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O Berimbau

A Lenda do Berimbau

Uma menina saiu a passeio. Ao atravessar um córrego abaixou-se e tomou a água no côncavo das mãos. No momento em que, sofregamente, saciava a sede, um homem deu-lhe uma forte pancada na nuca. Ao morrer, transformou-se imediatamente num arco musical: seu corpo se converteu no madeiro, seus membros na corda, sua cabeça na caixa de ressonância e seu espírito na música dolene e sentimental.

(Conto existente no leste e no norte africano)
(Texto retirado da Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia) nº 80 de 1956.

Origem:

A introdução deste instrumento no Brasil foi feita com a chegada dos negros Bantos, mais precisamente pelos Angolanos, cuja a cultura é uma das mais antigas de África.

No entanto, vale a pena salientar que, apesar do Arco Musical ter chegado ao Brasil por intermédio dos negros africanos, isto não implica que tenha sido criado por estes.

Emília Biancardi, na obra Raízes Musicais da Bahia, diz acreditar-se que o arco musical já estava em uso há 15.000 anos antes de Cristo, porquanto aparece em pinturas rupestres da época, como a que foi encontrada na caverna Les Trois Frèmes, no sudeste da França. Albano Marinho de Oliveira, em pesquisa publicada na revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia de 1956, diz que, de entre os instrumentos de corda conhecidos no mundo, os mais antigos são a harpa, o Alaúde e a Cítara.

Estes Instrumentos existem há cerca de 4.000 anos antes de Cristo e foram encontradas gravuras em pinturas e relevos do antigo Egipto. Todos estes três instrumentos retratados, tiveram a sua origem num arco musical, que tinha como característica, uma corda fixada nas suas extremidades e tendo como amplificador de som, uma caixa de ressonância, podendo até mesmo ser um buraco no chão.

O arco musical foi, com toda a certeza, o ponto de origem da Harpa, opinião dominante entre os musicólogos. Hugo Riemann, na sua obra História La Música – 1930, diz acreditar que o som produzido pelo arco de caçador ao disparar a flecha foi, sem dúvida, segundo a lenda, a causa da invenção do arco musical. Teoria esta, contestada por Curt Sachs, na obra História Universal de Los Instrumentos Musicales.
De qualquer forma, torna-se impossível fixar o ponto e época exacta do seu aparecimento, pois a extensão geográfica da sua expansão dificulta certezas. Curt Sachs, anota a sua existência no México, na Califórnia, na Rodésia, no Norte e no Este Africanos, na ilha de Pentecostes, e na Índia; Carlos Vega, entre Índios da parte mais meridional da América do Sul e Ortiz, na ilha de Cuba.

Albano de Oliveira resume que:
“dos instrumentos de corda primitivos, a harpa provém de um arco, semelhante ao de caçador. E como referências antigas dão como a arpa originária do Egito, lítcito é se adimitir que o arco musical dalí partiu, espalhando-se a princípio pelo Oriente Próximo, Sul da Índia, onde Curt Sachs acredita existir a forma mais primitiva do arco musical, Indostão, Oceania, Continente Africano e somente nos tempos modernos, Europa e América.”

O Nome:

Hoje em dia não nos é possível definir com exactidão a origem do vocábulo Berimbau, nem tão pouco sabermos quando este arco musical perdeu o nome de origem e herdou o termo conhecido actualmente.

A ideia mais aceite, é a de que o nome Berimbau venha do termo vindo do quibundo m`birimbau, existem ainda os que defendam sua origem vinda do termo Balimbano, de origem mandinga, ambos os termos estão registados no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado. De outra forma, acredita-se que seja um termo vindo da palavra de origem Ibérica Birimbau, que, no Dicionário da Real Academia Espanhola, é definido como sendo um pequeno instrumento, composto de arame ou madeira, com uma lâmina fina fixa ao meio.
Segundo Albano de Oliveira, em pesquisa na obra “Viagem Pitoresca e Histórica do Brasil” de Jean Baptiste Debret, artista Francês que morou no Brasil de 1816 até 1831, o nome de origem do nosso conhecido arco musical, o berimbau, era Urucungo, termo angolano, comprovando assim a origem angolana do instrumento.

De outra forma, encontramos vários outros termos que definem o berimbau de barriga, são estes Uricundo, Urucungo (este último também registrado por Edson Carneiro, como já referido, sendo de origem Angolana), Orucungo, Oricungo, Lucungo, Gobo, Rucungo (registrados por Arthur Ramos), Bucumba, Macungo, Matungo e Rucumbo, bem como outros termos ainda não conhecidos.

O emprego do Arco Musical:

Segundo a ordem cronológica da história dos instrumentos, os de percussão surgiram primeiro, sendo utilizados pelos povos guerreiros, seguidos dos de cordas e posteriormente, os de sopro.

O arco musical teria nascido no Egipto, ou segundo Curt Sachs, no sul da Índia, em épocas muito remotas, e atravessou tempo e fronteiras, sendo conhecido em todos os continentes. O seu uso deveria ser apenas para a satisfação humana nas horas de lazer, ou ainda para manifestações religiosas, pois segundo consta, toda a história da música, está retratada em registros e documentos religiosos, como as gravuras tumulares egípcias, onde os instrumentos aparecem como forma de reverência aos Deuses, ao que o arco musical não seria excepção.

Provando isso, Curt Sachs, em pesquisa sobre o arco musical, encontrou povos em ainda estágios primitivos de civilização, no qual o arco musical está ligado a religião, misticismo ou lenda, como, por exemplo, a dos povos do Norte e Este Africano, que narram a história da menina que bebia água num córrego, retratada no início desta pesquisa. Povos do México, como os Covas, utilizam um arco musical com uma caixa de ressonância separada. Esta caixa é na verdade o símbolo da deusa da Lua e da Terra, e entre algumas tribos deste mesmo povo, só as mulheres podem tocá-lo. Na Rodésia, o arco musical é tocado na iniciação das meninas. Já os Washam Balás, do Leste Africano, acreditam que o homem não poderá casar se, quando estiver fabricando o instrumento, se partir a corda, pois trata-se de um instrumento sagrado.

O emprego do arco musical com característica religiosa, tende a diminuir entre os povos com níveis diferentes de cultura, é o que acredita Albano de Oliveira. No Tongo, o arco musical é tocado pelos velhos anciãos nativos apenas como forma de recordarem os tempos áureos da juventude. É o que faziam, segundo relato de Alfredo Brandão, quando os negros de alagoas, tocados pelos sentimentos de saudade e tristeza, aproveitavam a calada da noite nas senzalas para tocarem o berimbau.

No Brasil, o berimbau não esteve, nem está ligado, a religiosidade, no entanto, sabemos do emprego do mesmo em missas, ou momentos que relembrem velhos mestres, sendo esta uma prática particular dos capoeiristas. Na bahia, durante as festas de largos em dias santificados, era costume aparecerem tocadores de berimbaus.

Retratado ainda pelos viajantes Rugendas e Debret como instrumento utilizado para atrair fregueses, ou mesmo, como forma de um cego pedir auxílio, o berimbau exercia várias funções.

Hoje em dia, no Brasil, o berimbau é encontrado especialmente nos grupos de capoeira, onde exerce um papel importantíssimo na manutenção do jogo. É ainda usado por músicos e grupos de danças como instrumento de percussão.

A introdução na Capoeira:

Como sempre, esbarrando na carência de documentos que comprovem com exactidão o uso do berimbau na capoeira, pesquisadores e historiadores, baseiam-se em gravuras, desenhos, pinturas, crónicas, anotações e narrativas da época, sendo estas as únicas fontes existentes para a pesquisa, que por si só, não nos garantem certezas.

Sabendo que a capoeira nasceu primeiramente como luta, podemos deduzir que o berimbau não tenha tido, nesta época, relação com a mesma, cabendo este papel aos batuques e atabaques, que possuem uma identificação maior com as lutas e rituais afros, é o que prova a gravura intitulada “Kriegsspiel” (Brincadeira de Guerra), registrada na obra “Viagem Pitoresca Através do Brasil”, livro lançado em 1763, de Jean Maurice Rugendas. Nesta gravura, não se verificou a presença do berimbau, e sim de um pequeno atabaque, e em volta dos lutadores, pessoas animando e a baterem palmas, num local, que, segundo Albano de Oliveira, é provavelmente o trecho onde é hoje Monte Serrate, na Bahia. Outra obra publicada entre 1834 e 1839, do francês Jean Baptiste Debrete, intitulada “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, retrata um arco musical nas mãos de um cego. Temos ainda a ilustração de Joachim C. Guillobel (1787 – 1859), que registra a presença de um berimbau a ser tocado por um vendedor ambulante, como forma de atrair os fregueses, não vinculando assim o instrumento com a capoeira.

Sabemos ainda que as maltas de capoeiras no Rio de Janeiro foram perseguidas, sendo, desta forma, extinta a capoeiragem na antiga capital, e que, no Rio, se desconhecia a presença deste arco musical. Na Bahia, segundo Emília Biancarde, na segunda metade do século XIX, o berimbau foi introduzido na arte, pois a capoeira só se perpetuou graças ao seu uso, e ao dos demais instrumentos, pois, quando alguém estranho ao grupo se aproximava, era fácil transformar o jogo em dança, como por exemplo, o samba de roda. Com o passar do tempo, o berimbau passou a comandar a roda, sendo até hoje indispensável o seu uso. Emília Biancardi diz ainda que, segundo Mestre Pastinha, na década de 40, se costumava ver a presença de uma viola de doze cordas nas rodas, e que a presença do berimbau já se fazia sentir.

Existem, no entanto, aqueles que acreditam que o Berimbau já era usado na arte capoeira desde a época colonial, dentro das senzalas, segundo alguns relatos, como o que Rosangela Peta descreve na matéria sobre capoeira, na revista Super Interesante, lançada no mês de Maio de 96. Henry Koster (Inglês que se radicou em Pernambuco, virou senhor de engenho e passou a ser chamado Henrique Costa), escreveu nas suas anotações de 1816 que, de vez em quando, os escravos pediam licença para dançar em frente as senzalas, e divertiam-se ao som de objectos rudes. Um deles era o atabaque, outro “um grande arco com uma corda, tendo uma meia quenga de coco no meio ou uma pequena cabaça amarrada”, trazendo assim, a utilização do berimbau nos momentos em que os escravos, supostamente, estariam treinando a capoeiragem, em meio a festa.

Os tipos de Berimbaus na capoeira:

Na capoeira, são conhecidos três tipos de berimbaus, que possuem individualmente funções diferentes na bateria, que têm de ser bem executadas de forma a criar uma perfeita harmonia na roda. Na Bateria da capoeira angola usam-se três berimbaus, na charanga da regional, apenas um, sendo este acompanhado pela marcação dos pandeiros.

O Gunga:

É o berimbau que possui o som mais grave, tem como característica possuir uma cabaça (caixa de ressonância) grande. Alguns autores acreditam que o seu vocábulo venha da palavra angolana hungu. É também conhecido por muitos como berra boi. Este tipo de berimbau é mais utilizado no estilo de capoeira angola, onde é normalmente tocado pelo mestre ou capoeirista responsável em manter o ritmo da roda, pois é o gunga quem comanda a base do ritmo, ditando o toque e a cadência a serem executados.

O Médio:

Como o próprio nome refere, é o que possui uma cabaça com tamanho intermediário aos outros dois, tendo no som a mesma característica, tem como função acompanhar a base do toque do berimbau gunga, podendo no entanto, pontualmente, executar algumas variações. É o tipo de berimbau mais utilizado na formação dos instrumentos da Capoeira Regional, porém, é também parte integrante da bateria da Capoeira Angola.

O Viola:

Conhecido também como violinha, é responsável pelo improviso, dando o chamado “molho” ao ritmo. Quando um bom tocador está a manuseá-lo, seu som agudo, é de uma vibração inigualável, fazendo com que a assistência escute o lamento ou mesmo uma saudação alegre e feliz, através de sua música. É dos três tipos o que possui a menor das cabaças.

A constituição do Berimbau:

Um instrumento monocórdio, constituído por uma verga arqueada, um arame estendido, uma cabaça, que tem o papel de caixa de ressonância, uma baqueta de percussão, um dobrão ou seixo, e ainda é acompanhado pelo uso do caxixi.

A Verga:

A madeira que deve ser usada para a confecção do berimbau tem de ser flexível e resistente, a mais usada e conhecida é a Biriba, que deve ser cortada no mato, na lua quarto minguante. Em viagem pela Bahia, perguntei ao Mestre Marinheiro, residente em Feira de Santana, artesão e vendedor de berimbau e caxixi, que se encontrava na capital baiana, se, com tanta extracção de Biriba, ela não correria o risco de se extinguir, ao que ele respondeu que, normalmente quando extraída da mata, passados dois a três anos ela renasce do mesmo ramo cortado.
Alguns artesãos cozinham a biriba, como forma de torná-la mais resistente. O Berimbau ainda pode ser feito com outros tipos de madeiras, tais como o cunduru, o pau d´darco, o pau pombo, a tapioca, o bambu e outras. Em Portugal, como forma de suprir a carência de espécies encontradas somente na Mata Atlântica, usa-se o eucalipto, ou o pau de lodo, sendo este último utilizado no tradicional Jogo do Pau Português. No caso do eucalipto, este deve ser tirado quando ainda está pequeno e verde, e antes de o cortar, deve-se primeiro vergá-lo a fim de não proceder a um corte desnecessário, ficando a verga inutilizável e sem uso. Depois de verificada a resistência e feito o corte, deve-se retirar a casca, quando esta ainda se encontra verde e húmida, logo depois deixa-se secar à sombra durante cerca de uma semana e meia, e só depois se poderá proceder ao trabalho de acabamento.

A Corda:

Em tempos remotos, eram usados como fio para este instrumento, sipó ou vísceras de animais, só muito tempo depois se introduziu o uso do arame comum (recozido), para só depois então, com a chegada dos primeiros automóveis importados a Salvador, segundo mestre Pastinha em relato a Emília Biancarde, os tocadores, que na sua maioria trabalhavam como estivadores nas docas de salvador, descobrirem que o arame temperado existente nos pneus dos carros produziam um som melhor que o sipó-timbó ou arame comum, e passaram a utilizá-lo.

A Cabaça:

(Cucurbita Lagenaria, Lineu) É uma planta rampante. De uso múltiplo e secular entre os utensílios domésticos, herdados da indiaria. Deve ser utilizada quando bem seca, cortada no caule, lixada por dentro a fim de limpá-la das sementes e vestígios de fibras encontrados no seu interior, para depois serem feitos dois furos, onde passará um cordão a fim de fixá-la na verga, esta terá a função de ampliar o som do arame percutido. Mestre João Pequeno, quando do término de sua roda na academia João Pequeno de Pastinha, localizada no Forte Santo António, utiliza-se da cabaça como forma de ampliar a sua voz, para proferir a sua palavras aos capoeiristas e público presente na sua academia.

O Dobrão:

Segundo relato de Mestre Pastinha, nos primitivos berimbaus, os músicos utilizavam as unhas do dedo polegar, como forma de obter efeito sonoro, colocando-a próxima ou distante da corda. O nome dobrão, tão caro ao Mestre Noronha, é tomado da moeda de 40 reis, sendo essa uma peça de cobre com cerca de 5 centímetros. No entanto, muitos capoeiras preferem o uso dos seixos como forma de modular as notas e, segundo Dr. Decânio, os africanos costumam utilizar-se desta mesma pedra. Em Portugal os seixos são encontrados em abundância, nas margens das suas praias com características rochosas, moldados pelo mar, tomando uma forma cilíndrica quase que perfeita, óptima para o manuseio.

A Baqueta:

medindo cerca de 40 centímetros, é utilizada para percutir no arame montado na verga e, dependendo do gosto do tocador, ela pode ser leve ou pesada, tem de ser feita com material resistente, como ticum, lasca de bambu, ou até mesmo eucalipto.

As partes do Berimbau:

Em visita a Associação de capoeira Mestre Bimba, presidida e orientada pelo Mestre Bamba, tive o prazer de conversar com o já citado Mestre Marinheiro, que definiu os nomes das partes do berimbau como sendo:

Birro:

acabamento na parte inferior da verga, onde o arame é fixado, alguns capoeiristas chamam-no de “casa”. Existem diferenças na forma como são encontrados os Birros, na Capoeira Regional, pode ser pontiagudo, e na angola, feito com uma saliência.

Argola:

Extremidade da parte inferior do arame, onde será fixo no birro.

Presilha:

É na verdade, o cordão que serve para prender a cabaça na verga e no arame.

Couraça de protecção ou couro:

É um pequeno disco de cabedal grosso, fixo na extremidade superior da verga, como forma de evitar que o arame penetre na verga inutilizando-a.

Ponteira:

extremidade superior da corda (arame), onde este se encontra moldado como uma argola, e onde é preso um cordão de algodão ou sisal, que irá tencionar o fio de arame, e fixá-lo na verga.

Outras partes do Berimbau:

Verga, cabaça, baqueta, dobrão ou seixo, arame de aço, e ainda como complemento o caxixi.

 

Fonte: Blog Capoeira Alto astral

Lançamento do 1º CD da Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene

A Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene lança seu primeiro CD, Sinfonia de Arame, com berimbaus cuidadosamente afinados e agrupados em naipes (berimbau gunga ou berra-boi com som grave, berimbau de centro com som médio e o berimbau viola ou violinha com som mais agudo), com o berimbum, criação de Dinho Nascimento de som super-grave tocado com arco de violoncelo, e o berimbau de lata também tocado com arco, parecendo uma rabeca.

Vozes entoam os versos das ladainhas, corridos, chulas, samba e samba-de-roda. Alguns instrumentos como o guimbarde ou trump (berimbau de boca), kalimba, caixa do divino, agogô, pandeiro, reco-reco, ganzá, triângulo, atabaque, matraca, efeitos diversos e palmas completam a sonoridade.

A Orquestra mostra a versatilidade do berimbau interpretando toques da capoeira e ritmos da música brasileira, com arranjos e regência de mestre Dinho Nascimento.

Este CD promove a acessibilidade do deficiente visual possuindo escrita em Braille, desenvolvida para leitura dos cegos através do tato.

Convidados muito especiais participam em Sintonia de Arame: a Orquestra de Tambores de Aço (na música Amazonas), o Quarteto Pererê (em Peixinhos do Mar), Tião Carvalho (em Puxada de Rede) e Toninho Carrasqueira (em Toque de Mestre e Sertão de Caicó).

 

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A construção do berimbau

O primeiro passo para o fabrico do berimbau é a obtenção de uma madeira flexível e resistente, que suporte arqueamento e pressão sem ceder demasiado. Escolhe-se uma vara sem muitos nós ou grandes curvas, que bem pode ser "biriba" (a preferida pela maioria dos capoeiras ) ou guatambú (mais facilmente encontrada). O guatambú se apresenta como a madeira indicada – ao lado da taipoca e outras espécies nativas – na construção do berimbau, por se tornarem suas varas muito leves, após secas, sendo comuns longas hastes muito regulares, apresentando grossura mais ou menos uniforme de uma extremidade a outra. Tirada a vara, que não seja demasiado grossa ou muito fina. O tamanho ideal é de aproximadamente 1.20 m.
 
Quando a madeira ainda está verde, caso não seja perfeitamente reta, basta passá-la sobre o calor do fogo, ainda com casca, para que sejam corrigidas eventuais curvas, dando-lhe a forma reta necessária. A casca do guatambú sai com facilidade, passando uma faca de lâmina afiada de ponta a ponta da vara, removendo longas tiras.
 
Passamos, a seguir, à confecção propriamente dita do berimbau. Esculpe-se uma pequena ponta na extremidade mais grossa da vara, que irá servir como conexão para se ajustar o arame do berimbau. A outra ponta deve ser bem acertada, pois irá receber um pequeno pedaço de sola de couro, que impedirá o arame de rachar a madeira.
 
O arame – que cumprirá o papel de corda do instrumento – é um fio de aço com um comprimento maior que a vara cerca de 20 cm e recebe em sua extremidade um laço de diâmetro adequado para se encaixar na ponta esculpida na madeira – que será o pé do instrumento – enquanto que no outro extremo recebe uma laçada menor, onde será amarrado o cordão que irá prendê-lo à madeira. Após esta primeira fase, o berimbau é vergado – ou "armado" para o ajuste da corda, formando o arco – com o emprego de um pé flexionando a madeira, enquanto uma das mãos apoia a extremidade superior da vara e a outra amarra o arame. Pronto o berimbau, já se tornou comum acrescentar-lhe discreta pintura, manchas de fogo e verniz, com a finalidade de embelezá-lo. Esta pintura às vezes possui um significado especial para o tocador, quando é este que confecciona o instrumento.
 
O próximo passo é a elaboração da caixa de ressonância, indispensável ao arco do berimbau. Para isto, utiliza-se uma cabaça que serve à perfeição ao nosso propósito. De preferência, que a cabaça se encontre já bem seca e não tenha sido colhida madura. Que a casca não seja demasiado grossa ou muito fina. O tamanho ideal terá um circunferência de aproximadamente 18 cm – quando se pretenda fazer um berimbau gunga, de timbre grave; caso se pretenda um berimbau viola, de timbre agudo, o tamanho deverá ser menor, com cerca de 11 cm.
 
Escolhida a cabaça, primeiramente façamos uma abertura tal que seja possível a saída de um som claro. Esta abertura será proporcional ao diâmetro máximo alcançado pela cabaça e feita na extremidade oposta à que se prende a haste, quando ainda no pé. Concluída a abertura – feita com uma serra fina – se a cabaça for demasiado grossa é conveniente que coloquemos água em seu interior e deixar por 48h, para depois raspá-lo até que a casca se torne da espessura desejada. Isso para que a ressonância obtida seja de boa qualidade. Depois, com o emprego de uma lixa, daremos à abertura da cabaça o acabamento necessário.
 
Terminado este preparo, a cabaça receberá no seu fundo dois furos paralelos em uma distância de aproximadamente 3 cm um do outro, por onde irá passar o cordão que a manterá fixa ao arco. O tamanho deste cordão irá depender do grau de curvatura obtido pelo arco, para que a cabaça fique presa de forma tal que aperte o arame e proporcione ao tocador a necessária firmeza para segurar o instrumento, apoiando-o sobre o dedo mínimo através deste cordão. Servirá ainda para afinar o instrumento, conforme a pressão exercida sobre a corda.
 
Na escolha da vareta a ser utilizada na percussão do arame são preferidas pequenas varas tiradas de pedaços de bambu, da grossura aproximada de um lápis e comprimento de mais ou menos 30 cm. Outra espécie de vareta muito apreciada é de bambu fino, do tipo das varas de pesca, obedecendo às dimensões citadas. A vareta será usada segura entre os dedos indicador e polegar, apoiada sobre o dedo médio de uma mão, enquanto a outra sustenta o instrumento e prende o dobrão. A percussão da corda se dá numa altura pouco superior ao ponto onde o dobrão pressiona o arame. As batidas devem ser firmes.
 
O dobrão – denominação popular das antigas moedas de 40 réis – é empregado com a finalidade de pressionar o arame quando se pretende obter uma nota aguda, já que o berimbau emite dois tons básicos (grave e agudo) e outros efeitos. É por seu intermédio que o tocador estica ainda mais a corda do instrumento, provocando em conseqüência a modificação do tom grave para o agudo ou um chiado característico. Muitos capoeiras preferem o uso de pedras lisas e resistentes no lugar das moedas de cobre, por considerarem o som obtido mais agradável, além da escolha das pedras possibilitar o emprego daquela de formato mais conveniente para o manuseio do tocador.
 
O caxixi
 
Na execução do berimbau, um outro instrumento constitui acessório indispensável: o caxixi, que é usado como chocalho.
Caxixi é o nome que se dá ao pequeno cesto de alças, feito com tiras de junco trançadas, contendo em seu interior contas de lágrimas, pequenas conchas marinhas ou búzios. O seu fundo é feito de pedaços de cabaça.
 
Além do seu emprego como complemento ao berimbau, Edison Carneiro nos informa em Candomblés da Bahia acerca de outros usos do caxixi.
 
"Caxixi, s.m. Saquinho de palha trançada que contém sementes de bananeira-do-mato, usado pelos pais dos candomblés de Angola para acompanhar certos cânticos, especialmente a ingorôssi. (…) Ingorôssi, s.m. Reza da nação Angola. O tata, agitando um caxixi, fica no meio das filhas, que sentadas em esteiras, batem com a mão espalmada sobre a boca, respondendo ao solo. (…) O chefe do candomblé acrescenta à orquestra, quando Nagô ou Jeje, o som do adjá, uma ou duas campânulas compridas que, sacudidas ao movimento da filha, ajudam a manifestação do orixá, e quando Angola ou Congo, o som do caxixi, um saquinho de palha trançada cheio de sementes. (…) Os candomblés de Angola e do Congo saúdam conjuntamente os inkices com um cantochão lúgubre, o ingorôssi, que se compõe de mais de trinta cantigas diferentes. As muzenzas se sentam em esteiras, em volta do tata, que, com um caxixi na mão, faz o solo, respondido por um coro de gritos entrecortados por pequenas pancadas na boca."
 
No acompanhamento do berimbau o caxixi é usado prendendo-se a sua alça entre os dedos anular e médio da mão que segura a vareta. Tem destaque especial na marcação rítmica dos toques.

Instrumentos

INSTRUMENTOS
 
BERIMBAU
 
Instrumento de percussão, em formato de arco, retesado por um fio de arame, tendo, na sua extremidade inferior, uma cabaça que funciona como caixa de ressonância. O arame é percutido com uma vareta de madeira, chamada de vaqueta, que o tocador segura com a mão direita, juntamente com um caxixi, acentuando o ritmo através do chocalhar e modificando a intensidade do som com a aproximação e o afastamento da abertura da cabaça na barriga. A mão esquerda, que segura o arco e a moeda (dobrão), encosta ou afasta do arame com o objetivo de obter os mais variados sons.  
 
PANDEIRO
 
Instrumento de percussão, composto de um aro circular de madeira, guarnecido de soalhas, sobre o qual se estica uma pele, preferencialmente de cabra ou bode, e que se tange batendo com a mão, com os cotovelos, nos joelhos e até nos pés.
 
 
ATABAQUE
  
Tambor primário, feito com pele de animal, distendida em uma estrutura de madeira com formato de cone vazado nas extremidades. Percutindo com as mãos, é bastante usado no candomblé e nas danças religiosas e populares de origem africana.
 
 
 
 
CAXIXI
 
Instrumento em forma de pequena cesta de vime com alça, usado como chocalho pelo tocador de berimbau, o qual segura a peça com a mão direita, juntamente com a vaqueta, executando o toque e marcando o ritmo.
 
 
 
 
VAQUETA ou BAQUETA
 
É uma vareta de madeira de, aproximadamente 30 a 40 centímetros, tendo uma extremidade mais grossa que a outra. A vareta é normalmente feita de biriba ou bambú
 
 
 
 
 
AGOGÔ
 
Instrumento de percussão, feito de metal ou castanha (coco), também utilizado nos cultos e festas de candomblés.
 
 
 
Dobrão

 
 
 
 
 
 
Tipos de Cabaças

Fechada; Gunga ou Berra-Boi; Média; Viola

 

 

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