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Bahia: 30 capoeiristas recebem certificado de “capoeirista-educador”

No próximo dia 03 de setembro, às 15h, será realizado no Forte de Santo Antônio Além do Carmo o encerramento da turma João Pequeno de Pastinha e aula inaugural da 2ª turma do curso "Capoeira – Educação para a Paz". Durante o evento 30 capoeiristas receberão o certificado de "capoeirista-educador".

Iniciativa da Superintendência da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SECULT), o curso se insere na ação de aplicação da Lei Federal Nº. 11.645/2008, que institui a obrigatoriedade do tema "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena" no currículo oficial da rede de ensino no Brasil.

Durante 45 dias, os alunos participaram de 27 módulos que incluíram aulas de direitos humanos, educação das relações étnico-raciais, elaboração de projetos, aspectos históricos da violência racial e de gênero, arte e resistência negra na Bahia e outros conteúdos que aproximaram o caráter dialógico e inclusivo da capoeira, as vivências pedagógicas colaborativas a exemplo do "círculo de cultura", metodologia desenvolvida pelo educador Paulo Freire.

O curso "Capoeira – Educação para a Paz" será uma ação permanente do Forte de Santo Antônio Além do Carmo. O forte fica localizado na Praça Barão do Triunfo, mais conhecida como Largo de Santo Antônio, no bairro de Santo Antônio Além do Carmo – Centro Histórico de Salvador, e é o mais novo espaço administrado pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), autarquia da Secult.

Geovan Adorno Bantu
Assessoria de projetos
do Forte de Santo Antônio Além do Carmo
(71) 8721-9265/3117-1492/3241-4695
msn: eueeumesmo_2@hotmail.com

Mestre Bimba

Mestre Bimba

No dia 23 de novembro de 1899 nasceu no bairro de Engenho Velho, freguesia de Brotas, cidade de Salvador, Bahia, Manoel dos Reis Machado. Teve como pai Luís Cândido Machado, caboclo de Feira de Santana. Sua mãe, Maria Martinha do Bonfim, era uma crioula de Cachoeira.
Logo ao nascer o garoto ganhou um nome que se tornaria símbolo e sinônimo da Capoeira. Isso graças a uma frase dita à hora do parto: – olha a bimbinha dele! Esta exclamação definiu o resultado de uma aposta entre a mãe da criança – que imaginava uma menina – e a parteira, que previra um menino. Ninguém seria capaz de pensar, naquele momento, que Bimba passaria a ser um nome destinado a acompanhar o futuro capoeira em sua entrada na história do jogo.
O aprendizado de lutas se iniciou com o pai, à época famoso lutador de batuque – uma antiga forma de luta negra. Aos 12 anos começou a aprender Capoeira com o africano Bentinho, capitão da Cia. de Navegação Bahiana.
Segundo suas palavras, o sistema de aulas à época era bastante violento. As rodas eram formadas na Estrada das Boiadas (atual bairro da Liberdade), em Salvador, num ritmo bravio ao som do berimbau. Mestre Bimba costumava recordar um golpe formidável aplicado por Bentinho, que o acertara na cabeça, provocando um desmaio até o dia seguinte…
Seu trabalho como mestre-capoeira iria distinguir-se pela divulgação do jogo em todos os recantos do país e a elaboração de um sistema próprio de treinamento e transmissão dos conhecimentos e técnicas do jogo: a Capoeira Regional Bahiana.
Graças aos seus esforços foi aberta a primeira Academia de Capoeira com autorização oficial. Esta seria a forma adotada por inúmeros mestres para obter e legalizar um espaço, onde a prática do jogo não sofreria o perigo de perseguições. Afinal, era o ano de 1937 e o país vivia sob uma ditadura – período que sempre se destaca pela generalização
das arbitrariedade e cometimento de toda sorte de violências pelos detentores do poder.
E o que era tolerado em um dia poderia ser reprimido no outro.
Em sua vida Bimba foi trapicheiro, doqueiro, carroceiro, carpinteiro. Mas acima de qualquer coisa e por todo o tempo, mestre de capoeira. Um dos maiores nomes deste ofício.
Ninguém melhor que um contemporâneo de Bimba para descrevê-lo brincando a Capoeira. Ramagem Badaró – de conhecida família bahiana da zona de cultivo do cacau, que foi enfocada por Jorge Amado em Terras do Sem Fim -, jornalista, advogado e escritor, autor do romance O Sol, deixou interessante relato acerca do mestre, no artigo intitulado
‘Os negros lutam suas lutas misteriosas; Bimba é o grande rei negro do misterioso rito africano’, publicado em Saga – magazine das Américas, no ano de 1944, em Salvador.
"Tinha uma difícil missão a cumprir. Encontrar um assunto para uma reportagem que não fosse sobre guerras, suicídios ou crime. Um assunto diferente que não proviesse da fonte comum de todas as reportagens da cidade. Das delegacias de polícia, do Necrotério ou da Assistência.
Porque os casos de delegacia são sempre os mesmos: roubo, crime e sedução. Os de Necrotério são anacrônicos e os de Assistência, banalíssimos. ‘Estava nesse dilema, quando passou um negro de andar gingante de capoeira. Tinha resolvido o problema. Lembrei-me de mestre Bimba e da velha Roça do Lobo. Fui até o bairro elegante dos Barris, em cujos flancos se derramam em desordem as casas de taipa da vala do Dique. Presépios de palha da miséria sem esperança dos homens do povo. Quando comecei a descer pela picada aberta na ladeira pelos pés
descalços e calosos daquela gente que nasce com o atavismo dos párias e a herança do infortúnio, já os sons dos berimbaus traziam aos meus ouvidos o cartão de Boas Vindas do terreiro de mestre Bimba.
Continuei descendo, até que de repente o caminho se alargou e se confundiu com o terreiro onde os homens lutavam Capoeira. O povo formava um círculo ao redor dos dois homens lutando.
Jogando Capoeira no centro do círculo.
‘O berimbau batia compassadamente, tin-tin-tin… tin-tin-tin… tin-tin-tin…
enquanto os homens pulavam, caíam, levantavam-se num salto e deixavam-se cair outra vez, se golpeando mutuamente. O povo batia palmas acompanhando a música dos berimbaus e cantando
o estribilho da Capoeira:

Zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um…
Caí também no meio da turma e comecei a bater palmas e a tentar cantar o zum, zum da Capoeira (…)."
Badaró narra o instante que precede a entrada do mestre Bimba no jogo e a emoção que tomou conta dos espectadores.
"De súbito, o tin-tin nervoso dos berimbaus sumiu, calou-se, parou. Os berimbaus deixaram de tocar.
Os homens que estavam lutando também pararam. Com as roupas molhadas de suor desenhando nas dobras
do corpo os músculos possantes.
Os assistentes aplaudiram os homens que tinham acabado de lutar. E eles cantaram um corrido, agradecendo os aplausos.

Ai-ai de lelô
Iem-ien de lalá
Adeus meus irmãos
Nós vamos rezar
‘Nesse momento gritaram:
– Mestre Bimba vai lutar!
‘Todo mundo se voltou para trás, batendo palmas e gritando.
– Mestre Bimba… mestre… viva… viva… vivôôôôôô.
‘Um preto agigantado entrou no círculo formado pelo povo. Sorrindo. A multidão aplaudiu com mais força.

  

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