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Bahia: Forte Santo Antônio sedia “Capoeira de Saia”

Forte de Santo Antônio Além do Carmo vai sediar nos dias 01, 02 e 03 de maio, das 14h até às 18horas, o programa de capacitação “Capoeira de Saia”, organizado por grupos de mulheres  capoeiristas profissionais e amadoras-praticantes. As inscrições são limitadas, gratuitas e  podem ser realizadas no próprio Forte Santo Antônio Além do Carmo.

O encontro tem como principais objetivos informar profissionais da área, discutir o processo de ensino-aprendizagem e desenvolver propostas que visem a melhora da qualidade no ensino da capoeira.

Segundo os organizadores o compromisso principal será a capacitação e promover o fortalecimento da participação da mulher na capoeira, possibilitando uma troca maior entre as instituições culturais, as discussões de gênero, relação e contribuição no desenvolvimento histórico e social da capoeira.

A CAPOEIRA NO “JOGO” DA APRENDIZAGEM

DIFICULDADES E PERSPECTIVAS PARA A FORMAÇAO DA PESSOA COM DEFICIENCIA VISUAL

RESUMO

O presente artigo se articula com a temática que envolve o dialogo sobre praticas culturais e sociedade, focando em particular os limites e possibilidades da capoeira na formação de pessoas com deficiência visual,. Este tema tem como objetivo geral à proposição de analisar as perspectivas da ação pedagógica no campo da cultura corporal em Educação Especial. Neste sentido, buscaremos dialogar com alguns autores, apresentando alternativas a partir da pratica da capoeira, enfocando seus movimentos, sua musicalidade e o “ritual” da roda, como fontes para o desenvolvimento das pessoas com deficiência visual e conseqüentemente das estratégias e métodos que permeiam as instituições formais para este publico.

PALAVRAS CHAVE – Educação, Capoeira e Deficiência Visual

Considerando a pratica pedagógica a partir da capoeira como objeto de analise, faremos um recorte sobre as possibilidades da mesma no campo da educação formal, em particular com pessoas que apresentam deficiência visual. Para tanto, ampliaremos o dialogo com alguns autores da área, no intuito de permitir uma aproximação maior entre o universo da capoeiragem, seus saberes, e as reais necessidades para um trabalho em Educação Especial. Sendo assim, iniciaremos discutindo algumas questões relativas a aprendizagem humana.
Sobre desenvolvimento e aprendizagem, antes de apresentar nossa posição teórica, podemos inicialmente dialogar com três possibilidades, que segundo Vygotsky (2003) são defendidas pelos teóricos de psicologia da Educação. A primeira delas defende a idéia de que o aprendizado sempre dependera da fase de maturação do individuo, ou seja, que o desenvolvimento sempre será fator principal, necessário e pressuposto para o aprendizado,excluindo a idéia de que o aprendizado pode ter um papel no curso do desenvolvimento ou maturação daquelas funções ativadas no decorrer do próprio processo de aprendizagem. De acordo com Vygotsky:

De forma similar, os clássicos da literatura psicológica, tais como os trabalhos de Binet e outros, admitem que o desenvolvimento é sempre um pré-requisito para o aprendizado e que, se as funções mentais de uma criança (operações intelectuais) não amadureceram a ponto de ela ser capaz de aprender um assunto particular, então nenhuma instrução se mostrara útil. Eles temem, especialmente, as instruções pré-maturas, o ensino de um assunto antes que a criança esteja pronta para ele. Todos os esforços concentram-se em encontrar o limiar inferior de uma capacidade de aprendizado, ou seja, a idade numa qual um tipo particular de aprendizado se torna possível pela primeira vez. (2003, p.104)

A segunda grande posição teórica defende que o desenvolvimento acontece simultaneamente ao aprendizado, mas reduz o aprendizado a um conjunto de ações reflexas, que vão paulatinamente superando as respostas inatas, contudo, apesar de muita semelhança com a primeira posição teórica, existe uma diferença marcante em relação ao tempo entre desenvolvimento e aprendizado, pois na primeira, o processo de aprendizado depende diretamente do desenvolvimento (maturação), que precisa sempre antecipar a aprendizagem.

Já a terceira, se baseia na combinação das outras duas, tentando superá-las, a partir da negação dos posicionamentos extremistas das anteriores. Um exemplo claro desta abordagem e a teoria de Kafka, segundo a qual o desenvolvimento se baseia em dois processos inerentemente diferentes, embora relacionados, cada um influencia o outro, estando de um lado à maturação, que depende diretamente do desenvolvimento do sistema nervoso, de outro o aprendizado, que é em si mesmo, também um processo de desenvolvimento.Sendo assim esta terceira nos apresenta três aspectos novos: A combinação das outras duas, a consideração de que tanto a maturação como o aprendizado são processos de desenvolvimento e por fim o amplo papel que ela atribui ao desenvolvimento da criança.

Mesmo tendo um posicionamento contrario as posições teóricas anteriores, foi pertinente discuti-las, pois assim poderemos avançar no dialogo sobre as questões de aprendizagem para pessoas cegas com a capoeira, a partir da referencia de Vygotsky, considerando a proposição do aprendizado na zona de desenvolvimento proximal (ZDP), que consiste no processo de aprendizado daquilo que podemos fazer com o auxilio de outra pessoa, ou seja, é a diferença entre aquilo que fazemos isoladamente e o que potencialmente faríamos com o auxilio de alguém. Segundo Vygotsky:

Ela é a distancia entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com os companheiros mais capazes.(2003, p.112)

Um outro fator relevante é que a ZDP considera o nível de saberes diferentes dos indivíduos envolvidos na ação educativa, reconhecendo o conhecimento prévio de cada um deles e seus possíveis intercâmbios, como “combustível” para o desenvolvimento e aprendizado de todos, a partir de uma intencionalidade pedagógica organizada pelo facilitador, neste sentido as diferenças em relação a maturação e aprendizagem, não se firmaram como agentes dificultadores do processo e sim como motivadores da ação pedagógica. Desta forma, a roda de capoeira para pessoas cegas poderá despertar a produção de conhecimento em diversas áreas que são necessárias para a melhoria das “condições de vida” destes indivíduos, considerando que neste espaço (roda) podemos tocar, cantar, jogar, enfim aprender com as diferenças das pessoas e dos recursos educativos presentes no meio da capoeira.

No jogo, varias situações poderão desenvolver o equilíbrio dinâmico, a noção de tempo/espaço, força, agilidade, dentre outras. Considerando que tudo isso será potencializado por uma forte relação de parceria entre as pessoas. (leia o artigo completo)

 

 

Gato de Botas, Crianças & Capoeira: Projeto comemora o 6º aniversário

{jgquote}Doutores da alma: Crianças atendidas pelo Gato de Botas em aula de capoeira: projeto comemora o 6º aniversário e já atendeu mais de 1,2 mil crianças, utilizando de diversas formas de interagir e fomentar a ludicidade nas crianças. Vale ressaltar a introdução da CAPOEIRA no projeto e suas mais valias como forte aliada no processo de motricidade e poderosa ferramenta de inclusão social.
 
Luciano Milani{/jgquote}
  
Especialistas do projeto Gato de Botas tratam 1,2 mil crianças com dificuldade de aprendizagem; 40% têm distúrbios.
 
A falta de tratamento em estudantes com dificuldade de aprendizagem pode levar à marginalidade. A afirmação é da psicopedagoga Ângela Maria Traldi Cecato, diretora do projeto Gato de Botas em Rio Preto.
O projeto completa seis anos hoje e já atendeu 1,2 mil alunos com dificuldade de aprendizado matriculados na rede pública de ensino na cidade.
Segundo o médico José Alexandre Bastos, chefe do serviço de neurologia infantil da Famerp (Faculdade de Medicina de Rio Preto), cerca de 40% das crianças com mau rendimento escolar apresentam algum tipo de distúrbio mental.
O mais comum, segundo ele, é a dislexia [dificuldade na leitura e escrita], que atinge até 6% das crianças. A discalculia [dificuldade em lidar com os números] aparece em segundo e atinge até 3% dos alunos. Em seguida aparece a disgrafia [alteração de sílabas e letras] e distúrbios secundários como epilepsia, problemas de audição entre outros.
 
“Se a criança não for tratada ela se sente excluída, isolada e busca uma inclusão fora do meio escolar. Daí a facilidade para entrar no submundo”, explica o neurologista.
Ele explica ainda que 60% dos alunos com mau rendimento escolar apresentam dificuldade de aprendizado por razões sociais.
“São causas não cerebrais. Por exemplo, estrutura familiar deficitária, pressão escolar, perda de alguém querido e até mesmo a ausência dos pais”, explica a diretora.
 
Atualmente são atendidas pelo Gato de Botas 300 crianças. Outras 200 aguardam na fila. “O sucesso do projeto é fruto do trabalho multidisciplinar.”
 
Pais participam do tratamento
Além das crianças, o bom resultado do tratamento depende a participação dos pais. “O acompanhamento é importante para os pais compreenderem o problema e auxiliar na motivação do filho”, diz a diretora.
A filha da cobradora Maria Ângela Pereira da Costa foi uma das primeiras a participar do Gato de Botas.
Ela conta que a filha Mariana tem dislexia e que percebeu a dificuldade de aprendizagem quando ela ainda estava na pré-escola.
“Ela não gostava da escola, confundia o nome das furtas e não conseguia reconhecer as letras.”
Mariana estuda hoje na 6ª série da escola Noêmia Bueno do Vale e já comenta em ser fisioterapeuta.
“Ela é outra pessoa hoje. É participativa, gosta de estudar e apaixonada por gibis. Ela já tem uma coleção com mais de 200”, diz.
 
Aprendizagem
 

Projeto
Voltado para crianças de 7 a 12 anos matriculadas na rede pública com dificuldade de aprendizagem. Encaminhamento é feito por professores. No Gato de Botas é feito o diagnóstico e uma equipe multidisciplinar trata o problema
 
Equipe
É formada por pedagogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo, psicólogo, terapeuta, neurologista, neuropsicólogo, psiquiatra e professores
 
Atividades
As crianças freqüentam o Gato de Botas duas vezes por semana, sempre em horário alternado ao da escola. Elas recebem atendimento de especialistas, participam de aulas de recreação (para melhorar coordenação motora), artes e informática. Os pais se reúnem uma vez por semana
 
Tratamento
Depende do problema diagnosticado. Em casos mais complexos as crianças são atendidas por até dois anos. A fila de espera chega a 200 crianças
 

Aspectos didáticos e metodológicos no processo de ensino aprendizagem da Capoeira

Graduado em Educação Física pela UniFMU
Pós-graduando em Fisiologia do Exercício pela UNIFESP
Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Formação Profissional no
Campo da Educação Física – NEPEF – UNESP.
Campus de Rio Claro
Thiago Vieira de Souza
thiagovieiradesouza@yahoo.com.br
(Brasil)
 
estagiário do Grupo de Capoeira Arte do Revide


1. Introdução
 
    Atualmente, a capoeira é reconhecida e praticada mundialmente por um número incalculável de pessoas, devido aos seus múltiplos enfoques, como a luta, dança, arte, folclore, esporte, educação, lazer e o jogo. Cada vez mais tem aumentado a procura de sua prática pela população, independente de classes sociais. São pessoas de ambos os sexos e de idades variadas, sobretudo crianças, jovens e adolescentes. Diante desta situação, cada vez mais é necessário que haja profissionais competentes e conscientes sendo responsáveis pelo processo de ensino dessa modalidade esportiva.
 
    O presente projeto desenvolveu-se a partir da constatação dessa necessidade, tendo como foco principal investigar a importância e a utilização de conceitos didáticos por parte do profissional atuante na área da capoeira analisando atuantes no ensino da modalidade com e sem a formação profissional, apoiando-se nos conceitos da academia e da escola de ofícios. A intenção é promover reflexões sobre a necessidade de formação profissional para o ensino dessa prática, bem como verificar como são utilizados conhecimentos tradicionais e acadêmicos em seu processo de ensino-aprendizagem.
 
2. Revisão de literatura
 
    A origem da capoeira é incerta na literatura, sem registros que indiquem, com precisão, o país onde teve início. Esta é uma dúvida que até hoje divide folcloristas, etnógrafos e estudiosos no assunto, pois não há evidências da existência da capoeira ou qualquer outra forma similar à capoeira no Continente Africano. Em 1966, Inezil Penna Marinho, importante estudioso da história da Educação Física brasileira, esteve em Angola pesquisando a possível origem da capoeira, concluindo que essa atividade era inteiramente desconhecida por lá, quer entre os eruditos, quer entre os nativos.
 
    A situação dos negros escravos, aqui, no Brasil, e em seus países de origem era muito diferente. Lá, eram consideradas pessoas livres, aqui, eram dominados e forçados a trabalhar como escravos. O tráfico negreiro produziu incertezas na origem da Capoeira Angola, pois alguns mestres acreditam que ela tenha vindo da África. Outros afirmam ter sido criada no Brasil, pelos escravos africanos em ânsia de liberdade. Acredita-se que seja brasileira a sua origem mais provável, pois maior parte literatura pesquisada identificou estudos que levam a essa conclusão.
 
    Sabe-se que na África existia o "Jogo de Zebra" ou N’Golo, que era praticado com bastante violência e fazia parte de um ritual onde os negros lutavam num pequeno recinto e onde os vencedores tinham como prêmio as adolescentes da tribo. Este ritual, por sua vez, assemelha-se ao jogo de capoeira. Relatos apontam que, ainda hoje, existe um ritual semelhante na cidade de Katagun, na Nigéria.
 
    O grande motivo pelo qual se não consegue provar se a Capoeira é africana ou brasileira se deve ao fato de, no governo de Deodoro da Fonseca, o então Ministro da Fazenda, Rui Barbosa, ter autorizado a queima de todos os documentos com relação à escravidão no Brasil, dizendo ser esta muito vergonhosa para o país. Porém, sabe-se que havia outras razões pelas quais Deodoro da Fonseca autorizou a queima desses documentos, mas tais razões permanecem sem uma versão oficial, provavelmente por terem origens em posicionamentos racistas dessa histórica figura.
 
    Os escravos trazidos pelo tráfico negreiro ao Brasil eram, em sua maioria, de Angola, pois eram considerados mais ágeis em virtude da estatura mediana, o que também significava melhor aproveitamento no trabalho. Entretanto, foi muito em virtude dessa agilidade que as fugas acabavam ocorrendo, com o conseqüente estabelecimento de comunidades nas matas que permeavam as propriedade e províncias brasileiras. O nome "CAPOEIRA" deu-se em virtude desse cenário, ou seja, os escravos que se instalavam nas matas, comumente denominadas "Capoeira". Para tentar recuperá-los, os senhores de engenho mandavam os capitães-do-mato, jagunços responsáveis pela captura, buscarem os escravos, que os atacavam com pés, mãos e cabeça, provocando-lhes ferimentos graves ou até matando-os. Aqueles que sobreviviam voltavam apenas para comunicar aos seus patrões que haviam sido pegos na "Capoeira", referindo-se ao local onde tinham sido vencidos.
 
    A Capoeira, no meio das matas, era praticada como luta mortal, já nas fazendas, era praticada como luta inofensiva, pois era vigiada pelos senhores de engenho e pelos capitães-do-mato. Foi a partir daí que se transformou em dança, pois precisava sobreviver para ser utilizada como luta de resistência. Com as fugas em massa das fazendas, a Capoeira se afirmava como arma de defesa no meio das grandes matas, onde se situavam os Quilombos.
 
    Em 1888, a Lei Áurea aboliu a escravidão no Brasil e em 1890 baixou-se um decreto sobre a imigração, que autorizava a entrada de africanos e asiáticos no país, mediante permissão do Congresso Nacional. À época, a prática da Capoeira foi incluída no Código Penal como ato criminoso, levando seus praticantes à pena de prisão e até mesmo à pena de morte. Mas, mesmo assim, essa prática sobreviveu e, mais tarde, transformou-se em parte integrante da cultura popular brasileira. Com isso, surgiram grandes mestres da Capoeira Angola, Manoel dos Reis Machado e Joaquim Vicente Ferreira Pastinha. Foi Joaquim Vicente quem escolheu a Capoeira como maneira de viver, praticando e ensinando a Capoeira Angola por muitos anos, tendo, também, fundado o Centro Esportivo de Capoeira Angola, em Salvador, Bahia. São fatos históricos como esse que levam a crer que foi no Brasil que a capoeira teve suas raízes formadas.
 
    Dos tempos da escravidão para cá, muitas mudanças ocorreram no mundo da capoeira, com inúmeras crises, proibições, liberações e perseguições. Atualmente, a capoeira é reconhecida e praticada, mundialmente, por um número incalculável de pessoas, devido aos seus múltiplos enfoques, como a luta, a dança, a arte, o folclore, o esporte, a educação, o lazer e o jogo. Porém, existem pontos a serem discutidos e melhor evidenciados, como o que se refere à prática de ensino dessa modalidade. Com a grande e crescente procura da população pela capoeira, faz-se cada vez mais necessária a existência de indivíduos responsáveis pelo processo de ensino-aprendizagem da mesma.
 
    O presente estudo desenvolveu-se a partir da constatação dessa necessidade, tendo como foco principal investigar a importância e a utilização de conceitos didáticos por parte do profissional atuante na área da capoeira, para que se compreenda se a modalidade é melhor desenvolvida com a utilização dos mesmos. O estudo também foi motivado pelo vínculo de seu autor por essa prática corporal, como praticante e orientador da mesma. Vem, também, da percepção de que, nos dias de hoje, o profissional de capoeira deve estar pronto no que se refere à utilização de conceitos didáticos como subsídios facilitadores para a sua prática de ensino.
 
    Segundo FONTOURA (2002), nos tempos da escravidão, a capoeira era praticada de maneira "clandestina", uma vez que era utilizada como arma de luta. MELLO (apud FONTOURA, 2002) afirma que, uma vez que essa prática era utilizada com arma de luta, os senhores de engenho passaram o coibi-la de forma veemente, submetendo à terríveis torturas todos aqueles que a praticassem. Com o passar dos tempos, os primeiros colonizadores perceberam o poder fatal da capoeira, proibindo-a e rotulando-a como a arte negra (SANTOS apud FONTOURA, 2002).
 
    BARROS (apud FONTOURA, 2002) relata que, em 1888, foi abolida a escravidão e muitos escravos foram largados nas ruas, sem emprego, o que os fez utilizar o ensino da capoeira como meio de sobrevivência. Em 1890, a capoeira foi considerada "fora da lei" pelo antigo código penal da República, com penalidade de dois a seis meses de prisão para quem ousasse praticá-la FONTOURA (2002). Diante desta situação AREIAS (apud FONTOURA, 2002) afirma que a mesma foi transformada em uma verdadeira luta acrobática, aperfeiçoada e mesclada de tantos artifícios quantos fossem necessários para safar-se das perseguições. A capoeira e os capoeiristas conseguiram atravessar esse período tempestuoso, chegando a ser reconhecida como esporte autêntico brasileiro, segundo palavras do então presidente, Getúlio Vargas, que liberou a prática desse esporte.
 
    A primeira academia que ensinou capoeira formalmente foi estabelecida por Manoel dos Reis Machado, o mestre "Bimba" (FONTOURA, 2002). CAPOEIRA (apud FONTOURA, 2002) diz que a capoeira possui dois estilos: o tradicional denominado "Capoeira Angola", e o estilo criado por Bimba, chamado "Estilo Regional".
 
    CAPOEIRA (apud FONTOURA, 2002) relata que Pastinha abriu sua academia alguns anos depois de mestre Bimba, e lá praticava o estilo tradicional que, para diferenciar da regional, passou a chamar de Capoeira Angola. Pastinha (apud FONTOURA, 2002) diz que o nome "Capoeira Angola" era em virtude dos escravos angolanos terem sido aqueles que mais se destacaram na sua prática. Esta modalidade assemelha-se a uma dança com "ginga" maliciosa, porém, antes de tudo, é uma luta violenta.
 
    Da necessidade de mudança surge o outro estilo, chamado "Regional", criado por mestre Bimba. ALMEIDA (apud FONTOURA, 2002) afirma que Bimba aproveitou-se de uma antiga luta existente na Bahia, chamada "Batuque". Segundo CAMPOS (2000), com a capoeira regional, Bimba suscitou uma nova abordagem pedagógica da capoeira: montou uma academia, estabeleceu aulas, lições, turmas de alunos com horários preestabelecidos. O método não mais se baseava na oralidade, mas já se utilizava da escrita em avisos, lembretes, códigos, gravuras e auxílios pedagógicos que compunham sua técnica de ensino. Para CAPOEIRA (apud GUIMARÃES, 2002), o método de ensino, os novos golpes e a nova mentalidade fizeram com que a capoeira "regional" de Bimba se diferenciasse muito da capoeira tradicional.
 
2.1. Metodologia e Didática de ensino
 
    Partindo-se da afirmação de CAPOEIRA (apud GUIMARÂES 2002), onde se afirma que o método de ensino fez com que a capoeira regional se diferenciasse muito da capoeira tradicional, observa-se uma tendência em se elevar a importância da utilização da didática e da prática de ensino no meio capoeirístico, MENEZES (1990) coloca a didática como um instrumento que contribui para o educador em sua prática, tendo como característica orientá-lo durante o processo de ensino aprendizagem, através de estudo planejamento, conteúdo, métodos e relacionamento professor-aluno. DAMIS (apud MENEZES, 1990) afirma que a didática, ao ser desenvolvida apenas para a operacionalização do ensino-aprendizagem, tem contribuído para desenvolver, no futuro professor, uma prática pedagógica conservadora, o que, segundo o autor, não é ideal que ocorra.
 
    Segundo JANUÁRIO (1981), os princípios pedagógicos que devem nortear a atuação do professor estão baseados em dois momentos de intervenção pedagógica: o primeiro diz respeito à fase prévia, que é a seleção e organização de objetivos, atividades de aprendizagem e conteúdos; o segundo é a intervenção pedagógica propriamente dita, como as grandes orientações do professor no contato direto com os alunos, a relação educativa, a motivação, a construção na ação, as operações de controle, a transferência, a criatividade e a verbalização.
 
    Quando citamos conteúdo de aula é importante ressaltar que não basta simplesmente haver um conteúdo, e sim verificar se o mesmo está adequado. JANUÁRIO (1981) coloca alguns critérios para a seleção e organização do mesmo, tais como: expectativa dos alunos, informação, integração, continuidade, e seqüência. Segundo o autor, é muito importante a utilização de um programa de ensino, pois o mesmo é a representação de todo o processo de ensino aprendizagem, de acordo com princípios pedagógicos.
 
    JANUÁRIO (1981) ainda coloca uma idéia de programa educativo, seguindo a mesmo raciocínio do estudo, que é dar importância à utilização de procedimentos didáticos. Como exemplo, pode-se colocar seu esquema de definição de objetivos didáticos, que é o professor possuir finalidades, alvos, objetivos gerais, específicos, comportamentais, e operacionais. Em seguida há a criação do programa em si, que se constitui de definição dos objetivos, escolha de conteúdos, determinação das capacidades e interesses dos alunos, determinação de metas de aprendizagem, escolha dos métodos e técnicas do processo de ensino-aprendizagem e técnicas e instrumentos de avaliação. Desta forma têm-se conhecimentos suficientes para se trabalhar aspectos físicos e motores, como também componentes sociais, culturais e psicológicos.
 
    Além da estrutura acima mencionada, GALVÃO (2002) ressalta como pontos importantes o feedback constante e apropriado, a interdisciplinaridade e comunicação dos objetivos. Através dessas informações, pode-se agir conforme preconiza TAFFAREL (1995), onde se afirma que é necessário avaliar critica e constantemente a produção de ensino.
 
    Por outro lado, é impossível prever todos os aspectos que podem interferir negativamente num processo de aprendizagem e os fatos inesperados que irão ocorrer no decorrer da aula. JANUÁRIO (1981) afirma que não se pretende que um programa educativo resolva tudo. Aliás, um mesmo programa educativo deve ter as necessárias adaptações, quer nas capacidades e interesse dos alunos, quer no contexto (condições materiais, instalações e equipamento). Segundo RESENDE (1988), ao transmitirmos conhecimento, ao desenvolvermos habilidades, deve formar atitudes positivas, sem as quais não haverá educação. A autora ainda ressalta um ponto importante, que é a relação professor-aluno, sendo esta de extrema importância para o sucesso de qualquer programa, colocando que o professor deve ser amigo do aluno e respeitado pela competência que, sem afetividade, afasta o aluno da matéria e do próprio professor. Daí a importância colocada por Galvão (2002), ao relatar sobre as características afetivas de um bom professor, como demonstrar interesse, entusiasmo, desenvolver laço afetivo com os alunos, manter clima agradável, respeitoso e amigável.
 
    Segundo RESENDE (1993), é muito importante a preocupação com o processo de ensino onde, pouco a pouco, este processo foi se transformando em algumas propostas, visando a melhoria do ensino. Segundo MENEZES (1990), o estudo da didática, para ser crítico, não pode ser conservador, não pode se restringir aos meios desvinculados dos fins sociais. O processo da análise didática deve prosseguir "para evitar a rotina pedagógica" e a superficialidade do processo de ensino, que não proporciona ao educando e ao educador a oportunidade de penetrar na essência dos fenômenos e dos objetos que compõem o ato educativo, para que, com essa análise, tenha finalidade de intervir buscando mudanças significativas para diferentes tipos de alunos.
 
    Segundo DRIGO e JUNIOR (2001), são raros os cursos de graduação em educação física que possuem, em sua grade curricular, alguma disciplina obrigatória ou optativa relacionada a lutas. Por isso, haveria certo distanciamento do profissional da área do universo cultural das artes marciais. Mesmo assim, essas artes são muito praticadas em locais como clubes, academias ou entidades esportivas, porém, em geral, ministradas por atletas ou praticantes com formação restrita e insuficiente, fazendo com que os mesmos não levem em consideração a objetividade e individualidade, ou seja, para que servem e como se aplicam os exercícios. DRIGO e JUNIOR (2001) ressaltam que nesses atletas e praticantes há uma vasta experiência na luta em si, porém é frágil o conhecimento no que se refere ao processo de ensino aprendizagem, como considerar a seleção de estratégias, métodos, lógicas, exigências fisiológicas, adequação das atividades e assim por diante. Os autores ainda colocam que a regulamentação da educação física como profissão interfere numa área que, histórica e culturalmente, esteve sempre isolada e cujos interesses podem resultar em conflitos neste novo contexto. Em outras palavras a educação física, como área de estudo e profissão, pouco se relaciona com as artes marciais até o momento.
 
    De certa forma, esta situação vem se alterando aos poucos. A capoeira chega às universidades e, em algumas delas, passa a ser disciplina obrigatória ou optativa, como, por exemplo, na UFBA (Universidade Federal da Bahia), UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), UFPR (Universidade Federal do Paraná), UEG (Universidade Estadual de Goiás) e UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) (CAMPOS, 2000). Esse autor ainda ressalta que fazer com que a capoeira chegasse à universidade era um dos sonhos de Mestre Bimba, pois apoiava iniciativas, projetos e eventos nesse sentido. O autor também faz uma analogia com a utilização de conceitos da universidade, como o fato de possuir padrinhos, paraninfo, orador, exame de admissão e especialização, inclusive classificando a capoeira como uma espécie de universidade popular, onde se estimulava a pesquisa e o estudo dessa prática corporal. Com isso, muitos de seus alunos foram motivados aos estudos em áreas como Artes Plásticas, Artes Cênicas, Música, Teatro, Cinema, Educação Física, História e Literatura.
 
    CAMPOS (2000) relata que, em sua pesquisa, encontrou opiniões favoráveis, por parte dos mestres, quanto à inclusão da capoeira no meio universitário, pois assim haveria uma maior valorização do esporte. Porém, o autor também relata certo temor sobre o fato da capoeira sofrer alterações conceituais, passando, assim, para o academicismo, perdendo sua essência e espontaneidade. FALCÃO (1997) relata que, ao adentrar no mundo esportivo, a capoeira passa a incorporar códigos e valores diferentes daqueles impregnados em sua origem, podendo ser recodificada, regrada e normalizada, negando possivelmente, alguns dos seus elementos essenciais, como a ludicidade e a improvisação. Diante disto, ressalta-se a afirmação de JUNIOR (2004), que relata a maneira como são passados os conteúdos pelos mestres antigos, como o fato dos mestres não ficar dando explicações aos alunos, que vai aprendendo por si só, na medida do possível, através da repetição. Há, também, a relação do mestre com o aluno, que tem extrema importância, pois é muito pessoal, com certo grau de intimidade, com o mestre preocupando-se em estar próximo do aluno, em ensiná-lo, em passar o conhecimento como se fosse um segredo.
 
    Partindo das situações anteriores, que ressaltam a importância da utilização de conceitos didáticos, voltam-se as mesmas para aplicabilidade no âmbito da capoeira, de modo a alcançar seus objetivos através desses conceitos. A exemplo disso, JUNIOR (2002) e SOBRINHO (2002) ressaltam uma proposta metodológica na qual o método é apenas um caminho mais participativo para que os alunos se "auto descubram" e valorizem a si mesmos, além de ser um meio de facilitar o aprendizado. A proposta é composta por três situações, sendo métodos onde o aluno participa na modificação da regra do jogo, na construção da regra do jogo e no desenvolvimento do mesmo. Esse método desenvolve-se através de uma comunicação oral entre professor e aluno, através de conceitos pedagógicos onde, em um deles, o aluno desenvolve funções de forma independente e, em outro, através do auxílio do professor.
 
    Apresentando também uma proposta metodológica, SOUZA e OLIVEIRA (2001) colocam um meio de introduzir a capoeira como conteúdo que pode ser contemplado nas escolas de ensino fundamental e médio, devido aos seus múltiplos enfoques, como luta, dança arte, folclore, lazer, cultura, entre outros. Também apresenta uma proposta de plano de aula, onde dividem movimentos, carga horária anual, horas/aula, tipos de movimentos e séries adequadas para movimentos. Segundo JAQUEIRA (2000) afirma que, além de uma metodologia, um bom método e conceitos didáticos, é necessária também a liderança do docente, onde é relevante a importância da utilização de métodos facilitadores, um estilo de comando utilizado de forma que se consiga desenvolver bem o seu papel de professor e, com isso, alcançar o objetivo de fazer com que haja o aprendizado.
 
3. Objetivo
 
    O objetivo deste estudo é verificar e caracterizar o uso dos métodos de ensino utilizados por mestres tradicionais de capoeira da zona leste da cidade de São Paulo.
 
4. Metodologia
 
4.1. Seleção de Sujeitos
 
    A amostra do presente estudo foi composta por seis mestres de capoeira, do sexo masculino, com idade entre 30 e 51 anos, tempo de prática variando entre 15 e 42 anos, sendo todos, mestres na modalidade há pelo menos três anos.
 
4.2. Instrumento metodológico
 
    Foi elaborado um roteiro de entrevista com questões fechadas e abertas, caracterizando um modelo de entrevista semi-estruturado, composto por treze questões, elaboradas especificamente para o presente trabalho (Anexo 1). As informações foram coletadas no primeiro semestre do ano de 2004. As questões foram organizadas em duas categorias, sendo estas divididas da seguinte forma:
 
·        Categoria 1. Histórico e relação do mestre com a capoeira (questões 3 à 9), composta por questões que abordam o tempo de prática tempo da capoeira, o tempo de atuação como mestre no ensino da modalidade, as razões para o início da prática, o local onde ocorreu esse início e os fatores que levaram o mestre a optar pelo ensino da capoeira.
 
·        Categoria 2. Organização e estruturação de aula, composta por questões sobre o modo de organização de aulas, as faixas etárias dos alunos, as atividades utilizadas para ensinar a capoeira e a importância que o mestre dá à maneira como trabalha os conteúdos de capoeira.
 
4.3. Análise de dados
 
    Para análise do presente trabalho optou-se por extrair os principais conteúdos das entrevistas relativos às categorias adotadas; posteriormente, estes conteúdos foram relacionados às informações da revisão de literatura. Os dados foram analisados a partir da transcrição e sistematização dos conteúdos das entrevistas, conteúdos estes que foram divididos nas duas categorias anteriormente citadas. Esse procedimento caracteriza-se pelo método conhecido como "análise de conteúdo".
 
5. Resultados e discussão
 
    Para proceder à discussão dos dados das entrevistas, optou-se por se destacar os relatos mais relevantes dos mestres entrevistados, referentes à categoria 2, e, posteriormente, analisá-los sob a perspectiva da revisão da literatura. A análise dos dados indicou que os mestres procedem da seguinte forma em suas aulas:
 
5.1. Quanto à organização das aulas
 
    Os relatos dos mestres 1, 2, 3 e 4 contêm afirmações de que os mesmos dividem as aulas em etapas, ou seja, de certa forma, apresentam o conceito de organização de aula que, segundo JANUÁRIO (1981) é um dos principais recursos pedagógicos que devem nortear a ação do professor. KRUG (1997) relata que o planejamento de ensino é o processo de racionalização do emprego de meios materiais de recursos disponíveis a fim de alcançar objetivos concretos em prazos determinados e em etapas dirigidas a partir do conhecimento e avaliação da situação original. Diante disso, os mestres em questão apresentam este conceito ao relatarem a utilização de seqüências utilizadas em suas aulas, envolvendo a divisão de conteúdos e até mesmo a utilização de cronograma para melhor orientarem o processo de ensino de seus alunos.
 
5.2. Quanto à faixa etária dos alunos dos mestres
 
    Os mestres em geral acreditam não haver uma idade específica para o início da prática da capoeira, mas sim, vontade do praticante. Um deles já impõe restrições para o início da capoeira tanto para a idade mínima, quanto para a máxima, demonstrando preocupações com a integridade física e o nível de assimilação dos alunos.
 
5.3. Quanto às atividades que utilizam para ensinar a capoeira
 
    Frente a esta questão nota-se que há uma certa concordância dos mestres quanto a realizar a aula em partes, como parte inicial, parte principal e parte final.
 
    Em observações feitas após as entrevistas, o início das aulas sempre é o alongamento com aquecimento, o meio sempre são atividades, como instrumentação, jogo e movimentos e o final são conversas e explicações teóricas. Com isso caracteriza-se a organização de aula, onde todos afirma dividir a mesma em etapas.
 
5.4. Quanto à importância como trabalha os conteúdos da capoeira
 
    Todos os mestres apresentam, em seus relatos, preocupações com a forma com que são passados os conteúdos, tanto no aspecto técnico (metodológico), afetivo ou social. Partindo desses aspectos, GALVÃO (2002) coloca como características de um professor bem sucedido: demonstrar interesse, entusiasmo, vibração e motivação; desenvolver laço afetivo; fornecer feedback; dominar o conteúdo. Apesar da preocupação generalizada com a estruturação dos conteúdos esta foi a categoria que apresentou maior diversidade de opiniões entre mestres. O mestre 1 demonstra ter uma preocupação em relação à filosofia da capoeira antiga. O mestre 2 apresenta algumas características de um professor bem sucedido, como fundamentar o conteúdo na unidade teórico-prática. O mestre 3 demonstra uma certa discordância no que se refere à regulamentação dos profissionais de educação física, salientando a importância do conteúdo ser transmitido por parte de professores que conheçam a capoeira a fundo. Os mestres 4, 5 e 6 apresentam características e preocupações que se enquadram nas características sócio-políticas do professor bem sucedido, como conhecer e preocupar-se com o aspecto social dos alunos.
 
6. Conclusâo
 
    Ao propor esta investigação, procurava-se conhecer a atuação do profissional de capoeira, com o objetivo de verificar e caracterizar o uso dos métodos de ensino utilizados por mestres tradicionais de capoeira da Zona Leste de São Paulo.
 
    Partindo do pressuposto de que mesmo sem a formação acadêmica, o capoeirista utiliza, de forma intuitiva, seqüências pedagógicas construídas durante sua vivência empírica, seqüências estas que possuem uma alta correlação com o que a revisão de literatura do presente estudo relata.
 
    Frente à discussão realizada, pode-se afirmar que as principais características das aulas correspondem a determinados métodos como: planejamento de ensino, organização e seleção dos conteúdos, feedback, métodos parcial, global e misto, metodologia diretiva, bem como a preocupação em fazer com que o aluno assimile as informações e, desta forma, criando métodos para que isto ocorra.
 
    O estudo identifica, caracteriza e correlaciona a existência e utilização de métodos didáticos por parte dos mestres, porém, não os julga quanto a sua consistência, bem como à eficácia dos mesmos, sendo que investigações desta natureza ainda devem ser elaboradas. Contudo, é possível que os métodos utilizados pelos mestres possuam alguma eficácia no processo e no resultado final da aprendizagem, mas, não há dúvidas de que a formação acadêmica se faz necessária neste âmbito, para que, a partir dela, haja correta utilização, organização e seleção dos métodos a serem aplicados aos alunos, a fim de se alcançar o objetivo educacional da capoeira.
 
Referências
 
·        CAMPOS, A. P. A construção do campo acadêmico da educação física brasileira: análise da escola de educação física e esporte da universidade de São Paulo. RIO CLARO – SP; 2003. DISSERTAÇÃO DE MESTRADO – UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA.
·        CAMPOS, H. J. B. C. Capoeira na Universidade. Revista Baiana de Educação Física, 2000; 01(03): 15-22.
·        CASTRO JÚNIOR L. V.; SOBRINHO, J. S. O ensino por uma prática nagô. Revista Brasileira de Ciências e Esporte, 2002; 23(02): 89-03.
·        COSTA SILVA, P. C. Capoeira e educação física – uma história que dá jogo…Primeiros apontamentos sobre suas inter-relações. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 2001; 23(01): 131-145.
·        FALCÃO, J. L. C. A esportivização da capoeira: uma análise histórico – crítica. VI Congresso Brasileiro de História do Esporte, Lazer e Educação Física, 1997. Rio de Janeiro. Brasil. Universidade Gama Filho; 1997 . p. 321.
·        FALCÃO, J. L. C. Na "roda de capoeira": corpo imaginário social – esclarecimento e intervenção. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 1999; 21(01): 1304-1310.
·        FONTOURA, A. R. R.; GUIMARÃES, A. C. A. A capoeira em Florianópolis: um resgate histórico. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, 2003; 11(02): 13-18.
·        FONTOURA, A. R. R.; GUIMARÃES, A. C. A. História da Capoeira. Revista da Educação Física, 2002; 13(02): 141-150.
·        GALVÃO, Z. Educação Física Escolar. A prática do bom professor. Revista Mackenzie e Educação Física e Esporte, 2002; 01(01): 65-72.
·        GONÇALVES JÚNIOR, L.; DRIGO, A. J. A já regulamentada profissão educação física e as artes marciais. Revista Motriz, 2001; 07(02): 131-132.
·        GONÇALVES JÚNIOR, P. Capoeira na formação do esquema corporal do portador de necessidades especiais. Revista Baiana de Educação Física, 2001; 02(02): 45-50.
·        JAQUEIRA, A R F. Capoeira: da mandinga a violência. Revista Mineira de Educação Física, 1999; 07(02): 60-80.
·        JANUÁRIO, C. Alguns aspectos sobre pedagogia, técnicas de ensino e construção de programas. LUDENS, 1981; 05(02): 45-42.
·        KRUG, D. H. F. Uma proposta metodológica para o ensino da educação física. Revista da APEF, 1997; 12 (01): 80- 92.
·        MENEZES. A. H. R.; MENEZES, J. A. S.; SANTOS, L. A. M; WIGGER, I. D. Didática em educação física: ordem unida, recreação e pedagogia do movimento crítico. Motrivivência, 1990; 02(03): 93-97.
·        TAFFAREL, C. N. Z. Referencial teórico-metodológico para a produção do conhecimento sobre metodologia do ensino da educação física e esporte. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 1995; 16(02): 122-133.  
 
 
Fonte: Jornal Mundo Capoeira – www.jornalmundocapoeira.com

A Ditadura na (DE)FORMAÇÃO do Capoeira

Discutir ensino / aprendizagem em qualquer área já se constitui numa tarefa difícil e arriscada pela gama de informações que o mundo moderno dispõe e por interlocuções com teorias pedagógicas contraditórias e às vezes até confusas. Agora imaginemos esse diálogo tomando como base uma arte com pouco mais de 400 anos, que a mais ou menos 100 anos atrás estava prevista no código penal da república como crime e hoje desponta no mundo inteiro como fenômeno de formação humana para cidadania…  Complicado! Mas esse será o nosso desafio nesse momento, discutir o processo de formação de capoeiristas a partir de interlocuções com algumas teorias pedagógicas de formação humana.
 
            Para problematizar o tema, tomaremos como referencia o processo de formação dos capoeiristas na atualidade nos grupos e associações de capoeira, pois acreditamos que desta forma poderemos dar conta de compreender alguns mecanismos de ingerência do modo de produção na capoeira e ainda garantir uma analise mais fiel das relações de ensino/aprendizagem nessa área.
 
Títulos, graduações e poder
 
             A partir da observação dos grupos de capoeira podemos perceber que muitos funcionam estruturados numa forte cadeia hierárquica, que atribui direitos e deveres aos praticantes, mediante seu estagio (graduação em capoeira), levando-se em conta sua experiência na arte, seu tempo de pratica e principalmente sua capacidade docente. Os membros desses grupos são preparados desde o começo para se tornarem mestres de capoeira, cantando, tocando, jogando e etc…  Seguindo essa lógica, existe um sistema de graduação que serve para mensurar o nível do capoeira a partir dos requisitos já citados, portanto ser capoeirista hoje significa prioritariamente estar a serviço desse modelo de formação que vive da farsa ou ingênua consciência da tradição de respeito ao mais antigo, que fortalece o poder do mais velho diante do mais novo, como forma de subjugá-lo, sendo assim, cria-se o imaginário de que quanto mais velho for, mais pessoas terá para mandar e mais inquestionável ficará. 
 
              Fica fácil compreender o mundo da capoeira na atualidade se pensarmos num quartel militar em que os mais novos sofrem com as ordens dos mais antigos e de maior patente, sonhando em se tornar mais velhos, pelo simples fato de poder retribuir tudo que passaram negativamente, despejando todo autoritarismo possível na relação com os mais novos que chegam. Paulo Freire já nos advertia em sua obra sobre o fato de que todo oprimido traz dentro de si, sendo gestado o opressor, e que a nossa luta pela liberdade é justamente sair das sombras e marcas de nossos opressores.
 
A formação docente
 
            Os níveis de graduação hoje estão divididos, na maioria dos grupos de capoeira, em fase de aluno, Formado, Professor, Contramestre e Mestre, sendo requisito básico para as trocas de estágios mais altos, a capacidade docente, ou seja, o nível do “trabalho” de capoeira, que para os adeptos dessa arte significa a quantidade de alunos que possuem ligados a ele, e o tempo que estes permanecem “ligados” a capoeira, toques, cantos e jogos…  Portanto se alguém quiser seguir praticando sem ter alunos, logo será “taxado” de mau capoeirista por seu grupo e pela comunidade.  A desculpa que alguns mestres usam e que só se aprende capoeira ensinando, hora, se compreendermos a relação de ensino/aprendizagem como um via de mão dupla, facilmente perceberemos o equívoco dos mestres, pois mesmo sem ministrar aulas, um capoeira aprende na própria relação com os outros, sendo o ato de estar como professor, apenas mais uma forma de aprender.
 
             Um outro ponto relevante nessa discussão e o fato de que a maioria dos Mestres vive financeiramente também da renda gerada por seus alunos que estão dando aulas, ou seja, cada novo professor funcionará como mais um “empregado” da engrenagem de lucro dos grupos, servindo de fonte de lucro para o Mestre, que cobra percentuais de participação na receita de seus alunos/professores para que possam permanecer ligados a este ser “iluminado” de sabedoria, o Mestre.
 
              Lamentavelmente, esta e só uma pequena mostra de ingerência do modo de produção capitalista no mundo da capoeira, pois inúmeras são as outras maneiras de mercadorização da capoeiragem na atualidade, estruturada por grupos e instituições afins que trabalham na lógica de macdonaldização da capoeira, com franquias, marcas, métodos enlatados e principalmente com toda uma sistematização sub-serviente ao lucro. Nessa lógica pouco importa o aprender fazendo, a herança “conflitiva” e “libertadora” da capoeira, a alegria do jogo, o berimbau bem tocado ou as lágrimas de um capoeira ao cantar uma ladainha, contudo a importância desses aspectos poderá ampliar rapidamente, basta engaiolar tudo num DVD, CD ou em alguma outra forma encaixotada para ser vendida nos mercados e bancas de revista da esquina.
 
            Às vezes fico me perguntando: como seria a capoeira sem os livros de Frederico Abreu? Sem os filmes de Jair Moura? Sem a sabedoria de Mestre Decanio? E tantos outros que escolheram continuar na capoeira sem seguir a lógica de ter grupo, formar “trabalhos”…   Com certeza a nossa capoeira perderia muito, pois deixaríamos de aprender com as alternativas pedagógicas deste exército de “professores informais” que fizeram a opção de ensinar ao “grupo da humanidade” que capoeira se aprende capoeirando e que ninguém escapa a educação, pois ela está tanto nas academias de capoeira, como nas rodas de rua, nos livros, nos filmes ou numa simples conversa de fim de tarde com Decanio na praia de Tubarão.
 
           Quero deixa claro que este trabalho não tem intuito de resolver o problema nem de firmar-se como verdade absoluta, mas propor uma reflexão objetiva sobre a formação de capoeiras, afirmando que não temos nenhuma pretensão profética apocalíptica das instituições de capoeira. Queremos e dialogar com alternativas de participação no mundo da capoeiragem que possam contribuir de diferentes formas para o crescimento da mesma com critica, autonomia e criatividade.
 
           Precisamos reavaliar os currículos de formação, os métodos de ensino e principalmente um sistema de graduação atual, que este pautado na hierarquização burocrática da capoeira voltada para o lucro.
 
           Por fim finalizo dizendo que esses pensamentos partiram de um individuo que faz parte de um grupo, segue um sistema de graduação, que vivenciou alguns dos equívocos de formação já citados e que esta inconformado e com pouca tolerância para continuar de maneira passiva e submissa fortalecendo um sistema que esta destruindo a capoeira na sua “matriz”, esterilizando-a e transformando seus representantes em reprodutores dos ditames do capital.
 

Psicomotricidade – Área de recreação e esportiva

Psicomotricidade – Área de recreação e esportiva

Recebido por e-mail de WGS07@aol.com

em qui 29/09/2005 08:16

Acessado em 11/10/2005 10:55

Redação/Editoração/Formatação modificadas por AADF

 

O Conceito Psicomotricidade

O conceito de psicomotricidade é recente e inicialmente debruçou-se apenas sobre o desenvolvimento motor da criança (De Meur e Staes, 1989).

Ø      Segundo Núñes e Vidal (1994) a psicomotricidade é a técnica ou conjunto de técnicas que tendem a interferir no ato intencional significativo, para o estimular ou modificar, usando como mediadores a atividade corporal e sua expressão simbólica, com o objetivo, de aumentar a capacidade de interação do sujeito com o ambiente.

Ø      Berruezo (1995, citado por Pantiga, 2002) propõe que psicomotricidade é um foco da intervenção educacional ou terapia cujo objetivo é o desenvolvimento da capacidade motora, expressiva e criativa a partir do corpo, o que o leva a centrar a sua atividade e a interessar-se pelo movimento e o ato, que é derivado de disfunções, patologias, excitação (estímulos), aprendizagem, etc.

Ø      Para Muniáin (1997, citado por Pantiga, 2002) psicomotricidade é uma disciplina educativa/reeducativa/terapêuti ca. Concebeu como diálogo que considera o ser humano como uma unidade psicossomática e que atua sobre a sua totalidade por meio do corpo e do movimento no ambiente, por meio de métodos ativos de mediação principalmente corporal, com o propósito de contribuir para o seu desenvolvimento integrante.

Ø      De Lièvre e Staes (1989, citados por Núñes e Vidal, 1994) definem psicomotricidade como a posição global do sujeito. Pode ser entendida como a função do ser humano que sintetiza psiquismo e motricidade com o propósito de permitir ao indivíduo adaptar-se de maneira flexível e harmoniosa ao meio que o cerca. Pode ser entendida como um olhar globalizado que percebe a relação entre a motricidade e o psiquismo como entre o indivíduo global e o mundo externo. Pode ser entendida como uma técnica cuja organização de atividades possibilite à pessoa conhecer de uma maneira concreta o seu ser e o seu ambiente de imediato para atuar de uma maneira adaptada.

 

A psicomotricidade destaca a relação existente entre a motricidade, a mente e a afetividade e procura facilitar a abordagem global da criança por meio de uma técnica.

Nesse sentido, De Meur e Staes (1989) referem que a psicomotricidade foi evoluindo. Começou por estudar o desenvolvimento motor, depois a relação entre o atraso no desenvolvimento motor e o atraso intelectual da criança, mais tarde o desenvolvimento da habilidade manual e aptidões em função da idade, para atualmente, estudar também as ligações com a lateralidade, com a estruturação espacial e a orientação temporal e as relações das dificuldades de aprendizagem escolares de crianças de inteligência normal. Os autores alertam também para a tomada de consciência das relações existentes entre o gesto e a afetividade, como por exemplo, o fato de uma criança segura de si caminhar de forma muito diferente de uma criança tímida.

 

Verifica-se, portanto, que existe um amplo espaço ou área de intervenção da psicomotricidade,o que permite afirmar que esta pode exercer uma importante influência na evolução pessoal e acadêmica dos indivíduos.1

 

A Influência do Desenvolvimento Motor na Aprendizagem

Existem teorias que salientam de tal modo à importância do movimento para a criança que admitem que as dificuldades de aprendizagem são o resultado de um desajustamento com o espaço que as envolve (Neto e col., 1989, citados por Silva e Marques, 2001).

Segundo os mesmos autores, o movimento é um meio de ensino-aprendizagem particularmente relevante em crianças com dificuldades de aprendizagem. Com base nas múltiplas relações da motricidade com a inteligência, realçam que a atividade lúdico-motora facilita a aquisição das noções simbólicas fundamentais para as aprendizagens escolares, destacando que o movimento promove a espontaneidade, a imaginação e o pensamento criativo, constituindo-se numa experiência multi-sensorial de aprendizagem.

Para Matos (1991, citada por Silva e Marques, 2001) a dimensão cognitiva, na qual as aprendizagens escolares apostam fortemente, não é só um acidente ou um "dom", mas também é resultante da atividade motora exploratória, criativa e social que então satisfaz por um lado as necessidades de maturação orgânica e por outro permite a regulação das funções psicofisiológicas, traduzidas na prática pelo desenvolvimento e pelo crescimento.

Assim, a atividade motora parece associada às representações mentais, ou seja, regula o aparecimento e o desenvolvimento dos processos cognitivos (Piaget, 1977; Wallon, 1970; Fonseca, 1984, 1994, citados por Silva e Marques, 2001).

Alguns autores (Cuenca e Rodao, 1994) referem que atualmente não há dúvidas de que um bom desenvolvimento psicomotor durante a infância é a base de uma aprendizagem adequada e que o grau de desenvolvimento psicomotor nos primeiros anos de vida vai continuar, em grande parte, durante toda a sua vida.

A motricidade, segundo os mesmos autores, influi de forma notável no psiquismo do indivíduo, ao ponto do processo intelectual depender da maturidade do sistema nervoso. Isto significa que existe uma estreita influência entre o físico-fisiológico e o intelectual. As referidas teorias estão presentes no processo ensino-aprendizagem, como por exemplo, no da leitura, onde a desorientação espácio-temporal pode levar a criança a confundir grafias semelhantes (p/q, b/d …), conduzindo-a dificuldades da leitura e escrita e consequentemente a dificuldades de aprendizagem. A lateralidade, a coordenação visomotora, discriminação figura-de-fundo e a mobilidade manual são outros exemplos, entre vários, de áreas que devem ser trabalhadas, pois poderão contribuir para ultrapassar as dificuldades de aprendizagem ou para a sua prevenção.

Deste modo, a influência do desenvolvimento motor na aprendizagem é de tal forma importante que uma intervenção através da psicomotricidade poderá contribuir para eliminar ou pelo menos diminuir as dificuldades de aprendizagem de crianças e jovens que apresentam tal problemática.

 

A Educação Física e suas implicações no Desenvolvimento da Psicomotricidade

O discurso e prática da Educação Física sob a influência da Psicomotricidade coloca a necessidade do professor de Educação Física sentir-se um professor com responsabilidades escolares, e portanto, pedagógicas. Busca desatrelar sua atuação escolar dos cânones da instituição desportiva, valorizando o processo de aprendizagem e não mais a execução de um gesto técnico isolado.

Talvez nós sejamos um tipo de professor que em grau maior do que aqueles de outras matérias costuma valer-se de conceitos de sua própria área em tom pejorativo, denegrindo o que deveria ser de seu domínio. Fazemos tábula rasa2 do que foi produzido ao longo de quase 200 anos. Não conseguimos acompanhar o movimento do pensamento e perceber como o conhecimento se amplia, se refaz pelos avanços da técnica, da ciência e pela inserção de diferentes práticas em diferentes culturas. Os clichês influenciam mais do que as inúmeras e inúmeras obras sobre Ginástica, sobre Jogo, Dança, e, sobretudo Esportes. É agradável constatar que os anos 90 trouxeram um olhar mais abrangente aos estudos e pesquisas sobre a Educação Física Escolar. Os reducionismos de natureza biológica, psicológica e social parecem não ter mais lugar no debate da área.
Hoje já é possível, no âmbito da Educação Física, pensar a ciência fora dos limites do positivismo e perceber que para tratar das atividades físicas em suas determinações culturais específicas, o conhecimento do homem implica em saber que a sua subjetividade e razão cognoscitiva se instalam em seu corpo e as linguagens corporais constituem-se em respostas a esta compreensão.
Sem esquecer a provisoriedade do conhecimento, afirmo aqui esta retomada da Educação Física como o lugar de aprender Ginástica, Jogos, Jogos Esportivos, Dança,Lutas,Capoeira.
Talvez as pesquisas sobre ensino hoje já possam romper com a visão tecnicista e mergulhar no conteúdo de cada área. Talvez hoje, estejamos necessitando estudar Ginástica, Jogos, Dança, Esportes e de posse destas fantásticas atividades codificadas pelo homem em sua história valer-se, criativamente, de metodologias que encerrem valores mais solidários, que apontem para uma saudável relação entre indivíduo e sociedade e vice-versa. O Ensino da Ginástica ou de qualquer Jogo Esportivo, por exemplo, sempre encerrará em seu interior uma dimensão técnica. Mas uma dimensão técnica não significa nem tecnicismo nem "performance". O lugar da "performance" não é na escola. O caráter lúdico pode prevalecer sempre numa aula de Educação Física, desde que ela seja realmente uma aula, ou seja, "um espaço intencionalmente organizado para possibilitar a direção da apreensão, pelo aluno, do conhecimento específico da Educação Física e dos diversos aspectos das suas práticas na realidade social".

Segundo Snyders: "não considere seus alunos tolos", eles não gostam de coisas fáceis, óbvias. Como observa Betti em sua pesquisa sobre a percepção do aluno em aulas de Educação Física, "os alunos realmente não desejam que todas as coisas sejam fáceis. O desafio de algo difícil, mas realizável é almejado por eles. Afirmam que querem aprender melhor, que quanto mais aprenderem, melhor a aula se tornará…".

Nesse sentido, a educação psicomotora visa a intervenção no processo de evolução psicomotora do indivíduo, não somente como recurso pedagógico, mas também como recurso que integra toda ação educativa.

 

A capoeira como atividade promotora do Desenvolvimento Psicomotor

A Capoeira pode proporcionar aos seus participantes inúmeras situações de aprendizagem, constituindo-se como uma prática educativa. O trabalho coletivo e lúdico que envolve o aprendizado da capoeira garante mais qualidade de vida para aqueles que a praticam. Seus benefícios são enormes, tais como: desenvolvimento das qualidades físicas (resistência, flexibilidade, agilidade, coordenação, ritmo, etc.), autoconfiança e socialização.

Na Capoeira, a aprendizagem tem um reflexo claro na realidade do aluno, ela proporciona uma série de benefícios que influenciam a própria maneira de o aluno estar no mundo (“ser-no-mundo”). Quando o indivíduo entra numa roda de capoeira, se insere num ambiente de encontro e contato direto com outra pessoa, que é seu companheiro (com quem irá jogar), e um contato e encontro indireto com outras pessoas, que são os outros integrantes da roda. O ato de entrar na roda pela primeira vez representa o início do processo de aprendizagem mais significativo da Capoeira, é o começo dum processo de enfretamento e transposição de barreiras e medos ( p.ex. do risco de contusões) que o capoeirista irá realizar em seu rico aprendizado. Dentro da roda, são suscitados os mais variados tipos de sentimento, emoções e reações, que são peculiares deste genuíno encontro que acontece na roda, encontro esse que é imprevisível e espontâneo, ditado pelo momento, podendo ser amistoso ou não.

“…é o canto, a ladainha que evoca o clima e dá o tom do jogo e expressa, resume o que vai rolar, pelo menos naquele instante. Isto porque o que está acontecendo neste momento, aqui e agora, pode ser completamente modificado à medida que se vai jogando, é o encontro que vai dizer o que ‘vai rolar’. É a resposta imediata do parceiro que vai provocar o tipo de jogo, aberto ou fechado, ou que eu seja mais afoito ou retrancado” (Amorim in: Freire, 1991:152).

As experiências vividas na roda de Capoeira vão ter várias conseqüências para a vida do indivíduo, na medida em que, na capoeira, a pessoa vivencia momentos de integração e contato significativos, realiza atividades de nível motor, além de poder expressar sentimentos e emoções que, na realidade, muitas vezes é impedido (como, por exemplo, a expressão da agressividade), enfim, está lidando com aspectos motores, emocionais, psicológicos e sociais que podem refletir diretamente na vida do sujeito.

 

O capoeirista Corisco do Recife, citado por Amorim (in: Freire,1991:152), expressa muito bem essa situação, quando diz que:

“A capoeira ultrapassa esses limites que tentamos impor a ela. Ela é um estilo de vida, um modo de ser, conviver, enfrentar o mundo. É mais que uma filosofia, é a própria vida do capoeirista. Na capoeira a gente pode expressar a dor, a alegria, a sensualidade, o ataque, a defesa, a saudade, o encontro”.

 

Na Capoeira aprende-se a enfrentar e superar muitas dificuldades e situações, o praticante está sempre descobrindo como se colocar nas mais inusitadas e inesperadas circunstâncias, aprende como escapar aos mais variados obstáculos e barreiras, esta sempre trabalhando sua expressão corporal, sua agilidade, sua destreza, sua flexibilidade, criatividade e espontaneidade. Cada aspecto ou característica pessoal trabalhada terá um reflexo na vida do indivíduo, que passa a encarar o mundo e a vida, suas dificuldades e obstáculos, de uma nova forma, com uma postura bem diferente.

A luta é o elemento básico para o enfrentamento dos mecanismos de poder que tentam impedir a auto-regulação, a liberdade de ser e fazer o que se quer. A disposição de luta numa roda de capoeira está relacionada às nossas atitudes de luta na vida. A roda é um treino e um diagnóstico de como estamos lutando. Nosso esquema corporal é um reflexo direto de nossa vida emocional” (Freire & Da Mata, 1993: 38).

O aluno envolve-se integralmente, é o sujeito de suas ações e movimentos. Insere-se completamente. Esta condição lhe é imposta até em termos de sua segurança. Numa roda de Capoeira, o indivíduo trabalha a expressão de sentimentos, de emoções, ativa a cognição, trabalha a espontaneidade, a criatividade, a integração social.  Além de tudo, está se apropriando da história e da cultura do povo brasileiro.

 

Apesar de existirem movimentos básicos na Capoeira, cada pessoa desenvolve seu estilo próprio de jogar, cada um tem seu jeito de expressar-se nos movimentos. Isso decorre do fato da capoeira ser um lugar privilegiado para produção da criatividade, do cultivo da originalidade e espontaneidade de cada um. É um lugar privilegiado para expressividade, espaço de desenvolvimento pessoal, onde o praticante experiência um processo contínuo de “dar-se-conta-de-si”, um processo de conscientização de atos e movimentos. O praticante de Capoeira é uma pessoa que está aprendendo a lidar com as nuanças do improviso, está em contínuo contato com o seu “aqui e agora”, com sua realidade atual (no sentido de “atos momentâneos”), está em contato criativo e dinâmico com o meio.

 

No processo de participação grupal, que é a Capoeira, o aluno está constantemente desenvolvendo liberdade e responsabilidade de movimentos e ações, um verdadeiro processo socializado de crescimento pessoal.

É por meio de atos que se adquire aprendizagem mais significativa[…] A aprendizagem é facilitada quando o aluno participa responsavelmente do seu processo. A aprendizagem significativa aumenta ao máximo, quando o aluno escolhe suas próprias direções[..] decide quanto ao curso de ação a seguir, vive as conseqüências de cada uma dessas escolhas[…]a aprendizagem participada é muito mais eficaz que a aprendizagem passiva.”

Rogers (1978:163).

 

A vivência da capoeira é uma experiência ímpar. Proporciona ao aluno uma ativação, ampliação e complexificação da percepção. Uma verdadeira abertura progressiva à experiência. Na medida em que o indivíduo constrói uma vivacidade e auto-estima cada vez maiores.3

 

Além disso, a pessoa, principalmente o brasileiro, ao praticar Capoeira, tem a oportunidade de vivenciar o contato com sua própria cultura, na medida em que passa a apropriar-se da história desta arte-dança-luta-jogo de raiz africana, mas de origem brasileira.

 

A Capoeira foi inspirada em danças e rituais dos negros africanos, os quais foram trazidos como escravos para os engenhos de açúcar, no Período Colonial brasileiro. Originou-se e desenvolveu-se aqui, todavia, como uma forma encontrada pelos negros escravos, de lutar contra e resistir às injustiças da escravidão, pela sobrevivência física e cultural de seu povo. A Capoeira apresenta-se, principalmente, como uma forma que o Negro encontrou para buscar sua liberdade. Após a abolição da escravatura, ela logo se tornou uma poderosa e genuína forma de resistência dos mais variados grupos ou classes oprimidas.

 

Atualmente, apesar de a Capoeira ter se disseminado por vários países do mundo, o que facilmente notamos, ainda, é o fato de ela ser mais aceita entre as classes mais pobres, e de sofrer uma certa discriminação social frente a outras práticas esportivas e culturais4 Tal fato talvez se deva ao seu próprio processo histórico de exclusão.

 

Na Capoeira, o aluno encontra um lugar de desenvolvimento, um lugar onde pode desenvolver seus potenciais de criatividade, expressão corporal, originalidade e espontaneidade, verbalização e expressão de sentimentos, flexibilização do corpo, integração social, apropriação cultural. Lugar de afirmação de si, de percepção e encontro genuíno com o outro, de desenvolvimento de uma postura de enfrentamento da realidade, de uma forma flexível e dinâmica de estar no mundo.

Nesse sentido, a oficina de Capoeira tem como objetivo divulgar esta arte secular trazida pela cultura negra, e, além de ensinar as tradições de uma dança brasileira, exercita a psicomotricidade e o controle emocional seguido de senso de companheirismo e fraternidade.

Além disso, a utilização da música na roda de capoeira é importante como processo de fixação e aprendizagem de conhecimentos gerais e culturais, de psicomotricidade e de auto-estima.

A prática e a teoria artística e estética devem estar conectadas a uma concepção de arte, assim como a uma consistente proposta pedagógica que aproxima os estudantes do legado cultural da humanidade, oferecendo bases que proporcione a experimentação e o sentir, para que a partir deste movimento sejam desenvolvidos sua autenticidade e seu bom gosto artístico.


Bibliografia

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1 Grifo AADF

2 Grifo AADF

3 Grifo AADF

4 Idem