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Brasileiros revelam como é viver no Havaí e mostram suas atividades

Brasileiros revelam como é viver no Havaí e mostram suas atividades

O que dizer da batucada no Havaí? São alunos de capoeira do paulista Leonardo Naito, que vive no Havaí há 15 anos.

Bem vindos a Waikiki! Conhecida no mundo todo, a praia de Honolulu é também a mais moderna, elegante e cosmopolita do Havaí.

Com mar calmo, hotéis de luxo e inúmeras lojas de grife, Waikiki é sonho de consumo para turistas do mundo todo.

Especialmente os japoneses que estão quase à mesma distância do arquipélago que os americanos do continente.

O que é a bandeira do Brasil está fazendo na areia da praia? A canga foi comprada no Brasil, mas os amigos Maitê e Enos são espanhóis.

E o que dizer, então, da batucada? Agora sim estamos falando português. Mas, entre tantos brasileiros, tem americano no samba.

São alunos de capoeira do paulista Leonardo Naito, que vive no Havaí há 15 anos. Todo fim de semana, chova ou faça sol, o grupo se reúne para treinar.

Edward, o periquito, começou a fazer capoeira a convite de um amigo. Shalina buscava uma atividade para aliviar o estresse das provas da faculdade. Os dois se apaixonaram. E não foi só pela capoeira. Durante os treinos, o casal se reveza para cuidar do filhinho de 11 meses.

Hoje, Leonardo está casado com Patrícia, que nasceu nas Filipinas. E quem vê não imagina. Uma das maiores dificuldades que ela teve na capoeira foi vencer a timidez.

Para Leonardo, mais do que deixar os alunos em forma, a capoeira serve para ensinar um novo estilo de vida.

Uma vez por semana, a rádio estatal do Havaí abre espaço para a música popular brasileira.

Apesar do jeitão e do português perfeito, Sandy não é brasileira. É havaiana. A paixão pelo Brasil começou na infância quando ela ouviu pela primeira vez a música garota de Ipanema.

Depois da faculdade, Sandy foi adiante. Morou três anos no Brasil, quando se casou com o ritmista Carlinhos Pandeiro de Ouro e chegou a cantar nas noites do Rio de Janeiro.

Sandy retornou aos Estados Unidos e não voltou mais a pisar em solo brasileiro. Mas nunca mais perdeu os laços com o Brasil e a paixão pela nossa cultura.

 

Fonte: http://g1.globo.com/

Apresentação de jovens para Bush teve capoeira e música brasileira

São Paulo – Uma apresentação de CAPOEIRA E SAMBA, feita por uma organização não-governamental (ONG) para crianças e jovens na zona sul de São Paulo, foi o último programa da segunda visita oficial ao Brasil do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. O presidente e a primeira-dama, Laura Bush, estavam acompanhados da secretária de Estado, Condoleezza Rice.

Mostrando-se descontraído desde a sua chegada, Bush aproveitou o final da apresentação na ONG Meninos do Morumbi para tirar o paletó, tocar ganzá e dar uma sambadinha ao som de "Aquarela do Brasil". Condoleezza Rice e Laura Bush também ensaiaram movimentos de dança. A ONG foi criada há dez anos pelo músico Flávio Pimenta. A entidade oferece atividades suplementares para crianças, adolescentes e jovens de poucos recursos, que estudem em escolas públicas. Ela oferece aulas de inglês e informática, música e dança, entre outras.
 
A visita de Bush começou por uma das salas de informática, na qual 20 jovens esperavam o casal presidencial, cada um em um computador. O presidente conversou com vários alunos, querendo saber o que estavam fazendo, sua idade e preferências. Laura Bush também conheceu toda a sala conversando com os estudantes. O aluno Silas Alves Marinho Batista, 16 anos, mostrou a Bush a letra em inglês de "Wave," de Tom Jobim. Tatiane Pedreira, também 16 anos, exibiu ao presidente uma pequena fotomontagem com textos falando da poluição e do aquecimento global. Em outra apresentação, com uma gravação de trabalho da instituição, as garotas acabaram por dançar na sala. Bush convidou todos os jovens a posar com ele para uma foto.
 
A seguir foi realizado um encontro reservado numa sala do andar superior do edíficio, numa mesa de reuniões, na qual o presidente norte-americano pode se inteirar dos trabalhos da instituição. Além de Bush, participaram da mesa o fundador da organização, Flávio Sampaio, colaboradores da igreja e de empresas, além de membros do corpo diplomático norte-americano, como o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Clifford M. Sobel, e integrantes da Câmara Americana de Comércio.
 
A imprensa foi convidada a acompanhar apenas os primeiros dez minutos, em que falaram Bush, o fundador e uma das ex-alunas da instituição, agora formada em curso superior. “Eu acredito na construção de uma sociedade alicerçada na compaixão. E creio que você pode mudar a sociedade, um coração de cada vez. Isso requer pessoas que desejam fazer sacrifícios. Flávio conduz um lugar de amor e grande compaixão. Isso é um lugar no tecido social que ajuda a curar corações alquebrantados e dar esperança para o futuro. A razão principal de eu estar aqui é dizer muito obrigado. Nós somos todos membros da família de Deus”, disse Bush.
 
Foto: Marcello Casal Jr/ABrElogiando o trabalho da instituição, Bush disse que “é um prédio muito bonito, para um espírito muito bonito”. No pátio de apresentação, também em um andar superior do prédio, Bush viu primeiro uma apresentação rápida de capoeira e, a seguir, a canção "Brasil Pandeiro", dos Novos Baianos, com os versos de “O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada”, escolhida de propósito por Flávio Pimenta.
 
Em "Aquarela do Brasil", de Ari Barroso, a gravação da música foi acentuada por uma forte batucada, com a percussão dividida entre jovens e crianças do ensino básico. O grupo ainda tocou outros ritmos brasileiros como maxixe e baião. Bush deixou a ONG com forte esquema de segurança e seguir para Guarulhos, de onde partiu para o Uruguai. 

Capoeiragem e Capoeiras

Capoeiragem e Capoeiras: "Um artigo valioso para todo e qualquer mestre-pesquisador" – Miltinho Astronaulta
 
Crônica publicada na Revista Criminal (1929, Rio), enviada à Redação do Jornal do Capoeira (www.capoeira.jex.com.br), em formato original, por Mestre André Luiz Lacé.

Nota:
Esta cronica foi publicada em sua integra no Jornal do Capoeira (www.capoeira.jex.com.br), com excelentes comentários do editor do jornal, Miltinho Astronaulta. Vale a pena conhecer e se deliciar com esta pérola da nossa literatura clássica.
Neste sentido o Jornal do Capoeira vem fazendo um trabalho ímpar… onde procura mesclar as informações, as notícias, os eventos e tudo que esta ligado direta ou indiretamente ao universo da capoeira… Resgatando material fundamental para alimentar e fomentar a nossa cultura e a nossa curiosidade…
Uma atenção especial deve ser dada a coluna: Literatura Clássica, mantida pelo Jornal do Capoeira, principalmente pelo seu valor histórico, cultural e raro…
Temos a certeza de que a fórmula do sucesso do Jornal do Capoeira é o trabalho, feito em equipe, por sinal um  excelente time de colaboradores…
 
Nosso site mesmo que informalmente tambem se sente orgulhoso… pois tem Miltinho e o Jornal do Capoeira como "Parceiros…. Amigos"
 
É este nosso jogo… é jogo de camamaradas… em prol da capoeira.
Luciano Milani.

"Capoeiragem e Capoeiras"
por Paulo Várzea (jornalista e capoeira)
 
            Madrid tem o chulo; Buenos Aires, o compadron; Lisboa, o fadista, e o Rio de Janeiro, o capoeira. Nas varias modalidades da sua ligeireza e destreza physica, a capoeira sobrecede os seus rivaes. É um acrobata prodigioso. Salta, desarticula-se todo para passar um tombo, para metter a cabeça. E faz isso de repente, sem alarde, na surdina. Dois, três, quatro golpes seus, simultâneos, continuados, embaraçaram, confundem, atordoam e dominam o adversário.
            Inimigo leal, jamais ataca pelas costas. É um sujeito valente. Alcunhado, também, de capadócio, malandro, bam-bam-bam, o capoeira, como o próprio nome está dizendo, vem das capoeiras ao tempo colonial. E não foi apenas o vadio, o molequete desertor das casernas, o escravo evadido das fazendas, foi também o jornalista, o deputado, o engenheiro e o general. São famosas as scenas de capoeiragem jogadas outróra no Rio, no antigo Café Londres, de madrugada, entre literatos, deputados e militares.
            Naquelle tempo, na terra carioca, a capoeiragem era uma instituição devidamente organizada em partidos: os guyamús, os nagôas, flor da gente, franciscanos, luzitanos, conceição da marinha, conceição da glória, boccas-rasgadas, natividades, monduros, caxinguelês etc.
            Estes partidos travavam diariamente, nas ruas, terríveis conflictos e, porque constituís-
sem sério perigo para a segurança pública, foram depois energicamente combatidos por um próprio capoeira, o Dr. Sampaio Ferraz, ex-chefe de polícia. Diminuídos nas suas proporções, os capoeiras hoje são quase raros e já não mais dão a conhecer pelos grupos, mas isoladamente, pelo próprio nome de baptismo. A terra natal, os bairros, o mulherio, o defeito phisico e moral passaram a influir na celebridade do malandro moderno: "Cardosinho da Saúde", "Hespanholito", "Canella de Vidro", "Galleguinho", "Cabeleireira", "Mulatinho deo Catete", "Camisa Pretas", "Treme-Treme", "Carvoeiro", "Cabo-Verde", "Bonitinho do Castello" e "Paulo da Zazá".
 
O capoeira moderno, como o antigo, não tem occupação. Faz das suas habilidades, da sua disposição o mesmo que faziam os espadachins do século XVII. Consummado acrobata, põe suas façanhas a serviço dos magnatas, dos políticos, do bicheiros e, especialmente, dos donos das tavolagens, desde os clubs elegantes até as batotas sórdidas, desde os cabarés até os ranchos. Na guarda de um desses antros elle é um leão, leão de chácara. Joga ahi, a vida num desprendimento de louco e termina, invariavelmente, numa explosão de tragedia. Há que mostrar as qualidades… "Ou subo ou desço", diz referindo-se a ir para a cadeia (subir) ou morrer (descer).
 
 
Os malandros de facto são ciosos da fama. Considera, a guarda de uma espelunca como um compromisso de vida ou de morte. Não querem ficar com o prestigio abalado, a cara suja… Erradamente, fazemos a idéia de que o malandro é um bandido. Entretanto, elle não é assim tão execrável. Há que o conhecer, para vel-o como é expansivo, maneiroso, sympathico… Quando é inimigo, é cruel; quando vai visital-o e leva-lhe notícias e presentes: o crivo (cigarro), cabello (fumo), papagaio (jornal), tendo antes o cuidado de baratinar o hafra (o guarda) da galeria.
 
Mas, com a mesma mão com que pratica taes generosidades, elle tira uma vida. E, com a mesma habilidade com eu faz essas coisas, tange o violão, o cavaquinho, o berimbao «grifo do Editor». Aquellas modinhas que às vezes ouvimos da cama, cantadas na rua, dormecida e deserta são delle, o poeta seresteiro que recolhe à casa.
O malandro é também um bohemio. E não é capaz de delinqüir de outro modo que não seja com a sua arte. Da capoeiragem, só della, desfruta o provento com que mantém o dandysmo exótico em que vive. Já viram a indumentária de um malandro? É curiosa: chapéo de panno ou de palha cahido sobre os olhos ou atirado par traz, sobre a nuca; na falta do colarrinho, um lenço no pescoço, à guiza de gravata; paletó folgado; calças largas, bocca de sino, bombachas ou balão, cahidad dobre os sapatos de pelica de bico fino com salto apionado ou de carrapeta; prendendo as calças à cintura, um cinto com fivelas complicadas, escondendo a sardinha ou o páo de fogo…
 
Assim vestido, o malandro está frajóla, tem a dica, a herva, a grana, o dinheiro… Mal vestido, está de tanga, a nenhum, teso, limpo… Aos domingos, o malandro dedica-se de corpo e alma á sua brincadeira predilecta – a batucada ou samba.
 
Batucada ou samba é um mixto de divertimento e escola, escola de malandragem improvisada nos terenos baldios, nos recantos longíquos da cidade. Ahi, abrigados da polícia, os malandros romam a roda e iniciam o samba. O ritual é um sapateado marcado pelo batido dos pandeiros, pelo sacolejar dos chocalhos e pelo Coro dos sambistas, cantando o amor e a morte… Nos sambas, também entram mulheres. Puxar o samba é jogar em verso a deixa a um dos pareiros da roda:
 
Por exemplo:
"Sou Arthur de Catumby
Vou tirar uma pequena
Contando daqui p`r`ali
Ella faz uma dezena…"
 
O Coro rompe:
 
"Contando daqui p`r`ali
Ella faz uma dezena…"
 
O puxador corre a roda, trocando passes complicados, fazendo letras, presepadas. De repente pára deante de um parceiro. Finge que vae dar um tombo no companheiro e dá uma umbigada. Esta ceremonia chama-se tirar… É um preceito e um desafio, pelo que cumpre ao desafiado ir substituir no centro, o desafiante. Se o desafiado é mulher, sahe batendo com o salto das chinellas no chão, cadenciadamente, rebolando os quadris, sacolejando os braços num retinir de pulseiras até defrontar um oturo parceiro, a quem repete o preceito e canta:
 
"Sou Zazá de Deodoro
Sambista do tenpo antigo
Derrubei o Theodoro
E agora vou comtigo…"
 
O desafiado entra para a roda e vae reproduzir o ´receito adeante, improvisando:
 
"Já vi muié, é das pouca,
Prepara muito cozido
Já vi muié bate boca
Mas dá in home? Duvido…"
 
E assim, todos os sambeiros, cada um por sua vez, passam pelo centro. Tal é o samba.
 
Mas a batucada é differente. Nella não entram mulheres. Tomam parte somente homens. Os mesmos instrumentos e mais o atabaque; o mesmo modo de sapatear, igual característica. Apenas os batuqueiros ficam em posição de sentido, pés juntos, com a máxima attenção nos movimentos do puxador, cujos golpes são jogados de surpresa para derrubar…
 
"O batuque é da arrelia
Na Saúde e na Gambôa
Masda Favella á Alegria
É dansa de gente atôa…"
 
O côro repete:
 
"Mas da Favella á Alegria
É dansa de gente atôa…"
 
O puxador, mal soa o ultimo verso do côro, manda o golpe> tesoura, rapa, banda, bahú, bahiana, abeçada, susto, cama, bengala, fedegoso, chulipa, rabo de arraia, tombo de lafeira etc. O parceiro que sahiu fora canta:
"Gosto mais da Babylonia,
Topo ambém a Mangueira
Mas nas falas da Colônia,
Eu prefiro a Geladeira…"
 
Todavia, a batucada mais importante é a batucada braba ou surda, ora marcada pelo coro, ora pelas pernas. Ás pernas compete falar pelo individuo, dizer das suas habilitações. Mas, para entrar nessa batucada há que ser malandro de facto e não de informações. Sendo uma reunião onde é posta em jogo a competência do reguez, a ella de ordinário, só acode a malandragem pesada que, por direitos de conquista, representa o prestígio, a força dos diversos reductos da cidade.
            Na batucada surda quando um acompanhamento fala, o outro fica mudo. Quando o côro cala, falam as pernas. As pernas dizem, pelo puxador, o verso e jogam também a deixa… E quando falam as pernas, os olhos se accendem em lampejos de laminas brilhantes para espreitar os movimentos do puxador que ameaça. É a hora das comidas…da onça beber água:
          
–                          Toma, séo Abóbora…
–                          Repete, séo Chandas…
 
            Três, quatro, cinco golpes consecutivos riscam o ar, provocando um arrepio nas espinhas. Afinal um corpo vacila e tomba. Então o coro que está alerta, abafa a queda, cantando a meia voz, ironicamente:
 
            "Boléa,
Boléador…
Boléa…"
 
            No ardor da dansa, os batuqueiros chegam a cheirar a sangue… De mistura com o suor dos corpos offegantes, o bafio quente da cachaça, chamada de capote, quando chove, e de ventarola, quando está calor. E a visão é a de uma scena de pantomina numa paisagem pobre, a meio de uma ruela deserta, com rancho em ruína e lampeões bruxulentos, á cuja claridade da vida os batuqueiros se agitam, cabriolam, rasteja nervosos e espectraes como si fossem fantoches que dansassem e arfassem… E a música rouca, monótona, lúgubre, reboa lá no alto do morro, emquanto cá debaixo a cidade dorme sob o levario de outro das luzes. Neses reductos, a essas horas, a polícia não vae…
E quando apparece, vê apenas para recolher cadáveres com que a farandula da morte costuma saudal-as pelas manhãs…
 
            A Penha, D. Clara, Madureira, Deodoro, Parada Cordeiro foram redctos trdicionaes de sambas e batucadas. Mas hoje os sítios maisecolhidos para essas dansas são os morros: Capão, da Mangueira, Pendura-Saia, Urubu, Salgueiro, Kerozene, Conceição, Mundo-Novo,Paraíso, Favella, Pinto e as estações de Merety e Braz de Pinna.
 
–                          Porque são zonas próprias para o pessoal pyrá…
–                          Isso é verdade…
 
Éramos dois querecordavamos o tempo da coroa sentados áquella mesa. Á porta do café, sujeitos estrnahos divagavam sobre coisas estranhas… Após molhar a palavra, o parceiro proseguiu:
 
–                     Sambistas, batuqueiros de verdade conheci ´pucos e esses poucos foram Apollonio, Bamba, Cento eOnze, Cleto, Albino, Jacaré, Zé Maria, Camaleão, Sahara, Branda, Catita, Espada, Nua, Beatriz, Reúna, Careca, Emerentina e Violeta.
 
Nisto, interrompendo a conversa, approximou-se um mulatinho despachado, que falou:
 
–                          Olá, compadre !
 
O parceiro resmungou:
–                          Olá, mano !
 
Mas o mulato estava com toda a corda e puxou conversa…
 
–                          Quando deixaste Petrópolis?
–                     Menino, eu nunca estive em Petrópolis. Estive, sim, em Therezópolis, no convento. De uma feita tirando 15; da outra 12 (e espalmou as mãos para melhor enumerar s sentenças). Como, vês, não fui lá para sujar no cubo… não sou malandro barato… (E dardejando o olhar em redor, um olhar perscrutador, revelou cautelosamente, como se fosse contar um segredo): Despachei dois. Mas a vaga lá está a sua espera…
–                          Passo. Si a quizesse, tinha ido occupal-a hoje mesmo.
–                          Cachorro quente?
–                          Figuração…
–                          Na boa?
–                          Na boa. Mas tu sabes… eu sou de circo… Fiz a viagem… o besta metteu os peitos… Foi a conta… Caberei elle…
–                          Brucutu…
–                          Chão…
–                          Knock-put?
–                          Não.. o bruto trasteou… Eu lhe disse: "Vem que eu te recebo!" Mas o cabra pediu hábeas, fez meio-dia…
–                          Foi na batata!
–                          Ah! Commigo não tem bandeira… E está ahi como estive vae não vae…
–                          O diabo tenta a gente, Pinga…
–                          Se tenta…
–                          Sempre levando vantagem…
–                          Qual ´o meu? Bem, vou roda… Boas festas…
–                          Já? Mulato presença.
–                          Já, negro frajola.
E o mulato partiu gingando.
–                          Oh! Balão – exclamei.
–                          Conhece-o? – inquiriu o parceiro.
–                          De vista.
–                          É o Pinga-fogo…
–                     Esse é malandro moderno, da turma do Atônico Branco, Joazinho da Lapa, Leão, Broa, Cirineu, Antonico, Ferreira, Petit… gente que se estraçalhou nos entreveros dos clubes.
–                     Mesmo porque os veteranos já se foram na sua quase totalidade: João Ferreira, Prata-Preta, João Grande, Hespanholito, Galleguinho, Carlito, Cardozinho, Zé do Senado, Três Tempos, Braço de Ouro, Bonzão, Satyro, Manoel do Friso, Arthur Mulatinho, Massa-Bruta, Gato Brito, Manduca da Praia, Camisa Preta, Alfredo Bexiga, Leão da Noite, Antonico, Zé Moço, Quitute, Camisa do Paraíso, Zuzú, Mello, Cambuca…
–                          E dessa geração quaes são os que sobrevivem?
–                     Poucos: Gallo, Arthur da Conceição, Cabo Verde, Vacca Brava, Getúlio, Geraldo, Januário, Leopoldo, Guerreiro, Russo da Pirajá, Bonitinho do Castello, Marinheiro, Quincas e Mette-Braço.
–                     Logo essa fúria de destruição entre os malandros é coisa velha e continua mesmo depois que a Polícia passou a perseguir as maltas, essas lutas diminuíram. Mas, quando chegava a época do Carnaval, ellas voltavam a recrudescer.
–                          O Carnaval era um pretexto par o grito de guerra…
–                     Era. As maltas, para passarem despercebidas da polícia, sahiam á rua disfarçadas em cordões. Á frente, mascaradas de caboclos, de reis, derainhas, de velhos, de caveiras, de diabos, iam os chefes, emquanto atrás seguia o corpo da matula empunhando archotes e estandartes dos quaes ressaltavam estes dísticos ameaçadores: Teimosos de São Christovão, Filhos da Machadinha, Destemidos de Catumby, Heroes das Chamas, Invencíveis do Cattete, Dragões do Mar, Triumpho de Botafogo, Couraceiros do Inferno, Estrella da Concordia, Heróes Brasileiros…
–                          E com isso as maltas voltavam a luctar nas ruas, ás barbas da polícia…          
–                          Voltavam.
–                          É assim, muito malandro embarcou…
–                          Muito. Mas hoje não dá mais disso…
–                          A capoeiragem está cahindo…
–                          Qual nada… Em decadência estão os aficccionados…
–                          Achas, então que a capoeiragem é ionvencível?
–                          Sem dúvida…
–                          Mas se já não existem mais capoeiras…
–                          Existem. Mas esses não se prestam a exhibições públicas. O capoeira de facto não se mostra.
–                          É opprtunista…
–                          Justo. E por isso mesmo é que elle diz, e com acerto: Na hora é que se vê. Capoeira de exhibição só os do tempo da mandninga.
–                          E onde ficam os que hoje se exhibem no circos?
–                          Truta…
–                          Tapeação?
–                          Justo…
–                          Tens razão, compadre…
–                          Razão e memória…
–                          E terás baos pernas como tens boa memória?
–                          Só vendo…
–                          Achote-se velho…
–                     Qual velho. Velhos são os trapos… Tenho 62, mas sinto-me tão leve quanto uma pluma. Eu não desminto as qualidades, não nego o nome… Sou o mesmo "Bode" do passado que pulva, que dava marradas… Formei na malta dos guaymús, fui malandro e até hoje não vi piaba que me tocasse, perna que me derrubasse. E si tomei este risco que me deu um guardião de bordo (e mostrou a faze esquerda, onde lhe vi um tremendo gilvaz que ia das pálpebras ao pavilhão da orelha) foi porque estava dormindo… Naquelle tempo, quando havia rolo em terra, a bordo logo diziam: "Isto foi o Bode ou o Apollonio que se espalharam em terra!…" Justamente dali a instantes um de nós dois arribava a bordo escoltado e tendo sob um dos braços um feixe de facões que tomávamos aos "meganhas"…
–                          E hoje serias capaz de repetir a dose, de solta a cachorra?
–                     Deus me livre… Trinta annos de cadeia, na cubata, de sobrado, no convento, transformam os homens. Hoje tenho pavor aos rolos. Só de ouvir o griullo (apito) do cardeal (soldado) eu me aflijo, tremo e soffro…
–                          É o pavor da jaula…
–                          Justo
–                          Deverás?
–                          Deveras.
–                          Mentira… – interrompeu um patusco ao lado.
 
"Bode" deitou ao chereta umolhar de quemn não gostou da patsucada. Assumptou. Por fim espirrou em tom confidencial, na surdina:
–                          Gente de D. Justa. Cuidado…
–                     Compreendi-lhe as falas. Aquelle cabra que mexera com elle era um tira entre outros tirasd. A cana estava ali, braba. Convinha sahir. Dar o fora. "Bode" não perdeu tempo. Empinou-se á guisa de despedida espirrou:
–                          Au revoir. E disponha desse negro.
–                          Para tudo? – perguntei-lhe.
–                          Para tudo.
–                          Mesmo para um gallo?
–                          Conforme… Si for gallo, 50$, estou comtigo… Quem não quer as massas?…
–                          Não, "bode", é para um gallo de briga que eu preciso de ti… Serviço de sangue…
–                          Misericórdia! Sahe azar! Commigo, não!
 
E saltou para a rua, lépido, aos pulinhos, aos corcovos, de cabeça baixa, olhos em fogo. E de repente desabalou num arranco, como si fosse mesmo um bode de verdade, preto, enorme, de duas pernas.
Estaquei na calçada, espantado, perplexo com tamanha agilidade em tamanha velhice. Por fim cheguei a conclusão de que, como o "Bode" , também eu nunca apanhei. Entrei em conflitos sérios, metti-me em batucadas brabas. De uma feita. Na Penha de Nictheroy, parti o braço de um parceiro com uma banda secca…
Pudera, eu era discípulo do mestre "Peru", aquelle malandro esguio e avermelhado que foi cocheiro de carro e que certa vez matou, com uma cabeçada certeira, precisa, um saltimbanco japonez no largo de Camtumby!
Se o "Bode" foi celebre, eu não fui menos famoso… Eu sou o …"Vagabundo",,,, um repórter.
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