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Capoeira “Enredo de Carnaval”

E. S. DEU CHUCHA NA ZEBRA – ENREDO 2011: “N’golo, a Dança da Zebra virou Capoeira?”

A E.S. DEU CHUCHA NA ZEBRA, do grupo especial do carnaval de Uruguaiana, Rio Gande do Sul, na fronteira do Brasil com a Argentina, que realiza o terceiro maior carnaval brasileiro, com vários profissionais do carnaval carioca, estará desfilando como tema o enredo: N’golo, a dança da zebra virou capoeira?
É a primeira grande homenagem ao maior “embaixador” cultural nacional feita pelo SAMBA e suas escolas e gostariamos de poder contar com a participação desse portal no projeto.

As noticias podem ser encontrados no site especializado em carnaval: www.sambasul.com , a sinopse estou enviando em anexo e ficaria honrado se pudessem nos oferecer um e-mal direto para intelocução ou MSN.
Me disponibilizo pelo e-mail e MSN [email protected] e fico no aguardo de um retorno dos senhores, certos de que iram reconhecer nossa intenção de exaltar e difundir a importancia da CAPOEIRA.
O samba enredo para esse desfile, que se realizará nos dias 24 e 26/03/2011, pode ser ouvido no video :

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Justificativa

Diante de um questionamento cultural, a DEU CHUCHA NA ZEBRA vem, no carnaval 2011, prestar homenagem a um dos mais importantes registros de grandeza nacional, a CAPOEIRA. Esta, de mãos dadas com o SAMBA e o CARNAVAL, é uma das maiores expressões de brasilidade, partindo dos nossos laços com a MÃE ÁFRICA. Evoluindo na Avenida Presidente Vargas, cantando e dançando uma das vertentes da natalidade da arte marcial do NOVO MUNDO, através do nosso samba-enredo, nossas alegorias e adereços, na fantasia que vestirá cada um de nossos componentes, levaremos o público a uma viagem desde as savanas africanas, passando pelas senzalas na escravidão, pelos portos do Rio de Janeiro, pelo Pelourinho em Salvador, até chegar à conclamação da capoeira angola como marca cultural do nosso país.

É a partir dessa importância cultural que nossa escola atravessa o tempo e vai buscar na Angola pré-colonial uma das vertentes históricas contadas para a origem da capoeira, a transformação da dança ancestral N’golo na arte marcial brasileira.
Além disso, assim como o N’golo e a Capoeira, essa história tem total identificação com a alvinegra de Uruguaiana, que tem no seu nome e em seu símbolo, exatamente a ZEBRA, que é N’golo num dos mais importantes dialetos africanos.

Sinopse do Enredo

É noite na savana africana.

Brilha a lua no céu da Ilha de Lubango para o ritual começar. Está tudo pronto na aldeia dos “Mucopes”. “Efundula”, eis a festa da puberdade, hoje é dia de menina virar mulher. Vamos beber e comemorar, que a dança das zebras já vai começar!
“N´golo”! Uma roda de meninos é formada e quem a luta vencer, a menina que quiser poderá escolher. A luta se inicia! Coices e cabeçadas, golpes singulares aos movimentos das zebras, são aplicados no adversário. O verdadeiro guerreiro triunfará, podendo assim, o coração de sua virgem preferida, conquistar.

Um dia, porém, o povo africano vê a sua vida mudar. Por volta de 1484, os portugueses se instalam na região e, já em 1559, unem os reinos de Matamba e Ndongo para a fundação do Reino de Angola. Exploradores caçam recursos, e encontram o bem mais valioso da Mãe África, seus negros filhos.
A partir de então, os africanos foram escravizados e trazidos para o solo brasileiro por navios que rasgavam mares de incertezas. Traziam em seu peito as festas, tradições, rituais e religiões, buscando adaptá-los da melhor maneira possível à realidade a qual estavam vivendo.
Portanto, trouxeram também para o Brasil resquícios do N´gobo, o qual passou a utilizar como uma forma de defesa à escravidão. A dança das zebras se transforma! É luta pela honra e pela dignidade do negro sangue africano! Era preciso saber se defender, tanto na chegada aos portos de Salvador e do Rio de Janeiro, quanto nas plantações e engenhos de açúcar.

A prática das manifestações culturais dos negros africanos estava sofrendo diversas imposições dos senhores de engenho, o que os levou a buscar um espaço mais escondido para a prática do N´golo e outras danças. Buscaram inspiração na herança deixada pelos índios, os quais possuíam uma técnica agrícola chamada de Kapu’era, que significava cortar bem baixo o mato para uma próxima plantação, “mato que foi e nasce de novo”, em Tupi. Os africanos, então, elegeram a área da Kapu’era para a realização do N´golo.

A partir dessa mistura, da cultura indígena com uma manifestação africana, surge a Capoeira, a arte marcial brasileira.
Essa história só pôde ser conhecida através do encontro no Pelourinho entre Mestre Pastinha, um dos mais famosos capoeiristas de Salvador, com um pintor de Angola, Neves e Souza. Este afirmava a existência de uma dança semelhante à capoeira na África, explicando toda essa história que fora contada. O encontro, porém, não obteve a repercussão esperada por Mestre Pastinha, já que, com seu falecimento, não conseguira deixar registros da história N´golo da Capoeira Angola.
Entretanto, o pintor transfere seus conhecimentos para Câmara Cascudo, pai do folclore brasileiro, que passou a divulgar em seus livros a, até então desconhecida no Brasil, teoria da influência do N´golo na capoeira.

Os esforços de Mestre Pastinha, do pintor Neves e Souza e do folclorista Câmara Cascudo não foram em vão. Já a partir da década de 80, há um crescimento dos capoeiristas “angoleiros”, que elegiam a dança da zebra o seu estilo, reafirmando a força ancestral angolana.
As listras das zebras conquistam o país, e o mundo passa a ver a Capoeira Angola como uma marca cultural de nossa nação.
Então, venha com a Deu Chucha na Zebra aplaudir a união Brasil e Angola na celebração da cultura afro-brasileira.
Para festejar, entre nessa roda! Toque o atabaque e o berimbau!

É N’golo! É a Capoeira Angola!
É a Dança da Zebra!

Autoria: Walter Nicolau
Texto e Desenvolvimento: Walter Nicolau e Gabriel Haddad

Setorização do Enredo

Abertura – “N´golo”! A Dança das Zebras
2º Setor – De Angola ao Brasil
3º Setor – E a mistura deu…Capoeira!
4º Setor – Capoeira Angola, marca cultural brasileira.

Referências Bibliográficas

  • www.angolangolo.com/textos/texto_01.htm
  • http://www.cordaodeourokino.com.br/ngolo.html
  • http://www.enciclopedia.com.pt/articles.php?article_id=1218
  • http://www.girafamania.com.br/africano/materia_angola.html
  • http://www.portalcapoeira.com
  • http://www.rabodearraia.com/capoeira/textos-artigos-capoeira/n-golo-ou-danca-da-zebra.html
  • http://www.suapesquisa.com/educacaoesportes/historia_da_capoeira.htm

A mão que afaga é a mesma que apedreja – Ascensão e decadência do trio elétrico

Fim do século XIX, a Bahia testemunha uma mudança de costumes na sua maior festa popular. Estou me referindo ao nascimento do carnaval e à morte do entrudo. Se o preconceito e a segregação social além da violência física eram as notas destoantes desta manifestação de origem portuguesa, o carnaval recebe este dote como herança e até intensifica o seu caráter hierarquizado concebendo, porém, novos paradigmas lúdicos, estéticos e capitalistas. No entrudo, negros “brincavam” ao lado de brancos, e estes podiam atingi-los com as famosas laranjinhas, farinhas, água fétida e toda a sorte de armas podres, enquanto aqueles só poderiam fazê-lo entre si. Já no carnaval do início do século XX, a “inconveniente” presença dos afrodescendentes e pobres foi alijada do nobre circuito do corso, (onde o préstito trazia a “nata” da sociedade baiana em suntuosos desfiles), e nem sequer imaginada nos seletivos bailes dos salões do Teatro São João, Teatro Politeama, Cruz Vermelha e Fantoches da Euterpe. Formaram-se (a exemplo de hoje) dois circuitos distintos no carnaval de Salvador.

Na Rua do Palácio (hoje Chile) acontecia bem comportado o desfile eurocêntrico dos citados clubes e na Baixa de Sapateiros a farra de entidades negras como Guerreiros d´África, Embaixada Africana, Pândegos d´África, evocando e reverenciando suas origens. Dentro deste contexto é que surge em 1950 um elemento que vem promover uma mudança radical na forma de se brincar o carnaval: o trio elétrico. Fruto da musicalidade baiana vindo através da genialidade inventiva da dupla Dodô e Osmar, ele é concebido no início da década de 50. Esta genial criação mais tarde viria a se tornar a marca registrada do carnaval de Salvador, e modificaria por completo e para sempre a estrutura da folia. Sem pedir licença, de forma irreverente e tendo um forte compromisso com a alegria, a dupla Dodô e Osmar à revelia de tudo e todos destrói o “status quo” vigente e decreta a democracia no carnaval através da participação coletiva simultânea onde negros e brancos, ricos e pobres tinham algo em comum: pulavam atrás do trio.

Como bem colocado pelos seus próprios criadores referindo-se à multidão que o acompanha, “pula gente bem, pula pau-de-arara, pula até criança, e velho babaquara” ou mais sinteticamente como Caetano “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Este caráter libertário e unificador lhe confere a primazia de efetivamente ter uma atitude conseqüente contra o preconceito e a segregação social e racial no nosso carnaval ainda que não de forma intencional, pois, o único objetivo dos seus criadores era o entretenimento pessoal e a diversão da massa.

A preferência por essa nova forma de se brincar no outrora plural carnaval de Salvador veio se acentuando a partir da década de 50 atropelando tudo e todos que não se rendessem aos seus acordes contagiantes. Entidades carnavalescas como Escolas de Samba, Blocos de Índio, Afoxés, Cordões e Batucadas foram gradativamente se não extintas, quase desaparecidas. Sua atuação quase hegemônica, monopolizando a preferência e atenção popular e divulgando nacionalmente o carnaval de Salvador, veio em fins da década de 70 e início de 80, aprisioná-lo nas cordas dos blocos que já vislumbravam o seu poder como elemento facilitador de apropriação de capital. Estes, em seu favor, abdicaram no tradicional sopro e percussão, iniciando um processo no qual o trio passaria a ser uma propriedade particular, reconduzindo às ruas uma hierarquia social, econômica e racial perdida no tempo, contribuindo sobremaneira para a atual privatização desregrada do espaço público. O trio libertário, servo e promotor do prazer, passou a ser refém da sua própria alegria e reescreveu a história dividindo de novo os foliões que outrora ele juntou num caldeirão de euforia, em associados e pipocas, pobres e ricos, negros e brancos. Virou passarinho cantando na gaiola para quem poder pagar mais.

Dentro desta lógica capitalista, os antigos grilhões por ele arrebentados na década de 50 são, por seu intermédio, recolocados no povo. O trio ocupou o lugar de agente da discriminação, da segregação e do preconceito a serviço das elites econômicas e seus “podres poderes” legalmente constituídos. Perde o significado a assertiva de Moraes Moreira, quando este diz em uma das suas composições em comemoração aos 25 anos do trio, se referindo ao nosso carnaval “É o lugar do mundo inteiro que se brinca sem dinheiro, basta só existir e na vida passar um Trio Elétrico de Dodô e Osmar”. A cor da pele, a posição social, endereço nobre (ou pobre) voltaram a fazer diferença. A alegria do trio agora tem preço (caro) e nome: Eva, Cheiro de Amor, Camaleão… Ele que antes era do povo, para o povo e pelo povo, hoje é classificado como “de bloco” e “independente”. Independente… Porreta essa!!! É de fazer Dodô e Osmar se arrepiarem e revirarem no túmulo.

Início do século XXI, o “agente da alegria”, refém (sem direito a resgate) do poder econômico, massifica uma padronização estética que empobrece e privatiza a festa e sufoca, ou melhor, aniquila a criatividade popular. Esta padronização é responsável pelo que o Profº Joaquim Maurício Cedraz Nery chama de militarização do carnaval, que se caracteriza pela presença do uniforme (abadá), da quase uniformidade do ritmo (axé, pagode), das evoluções coreografadas no percurso, da posição na fila e revezamento do comando (mesmos “cantores” atuando em todos os “regimentos”, digo, blocos). Este novo modelo de carnaval tem no turismo seu mais recente e rentável filão econômico, um promissor caminho para a sua esclerose e autofagia.

Pois é leitores, o paraibano Augusto dos Anjos (chamado o poeta do mau gosto) está coberto de razão quando diz: “O beijo, amigo, é a véspera do escarro, a mão que afaga é a mesma que apedreja”. Está aí o trio elétrico que não lhe deixa mentir… Já se disse que o mundo dá voltas, que a história se repete, é cíclica etc., e nós estamos vivos para testemunhar mais uma vez o povo ser usurpado de mais um patrimônio cultural em favor da elite. Pobre folião de Salvador. Pobre carnaval da Bahia!

* O professor Acúrsio Esteves pertence ao quadro da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer de Salvador – SECULT, e também leciona na Universidade Católica do Salvador

Mande também o seu texto, foto, áudio ou vídeo sobre o Carnaval da Bahia. Pode ser para expressar sua paixão pela festa, mostrar histórias de outros anos ou indicar problemas da folia. Participe!

Acesse: http://www.atarde.com.br/carnaval/foliaoreporter/index.jsf

BLOCO DA CAPOEIRA: CARNAVAL 2010 – A CAPOEIRA E O CANGAÇO

Prezado (a) foliões,

O Bloco Afro Mangangá Capoeira, no seu terceiro ano, homenageará a Capoeira e o Cangaço.

O DESFILE:

O desfile acontecerá no dia 11/02/2010 na quinta-feira de carnaval no circuito Campo Grande a partir das 19h, sendo dividido em diversas alas e você desfilando, estará aceitando as normas e condições gerais para participar do bloco.

Alguns itens importantes para o desfile acontecer de acordo o contrato com os órgãos que fiscalizam a festa.

– O inicio do desfile dependerá da liberação da coordenação do carnaval, ficando cientificado que é comum por parte da organização do carnaval, haver atrasos;

– Não será permitida a permanência de folião que não estiver trajando a fantasia das alas ou abadas de capoeira;

É PERMITIDO:

– A utilização de adereços que remetam ao tema;

– Uso de abadá ou farda dos grupos de capoeira;

– Uso de estandartes dos grupos de capoeira e/ou culturais;

– Uso de instrumentos de capoeira;

– recomendamos às mulheres que venham com roupas típicas ao cangaço e a capoeira e que usem um legging por baixo da saio ou vestido;

ABAIXO ALGUMAS ORIENTAÇÕES MUITO IMPORTANTES PARA VOCÊ BRINCAR SEU CARNAVAL COM BASTANTE SEGURANÇA:

– Os foliões ficam cientes e autorizam previamente o Bloco da Capoeira ou a Associação Sócio-Cultural e de Capoeira Bloco Carnavalesco Afro Mangangá a exibir, por qualquer meio de comunicação ou em locais públicos, as imagens e/ou fotografias do (s) bloco e/ou Associação, inclusive a (s) suas em qualquer época mesmo não sendo no período do carnaval;

– Leve pouco dinheiro e documentos de identidade (cópia autenticada);

– Vá de calçado confortável, principalmente um que combine com o tema do Bloco;

– Evite sair do Bloco durante o percurso;

– Cuidado com os alimentos, beba bastante água, suco e de isotônicos;

– Não abuse das bebidas alcoólicas;

– Não use drogas;

– Não brigue, carnaval não combina com violência. Portanto, se alguém pisar no seu pé, se esbarrar, desconsidere e siga em frente;

– Namore e beije muito… Mais não deixe de usar a camisinha.

Bloco da Capoeira – 32569806 – 33517333 – 81269333

[email protected][email protected]

A espinha dorsal do samba

A quadra da Estácio de Sá está vestida de chita, tema do enredo deste ano. O look florido e colorido casa muito bem com o clima do evento daquela tarde: o Encontro de Galerias da Associação de Velhas Guardas de Escolas de Samba do Rio de Janeiro. São 13h e a área ainda está vazia. Os anfitriões, membros da velha guarda da Estácio, já estão por ali, devidamente uniformizados – as mulheres de vestido vermelho e chapéu branco, os homens de camisa social vermelha e calça branca. Movimento intenso só na cozinha, onde, desde o dia anterior, o almoço para cerca de 800 pessoas é preparado: arroz de carreteiro, farofa e ovo cozido, mais romeu e julieta de sobremesa.

Poucas horas depois, o espaço está totalmente tomado de personagens de cabelos brancos. Praticamente todo domingo esse ritual se repete em alguma quadra de escola de samba do estado. A exceção desta terça-feira se dá por conta do feriado de São Sebastião, padroeiro da cidade e da Estácio de Sá. A comida é por conta da casa, mas os convidados também trazem salgadinhos de reforço em tupperwares para o longo dia que vai se seguir. A venda de bebidas também fica a cargo da escola anfitriã, mas a organização da festa em si é feita em todos os detalhes pelos coordenadores da associação. Não é trabalho simples: são 72 grupos participantes, dentre escolas de todas as “divisões”, blocos tradicionais e grupos carnavalescos.

Na associação, que completou 25 anos em 2008, não existe divisão por nota, tradição ou gênero musical. Os associados são a parcela das comunidades que tem mais experiência de vida. Não à toa, as atividades vão além do binômio samba & carnaval. Há palestras sobre doenças geriátricas, bingo, obras… a programação é intensa.

Ali, classificar a turma como da “melhor idade” não é só apelar para o linguajar politicamente correto de hoje. A julgar pela disposição dos senhores e senhoras que começam a chegar para o encontro de galerias elegantérrimos dentro de seus uniformes, se aquela não é a fase mais animada de suas vidas, provavelmente não deixa a dever aos tempos de mocidade. As mesas enormes reservadas a cada agremiação vão sendo ocupadas e o povo trata de comer e beber antes de a cerimônia começar.

E, claro, de se cumprimentar – todos se conhecem, se festejam, independente da escola que defendam.

Não sou a única “forasteira” por ali. A festa é aberta, mas reservada. É gratuita e sem controle na porta, mas é nítido que todos sabem quem é quem. Estou acompanhada de um grupo que se autointitula Guardiões da Memória e é composto por alunos e professores do Colégio Estadual Professor Sousa de Silveira, em Quintino, e do Programa de Reflexões e Debates para a Consciência Negra. Há anos eles frequentam a festa para registrá-la em um documentário. As dificuldades para o filme sair não são poucas, mas ele está ficando pronto e deve ser lançado no dia 17 de fevereiro, às vésperas do carnaval, no Sesc-Madureira. Independente disso, vê-se de cara que todos estão ali por prazer, totalmente integrados à festa e a seus personagens.

Enquanto os grupos vão chegando, com algum atraso por conta da procissão de São Sebastião que se espalha pelas ruas próximas, George, Renata, Albérico e Daiana, da equipe do filme, se organizam para registrar o que falta e me ajudar a produzir imagens para este texto. Em busca de entrevistas junto com Cristiane e Rosana, da equipe de pesquisa, ouço de um senhor da Velha Guarda da Estácio: “Aqui tem hierarquia, é um sistema presidencialista! Podemos falar, mas é sempre bom ouvir o presidente antes”. Se referia ao presidente da associação, que ainda não tinha chegado. Fomos então entrevistar a integrante mais velha do grupo da escola, Waldice Rodrigues de Souza. Ela foi a primeira a falar de algo que se tornaria recorrente nas entrevistas seguintes: a longa história dentro da escola. No caso, dos 72 anos daquela senhora, já eram 61 de Estácio de Sá. “Tinha 11 anos quando saí de baiana pela primeira vez. Naquele tempo diziam que só criança batizada podia sair. Aí minha avó resolveu a questão: me batizou no sábado de carnaval e eu desfilei no domingo”. E ainda dizem que carnaval é uma festa profana…

Tentando descrever a cerimônia indescritível

No carnaval das velhas guardas, a fé tem lugar de destaque. A cerimônia começa com os anfitriões de mãos dadas rezando Ave Maria. Muitas vezes, acaba com a mesma oração, entoada pela quadra inteira (não cheguei a ver isso, mas a equipe do filme falou que é de arrepiar). A reverência e o respeito seguem dando o tom. Muitos senhores e senhoras usam faixas douradas cruzadas no peito, como as de campeões do futebol, com alguma homenagem: Musa 2008, Mãe do ano, Avô do ano… O presidente da velha guarda anfitriã – no caso da Estácio, uma senhora – se posiciona na frente do palco e vai recebendo as galerias, formadas pelos componentes de cada grupo. Eles desfilam da entrada da quadra até o outro extremo. Na dianteira, a porta-bandeira “sênior” da escola. O desfile pode ser com o samba-enredo deste carnaval, o hino ou alguma canção marcante da escola.

Ao fim do percurso, a porta-bandeira cumprimenta o anfitrião e entrega a bandeira para ele colocar num porta-estandarte. É uma bela demonstração simbólica do espírito de união do grupo. Tudo é acompanhado de perto por Jorge Ferreira, coordenador de eventos da associação, que cruza a quadra trocentas vezes, dá o ritmo dos desfiles e não se furta a dar broncas aos berros quando necessário. Sem ele, dá a impressão que a coisa não funcionaria tão bem. Enquanto um grupo tem seus 20 segundos de glória, as outras galerias esperam pacientemente – àquela altura, com guarda-chuvas abertos para se protegerem do aguaceiro – na parte externa da quadra.

Há momentos emocionantes. Membros de determinadas escolas entram em silêncio, apenas andando, com o chapéu à altura do peito: sinal de que algum de seus integrantes morreu há pouco tempo. Com ou sem música, todos os participantes param no circuito para cumprimentar a alto clero da Associação, que se senta bem ao meio do caminho.

Antes de chegar ao “trono” para ser reverenciado, o presidente da Associação, Ed Miranda Rosa, de 92 anos, faz algo que há tempos não se via, por conta da idade: desfila junto com os outros membros da Mangueira. Numa elegância de dar gosto.


“Se a gente fica em casa o reumatismo ataca”

Esta frase divertida, dita às gargalhadas por Manoel Bustilho, 74 anos, resume em tom de galhofa a motivação dos senhores e senhoras presentes. Como a senhora da Estácio, ele começou na sua Vila Isabel ainda na infância e já desempenhou diversos papéis por lá. Como vários outros, veio a mim já com a apresentação completa na ponta de língua: “Tenho 74 anos, fui presidente da velha guarda da Vila por dez anos e sou diretor de patrimônio da associação. Hoje tenho um dever: ir em todas as festas”. Taí um homem que cumpre sua missão à risca.

Enquanto ele fala, várias galerias passam e têm tratamento igual, de escolas consagradas até os Filhos de Gandhi, passando por convidados especiais: os Baluartes do Estado de São Paulo. Depois da última, todas as bandeiras estão juntas na frente do palco. É a hora de as portas-bandeiras entrarem em ação novamente, pegando seus respectivos mantos e se reunindo mais uma vez no outro extremo da quadra, desta vez para entrar junto com todas as outras, como numa ala. À frente, a porta-bandeira da associação rodopia sendo cortejada por um mestre-sala que logo reconheço: é Manoel Bustilho, dando um show na pista. A trilha sonora é o hino de todas as velhas guardas, composto por Dicró:

“Sou velha guarda,
provei ao mundo inteiro que sou bamba
sou velha guarda, a espinha dorsal do samba
(…)
a velha guarda é o samba em pessoa
até minha casa já serviu de barracão
e essa juventude que começa a desfilar
será a velha guarda de amanhã”

A esta altura, a equipe do filme canta e dança tão empolgada quanto os mais velhos. A “juventude que começa a desfilar” também marca presença no programa-família – muitos filhos e netos, crianças sobretudo, sambam sem parar. Como seus avós no passado, eles já fazem parte da estrutura das escolas. Alguns vestem uniformes mirins.

Tão impressionante quanto a festa em si é o fato de que ela acontece todo domingo. Não seria nada demais, se no sábado à noite não houvesse o tradicional samba na sede da associação, na Piedade. É lá que os senhores mostram suas composições inéditas e cantam aquelas que vivem só em suas memórias. Membro da equipe do filme, Tiago de Aragão, que mora no Rio há cerca de um ano (e não é meu parente), diz: “Fui a muita roda de samba aqui no Rio, mas a da associação foi de longe a melhor”.

Quem sou eu para duvidar… Já exausta diante de tanta animação, vou concluindo que disposição não tem nada a ver com idade… Carla Lopes, coordenadora do projeto Guardiões da Memória, olha para mim solidária e diz: “É assim mesmo, em geral a gente vai embora e eles continuam nos bares em volta da quadra”. Não deu outra. Quando saí, mesmo na chuva, avistei uma turma animada, ninguém com menos de 60 anos, tomando cerveja num boteco com mesas na calçada e cantando na maior alegria.

Com aquela cena final na cabeça – que para mim ficou marcada como um dos retratos mais simples de fecilidade – parti refletindo sobre a complexidade do carnaval carioca. Sem alarde nem holofotes, aqueles senhores reforçam a cada semana o melhor espírito carnavalesco. Enquanto para muita gente as escolas de samba se resumem hoje a ostentação, contravenção e disputas milionárias, aquela festa, apenas uma das que acontecem ao longo do ano, comprova que há muita coisa bonita e genuína por trás da tradição que se mantém.

Fonte: http://www.overmundo.com.br/overblog/a-espinha-dorsal-do-samba

VII ANO DO 1° BLOCO DE CAPOEIRA DO MUNDO

BLOCO DO BERIMBAU

Carnaval em Pernambuco… Carnaval em Recife… Carnaval em Olinda…

Como nossas tradições bem pedem, estamos na folia… Folia do Rei Momo, do Galo da Madrugada, dos Quatro Cantos…!

É das velhas raízes, das bandas de músicas, dos passistas em meio ao frevo rasgado e dos nossos capoeiras que vem o Bloco do Berimbau – Primeiro Bloco de Capoeira do Mundo – fundado em maio de 2002 pelo então Mestre Ulisses Cangaia (Grupo Lua de São Jorge). Inicialmente, o Bloco tinha como objetivo principal a culminância das ações sociais do Grupo Lua de São Jorge, mas tomou uma proporção cultural significativa, quando, de sua manifestação de maior essência – a capoeira, os capoeiristas juntaram-se, outros grupos passaram a somar energias, lá estava o Bloco emancipando a nossa arte!

Mantendo uma tradição singular, o Bloco vem desfilando e anunciando a festa da capoeira, berimbaus entoando O SEU LOUVOR pelas ladeiras da Salve, Capoeira Olinda!

O bloco nasceu para fortalecer e difundir a capoeira, assim como aproximar as culturas presentes no âmbito carnavalesco. Colocando pelo 7° ano nas ruas de Olinda uma capoeira de paz, de união, de berimbaus ao alto anunciando a chegada dos capoeiras – mestres entre os foliões – sai em todo domingo de carnaval o Bloco do Berimbau… Sua concentração, na Igreja do Rosário dos Homens Pretos (em Olinda), às 9 hs, marca o início de um percurso que vem sendo histórico, que passou a incluir obrigatoriamente a agenda cultural da nossa OLINDA!

Ritmos são tocados, rodas são formadas e lá vem o estandarte anunciando: SALVE O BLOCO DO BERIMBAU…!!!!

O MESTRE ULISSES CANGAIA – MESTRE DE CAPOEIRA, MÚSICO, RABEQUEIRO E POETA – VEM TRAZENDO, JUNTAMENTE COM O BLOCO DO BERIMBAU, UM TRABALHO DE POLARIZAÇÃO DA CAPOEIRA ENQUANTO INSTRUMENTO DE CONSTRUÇÃO SOCIAL

"ESTE ANO O BLOCO DO BERIMBAU VESTE SUA CAMISA EM COMEMORAÇÃO AOS 50 ANOS DO MESTRE JUAREZ", UM GRANDE COLABORADOR DA NOSSA ARTE E UM DOS FUNDADORES DO BLOCO!

Maiores informações: Mestre Ulisses Cangaia

Contato: (081) 9165.4938 / 8701 – 2413 / 34386978

E-mail: [email protected]

Carnaval 2008: Bloco da Capoeira leva diversidade cultural para a avenida

O MESTRE TONHO MATÉRIA NO COMANDO DO BLOCO DA CAPOEIRA LEVA DIVERSIDADE CULTURAL PARA A AVENIDA

Bloco temático com participação da comunidade abriu o desfile de 2008

“Dança da malandragem, com muitos rituais. Brincadeira de movimentos com malícia. Na dança negra de pés no chão a agilidade da esquiva e a esperteza da fuga. E de repente, ante os olhos surpresos do adversário, o gesto rápido. O ataque fulminante. Então, prostrado, o inimigo se dá conta de que foi vítima da mandinga”. Isto é o que chamamos de capoeira, essa luta de resistência criada no recôncavo baiano pelos negros Bantos de Angola e que foi perseguida por muito e muito anos e hoje é tratada como patrimônio imaterial do Brasil e porque não dizer da Bahia. A capoeira foi proibida pela república e essa mesma república em uma outra estância lhe transforma em diversos pontos de cultura espalhados no país. Hoje, universidades, empresas particulares, academias, Industrias, canais de comunicação, etc. Vêem a capoeira como elemento de transformação social.

Duas semanas antes do carnaval, na cidade de Salvador, só se ouviam os burburinhos em todos os cantos, eram os amantes e praticantes de capoeira de varias partes do planeta que esperavam ansiosos para ver e participar do desfile do Bloco Afro Mangangá Capoeira, que saiu com o tema Capoeira e suas Culturas Aparentadas, sugerido pelo ex-superintendente do Forte da Capoeira Dr. Leal.

Para contar essa história e tantas outras, o Bloco Afro Mangangá Capoeira pilotado por Tonho Matéria, que vestido com um figurino nas cores azul e prata simbolizando Ogum criado pela figurinista Diana Moreira, apresentou uma diversidade cultural na avenida e contou com diversas alas. Com a parceria de grandes amigos como Negra Jhô que trouxe as alas das baianas com uma big fantasia com papel de café, orixás e dança afro com pinturas no corpo que foi coreografado por Liu Arrison (Ator do Filme Ó Pai Ó) e supervisionado pelo mestre de capoeira e dançarino Flecha, além do Dançarino e Coreógrafo Monza Calabar que touxe da Argentina uma saia de Iemanjá de 14 metros de diâmetro onde a rainha das águas salgadas representada pela coreógrafa e dançarina Marcela de Souza, deu a luz a todos os orixás na passarela.

A atriz Sue Ribeiro coordenou uma ala com terno de reis e folguedos nordestinos como maracatu, a burrinha, frevo e bumba meu boi que derão uma diversidade e um colorido maravilhoso ao bloco e ao desfile. Mestre Pelé do Tonel com sua indumentária luxuosíssima e com tanta exuberância, provou que a sua energia não tem limites quando se fala em malabarismo com seu tonel. A Companhia de Dança e Ritmos da Bahia do mestre João de Barro também brilhou ao levar uma ala de capoeira show.

Maculelê, puxada de rede, bonecos gigantes, além dos Ogans Paulo Tré, Tatá e Alex, do terreiro Ilê Axé Odê Tolá, do Samba de Chula do contra mestre Boca e das orquestras de berimbaus do Grupo de Capoeira Abolição sobre a regência do contramestre Bobô e do Pólo de Capoeira do Município de Lauro de Freitas sobre a regência dos mestres Saci, Regi, Boca e Coveiro com 200 pessoas tocando berimbau e uma banda percussiva com 70 homens ao comando do maestro Bira Jackson que veio vestido com um figurino simbolizando Exu, também criado por Diana Moreira. O Trio elétrico decorado por André Cunha foi coberto de palhas de mareô, ferramentas de Ogum, TVs de Plasma, laser e um canhão de chuva de confete na cor de prata.

O bloco desfilou na quinta-feira, às 20h, no Circuito Campo Grande, fazendo uma homenagem ao lendário Besouro Mangangá, ou Manoel Henrique Pereira, soldado do Exército nascido no século XIX, em Santo Amaro da Purificação, e capoeirista conhecido que, segundo a lenda, tinha poderes sobrenaturais. Na passagem do bloco no corredor da folia, o Governador da Bahia Jaques Wagner, o Secretário da Cultura Marcio Meirelles, o Secretário do Turismo Domingos Leonelli, o Coordenador do Turismo Étnico Billy Arquimimo, a Vereadora Olívia Santana, o Subsecretário para Assuntos de Descentralização Regional Ailton Ferreira, a Coordenadora de Articulação Institucional Ubiraci Matildes, a Prefeita de Lauro de Freitas Moema Gramacho, o empresário Mario Nelson e Edson da União. Todos, acompanhados do Rei Momo Clarindo Silva e da musa do carnaval não resistiram e caíram na folia. No dia 2 de fevereiro no carnaval para Iemanjá, o bloco promoveu um belíssimo arrastão junto com Carlinhos Brown e o Cortejo Afro e na quarta-feira de cinzas mais de 2 mil capoeiristas acompanharam o Arrastão da Timbalada.

O sonho de colocar a Capoeira aconteceu quando em 2002 o Carnaval homenageava as raízes e heranças africanas. Daí então o publicitário, cantor, compositor e mestre de capoeira Tonho Matéria começou a falar da capoeira como tema do Carnaval, o que só se concretizou depois de seis anos de tentativas. "Contei com a parceria do jornalista e produtor cultural Badá, do nosso Rei Momo Clarindo Silva e do ilustríssimo mestre Boa Gente, que não só ajudou pra que a capoeira fosse o tema do carnaval, como criou uma ala de dança afro para o bloco com seus alunos do Vale das Pedrinhas e com diversos estrangeiros dos países Argentina, Holanda, Canadá, Estados Unidos, Angola, Moçambique, Portugal, Itália e Espanha. A escolha do tema também contou com a parceria de vários capoeiristas que votaram pela Internet" revelou Matéria, que idealizou um megadesfile.

O Bloco da Capoeira não foi comercializado. "Os capoeiristas usaram suas próprias roupas e cada ala desenvolveu suas indumentárias", explica Matéria. "Cada Mestre ficou responsável por inscrever sua associação, que podia vir com quantos alunos quisesse", complementou.

Diversos grupos e associações de capoeira compareceram ao desfile do bloco como parceiros, são eles: Mangangá, Abolição, Topázio, Jalará, Kilombolas, Raízes da Bahia, Centro Cultural de Capoeira Angola Bonfim, Zumbi, Associação de Capoeira Mestre Bimba, Stela Mares, Esquiva, Associação de Capoeira Cobra Can, Bahia Capoeira, Alegria do Mestre Canjiquinha, Grupo de Capoeira Expressão Corporal, Filhos de Oxossi Guerreiro, Academia Regional de Itinga, Unicar, Capoeira Guerreiros, Iúna, Palmares, Kirubê, Educarte, Vadiação, Maré, Calabar, Associação de Capoeira Mestre Boa Gente, Sete Quedas, Engenho, Camugerê, Raça, Ginga Nativa Capoeira, Mundo Capoeira, Vivendo e Aprendendo, Liberdade do Negro, Barro Vermelho, Corpo e Movimento, Porto da Barra, Guerreiros da Bahia, Solares, Associação de Capoeira Pai e Filho, Pé Pro Ar, Nação Capoeira, Filhos de Oxalá, Mandela, Ganga Zumba, Centro de Cultura da Capoeira Tradicional Bahiana (Mestre Bola Sete), Grupo Cultural de Capoeira Angola Moçambique (Neco) e mestre Flecha. Além das participações especiais dos artistas Lucas Di Fiori (Olodum), Dado Brazawilly (Ex- Ara Ketu), Paulinho Feijão (Ex- Ilê Aiyê), Gal Borges (Ex- Afreketê), da Ialorixá Edenice Sant`Ana e dos mestres de capoeira Máximo, Marcos Gytauna, Nego Gato, Já Morreu, Pelé da Bomba, Boa Gente, Angola, Pele do Tonel, Zambi, Dinho, Jones, Atabaque, Rizadinha, Grandão, Raymundo Kilombolas, Dedé, Daltro, Coentro, King Kong, Lazaro, China e muito outros.

O Bloco contou com o apoio cultural do Governo do Estado da Bahia, Secretaria de Cultura e Secretaria do Turismo, Bahiatursa, Ministério do Turismo, Prefeitura Municipal de Salvador, Emtursa, Prefeitura Municipal de Lauro de Freitas, Pólo de Capoeira de Lauro de Freitas, Instituto Sol e Sol Embalagem, Guia Salvador Eventos, Revista Carnafolia, Jornal O Capoeira, Forte da Capoeira, Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Edson da União, Olívia Santana, Bahia Gás, Zoom Imagens, Maria Comunicação, União da Capoeira de Itapoã e Federação de Capoeira da Bahia (Fecaba).

Contatos: 71- 81269333 – 32569806 site http://www.capoeiramanganga.com.br

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Bahia: Carnaval 2008 – Homenagem à capoeira toma uma rasteira

 

Homenagem à capoeira toma uma rasteira
(Especial Carnaval 2008 – Correio da Bahia)

Foram raras as manifestações que seguiram o tema ‘Capoeira e suas culturas aparentadas’, o que gerou reclamações de mestres, praticantes e especialistas

Desde a repressão no período colonial e a marginalização a partir do ano de 1890, quando foi considerada crime, a capoeira sempre se esquivou das dificuldades, graças à mandinga dos seus praticantes, como aconteceu este ano, quando foi eleita como tema do Carnaval. Mas escolhida para representar a folia momesca através de uma votação popular, a mistura de luta e dança não teve espaço e nem apoio dos poderes públicos durante a festa, criticaram mestres, alunos e especialistas. Para muitos adeptos, a arte criada pelos escravos brasileiros acabou sendo novamente excluída.

Com o tema Capoeira e suas culturas aparentadas, os governos municipal e estadual pretendiam homenagear a luta durante o período do Carnaval. Mas mestres, praticantes e especialistas reclamaram que a presença da capoeira na festa foi ínfima. A participação se restringiu apenas ao desfile do Bloco da Capoeira, o Mangangá, que recebeu patrocínio de cerca de R$50 mil dos poderes públicos, enquanto a decoração com o tema foi limitada apenas ao Pelourinho.

A falta de decoração com símbolos e ícones da capoeira nos outros circuitos do Carnaval, a pequena quantidade de apresentações durante a festa e o descaso com os mestres mais importantes, que não receberam qualquer tipo de homenagem, são as principais reclamações contra os poderes públicos. Segundo o cantor, compositor e também mestre de capoeira Tonho Matéria, único que recebeu apoio do governo e da prefeitura, a maioria dos mestres está revoltada com o tratamento dado à capoeira pela organização da folia.

Matéria disse que os capoeiristas esperavam homenagens aos mestres considerados mais relevantes, com fotos deles espalhados pelos circuitos, além de cartazes com informações sobre a história da capoeira e sua importância cultural. Mas quem foi à festa momesca, não viu sequer cartazes com desenhos de berimbau, nem no circuito Osmar (Campo Grande), nem no Dodô (Barra-Ondina), onde a decoração era responsabilidade da prefeitura. A exceção ficou por conta do Pelourinho, que foi ornamentado com fotos e temas da capoeira através do Pelourinho Cultural, ligado à Secretaria de Cultura do Estado (Secult).
A Empresa de Turismo de Salvador (Emtursa) alegou falta de recursos e de tempo hábil para executar o projeto de decoração.

Reginaldo Santos, presidente do Conselho do Carnaval, admitiu que o órgão não teve capacidade de pagar R$1,5 milhão para decorar da cidade, no orçamento feito pela Associação de Artistas Plásticos da Bahia. Já o presidente da Emtursa, Misael Tavares, alegou que não houve tempo de realizar uma seleção pública para escolha de um projeto e nem possibilidade de fazer uma dotação orçamentária.

 

 

Descaso com os mestres

Capoeiristas classificaram como um descaso com a cultura baiana o tratamento dado pela prefeitura à capoeira. Vivaldo Conceição, batizado como mestre Boa Gente, considerou um desrespeito à cultura negra, a pequena participação e pouca divulgação do tema durante o Carnaval. “Só porque o prefeito é evangélico, ele é contra a negritude do povo dessa cidade, isso é muito triste”, desabafou. Ele reclamou também sobre a falta de homenagem para os mestres mais representativos como João Pequeno de Pastinha, Curió, Boca Rica, Decânio, Pelé da Bomba e outros.

“Nós não queríamos dinheiro, queríamos reconhecimento, além de palcos para a gente se apresentar, divulgando a capoeira”, explicou Boa Gente. Ele acrescentou que alguns grupos de bairro pediram transporte ou ajuda de custo para chegar até locais onde se apresentariam, mas não foram atendidos. Vivaldo contou que até o carro para levar o mestre João Pequeno para receber uma homenagem num hotel da cidade foi negado.

“João Pequeno abriu mão do cachê, mas quando pediu transporte para ele e mais dois acompanhantes, disseram que não tinham, isso é um absurdo, ele tem 90 anos e é um dos mestres vivos mais importantes para a capoeira”, comentou Boa Gente. Para ele, os cantores de bloco e a imprensa também são culpados. “Você não vê ninguém sequer falando sobre o tema do Carnaval, nem cantores, nem os jornalistas. Durval Lelys veio vestido de caubói, Xanddy de comandante, mas ninguém sequer usou as roupas tradicionais da capoeira, que é da nossa cultura”, reclamou.

Alguns blocos afros tiveram capoeiristas se apresentando, além do Bloco da Cidade, organizado pelo Secretaria Estadual de Cultura, que teve uma roda durante seu desfile. A mistura de jogo e dança também apareceu em manifestações populares espontâneas, como na Mudança do Garcia, na segunda-feira e nas ruas situadas à margem dos circuitos oficiais. Na opinião do praticante e estudante de sociologia Eduardo Castro, a capoeira acabou sendo novamente “guetificada”, mas como nasceu no gueto, se reencontrou com sua essência, conseguindo se “levantar da rasteira” e dar a volta por cima.

Funcionários celebram Jorge Amado

Homenageando o escritor baiano Jorge Amado, o Bloco da Cidade, organizado pela Secretaria Estadual de Turismo (Setur), desfilou do Campo Grande até a Praça Municipal, puxado pela cantora Margareth Menezes, no domingo à noite. Cerca de dois mil funcionários públicos e alguns seletos convidados da Setur saíram fantasiados de personagens da obra jorge-amadiana como Gabriela, Tieta, Vadinho, Dona Flor e outros. Teve até um carro alegórico representando o bordel Bataclam, com bailarinos do Teatro Castro Alves vestidos de coronéis do cacau e dançarinas de cancan, freqüentadores do prostíbulo ilheense na vida real, transformado em ficção pelo autor.

O Bloco da Cidade contou também com alas de pierrôs, baianas e uma roda de capoeira. Teve ainda uma participação especial do cantor e compositor Mateus Aleluia, ex-integrante do grupo vocal Os Ticoãs, que se notabilizou na década de 60, como o primeiro conjunto a tocar e gravar músicas de candomblé para o grande público.

Margareth Menezes já entrou no palco oficial, por volta das 21h, fazendo um dueto com o cantor Mateus Aleluia, interpretando a música Cordeiro de Nanã, do grupo Os Ticoãs. Em seguida, a cantora fez uma pausa para reverenciar o colega de profissão e ressaltar a importância de homenagear Jorge Amado e executou a canção A luz de Tieta, de autoria de Caetano Veloso e tema do filme de Cacá Diegues, baseado na obra do escritor.

A ala dos Pierrôs de Plataforma abriu o desfile com brincadeiras de rodas, seguidos por um grupo de cerca de 50 baianas, enfeitadas com seus torsos brancos de renda e girando as saias rodadas coloridas. A baiana Sandra Maria de Jesus, que disse ter sido convidada através da Associação das Baianas de Acarajé (ABA), para participar junto com outras colegas do subúrbio ferroviário, destacou a importância da presença das baianas no desfile de Carnaval como forma de preservação da nossa cultura. “Aqui têem baiana de acarajé, de receptivo e de axé” (candomblé), explicou.

Logo atrás uma roda de capoeira trazia ginga e o toque do berimbau para o desfile. Em seguida, veio uma ala de pessoas vestidas com camisetas que traziam a frase “Amigos de Jorge” estampada no peito, mas com poucos ou nenhum amigo do escritor presente, apenas figurantes portando sombrinhas de frevo.

Em cima do trio elétrico, o cantor baiano Edu Casanova e o forrozeiro Targino Gondim acompanhavam o desfile como convidados de Margareth. O secretário de turismo, Domingos Leonelli, e sua colega de partido, a deputada Lídice da Mata, também estavam presentes. Leonelli lamentou a ausência de parentes de Jorge Amado, mas justificou dizendo que a presença não foi possível em função do horário do desfile do bloco, porque familiares do escritor tiveram que embarcar, mais cedo, num vôo para o Rio de Janeiro.

A voz do folião

ALEX SANTOS, 28, CABELEIREIRO – “Eu acho sim. Passei três dias no circuito Barra-Ondina, dois no bloco e um na pipoca, e aquilo lá está muito cheio. É preciso encontrar um novo
espaço para comportar
esse número de pessoas”.
Alex Santos
28, cabeleireiro

Confetes

O PRAIEIROS em Casa, o camarote do Jammil, reuniu muita gente bonita. O espaço ambientado funcionou de sexta a domingo, embora na quinta-feira tenha aberto as portas para o baile infantil. Apenas uma coisa precisa mudar no camarote restrito para convidados, cujos R$100 da adesão são revertidos para o Projeto Axé: a alimentação. Os salgados e os picolés não saciavam a fome dos presentes, após farta bebida, e os sanduíches eram distribuídos em intervalos de uma hora e meia. Logo, a longa fila se formava e sobravam reclamações.

COMO MUITOS dos patrocinadores dos blocos não coincidem com os da organização do Carnaval, a briga para patrocinar os artistas e espaços mais expostos na mídia foi forte. Bancos, empresas de telefonia e companhias de bebidas lutaram forte para seduzir clientes de peso. Os provedores de internet e as montadoras de veículos também estiveram envolvidas em algumas disputas.

A GERÊNCIA de Táxi da Superintendência de Transporte Público (STP) criou uma tabela de preços para tentar diminuir as queixas sobre valores das corridas serem fixados arbitrariamente por alguns taxistas, sem levar em conta o taxímetro. Se a medida causou rejeição quando oficializada, era evidente a pequena chance de vingar no Carnaval. Pois os taxistas ignoraram solenemente a tabela e tudo funcionou como antes. Com o passageiro reclamando e o preço sendo resolvido cara a cara. A falta de fiscalização adequada dá nisto.

DESDE o domingo de Carnaval, a manutenção dos banheiros químicos deixou a desejar nos circuitos Dodô e Osmar. Além do mau cheiro, em alguns locais o aspecto de sujeira denunciava que, provavelmente, não estaria existindo a limpeza adequada. Teve muito folião que preferiu pagar R$1 e usar o sanitário dos bares próximos aos corredores da folia.

NO EMBALO do sucesso do filme Tropa de elite, o humorista Tom Cavalcanti lançou a paródia Bofes de Elite, quadro do programa que comanda na televisão. Pois, na madrugada de domingo, entre o Camarote de Daniela Mercury e o Praieiros em Casa, o camarote do Jammil, um grupo de jovens malhados trajava a roupa preta com detalhes em rosa do “esquadrão”. Os bofes fizeram sucesso absoluto e acabaram fuzilados por olhares. Muitas mulheres não resistem a alguns homens fardados, como tampouco alguns homossexuais.

 

Recife: Daruê Malungo mistura capoeira e maracatu para mudar vida de jovens

Cerca de 120 jovens residentes na comunidade de Campina do Barreto, na Zona Norte do Recife, têm no Carnaval a chance de mostrar o que aprendem durante todo ano na ONG Daruê Malungo: a mistura de capoeira com o maracatu. Eles também são personagens do Vida Real desta quinta (31), que mostra quem faz a folia no Recife.

As duas atividades, maracatu e capoeira, se juntam para ensinar aos jovens importantes lições, como aprender a lidar com a vida. “A capoeira ajuda a ter jogo de cintura, algo fundamental para que vençamos na vida”, contou o coordenador do projeto, mestre Meia-Noite.

Para aprender a dançar capoeira ao som do maracatu, é preciso treinamento e companheirismo: “Aqui um ajuda o outro. Dessa forma, aprendemos mais rápido a unir os ritmos e a fazer amizades”, disse Jaqueline de Luna Almeida, uma das alunas do projeto.

O Daruê Malungo se apresenta nesta sexta-feira (01), na abertura oficial do Carnaval do Recife. Mais uma noite para que a harmonia da capoeira e a energia do maracatu contagiem os foliões, trazendo paz para a folia da cidade.

Fonte: http://pe360graus.com/ – Recife – BR

Bahia: Apesar de homenagem, capoeira tem pouco apoio

O tema escolhido para o Carnaval pela Prefeitura de Salvador este ano – Capoeira é ginga de corpo – homenageia a luta-esporte que colocou o Brasil no mapa das artes marciais mundiais. Tão tradicional como o próprio traje da baiana, entretanto, a capoeiragem, no restante do ano, não é a prioridade nas esferas culturais do poder público, seja municipal, estadual ou federal.

Oportunamente, para homenageá-la, uma roda com 1.500 integrantes está programada para a noite de quinta-feira de Carnaval no Pelourinho, contando com a presença de músicos do grupo mineiro Berimbrown. Outros eventos também estão marcados dentro do projeto Capoeira Ginga Mundo, entre os dias 28 e 31 de janeiro, no Pelourinho. O evento é produzido há quatro anos pela Associação Integrada de Educação, Artes e Esportes. Este ano, conta com o patrocínio da Petrobras e os apoios da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Estadual de Cultura (Secult) – a coincidência do evento com o Carnaval foi a sopa no mel para as instituições.

Mas, fora estas coligações culturais de última hora, haverá um comprometimento mais sério com esta arte-luta ligada à resistência, ou tudo não passa de especulação afrocultural? Do ponto de vista do apoio nas esferas federal, estadual e municipal, pode-se dizer que a “farinha” ainda é pouca. Na Secult, não há nada específico para a luta nos programas de incentivo.

Fazcultura – Pelo Programa FazCultura, o único contemplado este ano foi o Grupo de Capoeira Dois Antônios, da Feira de Santana, que pretende implantar oito núcleos de capoeira em distritos e bairros da sua cidade de origem. A principal referência da cena capoeirana baiana é o Forte de Santo Antônio, que abriga cinco dos principais mestres na capoeira baiana. Após a reforma da fortificação, inaugurada pelo governo Paulo Souto em 2006, o espaço passou a ser referência.

Os baluartes da arte ali sediada são a academia de mestre João Pequeno de Pastinha (o grande homenageado do ano, pelos seus 90 anos); a Escola de Capoeira Filhos de mestre Bimba, dirigida por seu filho, mestre Nenel; a Oficina de Ladainhas e Corridos, com mestre Waldemar da Paixão; o Terreiro de Mandinga, com mestre Ezequiel; e o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho, de mestre Morais.

Cordeiros – Por sinal, Morais vê com ceticismo a homenagem que se quer prestar à arte-luta afro-brasileira na folia momesca de 2008. “Não é a primeira vez que a capoeira sai no Carnaval. O que falta refletir é de que forma sai. Todo ano, inclusive, saem os capoeiristas cordeiros ou os capoeiristas com caixa de isopor e só sendo capoeirista para transitar sem derrubar a caixa”.

O panorama atual foi discutido em um evento que homenageou os 90 anos de mestre João Pequeno, mês passado. Capoeirista e doutorado em ciências sociais aplicadas à educação pela Unicamp, Pedro Abib relembrou que “a capoeira Angola começou a ser abafada nas últimas décadas e praticamente desapareceria se, nos anos 80, os mestres Morais e João Pequeno não revigorassem a tradição”.

Funceb – A Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) também não tem proposta exclusiva à capoeira. Pela tangente, o seu edital Mestres da Cultura Popular contemplou um grupo de capoeira entre 25 selecionados, (foram 75 grupos ao todo), o Grupo Angola Cativeiro, de Santo Amaro. Cada contemplado ganhou R$ 6 mil para suas ações – 4% para a capoeira.

Por outro lado, explica a presidente da Funceb, Gisele Nussbaumer, a instituição promoverá Cursos Livres de Capoeira na Escola de Dança da Ufba, no Pelourinho. A parceria entre a Funceb e a escola oferece 25 vagas, mas apenas para alunos dos 5 aos 17 anos, com aulas gratuitas a serem ministradas pelos mestres Zambi e Tamarindo. Informações: 71-3322-5350.

Fonte: A Tarde On Line – Salvador, BR – http://www.atarde.com.br

Bahia: Mestres capoeiristas reclamam de falta de prestígio

Considerada "presente de grego", homenagem da prefeitura no Carnaval sequer terá decoração específica

Um presente de grego. É desta forma que os mestres capoeiristas vêem a homenagem à capoeira que será feita pela prefeitura durante o Carnaval 2008. Até o presente momento, não está prevista decoração específica nos circuitos da festa momesca, que tem início marcado para 31 de janeiro. A Empresa de Turismo de Salvador (Emtursa) alega falta de recursos e de tempo hábil para que haja realização de concurso público de projeto de decoração nem dotação orçamentária para pagá-lo.

Banners espalhados por toda a cidade à semelhança da exposição Salvador negro amor, do fotógrafo Sérgio Guerra. Neles estariam fotos dos sábios capoeiristas que marcaram seu nome na história desta arte. Instalações que lembrassem os principais golpes de capoeira. Maior divulgação nos meios da comunicação sobre o tema receberiam as honras neste ano. Era assim que Jaime Martins dos Santos, mais conhecido como mestre Curió, 71 anos, espera ver a cidade a poucos dias do início do Carnaval. Ficou na frustração. “É um desrespeito muito grande com a capoeira. Uma homenagem de mentira”.

A escolha da capoeira como tema a ser homenageado no reinado de Momo foi feita através da internet, por decisão do Conselho do Carnaval. Os votos dos internautas foram ratificados na solenidade dos festejos em dezembro. Na oportunidade, foram divulgados como os símbolos da festa os mestres João Pequeno e doutor Decanio. Eles são, respectivamente, discípulos dos dois maiores ícones da mistura de arte marcial, dança e filosofia trazida à Bahia pelos escravos africanos: mestres Pastinha (capoeira angola) e Bimba (capoeira regional).

Mas nem os símbolos da festa sabem como desempenharão seus papéis durante o reinado de Momo. “Eu já telefonei para a Emtursa para saber como vai ser, se vai ter desfile, se a gente vai se apresentar e eles não souberam me responder. Eu nem posso falar mais algo sobre que eu não tenho informação alguma”, diz Angelo Augusto Decanio Filho, o mestre doutor Decanio. Médico e professor aposentado da Escola Bahiana de Medicina, ele é considerado o mais velho aluno ainda vivo de mestre Bimba. Completa oito décadas e meia de vida em fevereiro. “É muita desorganização”, critica.

Mestre DecanioMorador de uma modesta casa no bairro de Fazenda Coutos III, mestre João Pequeno também espera junto com sua família por maiores informações sobre sua participação. “Eles nos convidaram, mas há detalhes que não foram acertados”, diz a neta de João Pequeno, a também capoeirista, Cristina Miranda, a “Nani”. Ela afirmou ao Correio da Bahia que, se seu avô não receber cachê, ele não irá aparecer na quinta-feira de Carnaval (dia 31), no Campo Grande, quando está prevista a saída do bloco da capoeira, o Mangagá. “Um mestre de capoeira tem que ser respeitado, porque também é um artista. Há toda uma estrutura que nós temos que montar quando ele se desloca. Ele leva o nome da Bahia a todo lugar que vai. Todo ano, vêm dezenas de alunos do exterior só para conhecê-lo”. Doutor honoris causa por uma universidade mineira, João Pequeno completou 90 anos no mês de dezembro. Convidada para a festa, nenhum representante da Emtursa compareceu.

Filho do saudoso mestre Bimba, Manoel Nascimento Machado, o mestre Nenel, 47, não chega a ficar surpreso com este fato. Ele ainda acredita que algo pode ser feito para lembrar que a capoeira é a homenageada deste Carnaval. “Enquanto no exterior nós somos reverenciados, aqui na Bahia, berço da capoeira, ainda há este ranço”.

Descaso – “A Emtursa deu uma rasteira na capoeira. Do jeito que está sendo feito está muito pouco”, ironiza o historiador Jaime Sodré. Para ele, o órgão municipal deveria criar uma comissão especial para estabelecer de fato como serão feitas as homenagens aos mestres capoeiristas no Carnaval. Para Gilson Fernandes, mestre Lua Rasta, 57, falta senso de classe entre os capoeiristas para evitar esta “rasteira”. “Se a gente não ficasse com tanta picuinha, este tipo de coisa não aconteceria. O culpado somos nós mesmos”.

“Um turista que chegue a Salvador não vai saber que a capoeira vai ser homenageada no Carnaval. Nós que lutamos por isso e não fomos nem chamados para opinar”, reclama o produtor cultural Geraldo Badá. Durante quatro anos, ele enviou propostas à Emtursa para que a arte fosse tema da folia soteropolitana. Mas quando finalmente foi atendido, se vê frustrado.

Badá critica ainda o que chama de falta de apoio do poder público para os blocos independentes que também prestarão homenagens à capoeira no circuito carnavalesco. O único a ser beneficiado seria o Mangangá, capitaneado pelo cantor e compositor, e também mestre de capoeira, Tonho Matéria. “O bloco do Tonho Matéria não poderia ser o único até este tipo de apoio”.

De modo sutil, Tonho Matéria contesta Badá. Ele afirma que o Mangangá está orçado em R$230 mil e deste valor ele teria conseguido R$15 mil junto à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult). E a Emtursa teria pago o aluguel do trio elétrico, algo em torno de R$35 mil. Para bancar o resto, ele estaria correndo atrás de patrocínio de empresários.

 
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Emtursa alega falta de recursos

O presidente do Conselho do Carnaval, Reginaldo Santos, afirmou que um projeto de decoração foi encomendado à Associação de Artistas Plásticos da Bahia. Mas foi considerado inviável, já que a Emtursa alegou incapacidade de bancar os cerca de R$1,5 milhão exigidos para que ele fosse levado a cabo.

Santos declara que outras alternativas foram pensadas, mas esbarraram no mesmo motivo: a falta de recursos financeiros. “Nós ficamos frustrados com o fato de não ter decoração. Queríamos que a cidade ficasse linda para o Carnaval, mas não há como contrapor uma alegação como esta da Emtursa”. Segundo o presidente do conselho, uma das alternativas para o próximo ano é as entidades entrarem com projetos através das leis de incentivo cultural para assegurar que outros carnavais tenham a decoração garantida.

Por sua vez, o presidente da Emtursa, Misael Tavares, afirmou que não houve tempo hábil para seleção pública de um projeto e nem dotação orçamentária que a decoração fosse realizada. “Eu também gostaria que a cidade estivesse toda decorada com a capoeira, mas nós estamos lidando com o dinheiro público. Eu não poderia aprovar um projeto de mais um R$1 milhão sem orçamento para tanto e sem fazer um concurso público”. Mesmo assim, Tavares considera que a capoeira terá visibilidade durante o Carnaval, já que o bloco Mangagá vai sair no circuito. “Nós não podemos agradar a todos os segmentos dos capoeiristas”.

Ligada à Secult, a diretoria do Pelourinho Cultural informou que a decoração de Carnaval no Centro Histórico, que terá obviamente motivos de capoeira, ficará a cargo do estado. Ela será feita pelo cenógrafo Euro Pires. A previsão é que esteja pronta até o dia 27, quatro dias antes da festa.

Depoimentos de mestres

“Tudo que é em prol da capoeira recebe meu apoio, mas é preciso que seja muito bem-feito. E eu não estou vendo isto acontecer. Deveria ter painéis na cidade contando a história da capoeira e dos mestres mais antigos”.
Mestre Boca Rica, 71 anos

“Sinceramente, eu acho que é uma forma de racismo, de discriminação. Uma total falta de respeito com a cultura afrodescendente. Alunos meus de vários países estão vindo para cá justamente porque a capoeira é o tema do Carnaval”.
Mestre Boa Gente, 62

“É uma espécie de homenagem torta. Não é assim que deveria ser feito. A capoeira não é apenas só uma luta. É toda uma filosofia de vida que precisa ser tratada com todo o cuidado”.
Mestre Moa do Katendê, 54

“Nós estamos cansados de tapinhas nas costas. Cansados de vermos a capoeira ser usada por quem não merece. Nós somos bem tratados em qualquer lugar, mas aqui ainda há este preconceito contra a capoeira”.
Mestre Gildo Alfinete, 68

“Qual a preocupação que as autoridades têm com os mestres? Que apoio nos dão nos nossos projetos sociais? A gente faz um trabalho numa escola estadual e tem de esperar meses para receber o pagamento. O que eles vão fazer no Carnaval é usar o nome da capoeira e não homenageá-la”.
Mestre Curió, 71

 

Fonte: Flávio Costa
Correio da Bahia – Salvador – Brasil
http://www.correiodabahia.com.br