mestres, que na maioria das vezes não estão no circuito internacional espetacularizado dos mega grupos.

Alguns grupos de angola, tem se comportado metodologicamente, como aqueles ditos “contemporâneos“, espetacularizando a pratica, mercadorizando as vivencias sob a forma de seqüências, que de tempos em tempos são modificadas como uma aeróbica na academia de ginástica, garantindo aos mestres/mercado o dinheiro do circuito internacional. Assim, pouco a pouco, a arte capoeira tem perdido lugar para uma pratica “DENOREX“, ou seja, aquilo que parece ser e não aquilo que de fato representa, pois hoje existe uma “industria“ estereotipada de modelos de mestres e praticantes, que tem transformado tudo e todos em algo possível de ser consumido, desvalorizando o aprender-fazendo, o respeito a diversidade e a valorização do Ritmo, Respeito e Ritual como princípios geradores da vadiagem.

Queremos ressaltar que nossa intenção não se articula com a depreciação da capoeira Angola e Regional, mas sim pela reafirmação da beleza e contribuição destes estilos para capoeiragem, pois acreditamos que o potencial simbólico da capoeira tem sido negligenciado pelas armadilhas da busca desenfreada por notoriedade e concorrência de mercado de grupos perdidos/encontrados na total obscuridade das perspectivas transformadoras para um mundo mais critico, criativo e autônomo.

Acreditamos que existem sim possibilidades a luz dos mais antigos e da obra dos que já se foram deste plano de existência, pois trabalhos como da FUMEB, do Mestre João Pequeno, Lua de Bobo e muitos outros, ainda representam um repositório dos fundamentos de nossa arte e neste sentido convocamos toda comunidade para um pensamento critico e investigativo sobre as “verdades“ da capoeira e seus falsos detentores, que lamentavelmente tem se multiplicado pelo mundo, considerando principalmente nossa inércia subserviente e desinformação sobre os princípios da capoeiragem na Bahia.

Jean Adriano Barros da Silva
www.guetocapoeira.org.br
Tel: 55 71 8109 2550 / 3363 4568 / 3366 4214
75 9168 7534 / 75 3634 2653
Bahia – Brasil

Capoeira reforça intercâmbio cultural entre Brasil e Líbano

O Líbano recebeu, entre os dias 19 e 24 de abril, a visita do capoerista Mestre Nenel (Manoel Nascimento Machado), filho do legendário Mestre Bimba  (Manuel dos Reis Machado – 1900-1974), um dos mais célebres capoeristas brasileiros e considerado o pai da capoeira regional, que ele criou em 1928 – uma mistura de batuque com capoeira Angola.

 

Mestre Bimba recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia em 1996. Seu filho, Mestre  Nenel, criou a fundação “Filhos de Bimba”,  em 1986,  com o objetivo de guardar os ensinamentos do seu pai. Viaja sempre pelo Brasil e exterior para visitar as escolas que seguem a tradição de seu pai. No exterior, há escolas nos EUA, na Europa e no Líbano, a primeira do Oriente Médio.

 

Em 2009, o jovem Nassib El-Khoury, libanês, após ter estudado e praticado capoeira da tradição de Mestre Bimba, criou uma escola em Beirute, com a assitência dos capoeristas e professores brasileiros Roberta Cecilia Meireles Santana e Ricardo Santos de Jesus. A escola conta com aproximadamente 40 jovens, rapazes e moças, libaneses que praticam a capoeira. Além disso, a escola ensina a língua  portuguesa e a cultura brasileira, um dos princípios dos Filhos de Bimba é transmitir também a cultura no exterior.

 

Meste Nenel visitou o Líbano para avaliar os estudantes capoeristas libaneses, e esteve também no centro de estudos e culturas da América Latina, na Universidade Saint-Esprit de Kaslik (CECAL-USEK, diretor Roberto Khatlab), com o qual já vinha mantendo correspondência. A tradição de Mestre Bimba, conservada por seu filho, Mestre Nenel, transmite  não só uma técnica esportiva, mas tambem uma cultura e trabalho para o desenvolvimento da pessoa como um todo. Os Filhos de Bimba também têm como objetivo um trabalho junto aos estudantes, sendo que o princípio de Mestre Bimba, a capoeira, é a formacao do cidadão.

 

A escola dos Filhos de Bimba está em contato com a Universidade e vários estudantes já praticam a capoeira. A Escola também está em contato com o Grupo infantil de tradições brasileiras Alecrim, ligado ao Conselho de Cidadãos Brasileiros do Líbano, e que iniciará um programa com as criancas de Baalbeck, no Vale do Bekaa.

 

Fonte: www.fbeclebanon.com – http://www.icarabe.org/noticias/