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Folclorista de Sorocaba “reabre” inquérito sobre o Saci-pererê

 

Alguém sabe do paradeiro do negrinho travesso de uma perna só? Curioso para saber como anda e onde anda o Saci-pererê, o historiador e folclorista sorocabano Carlos Cavalheiro propôs a reabertura do “inquérito sobre o Saci”.

O primeiro inquérito sobre o malandrinho, que dá nó em crina de cavalo, foi proposto por Monteiro Lobato em 25 de janeiro de 1917. Através do jornal O Estado de São Paulo, o escritor deu início a sua campanha, pedindo aos leitores que enviassem cartas contando suas experiências com Saci-pererê. Esse material rendeu o livro O Sacy-Pererê, resultado de um inquérito.

“Proponho, ousadamente, a reabertura do Inquérito. Já recebi algumas respostas. A idéia é que, de alguma forma, esses causos sejam publicadas num só volume, no dia 25 de janeiro de 2007, quando se comemorará 90 anos de Inquérito sobre o Saci”, explica Cavalheiro.

Os interessados podem mandar suas histórias para o e-mail: carlosccavalheiro@yahoo.com.br.

“O objetivo é recolher as histórias sobre o Saci que ainda povoam o imaginário das pessoas.

Será um diagnóstico sobre como, noventa anos depois, o imaginário popular lida com a figura do Saci, um dos grandes mitos populares”, explica o pesquisador sorocabano.

 

Juliana Simonetti – juliana.simonetti@bomdiasorocaba.com.br

Da Agência BOM DIA

SCENAS DA ESCRAVIDÃO – Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba

A obra, escrita por Carlos Carvalho Cavalheiro, é um estudo inédito sobre a escravidão negra em Sorocaba que revela aspectos interessantes do tema e acaba por desconstruir o mito de que na cidade a escravidão foi mitigada. Carvalho Cavalheiro comprova através de farta documentação a violência inerente à escravatura também em Sorocaba. A obra revela ainda a participação do teatro sorocabano na campanha abolicionista, a relação entre o tropeirismo e a escravidão, a presença de escravos na produção fabril, a luta de classes entre os senhores e seus escravos e as cenas de crueldade na escravidão. Traz também uma reflexão acerca da cultura afro-brasileira em Sorocaba e a perseguição institucional à essas práticas através da repressão policial, edição de posturas municipais, manifestação de leitores nos jornais antigos etc.

Trata-se de um ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba, desde o séc. XVII até a abolição (séc. XIX), mostrando a discriminação e o preconceito racial em Sorocaba, buscando suas raízes históricas. Discute a falsa idéia de que a escravidão em Sorocaba foi amena, bem como as formas de controle ideológico sobre a mão-de-obra escrava. Além de discorrer sobre a escravidão em Sorocaba, o texto aborda também aspectos particulares da escravidão na região, em cidades como Itu, Porto Feliz, Araçoiaba da Serra (Campo Largo), Salto de Pirapora e até Campinas.

O livro recebeu apoios culturais do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, do Sindicato dos Empregados do Comércio de Sorocaba, do Psol (Diretório Municipal), da Crearte Editora, da Implastec, da AFCC Consultoria e Pesquisa, da Academia de Capoeira Nacional, do Movimento Anarquista, do Provocare, da ONG Memória Viva, do Movimento Anarco-cristão, do Centro de Estudos Filosóficos Iluminattis, da Livraria Sebo Nacional e do Escritório de Advocacia Dr. Valdecy Alves.

Scenas da Escravidão possui 185 páginas e ilustrações interessantes relacionadas a cultura e história da escravidão em Sorocaba. A revisão histórica foi realizada pelo historiador Prof. Ms. Rogério Lopes Pinheiro de Carvalho e a revisão gramatical pelo prof. Ivaldo José de Carvalho. O prefácio é de autoria de Armando Oliveira Lima, presidente do Instituto Darcy Ribeiro.

O autor, Carlos Carvalho Cavalheiro, é professor de História da rede pública municipal de Porto Feliz e pesquisador da História e Cultura de Sorocaba e do Médio Tietê. Escreveu e publicou os livros Folclore em Sorocaba (1999), A greve de 1917 e as eleições municipais de 1947 em Sorocaba (1998), Salvadora! (2001) e Descobrindo o Folclore (2002). Produziu ainda o CD "Cantadores – O folclore de Sorocaba e região" com a participação de grupos folclóricos como a Folia de Reis de Sorocaba, a Folia do Divino de Araçoiaba da Serra, a Dança de São Gonçalo de Porto Feliz, o Terço Cantado de Itu e o Cururu de Sorocaba entre outros. Participou ainda da produção do CD e documentário "Cantos da Terra". Idealizou a Enciclopédia Sorocabana (www.sorocaba.com.br/enciclopedia) e a Reabertura do Inquérito sobre o Saci-Pererê (www.crearte.com.br/saci.htm). Neste ano proferiu palestra em agosto no SESC de Sorocaba sobre o Folclore de Sorocaba e do Médio Tietê.

“Esta é a única obra que trata especificamente da escravidão sorocabana em todo o período e não só na época da campanha abolicionista.
 
O único inconveniente em relação a publicação de uma tiragem reduzida é que não se tem condições de distribuir uma cota para os arquivos, museus, universidades e bibliotecas. É uma pena!” 
 
Carlos Cavalheiro

Scenas da Escravidão pode ser encontrado no Centro de Estudos Filosóficos Iluminattis (Rua Riachuelo, 437 – Vergueiro – Sorocaba /SP) ou na Livraria Pedagógica Paulista (Rua Padre Luiz, 235 – Centro – Sorocaba /SP – Tel: (15) 3224-4304).

 

O ensino da capoeiragem no início do século XX

Artigo de Carlos Cavalheiro a repercussão em jornal de Sorocaba, São Paulo, sobre a abertura de Academia de Capoeira no Rio de Janeiro, em 1920. A matéria trouxe a chamada "Um Desporto Nacional"

A despeito de sua criminalização com a inserção no código penal de 1890 (Decreto 847/1890), a capoeiragem encontrou ainda nas primeiras décadas do século XX vários defensores e adeptos, especialmente entre intelectuais, escritores, jornalistas, boêmios… pessoas que circulavam pelos mesmos logradouros freqüentados pelos capoeiras.
Assim, João do Rio em "A Alma encantadora das ruas", descreve o universo dos capoeiristas, Coelho Neto defende a sua prática como desporto, Aníbal Burlamaqui publica o seu método de capoeiragem e o articulista Petrus publica em 1914, num jornal de Sorocaba, uma crônica em que um capoeira carioca acaba se saindo melhor numa disputa com um boxeador inglês.
A vitória do negro capoeira Ciríaco sobre o campeão japonês de jiu-jitsu Sada Miako (conhecido como Conde Koma), também é responsável pela profusão de defensores da capoeira como esporte nacional. A par desse contexto, surge ainda o pensamento eugênico que vê na prática de esportes a forma de se aperfeiçoar e melhorar a espécie humana.[1]
Faltava apenas domesticar a capoeira, nascida livre nas vadiagens[2] e brincadeiras das ruas, dar-lhe um aspecto de esporte regrado. Daí surgirem livros procurando metodizá-la, regulamentá-la, regrá-la, castrá-la. Aliado a isso, a campanha dos intelectuais (como Monteiro Lobato no conto "O 22 do Marajó") procurando evidenciar as qualidades nobres da capoeira e, ainda, o surgimento das primeiras idéias de fundação de academias que ensinassem a luta.
O jornal sorocabano Cruzeiro do Sul, por exemplo, reproduz a notícia da pretensão de se fundar uma academia nesses moldes no Rio de Janeiro em 1920. Eis a nota:

UM DESPORTO NACIONAL

O dr. Raul Pederneiras e o professor Mario Aleixo pretendem fundar no Rio uma escola para o ensino de um desporto genuinamente brasileiro: a capoeiragem.
Diz a "Folha" do Rio, ser a capoeiragem um desporto excellente. Quando bem executado e abolidos os golpes mortaes, é um meio utilissimo de defesa.
Há ainda na Capital Federal conhecedores emeritos da capoeiragem, mas poucos, relativamente aos que havia antes do regimen republicano.
Um japonez, jogador afamado do "jiú jutsú" foi vencido há tempos pelo capoeira carioca Cyriaco.
Raul Pederneiras pensa em reviver esse desporto, auxiliado pelo professor Mario Aleixo, que já ensinou "jiú-jutsú" e capoeiragem à polícia civil do Rio.
Os francezes chamam aquelle desporto de "savate": os pés, as mãos, a cabeça, tudo o capoeira emprega quando se defende.
A "Folha" cita um marujo brasileiro, um tal "Boi", que num porto francez resistiu a uma escolta numerosa, só se utilizando da cabeça e dos pés.[3]

A idéia de se ensinar a capoeira em academias vai tomando vulto com o passar dos anos. Sinhozinho cria uma no Rio de Janeiro[4]. Mestre Bimba funda a primeira academia registrada oficialmente em Salvador, na década de 1930. Uma década depois, Mestre Pastinha inaugura a sua academia de capoeira angola.
O fenômeno das academias baianas trará uma nova conformação à própria história da capoeira, uniformizando (no que tange às tradições, hábitos, costumes, rituais, instrumentação, cantigas etc) sua prática, especialmente após a migração de mestres para o sudeste brasileiro. Isso foi um dos motivos pelos quais a capoeira conhecida e praticada hoje é a baiana. Infelizmente, por outro lado, foram-se apagando pouco a pouco as práticas regionais anteriores como a pernada, a tiririca, o cangapé, a punga, o bate-coxa… que não puderam oferecer resistência e nem conseguiram criar condições para competir com a capoeira baiana.

Carlos Carvalho Cavalheiro
23 de julho de 2005.
O autor é pesquisador autônomo da história e do folclore de Sorocaba. Sócio efetivo da Comissão Paulista de Folclore (IBECC/UNESCO). Licenciado em História pela UNISO. Especialista (pós-graduação) em Gestão Ambiental – Faculdade Senac.

Créditos da foto do Jornal: Rogério Lopes Pinheiro de Carvalho

[1] REIS, Letícia Vidor de Sousa. O mundo de pernas para o ar. SP: Publisher . 2000. p. 65.
[2] O termo vadiagem, aqui, não tem a conotação pejorativa geralmente aliada ao termo. Vadiagem, neste contexto, é a forma como os próprios capoeiristas tratam a prática da sua brincadeira na roda de capoeira.
[3] Cruzeiro do Sul, 31 jan 1920.
[4] ASTRONAUTA, Miltinho. Capoeira em São Paulo: Coletânea número zero A velha guarda da capoeira. Disponível em http://www.osacabrac.org/acervo.htm acessado em 17ago 2004.

 

Fonte: Jornal da Capoeira e e-mail enviado pelo Prof. Joel Marques – http://capoeira-redentor.blogspot.com/

Carlos Carvalho Cavalheiro
02.08.2005 – Sorocaba " SP
www.capoeira.jex.com.br

Dicionário da Capoeira recebe terceira edição

O Dicionário de Capoeira, escrito pelo jornalista e pesquisador Mano Lima, ganhou sua terceira edição, revista e ampliada. A obra foi lançada oficialmente no dia 24 de maio no II Festival Internacional Capoeira, em Roermond (Holanda).

Nessa terceira edição o Dicionário recebeu a colaboração, entre outros, do pesquisador Carlos Carvalho Cavalheiro que auxiliou na composição de mais de trinta verbetes.
 

Cavalheiro, pesquisador sério e dedicado da região do Vale do paraíba, contribuiu com informações sobre capoeiristas famosos como Mestre Damião, Mestre Ananias, Madame Satã, de pesquisadores com Pol Briand e Miltinho Astronauta (Editor do Jornal do Capoeira) e ainda sobre a capoeira, a pernada, a tiririca e outras formas regionais de capoeira.
  
Mano Lima (foto) atualmente está em viagem pela Europa para a divulgação dessa terceira edição do Dicionário. Pretende ainda, na volta para o Brasil, divulgar nas cidades brasileiras.
 

Os interessados em receber um exemplar em casa devem depositar a quantia de R$30 na conta do autor, Mano Lima, Banco do Brasil, agência 19, conta 21.987-8 e informar o endereço.
 

Mano Lima é jornalista, editor dos sítios www.portalcapoeira.com, www.jornalmundocapoeira.com
e  autor dos livros "Dicionário de Capoeira" e "Eu, você e a capoeira"
 

Livro: Scenas da Escravidão – Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba

Scenas da Escravidão será lançado dia 09 de dezembro
 
O livro Scenas da Escravidão – Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba será lançado no próximo dia 09 de dezembro, às 20 horas, no Espaço Cultural Saber Viver, do Centro de Estudos Filosóficos Iluminattis.
 
A obra, escrita por Carlos Carvalho Cavalheiro, é um estudo inédito sobre a escravidão negra em Sorocaba que revela aspectos interessantes do tema e acaba por desconstruir o mito de que na cidade a escravidão foi mitigada. Carvalho Cavalheiro comprova através de farta documentação a violência inerente à escravatura também em Sorocaba. A obra revela ainda a participação do teatro sorocabano na campanha abolicionista, a relação entre o tropeirismo e a escravidão, a presença de escravos na produção fabril, a luta de classes entre os senhores e seus escravos e as cenas de crueldade na escravidão. Traz também uma reflexão acerca da cultura afro-brasileira em Sorocaba e a perseguição institucional à essas práticas através da repressão policial, edição de posturas municipais, manifestação de leitores nos jornais antigos etc.
 
Trata-se de um ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba, desde o séc. XVII até a abolição (séc. XIX), mostrando a discriminação e o preconceito racial em Sorocaba, buscando suas raízes históricas. Discute a falsa idéia de que a escravidão em Sorocaba foi amena, bem como as formas de controle ideológico sobre a mão-de-obra escrava. Além de discorrer sobre a escravidão em Sorocaba, o texto aborda também aspectos particulares da escravidão na região, em cidades como Itu, Porto Feliz, Araçoiaba da Serra (Campo Largo), Salto de Pirapora e até Campinas.
 
O autor pleiteou recursos da LINC deste ano para a publicação da obra, mas teve negado o projeto sob a alegação de que se trata de livro destinado ao público acadêmico. A partir da negativa da LINC, Cavalheiro buscou a publicação em formato mais econômico e tiragem reduzida. Para tanto, despendeu de recursos próprios e de apoiadores culturais como o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, o Sindicato dos Empregados do Comércio de Sorocaba, o Psol (Diretório Municipal), a Crearte Editora, a Implastec, a AFCC Consultoria e Pesquisa, a Academia de Capoeira Nacional, o Movimento Anarquista, o Provocare, a ONG Memória Viva, o Movimento Anarco-cristão, o Centro de Estudos Filosóficos Iluminattis, a Livraria Sebo Nacional e o Escritório de Advocacia Dr. Valdecy Alves.
Livro: Scenas da Escravidão - Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba“Esta é a única obra que trata especificamente da escravidão sorocabana em todo o período e não só na época da campanha abolicionista.
 
O único inconveniente em relação a publicação de uma tiragem reduzida é que não se tem condições de distribuir uma cota para os arquivos, museus, universidades e bibliotecas. É uma pena!” 
 
Carlos Cavalheiro
 
A tiragem dessa edição é de 300 exemplares, sendo que parte disso é destinada aos apoiadores. O restante será comercializado no dia do lançamento.
 
Scenas da Escravidão possui 185 páginas e ilustrações interessantes relacionadas a cultura e história da escravidão em Sorocaba. A revisão histórica foi realizada pelo historiador Prof. Ms. Rogério Lopes Pinheiro de Carvalho e a revisão gramatical pelo prof. Ivaldo José de Carvalho. O prefácio é de autoria de Armando Oliveira Lima, presidente do Instituto Darcy Ribeiro.
 
O autor, Carlos Carvalho Cavalheiro, é professor de História da rede pública municipal de Porto Feliz e pesquisador da História e Cultura de Sorocaba e do Médio Tietê. Escreveu e publicou os livros Folclore em Sorocaba (1999), A greve de 1917 e as eleições municipais de 1947 em Sorocaba (1998), Salvadora! (2001) e Descobrindo o Folclore (2002). Produziu ainda o CD “Cantadores – O folclore de Sorocaba e região” com a participação de grupos folclóricos como a Folia de Reis de Sorocaba, a Folia do Divino de Araçoiaba da Serra, a Dança de São Gonçalo de Porto Feliz, o Terço Cantado de Itu e o Cururu de Sorocaba entre outros. Participou ainda da produção do CD e documentário “Cantos da Terra”. Idealizou a Enciclopédia Sorocabana ( www.sorocaba.com.br/enciclopedia ) e a Reabertura do Inquérito sobre o Saci-Pererê ( www.crearte.com.br/saci.htm ). Neste ano proferiu palestra em agosto no SESC de Sorocaba sobre o Folclore de Sorocaba e do Médio Tietê. 
 
O Espaço Cultural Saber Viver está localizado na Rua Riachuelo, 437 – Bairro Vergueiro. O lançamento será às 20 horas e a entrada é franca.
 
carlosccavalheiro@yahoo.com.br

A história da capoeira em Sorocaba

Grande parte dos estudiosos da capoeira insiste na tese de que o estado de São Paulo só conheceu essa manifestação afro-brasileira a partir de meados do século XX, quando capoeiristas baianos como Mestre Ananias, Mestre Esdras Santos, Mestre Suassuna e outros fundaram seus grupos e academias na capital paulista.
{jgquote}“Menino preste atenção No que eu vou lhe dizer: O que eu faço brincando Você não faz nem zangado. Não seja vaidoso, nem despeitado. Na roda da capoeira, há, há Pastinha já ‘tá classificado.” (Ladainha de Angola do Mestre Pastinha){/jgquote}
À luz da análise de documentos e pela analogia dos fatos históricos essa afirmação parece insustentável. Primeiro, porque o número de escravos negros no estado de São Paulo sempre foi relevante. Segundo, é fato notório e conhecido que após a proibição do tráfico negreiro (que coincide com a expansão cafeeira) a mão-de-obra escrava da lavoura paulista será buscada na importação do escravo de outras regiões brasileiras em que o ciclo econômico esteja em decadência, como foi o caso da cultura açucareira do Nordeste e a exploração de minérios em Minas Gerais1. 
 
Sorocaba, embora não fosse atingida pela expansão cafeeira, antes possuía economia esdrúxula para a época, calcada no comércio de tropas. O número de escravos era relativamente grande, embora concentrados nas mãos de poucos proprietários2.
 
Não há como negar, portanto, a presença marcante do escravo negro na história de Sorocaba. Luiz Mott, pesquisando os arquivos da Torre do Tombo, encontrou mesmo documentos referentes à prisão do escravo João Mulato, em 1767, pelo Tribunal da Inquisição, que estava em visita Pastoral a Sorocaba. A prisão do escravo foi pelo motivo do mesmo portar uma “bolsa de mandinga” — um patuá. Esse amuleto é conhecido por sua fama em “fechar o corpo” de quem o carrega. Dessa forma protege-se de agressão física produzida por quaisquer instrumentos3.
 
Portanto, a presença da cultura africana e afro-brasileira no estado de São Paulo é antiga. Mas isso seria suficiente para autorizar, por analogia, a declaração de que em São Paulo já se tinha notícia da capoeira antes do século XX?
 
Certamente o argumento é frágil se não escorado por documentação inquestionável. E vamos encontrar tal documento nas Posturas Municipais da cidade de São Paulo, que, a requerimento do Presidente da Província, Cel. Rafael Tobias de Aguiar, sorocabano de escol, foi apresentado no dia 24 de janeiro de 1833 e aprovado pelo Conselho Geral em 1º de fevereiro do dito ano e publicado a 14 de março. Rezava parte da Postura que: “Toda pessoa que nas praças, ruas, casas públicas ou em qualquer outro lugar também público, praticar ou exercer o jogo denominado de capoeira ou qualquer outro gênero de luta, (…)4.”
 
Tem-se aí, claramente, a olhos vistos, que a capoeira em São Paulo não somente era conhecida como proibida pelo menos a partir do ano de 1833!
 
Cai por terra a teoria de que São Paulo conheceu capoeira somente no século XX. É preciso ter claro na mente como se desenvolveu a capoeira e separar em dois momentos históricos: o da informalidade e o da formalidade dessa prática. Primeiramente, devemos entender que a mesma apareceu entre os negros escravos de Angola e os primeiros registros dão conta de que se tenha desenvolvido entre os quilombolas de Pernambuco. Posteriormente, essa luta encontrou em todos os rincões do Brasil suas formas regionais: a capoeira Angola e a pernada no Rio de Janeiro, a punga no Maranhão, o bate-coxa em Alagoas, o cangapé ou cambapé no Ceará, a tiririca ou pernada em São Paulo, a capoeira de Angola (e posteriormente a Regional Baiana) na Bahia5.
 
O fluxo de escravos de uma região a outra, depois da proibição do tráfico negreiro, e atendendo as demandas econômicas de cada localidade, deram à capoeira possibilidade de eficazmente se difundir por várias partes do Brasil, sempre mantendo algumas características básicas, como o jogo de pernas, alguns golpes e a música como elemento rítmico e dissimulador da belicosidade. Essa forma de capoeira era informal, não se aprendia em academias (até porque desde 18906 estava proibida pelo Código Penal, pena que perdurou até 1937).
 
Com a fundação de academias de capoeira, em fins dos anos 30 e início dos 40, pelos Mestres Bimba e Pastinha, surgiu aí o modelo baiano de prática formal da capoeira. Antes, era brincadeira de rua, aprendida nos becos e nos quintais, escondida. A partir das primeiras academias muda-se o paradigma7. E essa capoeira formal, baiana, esse modelo de prática é que vai ser exportado para São Paulo a partir de fins da década de 1940 a início de 19508. Antes, a capoeira já era conhecida nesse estado.
 
Em março de 1892 houve um confronto entre os “morcegos” (praças da polícia fardada) e soldados do exército paulista que eram capoeiristas, ocasionando distúrbios na cidade de São Paulo9. Em 1923, para citar outro exemplo, o escritor Monteiro Lobato escreveu o conto O 22 da ‘Marajó’ em que denota a familiaridade com termos típicos da capoeira, afirmando mesmo que “Antes do futebol, só a capoeiragem conseguiu um cultozinho entre nós e isso mesmo só na ralé.” Mais adiante revela a intimidade com a gíria dos capoeiras: “— Só uma besta destas dá soltas sem negaça…”10.
 
O delegado de polícia de São Paulo e escritor, João Amoroso Netto, na biografia do célebre bandido Dioguinho11, publicada em 1949, afirma, comentando sobre fato ocorrido por volta de 1890, que “O delegado de polícia de Mato Grosso de Batatais12 estava furioso, porque os soldados haviam deixado fugir um preto capoeira que se metera numa briga.” Disso se depreende que a capoeira já era conhecida no estado de São Paulo no século XIX, e mesmo em 1949, ano da publicação referida, era manifestação conhecida, já que com naturalidade foi citada e nem mesmo houve necessidade de explicação em nota.
 
Em outro livro sobre o mesmo Dioguinho, encontramos referência a capoeira praticada na cidade de Botucatu, em meados do século XIX: “Dioguinho… Frequentava assiduamente as rodas de capoeira no largo da Igreja São Benedito, onde se tornou um exímio capoeirista, um dos melhores lutadores dessa luta-arte da cidade e região13.”
 
Com relação à cidade de Sorocaba, inúmeros documentos demonstram o conflito entre senhores e escravos, desmentindo a lenda de que nessa cidade os escravos eram pacíficos porque eram “bem tratados e quase todos domésticos”.
 
Em 1836, no dia 6 de abril, Salvador, escravo de Manoel Claudiano de Oliveira resistiu a voz de prisão do Comandante e dos praças da Patrulha, mesmo depois de desarmado da faca que carregava, tendo mesmo lutado com os soldados e disparado com arma de fogo contra os mesmos14. Em 1833, Francisco, escravo do alferes Bernardino Jozé de Barros respondeu a processo crime por desferir uma pancada em Manoel Antonio de Moura15. Em 1832, no dia 27 de ju nho, Bento, escravo do Padre Reverendo João Vaz de Almeida, agrediu, numa, luta Manuel José de Campos, ferindo-o com uma facada16. Em 1835 o escravo Salvador, de propriedade de José Joaquim de Almeida, foi ferido a espadada por Thomaz de Campos, depois do escravo cobrar uma dívida17. O fato ocorreu no dia 12 de agosto de 1835. Em 1875 o escravo Generoso desferiu um tiro alvejando e matando o seu senhor, Tenente Coronel Fernando Lopes de Sousa Freire18.
 
Escravos valentes, lutadores, fortes. As crônicas judiciárias da cidade de Sorocaba estão recheadas de informações a esse respeito19. Reporte-se ainda ao caso dos escravos Antônio, Roque e Amaro que foram enforcados depois de condenados pelo Júri de Sorocaba por terem matado o senhor, Joaquim Rodrigues da Silveira, no dia 14 de novembro de 1850. É interessante notar que dos depoimentos colhidos à época dos fatos, soube-se que Antônio era natural de Pernambuco, Vila de Catolé, e que Roque “viera vendido da Bahia”20. Não só reforça a afirmativa de que para cá vieram escravos vendidos do Nordeste, bem como os dois estados dos quais eram naturais os escravos são tradicionalmente terras em que se deu a gênese da capoeira!
 
Portanto, em que pese as diferenças regionais (Mestre Bimba mesmo nomeou o seu estilo como Capoeira Regional Baiana), não é impossível que elementos que conheciam a capoeira em seus estados natais tivessem sido vendidos para o sudeste e continuado aqui sua prática. Aliás, é mais que provável.
 
Entretanto, a fim de sairmos do campo das hipóteses e lançar para nossos pés fundamentos mais sólidos, recorremos a documentos ainda mais esclarecedores.
 
Em 26 de agosto de 1850 a Câmara Municipal de Sorocaba enviou ao Presidente da Província um ofício anexando a este o Código de Posturas Municipais de Sorocaba, com a finalidade de ser aprovado, o que de fato ocorreu no dia 7 de outubro de 1850. No Título 8º desse Código de Posturas, no artigo 151 está explícito: “Toda a pessoa que nas praças, ruas, casas públicas, ou em qualquer outro lugar tão bem público practicar ou exercer o jogo denominado de Capoeiras ou qualquer outro gênero de luta, sendo livre será preso por dous dias, e pagará dous mil reis de multa, e sendo captiva será preso, e entregue a seo senhor para o fazer castigar naquela com vinte cinco açoites e quando não faça sofrerá o escravo a mesma pena de dous dias de prisão e dous mil réis de multa 21.”
 
Nem se diga que o Código de Posturas era genérico e uma “cópia” de outros códigos similares, não refletindo a realidade local. Tal afirmativa é insustentável à luz do teor do ofício da Câmara Municipal de Sorocaba que encaminhou ao Presidente da Província o referido Código de Posturas. No texto da carta os edis sorocabanos salientam que “Porquanto, sem que nem de leve se presuma que a Câmara actual pretenda censurar suas predecessoras, preciso é confessar pela incidência dos factos, que este ramo do serviço Público se acha neste Município em perfeito atraso. V. Exa. não ignora que quando a Lei de 1º de outubro de 1828 deixou as Câmaras Municipaes o direito de propor suas Posturas os objectos do Tº 3º e conheceo a dificuldade de legislar na Polícia Administrativa para casos tão especiaes, para localidades tão disseminadas, tão distintas em usos, em costumes, e em diverças outras circunstancias, que podião fazer com que uma medida salutar para um Município não só não fosse aplicável a outro seo vizinho, como atte fosse lhe prejudicial. Esta disposição, Exmo. Sr., que esta Câmara julga a mais bella parte da Lei mencionada tem sido pouco attendida pelas Câmaras Municipaes, donde restta que vários casos que podem ser prevenidos pelas Posturas, força é confessar que o Município de Sorocaba já gabava dalgumas Posturas optimamentes adequadas as suas necessidades, porem dentre estas muitas havião, que já se tornarão inúteis pelo desaparecimento dos casos aqui e não aplicados, e outras erão sofismadas pelos interessados, seguindo diverças intelligencias a que prestavão, acorrendo actos inconvenientes o nenhum nexo que tinhão essas Posturas entre si, porque mais erão feitas d’ordinário depois que apparecia o facto, que convinha de antes processar attentar a tais circunstancias esta Câmara logo em comissão de seus trabalhos tratou de confeccionar um Código de Posturas dividido por sessoins, títulos, e artigos, segundo lhe foi permittido pela Assembléia Legislativa Provincial em 1837, comprehendendo em cada uma dellas a matéria que lhe parecia própria, ficando dest’arte não só mais sistemático o corpo das Posturas, como mesmo mais justados aos que ella precisavam recorrer. Este código de Posturas é o que esta Câmara tem a honra de endereçar a V. Exa., pedindo a sua aprovação provisória atte que a Assembléia Provincial approve deffinitivamente, para onde V. Exa. designará enviada em tempo competente.”22
 
Está assim definitivamente provado que a capoeira existia, era conhecida e combatida na cidade de Sorocaba no mínimo a partir de 1850. E era fato que merecia atenção das autoridades locais. O Código de Posturas de 1850 era o mais adequado e atual para aquela época e para a cidade. Já no início do século XX vamos encontrar notícias sobre capoeiristas que praticavam a brincadeira na informalidade. Segundo testemunho da senhora Thereza Henriqueta Marciano, 71 anos, nascida em Tietê e residente em Sorocaba desde 1934, seu pai, o senhor João André era praticante dessa arte, a qual aprendeu com seu pai, José André, na fazenda Parazinho em Tietê. Da época em que viveu em Sorocaba, a partir de 1934, João André sempre brincou de capoeira e de maculelê (dança de paus, como disse dona Thereza)23. João André era negro e nasceu em 1889. Além da capoeira e do maculelê, conhecia o tambú, ou samba caipira. Faleceu em Sorocaba em 1965, aos 74 anos de idade.
 
Josias Alves, conhecido por Chiu, foi outro capoeirista que, nascido na Fazenda Lulia em Maristela, passou a residir em Sorocaba a partir de 1958. Alega que brincava capoeira na fazenda e em Sorocaba, juntamente com um grupo de negros capoeiras, no clube 28 de Setembro, entre os anos de 1958 a meados de 1960. As brincadeiras eram acompanhadas por um berimbau e um pandeiro. Chiu informou que a capoeira era reprimida pela polícia, mesmo em 1958 (anos depois de ser tirada do Código Penal). Não era perseguição a capoeira em si, mas a qualquer reunião festiva de negros, segundo sua concepção. Aliás, os rituais afro-brasileiros também eram vistos com muitas reservas, conforme seu depoimento24.
 
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A Capoeira por Lima Campos (1906)

Clássico da Literatura da Capoeira, com ilustrações de Kalixto
 
Jornal do Capoeira – www.capoeira.jex.com.br
Edição AUGUSTO MÁRIO FERREIRA – Mestre GUGA (n.49)
de 13 a 19 de Novembro  de 2005
Nota do Editor:
Temos publicado, aos poucos, algumas crônicas e textos da literatura clássica da Capoeira, sendo a maioria delas publicadas originalmente no Rio de Janeiro, entre o final do século XIX e início do século XX. O clássico que publicamos nesta edição – "A Capoeira", por Lima Campos, Revista Kosmos, 1906 – foi enviada foi há algum tempo pelo capoeira-pesquisador Carlos Carvalho Cavalheiro, Sorocaba, SP. Para abrilhantar tal clássico, o autor contou com famosas ilustrações de Kalixto. Tanto o texto quanto as ilustrações descrevem minúcias do cotidiano capoeirístico do Rio de Janeiro, com detalhes sobre seus jeitos, tipos e vestimentas. O facsimili enviado por Cavalheiro é parte integrante do acervo particular do historiador Adolfo Frioli. 
Miltinho Astronauta


A capoeira
(parte I)
 
Lima Campos, Rio de Janeiro
Revista Kosmos, 1906
 
"TYPOS E UNIFORMES DOS ANTIGOS NAGOAS E GUAYAMÚS SENDO OS PRINCIPAES DISTINCTIVOS DOS PRIMEIROS CINTA COM CORES BRANCA SOBRE A ENCARNADA E CHAPÉO DE ABA BATIDA PARA A FRENTE E DOS SEGUNDOS COM CORES ENCARNADAS SOBRE A BRANCA E CHAPÉO DE ABA ELEVADA NA FRENTE.
 Não te conto nada seu compadre! o samba esteve cuerêréca. No fim que houve uma chorumella de escacha. O Cara Queimada estava de sorte com a Quinota quando o marchante chegou. Ih! seu camarada! Foi um estrompicio!
O Marchante era sarado, foi logo encaroçando a joça. Eu tive que entrar com o meu jogo, sim, tu sabes, que não vou nisso, e ali eu estava separado, não havia cara que me levasse vantagem. Quando a coisa estava preta eu fui ver como era p’ra contar como foi."
"Das cinco grandes luctas populares: a savata francesa, o jiu-jitsu japonês, o box inglêz, o páu portuguêz e a nossa capoeira, temiveis pelo que possuem de acrobacia intuitiva de elasterio e de agilidade em seus recursos e avanços tacticos e em seus golpes destros é, sem duvida, a ultima, ainda desconhecida fóra do Brasil, mesmo na América, a melhor a mais terrível como recurso individual de defesa certa ou de ataque impune.
Nas outras (com bem limitada excepção de apenas alguns golpes detentivos ou de tolhimento no Jiu-jitsu e a limitadíssima excepção do celebre circulo defensivo descripto pelo movimento giratório contínuo do páu no jogo portuguêz) o valor está no ataque; na capoeira, porém, dá-se o contrario: o seu merito básico é a defesa; ella é por excelência e na essência defensiva
 
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E “seu Bimba” foi notícia até em Sorocaba

Artigo sobre a repercussão em Sorocaba, São Paulo, da vinda de Mestre Bimba e seus discípulos para a Capital Paulista, ano de 1940

Por Carlos Carvalho Cavalheiro
Sorocaba – São Paulo
Maio de 2005
 

Ao Mestre Damião, com admiração.

                                                            

                  Manoel dos Reis Machado, conhecido como Mestre Bimba, criador da capoeira regional baiana, esteve em São Paulo no final da década de 1940, a partir de contatos de alunos seus com empresários de lutas e amigos da capital paulista, para divulgar a sua capoeira baiana em exibições no ginásio do Pacaembu (SANTOS, 1996).

                   Essas exibições, que se estenderam depois para o Rio de Janeiro, foram as primeiras sementes para o sucesso da capoeira regional baiana no sudeste do Brasil. Basta lembrarmo-nos de que Mestre Damião (Esdras Magalhães dos Santos) foi, muito provavelmente, o primeiro a ensinar em academia essa forma regional da capoeira na cidade de São Paulo, sendo esse mestre um dos componentes da comitiva de Mestre Bimba. 

E foi assim que, de setembro de 1950 a maio de 1951, funcionou em São Paulo a primeira Academia de Capoeira (Luta Regional Baiana)…" (SANTOS, 1996).
 

                          A despeito de, no futuro, surgir qualquer outra informação diferente desta, o que se deve considerar é que o fato de Mestre Damião ter ensinado capoeira regional baiana em São Paulo, em academia – portanto, de maneira formal – está amplamente documentado. Entretanto, isso não exclui a existência da prática da capoeira (em suas formas e vertentes) em solo paulista antes do final da década de 1940 ou início de 1950. Muitos documentos aprovam essa prática mesmo no século XIX.

  
A postura de 17 de novembro de 1832, uma entre muitas, proibia o jogo da capoeira: "…Trazem oculto em um pequeno pau escondido entre a manga da jaqueta ou perna da calça uma espécie de punhal…" (DIAS, 2001).
 

                              Letícia Vidor de Sousa Reis (2000) ao citar Lilia Moritz Schwarcz, apresenta publicações do jornal Província de São Paulo (que se tornará posteriormente O Estado de São Paulo), datadas do final do século XIX, acerca da capoeira e de capoeiristas da capital paulista. E é conhecido ainda o conflito entre a polícia e recrutas do exército, estes últimos capoeiristas, na cidade de São Paulo em 1892 (CAVALHEIRO, 2000).

                         Essas informações da capoeira em solo paulista demonstram que a na sua gênese a luta afro-brasileira foi difundida para praticamente todas as regiões do país, especialmente a partir de 1850 com o fortalecimento do tráfico interno de escravos. E, embora faltem estudos a respeito, pode ter originado diversas formas regionais como a pernada, a tiririca, a punga, o bate-coxa, o cangapé (ou cambapé) entre outros.

                          Porém, com relação à capoeira regional baiana, a documentação até agora angariada nos dá conta de ter chegado a São Paulo por volta de 1948/49 e ter seu ensino formalizado em academia a partir de 1950.
 

No ano de 50 e 51

Mestre Damião ministrou

Primeiro curso oficial de Capoeira

Que em São Paulo se registrou

Na academia de Kid Jofre

Waldemar Zumbano da CBP atestou.  (ASTRONAUTA, 2004).
 

                            A importância histórica da apresentação da comitiva de Mestre Bimba em São Paulo pode ser medida tanto pelos frutos advindos desse trabalho, como pela repercussão que houve nos meios de comunicação, especialmente a imprensa especializada em esporte. A verdade é que essa apresentação da comitiva de Mestre Bimba foi essencial para a capoeira regional baiana ser o que é hoje, especialmente em São Paulo.

                          Em Sorocaba, interior de São Paulo, a notícia da vinda de Bimba e seus alunos foi noticiada pela Folha de Sorocaba, um importante jornal da época. Eis a nota:

"Mestre Bimba"exibir-se-á no Pacaembú.

O "mestre"trouxe consigo os seus oito melhores alunos. " Espectativa em torno da estréia do "rei dos capoeiras".

Um espetáculo inédito está reservado aos paulistas, hoje á noite, no ginásio do Pacaembú, com a apresentação, ao público bandeirante, de "Mestre Bimba", o rei dos capoeiras.

A luta nacional ganhou notoriedade na Bahia com o aparecimento de "Mestre Bimba", desfrutando de grande popularidade esse baiano, graças a destreza, malícia e coragem por ele demonstrados no emprego da capoeira como excelente método de defesa e ataque.

Tornando-se famoso:  "Mestre Bimba" de temível arruaceiro que era, sendo o terror da polícia da terra do vatapá, converteu-se, dedicando-se a ministrar os ensinamentos e segredos da capoeiragem.
Desde logo sua "academia" passou a ser freqüentada por médicos, engenheiros, advogados, oficiais do Exército, da Marinha, Aviação e Polícia que lá iam em busca das lições do "mestre" capacitados, da eficiência e valor do sistema aplicado tanto para defesa como para o ataque.

As lições surtiram o efeito desejado, sendo hoje "Mestre Bimba" um homem respeitado, tal a admiração que os alunos devotam ao "professor".

É este precisamente o afamado capoeira  que os paulistas irão ter o ensejo de apreciar no ginásio do Pacaembu, "Mestre Bimba"estrelará com oito dos seus melhores alunos.

O espetáculo pelo seu aspecto inédito, vem sendo aguardado com ansiedade e geral expectativa, sendo grande o número de pessoas curiosas por apreciá-lo, e ao mesmo tempo

aquilatar se é verídico o que apregoam das vantagens da capoeiragem.
 

LOCAL DAS REFREGAS
 
Na capoeiragem todos os golpes são lícitos, tornando-se por esse motivo uma luta bastante movimentada e que requer amplo espaço para os antagonistas desferirem os mais variados golpes e os respectivos contra-golpes.

Para esclarecimento devemos elucidar que existem quarenta e cinco golpes , dos quais vinte e dois são mortais, e para cada golpes são empregados dois outros contra-golpes, e os combates são disputados ao som de um curioso instrumento, a que eles denominam berimbau.

Assim as refregas são travadas num grande estrado armado ao res do chão, de maneira a permitir que os contendores possam se movimentar à vontade, negaceando para desferir de improviso espetaculares golpes. (FOLHA DE SOROCABA, 09 Fev 1949).

                      Em São Paulo, como não poderia ser diferente, a presença de Bimba foi amplamente comentada, até mesmo nas rodas da malandragem, dos "espertos", dos jogadores da tiririca.

                      Toniquinho Batuqueiro, em entrevista cedida em março de 2005, alude ao fato de Pato N"Água, talvez o mais hábil dos jogadores de tiririca da época, ter se disposto a enfrentar os capoeiras da comitiva de Bimba no Pacaembu, fato esse que não ocorreu. Segundo Toniquinho, houve mesmo uma inflamação do pessoal da tiririca esperando a desmoralização que Pato N"Água poderia proporcionar aos baianos.

                     Apenas ânimos "regionalistas", nenhuma animosidade acirrada contra qualquer capoeira baiano.

 

Carlos Carvalho Cavalheiro.
 
O autor é pesquisador autônomo da história e do folclore de Sorocaba. Sócio efetivo da Comissão Paulista de Folclore (IBECC/UNESCO). Licenciado em História pela UNISO. Especialista (pós-graduação) em Gestão Ambiental – Faculdade Senac.


Bibliografia:                       

ASTRONAUTA, Miltinho – Capoeiras do Vale do Paraiba e Litoral Norte – Ed. do Autor – 2004.

CAVALHEIRO, Carlos Carvalho – Cantadores – o folclore de Sorocaba e região (encarte de CD) – Linc – 2000.

DIAS, Maria Odila Leite da Silva – Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX " Brasiliense " 2001.

FOLHA DE SOROCABA " "Mestre Bimba" exibir-se-á no Pacaembú – 09 fev 1949.

REIS, Letícia Vidor de Sousa – O mundo de pernas para o ar – A capoeira no Brasil – Publisher Brasil – 2000.

SANTOS, Esdras M. – Conversando sobre capoeira… – JAC Gráfica e Editora " 1996.


Ilustração: Folha de Sorocaba " 9 de Fevereiro de 1949 " Fotografado por Rogério Lopes Pinheiro de Carvalho
 
Autor: Carlos Carvalho Cavalheiro
 

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