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Manuscritos de Mestre Pastinha trazem a Sabedoria dos Velhos Mestres da Capoeira

MANUSCRITOS DE MESTRE PASTINHA TRAZEM A SABEDORIA DOS VELHOS MESTRES DA CAPOEIRA

Mestre Pastinha deixou manuscritos onde reflete sobre questões relacionadas não só a capoeira, mas também sobre a vida. A série manuscritos, organizado pelo historiador Frede Abreu traz dois livros: Improviso de PastinhaMestre Pastinha: Como eu penso? Despeitados?, este último realizado junto com Greg Downey. Os dois livros têm tradução em inglês, levando a sabedoria do mestre pelo mundo a fora.

O nome Improviso de Pastinha foi escolhido pelo próprio mestre ao receber do discípulo João Grande uma caderneta para escrever ladainhas e corridas. Segundo João Grande esses escritos foram feitos nas décadas de 50 e 60. No verão de 2007, o Instituto Jair Moreira recebeu a autorização de João Grande para publicação dos improvisos do Mestre Pastinha, “um acervo artístico muito rico para quem deseja conhecer coisas temporais e atemporais da capoeira”, escreve Frede Abreu na apresentação. O livro traz os improvisos originais, com a letra do mestre.

Tendo como origem documentos guardados por Emília Biancardi, Mestre Pastinha: Como eu Penso? Despeitados? traz depoimento inédito do Mestre Pastinha. Mais uma vez, a sabedoria do velho mestre é mostrada para o mundo da capoeira com esse manuscrito, que está no livro com o texto original, sem “correção”. O livro também traz os comentários de Frede Abreu, que destaca alguns pontos presentes nas reflexões do mestre como religiosidade, desabafos, e conceitos, lições, precauções e bons exemplos sobre a capoeira.

Os livros são uma realização do Acervo Frede Abreu de Capoeira e apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Mais informações no e-mail elzinhadeabreu@gmail.com.

Sobre o autor – Frede Abreu foi um estudioso da capoeira, criando um acervo com mais de 40 mil títulos, entre livros, recortes de jornais, revistas, CDs, fotos e vídeos sobre capoeira e a cultura afrobrasileira. Também foi fundador do Instituto Jair Moura, membro fundador da Academia de Capoeira Angola de João Pequeno de Pastinha, e da Fundação Mestre Bimba.

O Mestre e sua função

Ao falarmos sobre capoeira é quase inevitável pensarmos logo na figura do mestre. O mestre que também é uma figura muito comum na maioria das manifestações das culturas populares de todo mundo, é aquele considerado o guardião da memória, da tradição, dos saberes e fazeres de uma determinada comunidade.

É aquele que é respeitado por todos como alguém que com o tempo foi assumindo essa função, herdada de outro mestre mais antigo que delegou a ele essa responsabilidade. Mas sobretudo, é aquele que é reconhecido pela sua comunidade como alguém que tem a sabedoria de exercer essa função. E esse reconhecimento é algo adquirido ao logo do tempo, pacientemente, mais ou menos na mesma época em que vão chegando também as rugas no rosto e os primeiros fios de cabelos brancos.

O verdadeiro mestre é aquele que não tem pressa, que sabe que o tempo é quem vai dar-lhe as condições de exercer essa função quase sagrada, com toda a sabedoria que ela exige. E é muito difícil que isso aconteça antes que esse sujeito tenha uma experiência de várias décadas envolvido com essa manifestação.

Por isso é que ele não pode queimar etapas, ser afoito e precipitado. “A fruta só dá no tempo”, como diria mestre Pastinha, mas, no entanto, vemos hoje em dia uma disseminação de jovens capoeiristas na faixa dos 20 ou 30 anos, se auto-intitulando mestres de capoeira, que mal começam a adquirir experiência de vida, e já assumem a responsabilidade de exercer essa sagrada função de mestre perante jovens e adultos em todas as partes do mundo por onde a capoeira se espalhou.

Isso é preocupante, pois acaba ferindo alguns princípios muito valiosos da tradição e da ancestralidade da capoeira, que tem no mestre o seu principal veículo de transmissão e que se baseia, sobretudo, na experiência do mais velho, que é quem tem a autoridade e o reconhecimento para exercer tal função. Citando novamente o filósofo Vicente Ferreira Pastinha, ele dizia que “o mestre guarda segredos, mas não nega explicação”. A capoeira tem segredos, que só os mais velhos sabem decifrar. E é preciso muita paciência e sabedoria para alcançar essa condição.

Vivemos um tempo em que o mercado e a profissionalização do capoeirista, fazem com que sejam queimadas etapas muito importantes no processo de formação do mestre de capoeira. Muitas vezes a ganância e o desejo de lucro por parte de alguns grupos fazem acelerar demasiadamente esse ciclo, dando margem a uma proliferação de mestres de capoeira sem nenhum requisito, experiência, nem capacidade para exercer essa função, o que tem resultado num empobrecimento muito grande na capoeira que se tem visto por aí, mundo afora.

É preciso recuperar a dignidade da função do mestre de capoeira. Ele deve ser um exemplo de vida para seus discípulos, deve conhecer profundamente a capoeira em todos os seus aspectos, e não apenas ter a musculatura mais desenvolvida e ser aquele que salta mais alto. Tem que saber sentar e aconselhar com sabedoria àqueles que estão sob sua guarda, como faziam os velhos griôs* africanos.

Isso só se adquire com o tempo, com bastante tempo.

 

*Vem de griot, da língua francesa, que  traduz  a palavra  Dieli (Jéli ou Djeli), que significa o sangue que circula, na língua bamanan  habitante do  território  do  antigo  império  Mali  que  hoje  está  dividido entre varios  países do noroeste da África. Na tradição oral do noroeste da ÁFRICA, o griô é um(a) caminhante, cantador(a), poeta, contador(a) de histórias, genealogista, artista, comunicador(a) tradicional, mediador(a) político(a) da comunidade. Ele(a) é o sangue que circula os saberes e histórias, mitos, lutas e glórias de seu povo, dando vida à rede de transmissão oral de sua região e país.

Os Velhos Mestres da Vadiação Baiana

VIEIRA, Luiz Renato. Os velhos mestres da vadiação baiana. Revista Capoeira, n. 7, 1999

Neste texto, pretendemos abordar alguns aspectos da capoeiragem baiana do início do século passado — principalmente dos anos 30 aos anos 50 — , a partir de informações obtidas junto aos chamados “velhos mestres”, alguns dos quais já falecidos, como os mestres Caiçara, Canjiquinha, Bobó, Ferreirinha, Paulo dos Anjos e Waldemar da Liberdade, também conhecido como Waldemar do Pero Vaz. Na realidade, para falar da capoeira baiana do início do século passado, seria necessário destacar a participação de figuras como Samuel Querido de Deus, Nagé, Aberrê, Juvenal, Barbosa, Onça-Preta, Amorzinho, Zacarias, Cabelo Bom e outros. Mas não é nossa proposta detalhar a vida e os feitos desses grandes capoeiras, neste momento. Daremos maior ênfase a alguns dos que fizeram a ligação da antiga capoeiragem baiana com a realidade que vivemos, hoje em dia.

Os “velhos mestres” da capoeira da Bahia são considerados os guardiões das tradições da capoeira. É preciso notar que, em outros estados brasileiros, principalmente no Rio de Janeiro, também encontramos velhos mestres, defendendo as tradições da nossa arte-luta, mas aqui nos referiremos somente a alguns dos mestres baianos. Quando falamos de velhos mestres, estamos tratando, na verdade, de pessoas que, ao longo dos anos, acumularam imensa experiência nas rodas de capoeira e na vida, tornando-se importantíssimas referências para os capoeiras das gerações mais novas. Esses personagens da história da capoeira vêm sendo redescobertos e valorizados. Muitos ainda vivem em grandes dificuldades e alguns outros chegaram a morrer na pobreza, como mestre Pastinha. Esperamos que, com o grande crescimento que a capoeira vem apresentando, esses verdadeiros mestres tenham seu lugar reconhecido na história da cultura popular brasileira.

A maioria dos velhos mestres baianos representa a escola da capoeira Angola (embora alguns se recusem a aceitar a dicotomia Angola/Regional) e entre eles podemos citar: Bobó, Caiçara, Canjiquinha, Ferreirinha, Paulo dos Anjos, Waldemar do Pero Vaz, João Pequeno, Gigante, João Grande e Curió. Dessa lista, infelizmente, apenas os quatro últimos ainda estão vivos.

É muito difícil estabelecer, rigorosamente, “linhas de filiação”, quando falamos dos velhos mestres, uma vez que no tempo em que a maior parte desses grandes capoeiras iniciou-se na luta, a prática era informal e, em alguns casos, realizada nas ruas de Salvador, aos domingos ou nas festas de largo. No entanto, mestre Pastinha aparece como a mais importante figura nas tradições da Angola e referem-se a ele como “o mestre que me ensinou”, entre outros, os mestres: Curió, João Pequeno e João Grande. Na realidade, além de ter sido um respeitado mestre, Pastinha se destaca como o principal articulador da capoeira Angola junto aos poderes públicos de sua época, obtendo apoio dos órgãos de turismo e outras instituições estaduais e municipais. Alguns dos velhos mestres ressaltam seu papel como “presidente da capoeira”, principalmente em virtude de sua atuação na fundação do Centro Esportivo de Capoeira Angola, em 1941, com o objetivo de reunir alguns dos melhores capoeiristas da Bahia. Além de mestre Caiçara, contribuíram para a organização do Centro Esportivo de Capoeira Angola, Pastinha, Traíra, Pivô, Waldemar da Liberdade e outros capoeiras da época.

Os mestres Canjiquinha e Caiçara foram discípulos de Aberrê, que Caiçara descreve como “um filho de escravos trazidos da África”. Bobó e Ferreirinha afirmavam ter aprendido capoeira com mestres de Santo Amaro da Purificação, respectivamente Benedito de Santo Amaro e Antônio Asa Branca. Mestre Gigante, também conhecido como Bigodinho, aprendeu a arte com um dos capoeiristas mais famosos de seu tempo, o Cobrinha Verde, tendo depois praticado no Centro Esportivo de mestre Pastinha. Freqüentou por muito tempo, também, a academia de Capoeira Regional de mestre Bimba que, segundo fomos informados, o considerava “o melhor tocador de berimbau da Bahia”. Mestre Paulo dos Anjos, recentemente falecido e um capoeirista mais jovem entre os velhos mestres, foi aluno de mestre Canjiquinha. Mestre Waldemar do Pero Vaz, tendo iniciado a prática da capoeira em 1936, já com 20 anos de idade, foi aluno de capoeiras que figuram como verdadeiros mitos na nossa memória: Canário Pardo, Piripiri, Talavi e Siri-de-Mangue. Mestre Waldemar tem um papel particularmente importante na história da capoeiragem baiana porque, antes de Pastinha se destacar como o principal organizador dos angoleiros, já figurava como liderança que unia os “bambas” da capoeira tradicional, não vinculados à escola de mestre Bimba.

Naquela época, o aprendizado ocorria de maneira vivencial; na maioria dos casos, na própria roda de capoeira. Assim, o iniciante aprendia com os jogadores mais experimentados, informalmente. Embora, já em 1932, tenha sido fundada por mestre Bimba a primeira academia, o aprendizado informal da capoeira, nas ruas de Salvador, predominou até meados da década de 50. De acordo com mestre Gigante, “Naquela época não havia academia. Somente no dia de domingo é que tinha a vadiagem na rua” .

Mestre Waldemar, por exemplo, como já afirmamos, organizou por muitos anos a roda mais famosa de Salvador, no Corta-Braço, na Estrada da Liberdade. Comparando o aprendizado informal de sua época com os treinamentos de capoeira nas academias atuais, observou: “A roda na Liberdade era ao ar livre, perto do arvoredo. Eu fazia o ringue na sombra e botava a rapaziada pra jogar. Depois eu fiz um barracão de palha grande, e vinha tudo quanto era capoeirista da Bahia”.

Assim, o jogo da capoeira aparecia integrado ao cotidiano do povo, como a “pelada”. Embora existissem os “cobras”, não havia uma rigorosa exigência do domínio da técnica do jogo, mas apenas o conhecimento do ritual da roda e o respeito ao mestre e aos mais antigos. Mesmo havendo os pontos tradicionais de reunião dos capoeiras, principalmente nos domingos à tarde, qualquer ocasião em que se encontrassem era propícia à realização de rodas. Portanto, os bares, as praças, os mercados e as feiras, freqüentemente, eram palco de rodas inesperadas. Eram também comuns as rodas realizadas com o objetivo de recolher dinheiro dos assistentes para ser distribuído entre os capoeiristas. Em alguns locais, estes recolhiam com a boca as cédulas lançadas ao chão da roda, executando complexos movimentos de destreza e equilíbrio sobre as mãos ou, simplesmente, “passando o chapéu” entre os assistentes.

Sendo uma prática comum no cotidiano da época, a capoeira não exigia nenhuma indumentária especial: o praticante participava calçado e com a roupa do dia-a-dia. Nas rodas mais tradicionais, aos domingos, alguns dos capoeiristas mais destacados faziam questão de se apresentar, trajando refinados ternos de linho branco, como era comum até meados deste século. Vejamos o que disse mestre Paulo dos Anjos sobre o assunto: “Seu Waldemar ia pra roda de capoeira vestido de linho diagonal, uma fazenda que não era qualquer um que vestia não. Chapéu Rameson 3x e sapato da Clark. Você que fosse jogar com ele e, por desacerto, sem querer, você encostasse seu pé sujo no linho diagonal de Waldemar. Não era nem louco!”.

São muito comuns, na literatura e nos depoimentos, as referências ao traje branco dos capoeiristas do passado, o que se relaciona com a tradição de que capoeira que é bom não cai, nem permite que o outro lhe encoste o pé. No entanto, esse traje não chegou a caracterizar uma vestimenta específica para o jogo. Apenas mais tarde, no final da década de 50, as academias de capoeira passaram a adotar uniformes diferenciados pelas cores das camisetas e das calças, embora mestre Pastinha já adotasse o uniforme amarelo e preto, desde os anos 40.

Os ambientes freqüentados pela maioria dos capoeiristas e o contexto em que aconteciam as rodas, eram fatores que colaboravam para os diversos choques com a polícia, embora o último período de ferrenha perseguição aos capoeiras baianos tenha sido a década de 20, quando foi chefe de polícia, Pedro de Azevedo Gordilho, conhecido como Pedrito. Então, a partir da década de 30, foi deixando de existir uma atitude repressiva, especificamente contra os capoeiristas, mas a polícia continuou criando problemas para muitos. Entre os mestres mais idosos da Bahia, há os que se referem, orgulhosamente, aos conflitos de que participaram, inclusive com a polícia, ilustrando o discurso com suas cicatrizes de facadas e tiros, como mestre Caiçara. Mas Canjiquinha também ressalta a perseguição de que foi vítima: “A gente jogava capoeira nos dias de domingo. Não tinha academia e quando aparecia a polícia a gente tinha que sair correndo”.

Por outro lado, há casos em que a própria polícia ajudava a “manter a ordem” nas rodas, o que nos mostra como sempre foi complexa a relação da capoeira com as instituições e o poder no Brasil. Vejamos, por exemplo, o que afirmou mestre Waldemar, sobre a roda que organizava na década de 40: “Uma vez, eu fui na delegacia da Liberdade pedir ao delegado que mandasse polícia para olhar a roda que eu fazia. Tinha muito capoeirista aparecendo lá e criando confusão. Ele disse que não precisava não: ‘mande seus alunos dar uma cipoada neles e trazer aqui’”.

Os mestres eram figuras altamente respeitadas, destacando-se dos demais pela habilidade no jogo, nos toques do berimbau e nas cantigas. Alguns dos mais famosos que mantinham rodas de capoeira eram mestre Bimba, que fazia roda aos domingos no Alto de Amaralina; mestre Waldemar do Pero Vaz, com sua roda na Estrada da Liberdade; mestre Pastinha, que reunia os capoeiristas no Largo do Pelourinho e mestre Cobrinha Verde, com sua roda no Chame-Chame. Os mestres ocupavam lugar especial nas rodas de capoeira. Era sempre o mestre que iniciava e encerrava a roda, fazia recomendações nos cânticos e podia comprar qualquer jogo que estivesse acontecendo, escolhendo qualquer capoeirista para jogar. Além disso, não se permitia comprar jogo de mestre: apenas outro capoeirista, na mesma condição, poderia fazê-lo. Os mais antigos ressaltam, insistentemente, o fato de que nas rodas, hoje em dia, os mestres não são tratados com a distinção dos outros tempos. Nas palavras de mestre Curió: “Tem alunos que chegam na roda e tomam o berimbau do mestre, tomam o berimbau de minha mão. No meu tempo não tinha isso não. O mestre dava se quisesse. E quando o mestre estava jogando, o aluno não podia entrar”.

É importante ressaltar que, embora questionem algumas atitudes dos capoeiras da atualidade — como, por exemplo, o desrespeito aos rituais tradicionais —, os velhos mestres, em geral, demonstram grande admiração pelo crescimento e reconhecimento que a capoeira vem alcançando. De uma certa forma, podemos dizer que é a concretização de seus sonhos, embora ainda haja muita coisa a fazer e a resgatar do passado.

Temos, realmente, muito a aprender com esses mestres. Entendemos que a história não é a ciência do passado, mas a chave para que possamos, conhecendo o passado, construir um futuro melhor. Há fundamentos essenciais que podemos aprender ouvindo, observando e conhecendo as histórias e estórias desses importantes personagens da nossa história e da nossa cultura.

 

As entrevistas citadas foram realizadas entre 1988 e 1989, e constam do livro:

VIEIRA, Luiz Renato. O jogo da capoeira: corpo e cultura popular no Brasil. 2a ed., Rio de Janeiro: Ed. Sprint, 1998.

 

Mestre Luiz Renato

Mestre de Capoeira do Grupo Beribazu, formado pelo Mestre Zulu. Sociólogo, mestre em sociologia (UnB) e doutor em sociologia da cultura (UnB/Univ. de Paris I – Sorbonne). Especialista em políticas públicas e gestão governamental (ENAP-MPOG). Ensina a capoeira desde 1981. Coordenador do Projeto Capoeira Atividade Comunitária – Centro de Capoeira da UnB desde 1990. Autor de livros e diversos artigos sobre a capoeira e outros temas relacionados à educação e à cultura popular publicados em revistas científicas nas áreas de políticas públicas, ciências sociais e educação física. Professor universitário e Consultor Legislativo do Senado Federal na área de cultura. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2001134054398981

 

Fonte:

Grupo de Estudos de História da Capoeira

Blog do Grupo de Estudos de História da Capoeira, vinculado ao Projeto Comunitário Capoeira – Centro de Capoeira da UnB

http://estudoscapoeira.blogspot.com/

Reflexão: Capoeira Angola: Uma idéia, não um estilo!

Entendo que a capoeira angola, finalmente, seja uma idéia, não um estillo!

Agrega valores que a define como um caminho, um ideal, uma causa, uma ação ligada diretamente para causas sociais, o sindicato dos excluidos, o grito dos humildes, a voz da plebe e de todos que necessitam de discernimento, independente de estilos, que já é próprio, inerente, sendo que expressamos em movimentos o que somos.

Precisamos mudar o conceito atual, que a capoeira angola é o estilo dos velhos, dos lentos, da capoeira sem combatividade, do jogo embaixo, somente, é tudo isso e muito mais.

É a idéia dos velhos sim, não o estilo.

Estamos herdando toda essa idéia dos velhos, e estamos deixando essa idéia se perder por falta de discernimento, responsabilidade, compromisso, atitude.

Temos que treinar, estudar, treinar, ler, treinar, vivenciar, treinar e treinar, para mudar esse conceito ridículo que está levando todos para outras vertentes.

Temos que fazer da capoeira angola realmente uma filosofia, compromisso para que possamos moralizá-la. Chega a ser desleal, sendo a capoeira angola a que embate ao sistema, somos naturalmente excluídos das mídias, tornando nossas idéias ainda mais ocultas.

Penso que seje essa a identidade da capoeira da Ilha, capoeira angola, agregada a todos esses valores, onde jogamos em baixo, em cima, no meio, voando, onde os berimbaus arrepiam os pêlos, onde a ladainha cala fundo em que ouve, onde o Mestre ainda tem autoridade sem ser autoritário, sem excluir as pessoas por não estarem de cintos ou sapatos, com malandragem, revide, educação, combatividade, resistência discernimento cultural, compromisso e muito treino para que possamos estar nas ruas com a nossa idéia moralizada, para que possamos dar visibiliade e atrair pessoas para compartilharem dessa idéia chamada angola.

Sinto que alunos e até alguns mais velhos não sentem orgulho da vertente, acabam por desistirem e desistimulam futuros angoleiros. Rodas ecléticas, cada qual com seu estilo dentro de uma idéia chamada angola, onde cada qual leva o que tem e trás o que precisa para sua vida.

Sem esteriotipar os sentimentos, os movimentos,os pensamentos.

Essa idéia que chamo de angola é a força é o meio, e não devemos distorcer nem permitir que deturpem, criando outro conceito que nada irá contribuir para o esclarecimento de toda essa estrutura escravista que está aí nos oprimindo.

Temos que ter orgulho do que somos, sou angoleiro, sim sinhô!!!

 

QUILOMBOLA CAPOEIRA ANGOLA

Mestre Pinoquio – mpinoqcap@hotmail.com

Expansão da capoeira

A capoeira junto ao candomblé e o samba é uma das mais importantes manifestações de nossa cultura. Trazida pelos escravos africanos, que aqui chegaram para a cultura canavieira, desempenhou um forte papel na resistência cultural dos afro-brasileiros. Seus praticantes exerceram função preeminente em episódios da história do Brasil, como na guerra do Paraguai; na luta pelo abolicionismo e na transição do Império para a República. A luta-arte, já surge internacional, pois é o encontro das nações: congos, angolas, bengelas, moçambiques, minas, rebolos e cassanges.

No contexto pós-abolicionista, a capoeira foi perseguida e sua prática considerada crime. Assim como o candomblé, sobreviveu e recontextualizou-se. Hoje é elemento referência da cultura brasileira. Capoeiras de todos os continentes chegam ao Brasil, para beber na fonte dos velhos mestres e vivenciar sua filosofia, que nos remete ao caráter da sociedade brasileira, formado por tolerância, hospitalidade, pluralidade e originalidade.

Sua expansão para o mundo, teve início com dois gênios da Bahia: mestres Bimba e Pastinha que era filho de um espanhol com uma negra e que recebeu em sua academia no Pelourinho, o escritor Jorge Amado, o francês Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Caribé, Mário Cravo. As vozes dos pioneiros baianos entraram nos corações dos jovens de esquerda, que buscavam na cultura popular, as justificativas de seus ideais políticos.

Meio século depois, o mundo se africaniza com a capoeira. Milhares de praticantes negros, brancos e amarelos; católicos e mulçumanos; judeus e árabes, do velho e novo mundo, chegam ao Brasil falando e cantando em português as ladainhas e corridos da capoeira. Os discípulos de Pastinha, João Grande e Jelon Vieira de Bimba, tiveram seus trabalhos, que realizam há duas décadas em Manhattan, reconhecidos pelo governo da Casa Branca. Lá receberam o National Heritage Fellowship Award. A mais importante homenagem da cultura estadunidense.

O ex-ministro Gilberto Gil, depois de encontrar dezenas de mestres nos aeroportos internacionais de todos os continentes, disse que “a capoeira se espalhou pelo mundo sem nenhuma ajuda governamental”. Iniciou então o processo de reparação desta dívida, criou o primeiro edital de apoio a projetos, grupos e pesquisadores. Contribuiu junto com a Fundação Palmares, para que a arte afro-brasileira fosse reconhecida como patrimônio cultural.

Mas Pernambuco saiu na frente e aprovou uma pensão vitalícia, para os velhos mestres. Devolvendo a eles, muito pouco, comparado ao que produziram com sua arte, para divulgar positivamente o país. A Bahia, a “Meca da capoeira”, ainda está timidamente se mobilizando, para o reconhecimento destes lutadores, que levaram ao mundo um Brasil alegre e solidário; criando um mercado de trabalho de difícil mensuração.

Lucia Correia Lima é jornalista, fotógrafa e autora do roteiro de documentário “Mandinga em Manhattan” – premio DOCTV 2005 do MinC.

Diretora de Projetos e Comunicação da Associação Brasileira de Capoeira Angola – luciacorreialima@hotmail.com

Fonte: A Tarde de 27 do 12 pagina do editorial coluna Opinião

Tributo à Mestre Gato Preto

Mestre Zé Baiano, angoleiro pronto pelas mãos de Mestre Gato Preto da Bahia, lançará o DVD Tributo à Mestre Gato. O lançamento será dia 26 de Agosto de 2005 em Caraguatatuba, Litoral Norte de São Paulo.
 
        Se perguntar para os Capoeiras mais jovens que foi o José Gabriel Góes poucos saberão responder. Invertendo-se o jogo, e perguntando aos velhos e jovens mestres quem foi Gato Preto, será quase uníssona a resposta: um dos maiores angoleiros da Bahia.
 

A IMPORTÂNCIA DAS CADEIRAS NO DESENVOLVIMENTO DO GOLPE DE VISTA E NA SEGURANÇA DO JOGO DE CAPOEIRA

Dedicado a Guanais e Lemos, que me fizeram aprender o mecanismo de perda de consciência, desmaio, pela hipertensão intracraniana por compressão das veias jugulares no colar-de-força.
 
Mestre Pastinha escreveu:
 

2.2.31 – …"eu não enventei"…

… "eu não enventei;”…

…”eu vi e achei bom”…

… “e aprendi no circo de cadeiras,”…

… “para aprender o jogo de dentro…"
(77a,11-b13)

… Nós todos vimos…

… achamos bom…

… aprendemos com os mais velhos!


FUNDAMENTOS DA CAPOEIRA

Os fundamentos da capoeira ou, como usam, incorretamente, alguns descuidados da nossa língua, suas "fundamentações", vêm sendo discutidos com certa freqüência a partir do uso infeliz desta palavra pelo Mestre Noronha, que se disse conhecedor único dos seus mesmos, sem os enunciar nos seus obscuros "escritos"…
Em trabalho algum encontrei, nem ouvi, conceito, nem definição, do emprego deste vocábulo pelos autores, o que vem aumentando a confusão entre os mestres e capoeiristas dum modo geral. É que nos meios populares baianos, especialmente nos terreiros de candomblé e nas rodas boêmias, o termo adquire uma conotação bem diversa daquela encontrada nos clássicos e dicionários de nossa língua. Uma vez que nestes grupamentos sociais, esta palavra é usado em referência à parte mais secreta e profunda do culto ou prática, somente acessível as camadas mais elevadas da comunidade, adquirindo então um atributo de secreto, sagrado, inacessível aos não-iniciados, ensinamento esotérico, hermético, misterioso, mágico

"Hoje vejo reduzido, os capoeirista, perdeiram suas
forças de vontade, não procuram o fundamento,
só querem a prender a propria violencia.

O trecho acima, manuscrito pelo Mestre Pastinha, ilustra o emprego do termo "fundamento" pelos antigos capoeiristas no sentido de essência de conhecimentos sobre a capoeira, seus princípios morais, seu ritual, sua prática e seus efeitos sobre o comportamento de cada capoeirista, a razão de ser do seu ritual e do comportamento do jogador, bem como a sua origem, a influência relativa de cada um dos seus componentes, sua música, seu ritmo, seus cânticos, etc.

Concordando com Esdras "Damião" na estranheza do uso de Fundamento e Fundamentação no linguajar dos capoeiristas antigos e modernos (dialeto capoeirano?) vivo procurando porque tanto ênfase neste conceito.

Do longo convívio nos meios de capoeira, nos centros de candomblé e durante a prática médica nas classes menos favorecidas pela Deusa da Fortuna, posso extrair vários sentidos encontrados.
Inicialmente impõe-se o sentido de conhecimento teórico ou prático sobre assuntos de qualquer natureza, independente de estudos formais.
Quando se fala em idéia ou comportamento sem fundamento indica-se a falta de razão subjacente ou de base para tal.

Há uma nuança de mistério, de sacralização, quando empregada em referência a conhecimento reservado a certos grupos sociais como dos feitos do candomblé. Como no caso dos antigos mestres que se proclamavam detentores dos fundamentos da capoeira… somente eles o possuíam…
 Ser conhecedor dos fundamentos da seita ou de qualquer outro ramo de atividade humana, social, científica ou artística é altamente valorizado nestes ambientes culturais baianos; motivo de orgulho e jactância, algo muito especial e envaidecedor.

 É com admiração que se diz: "Fulano conhece muito bem os fundamento de samba!", enquanto outros estufam o peito e se gabam de serem os únicos conhecedores disto ou daquilo… especialmente entre os menos favorecidos de inteligência, cultura e sobretudo, modéstia… apesar de bem providos de auto-estima e vaidade.
 É freqüente e natural, o entitulado "de conhecedor dos fundamentos" desdenhosamente se recusar a transmitir aos não-iniciados aqueles mistérios sagrados, dotados de poder mágico.

 A atrapalhação provocada pelo emprego descuidado desta palavra por alguns estudiosos pouco habituados ao linguajar popular baiano, especialmente do seu uso nas rodas boêmias e nos terreiros de candomblé, aumentou pelo aparecimento de divagações literárias em torno de assunto, cuja definição e conceito os autores sequer conheciam, sem se aperceberem da leviandade, nem da gravidade da falha da científica cometida… palavras bem entoadas, frases bem torneadas, porém vazias… diríamos "sem fundamento" num barzinho da rua do Julião!

A propósito de "FUNDAMENTO" o "Novo Dicionário Aurélio"arrola os seguintes significados:

  1. Base, alicerce.
  2. Razões ou argumentos em que se funda uma tese, concepção, ponto de vista, etc.; base, apoio.
  3. Razão, justificativa, motivo.
  4. Aquilo sobre o que se apoia quer um dado domínio do ser (e então o fundamento é garantia ou razão do ser), quer uma ordem ou conjunto de conhecimentos (e então o fundamento é o conjunto de proposições ou de idéias mais gerais ou mais simples de onde esses conhecimentos se deduzem).
Do acima transcrito entendo que devemos a aceitar por definição como "fundamentos da capoeira" a sua razão de ser e as justificativas de sua maneira de ser, isto é os elementos que a identificam como "SER" em nosso mundo conceptual.
A primeira indagação que surge em nossa mente ao analisar o assunto é:

QUE É O JOGO DE CAPOEIRA?

A resposta técnica é:
"A capoeira baiana é um processo dinâmico, coreográfico, desenvolvido por 2 (dois) parceiros, caracterizado pela associação de movimentos rituais, executados em sintonia com ritmo ijexá, regido pelo toque do berimbau, simulando intenções de ataque, defesa e esquiva, ao tempo em que exibe habilidade, força e autoconfiança, em colaboração com o parceiro do jogo, pretendendo cada qual demonstrar habilidade superior à do companheiro.
O complexo coreográfico se desenvolve a partir dum movimento básico denominado de gingado, do qual surgem os demais num desenrolar aparentemente espontâneo e natural, porém com um objetivo dissimulado de obrigar o seu parceiro a admitir a própria inferioridade.
Dentre as características mais importantes da capoeira destacamos a liberdade de criação, a estrita obediência aos rituais, a preservação das tradições, o culto dos antepassados e o respeito aos mais velhos como repositório da sabedoria comunitária."
 Ou poeticamente:

"A capoeira é uma luta…
ensinada e praticada como dança!

… pode ser usada como defesa…
e como ataque…
numa hora de "percisão"!
nas palavras dos Mestres
Bimba e Pastinha!

A capoeira é uma arte…
a arte de bem viver…
DISPUTADA COMO LUTA…
"mata até sem querer!"
… dizia Mestres Bimba…
"e o bom da vida é não morrer!"
… completava Mestre Pastinha!

OS FUNDAMENTOS DA CAPOEIRA

A prática da capoeira se desenvolve obedecendo aos seguintes parâmetros:

  1. movimentos rituais ritmodependentes
  2. ritmo ijexá regido pelo berimbau
  3. disciplina e respeito à tradição, aos mais velhos e aos companheiros
  4. parceria
  5. movimentos em esquiva, circulares e descendentes
  6. dissimulação de intenção
  7. alerta, calma, relaxamento e autoconfiança permanentes
  8. estado de consciência modificado (transe capoeirano), que analisaremos a seguir.
MOVIMENTOS RITUAIS RITMODEPENDENTES

O conjunto dos movimentos dos participantes para ser reconhecido como jogo de capoeira deve ser ajustado ao ritmo/melodia do toque da orquestra e obedecer às regras tradicionais de cada estilo, especialmente àquelas que garantem a segurança da sua prática, i.e., a não-violência.
A capoeira baiana é, por definição e princípio, uma luta dissimulada sob forma de dança ou uma dança guerreira, ou ainda como declarou José Roberto"Pingo" (18 anos), aluno e filho pela capoeira de Mestre Canelão (Natal, RN):

"A capoeira não é violência, é um esporte, uma brincadeira sadia… a luta fica escondida."

Além do enquadramento dos movimentos ao ritmo e à melodia, é indispensável a estrita adesão ao seu ritual, isto é, às regras tradicionais que regem sua prática e garantem a segurança dos participantes. Um acordo de cavaleiros, um código de honra, transmitido pela tradição oral entre as gerações, desde suas origens, como disse o Venerável Mestre Pastinha:

1.4.21 – …"aprender municiosamente ás regras da capoeira"…
"… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar minuciosamente ás regras da capoeira de angola"; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,"…

(8a, 15-23; 8a, 20-23; 8b, 1-2)

Assim o Venerável Mestre Pastinha sabiamente reitera…
… é indispensável o código honra…
… a ser obedecido pelos capoeiristas, pois ..
… "é o controle do jogo"…
… pelo juiz… pelas regras… regulamentos…
… e pelo ritmo da orquestra…
… "que evita a violência e os acidentes"…
… vale a repetição!

RITMO IJEXÁ

Por ser uma manifestação coreográfica do ritmo africano ijexá o enquadramento dos movimentos da capoeira ao mesmo é fundamental à sua prática, conservando a continuidade da sua dinâmica, sem que se quebre a seqüência dos mesmos.
O andamento do toque ijexá leva uma estado transicional de consciência calmo, pacifico, prazeroso, possibilitando um jogo sem violência e bem cadenciado, permitindo aos parceiros estudo, análise, reflexão e criação de gestos rituais capazes de enriquecer o cabedal de reflexos de defesa, de esquiva e contra-ataques, que compõem o perfil do comportamento do verdadeiro capoeirista.
A aceleração excessiva do andamento provoca um estado de excitação incompatível com a calma indispensável à prática da capoeira, além de impossibilitar o gingado, transformando uma atividade lúdica em agressiva e potencialmente lesiva ou letal.
A observação dos movimentos rituais gerados pelos diferentes toques de atabaques, especialmente entre o ijexá dum lado e aqueles de alujá e adarrum, esclarecerá nitidamente a importância da cadência do toque da orquestra no desempenho dos parceiros do jogo de capoeira, do seu comportamento e estado mental.

DISCIPLINA E RESPEITO À TRADIÇÃO,
AOS MAIS VELHOS E AOS COMPANHEIROS

Nas sociedades de cultura oral, como as africanas, o liame entre as gerações é indispensável à sobrevivência do grupamento e dos indivíduos, valorizando os mais velhos como depositários confiáveis da sabedoria e da experiência, imprescindíveis à educação dos mais jovens e menos experientes.
Manifestação cultural pela sua própria natureza, a capoeira depende da aproximação das gerações, o que integra a sociedade transformando-a num monólito, capaz de resistir às influências externas e perdurar no tempo.
A postura de respeito aos mais velhos certamente conduz àquela de respeito, estima e consideração aos companheiros de geração, os seus parceiros, unindo o grupo social, transformando-o numa família, num clã, num agrupamento tribal, numa unidade fundamental indissolúvel (com "sprit de corps", diria o Gal. Liauty) à qual todos se orgulham de pertencer, como todos fazemos com nossa roda de capoeira.  

PARCERIA

Do respeito às tradições e aos mais velhos facilmente alcançamos a noção de parceria, indispensável ao aprendizado, ao ensino e à prática da capoeira.
A capoeira, atividade fundamentalmente guerreira, intrinsecamente belicosa, potencialmente lesiva e mortal, não pode ser praticada sem confiança recíproca, sem um compromisso de não-agressividade, de não-violência, de respeito mútuo, como são as suas tradicionais regras do jogo, o seu ritual.
A este elo de camaradagem e respeito mútuo chamamos de "parceria", sem ele, morreriam todos os alunos no início do aprendizado ou desistiriam, tal a gravidade das suas lesões!
Sem a parceria, cada "volta do mundo" seria uma batalha, com morte do vencido e sem vencedor.
A Capoeira seria então o próprio Apocalipse e cada Mestre o seu Cavaleiro!

MOVIMENTOS EM ESQUIVA,
DESCENDÊNCIA E CIRCULARIDADE

Dizem os orientais que a esfera é a forma da perfeição e o círculo sua expressão mais autêntica.
Na dança ritual do candomblé os movimentos são circulares, manifestando em cada segmento e no conjunto o acoplamento ao toque (ritmo e andamento) de cada orixá.
Os movimentos circulares são os únicos que propiciam a esquiva, o escape da linha direta do ataque sem o afastamento para traz, que dificultaria ou impossibilitaria o contra-ataque.
Na capoeira, os movimentos, principalmente os deslocamentos, devem ser circulares ou melhor esféricos, girando em torno do centro de gravidade do parceiro, escapando ao seu ataque e contornando o seu flanco à procura dum ponto fraco ou abertura na guarda.
As esquivas descendentes, geram movimentos melhor apoiados no solo, portanto mais seguros, permitindo também a procura dos pontos mais baixos do corpo, habitualmente os mais vulneráveis, do adversário simulado.
Com a vantagem de que o jogador pode usar nesta postura os quatro membros e a cabeça como pontos de apoio no solo, além de dispor de maior amplitude de deslocamento, que pode aumentar a velocidade e força viva dos ataques e contra-ataques.
Sem falar que a rasteira, antigamente tão usada no jogo de capoeira e hoje tão raramente presenciada, é mais facilmente executada em posição mais agachada.
A atitude de esquiva é fundamental na capoeira, protegendo o praticante dos ataques, enquanto permite aproveitar a quebra da guarda, que sempre ocorre durante o movimento de ataque, para um contra-ataque oportuno.

DISSIMULAÇÃO DE INTENÇÃO

Decorrência da definição e conceito da capoeira baiana como uma dissimulação de luta sob forma de dança, adquire a simulação de intenção e a dissimulação de propósito ou de objetivos, um papel preponderante nesta vadiação dos mestiços do recôncavo baiano.
Joga melhor o mais inteligente, o mais manhoso, o mais malicioso, o mais enganador; o que conseguir convencer o companheiro de algo que jamais fará e se aproveitar do gesto em falso do parceiro para desferir o seu golpe verdadeiro.
É preciso "pegar" o parceiro desprevenido, depois de atraí-lo para o laço, para a armadilha em que o mesmo se enredará sem violência e sem maior esforço de parte do atacante.
O floreio, especialmente aqueles executados com os membros superiores, por não afetarem a postura e equilíbrio, nem exigir deslocamento espacial, é o instrumento mais adequado para simulação de ataques e/ou dissimulação de intenção ou objetivo. O floreio mais eficiente é aquele que traz no seu bojo potencial de ataque a ser desencadeado instantaneamente no momento propício.

ALERTA, CALMA, RELAXAMENTO
E AUTOCONFIANÇA PERMANENTES

O capoeirista necessita manter contínua sintonia com a mente do parceiro para detectar suas reais intenções e assim poder antecipar-se aos seus gestos e movimentos, seja de floreio, seja de ataque ou de esquiva.
Desta postura mental brota naturalmente o permanente acoplamento do indivíduo ao ambiente vizinha. Uma eterna vigilância. Um nexo inconsciente entre o indivíduo e o meio, que empresta ao capoeirista um ajustamento instantâneo às variáveis exteriores, sejam físicas ou espirituais, que o conduz à premunição dos perigos e às reações, defensivas ou de esquiva, adequadas.
Muitas vezes o contra-ataque surge, surpreendente como relâmpago em dia de sol, como bote de jararaca aparentemente adormecida.
Na minha opinião, esta é a razão maior da influência comportamental nos deficientes, da melhoria do rendimento intelectual concomitante e das suas condições psicológicas.
Somente a calma absoluta permite o relaxamento indispensável ao desencadeamento dos reflexos de defesa, ataque e contra-ataque com tempo mínimo de latência.
Apenas em perfeita tranqüilidade conseguimos manter o estado de alerta em relaxamento, capaz de liberar todas as vias neuroniais, aferentes e aferentes, para o trânsito dos estímulos periféricos e reações motoras reflexas, inconscientes e instantâneas, de esquiva, defesa, ataque e contra-ataque características do capoeirista durante o jogo ou em momento de perigo.
Podemos assim valorizar a advertência do Venerável Mestre Pastinha ao declamar:"Quanto mais calmo o capoeirista… melhor para o capoeirista…"
Com o passar do tempo, a repetição interminável de situações de perigo aparente ou real. O eterno suceder de imprevistos que desencadeiam reações instantâneas, algumas surpreendentes, porém sempre adequadas, gera uma atitude inconsciente de autoconfiança. A qual facilita mais ainda o desenvolvimento deste processo de preservação da integridade do SER, a jóia mais preciosa que a capoeira pode oferecer ao seu aficionado.
É a tranqüilidade dos fortes" ou, como prefere Esdras "Damião", "a calma é a virtude dos fortes!

ESTADO DE CONSCIÊNCIA MODIFICADO
(TRANSE CAPOEIRANO)

 Sob a influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá e pelo ritual da capoeira, o seu praticante alcança um estado modificado de consciência em que o SER se comporta como parte integrante do conjunto harmonioso em se encontra inserido naquele momento.
 O capoerista deixando de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusionando-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira. Passando a agir como parte integrante do quadro ambiental em desenvolvimento. Procedendo como se conhecesse ou apercebesse simultaneamente passado, presente e futuro (tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá a seguir) e se ajustando natural, insensível e instantaneamente ao processo atual.

UNIÃO, ESPORTE E AMOR UNIVERSAL

Bendito seja o africano!
… da cadência dos soluços do degredo e da escravidão…
fez surgir a dança da liberdade, da igualdade e da fraternidade!
… que há de unir velhos e meninos…
… homens e mulheres…
… mestres e alunos…
… de todas cores e nações…
… nos cânticos dos "Salmos de São Salomão"!