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Da Espiral à Roda

Nas redes sociais tenho visto com frequência publicações alusivas a uma nostalgia dos anos 80 (sim, esses que foram considerados pirosos!) acerca dos brinquedos, das brincadeiras, dos desenhos animados… o brincar na rua !!! Ah, que saudades! E tem-se falado sobre como as crianças crescidas nesses tempos estariam mais bem preparadas para enfrentar obstáculos ao longo da vida do que possivelmente estarão as crianças que hoje em dia primam pela tecnologia e pelo isolamento mais do que pela criatividade e o vínculo social.

Surge também nos últimos anos uma frequência mais elevada de diagnóstico de hiperatividade e défice de atenção do que nesses anos. Hiper = grande, atividade = criança? É suposto que as crianças sejam ativas, que se mexam, que sejam curiosas, aventureiras… não é isso ser criança? Mas ter essa atividade toda e não ter como a gastar pode ser altamente nocivo. E atenção, não pretendo minimizar os diagnósticos feitos nem o impacto que isso trás na vida da criança e da família, porque são situações extremamente complexas que têm que ser avaliadas com critérios rigorosos. Apenas pretendo pensar um pouco a hiperatividade na sua expressão mais lata, do senso comum, a hiper-atividade, a atividade em excesso.

Provavelmente nos anos 80 gastavam-se as energias numa apanhada, numa macaca ou num jogo de futebol e quando se chegava a casa, com fome e cansados e com apenas dois canais de televisão, poucas opções sobravam.

Pois, não era uma era tecnológica mas era uma era de ir para a rua. Mas os tempos mudam e não existem apenas efeitos secundários nocivos desta era tecnológica. Os miúdos tratam a tecnologia por tu. Ensinam os pais, os avós, os professores. Encontram músicas, jogos e histórias, chegam a todo o lado com um clique. A tecnologia está para as crianças de hoje em dia como as brincadeiras na rua estavam para as crianças dos anos 80. Sem dúvida que existem benefícios e perigos em ambas as épocas. Mas como em tudo, no meio é que está a virtude.

Uma das vantagens deste fácil acesso é que o longe está sempre mais perto do que nos anos 80. E tudo o que se fazia lá fora e nós só sabíamos 20 anos depois, agora é quase em tempo real. E isso não é necessariamente mau. Faz-nos sentir ligados. Faz-nos sentir menos sós. Parte de algo. Capazes.

A grande questão, na minha humilde opinião, é como conjugar isso. E aí, caros pais dos anos 80, a bola é nossa. Cabe-nos a nós fazer essa ligação. Sim, a nós que apanhámos a transição. As cassetes, os vinis e VHS, os CDs DVD’s DIVX, Nintendos, Spectrums, Playstations, Gameboys…nós conhecemos ambos os lados.

E a nós cabe a tarefa de ajudar as nossas crianças a tirar partido de estar com os outros, estar na rua, jogar esses jogos saudosistas, navegar na Internet, ver os programas mais adequados…enfim, sermos responsáveis por ajudar os nossos filhos a estar, a crescer e ser feliz nesta era.

A hiper-atividade é a expressão máxima da inquietação. Dentro e fora. E ainda não é pacífica a sua definição em termos etiológicos. É genética, é do meio, é daqui e dali… mas é. E a forma com lidamos com essa questão é que terá mais impacto do que o rótulo ou a origem.

Com isto, proponho um pequeno olhar por uma atividade já bem implementada em Portugal desde o final dos anos 80, mas ainda desconhecida para muitos de nós: a capoeira.

Muitos desportos, nomeadamente as artes marciais, visam o auto controlo, respeito das regras, capacidade de concentração, resiliência, competência…mas todas estas tarefas podem parecer hercúleas aos olhos de uma criança cujo nervoso miudinho é quem manda. Saber que se tem que estar atento pode ser por si só catalisador de maior agitação!

Mas existem atividades que podem juntar uma série de elementos que beneficiam de forma imensa as crianças (especialmente as hiper-ativas, ansiosas e introvertidas). A capoeira é sem dúvida uma dessas atividades.

Porque transmite noção de eu no mundo, através da passagem histórica das raízes interligadas (e nem sempre felizes) de Portugal e Brasil. Conhecimento histórico e geográfico, multiculturalidade, expressão física e artística, pertença do grupo, autoestima, atenção e motivação são alguns dos ganho imediatos da prática desta atividade. E porquê?

Porque o fator competição é preterido ao da inter ajuda, porque os grupos são habitualmente heterogéneos (em género e faixa etária), porque tem que se ser rápido e enérgico (valorizando os aspetos considerados tóxicos na hiperatividade), mas ao mesmo tempo atento para se esquivar de um golpe. Porque nunca se perde o outro de vista, porque se canta e se aprende a tocar instrumentos. Porque se valoriza o grupo em detrimento do indivíduo, porque existe a possibilidade de renascer através do batismo de uma alcunha de capoeira.

Porque se pertence. Porque se é. Porque se está ligado. E não é através da Internet. É ali, ao vivo e a cores!

E então, porque não, antes de mandarmos os meninos e meninas distraídos, impulsivos e inquietos para dentro de um cubo gigante e opressor de um medicamento que apenas faz bem aos cuidadores (que têm menos desgaste), mas que mata a criatividade e a possibilidade de encontrar alternativas, se mandasse para uma roda de capoeira?

 

NOTA: Apesar de considerar que as crianças com TDAH de acordo com o DSM IV-TR estão igualmente aptas a entrar para uma atividade física e desportiva como a capoeira, essa indicação deve ser dada criteriosamente em contexto clínico, de acordo com a avaliação da situação individual. E não se esgota na prática de uma atividade, a sua leitura é sempre multidisciplinar tal como a intervenção. Em caso de dúvida, contacte um especialista. A Psicronos em Setúbal tem um serviço dirigido a crianças e adolescentes, bem como o aconselhamento parental que pode e deve caso exista suspeita da criança ou jovem se enquadrar neste diagnóstico.

 

Carla Ricardo

Carla Ricardo é licenciada em Psicologia Clínica pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) de Lisboa, desde 2002. Exerce clínica privada na delegação de Setúbal da Psicronos e tem formação base em Psicoterapia Psicanalítica, EMDR e terapia cognitivo-comportamental.

Email: [email protected]

Contactos: 213 145 309 / 918 095 908

Imagem: © Turma da Mónica / Maurício de Sousa

Abertura do Simpósio Terreiro 2012

Prezado Mestre,

Tenho a honra de convida-lo pessoalmente para abrilhantar a abertura do nosso Simpósio Internacional 2012, evento que realizo a cada dois anos em Brasilia – DF, com a participação de capoeiristas de diversos Estados e participantes de outros países como Angola, Alemanha, Africa do Sul, México e Portugal…

Este ano nossa Roda de Abertura e coquetel de lançamento será no Sindicato dos Bancários, na 313/314 SUL, entrequadra, no Teatro dos Bancários, no horário preciso entre as 17,00 horas – inicio e 20,00 horas – encerramento.

Conto com sua presença e sua força para o malhor sucesso desse evento que representa, antes de mais nada, a expansão da Capoeira de nossa Capital pelo mundo afora…

Agradeço imensamente sua atenção e conto com sua presença!


Abraço fraterno,


Squisito
9656 6710 – 82225 5578 – 9514 0459

APAE Itupeva dá show de capoeira em Jundiaí

Em pleno calçadão de Jundiaí, alunos da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Itupeva jogaram capoeira, na manhã da última terça-feira, dia 17. O evento deu prosseguimento à Semana Regional de Cultura Popular, promovida pela Secretaria de Cultura e Prefeitura de Jundiaí.

A participação da capoeira pela APAE/Itupeva faz parte do calendário oficial da Semana, que abrange apresentações vindas das cidades de Cajamar, Campo Limpo Paulista, Itatiba, Itupeva, Jundiaí, Louveira e Vinhedo.

O gingado, as músicas entoadas em coro e a disciplina culminaram no sucesso da roda. Mas, logo em seguida, despertaram interesse e admiração dos presentes diante da constatação de que os capoeiristas eram alunos da APAE.

Surpresa maior, ainda, pelo fato de que há apenas três meses – desde maio – eles jogam capoeira.

Todos os alunos – moças, rapazes e crianças – tiveram aulas com o “Mestre Dentinho”, da CECAB Água de Beber, dentro do Programa de Capoeira para Adolescente e Deficiente Intelectual, desenvolvido pela Diretoria de Assistência e Desenvolvimento Social de Itupeva e APAE.

Professor de capoeira há mais de 25 anos em Jundiaí, “Dentinho”, joga capoeira na APAE toda semana dentro das atividades do calendário extracurricular dos alunos.

Sem uniforme normal da APAE, os alunos se apresentaram, em Jundiaí, com roupa própria de roda de capoeira, sem chamar atenção pelo fato de serem especiais.

Diante da Casa de Cultura de Jundiaí, foram apresentados como mais um evento, fizeram os primeiros gingados, entraram na roda, aos pares, e cada um, dentro de suas limitações físicas e intelectuais, mostraram o que sabiam fazer, dando sua contribuição cultural e popular, motivo pelo qual foram convidados.

Durante uma hora, incansavelmente, mostraram sua capacidade de assimilação, coordenação e atenção às ordens do “Mestre Dentinho” que, auxiliado por outros capoeirista, dava as coordenadas para a entrada na roda, tamanha era o entusiasmo dos alunos.

 

Vilma Higa – Jornal de Itupeva Online – http://www.jornaldeitupeva.com.br

MS: Mulheres dominando a Capoeira

Aumenta a cada dia a participação das mulheres na Capoeira em Três Lagoas. Um exemplo disso foi observado no último sábado, durante a realização do 3º Batizado Troca de Cordas da Associação Cultural Regional Brasil de Capoeira, que ocorreu no Ginásio de Esportes.

Das 60 pessoas que trocaram corda, cerca de 40 eram mulheres. Na Cidade, por meio do projeto social Educa, cerca de 120 crianças praticam capoeira, sendo que boa parte são do sexo feminino. Se esse esporte já chama atenção pelo gingado, imagine então por meio da habilidade delas!

 

Fonte: Portal Jornal do Povo de Tres Lagoas – MS – http://www.jptl.com.br

Foto: Claudio Pereira

O “Iê”: mais que um cumprimento, uma oportunidade para o aprendizado

A capoeira nos oferece inúmeras possibilidades para o trabalho. E na qualidade de educadores devemos estar conscientes para identificá-las e utilizá-las no momento oportuno. Para tanto, é extremamente importante o estado de vigia. Assim como no jogo, todos os sentidos devem estar despertos pois muitas delas podem passar despercebidas, por descuido ou mesmo por estarmos tão acostumados que não alcaçamos o seu potencial.   

Um desses momentos é o nosso “Iê”, que sempre foi para mim a melhor maneira de saudar meus camaradas e também a forma com a qual peço licença ou proteção para iniciar o jogo. Uma pessoa muito querida que reforça isso é o mestre Mendonça (RJ), relator da regulamentação da capoeira nos idos de 1932; um dos baluartes da nossa arte com a qual tenho o privilégio de tomar lição sempre que o encontro ou telefono para ele. Ser humano espiritualizado que sempre reforçou a importância dessa saudação entre os capoeiristas.

No entanto, apesar de buscar valorizar sempre esta atitude, ainda não tinha me dado conta de que ela oferece uma oportunidade ímpar para o trabalho. Mais que uma saudação o “Iê” encerra valores como o respeito e atua fortemente no sentimento de pertencimento.

Certo disso, tornamos a saudação uma de nossas regras. O aluno ao chegar, após arrumar as suas coisas sauda a todos que estão na roda. E todos devem saudar a sua chegada. Claro, no início eles não compreendiam muito bem, mas hoje eles já fazem questão de utilizá-lo. E quando um ou outro esquece, todos os outros camam a sua atenção para que retorne à entrada e faça o cumprimento.

Outra forma em que o “Iê” está produzindo resultados maravilhos é para chamar a atenção. Neste quesito (já em clima de carnaval) ele merece o Estandarte de Ouro. É impressisonante como as crianças atendem quando o “invoco”, seja para por fim a uma discussão, seja para chamar a atenção, seja para nos despedir… E o que mais me alegra é estar na rua e ouvir, entre uma mar de pessoas, uma voz a me saudar: Iê! Isto, verdadeiramente não tem dinheiro neste mundo ou em qualquer outro que pague.

 
Iêeeeee!

http://flaviosaudade.wordpress.com/

Cronica: E AINDA ME CHAMAM DE RADICAL…

O pesquisador , escritor, professor e camarada Acúrsio Esteves, nos envia uma cronica onde faz uma critica e nos faz refletir sobre a importância e a responsabilidade do ensino… por que não dizer "PROPAGAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA" através da CAPOEIRA ou qualquer outro saber popular… com bases, origens e raízes sabidamente brasileiras, dentro de regimentos e fundamentos guiados por nós  "BRASILEIROS"… como principal exemplo, irei citar a capoeira, uma "Luta, Arte, Dança e tantos outros nomes…" que teve como fundamental meio de divulgação… a oralidade… dentro da cultura popular… Temos o dever (será???) de mantermos as raízes, nunca nos afastando das mudanças e processos dinâmicos inerentes da capoeiragem… "um elemento vivo…" mais não esquecendo que todo este processo precisa ser baseado em nosso elemento principal de identidade patriótica, de "brasilidade": A nossa língua… a nossa forma de expressão… nosso jogo de cintura… Mais sempre abertos a adaptações… traduções… e qualquer outro elemento que venha somar de forma relevante e que colabore no crescimento sustentável da nossa capoeira.
Luciano Milani


Algumas pessoas lendo meu livro A Capoeira da Indústria do Entretenimento, acham que a minha crítica às modificações impostas pela “sociedade do espetáculo” à capoeira é por demais contundente e até mesmo descabida. Elas acham que as “novidades” colocadas no jogo com o intuito de atrair espectadores são válidas. Continuo entrincheirado nas minhas convicções e com razões de sobra para tal atitude. Senão vejamos:
 
No mês de abril tive o prazer de receber como hóspede o administrador do site Portal Capoeira, Luciano Milani, que em merecidas férias aproveitava o tempo livre para pesquisar capoeira “na fonte” aqui em Salvador, mantendo uma extensa agenda na qual constavam encontros com mestres como o Mestre Decânio, Mestre Pelé da Bomba, Mestre Gagé, Mestre Bola Sete dentre outras personalidades da capoeira. Agendadas também estavam visitas à instituições como a Associação Baiana de Capoeira Angola e academias como a Fundação Mestre Bimba do Mestre Nenel.
 
Eu, cumprindo o papel de cicerone sempre que minhas atividades acadêmicas permitiam, estava no Pelourinho com Luciano e resolvemos fazer uma visita a uma academia para conversar um pouco com o mestre da casa. Ao chegarmos ele não estava, porém, tinha um monitor ou professor dando aula para uns três estrangeiros. Paramos para olhar quando, estarrecido, verifiquei que o referido professor estava dando a aula em (péssimo) inglês, talvez na tentativa de “agradar os clientes” ou talvez até de “se mostrar diferenciado” em relação aos demais profissionais da área que dão aula em português.
 
Ora, um dos orgulhos culturais que a capoeira carrega é de propagar aos quatro cantos do mundo o nosso idioma… Aí meu camarada, é complicado aceitar este argumento. Minha mãe tinha usava muito um ditado popular que diz: “Quem muito se abaixa o rabo aparece…”.
 
Esta subserviência, baseada na idéia que temos sempre que agradar os de fora ainda que para isso sacrifiquemos nossos bens culturais, não pode continuar. Temos que dar um basta.
 
No dia 31/5 ao assistir um noticiário local, me chamou a atenção a notícia de que um grupo de mulheres capoeiristas iria fazer uma turnê na Europa e salvo engano, iria à Alemanha durante a Copa do Mundo apresentar a arte brasileira da capoeira aos gringos. Tudo estaria nos conformes se eu não tivesse notado (maldito olho crítico) alguns detalhes na apresentação que elas fizeram para uma rede de TV local.
 
O que primeiro me chamou a atenção foi que na bateria estava constando como instrumento o nosso velho e querido violão. VIOLÃO… é mole ou quer mais? Relutei a acreditar no primeiro instante, porém, as imagens seguintes confirmavam que não precisaria ir com urgência no dia seguinte ao oftalmologista; era mesmo um sonoro violão, ali, bem ao pé do berimbau.
 
Pergunto: Onde nós vamos parar? Ou “O que estará por vir”? Daí para a guitarra elétrica ou instrumentos de sopro é um pulo. Eu já tinha visto o Balé Folclórico da Bahia colocar um “surdão”, mas violão é a primeira vez. Talvez até seja ignorância da minha parte porque se a gente reparar bem tanto violão quanto berimbau tem corda né? Afinidades…
Se vocês pensam que a “performance” das meninas pára por aí está se equivocando. Elas usavam um modelito azul, com a camisa em pontas amarrada no meio do tórax e calças com vários babados em cascata, fartos e coloridos abaixo do joelho. Algo mesmo espetacular!
 

Acho bem apropriado para a ocasião tomarmos a fala de um retórico dos mais importantes da história, Marco Túlio Cícero, 106 aC a 46 aC. São famosas suas catilinárias, discursos contra um político da época, um certo Catilina, senador, como ele próprio. Na sua mais famosa fala sempre citada em todo o mundo ele dispara:

Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra? Que em bom português significa: Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? Fazendo uma adaptação ao nosso caso questiono: Até quando, oportunistas, abusarão de nossa paciência? É simplesmente lamentável constatar estes abusos… E ainda me chamam de radical!

Férias e Reciclagem… Angola em Bremen na Alemanha.

Caros amigos,
 
Esta semana (10/10 – 17/10) estarei de férias na Alemanha, onde terei a oportunidade de participar de um evento em Bremen.
 
O evento comemora o 1º aniversário da academia Cazuá do Grupo de Capoeira Angola Irmão Guerreiros, para maiores detalhes clique aqui.
 
Devido a viagem e as merecidas férias, o site estará sem minha total atenção, mais estarei preparando muitos artigos e pretendo trazer material de qualidade para publicar e enriquecer o nosso espaço…
 
Um grande axé e até a proxima semana!!!
 
Luciano Milani!
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Órgão regulamentador para capoeira

Carta do ministro Gilberto Gil ao presidente da Comissão de Turismo
e Desporto, deputado Antônio Cambraia (PSDB-CE)
MinC oficializa apoio à aprovação do Projeto de Lei nº 7.370 de 2002
A Sua Excelência o Senhor Deputado Antônio Cambraia,


Câmara dos Deputados,
 
Senhor Deputado,
 
O Ministério da Cultura tem acompanhado com atenção as discussões
nesta Casa sobre o Projeto de Lei n° 7.370/2002, de autoria do
deputado Luiz Antônio Fleury, e seu Substitutivo, excluindo os
profissionais de Dança, Artes Marciais, Capoeira, Yoga e Método
Pilates da fiscalização dos Conselhos Federal e Regionais de
Educação Física.
 
Apoiamos a aprovação dessa iniciativa, pois consideramos que essas
atividades são, em primeiro lugar, cultura e, em segundo,
fisiocultura. São manifestações culturais e artísticas de grande
importância para o Brasil, com seus universos simbólicos
específicos, incorporadas e recriadas pelo povo brasileiro em seus
costumes e configurações corporais e criativas. A atuação, a
linguagem e o conhecimento dessas áreas transcendem a atividade
física. No caso do Método Pilates, por ser uma atividade
interdisciplinar, é preciso um controle com características
próprias, integrando representação de várias áreas.
 
Portanto, o Ministério da Cultura entende que não cabe a uma outra
área de conhecimento, no caso à Educação Física, por meio de seus
conselhos, legislar e fiscalizar manifestações genuinamente
culturais e artísticas.
 
Solicitamos a atenção dos membros dessa Comissão de Turismo e
Desporto para as questões aqui expostas quando da votação do
referido projeto, estando à disposição para qualquer esclarecimento.
 
 
Atenciosamente,
 
 
Gilberto Passos Gil Moreira
Ministro de Estado da Cultura
 
http://www.cultura.gov.br/noticias/notas/index.php?p=9058&more=1&c=1&pb=1


O carater desta notícia é divulgar e esclarecer, de maneira nenhuma tem carater politico.
Luciano Milani

O OLHAR DO CAPOEIRISTA

"No acto da lucta, toda a atenção se concentrava no olhar dos contendores; pois que, um golpe imprevisto, um avanço em falso, uma retirada negativa, poderiam dar ganho de causa a um dos dois."

Querino, Manoel – "A Capoeira" in "Costumes Africanos no Brasil", Biblioteca de Divulgação Scientifica, vol. xv, pág. 272. Civilização Brasileira, S.A. – Editora. Rio de Janeiro,1928.

"No ato da luta, a atenção se concentrava no olhar dos contendores pois que, um golpe imprevisto, um avanço em falso, uma retirada negativa poderiam dar ganho de causa a um dos dois."

Querino, Manoel – A Capoeira"in "A Bahia de Outrora", "editorado por Frederico Edelweiss". Livraria Progresso – Editora, Praça da Sé, 26,l955, Salvador, Bahia, pág.73.

Introdução

Quando iniciei a prática da regional fui advertido pelo Mestre Bimba para manter o "adversário" sob o controle visual, procurando evitar encarar diretamente os seus olhos ou alguma outra região em particular, observando sempre disfarçadamente, de soslaio, evitando deste modo que o objetivo do movimento de ataque fosse denunciado pela direção do olhar.
Em linguagem acadêmica, fui aconselhado a usar a visão periférica, única capaz de abranger o parceiro como um todo e o ambiente imediatamente vizinho.
A compreensão e a aplicação dos princípios acima enunciados exige noções básicas sobre visão e seus mecanismos.

Campo visual

Campo visual é todo o espaço visível pelo olho em um dado momento.
Determinamos o limite horizontal do campo visual por meio de manobra simples:

  • fixando o olhar diretamente para a frente, focalizando um ponto imaginário no infinito;
  • colocando um dedo diretamente ante o olho, com o braço estendido, deslocamos o dedo lateralmente na horizontal até o desaparecimento do mesmo no limite exterior do campo visual;
  • a repetição da manobra do lado oposto determina o ângulo abrangido pelos dois olhos.

Visão central e periférica

A atenção do observador pode ser focalizada na área central do campo visual ou procurar abranger o campo em sua totalidade.
A fixação da visão numa determinada área acarreta aumento da nitidez da mesma e redução evidente da percepção do espaço restante.
Controlando a tendência natural de fixação do olhar em algum objeto, principalmente luminoso, é possível manter a percepção de todo o campo visual periférico e deixar operar os reflexos de acompanhamento dos objetos em movimento selecionados inconscientemente por um ordem da vontade (a postura mental do jogador ou lutador), apesar da redução aparente da nitidez dos objetos.
Esta seleção, inconsciente, dos objetos em movimento no campo visual periférico é fruto da atitude mental do capoeirista, que deve ser defensiva ou de esquiva para usar as oportunidades de contra-ataque durante os ataques frustados do adversário.
A visão periférica é usada pelos espiritualistas e parapsicólogos no treinamento para visualização da aura energética que envolve todos os seres, vivos e inanimados.
A possibilidade de antever a intenção do adversário é uma vantagem adicional do uso da visão periférica, uma vez que os fenômenos mentais acarretam modificações da aura, que podem deste modo serem percebidos inconscientemente pelo capoeirista, desencadeando instantaneamente os movimentos de esquiva, defesa ou contra-ataques.
A concentração voluntária da visão no campo central dificulta os reflexos de acompanhamento dos objetos que se deslocam no campo visual periférico.
O olhar manhoso do capoeirista, esguelhado, de soslaio, de través, de lado, oblíquo, que evita olhar diretamente para o objeto interessado (visão central) é a aplicação prática da visão periférica na capoeira.

Movimentos oculares

Pelo interesse para os capoeiristas, destacamos entre os movimentos oculares aqueles que permitem a fixação do olhar, voluntária ou involuntariamente, em determinada área do campo visual.
Os pontos luminosos atraem involuntariamente a visão focal (central), o que dificulta bastante a visão da estrada no cruzamento de veículos à noite.
O objetos em movimento no campo visual, sobretudo os luminosos, provocam "movimentos de perseguição" que acompanham automaticamente o trajeto dos mesmos.
Estes movimentos de perseguição inconsciente de objetos em movimento no campo visual periférico permitem o verdadeiro olhar do capoeirista… desconfiado… manhoso… suspeitoso… oblíquo… de través… de soslaio… porém alerta, pronto para esquiva ou contra-ataque!
A expectativa de esquiva, predominanteno comportamento dos capoeiristas, predispõe à instalação de reflexos defensivos, de esquiva ou fuga, ante movimentos capazes de ameaçar sua estabilidade ou integridade física, complementados por contra-ataques, adequados à abertura na defesa do adversário.
Daí a importância fundamental da esquiva no jogo de capoeira, contrariamente à predisposição belicosa que atribui relevância aos movimentos e golpes de ataque.
No jogo em atitude de esquiva o contra-ataque é natural, inconsciente e instantâneo, sem que necessitemos escolher o alvo, infalível.

Considerações técnicas e táticas finais

Durante o jogo de capoeira devemos obedecer à recomendação de Pantajali aos praticantes de Ioga: manter os olhos desfocado e dirigidos diretamente para o infinito.
Os corredores também adotam olhar semelhante para manter a passada larga, desde que o olhar focalizado no solo em ponto muito próxima acarreta um passo muito curto. O ideal é mirar o infinito com o olhar paralelo ao horizonte.
Fitar um ponto imediatamente adiante do capô ao dirigir um veículo prejudica os reflexos de adaptação ao rumo.
O capoeirista precisa ter noção do adversário como um todo, desde que os ataques poderão partir de qualquer segmento corpóreo, em qualquer movimento ou atitude e qualquer momento.
A focalização da visão em um determinada região, mesmo que seja nos olhos do oponente, impede a visão global (periférica), única capaz de perceber simultaneamente o corpo inteiro do adversário, seu deslocamento, os movimentos dos seus vários segmentos e o espaço circunvizinho.
A concentração da atenção num ponto fixo desencadeia um reflexo de imobilização do pescoço na direção do objeto mirado, incompatível com a mobilidade permanente do capoeirista, retardando o desenvolvimento dos movimentos de esquiva e contra-ataque, além de prejudicar a espontaneidade dos movimentos e manobras inconscientes que ocorrem e embelezam o jogo de capoeira.
Um capoeirista mais experiente pode enganar um parceiro simulando, com o olhar, interesse num determinado ponto (alvo falso) para desviar a atenção do verdadeiro objetivo (alvo verdadeiro) em mente.
A área central da retina é responsável pela "visão tubular" e a permanência no seu emprego acarreta o bloqueio dos reflexos de perseguição dos objetos em movimento no campo visual do observador.
A prática quotidiana, contínua, em ritmo lento, dos movimentos de capoeira desenvolve complexas manobras reflexas de esquiva, defesa, contra-ataque, iniciadas pela captação inconsciente dos deslocamentos de membros ou do corpo do adversário no campo visual do atleta. Manobras que formam a estrutura fundamental, o esqueleto digamos, da defesa pessoal do capoeirista e só ocorrem em ausência da fixação permanente e voluntária da atenção em ponto fixo.
O exercício da capoeira evidentemente aumenta o trânsito de influxos pelas vias de conexões intraencefálicas e logicamente melhora as funções do cérebro como um todo, vez quefacilitando a transmissão de informações como efeito do treinamento a capoeira melhora obviamente o rendimento cerebral.
A observação dos treinamentos nos ensina que a repetição freqüente dos gestos facilita da execução dos movimentos, tornando-os ágeis, leves e elegantes, aumentando a velocidade da resposta reflexa e da execução do movimento propriamente dito.
Um fenômeno corriqueiro e que freqüentemente passa desapercebido, de modo semelhante ao amaciamento dos motores, que no inicio é meio emperrado e subitamente alcança o rendimento pleno.
A capoeira transforma-se assim num instrumento de aperfeiçoamento das funções cerebrais que fazem do Homem a mais bela criação de Deus em nosso mundo animal!

"Num mundo que Deus queria que fosse belo !"
diria nosso Mestre Pastinha…

As considerações acima comprovam sobejamente as vantagens do uso do jogo de capoeira no tratamento dos excepcionais, podendo se estender ao preparo físico dos pilotos para melhor acompanhamento dos enormes e complexos painéis de controle dos modernos aviões, como preconiza o Ten. Esdra Magalhães , "Mestre Damião", aeronauta por conveniência e capoeirista por vocação…
Aliás, durante a segunda grande guerra mundial, os pilotos dos aviões "North America" sediados na Base Aérea de Salvador usaram a prática da regional como terapia contra o estresse e recuperação física.
Nesta ocasião auxiliei, como contra-mestre do nosso Mestre Bimba, o treinamento dos aviadores brasileiros que patrulhavam o nosso litoral, no terraço do Edífício Oceania, onde se hospedavam.