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Regras e Tradições

Regras e Tradição

Capoeira é beleza, capoeira é tradição…capoeira tem fundamento, capoeira é vibração” A tradição é um conceito importante no mundo e discurso da capoeira; a gente fala por exemplo da tradição que tem que ser mantida e respeitada, a tradição das vertentes da capoeira Angola ou Regional, ou os rituais dentro da tradição.

Assim, a tradição é explicada como algo que tem que ser seguido, não só porque sempre foi assim, mas porque dá uma certa estrutura, que no fim – contrariamente – nos dá uma certa liberdade: de controle, de disciplina e de autoconhecimento por exemplo. E que deixa o jogo acontecer, como falei no último texto.

Então enquanto a gente se movimenta ‘dentro da tradição’, está tudo bem: dentro da tradição existe uma certa liberdade, mas porque a gente precisa da tradição, e porque seguir os deveres nela? Porque não podemos logo partir para a liberdade?

Na verdade, na filosofia e na psicologia existe a consciência de que uma liberdade absoluta não existe, e se existe, de fato não é a liberdade. A liberdade existe sempre ao lado de algo que a limita.[1] Sabem na psicologia que uma liberdade sem limites, por exemplo a liberdade de poder escolher tudo que se quer, leva a uma ansiedade. A criança que é criada sem nenhuma regra, depois tem muitas problemas de auto-controle, e de construir uma vida própria. A pedagogia consiste em ajudar a criança em crescer e se desenvolver, e isto é feito com a aprendizado de negociar com os limites.

 

Limites portanto, são deveres. E a tradição também tem seus deveres. Fiz um teste. Tenta fazer um ‘pesquisa de palavra’ num grande documento de músicas de capoeira, e conta quantas vezes a palavra ‘tradição’ e ‘regra’ aparecem: ‘tradição’ encontrei várias, ‘regra’ somente uma: “..Mas se ficar inventando regras vou chamar o meu advogado..”

A regra não parece fazer parte do discurso lírico da capoeira, e mesmo assim tem várias regras na capoeira, regras escritas e não-escritas. Muitas delas justificadas para ajudar a ‘manter a tradição’. Então como é que é isso?

Vários (as) mestres (as) que entrevistei, costumaram explicar a regra como algo imposto, que diz o que tu podes e não podes fazer. Enquanto à tradição é algo voluntária, onde você faz porque você quer; porque dá prazer e uma sensação de criar uma certa liberdade. Tudo bem, mas deveres são deveres, não é? Você pode ou não pode. E há varias regras que estão lá para respeitar a tradição, pelo menos segundo eles que defendem-lhes. Qual a diferença então?

De fato, a tradição está dentro de um sistema maior, que determina a cosmovisão do mundo. Enquanto a regra é norma, a tradição tem ‘regra’ também, mas a função dela na tradição é diferente; suporte a perspectiva da vida. Enquanto a regra como norma é para deixar funcionar um determinado sistema.

 

Quando a gente entra numa casa que não é a nossa, precisamos respeitar as regras da casa, igual como nas escolas de capoeira. Porque a gente sabe que quando nós não fazemos, isto cria confusão e é um sinal de desrespeito. A regra é então da casa, mas respeitar essas regras da casa, não é uma regra em si: é uma tradição, que cria uma sociedade mais agradável, onde todos tem o seu espaço. O que ajuda o nosso bem estar. Uma outra analogia será um explicação dado a mim uma vez assim: a tradição é ter berimbau na roda de capoeira, uma regra é ter 3.

 

Regras são introduzidas, inventadas às vezes, por uma escola ou vertente de capoeira, mas isto não automaticamente quer dizer que fazem parte da tradição da capoeira. Voltando para o exemplo do berimbau, a regra de ter três berimbaus na roda respeita e segue a tradição de ter berimbau na roda. O numero de três não fazia parte desta tradição, vendo que há vários exemplos de grupos e escolas de capoeira onde usava mais ou menos berimbaus, dependendo das possibilidades, necessidades e preferências. E todos sabem que mestre Bimba só usava um.

Mas quem sabe, talvez um dia 3 berimbaus será tradição. Porque como as regras são postas ou inventadas seguindo as necessidades e preferências de quem lhes faz, também a tradição não é algo fixa pela eternidade. Uma tradição também se evolui.

 

O filósofo Escocês MacIntyre nós explica que a tradição na verdade é um argumento estendido pelo tempo em que algumas concordâncias são definidas e redefinidas, pelos debates externos e internos.[2] Voltamos para o exemplo do berimbau, teve um época, no início do surgimento da capoeira, onde não havia berimbau quando a capoeira era jogada. Há vários documentos históricos para testemunhar esse fato. Mas, como várias outras manifestações da cultura afro-brasileira – como o batuque e o samba de roda – a execução é feita em roda, com música e dança, consistindo de diferentes instrumentos e canto. Ter musica na roda é então uma tradição até mais antiga, podemos dizer. Mas também podemos ver que o debate não termina nunca, vendo agora também o acrescentamento de surdo e triangulo (e antigamente o violão) nas rodas de capoeira.

Segundo MacIntyre, tratando-se de tradições rivais, o relativismo não seria uma perspectiva de assimilação ou diálogo entre estas tradições rivais.[3] Ou seja, pode-se acabar em rupturas absolutas, onde nenhum debate entre as duas tradições ou vertentes acontece mais. Podemos ver isto como um risco real entre as vertentes de capoeira Angola e regional ocorrido nós últimos 15-20 anos , que hoje em dia parece estar diminuído.

 

Um debate entre tradições é então muito mais profundo e com conseqüências maiores, de que um debate entre regras; muitas vezes o debate sobre regras é baseado somente em uma tradição.

 

As regras ‘universais’ da capoeira – que incluem tanto o uso de uniforme e/ou abada, graduações e títulos, etc. – foram introduzidas na tentativa de oficializar a capoeira numa época (1920), aonde a tendência era desenvolver o aspecto esportiva da capoeira, indo por lado de dô e a pratica no ringue.

Essa tendência aparece dentro um contexto, aonde a capoeira se depara com uma concorrência forte com as lutas Japoneses, o boxe e o savate na época, como o historiador Matthias Assunção nos conta.[4] Uma das conseqüências foi a luta regional Baiana, que mestre Bimba então criou; mas paralelo ao trabalho de mestre Bimba já existia várias outras tentativas de esportizar a capoeira. Com o apelo do governo nacionalista, houve uma tendência em reduzir a capoeira aos seus movimentos ofensivos e defensivos, eliminando aspectos ritualísticos e simbólicos (que é algo cultuado dentro a tradição), a sua musicalidade original e a prática e aprendizagem baseados na tradição oral. Gerando sistematizações, baseadas em regras e princípios oriundos de uma prática didática esportiva.

A gente conhece as críticas – justificadas ou não -, que depois surgiram contra a ‘militarização’ ou a ‘esportização’ da capoeira; regras que foram vistas como não características da capoeira, especialmente no âmbito da competição. Hoje podemos ver um desenvolvimento parecido no ‘empreendedorismo’ dentro a capoeira. Mas a idéia de ter regras na capoeira não foi atacada em si mesmo. Enquanto elas mantiverem a tradição, parece estar tudo bem.

 

Hoje em dia – talvez com o resultado das pesquisas e a realização de que ‘a união faz a força’ – haja uma maior realização de que no fundo a capoeira está inserida numa tradição cultural própria, que é baseada na tradição afro-brasileira. Uma tradição que as varias vertentes de capoeira partilham. Uma arte em que os praticantes segue uma tradição que – entre outras – cria um relacionamento com pessoas de uma outra forma que na sociedade diária; e assim dá mais liberdade aos praticantes de se movimentarem dentro desta sociedade. Uma tradição que tem deveres que são seguidos pela própria vontade e prazer, porque sentimos que nos faz bem. Cada casa tem regras que devem ser respeitados, segundo as tradições de nossa sociedade. Mas isto não quer dizer que estas regras definam a tradição da capoeira.

regul[1]


[1] Pode se explicar um pouco como a idéia que não existe o bem sem existir o mal, agora, depois há varias maneiras de ver o que é o ‘mal’; certo é que é um conceito moral, mas pode ser de uma falta de ação ou de negação, até uma ação grave, como matar ou manipular alguém.

[2] MacIntyre, A. (1988) Whose Justice? Which Rationality? Notre Dame, University of Notre Dame Press. P. 12

[3] Idem.

[4] Assunção, M. (2012) Ringue ou Academia? A emergência dos estilos modernosda capoeira e seu contexto global. No: História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro. http://www.scielo.br/hcsm

Tradições e linhagens da capoeira angola baiana são tema do livro Jogo de Discursos, de Paulo Magalhães

Lançamento na Barroquinha conta com música, capoeira e poesia

O lançamento do livro Jogo de discursos – A disputa por hegemonia na tradição da capoeira angola baiana abrirá as comemorações da semana da consciência negra em Salvador. O evento será realizado no dia 19/11/2012, segunda-feira, a partir das 18h, no Espaço Cultural da Barroquinha. Além da apresentação da publicação, haverá uma apresentação músico-poética do grupo Vira Saia, roda de capoeira angola, coquetel e confraternização.

Fruto da dissertação de mestrado em Ciências Sociais do jornalista Paulo Magalhães,Jogo de discursos trata da diversidade de tradições relativas às diferentes linhagens e heranças na capoeira angola, trazendo uma vasta pesquisa na imprensa baiana e entrevistas com 18 mestres. Publicado pela EDFBA, o livro será comercializado neste dia por um preço especial de lançamento.

O lançamento do livro integra as atividades do evento O Sabor do Saber Ancestral, realizado pela ACANNE (Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro) no período de 19 a 24 de Novembro de 2012, composto por uma semana de rodas, oficinas e vivências, tendo como fio condutor a relação entre a ancestralidade, a cultura, as lutas e os valores civilizatórios de matriz africana.

 

Sobre o autor

Paulo Andrade Magalhães Filho é jornalista pela UFMG, especialista em Educação e Relações Étnico-Raciais pela UESC e mestre em Ciências Sociais pela UFBA. Fundador da revistaAngoleiro é o que Eu Sou (BH – MG), foi consultor dos Encontros Pró-Capoeira realizados pelo IPHAN e membro da organização do I Seminário Baiano de Proposição de Políticas Públicas para a Capoeira. Ex-secretário da Associação Brasileira de Capoeira Angola, atualmente compõe a Coordenação de Patrimônio Cultural do Fórum de Cultura da Bahia.

 

Serviço

O quê: Lançamento do livro Jogo de discursos – A disputa por hegemonia na tradição da capoeira angola baiana

Quando: 19/11/2012, segunda-feira, às 18h

Onde: Espaço Cultural da Barroquinha (Praça Castro Alves, Salvador – BA)

Quanto: Entrada gratuita

 

Maiores informações:

 

Paulo Magalhães

(71) 8741-1251 / 9273-7765

paulomagalhaes80@gmail.com

 

Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro

Rua do Sodré, nº 48, Largo Dois de Julho

Salvador – Bahia – Brasil

acannemestrerene.blogspot.com

Aposentadoria para os “Velhos Mestres”

Pastinha morreu na miséria. Bimba em situação precária. Bobó, Gato, Cobrinha Verde, Waldemar, Caiçara e mais recentemente Bigodinho, todos passaram seus últimos dias de vida sem um amparo digno que a condição de “guardiões da capoeira” deveria lhes proporcionar. E assim como eles, quantos e quantos mestres das tradições populares vivem e morrem no mais completo abandono, sem qualquer auxílio por parte das autoridades nesse país.

O que seria da nossa cultura popular sem esses personagens ?? Quem é que tem a incumbência de transmitir para as gerações futuras, esses saberes e tradições acumulados durante séculos  ???  Os mestres e mestras de capoeira, do maracatu, do samba, das congadas, dos reisados, das marujadas, das religiões afro-brasileiras e de tantas outras manifestações espalhadas por esse Brasil afora, são peças fundamentais para a preservação e valorização dessas tradições que tanto enriquecem o patrimônio cultural do nosso país.

Por isso deveriam ser tratados com mais respeito !!!!

É preciso que se diga, é bem verdade, que algumas ações nesse sentido começam a ser implementadas por políticas públicas no âmbito da cultura. Uma nova concepção de gestão de políticas culturais ainda embrionária, começa a dar sinais de amadurecimento em vários órgãos públicos desse país.

Mas isso ainda é pouco ! É preciso uma maior conscientização por parte da sociedade, no sentido de exigir que essas políticas públicas sejam mais efetivas, que possam garantir mudanças mais substanciais na forma de valorizar, incentivar e apoiar as iniciativas provenientes da cultura popular, favorecendo o reconhecimento desses saberes ancestrais, como vitais para a construção de uma sociedade brasileira mais humana, justa e solidária. Os valores e princípios presentes no universo das culturas populares muito tem a nos ensinar !

E isso passa pela valorização dos mestres, guardiões desses saberes ancestrais. É preciso que medidas concretas de proteção social e valorização desses sujeitos, sejam tomadas urgentemente no sentido de garantir a esses mestres e mestras, um mínimo de condições para exercerem suas atividades, e mais do que isso, de VIVEREM com a dignidade que merecem.

No último dia 27 de abril, foi apresentado um projeto de lei na Câmara Federal em Brasília, de autoria do deputado Edson Santos – PT/RJ, que institui o Programa de Proteção e Promoção dos Mestres e Mestras dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares.

 

Vamos ficar atentos e acompanhar esse processo !!!

Fortaleza: Prefeitura apoia Festival de Capoeira e Tradições Afro

Cerca de três mil pessoas devem participar do evento

A Prefeitura de Fortaleza, através da Secretaria de Esporte e Lazer (Secel) e Secretaria de Direitos Humanos (SDH), apoia, desta segunda, 12, até o próximo domingo, 18 de julho, a realização do III Festival Internacional Capoeira e Tradições Afrodescendentes no Centro Cultural Água de Beber, no Centro.

O festival tem o objetivo de difundir e ampliar as capacidades de compreensão e profissionalização das práticas da arte da capoeira e demais manifestações socioculturais baseadas nas tradições afrodescendentes.

As atividades envolverão alunos, professores, mestres de capoeira, brincantes de folguedos, artistas, educadores, pesquisadores da cultura popular, militantes do movimento negro, além de alunos e professores da rede pública de ensino. A estimativa é de que cerca de três mil pessoas participem do evento, ao longo de sete dias.

Serviço

III Festival Internacional Capoeira e Tradições Afrodescendentes

Período: Desta segunda, 12, até domingo, 18 de julho
Local: Avenida Pessoa Anta, 218, ao lado do Centro Cultural Dragão do Mar – Centro
Horário: As atividades serão realizadas no horário de 8h às 22h.
Contato para a imprensa: Mestre Ratto (85) 8866.5835 – Coordenador do Festival

Fonte: Assessoria de imprensa da Secel

http://www.vermelho.org.br/

Tradições, Rituais e Estilos

Mestre Oto Malta, com mais de 50 anos de capoeira, começou a treinar com Mestre Bimba na Rua das Laranjeiras, em 1958, com 14 anos de idade. Nenel, hoje Mestre Nenel, filho de Bimba, não era nascido e Nalvinha, a filha, tinha um ano de idade. “Carreguei-a ainda de fralda mijada”, relembra Oto. “Tenho o privilégio da amizade de alguns alunos do Mestre Bimba que se formaram pouco tempo depois de mim, dedicaram-se ao ensino da capoeira e hoje são os Mestres Acordeon, Itapoan, Camisa Roxa, Saci, Xaréu e Salário”, declara. Mestre Oto continuou treinando capoeira regularmente até os 25 anos quando as “atribuições da vida”- profissão, família, viagens – foram reduzindo o tempo disponível para os períodos de treino. Deu aulas de capoeira em academias de amigos e na década de 1970 na sua própria residência, em Barra Grande, na ilha de Itaparica. No final da década de 1980 foi para São Paulo de onde só retornou em 2004 quando fez contato com o Mestre Nenel, voltando a jogar capoeira na Fundação Mestre Bimba. Para ele “a capoeira em si já é muito abrangente (arte, luta, dança, filosofia, visão de mundo) e no caso da Regional (capoeira regional) não é possível sintetizar o que os ensinamentos do Mestre Bimba significaram para todos os seus alunos. Mestre Oto é graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Marketing com Mestrado em Gestão Empresarial. Atualmente ensina na Faculdade IBES – ISEC.

 

TRADIÇÕES, RITUAIS E ESTILOS.

 

Antes de tudo, é necessário estabelecer o ordenamento conceitual.

As polêmicas, divergências e contradições que sempre surgem quando se trata de analisar origens e evolução da capoeira poderiam ser evitadas, existindo definição objetiva do que é tradição, ritual e estilo.

 

TRADIÇÕES.

São maneiras de pensar e agir relacionadas com a essência da capoeira, suas razões de ser:

1º A SOCIALIZAÇÃO – os africanos trazidos pelos portugueses para o Brasil eram de várias etnias (bantos, sudaneses, mandingas, malés, etc), não falando a mesma língua, com costumes e religiões diferentes; sem direitos de cidadania e em terra estranha surgiu a tendência do relacionamento e convivência para fortalecimento do grupo heterogêneo em defesa dos interesses comuns.

Até hoje, os capoeiristas de diversas procedências tendem a criar “irmandades” nos seus relacionamentos de aprendizado.

2º A RESISTÊNCIA À DOMINAÇÃO – não se trata do confronto aberto, que seria suicídio, mas da não aceitação da condição de escravo. Sobreviver na situação de dificuldade estrema, pensar a longo prazo nas próximas gerações, miscigenação, sincretismo religioso, quilombos, capoeira.

Hoje o afro descendente está integrado à sociedade e fica o exemplo para todo cidadão, independente da cor da pele, para a não aceitação de qualquer tipo de dominação, seja social, econômica ou política.

3º O DIVERSIONISMO – mais fácil de entender em campo de batalha: o exército menor cria uma estratégia de fuga ou falso ataque em um local para atrair o exército maior adversário a uma emboscada. A capoeira com suas gingas e negaças está sempre tentando iludir o oponente para levá-lo à derrota.

OBSERVAÇÃO:

Todo o processo cultural – do qual a capoeira faz parte – é evolutivo.

Afirmar que as tradições não mudam não está inteiramente correto. As tradições não mudam em função do Mestre, da Escola ou Academia, de ser Regional ou Angola.

As tradições se mantêm na sua essência e evoluem em função do tempo, como a socialização entre os colegas de capoeira e a resistência à dominação que sempre vão existir. A capoeira defensiva, a comunicação e o relacionamento que antes ocorriam entre os escravos nos engenhos, evoluíram para os contra ataques dos tripulantes das embarcações e os trabalhadores dos cais dos portos e espalhou-se pela zona urbana com maior iniciativa de ataque.

A troca de idéias e experiências de forma secreta na senzala, passou a ser feita hoje em eventos, conferências, publicações literárias, via internet.

Mas a essência do companheirismo, da camaradagem, bem como o propósito de repelir qualquer tentativa de manipulação ou dominação continuam sem alteração.

 

RITUAIS.

O ritual consiste em uma série de atitudes e ações sucessivas e pré estabelecidas, criadas para orientar um evento, cerimônia ou “rito”.

Mudam em função dos criadores e praticantes que podem ser o Mestre, o grupo que coordena uma escola, os discípulos mais antigos, os seguidores de um estilo, etc.

Entende-se como ritual o “batizado” a “formatura” a “troca de cordão”, a “chamada” de Angola, o jogo de formados com toque de Iúna da Regional.

 

ESTILOS.

Regional, Angola, Abadá são estilos.

Cada capoeirista também pode desenvolver um estilo próprio. A maneira de gingar, a forma de mover os braços, a altura da cintura, o ângulo do tronco com a cintura, tudo faz parte de uma maneira individual, um estilo próprio de jogar capoeira.

OBSERVAÇÃO:

A “sequência” da Regional não é ritual nem estilo, trata-se de uma metodologia, uma sistemática de ensino desenvolvida por Mestre Bimba.

 

* Elaborado por: Mestre Oto

Pinda: Capoeira começa a conquistar alunos nas escolas da rede pública

Alunos da Escola Estadual Profª Dirce Aparecida P. Marcondes recebeu no dia 1º de junho uma demonstração de capoeira ministrada pelos mestres José Carlos de Souza, o Carlinhos ‘Indio’ , Sandro Ferreira, Fausto Ferreira, instrutor Juninho e aprendiz Maurício da Costa Ribeiro.

Segundo Sandro, está sendo implantado junto à Prefeitura, o projeto educacional Capoeirando na Escola, cujo objetivo é levar o esporte e a cultura às escolas da cidade.

A iniciativa deste evento partiu da Professora de Educação Física, Delma de Fátima Ribeiro, a partir de um projeto desenvolvido em sala com seus alunos, onde a Capoeira foi enfocada pela importância como modalidade esportiva e cultura.

A professora Delma teve em sua iniciativa a aprovação do Diretor Substituto da Escola Dirce, Prof. Carlos Alberto M. Fraga e da Vice-Diretora, Profª Gladys Maria de Paiva Rêgo, pois é uma forma de integrar os alunos ao esporte e à cultura.

“Os alunos gostaram bastante da atividade, envolvendo-se nas apresentações com os mestres Carlinhos e Sandro, pois alguns já conhecem e dominam a prática do esporte, o que motivou os colegas.”, conclui a professora Delma.

Trazida pelos negros para o Novo Mundo, a durante o período da escravidão, juntamente com as tradições e influências religiosas dos povos africanos, a capoeira é hoje Patrimônio Cultural e firma-se como arte marcial afro-brasileira que ganha notoriedade e adeptos em todo o mundo. “Podemos afirmar que atualmente, é bem brasileira, caracterizando-se por golpes e movimentos ágeis e complexos, utilizando mãos, pés, cabeça, pernas, cotovelos e o torso, enfim, elementos ginásticos acrobáticos.”, diz a professora Delma.

 

Fonte: http://www.agoravale.com.br

Évora, O Nosso Encontro

Foi com muito prazer que participei nos últimos dias 11, 12 e 13 de setembro, na bela cidade de Évora, na região do Alentejo em Portugal, de um encontro de capoeira muito peculiar e também muito especial. Não por caso, esse evento foi batizado de “Nosso Encontro” e chegou agora à sua décima edição.

São 10 anos de uma idéia que surgiu do Mestre Beija-Flor e tornada realidade através da competência e esforço do nosso querido Mestre Umoi, no qual mestres, contra-mestres, professores, alunos ou simplesmente “capoeiras” de Portugal e de vários países da Europa, se reúnem num local belíssimo, para se confraternizarem, trocarem idéias e experiências, jogar muita capoeira – de todos os estilos e matrizes – fazer samba e enfim, recarregar suas baterias para continuar na luta cotidiana pela preservação e valorização da capoeira, na qual todos ali estão firmemente envolvidos.

Évora é uma cidade muito antiga, com registros no século II D.C., provavelmente fundada pelos Celtas e depois conquistada pelos Romanos, que deixaram ali belíssimas marcas da sua civilização como o Templo de Diana, a Grande Muralha que protege a cidade ou o imponente Aqueduto. Posteriormente foi tomada pelos Mouros e depois reconquistada pelos Cristãos no século XII. A cidade tem algo de especial e logo na chegada, o visitante percebe uma certa “magia” no ar, o que levou o grande escritor português José Saramago a dizer que “…Evora é principalmente um estado de espírito, aquele estado de espírito que, ao longo da sua história, a fez defender quase sempre o lugar do passado sem negar ao presente”.

E é nesse belo e mágico lugar, que todos os anos acontece o “Nosso Encontro”, que além dos mestres que há muitos anos são responsáveis pela disseminação da capoeira em terras européias, teve como convidado especial o Mestre Plínio do Grupo “Angoleiros Sim Sinhô” de São Paulo, que fez uma palestra muito envolvente e esclarecedora, principalmente para os praticantes de outros estilos, sobre o universo da capoeira angola, suas tradições e peculiaridades. E demonstrou também suas habilidades de um bom sambista, entoando pérolas do Samba-de-Roda do Recôncavo Baiano, enquanto tocava o seu pandeiro, regado com aquela boa “espremidinha”, na qual tive o prazer de acompanhá-lo.

Encontros como esse, permitem um interessante diálogo e uma rica convivência entre os participantes, e mais do que isso, permite uma conscientização cada vez maior sobre a importância de se conhecer a capoeira com mais profundidade, de se respeitar sua diversidade, de compreender e valorizar as tradições dessa arte, sem ignorar as transformações pelas quais a capoeira também passa, pois capoeira é cultura e como tudo que é cultura, é dinâmico e se transforma constantemente. Por isso vale aqui lembrar novamente as sábias palavras de Saramago: “…defender o lugar do passado, sem negar o presente“.

Fica aí  a sugestão: em 2010, vamos todos à Évora !!!

Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, enfocando histórias, casos, experiências, opiniões, críticas, enfim, um texto de uma lauda sobre o universo da capoeiragem.

Lisboa: Palestra com Carlos Eugênio Libano Soares

De passagem pela cidade de Lisboa para pesquisas relacionadas ao tráfico Negreiro do séc. XVIII nos arquivos e acervos Lisboetas, Carlos Eugénio, convidado e hóspede do Grupo de Capoeira Alto Astral, irá realizar uma palestra para a comunidade capoeirística interessada em ampliar seus conhecimentos com um dos maiores nomes ligados a pesquisa da escravidão no Brasil e consequentemente da história da capoeira. É professor pelo departamento de História da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e grande parceiro de nomes como Fred Abreu e António Liberac no universo Histórico da capoeira.

Autor do grande Clássico premiado A negragada 1850-1890 (os capoeiras na corte imperial) e A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850), participou ainda de documentários de grande tais como: Mandinga em Mahatan, Mestre Bimba a Capoeira Iluminada e Pastinha, uma vida pela capoeira.

 

No dia 1 de Agosto de 2009, estará realizando uma palestra sobre a origem da capoeira e tráfico escravo, pelas 16hs da tarde no SLB (Sport Lisboa Benfica) – Porta nº 3 do complexo das piscinas.

 

Valor: 5€

Teresina: 24 horas de Capoeira

Grupo realiza primeira 24 horas de Capoeira de Teresina. As rodas vão começar a partir das 18 horas de sábado e vão até as 18 horas de domingo.

O grupo Solnascente está realizando o Primeiro 24 horas de Capoeira de Teresina, na praça principal do bairro São João, na zona Leste de Teresina, em frente ao clube Eldorado. Além de rodas de capoeira também acontecerá o 5º Encontro Feminino de Capoeira.

O evento terá a participação de 300 a 400 capoeiristas do grupo de Teresina e de esportistas de Brasília, sob o comando do mestre Romeu da Bahia.

Segundo um dos coordenadores do evento, Tiago Craveiro, o objetivo é divulgar o trabalho sócio-educativo e a cultura da capoeira, suas tradições e raízes.

O grupo solnascente já atua a 13 anos em Teresina e está realizando um curso de Capoeira Angola com o mestre Romeu nesta sexta-feira, em sua sede, no Dirceu II, zona Sudeste de Teresina.
 
 
Caroline Oliveira
carolineoliveira@cidadeverde.com

Kina Mutembua e Orquestra de Berimbaus traz a África para o Brasil

Grupo apresenta espetáculo Intore baseado em dança tradicional dos guerreiros de Ruanda.

 

Em busca da valorização das raízes culturais do país, o grupo Kina Mutembua e Orquestra de Berimbaus da ONG Ação Comunitária do Brasil/RJ (ACB/RJ) mergulha na história e traz à cena o espetáculo Intore. A temporada de shows de dança e música afro-brasileira estréia dia 07 de maio às 19h no Teatro SESI da FIRJAN e fica em cartaz até o dia 21.

Intore, que significa “os escolhidos”, é uma dança tradicional que com movimentos fortes narra a vida de heróis e Reis de Ruanda, na África. Criada há séculos atrás, era originalmente apresentada por guerreiros apenas para a corte real. Nas tradições, os guerreiros intore são selecionados pela excepcional qualidade física e moral e são conhecidos por sua elegância, humildade e honradez.

Sob a direção artística do coreógrafo Charles Nelson, o espetáculo recria os elementos básicos da dança ancestral mantendo a tradição da utilização dos tambores rituais ingomas, vindos de Ruanda. O primeiro ato do espetáculo apresenta o cotidiano de uma tribo africana e suas tradições, retratando situações de caça, agradecimentos a divindades, rituais de modo geral e simboliza a força através da dança dos guerreiros. O grande destaque é a dança da guerra, onde movimentos fortes criam uma coreografia complexa com brutal agressividade.

Com o apoio da Petrobras, a montagem foi elaborada a partir dos resultados da Cooperação Sul Sul Brasil-África realizada com o apoio da ONU no final de 2006. O resultado mescla a tradição ruandesa com elementos da cultura popular brasileira. O intercâmbio com artistas do Ballet Nacional de Ruanda deu ao musical o tom da miscigenação cultural e étnica que orienta todos os trabalhos da Ação Comunitária. O resultado dessa cooperação foi destaque no relatório da UNCTAD sobre as experiências de destaque envolvendo o conceito de economia criativa no Brasil.

Kina Mutembua – Batizado com nome em dialeto banto que significa Dançando com o Vento, o grupo Kina Mutembua da ONG Ação Comunitária do Brasil/RJ caracteriza-se pela dança afro associada à capoeira e ao uso de músicas em dialeto banto em seus shows.

Composto por jovens com idade entre 10 e 30 anos, o grupo iniciou sua trajetória há quatro anos sob orientação de um corpo docente formado por professores de expressão corporal, artes cênicas, dança afro, canto e percussão. A partir dessa experiência, surgiu a Orquestra de Berimbaus que tem como base voz, berimbaus e instrumentos de percussão e efeito.

Coisas Nossas, o primeiro espetáculo do grupo, foi apresentado em espaços culturais tradicionais do país como Teatro Rival Petrobras, Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, Teatro Municipal Raul Cortez, Teatro Francisco Nunes (Belo Horizonte), Teatro Nacional de Brasília, Conjunto Cultural da República, Teatro Odylo Costa Filho, Circo Voador e SESC Tijuca. O histórico de apresentações deste grupo ultrapassa as fronteiras do Brasil, o Kina Mutembua já soou seus tambores e mostrou as tradições da capoeira na festa de aniversário da cidade Rinconada de Los Andes (Chile) em 2004.

Ação Comunitária do Brasil/RJ – Fundada há 40 anos junto a comunidades de baixo desenvolvimento econômico, a Ação Comunitária do Brasil/RJ é uma das pioneiras na área de responsabilidade social no Brasil.

Com 40 anos de experiência, a ONG contribui com a definição de políticas e práticas de geração de trabalho e renda para moradores de comunidades de baixa renda. Funciona como incubadora de empreendimentos adotando os princípios da economia solidária e do comércio justo. Recentemente foi destacada pela ONU como um exemplo a ser seguido no combate ao racismo e escolhida, por esta organização, para a realização de experiências-piloto de cooperação Sul-Sul na área da economia criativa. | Site: www.acaocomunitaria.org.br

.Show Intore – grupo Kina Mutembua e Orquestra de Berimbaus, com temporada: 07/05, 13/05, 14/08 e 20/05, 21/05, às 19h30, no Teatro SESI – FIRJAN – Avenida Graça Aranha, 01. Centro – Rio de Janeiro. Ingresso: R$ 12 inteira – R$ 6 meia entrada.

Fonte: http://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=38429