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Livro de Carolina Cunha, Mestre gato e comadre onça

História de capoeira recontada por Carolina Cunha mostra como a sabedoria vale mais que a força

Yê vamos embora, camarada”. Começou o jogo de capoeira na floresta. E o gato, mestre da capoeiragem, vai ensinar os bichos a praticar essa luta cheia de ginga, enraizada na cultura brasileira. Até que chega uma onça braba que também quer aprender a jogar. Mas o mestre, astuto que é, percebe que ela não está ali só para se divertir: quer é saciar sua fome à custa dos outros. Para espanto de todos, Mestre gato aceita ensinar os movimentos para a onça, mas eis que chega o dia da formatura e a fera desafia o professor. Começa então o jogo: corpos para frente e para trás, muita finta e golpes variados: rabo de arraia, peão de cabeça, chapa, giro de aú e vários outros. Ao fim, o esperto gato surpreende a onça e a derrota de modo irremediável.

O novo livro de Carolina Cunha, Mestre gato e comadre onça, que acaba de ser publicado por Edições SM, apresenta para as crianças a arte da capoeira, numa instigante coreografia do texto – que reproduz a “palavra dita” das narrativas orais afro-brasileiras – com ilustrações precisas dos golpes e movimentos. Tudo isso entremeado por letras de cantigas de capoeira, presentes no CD que acompanha a obra, gravado pelas crianças dos grupos Nzinga, Espaço Cultural Pierre Verger, e Projeto Pequenos do João, com a participação especial do próprio João Pequeno, o mais antigo Mestre de Capoeira Angola em atividade, e do Mestre Boca Rica, ambos discípulos de Mestre Pastinha.

Para completar, o livro apresenta um vocabulário com os termos de capoeira e explicações sobre seus golpes e movimentos. Também conta a história dessa “combinação de arte marcial, dança e música” de origem africana, inventada pelos escravos para defender sua liberdade, um meio de resistência cultural e física destes diante da intolerância, do abuso dos senhores de engenho e das perseguições dos capitães do mato.

Além de resgatar a importância dos principais mestres da capoeira, como Pastinha e Bimba, Mestre gato e comadre onça é uma homenagem à mestra Iaiá Cici (Nancy de Souza e Silva), que narrou há alguns anos essa história à autora e que, segundo Carolina Cunha, a incentivou e a lapidou na arte de contar histórias.

Sobre a autora e ilustradora – Carolina Cunha nasceu em 1974 em Salvador e mora em São Paulo, onde trabalha como ilustradora e designer. Em seus livros reconta histórias das tradições orais africanas e afro-brasileiras. É autora de Aguemon, Caminhos de Exu, Yemanjá, EleguáABC afro-brasileiro.

TítuloMestre gato e comadre onça
Autora e ilustradora: Carolina Cunha
Número de páginas: 64
Formato: 24,5 x 25,5 cm
Preço: R$ 34,00
Indicação: Leitor em processo (a partir de 8/9 anos)
ISBN: 978-85-7675-744-3
Coleção: Cantos do Mundo
Contém CD com cantigas de capoeira

 

Fonte: http://www.pluricom.com.br

A mulher comprou o jogo

Na belíssima crônica “Mulher na capoeira: Claudivina Pau-de-Barraca”, a capoeira brasileira Lúcia Palmares, radicada na França, nos brinda com um relato magnífico que bem ilustra a presença da mulher na capoeira de outrora. De acordo a autora, na capoeira de outrora as poucas mulheres que ousavam entrar na roda eram rejeitadas pelos homens, que viam nisso uma intrusão em seu “território”.

Para demonstrar que as mulheres souberem driblar o machismo e conquistar o seu espaço, Lúcia homenageia mulheres capoeiristas que alcançaram notoriedade como Claudivina Pau-de-Barraca, Rosa Palmeirão e Maria Doze Homens, pioneiras na arte da vadiação, terreno antes monopolizado pelos homens.

A crônica serve de alerta. “Conheci as dificuldades que as mulheres enfrentaram tanto olhares, agressões verbais e xingamentos como desrespeito no jogo de capoeira ou do batuque, por terem tido a ousadia de entrarem naquele mundo sagrado dos homens”, destaca a autora.

De fato, como destaca a autora, há 20 anos era rara a presença da mulher na capoeira. Hoje em dia, em muitas escolas e academias elas são maioria. Mestre Pastinha, disse certa vez, em seu saber profético, que a mulher ainda iria dominar a capoeira. Não é exagero afirmar que a mulher comprou o jogo, entrou na roda, mas não abriu mão de sua identidade. Ao contrário, ao interagir com o vigor masculino, levou para a ginga a sensualidade, o aspecto lúdico, a graciosidade e a beleza estética.

Em tempo de exacerbada da violência urbana, muitas mulheres buscam na capoeiragem um meio de defesa pessoal. Outras a adotaram como terapia para modelar corpo e tonificar a mente. Muitas educadoras ganham a vida no ofício de ensinar a capoeira, enquanto algumas se dedicam ao artesanato temático, fabricando cordas, instrumentos de percussão e indumentária para a prática esportiva. De uma forma ou de outra elas ajudam a redefinir o corpo social que hoje caracteriza a nossa arte.

No entanto, a presença da mulher nas rodas de capoeira ainda é desproporcional à sua participação em instâncias dirigentes como as federações e associações de capoeira. Para alguns camaradas, a presença da mulher é bem vinda na roda, mas vista com desdém em postos de comando. Essa situação tende a ser revertida, afinal, quem joga, quem ginga, também pode dar rasteira na discriminação – ancorada no frágil discurso contra o “sexo frágil” – e conquistar o seu lugar ao sol no que diz respeito à liderança na capoeira.

Quando os homens capoeiristas compreenderem que a presença da mulher em todas as instâncias da capoeira contribuirá para o fortalecimento de todos, essa dicotomia vai desaparecer, a exemplo do que ocorreu no mercado de trabalho e no controle familiar, onde os dois sexos atuam com igualdade de chances e responsabilidades.

(*) A autora é capoeirista, estudante de Direito e Presidenta da Associação de Capoeira Ladainha .

Gingas do corpo brasileiro

Uma análise da malandragem no futebol, carnaval e capoeira

Outrora havia o "juiz ladrão". E hoje? Hoje, os juízes são de uma chata, monótona e alvar honestidade. Abrahão Lincoln não seria mais íntegro do que Mário Vianna. E vamos e venhamos: a virtude pode ser muito bonita, mas exala um tédio homicida e, além disso, causa as úlceras imortais. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera. Mas ponha-se um árbitro insubornável diante de um vigarista. E verificaremos isto: falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista. O profissionalismo torna inexeqüível o juiz ladrão. E é pena. Porque seu desaparecimento é um desfalque lírico, um desfalque dramático para os jogos modernos.

MANUEL ALVES FILHO

A malandragem presente no futebol, tão bem descrita no texto do dramaturgo Nelson Rodrigues, é um estigma que permeia duas outras importantes manifestações populares brasileiras: o carnaval e a capoeira. Mas o malandro não é o único elemento comum aos três temas, tão freqüentes nas rodas de bate-papo e nas mesas de bar. O mesmo ocorre com a religiosidade e a música. Esses e outros aspectos da cultura brasileira são abordados no livro Futebol, Carnaval e Capoeira: Entre as gingas do corpo brasileiro, recém-lançado pela professora Heloisa Turini Bruhns, do Departamento de Estudos do Lazer da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp. Além de analisá-las dentro de uma perspectiva histórica, a autora utiliza as três "festas" para fazer uma reflexão consistente sobre a complexa e, não raro, contraditória realidade nacional.

A obra é o resultado de uma pesquisa feita para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), mais tarde transformada em tese de livre-docência por Heloisa. No livro, ela desvia de atalhos, como manter as três manifestações circunscritas ao ufanismo e ao folclore. "Eu tento mostrar como elas foram modificadas ao longo do tempo, salientando as pluralidades, a fim de que possamos constatar as singularidades, onde um conjunto de forças desiguais manifesta-se através de poderes muito particulares, até microscópicos, mas que nem por isso deixam de interagir com poderes mais amplos, os quais tornam-se fundamentais para compreendermos a complexidade social".

A despeito do discurso democrático , destaca a autora, o futebol, o carnaval e a capoeira não podem ser enfocados dentro da ideologia da integração nacional. "O acesso a essas manifestações populares é desigual. Temos que considerá-las no plural: futebóis, carnavais e capoeiras", afirma Heloisa. Um exemplo disso é a ainda incipiente presença feminina na capoeira e no futebol, espaços considerados essencialmente masculinos.

Apesar disso, a mulher vem ampliando a sua participação em ambas as manifestações. Na capoeira, por exemplo, a presença feminina não produziu mudanças estruturais, mas está promovendo adaptações nos exercícios físicos e até na vestimenta. "Em algumas academias, as mulheres podem usar top no lugar das tradicionais camisetas brancas", esclarece a professora. Heloisa, porém, não trabalha com a dominação dos homens sobre as mulheres. "Eu exploro o complexo jogo mútuo homem/mulher, na substituição do tratamento simplista calcado na dominação unilateral masculina".

A participação de homens e mulheres no futebol tem origens diferentes. No período de introdução do esporte no Brasil, os praticantes pertenciam a uma elite influenciada pelos ingleses. Com a popularização e a profissionalização, outros grupos e classes integraram-se no esporte. Com o futebol feminino aconteceu o contrário. A presença da camada mais humilde prevaleceu no início.

As pioneiras, lembra Heloisa, foram estigmatizadas como "machonas" e "paraíbas". Para serem aceitas, tiveram que desenvolver modos muito parecidos com os dos homens. Só a partir da década de 80 o futebol feminino passou a ter um novo significado, com a criação da Liga Carioca de Futebol Feminino e partidas beneficentes, que reuniram modelos e artistas. Atualmente , clubes, prefeituras e universidades, dentre outros, estimulam o esporte.

No carnaval, ao contrário das outras duas manifestações, a presença feminina sempre ocorreu. "Não existe carnaval sem a mulher. A figura da mulata é fundamental na escola de samba, na música e na dança, numa encarnação corporal da própria ginga", diz a autora.

Mosaico – De acordo com Heloisa, não é possível isolar essas manifestações populares e analisá-las num campo autônomo, pois compõem um todo com os processos da industrialização e urbanização. Alguns elementos, como a música e a religiosidade, promovem o entrecruzamento do futebol com o carnaval e a capoeira. A autora destaca que alguns jogadores chegam a atribuir seus gols a santos e a Deus. O carnaval e a capoeira têm uma ligação estreita com os cultos afro-brasileiros, casos da umbanda e do candomblé.

"Quanto à música, ela é um elemento fundamental tanto no carnaval quanto na capoeira. Além disso, muitas canções têm o futebol como tema", explica a pesquisadora. O aspecto comum a essas três manifestações que talvez chame mais a atenção é o mito da malandragem. No futebol, ser malandro é quase uma obrigação, já que o adjetivo está associado à esperteza e habilidade. No carnaval, o termo representa o indivíduo que transita entre a ordem e a desordem, sendo esta uma festa "malandra’, isto é, "debochada, sem dono", afirma Heloisa.

Já na capoeira, a malandragem está intimamente ligada à ginga. "Os próprios praticantes dizem que a capoeira é um jogo de malandro, pois não se impõe por meio da força, mas sim pela capacidade de enganar o adversário", diz a autora.

Como manifestações próprias de uma sociedade repleta de contradições e preconceitos, o futebol, o carnaval e a capoeira refletem essa realidade. São, a um só tempo, focos de resistência e de reprodução de valores e concepções de vida , muitas vezes presentes nas mensagens veiculadas pela indústria cultural. "Elas compõem o nosso universo. Negam afirmando e afirmam negando preconceitos, relações de poder, discriminações. Minha preocupação foi evitar enfocá-las tomando como base as extremidades do eixo resistência-reprodução, pois se isso ocorresse, com certeza eu estaria simplificando a realidade", pondera Heloisa.

Jornal da Unicamp