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GRÃO-MESTRE – “SER OU NÃO SER”

GRÃO-MESTRE – “SER OU NÃO SER”

Camisa Roxa, segundo me falaram, ao ser indagado num evento realizado em Siribinha – BA sobre o título de Grão-Mestre que recebera havia pouco tempo, respondeu: “existem tantos mestres de capoeira hoje em dia, que parece com a areia de um oceano! Eu sou apenas um grão desta areia”.

Muito interessante e sábia a resposta!

Conhecendo mestre Camisa Roxa, como o conheci, pois na década de 70 tive o prazer do primeiro contato com ele, quando precisou da ajuda para montar um show do seu grupo folclórico “Olodumaré”, aqui em Brasília, show do qual também participei e que depois fomos nos apresentar em Belo Horizonte. Entretanto, quando o grupo foi para o exterior, apesar do convite do Camisa, eu amarelei, fiquei no Brasil.

Interessante registrar um episódio que aconteceu, no momento em que fui recebê-lo na antiga rodoviária de Brasília, junto com mestre Adilson, quando numa daquelas coincidências ímpares, vem na nossa direção caminhando, o grande mestre Bimba, que também tive a oportunidade de ser apresentando pelo próprio Camisa, que em tempo, de maneira nervosa me disse: “não diga ao mestre qual o motivo da minha vinda aqui em Brasília”.

Naquele momento eu ainda não sabia das intenções do Camisa, uma vez que tinha acabado de conhecê-lo!

A preocupação do Camisa Roxa era a de que o mestre Bimba soubesse que ele estava montando um espetáculo de capoeira, perto do show que ele iria dar! Diga-se de passagem, que esse “perto” correspondia a 200 km de distância, que é a distância de Brasília à Goiânia, onde seria o seu show!

O que eu pude observar desse comportamento do Camisa Roxa, claro, foi o grande respeito e consideração que tinha para com o mestre Bimba!

Tenho certeza que se pudéssemos criar uma atmosfera desse encontro que já se passou o que hoje é impossível, uma vez que os dois estão no andar de cima, com toda certeza mestre Camisa Roxa, teria me pedido: “não fale nada ao mestre Bimba do título de Grão-Mestre que recebi”, pois como poderia ele explicar que seu título era superior ao do Mestre Bimba!

Por esta razão, achei interessante a resposta do mestre Camisa Roxa a respeito do grão de areia, que na verdade é um daqueles “bom rolê” do capoeira, visto que, no universo da capoeira, esse título ainda nem existe.  Portanto, a resposta em forma de brincadeira, faz sentido, tem sabedoria!

O fato de existirem muitos mestres de capoeira hoje em dia, não acho que deva ser um motivo de incomodo, como alguns mestres assim enxergam.   Isso porque, assim como existem “artistas” e artistas, “médicos” e médicos, “mestres” e mestres, assim como também existem “cachorros vira-lata” e cachorros vira-lata, quero dizer que em todos esses exemplos, sempre se sobressaem os que são “especiais”!

Mestre é um título de ofício, de trabalho, de um pescador que se destaca dentre todos na sua comunidade e é consagrado por todos! E assim acontece com todos: pintor, músico, capoeira, etc. É preciso que haja uma força maior a fim de que defina quem deva ter essa consagração dentro da comunidade que atua!

Grão-Mestre, para mim, é um título místico, dado principalmente pela maçonaria, entidade que existe há muito na nossa sociedade e que de forma secreta e fechada, tem uma normatização própria que confere esse título a alguém dos seus membros.

Recentemente um discípulo meu, que também é mestre, mestre Skysito,afirmou que o que está acontecendo na capoeira: é porque ela não tem dono!

Respondi ao “gafanhoto”, que era isso que eu achava interessante na capoeira, ela não precisa de dono, nós que vivenciamos dentro da sua energia, percebemos de maneira empírica, quando ela determina, adequa as normas, mesmo de maneira implícita, mas que sentimos que tem força de fato!

Percebo que não é preciso ser doutor na capoeira para entender isso, a grande maioria sabe diferenciar muito bem, por terem um olhar crítico natural, a capacidade de identificar o que é certo e desconfiar do que é errado!

Trago essa discussão à tona antes que algum aventureiro embarque neste navio, quando ainda há tempo de não cair nesta cilada.

Também chamo a atenção essa inversão de valores que está começando a aparecer no nosso meio! Quem está graduando o Grão-Mestre, são os próprios alunos daquele mestre e isso é no mínimo estranho, pois nesse momento, essa consagração é reconhecida somente por aqueles que estão envolvidos diretamente com o seu mestre, o universo da capoeira, não participa deste evento!

Vamos esperar meus camaradas, que como um capoeira de coração e atitude, sejamos algum “Capoeira Especial”!

Brasília, DF, 1 de janeiro de 2014

HÉLIO TABOSA DE MORAES- Mestre Tabosa

Fonte: http://mestretabosa.blogspot.com.br/

“Capoeiras” de Antigamente!

“CAPOEIRAS” DE ANTIGAMENTE!

“Quem engana aos outros, enganaprimeiro a si mesmo”.(filosofia – autor ignorado)

A vida e as façanhas de antigos “capoeiras” só podem ser encontradas em livros… ou nas páginas de crimes de velhíssimos jornais. Os fotógrafos daqueles tempos — “retratistas” ou “lambe-lambe” — não tinham interesse em registrar pobres e nem negros, apenas pintores e desenhistas, já pelos idos dos 1800 e tanto o fariam, eternizando em tela cenas das ruas das grandes cidades do Vice-Reino de Portugal e Algarves. Cronistas como Coelho Neto, Olavo Bilac e Luiz Edmundo deixaram páginas curiosas sobre a ação dos “capoeiras” cariocas, além de romancistas como Aluísio de Azevedo e historiadores também.Se a “ralé da pernada e da navalha” nascia entre o povo pobre e sofrido, no Rio dos 2 Pedros surgiu entre a nobreza também, bispos e deputados, comerciantes e senadores, jornalistas e poetas, alguns barões e condes, todos hábeis gingadores.

Nesta nossa Santa Maria de Belém do Grão-Pará — “nascida em dia azíago”, conforme o governador Mendonça Furtado, que detestava a região — tivemos “navalhistas” célebres, cujos nomes se perderam na distância. No “Compêndio das Eras da Província do Pará”, de ANTÔNIO BAENA, consta determinada passagem em que guardas rebelados fizeram (em 1754 ?) o “primeiro arrastão” de que se tem notícia, roubando as casas de nobres e abastados e “se pirulitando” lá pros lados do Amapá, de barco suponho. Nunca foram pêgos mas ía tudo para “os costados” da Capoeira. Se era ladrão, era “capoeira”… e pelos 2 séculos seguintes seria assim !Registro de berimbau soando na noite de Natal de 1584 temos no Diário do irmão Barnabé Tello que, junto com uns 20 frades, naufragou antes de chegar a Lisboa. Deixou registrado seu momento musical, talvez com o “berimbau de boca”, um ferrinho circular tendo a boca como “cabaça”. Com tal nome confirma que o verdadeiro “mbolungunga” — o BERIMBAU “de barriga” — já era conhecido.

Em recente entrevista no YouTube (2020) angoleiro da UFPA declara que um certo “Mundinho” seria o “capoeira” mais antigo de Belém, suponho que entre os vivos. Vivente ou não, é cedo para tal conclusão… desde os anos 50 vinham para Belém grupos artísticos, de música e dança, quase todos baianos, com “capoeiras” entre êles, está nos jornais da época tal informação, por vezes com fotos. Esses sujeitos quedavam por dias ou semanas e, quem sabem, até ensinavam uns e outros por aqui. O que se tem de certo é que — nos anos 70, quando alguns dos mestres atuais iniciaram — já gingavam por essas bandas um certo mestre “Decente” e um “Pula-Pula”, além do mineiro “Brinco Dourado”, em Icoaraci, segundo mestre Luís Carlos. Um tal de “Maranhão”, pelas palavras de mestre Fernando Rabelo, que “deu uns pulos lá pelo Ver-o-Peso e saltou fora”, após nocaute inesperado. Professores antigos em 1986/87 em Belém só Walcir, Romildo, Laíca, Rai, Brás, Silvério, Sapo, Waldecir e Nonato, fora um certo Edilson lá pros lados da Marambaia e o pouco visto “Pantera”, atuando junto ao Beto, isso em Marituba. Aparece agora o “intragável” “Caiçara” afirmando ser “da turma de 71″… para reprisar Nestor Capoeira. Como PROVA isso, nem me perguntem ! 

"Capoeiras de Antigamente! Capoeira Portal Capoeira
Foto Nato Azevedo – 1990


O jornalista Álvaro Martins, de O Liberal, citou em 1988 um programa da recém-fundada TV MARAJOARA, nos anos 50, protagonizado pelo hoje “Pierre Beltrand” (ou seria o prof. Klaus Keller ?) e que reunia boxeadores e “capoeiras”. Em página de um Diário do Pará muito antigo há foto de uma dupla negra (fazendo aú) que precisa ser identificada, se isso fôr possível. Entre os vivos, aqui em Belém, os mestres Marrom (no Guamá)  e Pica-pau (no Jurunas) são muito antigos, Zeca (no Bengui) e China (na Guanabara) também. Quando aqui esteve — em 1981 — meu irmão presenciou Sérgio Nazaré “Zumbi” já ensinando. Os 2 nomes “mais famosos” teriam “aportado” em Belém em 1974 e 76, encontrando aqui um certo Lourival fotógrafo e, o outro, seu amigo carioca “Babel”… acredite quem quiser ! O fato é que a ORIGEM da Capoeira em Belém ainda é… um MISTÉRIO ! 

“NATO” AZEVEDO (em 10/jan. 2021, 19hs)

Na onda do berimbau…


“Na onda do berimbau /
agitarei no Carnaval…”
OSVALDO NUNES (1965)

De repente, surgem na tela do PC da lanhouse aqui do município as imagens do vídeo “12 Horas de Capoeira”… curioso isso, novamente com a presença só de adultos, homens quase todos — tem um “verme gordo” entre êles —  e praticamente mulher alguma. Pelo visto, os modernos tempos dela não interessam mais à garotada, Roda com 12 ou 15 berimbaus (?!), nenhum pandeiro… atabaque, nem pensar ! Segundo alguns evangélicos, “abre as portas do Inferno para os anjos do Mal”. Será que Lúcifer sabe disso ?!

É claro que ninguém quer andar com aquele “trambolho” nas costas, mas daí a ELIMINÁ-LO é um exagero. Eventos oficiais daquele porte e os tais “Batizados” — pra mim terá sempre este nome ! – exigem a “bateria” (ou “cozinha” ou seja lá que nome tenha agora) completa e dentro dos Fundamentos (?!), supondo-se que a Capoeira os tenha ! “Traduzindo”… 3 berimbaus diferentes, pandeiro, atabaque e, talvez, “ganzá”, o pouco visto reco-reco. Caxixi não mão de tocador é artigo raro e berimbau “de taquara”, bambu, é ainda mais difícil de se ver, felizmente. Alunos usavam “vareta” de bambu, que “se gastava”, poía, no local da batida. “Baquetas” grandes demais incomodam, moedas ou arruelas com furo no meio são um suplício, ninguém merece… a medida da vareta era/foi de “1 palmo e 4 dedos” do tocador, sem verniz (que sai com o suor), passava-se as costas de uma vela nela toda.

Tudo isso é coisa do Passado, como o “capoeira” antigo também é ! “Meter-se” entre os atuais praticantes, só se fôr para “passar vergonha” ! Filmagem recente nos exibe “mestre velho” que já não sabe mais sair de um “martelo” e assusta-se (?!) com “queixada” ou “armada”, mais preocupado com o chapéu do que com os golpes que recebe. Tenham a santa paciência… a Capoeira nos cobra bom-senso, já que não pode nos dar “vergonha na cara”

O quanto sabiam os praticantes dos anos 70 ?! Uns 15 ou 20 movimentos dos 30 ou 35 existentes. (Leia-se Lamartine P. da Costa para conhecê-los todos.) Quanto sabem os jovens atuais ?! Mais de 30, talvez 40, de 60 ou 80 novos movimentos, que exigem deles mais VELOCIDADE, mais destreza corporal, resistência física e preparo muscular. Os antigos jogavam por distração, passatempo, após um dia inteiro (ou semana) de trabalho duro. Hoje a juventude treina hora e meia todos os dias, descansada, e vai para as Rodas tensa, pronta para disputas e não lazer. Creio que os antigos aproveitaram melhor seus tempos na Capoeira, pois nela fizeram AMIGOS que os acompanham até hoje. Vejo jovens “capoeiras” talentosos, merecendo seus títulos e troféus… mas andam sozinhos ! Os que entraram nela nos anos 70 e 80 aprenderam a tocar pelo menos 5 ritmos, senão 6, no berimbau e não “atravessam” no atabaque ou pandeiro. Também cantam melhor — pelo menos se ouve seu canto — que a rapaziada moderna, que precisa de microfone para se fazer ouvir. Não é regra geral, tem antigos que “dão vexame” quando abrem a boca !

É preciso NÃO ABANDONAR a música, ela é a ALMA da Capoeira… quem já treinou sem canto ou som sabe do que estou falando ! Antigamente os professores “escalavam” 3 ou 4 alunos para “sustentar o som” enquanto os demais treinavam. E havia AULAS de toque, também !

Na onda do berimbau... Capoeira Portal Capoeira

Na Era da Comunicação desconheço como a Capoeira está sendo ensinada, mas vejo no YouTube vídeos para tudo, auto-explicativos, para se “aprender em casa”. Em longínquos tempos “uma imagem valia por mil palavras”, o Mestre raramente falava, ensinava pelo exemplo, quem estivesse prestando atenção aprendia. No berimbau do professor ninguém mexia, era sagrado… aprendia-se a tocar num outro qualquer, a maior parte dos alunos tinha o seu em casa, para desespero de pais e vizinhos. Os 3 toques básicos todos sabiam, o de Angola era pouco tocado, a maioria preferia o São Bento Grande. Além destes, “Cavalaria” e “Samba de Roda”… não serviam para jogo, mas treinavam o aluno nas ‘VIRADAS”, essenciais para acompanhar os dois S. Bento. Depois vinham o “Panha a laranja” e “Santa Maria”… dizem que é o mesmo toque com 2 nomes; este comentário vale para “Idalina” e “Banguela”, que alguns falam “Benguela”. Finalmente, os mais dedicados aprendiam também o “Iúna” — para jogo de mestres ou alunos formados — e um certo “Amazonas”, que poucos sabem como era. Tive-os todos gravados em fita cassette por meu amigo “RUBINHO Tabajaras”, alguns LPs da época traziam boa parte deles. Ouvi dizer que o toque “Iúna” era usado no enterro de um mestre ! (*1)

Todo este rico acervo de conhecimentos vem se perdendo, ignorado pelos mais jovens e, aos poucos, sendo esquecido pelos mais antigos, a ponto de eu ter presenciado um suposto mestre em 1990 — hoje “paparicado” aqui em Belém, desconheço o motivo — usando toca-disco com defeito na rotação para “animar” sua aula ! E é uma “praga” dessas que formara — creio eu que nem aulas dá — alunos que serão mestres, adiante.

Deixei de fora da relação o “toque de S. Bento da REGIONAL”… esse toque surgiu na Zona Sul carioca lá pelos anos 70, mas foi criado (nos anos 40 ?) por mestre “BIMBA”. Me parece que os Grupos da Zona Norte usavam o S. Bento tradicional. Frequentei poucas vezes a academia de mestre “Peixinho”, na Travessa Angrense, nos sábados e não me lembro do uso dele nas famosas “Rodas Livres” lá. Suponho que teria sido mestre “Camisa” — já no CEU-Casa do Estudante Universitário ou no Clube Guanabara — o divulgador da “novidade” ! Não estou afirmando nada ! “Na Bahia tem, / vou mandar buscar / berimbau de ouro, / ferro de engomar” ! Nem mesmo os “corridos” antigos resistem ao avanço dessa modernidade (?!) que tudo “destrói” !


“NATO” AZEVEDO (em 10/jan. 2021, 15hs)

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OBS: (*1) EM VIDEO DE FINS DOS ANOS 80 (1988? 90?) num Batizado de mestre “Canjiquinha” em Salvador, este nos apresenta um certo “Muzenza”, toque que reproduz o som dos atabaques do Candomblé. Afirma que era usado para a “Capoeira-luta”, isso na academia dele. Meu irmão argumenta que o “IÚNA” repete o toque de tambores chamado de ANGOLA, no Candomblé… nada sei a respeito

A IMPORTÂNCIA DO TRANSE CAPOEIRANO NO JOGO DE CAPOEIRA DA BAHIA

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Há muitos anos, cerca de 40, venho comparando o comportamento dos capoeiristas durante o jogo de capoeira da Bahia e suas atividades habituais.
O convívio com os praticantes das artes marciais orientais, do espiritismo, do candomblé; o estudo do hipnotismo, do ioga, da parapsicologia, da fisiopatologia do sono, dos estados modificados de consciência e a prática da meditação nos permitiram analisar o comportamento e o potencial do ser humano em diversas estágios de consciência.
Os registros históricos, científicos e religiosos de condições de bilocação, teletransporte, telecinesia, materializações e desmaterializações, bem como os estudos de física subatômica, nos vem atraindo a atenção para o efeito dos sons e dos ritmos sonoros sobre os níveis e estados de consciência, bem como a correspondência entre os mesmos e as manifestações motora e comportamentais daqueles sob a sua influência.
É notória a influência da música sobre o estado de humor das pessoas, basta lembrar a tristeza do toque de silêncio, a ternura da Ave-Maria, a agitação do Olodum e dos trios elétricos, os movimentos suaves do balé no “Lago do Cisne”.
É evidente que os movimentos induzido pelo “reagge” são diferentes daqueles do samba, da valsa, do cancã ou do foxblue. Sem falar da marcha forçada sob o rufar dos tambores; da tranqüilidade do silêncio; da irritação pelos ruídos; do pânico ao bramir dos elefantes, do rugir do tigre, do estrondo das trovoadas; da sensação de bem estar e conforto trazida pelo ruflar da brisa suave na folhas…
A cultura africana encontramos o uso de música, ritmo e cânticos como gerenciadores, coordenadores, estimuladores de atividades comunitárias como pesca, caça, plantio, etc.
O candomblé oferece-nos uma variedade de toques de atabaques, com diversos ritmos e andamentos, capazes de desencadearem manifestações motoras padronizadas sob categorias de orixás.
É conveniente estudar as associações de toques, ritmos e andamentos com os padrões de comportamentos dos orixás e personalidades dos “filhos de santo” para melhor entendermos a influência dos toques, ritmos e andamentos nos desenvolvimento do jogo de capoeira, consoante a variedade de temperamentos e personalidades dos capoeiristas.
O exame das fotografias de Pierre Fatumbi Verger, de cenas de candomblé colhidas na África, documenta a identidade daqueles movimentos durante o transe dos orixás, que manifestam a atividade gerada pelos toques e ritmos musicais do candomblé e destes da capoeira.
É conveniente lembrar a associação dos estados de humor com as expressões faciais e posturas do corpo para compreendermos melhor as repercussões das modificações de estado de consciência e as manifestações motoras conseqüentes.
Todos reconhecemos os ombros caídos do desânimo, o olhar de tristeza, a vivacidade dos movimentos de alegria, a expressão corporal do animal prestes a atacar, etc.
Quantos outros quadros poderíamos citar?
Portanto, se a música pode alterar o estado de ânimo e as suas manifestações motoras estáticas e dinâmicas, forçosamente teremos que concluir que o andamento, ritmo, palmas e cantos também modificam o comportamento dos capoeiristas durante o jogo.

INFLUÊNCIA DO ARQUÉTIPO COMPORTAMENTAL

Ante um mesmo toque, ritmo e andamento, os diversos arquétipos manifestam sua identidade de modo particular, especifico para cada entidade comportamental (com nuanças especiais, intrínsecas a cada ser e cada momento histórico) de modo que o comportamento é praticamente imprevisível a cada instante, porém com um fluxo natural, espontâneo, ingênito, inato… instintivo como dizia Bimba.
Assim é o próprio Bimba conhecia o fato e afirmava “é o jeitcho dêle“, permitindo que cada um jogasse capoeira com suas características pessoais.
Fato muito notório em certos capoeiristas de movimentos muito lentos, porém dotados de grande mobilidade articular e elasticidade, como Prof. Hélio Ramos, “Cascavel,” Eziquiel “Jiquié”, “Caveirinha”, entre tantos. Assim é que “Atenilo” (jocosamente conhecido como “Relâmpago”) um dos mais antigos dos alunos do Mestre, jamais modificou seu estilo tardo, lerdo, ingênuo, de praticar a capoeira.


Entretanto, ainda hoje não consigo reconhecer ou identificar os vários arquétipos de capoeiristas, mas posso perceber de modo vago, as semelhanças que se repetem independentemente de mestres, momento histórico e localização geográfica.
Assim é que venho detectando similitude do que chamamos de “jogo” (estilo pessoal, jeito particular de jogar) em alunos de diferentes mestres e em regiões diferentes, i.e., encontrando “jogos” parecidos com alguns dos companheiros de meus tempos antigos em locais diversos, como em Natal/RN, Goiânia/GO, etc.
Fato mais surpreendente foi ver, recentemente, na Academia de Mestre João Pequeno de Pastinha, aparecer um rapaz, cujo nome e mestre não consegui identificar, cerca de 17 anos, negro, alto, longilíneo; pescoço fino, elástico e forte; com um jogo incrivelmente semelhante ao do meu Mestre (Bimba), a ponto de me sugerir a sua reincarnação.

TOQUES PACÍFICOS E TOQUES DE GUERRA

Os vários toques, ritmos, andamentos e cânticos de candomblé associam-se a modificações de estados de consciência (transe de orixás) específicos de cada arquétipo. Sendo o estado de transe provocado pela adequação, sinergia, sintonia, harmonia, da música com o arquétipo (sensibilidade do ente sob seu campo energético ou vibratório).
Assim é que uma pessoa, sujeita aos diversos tipos de vibrações orfeônicas em campo sonoro desta natureza, poderá permanecer indiferente a vários padrões orfeônicos ou exteriorizar sua sensibilidade por manifestações motoras ou psicológicas em algum momento ou padrão, com o qual seu arquétipo se harmonize.
Consoante o tipo sonoro, pacífico, belicoso, calmo, agitado, lento, vivo, moderado, rápido, a entidade em sinergia manifestará sua sintonia por movimentos calmos, majestosos, vivos, violentos, guerreiros, etc.
Dentre os toques calmos destaca-se o ijexá, pela paz, alegria, felicidade e requebro a que se associa, razão pela qual permite os movimentos do samba de roda, do afoxé, batuque e capoeira.
A importância atribuída pelo nosso Mestre ao toque era tal que o compelia a usar apenas a musica do berimbau (tocado pelo próprio), sem pandeiro, para que os aprendizes fixassem o ritmo-melodia em toda sua plenitude. A exclusão de todo e qualquer outro instrumento que não berimbau e pandeiro da orquestra também decorria desta premissa.
Freqüentemente, quando os alunos jogavam com muito açodamento e velocidade durante um toque de “banguela” o Mestre resmungava:

“Tô disperdiçandu minha banguela!
“Só merecem mesmu a cavalaria!”
E…
“virava” para o toque mais duro e bruto da “regional”…
impiedosamente mais adequado para os embrutecidos…
insensíveis e afobados.

O CAMPO ENERGÉTICO
DA ORQUESTRA, CANTO, PALMAS E JOGO

O capoeirista, como todos os demais participantes duma roda de capoeira, está encerrado num campo energético, com o qual interage e portanto sujeito a todos os seus fatores em atividade
Reflete, portanto, não só seu estado pessoal, porém aquele do complexo energético da roda, sofrendo a influência de todo o conjunto.
Toda a excitação ambiental envolve os jogadores e transtorna a condução do espetáculo, o qual poderá evoluir para um circo romano em toda sua barbárie.
Razão pela qual, a assistência do jogo da capoeira, antigamente, nas festas de largo, assistia silenciosa e respeitadora, como numa cerimonia religiosa, o desenrolar do jogo de capoeira, procurando guardar os detalhes de cada um dos lances à procura da descoberta do mais habilidoso, elegante, malicioso, inteligente, destro dentre os participantes.
O silêncio e a paz ambiental propiciam a melhor percepção da mensagem orfeônica, o desenvolvimento do transe capoeirano e portanto, o desenrolar do jogo.
As palmas, introduzidas pelo Mestre Bimba para enfatizar a participação da assistência e esquentar o ritmo, alcançam atualmente intensidade tal, que não mais permitem ouvir o toque do berimbau e muitas vezes, sequer os cânticos, desnaturando a capoeira no seu ponto mais nobre, a musicalidade, fonte do transe, ponto capital do jogo.
O atabaque, formalmente condenado pelo Mestre Bimba, durante todo o tempo em que acompanhei a sua rota, foi introduzido pelo Mestre Pastinha e ulteriormente usado pelos grupos folclóricos, a partir de Camisa Roxa, Acordeom, Itapoan, etc. para enfatizar a “africanidade” original. Tocado por quem de direito, suave e discretamente, como pelas orquestras de Mestre Pastinha e seus descendentes; conhecedores dos arcanos, fundamentos, segredos musicais africanos, marca o andamento e acompanha o toque do berimbau, instrumento-rei da capoeira, ao qual deve acompanhar e jamais suplantar, obscurecer.
Em mão desabilitadas, como ocorre na rodas da chamada regional atual, torna-se arauto de ritmo guerreiro e acarretam um transe violento, que vem matando, ferindo, lesando impiedosamente os seus praticantes, desde que provoca um transe agressivo, belicosos, guerreiro, desenfreado e deve portanto ser proscrito em nome da legitimidade da capoeira e da segurança dos seus praticantes.
O agogô e o , são excelentes marcadores de compasso, indispensáveis nas orquestras de candomblé, embora não aceitos pelo Bimba, talvez por terem sido introduzidos por Pastinha, enriquecem as charangas dos seguidores do estilo de Mestre Pastinha e ajudam (e muito!) a manter a constância do andamento do toque.
O reco-reco, também introduzido pelo Mestre Pastinha, nos parece inócuo, sem maior expressão musical, dispensável, salvo para manter a tradição do estilo.
Aviola, hoje em desuso, de ausência lamentada pelo Mestre Pastinha em seus manuscritos, também encontrada no samba de roda, nos indica a origem comum da capoeira e do samba, como indicamos em nossos escritos sobre a família musical áfrico-brasileira.
Opandeiro, com redução dos guizos com recomendado pelo Mestre Bimba, marca o compasso e mantém a constância do andamento quando em mãos habilitadas. É comum no entanto que os mais afoitos (ou despreparados?) acelerem o ritmo ou se afastem do toque do berimbau, desde que não havendo treinamento adequado (ensaio) como fazem os descendentes de Mestre Pastinha ou responsável pela direção da orquestra ou charanga (fiscal no dizer de Mestre Pastinha) é comum alguém se apropriar indevidamente do manuseio deste instrumento.
Mestre Bimba dizia que “O pandeiro é o atabaque do capoeirista“.
Oberimbau é o instrumento-rei da capoeira, vez que somente o seu aparecimento na rodas de capoeira (antigamente citadas apenas como “ capoeira” pelo próprio Mestre Pastinha, algumas vezes referidas como “capoeira de Fulano de Tal“) é que marca o surgimento da capoeira como a reconhecemos atualmente, a capoeira da Bahia, seja o estilo “angola” seja o “regional”.
Torna-se portanto, indispensável ao bom desenvolvimento do jogo que seu toque predomine no ambiente, mantendo a uniformidade do ritmo e o entrosamento entre os parceiros duma “volta” ou “jogo”, sem o qual fatalmente existirão os desencontros e a violência.

TEXTOS CORRELATOS

ESTADO DE CONSCIÊNCIA MODIFICADO (TRANSE CAPOEIRANO)

 Sob a influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá e pelo ritual da capoeira, o seu praticante alcança um estado modificado de consciência em que o SER se comporta como parte integrante do conjunto harmonioso em se encontra inserido naquele momento.
 O capoeirista deixando de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusionando-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira. Passando a agir como parte integrante do quadro ambiental em desenvolvimento. Procedendo como se conhecesse ou apercebesse simultaneamente passado, presente e futuro (tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá a seguir) e se ajustando natural, insensível e instantaneamente ao processo atual.
Decanio Filho, A. A. – in Fundamentos da capoeira (texto publicado em Capoeira da Bahia Online para download). 

BERIMBAU – A LIGAÇÏ ENTRE O MANIFESTO E O INVISÍVEL

O capoeirista para jogar capoeira não precisa de conhecer a história e a técnica da capoeira, por que o ritmo/melodia põe o ouvinte diretamente em sintonia com a “capoeira” abstrata, que abrange a fonte etérea dos movimentos, os paradigmas de jogos, os arquétipos de capoeiristas e talvez com a própria “tradição”. Por este motivo, poderemos aprender por ver, ouvir e dançar… como “Totônio de Maré” o fez no cais do porto de Salvador/BA.
“Itapoan” perguntou a “Maré” como aprendera capoeira e este respondeu:

“Vendo os outros jogarem. Gostei, entrei na roda e joguei!”

Conforme assisti em gravação VHS do acervo do Mestre Itapoan, em casa do mesmo.
E “Vovô Capoeira” fez o mesmo, aos 84 anos de idade, na roda de Mestre Canelão em Natal/RN.
Assim é que, aos poucos a conjugação da música com os movimentos relaxados vai orientando o capoeirista no caminho do transe que o conduzirá diretamente à fonte da capoeira, na face invisível da realidade, que não depende dos sentidos corpóreos.

COMPORTAMENTO HUMANO, VIBRAÇÃO SONORA E RITMO.

Em Ioga percebemos a importância dos mantras…
os gregos antigos atribuíram ao Logos o poder de organizar o Caos…
no Gênesis aprendemos a força do Verbo capaz de criar o Universo e a Vida…
… na África Antiga não foi diferente!

Os africanos ao divinizarem os seus ancestrais e cultua-los com ritmos e toques diferentes vinculados ou representativos de seus comportamentos, descobriram categorias fundamentais subjacentes ao nível de consciência, independentes de culturas e religiões, os arquétipos humanos, que denominaram de orixás.

O “SER” exposto às vibrações sonoras ritmadas oriundas dos atabaques entra em harmonia com as mesmas e passa a manifestar em movimentos rituais a sua consonância.
Tudo se passa como se o conteúdo musical dos toques de candomblé fosse aprofundando o nível vibracional do sistema nervoso central, especialmente do cérebro (tido como sede da consciência) e alcançando os níveis correspondentes ao arquétipo individual. Chegando a toldar a consciência e levando a um estado transicional em que o “SER” passa a manifestar, em movimentos rituais involuntários, atributos do arquétipo, através circuitos de reverberação medulo-espinhais como que gravados geneticamente na estrutura do seu sistema nervoso central.
Não é indispensável o conhecimento da doutrina e ritual do candomblé, bem como de componente genético africano para a sintonia com o ritmo do orixá correspondente, vez que já assistimos à chamada “incorporação” de entidades africanas em europeus em primeiro contacto com “exibição” de música de candomblé, portanto, fora do contexto religioso. Durante o tempo em que funcionei como “apresentador” do “show folclórico” de Mestre Bimba observei que alguns assistentes entravam em consonância ou harmonia com um determinado toque, não se deixando influenciar por outros, o que atribuí à correspondência orgânica ao arquétipo daquela pessoa, ao modo de categoria de comportamento em nível subconsciente.
Na capoeira, o ritmo ijexá, especialmente tocado pelo berimbau, conduz o ser humano a um nível vibratório, dos sistemas neuro-endócrino e motor, capaz de manifestar, de modo espontâneo e natural, padrões de comportamento representativos da personalidade de cada Ser em toda sua plenitude neuro-psico-cultural, integrando componentes genéticos, anatômicos, fisiológicos, culturais e experiências vivenciadas anteriormente, quiçá inclusive no momento.


Todos os capoeiristas conhecem o transe capoeirano, embora nem todos disto se apercebam, um estado de extrema euforia, e de integração ou acoplamento a outra ou outras personalidades participantes do mesmo evento, conduzindo a execução de atos acima da capacidade considerada como ‘normal”.

Trata-se dum estado transitório, em que não há perda total de consciência, porém existe uma liberação de movimentos reflexos, exaltação do potencial e ampliação do campo de influência vital de cada “SER”.
É interessante registrar que em outros membros da “família cultural da capoeira” (samba de roda, maculelê, afoxé, frevo, entre outros) encontramos estados transicionais assemelhados, em que os personagens ultrapassam suas limitações “normais”. De outro modo não assistiríamos a idosos desfilando em “escola de samba” ou saracoteando em frevo…
Assim cada capoeirista desenvolve um estilo pessoal, representativo do seu “EU”, manifestado de maneira imprevisível a cada jogo e a cada instante de cada jogo.

Consoante o arquétipo de cada praticante ou mestre, o momento histórico vivenciado, o contexto em que está se desenvolvendo, a capoeira pode assumir aspectos multifários, lúdicos, coreográficos, esportivos, competitivos, belicosos, educativos, corretivos, terapêuticos, etc.
Do mesmo modo e pelos mesmos motivos, cada tocador de berimbau manifesta a sua personalidade na afinação do instrumento, ritmo, andamento musical, impostação vocal e conteúdo do cântico.
Razões semelhantes criam a identidade de cada roda, a multiplicidade de estilos e impõe a alegria e a liberdade de criação como fundamentos da capoeira.

Por ser a própria Liberdade e a Felicidade de cada “SER” a capoeira não cabe, não pode ser enclausurada, em regulamentos e conceitos estanques, nem prisioneira de interesses mesquinhos, comerciais ou de outra natureza.
A capoeira oferece um gama infinito de representações motoras , comportamentais e musicais; de aplicações terapêuticas, pedagógicas, marciais e esportivas; além do aperfeiçoamento físico, mental e comportamental de cada praticante.
Cada um de nós cria uma capoeira pessoal, transitória e mutável, evolutiva, processual, como todos os valores humanos e poderá ser imitada, jamais reproduzida em clones, como produto industrial de fôrma, idêntico em todos detalhes.

É interessante o estudo do simbolismo dos constituintes da personalidade humana na arte iorubana que indica no mínimo a noção de níveis de consciência, pois entre os povos iorubanos a consciência (personalidade exterior) é representada pela coroa (ile ori), enquanto a personalidade íntima (ori inu) correspondente ao (subconsciente+inconsciente) é simbolizado pelo ibori, uma pequenasaliência no ponto mais alto da coroa.
Angelo A. Decanio Filhoo – Falando em capoeira, Coleção S. Salomão, CEPAC, Salvador/BA, pg: 51

https://portalcapoeira.com/downloads/transe-capoeirano

O papel da capoeira na educação

O papel da capoeira na educação

O que significa começar a jogar capoeira para uma criança? Essa pergunta pode ter muitas respostas diferentes, mas todas elas costumam convergir para um mesmo sentido: a importância da capoeira no processo de educação de um ser humano. Mas para que isso faça total sentido, é importante entendermos que, quando falamos de educação, não falamos simplesmente de um aprendizado formal, mas da formação de pessoas para viver em sociedade.

E para que tal formação seja completa, é preciso também entender qual é o papel que a capoeira cumpre (ou pode potencialmente cumprir) na vida de uma pessoa.

Preservação da cultura

Capoeira não é apenas uma tradição rica. Ela carrega consigo história e, principalmente, resistência de uma cultura que é ameaçada até os dias de hoje. Mesmo com a roda de capoeira declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, sempre há mais para se aprender da sua cultura e do porquê de se jogar capoeira até os dias de hoje.

Ao entrar em uma roda de capoeira, uma criança aprende, aos poucos, o que é a história da dança, da luta, da cultura, das gírias, dos movimentos e de tudo que envolve aquele ambiente. É por meio disso que ela também aprende a importância de se preservar essa cultura.

Lições como o respeito e a resistência são aprendidas no dia-a-dia da capoeira, seja com crianças que acabaram de fazer sua primeira aula ou mesmo aquelas que nasceram no meio. Tudo isso faz parte da construção das crianças como cidadãs, o que nos leva ao próximo ponto.

Capoeira e cidadania

A roda de capoeira é um local onde se pode aprender, entre outras coisas, lições importantes sobre como viver em sociedade. Cada pessoa tem uma função nesse momento. Alguns cantam, outros tocam berimbau, atabaque ou pandeiro, alguns acompanham, enquanto dois jogam. Em outro momento, as funções se invertem.

Por isso, além de aprender sobre o respeito, uma roda de capoeira pode ser um local para aprender sobre diversidade e divisão de tarefas. Não se trata de simplesmente respeitar uma hierarquia, mas aprender que cada um precisa exercer sua função para que o todo funcione.

Benefícios para o corpo

Praticar atividades físicas é algo importante no desenvolvimento de qualquer pessoa. E, por mais que isso seja deixado de lado por muitos, o desenvolvimento físico e a disciplina com o próprio corpo também são elementos fundamentais da educação.

Com a capoeira, uma pessoa aprende a ter mais elasticidade, um melhor condicionamento físico, uma melhor coordenação motora, mais velocidade, entre diversos outros benefícios para o corpo.

A importância das estratégias de ensino

Ensinar alguém exige traçar um caminho para alcançar o objetivo. É como um jogo que precisa ser vencido, da mesma forma que jogadores utilizam estratégias básicas para o blackjack como as das mãos duras e suaves, para o xadrez como o controle do centro do tabuleiro e a conexão das torres, ou para qualquer outro jogo que exija planos e táticas para vencer. Fato é que é importante que se saiba quais caminhos serão traçados nesse ensino. Para isso, é importante ter em mente por que a capoeira está sendo ensinada.

Há um papel fundamental de preservação cultura. Há um papel importante de formação de cidadania. Há também a importância da atividade física na vida de qualquer pessoa. Mas para que essa mensagem chegue até quem está aprendendo, estratégias devem ser traçadas pelo mestre.

A realidade é que o papel da capoeira na educação não se dá por esses elementos existirem separadamente, mas por sua união. Entender a importância de preservar a cultura te ajuda a entender seu papel como cidadão, que por sua vez tem relação direta com a forma como você se comporta em meio a outras pessoas. Tudo isso praticando uma atividade física, mas que vai muito além de um simples exercício.

É claro que todos esses elementos não são assimilados da noite para o dia. Mas é importante entender que a educação é um processo – e que precisa continuar a acontecer por toda a nossa vida.

Nato Azevedo: 1990 – REGISTRO HISTÓRICO

“A CAPOEIRA, filha da Terra, está sendo esmagada de pé!”
mestre NATANAEL, 1972, SP

Escrevo às 3 da manhã desta quinta-feira, já no final de um ano que só trouxe tristezas para todos, principalmente para quem votou em 2018. Escrevo ainda impactado pela filmagem de evento de 30 ANOS atrás que, pela ordem natural das coisas, nem deveria existir… mera fita VHS, perdida entre 20 outras, em maleta que nossos gatos decidiram transformar em impróprio “mictório”. Por mais de 30 dias nos assaltou a dúvida: as imagens nela teriam resistido ao Tempo, “devorador” de tudo ?! Pois aí está, graças mais uma vez ao Grupo MUZENZA — que trouxera à vida filmagem nossa de 1975/77 no Rio — esse registro da Capoeira “de Belém” em 1989/90, no então bairro de Marituba, pertencendo naquele tempo a Ananindeua. Na verdade, apenas pequena parte dos jogadores nessa fita era da Capital. Anote-se o fato de que o “Batizado” de Capoeira de mestre “BETO”, no qual virou mestre de fato, foi muito concorrido… não sei se houve outro com tantos professores, contramestres na época, um ou outro já se afirmando mestre. 

Eu tinha visão depreciativa de alguns deles enquanto praticantes… me penitencio com 3 décadas de atraso, vi-os em suas Academias num dia em que não estiveram bem. Nessa fita estão todos MAGNÍFICOS !Você que DETESTA Capoeira, que a julga sem conhecê-la, “coisa de vagabundos, de quem não tem o que fazer” — no dizer de nosso prefeito, evangélico, no início de 1989 — tem a obrigação de ver esse vídeo, admirar a extrema habilidade dos então professores e surpreender-se com o aproveitamento de alunos de 7, 9 ou dez anos, enfrentando sem temor alguns oponentes bem mais velhos.

Foi essa Capoeira — com esta qualidade ímpar — que sonhamos mostrar em junho de 1988 no CENTUR, inaugurando um Centro Cultural que só nos trouxe decepção e frustrações. Era essa Capoeira, essas imagens, que seriam enviadas ao Exterior na época, para vários países, pessoas do Canadá, Polônia e Alemanha, que nos escreveram curiosas para conhecer a Capoeira “do Brasil”. E essas imagens estariam ainda em cadernos, toalhas, postais, onde pudesse… sonhos que evaporaram, não tendo ficado nem as cartas do CCCP que, segundo soube ontem de noite, os cupins devoraram. Com isso, perdi a chance de identificar com exatidão a data da “formatura” do admirado “Beto”, benquisto por todos. Tentara eu conseguir junto a deputada federal Socorro Gomes — na época em campanha eleitoral aqui — ajuda que diminuísse as despesas do mestre, num tempo em que o professor arcava com o peso da compra das diversas cordas, com fotos, salgadinhos, refrigerantes, aluguel do espaço, etc. Talvez só ela, se viva fôr, possa esclarecer a data exata, provavelmente entre setembro e novembro de 1989 (período eleitoral), para a qual enviei 2 ou 3 cartas com a “chancela” do CCCP, pedindo apoio para o Grupo de Capoeira “ESCRAVO BRANCO”. Como ficou “me cozinhando em banho-maria” mandei ela e seu dinheiro às favas, porque “para o LIXO que era a Política ela não hesitava em gastar, doar”! Hoje, 2020, com dinheiro federal a rodo, continuo vendo a Capoeira FORA de todas essas benesses, esses projetos de auxílio, essa ajuda oficial. Não mudou coisa alguma em 30 anos, quem diria !


Mas, estamos bem pagos ! Ouvimos o registro emocionado de mestre DILSON BRITO, sempre em Marituba, se vendo quase menino, com todas as recordações que as imagens lhe trouxeram, trarão a quantos as assistirem. Resposta do côro segura, festa sem confusão, jogos belíssimos, inesquecíveis quase todos, com movimentos antigos lindamente recuperados. Surpresas de todo tipo, pessoas que nunca mais vimos, alguns poucos largaram a Capoeira ou morreram ! 

A registrar, um certo MAX, aluno do Imar naqueles tempos, hoje mestre “MAR”, com seu Grupo (no SESC em 1990) se expandindo Pará a fora. Adiante, o tal Max iria para o MMA, com carreira curta mas expressiva, para a Capoeira não tinha muito jeito. Minha contribuição nessa histórica fita foi levar o escritor Carlos Ano Bom para registrar o evento. Ao final, falo minuto e meio — que ninguém ouviu — e tem-se o raro registro de meu irmão “Carioca” / “Leiteiro” (em 1h13 min. da filmagem) jogando… sabe-se lá o quê, meio Angola, meio Regional, muito “Lua Rasta”, quase uma “xerox” do famoso Mestre, aluno que foi.  ASSISTAM!

Embora o assunto me entristeça (e aborreça), preciso esclarecer — com 3 DÉCADAS de atraso — equívoco que eu mesmo provoquei, ao declarar ao jornal DIÁRIO DO PARÁ em 4/jan. 1990 o recebimento “em breve” de 1 MILHÃO de cruzeiros da época, algo entre 120 e 150 mil reais hoje. Era o “trôco” que eu dava porque certo Ministro de Collor viera ao nosso bairro e distribuíra 32 contratos de verba para diversas ONGs (nem tinham esse nome), meras farsas boa parte delas, além de Centros (ditos) Comunitários que sequer possuíam mesas ou cadeiras, 1 TV velha para distração, pingpong, jogos de dama ou dominó de 5 reais… NADA, absolutamente nada, só “funcionando” em época eleitoral, ou seja, a cada ano e meio. Devo ter dado enorme susto ao tal Ministro, que acordou certa manhã vendo/lendo página inteira de projetos PARA A CAPOEIRA, êle que nada destinara à atividade. Mesmo assim não negou a “doação” fantasma, “cacifou” a “fake news” a seu favor ! Entretanto, com a gente morando numa “favela” do Icuí (“invasão”, aqui no Pará) julgaram alguns que os gêmeos cariocas “estavam nadando em dinheiro” e que o tal Centro – CCCP… “era só bandalheira, safadeza e picaretagem”.

São águas passadas que nem valem a pena recordar… curtam pois estas belas imagens produzidas graças ao contramestre SAN, deem LIKE no canal CTC SAN MUZENZA, ( https://youtu.be/qMaob-RI1Ss ) divulguem, compartilhem. E aguardem que vem mais aí, há dúzia e meia de fitas VHS esperando a hora de serem reveladas, Tem muita surpresa para chegar !

Esse RESGATE da História da Capoeira paraense necessita continuar e ampliar-se sempre mais !   

“NATO” AZEVEDO (em 17/dez. 2020, 3hs)

OBS: por suprema ironia do Destino, a pessoa que mais criticamos (e combatemos em 90/92) é a que mais impressiona, com um jogo objetivo e criativo, fazendo jus ao título / corda / graduação de MESTRE, que lhe negávamos naquela época.

Como essa filmagem o engrandece… ESTAMOS QUITES ! (NATOAZEVEDO

Capoeira em Tempos de Pandemia

Capoeira em Tempos de Pandemia

O ano de 2020 foi desafiador, uma Pandemia mundial fez com que aprendessemos a valorizar o olho no olho. A arte e a cultura foram essenciais para nossa saúde mental e a Capoeira se reinventou e ajudou muita gente a passar melhor por essa tempestade que assolou o mundo.

Durante o período de isolamento social Capoeiristas do mundo inteiro produziram vídeo aulas, tutoriais, eventos, bate papos, lives no YouTube, Instagram e Facebook. Aprenderam a utilizar programa de estreaming e edição para que a Capoeira sobrevivesse mesmo sem sua principal motivação de ser que é a reunião da comunidade de Capoeiristas. Por aqui não foi diferente eu produzi mais de 50 vídeos com aulas divertidas e com uma linguagem toda adaptada para que as crianças não deixassem de continuar gingando dentro de suas casas, foi um trabalho difícil, desafiador mas que permitiu que as pessoas continuassem se conectando a Capoeira e a comunidade de Capoeiristas.

Capoeira em Tempos de Pandemia Capoeira Portal Capoeira

É isso o que acredito ser Capoeira, a capacidade de se reinventar e descobrir novas formas de conectar as pessoas em volta do Berimbau. Você pode assitir a todo material produzido no meu canal do YouTube (Lucas Buda Capoeira) youtube.com/lucascdcr venha fazer parte dessa roda virtual com a gente.

Por: Lucas Buda

Fonte: https://capoeirainfantil.org/

Nota de Falecimento: Mestre Chita

Luto na capoeira: vítima de Covid-19, morre Mestre Chita

Morreu na noite do último domingo (13-12-2020) Itamar da Conceição Magalhães, conhecido como mestre Chita, um dos mestres de capoeira mais antigos de São Gonçalo – Rio de Janeiro. Ele foi mais uma vítima da Covid-19.

Mestre Chita era referência para muitos capoeiristas no estado. Ele fez parte da primeira geração de atletas que trouxe a capoeira para São Gonçalo. Em suas redes sociais Lúcia Magalhães, sua esposa, publicou uma mensagem de amor para Itamar.

“VENHO AGRADECER A CADA UM DE VOCÊS PELAS PALAVRAS DE CARINHO E CONFORTO … MEU CHÃO SE ABRIU, MEU MELHOR AMIGO, MEU FILHO E MEU COMPANHEIRO DE 48 ANOS DE CASADOS AGORA NÃO ESTÃO MAIS AQUI… SEGUIREI FIRME ATÉ ONDE DEUS E OSUN ME PERMITIREM … MAGALHÃES ITAMAR AMOR DE MINHA VIDA FORAM ANOS AO SEU LADO… SOU GRATA ETERNAMENTE A VOCÊ MEU AMOR POR TER ME DADO NOSSOS FILHOS… CUIDE DO MEU BEM MAIOR AÍ EM CIMA, CUIDE DO MEU FILHO FABYANNO MAGALHÃES QUE DAQUI DE BAIXO VOU DANDO CONTINUIDADE JUNTO AO NOSSO FABRICIO MAGALHÃES …
OBRIGADA POR TUDO … VÁ EM PAZ MEU AMOR”

Sobre o Mestre:

Itamar começou na capoeira aos 12 anos de idade após conhecer Baleardo, que trabalhava como guardador de carros e tinha ao seu lado um instrumento um pouco diferente, assim começou a caminhada do mestre na roda de capoeira.

Após começar a passar seus ensinamentos, que havia apreendido com Baleardo, aos seus amigos, Chita foi convidado para desfilar na Escola de Samba Acadêmicos da Carioca representando a capoeira.

Foi a partir daí que Chita ficou ainda mais conhecido e começou a ensinar aos moradores de São Gonçalo e Niterói a arte de gingar. No ano 1966, a capoeira de São Gonçalo recebeu apoio de outros capoeirista ligados à Polícia Militar. Entre eles estavam; Manoel dos Santos Francisco (Mestre Manoel Gato Preto – já falecido); Victor Vida Wisk Travassos (Mestre Travassos); Valdir Vasconcelos, entre outros.

Fonte: https://ladodeca.com.br/

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