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Lançamento 2ª edição do livro “Mestres e capoeiras famosos da Bahia” – Pedro Abib

Mestres e capoeiras famosos da Bahia (2ª edição), de Pedro Abib, no Lançamento Coletivo EDUFBA – Abril de 2013

Realizado através de pesquisa coordenada por Pedro Abib, Mestres e capoeiras famosos da Bahia é um dos livros que compõe a programação do Lançamento Coletivo EDUFBA – Abril de 2013. Dando continuidade às comemorações dos 20 anos da Editora, o lançamento coletivo deste mês acontecerá no auditório da Faculdade de Comunicação (FACOM-UFBA), das 17h30 às 20h30, no dia 02 de abril. Além de sessão de autógrafos, o evento contará com uma mesa-redonda, na qual autores e organizadores poderão interagir com o público. O acesso é gratuito.

“Sem a lembrança dos antepassados (serão ancestrais?), a capoeira não tem (en)canto”, afirma Frederico José de Abreu no prefácio da obra, e tal lembrança é a principal característica do livro. Ao longo de seus capítulos, são trazidos diversos nomes de importantes mestres para a história da capoeira baiana, como Besouro, Bimba, Pastinha, Bobó, Ferrerinha de Santo Amaro, entre outros.

O livro é resultado das pesquisas realizadas pelo Grupo MEL – Mídia, Memória, Educação e Lazer da Faculdade de Educação da UFBA. Atualmente, Pedro Abib é coordenador do Grupo GRIÔ: Culturas Populares, Diásporas Africanas e Educação, da Faculdade de Educação da UFBA

 

Serviço

O quê: Lançamento Coletivo EDUFBA – Abril de 2013

Quando: 02 de abril, terça-feira, das 17h30 às 20h30

Onde: Auditório da Faculdade de Comunicação – UFBA (Campus Ondina, Rua Barão de Jeremoabo, s/n, Ondina – Salvador, Bahia)

Quanto: entrada gratuita

 

Informações adicionais sobre o livro

ISBN: 978-85-232-0562-1

Ano: 2013

Área: Artes cênicas e recreativas; esportes

Número de páginas: 188 p.

Formato: 17 x 24 cm

Preço de lançamento: R$ 30,00

 

Daniele Marques
Assessoria de Comunicação
Editora da Universidade Federal da Bahia

Documento Final: I Seminário Baiano de Proposições de Políticas Públicas para a Capoeira

Prezados

Encaminhamos anexo o documento final, como resultado das sistematizações do I Seminário Baiano de Proposições de Políticas Públicas para a Capoeira, realizado nos dias 11 e 12 de dezembro de 2010, no Forte da Capoeira, na cidade de Salvador.

Esse seminário contou com a representação de 59 grupos e associações de capoeira de todo o estado da Bahia, além de pesquisadores e lideranças comunitárias entre outros demais interessados.

Esperamos que esse documento possa ser uma referência no sentido de contribuir com as discussões encaminhadas pelo IPHAN através do Pró-Capoeira, durante o seminário final previsto para acontecer em Salvador no ano de 2011.

Pedro Abib

Comissão Organizadora do Seminário

Capoeira, Identidade e Diversidade

A capoeira, desde seus primórdios, sempre se caracterizou por ser uma prática em que a diversidade foi sua marca principal. Constituída no Brasil a partir de elementos provenientes de danças, lutas e rituais de diferentes regiões da África, é fato também que incorporou muitos outros elementos presentes aqui no Brasil, vindos da cultura indígena e da própria cultura européia, através dos imigrantes pobres e marginalizados que viviam por aqui e compartilhavam desse mesmo universo da capoeiragem. A navalha é um desses elementos, só para citar um exemplo.

Portanto, falar em capoeira, obrigatoriamente nos faz pensar em diversidade. Não se pode afirmar ao certo o local exato do surgimento dessa manifestação. Por isso, seria mais coerente pensar que a capoeira foi se desenvolvendo de forma diversificada em várias partes do Brasil com suas especificidades e formas diferentes de se manifestar.

Hoje em dia, a capoeira está espalhada por mais de 160 países em todo o mundo, e com certeza essa expansão faz com que ela vá adquirindo características diversas em cada local onde se instala. Existem muitas formas de se praticar a capoeira, incluindo aí o uso das novas tecnologias. Cada vez mais pessoas procuram a capoeira pelas mais diversas razões. A capoeira acolhe todo o tipo de diversidade: etnia, gênero, classe social, faixa etária, ideologia política, credo religioso etc, e talvez seja essa a sua maior contribuição no mundo atual: ensinar a convivência entre os diferentes e o respeito às diferenças.

É preciso levar em conta e valorizar toda essa diversidade presente na capoeira, mas por outro lado, é preciso também ficar atentos para que não se percam elementos importantes que constituem a capoeira enquanto herança da cultura afro-brasileira, sobretudo no que diz respeito ao conteúdo histórico referente à luta pela libertação do negro escravo no Brasil, as suas formas tradicionais de transmissão do aprendizado, baseada na figura do mestre e a sua resistência enquanto manifestação popular responsável pela construção e reconstrução cotidiana da identidade cultural de seus praticantes.

A capoeira vem se tornando um poderoso instrumento de afirmação de identidades afro-descendentes e de recuperação da auto-estima de jovens em situação de risco no Brasil e em várias partes do mundo, e essa vocação da capoeira tem que ser potencializada através de políticas públicas que possam favorecer sua expansão, porém tomando as devidas precauções contra a sua descaracterização cultural e sua transformação em mera mercadoria de consumo nessa sociedade capitalista contemporânea.

Observa-se com muita preocupação essa tendência de mercadorização da capoeira, através de grupos muito bem organizados e espalhados pelo mundo todo, em que o único objetivo é ampliar o mercado consumidor, o que muitas vezes se transforma numa guerra entre esses grupos na disputa por novos alunos, caracterizando um processo de espetacularização da capoeira, deixando em segundo plano a preocupação com a preservação dos seus princípios e valores humanos, éticos e filosóficos.

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, que de modo ímpar nos descreve os causos e histórias do Recôncavo Baiano e seus “Personagens” as vezes quase lendários… Pedrão, como prefere ser chamado nos leva de modo solto e intuitivo ao universo da capoeiragem com uma narrativa simples e repleta de mandigagem…

Luciano Milhoni*

* (Pedrão em referência a um tipo/marca de cachaça e fazendo analogia ao grande camarada Plínio – Angoleiro Sim Sinhô, que em sua envolvente e alegre presença sempre brincava com o termo “teimando” em chamar-me pelo nome da cachaça, pela qual ambos, Pedrão e Plínio tem imenso apreço, apesar de eu ser um eterno abstêmio.)

TIRIRICA: A “Capoeira de São Paulo”

Uma velha discussão que parece não ter fim, é aquela eterna disputa sobre a origem da capoeira: os baianos juram que foi na Bahia, os cariocas esbravejam dizendo que foi no Rio de Janeiro, os pernambucanos por sua vez, não querem nem discussão: a capoeira é pernambucana, visse !!!

Eu, pessoalmente, prefiro não entrar nessa briga e dizer que a capoeira, assim como o samba e outras manifestações da cultura afro-brasileira, não tem certidão de nascimento. Elas surgem em vários lugares e regiões do país, tomando formas variadas e até conhecidas por nomes diversos. Podemos até dizer que onde quer que o negro africano tenha chegado, ali se organizou algum movimento cultural para se lembrar de sua terra natal, através da dança, da música, do tambor, dos rituais. Assim surgiu a maioria das manifestações culturais da nossa cultura popular de origem afro-brasileira, em vários locais e épocas diferentes. A capoeira é brasileira…e ponto final !!!

Na cidade de São Paulo, por exemplo, há notícias e relatos de uma manifestação muito popular nas primeiras décadas do século XX, conhecida por Tiririca. Segundo contam os mais velhos, na região do bairro do Bom Retiro e imediações, havia um contingente muito grande de trabalhadores negros recém libertos, e em suas reuniões no Largo da Banana, nos momentos de folga, o batuque “comia solto”. Ora, onde tem batuque e um bocado de negros reunidos, só pode dar samba ou capoeira…ou os dois juntos.

Era o que acontecia, e muitas vezes, segundo nos conta um famoso malandro da área ainda vivo – o Toniquinho Batuqueiro – os batuques eram improvisados em caixas de engraxar sapatos fazendo a marcação, e as latinhas de graxa faziam as vezes do tamborim, assim como até hoje se apresenta em seus shows, outro famoso malandro sambista de São Paulo – Germano Mathias.

Toniquinho conta que quando começava o batuque, a roda se formava e “os crioulos iam pro centro da roda sapatear, e aí então só ficava na roda mesmo quem era bamba, pois a toda hora entrava um pra desafiar, dar pulo, pernada, pra desbancar quem tava no centro da roda”. Essa era a famosa Tiririca, que não muito diferente da capoeira, era uma disputa entre bambas na roda, onde se valia das habilidades e destrezas corporais, para se medir a valentia. E cuidado com a polícia viu, pois “…quando ela baixava, era uma correria só” explica Toniquinho Batuqueiro.

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A Importância da Capoeira na Escola

Tradicionalmente, a escola sempre deu mais espaço e valorização para os saberes ditos “científicos” ou “acadêmicos”, ou seja, aqueles saberes que geralmente são construídos a partir dos campos do conhecimento vindos de áreas como as ciências exatas, humanas e biológicas. Por outro lado, os saberes populares, aqueles vindos de grupos tradicionais, geralmente oriundos de culturas dominadas e que se baseiam na transmissão oral dos seus conhecimentos, sempre foram considerados na escola, como sendo saberes de menor valor, e na maioria das vezes tratados como algo exótico, que aparecem apenas em algumas datas comemorativas, como o “mês do folclore”, o “dia do índio”, ou o “dia da consciência negra”.

Entendemos ser esse um grande equívoco, e acreditamos que os saberes populares têm que ser tratados com a mesma dignidade dos saberes científicos, sem hierarquizações nem privilégios, pois ambos contribuem para a formação humana, cada qual na sua especificidade.

A capoeira, graças ao reconhecimento que tem conquistado a cada dia na sociedade como um todo, já começa a ter seu espaço em muitas escolas públicas e privadas no Brasil, mobilizando um número cada vez maior de alunos de todas as idades, interessadas na sua prática. Porém, o que percebemos é que a presença da capoeira na escola se dá de forma ainda tímida, muitas vezes pela atuação de algum grupo de capoeira da comunidade, que solicita o espaço da escola para ministrar suas aulas e organizar as rodas, mas ainda informalmente, ou seja, sem o reconhecimento por parte da escola, como um saber a ser tratado com o devido respeito e dignidade. A capoeira dessa forma, entra pela porta dos fundos da escola.

Defendemos, pelo contrário, que a capoeira possa entrar pela porta da frente da escola. E temos agora o amparo de uma lei federal: a lei 11.769 de 2008, que prevê a obrigatoriedade nas escolas, do estudo sobre as culturas africana e indígena, sem dúvida, um avanço muito importante nessa área. A partir dessa lei, é possível que nossos governantes estabeleçam políticas públicas e programas que viabilizem que esses saberes façam parte dos currículos oficiais das escolas. A capoeira tem aí sua grande oportunidade de se estabelecer como um conhecimento importante e necessário a ser tratado nas escolas, não somente pelo professor de capoeira ou mestre, mas de forma interdisciplinar, a partir da abordagem de várias áreas do conhecimento, como história, educação física, literatura, música, geografia, artes, estudos sociais, filosofia, entre outras.

A Bahia está dando um passo importantíssimo nessa direção, através do Programa “Capoeira na Escola: patrimônio de todos nós”, do qual faço parte da equipe de coordenação. Esse programa é uma iniciativa da Secretaria Estadual de Educação, que prevê a capacitação de professores de todas as regiões do estado, que passam por um curso que busca se aprofundar nos estudos sobre a capoeira, abordando aspectos históricos, filosóficos, pedagógicos, envolvendo também a prática dos movimentos, da musicalidade e da ritualidade da capoeira. Uma vez finalizada essa capacitação, esses professores então, irão implantar seus projetos em suas escolas, com a recomendação de que sejam projetos multidisciplinares, ou seja, que se articulem com as várias áreas do conhecimento existentes na escola.

É preciso que fique bem claro que o objetivo desse projeto não é o de formar capoeiristas nas escolas, isso é tarefa dos grupos e academias. Trata-se apenas de possibilitar que os alunos possam ter contato com esse universo tão rico de saberes, que é o universo da capoeira, a partir de um trato pedagógico multidisciplinar dentro da escola.

Essa experiência ainda está em processo de implantação, mas acreditamos que possa se transformar numa referência importante para a implementação de futuras políticas públicas, por parte de governos interessados na valorização da capoeira e dos saberes populares no âmbito da formação humana.

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, enfocando histórias, casos, experiências, opiniões, críticas, enfim, um texto de uma lauda sobre o universo da capoeiragem.

A Mercadorização da Capoeira

O crescimento da capoeira a nível mundial tem sido um fenômeno importantíssimo de divulgação e valorização dessa arte-luta que durante muito tempo sofreu uma perseguição implacável no Brasil. Porém essa “globalização” da capoeira traz também conseqüências negativas. O capitalismo sabe muito bem como se apropriar dos bens produzidos pela sociedade – sejam eles materiais ou imateriais – para adequá-los à sua lógica perversa. Percebemos assim, uma tendência que vem crescendo nos últimos anos, de transformação da capoeira em mais uma mercadoria na prateleira dos “shopping centers das culturas globalizadas”. Se por um lado, isso garante a divulgação dessa manifestação para um público cada vez maior, por outro faz com que ela perca muito dos seus traços identitários que a caracterizam como cultura tradicional de resistência.

Muito nos preocupa uma determinada visão sobre capoeira – que predomina atualmente numa parcela muito grande de mestres, professores e alunos – que enfatiza somente os aspectos mercadológicos dessa manifestação, priorizando modismos e uma estética “espetacularizada” e superficial da prática da capoeira, em detrimento de uma visão mais profunda, preocupada com a historicidade, a ancestralidade, os aspectos rituais, a filosofia e os valores implícitos nessa prática, que tornam o praticante de capoeira, um sujeito mais consciente sobre si mesmo, e sobre a sociedade da qual faz parte.

E em nossa opinião, é justamente aí que reside o valor educativo da capoeira. Ela só pode servir como instrumento de educação, se estiver voltada para esses valores mais profundos da existência humana, que a experiência africana no Brasil soube tão bem traduzir. Uma manifestação que foi capaz de resistir a séculos de violência e opressão e soube preservar as formas tradicionais de transmissão dos saberes através da oralidade, do respeito aos mais velhos e aos antepassados, da valorização dos rituais, do respeito ao outro (mesmo sendo ele adversário!), do sentido de solidariedade e da vida em comunidade. Esses valores constituem-se em saberes riquíssimos que estão presentes na capoeira e, que num processo educativo, têm muito a contribuir na formação de sujeitos mais humanizados e conscientes de seu papel na sociedade.

Por outro lado, se a capoeira for vista apenas como uma estratégia de marketing, como prática corporal de modismos feita por corpos musculosos e acrobáticos, dissociada de seus aspectos históricos e culturais, ou como mera mercadoria de consumo, voltada para grandes massas que se satisfazem com práticas superficiais e descompromissadas, ela então deixa de ter esse caráter de prática libertadora e contestadora da ordem social injusta – característica que sempre a acompanhou desde sua origem – para transformar-se em mais uma mera atração do parque de diversões da “feliz” e excludente sociedade de consumo capitalista.

Não podemos deixar que isso aconteça !!!

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, enfocando histórias, casos, experiências, opiniões, críticas, enfim, um texto de uma lauda sobre o universo da capoeiragem.

O Trabalhador da Capoeira

Capoeira por muito tempo foi sinônimo de vagabundagem, desocupação, malandragem, mal vista pela sociedade e tida como ameaça à moral e aos bons costumes. O poder sempre viu a capoeira como perigosa inimiga, capaz de desestabilizar a ordem política e social. Daí os capoeiras serem chamados de “desordeiros” e “vadios”, dentre outros adjetivos não menos pejorativos.

Mas o tempo foi passando e a capoeira pouco a pouco foi ganhando mais respeito e espaço na sociedade, graças ao trabalho de tantos mestres e capoeiristas que se dedicaram de corpo e alma, lutando pelo reconhecimento dessa manifestação da cultura afro-brasileira, que hoje é tida como um importante instrumento de educação em todo o mundo.

Escolas e academias de capoeira espalham-se por toda parte e esse fenômeno social da contemporaneidade é responsável por uma atividade profissional que cresce a cada dia, gerando cada vez mais empregos e oportunidades de trabalho para um grande número de pessoas envolvidas direta ou indiretamente na prática da capoeira.

Há muito se luta no Congresso Nacional Brasileiro pelo reconhecimento da profissão de capoeirista. Muitos projetos já foram discutidos, inclusive um deles muito polêmico por sinal, oriundo do Conselho Federal de Educação Física, que previa que o mestre ou professor de capoeira deveria obrigatoriamente ser diplomado por um curso superior de Educação Física.

Mais um ataque sofrido pela capoeira e pelos saberes populares em geral, que de tempos em tempos são perseguidos pelos representantes do poder que insistem em enquadrar, controlar, fiscalizar, pressionar, enfim, desqualificar uma prática tradicional que possui outra lógica, outro sistema de valores, outras formas de transmissão dos saberes, muito diferente dessa lógica capitalista que tudo quer controlar e dominar.

Um mestre ou um professor de capoeira, principalmente nos tempos atuais, deve sim preocupar-se em estar constantemente reciclando seus conhecimentos e qualificando-se continuamente para poder melhorar suas aulas e, consequentemente, atender melhor a seus alunos. Ele deve possuir conhecimentos da história do Brasil, da escravidão e das lutas sociais. Deve ter noções de música e psicologia, e também saber orientar as atividades físicas no que diz respeito a não colocar seus alunos em risco.

Mas para isso ele não precisa, obrigatoriamente, fazer uma faculdade de educação física Esses conhecimentos podem muito bem ser garantidos através da criação de cursos específicos, de curta duração, voltados para esse público, financiados pelo governo, no sentido de garantir a mestres e professores de capoeira uma formação integral e continuada. Mas exigir o diploma de educação física para o profissional de capoeira, já passa por uma intenção no mínimo espúria, por parte do Conselho Federal da área, de se criar reserva de mercado entre os profissionais de educação física. Somos totalmente contrários a essa iniciativa !

A capoeira deixou de ser sinônimo de vagabundagem. O trabalhador da capoeira é hoje o mestre, contra-mestre, trenel ou professor responsável pelo processo de ensino aprendizagem dessa arte-luta, em escolas, academias, centros comunitários, clubes, condomínios, etc… Ele deve ter sua profissão reconhecida e devidamente registrada no Ministério do Trabalho, com direito a todos os benefícios sociais de qualquer outra atividade profissional no Brasil.  Sem falar na obrigatoriedade de uma aposentadoria especial para os velhos mestres, coisa que há muito tempo já deveria ter sido garantida. Portanto camaradas, vamos à luta !!!

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, enfocando histórias, casos, experiências, opiniões, críticas, enfim, um texto de uma lauda sobre o universo da capoeiragem.

Pastinha: Filosofia e Poesia

Em homenagem à Vicente Ferreira Pastinha, o Portal Capoeira exalta o Mestre, propondo a toda comunidade capoeirística o “VIVA  PASTINHA”.

Um mês dedicado a Vida e Obra deste Grande Homem e Mestre de Capoeira.
Dia 05 de Abril, Mestre Pastinha iria completar 121 anos, se estivesse “fisicamente vivo”…

Deixo-vos com a excelente crônica do Grande Amigo e Colaborador do Portal, Pedro Abib.

Luciano Milani

PASTINHA: FILOSOFIA E POESIA

A história do Brasil é recheada de fatos e personagens surpreendentes. Alguns desses impressionam pela força de sua personalidade, pela dimensão de seus atos, pela sabedoria de suas palavras e pela importância de seu legado.

Estou falando de Vicente Ferreira Pastinha – o Mestre Pastinha. Mulato franzino, filho de um comerciante espanhol e uma negra vendedora de acarajé, tornou-se um dos símbolos mais importantes não só da capoeira, mas de toda cultura afro-brasileira.

Nascido no dia 5 de abril de 1889 em Salvador, Pastinha conta que aprendeu capoeira ainda menino, com um ex-escravo chamado Benedito, que frequentemente via Pastinha apanhando de um menino mais velho, na rua, em frente à sua casa. O velho escravo então chamou o menino Pastinha e disse que ia lhe ensinar uma coisa, e que ele nunca mais ia apanhar desse menino. Foi assim que Pastinha se iniciou nas artes da capoeiragem.

Aos 12 anos, Pastinha entrou para a Marinha e chegou a ensinar capoeira por lá. Depois disso, mesmo trabalhando em diversas profissões como engraxate, vendedor de jornal e na construção civil, o seu envolvimento com a capoeira não diminuía. Porém, Pastinha ficou sumido por um bom tempo, cerca de 20 anos, e desse período não se tem nenhuma notícia sobre ele. Ele só reaparece já no início dos anos 40, quando então é apresentado ao guarda civil Amorzinho, e assume o Centro Esportivo de Capoeira Angola, que o tornou famoso. Foi lá que ele construiu os alicerces que serviram de base para a constituição da capoeira angola nos moldes que conhecemos nos dias de hoje.

Pastinha assumiu um papel de destaque na capoeira por possuir uma grande capacidade de liderança e, sobretudo, por conseguir elaborar toda uma filosofia em torno dessa manifestação, que foi capaz de elevar a capoeira do lugar de onde se encontrava – a marginalidade e a contravenção – para tornar-se um dos mais importantes símbolos da cultura nacional. Os seus manuscritos, organizados com muito carinho pelo mestre Decânio e posteriormente publicados, são um legado para as futuras gerações e constituem-se como um verdadeiro tratado de filosofia humanista, além do seu caráter profundamente poético.

A capoeira espalhou-se pelos quatro cantos do planeta, e mestre Pastinha é reconhecido no mundo inteiro por ter sido um dos nomes mais importantes na luta pela preservação de uma cultura que foi historicamente perseguida e violentada, mas que hoje goza de um enorme prestígio, onde quer que um berimbau soe seus acordes. Devemos isso a ele. Salve Mestre Pastinha – o Guardião da Capoeira Angola !!!

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, enfocando histórias, casos, experiências, opiniões, críticas, enfim, um texto de uma lauda sobre o universo da capoeiragem.

Capoeira e Arte

A capoeira como expressão da cultura afro-brasileira é considerada por muitos também como arte. Uma manifestação que reúne tantos elementos estéticos como a música, as artes do corpo (dança, expressão corporal, acrobacia, etc…), a teatralidade, o artesanato, a pantomima entre outros, sem dúvida nenhuma reúne características suficientes para ser considerada uma atividade artística.

Como não reconhecer um verdadeiro artista, naquele capoeira que toca um berimbau com requinte e talento; naquele que canta com extrema afinação, expressando profundo sentimento através da voz; naquele que constrói os próprios instrumentos baseados nos conhecimentos passados de geração em geração; naquele capoeira que faz do seu corpo uma obra de arte e se transforma num virtuoso dançarino ao movimentar-se; ou ainda naquele que dramatiza com perfeição durante um jogo, cenas quase teatrais, que arrancam gargalhadas e aplausos da platéia ?

A arte busca, entre outras coisas, alcançar o belo, o deleite, o prazer, a reflexão, a sensualidade, a emoção, e encontra na capoeira uma interessante forma de expressão, que se baseia nos conhecimentos ancestrais e na tradição, construindo todo um universo de sentidos e significados que acabam, em última instância, atingindo muitos dos objetivos que uma atividade artística procura, seja para os capoeiristas que a praticam, seja para o público que a assiste.

Além disso, a capoeira é também retratada como tema de várias atividades artísticas. Na pintura, as obras de Carybé são a sua maior expressão, na fotografia, não há quem não admire o belo trabalho de Pierre Verger e na literatura, as obras de Jorge Amado descrevem com precisão cenas e personagens da capoeiragem de outrora. Mas também a capoeira é tema de uma grande quantidade de espetáculos de dança já há várias décadas. Tantas e tantas músicas do nosso cancioneiro popular falam da capoeira, e outras tantas peças de teatro, em muitas ocasiões já retrataram a capoeira direta ou indiretamente.

Porém de todas as artes, o cinema tem sido o que mais tem dado espaço para a capoeira. Temos uma grande quantidade de filmes que marcaram época e que retratam essa manifestação, seja como tema central ou como pano de fundo. Desde os clássicos “Veja o Brasil” (1948) de Alceu Maynard; “Vadiação” (1954) de Alexandre Robatto, “O Pagador de Promessas” (1962) de Anselmo Duarte, “Barravento” (1963) de Glauber Rocha, “Dança de Guerra” (1968) de Jair Moura, e “Jubiabá” (1984) de Nelson Pereira dos Santos, até os mais recentes “Pastinha, uma vida pela capoeira” (1998) de Toninho Muricy, “O Velho Capoeirista” (1999) de Pedro Abib, “A Capoeiragem na Bahia” (2001) de José Umberto; “Mandinga em Manhattan” (2004) de Lázaro Farias, “Leopoldina, a fina flor da malandragem” (2006) de Rose La Creta; “Mestre Bimba: a capoeira iluminada” (2007) de Luis Fernando Goulart; “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros capoeiras” (2008) de Pedro Abib e “Besouro: da capoeira nasce um herói” (2009) de João Daniel Tikhomiroff, só para citar alguns, pois atualmente, uma quantidade muito grande de documentários sobre capoeira têm sido produzidos. Até produções internacionais tem retratado a capoeira, como no caso dos filme norte-americanos “Besouro Preto” (2001), um documentário de Salim Hollins ou “Esporte Sangrento” (1993) de Sheldon Letich, se bem que esse último traz uma visão um tanto deturpada da nossa arte, como é de costume dos filmes comerciais feitos nos Estados Unidos, ao retratarem realidades que não fazem parte de sua cultura.

Por todas essas razões, sem nenhum receio, todo capoeirista pode se considerar também, um artista !!!


Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).

 

Texto Recomendado:

O pulador de facas da Praça Dante

A Ginga e a sabedoria do Capoeira: Antônio  Martins  usa de toda a sua mandinga e carisma para sobreviver…de praça  em praça  e utilizando os recursos adquiridos na escola da vida e na capoeiragem o baiano  é mais um “Brasileiro” lutador e criativo!!!

Luciano Milani

Histórias do Recôncavo

O Recôncavo Baiano é mesmo uma região muito particular. É como se lá o tempo tivesse parado. A modernização, o progresso desenfreado, trânsito engarrafado, violência urbana, vizinhos que não se conhecem… essas coisas tão comuns na nossa vida cotidiana, lá no Recôncavo têm outra dimensão.

As pessoas têm mais tempo para as coisas, a vida é mais simples, todos se conhecem e se ajudam, há mais cooperação, solidariedade, alegria. Você ainda vê pelas ruas carroças puxadas por jegues, senhores bem vestidos com chapéu na cabeça, feiras livres onde tudo se compra, se vende, ou se troca, senhoras sentadas conversando na porta de casa enquanto crianças brincam no meio da rua…Lá o tempo passa mais devagar.

Muitos moradores juram de pé junto que a capoeira nasceu no Recôncavo. Talvez tenha nascido mesmo, como nasceu em outras partes do Brasil também, mas isso não importa pois a capoeira não tem certidão de nascimento ! O que importa é o significado que essa manifestação da cultura afro-brasileira possui para todos nós que aprendemos a amá-la e respeitá-la.

Muitos capoeiristas famosos vieram de lá, disso não tenham dúvida: Cobrinha Verde, Traira, Najé, Siri de Mangue, Neco Canário Pardo, Noca de Jacó, Gato, Atenilo, Santugri, entre tantos outros, sem falar no mais famoso de todos, o lendário Besouro Mangangá, que até bem pouco tempo não se sabia se ele tinha realmente existido, fato que foi comprovado recentemente, com a descoberta de alguns documentos que citam seu nome e seus feitos.

Há muito mistério também no Recôncavo. Muitas histórias envolvendo magia, quebrantos, patuás, corpo fechado, rezas de proteção, pessoas que se transformam em bicho ou planta. Tudo isso faz parte desse universo mítico-religioso de origem afro-brasileira que possui uma ligação muito forte com a capoeira. Não dá para compreender a capoeira de forma mais profunda, sem aprender a respeitar esse universo.

Durante as gravações do documentário “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros capoeiras” que produzimos recentemente, tivemos a oportunidade de conviver com muitos desses personagens e muitas dessas histórias. Como por exemplo seu Aurélio, 96 anos, morador de Iguape, uma pequena cidade remanescente de um quilombo, localizada no coração do Recôncavo. Durante o seu depoimento na beira do rio, seu Aurélio se mostrou resistente em responder algumas perguntas que eu fazia, sobretudo aquelas relacionadas ao mistério que envolvia a capoeira.

Mas por sorte, eu sou daqueles admiradores de um botequim e de uma boa cachaça e quando terminamos a gravação naquele dia, a equipe de produção foi toda descansar numa pousada na cidade, enquanto eu e o cinegrafista, meu amigo Alexandre Basso – também um admirador do “espírito forte”, como a cachaça é conhecida entre os mais antigos – resolvemos ir beber a saideira justamente no bar do seu Aurélio. Já era noite e à medida que íamos nos aprofundando nas infusões de cachaça com ervas que seu Aurélio nos oferecia, a conversa foi ficando mais solta. E num dado momento, seu Aurélio nos chamou para o fundo do bar. Alexandre, muito atento, ligou a câmera e atendemos ao chamado do velho mandingueiro. Num ambiente de penumbra, somente com a fraca luz de um lampião, seu Aurélio nos revelou alguns segredos muito íntimos, mostrou-nos seu patuá, explicou-nos como fazia para “fechar” o corpo e nos revelou algumas orações de proteção que ele utilizava. Foi um dos momentos mais fortes que vivenciamos durante o longo período de pesquisa e gravação desse documentário.

Mas é assim mesmo: os mestres e velhos guardiões da cultura popular, não entregam os seus segredos assim, facilmente e a qualquer um. Eles é que decidem o que, quando, como e a quem vão revelar. E a nós, cabe ter a paciência, o respeito e a sabedoria de esperar a hora e a ocasião certa de recebermos esses ensinamentos. Essa é mais uma lição que a capoeira nos ensina

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, que de modo ímpar nos descreve os causos e histórias do Recôncavo Baiano e seus “Personagens” as vezes quase lendários… Pedrão, como prefere ser chamado nos leva de modo solto e intuitivo ao universo da capoeiragem com uma narrativa simples e repleta de mandigagem…

Luciano Milhoni*

* (Pedrão em referência a um tipo/marca de cachaça e fazendo analogia ao grande camarada Plínio – Angoleiro Sim Sinhô, que em sua envolvente e alegre presença sempre brincava com o termo “teimando” em chamar-me pelo nome da cachaça, pela qual ambos, Pedrão e Plínio tem imenso apreço, apesar de eu ser um eterno abstêmio.)