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Memorial da Capoeira Pernambucana

” A idéia de um projeto surge de uma percepção, de uma visão – Gil Cavalcanti, o Mestre Gil Velho “

Prezados amigos,

Bem-vindos ao Memorial da Capoeira Pernambucana, uma iniciativa de mestre Gil Velho, patrocinada pelo Ministério da Cultura através do seu programa Capoeira Viva/Petrobras.

O Memorial cumpre a sua meta: não ser apenas um acervo estático, contendo somente o registro da capoeira do passado, e o mapeamento dos personagens da capoeira atual e sua distribuição geográfica; mas, sim, mostrar a força sócio-cultural da capoeira do séc. XIX, nas cidades do Rio de Janeiro e Recife e criar estratégias de resgate desta relação, para os personagens e seus espaços de atuação da capoeira atual.

Desta forma, o Memorial Pernambucano confirma sua intenção de desenvolver uma estratégia, através do uso da capoeira como vetor sócio perceptivo; criando ações que venham estruturar programas de inclusão sócio cultural, nos espaços que a capoeira está inserida.

Em síntese: a proposta deste projeto, ressalta a riqueza e a singularidade da cultura de um determinado contexto sócio cultural, ao se direcionar para construção da capoeira baseado nas informações da memória genética do indivíduo.Com isto, abre-se a possibilidade, através de seus ritmos sócio culturais, de resgate dos hábitos e valores das comunidades locais integradas na sociedade contemporânea. Desta forma, estimula o elo entre ações culturais e ações inclusivas sócio ecológicas, ao por em foco; registros que têm como essência a valorização da sobrevivência dessas comunidades ligadas a seus valores e a suas perspectivas identitária e territoriais.

O levantamento dos registros e interpretação feita pelo projeto, sobre a capoeira pernambucana do séc. XIX é um grande subsídio ao processo de inventário do pedido de registro da Capoeira como Patrimônio Imaterial Brasileiro e em simultâneo é, também, um grande subsídio para criação do Centro de Referências da Capoeira pernambucana, virtual e de caráter transdisciplinar e multimídia, com o objetivo de abrigar produções científicas, acadêmicas e audiovisuais, dentre outras.

Esta pesquisa, junto aos seminários que foram realizados, subsidiou o planejamento das oficinas sócio-perceptivas ao juntar a comunicação gestual da capoeira aos ritmos sócios culturais pernambucanos, como podemos ver no Link “Ações do Memorial”.

Saudações do mestre Gil Velho e do Memorial da Capoeira Pernambucana.

 

  • Visite o site do Memorial : http://www.memocapoeirapernambucana.com.br

 

Sobre o Memorial

O projeto da criação do Memorial da Capoeira Pernambucana foi desenvolvido, no prazo estabelecido pelo Projeto Capoeira Viva. Memorial cumpriu, a sua meta de não ser um acervo estático, contendo somente o registro da capoeira do passado e o mapeamento dos personagens da capoeira atual e sua distribuição geográfica Mas sim, mostrar a força sócio Cultural da capoeira de Pernambucana do séc. XIX, e criar estratégia de resgate, desta relação, nos personagens e seus espaços de atuação, da capoeira atual.

A meta principal: aproximar a capoeira à realidade sócio cultural pernambucano, como estratégia de maior penetração desta, no contexto sócio cultural, foi o que direcionou projeto E, neste sentido, se complementa a ação do inventário, pois, ao associar, na construção da comunicação gestual da capoeira, elementos do universo rítmico do contexto sócio cultural pernambucano, se atingem as informações da memória genética dos indivíduos. E, com isto, além do resgate do processo e forma que estruturou a capoeira de outrora dos Brabos e Valentões, temos o resgate do indivíduo na percepção de sua participação, na construção de seu contexto sócio cultural.

Desta forma, o projeto do Memorial Pernambucano confirma sua intenção em desenvolver uma estratégia, através do uso da capoeira numa perspectiva sócio perceptiva; criando ações que venham estruturar programas de inclusão sócio cultural, nos espaços que a capoeira está inserida. Foi proposta a criação do Centro Nacional de Referências da Capoeira no Brasil, que será virtual, de caráter multidisciplinar e multimídia, com o objetivo de abrigar produções científicas, acadêmicas e sobre a capoeira.audiovisuais, dentre outras. Espera-se que essa iniciativa possa facilitar consulta de referências existentes .

Capoeira e Identidade Cultural

O assunto é: Capoeira e Cultura:
 
Roda de Capoeira em comemoração ao Dia da Cultura e da Ciência. Roda Realizada no Distrito Federal no Ministério da Culutra. O Ministro Gilberto Gil, toca berimbau, canta na roda e fala da Importância da capoeira como elemento de divulção da nossa cultura pelo mundo e também como elemento formador de nossa identidade cultural.
 
Nosso ativo parceiro Fábio Moreira de Araújo (Mestre Onça) nos envia uma matéria sobre o tema com uma abordagem bastante atual, dentro deste contexto remomendamos que assistam ao video e saboreiem o texto.
 
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Capoeira e Identidade Cultural

Para compreendermos um pouco mais a importância da capoeira como elemento formador das nossas raízes culturais, é necessário fazermos um retrospecto histórico para entendermos o contexto do seu surgimento e de outros elemento culturais como o carnaval e a música.  Em análise ao contexto histórico,  da situação do indígena brasileiro, observamos a sua importante contribuição na formação étnica do nosso povo. Notamos que no caso particular  dos indígenas, houve uma destruição dos seus valores  culturais que os identificavam como seres humanos.  Os europeus (portugueses), ao chegarem à América, encontraram esta terra habitada por seres humanos: milhões de índios. Por pensar que  estavam chegando as Índias, deram  a esses habitantes o nome de índios. Essa denominação permanece até hoje, mesmo depois de ter percebido o engano. Perguntas que muita gente faz até hoje é: Qual a sua origem? Como foi o seu contato com os brancos? “ A verdade consiste no seguinte: quando os portugueses chegaram já havia toda uma organização social dos indígenas, mesmo não sendo  grupos totalmente homogêneos. Os indígenas já dominavam conhecimentos nas áreas  de astronômia, ecologia, veneno de caça e pesca, tapiragem, borracha. Nas artes tinham conhecimento sobre a pintura corporal, plumagem, arte em pedra, madeira, cerâmica, desenho, música e dança”. (1)

“… Existiu todo um processo colonizador do qual os índios brasileiros foram vítimas. Primeiro foram cativados para o trabalho de exploração do Pau Brasil, em seguida a sua troca por objeto que exerciam fascínios e por último, veio a escravização e a tentativa de fazê-lo trabalhar na lavoura da cana-de-açucar…” ( Galleano apud, Piletti 1991. P. 20 ).  Dentro desse processo de aculturação, muitos índios que conseguiam sobreviver eram submetidos  a um processo de descaracterização  cultural  através da catequese e da própria convivência com o branco. Dessa forma, muitos foram perdendo a sua identidade cultural, substituindo seus valores, crenças e costumes pelos valores, crenças  e costumes do colonizador europeu.  Transformaram-se em seres marginalizados e explorados dentro da sociedade dos brancos.

(01)PILETTI, Nelson. História do Brasil. Ed. ÁTICA, 1991. Pp. 18/19.

Os índios dos Brasil perderam  a sua identidade, mas sempre-se rebelaram contra os colonos que tentavam escarvizá-los e muito desses grupos foram quase que totalmente exterminados. Em várias regiões mais rica do país, os senhores de engenho resolveram trazer escravos africanos para suas plantações.  Por volta de 1.550 teve início a presença negra no Brasil (chegaram da África os primeiros navios negreiros com escravos, aportando-se  em várias regiões do país). O tráfico tornou-se  uma atividade bastante lucrativa e milhares de negros foram trazidos para o  novo continente. Iniciou-se  um longo processo de formação da população étnica brasileira. “… A formação  da população brasileira originou-se  de três grupos  o indígena, o branco e o negro.  Do cruzamento entre esses diferentes grupos resultou o elemento étnico que genericamente chamamos de mestiço ( caboclo, mulato e cafuzo). O mestiço constitui-se  a origem do povo brasileiro. O caboclo é o resultado do cruzamento  do branco com o índio, o mulato é o cruzamento do branco com o negro e o cafuzo e o cruzamento do negro com o índio…”(2)

Dessa forma, o Brasil vai se  transformando num verdadeiro mosaico étnico cultural. Começam  a surgir as tradições  e lendas do nosso folclore.  A palavra folclore vem do inglês FOLK-LORE   “Pensamento popular”, criada pelo estudioso William Thomas. Folclore é a maneira de sentir, agir e pensar de um determinado povo. Entre  as principais brincadeiras e lendas ligadas ao nosso folclore temos: A brincadeira de vaqueiros, a vaquejada, o bumba meu boi, o carimbó, a caatira, caipora, curupira, mula sem cabeça, saci-pererê, lobisomem. “ Temos as festas populares na Bahia como o afoxé, que é o sagrado participando do profano. Essa é a única festa religiosa que os membros do candomblé (de origem jeje-nagô) terão que cumprir.


(02) COELHO, Marcos Amorim. Geografia do  Brasil. ED. Moderna, 1992. P. 101.

“ O afoxé é  um candomblé adequado ao carnaval. Temos também o candomblé que é um ritual ou culto africano, trazido pelos escravos negro durante o período colonial. Temos também na Bahia a festa de Iansã ou  Santa Bárbara, a festa da Conceição da praia no dia 08 de dezembro, a procissão de nosso Senhor Bom Jesus dos Navegantes, a festa da Ribeira, festa de Iemanjá, Pesca do  xaréu ( nas praias de amaralina e itapuã), lavagem do Bonfim, que é a Segunda maior festa popular da Bahia depois do carnaval e acontece na manhã  da terceira Quinta feira do mês de janeiro”. (3)

Roberto Mamata (1993), na sua obra intitulada “ Carnavais, Malandros e Heróis”,  faz uma análise sucinta e detalhada dos valores e atitude  das pessoas. Segundo o autor da obra existem dois tipos de pessoas que identificam a nossa brasilidade. O primeiro é a figura de  do malandro (estudada sobre a figura de pedro malassartes). Aqui o malandro é um ser deslocado de regras formais da estrutura social, fatalmente excluído do mercado de trabalho, aliás definido como totalmente individualizado e avesso ao trabalho. E o segundo é o renunsciador (Augusto Matraga, personagem de Guimarães Rosa). Este se fecha num mundo totalmente seu, deixando de lado prazeres e valores sociais.

Roberto Damata (1993) apud Reis (1996), A música popular é cheia de representações, são manifestações concretas, elabora, reflete, representa e dramatiza certos valores da sociedade brasileira, tornando-os importantes, e cheios de sentido e intencionalidade. A capoeira, o carnaval e a música são elementos importantes na formação  da nossa cultura. Nesse pequeno ensaio, não vamos fazer um estudo minuncioso e detalhado de todos os seus aspectos, buscaremos as relações e contribuições desses elementos na formação da nossa identidade cultural. A música popular brasileira tem participação importante enquanto elemento de expressão popular. Em análise ao dálogo existente nas cantigas dos negro Ortiz (1951) apud, Rego (1968), examinou seus vários aspectos mostrando sua importante contribuição como elemento formador das  nossas raízes culturais.

(3) AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos – Guias de ruas e Mistérios,  Ed. Record, 1986. Pp. 128-143.

“ O conceito de “cultura popular” se confunde, pois, com a idéia de conscientização.  Subverte-se dessa forma o antigo significado que assimilava a tradição à categoria de cultura popular.  “ Cultura Popular”, não é, pois, uma concepção de mundo das  classes subalternas, como e para Gramsci e para certos folcloristas que se interessam pela mentalidade do povo” (4)

Hermano Vianna (1995) apud Reis (1996), faz uma análise da história do samba como expressão  cultural e  identidade nacional brasileira.  A partir da década de 30, começa  um processo de reconhecimento de identidade  de povo “sambista”. Existia ainda uma tendência de transformar o samba em rítimo nacional do brasileiro. O samba passaria então de rítimo subversivo da ordem à música nacional e oficialmente aceita. As músicas cantadas nas rodas de capoeira tem valor historicamente consagrados para a vida social do brasileiro, seja do ponto de vista etnográfico, histórico e cultural. Essas cantigas falam da vida do negro (as senzalas,  a escravidão, os quilombos etc…). A capoeira surge dentro desse contexto como uma manifestação cultural brasileira. Essa  era a única arma que o negro  dispunha para livrar-se do sistema opressor, que lhe retirava toda essência como ser humano.

Segundo Ortiz (1995), existe na história da intelectualidade brasileira uma tradição em que diferentes momentos histórico procurou definir-se a identidade em termos de caráter  brasileiro. Sérgio B. Holanda buscou as raízes do brasileiro na “cordialidade”, Cassiano Ricardo na  “bondade” e Paulo Prado na “tristeza”, outros estudiosos procuram encontrar a brasilidade em eventos sociais ou ainda na índole malandra do ser nacional com fez Damatta.

(04) ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira & Identidade Cultural. Ed. Brasiliense, 1995. P. 72

“… Se por um lado a identidade cultural preservada se apresenta como uma questão de sobrevivência em oposicão a uma estrutura excludente, por outro lado surge o problema da possibilidade da preservação dessa identidade no contexto da modernização…” (5). Sabemos que a cultura é um processo dinâmico, influencia e sofre influências constantemente. A capoeira como parte importante de nossas manifestações culturais não pode ficar imune a essas transformações. Hoje a capoeira está sofrendo um processo de massificação aceleradíssimo , que pode estar levando-a a descaracterização enquanto arte-luta. Seria  possível, hoje, praticar aquela capoeira do passado com todos os seus rituais? Achamos que é importante analisarmos, entendermos e conhecermos a sua tradição cultural, ligada as suas raízes  para que possamos criar e recriar, inventar e reinventar, não deixando acontecer o mesmo que aconteceu com as sociedades indígenas. Preservando assim, as suas essências, sem descaracterizá-la como manifestação  autêntica da cultura do nosso povo.

(05) VIEIRA, Luiz Renato, Cultura Popular e Marginalidade, in  Revista de Educação e Filosofia –  Vol. 04 nº 08 jan/jun 90.

 
Um abração,
Mestre Onça
Beribazu-DF

A Realidade da Capoeira nas Escolas Públicas Estaduais do Município de Guanambi – BA

A Educação Física Escolar como componente curricular rico em possibilidades de socialização, integração, desenvolvimento de domínios cognitivos, motores, afetivos; espaço este onde os alunos podem ampliar sua capacidade de criar, recriar, avaliar, experimentar, tomar decisões e relacionar-se, vem sendo descaracterizado para tornar-se um espaço destinado a alunos que demonstram bom desempenho em determinados esportes para preparar equipes competitivas que representem a escola. Após ter cursado a disciplina Capoeira e discutido seus valores históricos, aspectos culturais e sociais, e ainda ter vivenciado a prática desta como fenômeno cultural, questionamos onde estaria a Capoeira nas aulas de Educação Física Escolar. Esse momento de curiosidade despertou uma inquietação seduzindo-nos a esse tema, motivo que nos levou a pesquisar e refletir sobre a Capoeira, questionando assim a sua importância na escola. Para realização desta pesquisa foram entrevistados (13) treze professores das (07) sete escolas que tinham a Educação Física como componente curricular, totalizando 100% dos atuantes da rede estadual de Guanambi-BA. A partir dessa pesquisa detectamos que os professores percebem a importância da capoeira no ambiente escolar, porém não a introduziram ainda nesse contexto, citando motivos como a cultura da cidade, falta de espaço e/ou material, e ainda por não terem afinidades. Para tanto, adotamos o método quanti-qualitativo, utilizando questionários semi-estruturados, com o auxílio do gravador de voz. O que pretendemos na verdade é conscientizar e alertar os nossos leitores no sentido que elementos riquíssimos e tão próximos da nossa cultura vem perdendo cada vez mais espaço no contexto escolar e social

Palavras – chave: Educação Física; Capoeira; Ambiente Escolar.

 

INTRODUÇÃO

A Educação Física Escolar como componente curricular rico em possibilidades de socialização, integração, desenvolvimento de domínios cognitivos, motores, afetivos; espaço este onde os alunos podem ampliar sua capacidade de criar, recriar, avaliar, experimentar, tomar decisões e relacionar-se, vem sendo descaracterizado para tornar-se um espaço destinado a alunos que demonstram bom desempenho em determinados esportes para preparar equipes competitivas que representem a escola em diferentes locais (NISTA-PICCOLO, 1995). Práticas como estas são extremamente discriminatórias, exclusivas e fortalecem a idéia de que a disciplina Educação Física não seja respeitada como “componente curricular obrigatório da educação básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar” (BRASIL, 1996). O tempo dedicado a Educação Física é insuficiente dentro do currículo, comparado às outras disciplinas, levando-se em conta tudo que ela pode atingir.

Tendo em vista que grande parte dos professores de Educação Física não aproveita dos efeitos benéficos que a prática coerente traz, não só para ele professor, mas principalmente para seus educandos, as aulas tornam-se pobres, onde conteúdos tão ricos e complexos reduzem-se a um conteúdo mal sistematizado que é geralmente o futebol, dificultando assim as possibilidades dos educandos tornarem-se cidadãos conhecedores da cultura corporal e usufruir efetivamente desta, para beneficiar-se das inúmeras possíveis vantagens advinda da prática. (IORIO e DARIDO, 2005).

A partir desta compreensão procuramos verificar a prática dos professores das escolas estaduais do município de Guanambi – BA, no que se refere à adesão do conteúdo Capoeira inserido na carga horária regular do componente curricular Educação Física, pois a consideramos de grande valor, não só cultural, mas também éticos, étnicos, políticos, religioso, físico e motor, sendo assim, de extrema importância para a formação do ser humano integral, crítico, independente, autônomo, e cooperativo. O trabalho foi desenvolvido a partir de uma pesquisa com questionários semi-estruturados direcionados aos professores de Educação Física das escolas estaduais do município, adotando-se como foco principal a estima da Capoeira no cenário educacional, no intuito de dialogarmos quanto à valorização da cultura corporal, considerando então o movimento como forma de linguagem.

Entre os recursos pedagógicos que a Educação Física utiliza em sua tarefa de ensinar existem as atividades corporais proveniente da cultura da criança que fazem parte do seu próprio universo (FREIRE, 1989). Elas possuem uma percepção corporal muito ampla; correm, saltam, pulam, rolam, trepam, características principais do desenvolvimento psicomotor que a Capoeira se adequou perfeitamente, favorecendo um entendimento crítico dos seus movimentos, à medida que não seja interpretada como um ato puramente mecânico, mas um processo onde se identifiquem dimensões históricas, afetivas, sociais e motoras, cuja trajetória “pode-se levar a história da expressão e emancipação do negro brasileiro”. (TAVARES apud FALCÃO, 1998: 38)

A CAPOEIRA E UM BREVE HISTÓRICO

Algumas manifestações literárias mostram que a Capoeira pode ter origem em diversos movimentos de dança oriunda da África, tomando como exemplo, a Bassula, a Calcangula ou mesmo o Umundisvui, a Capoeira pode ter como ponto de partida muita dessas manifestações, no entanto, é diferente de todas elas (SOARES, apud IORIO e DARIDO, 2005, p. 181). Capoeira (apud IORIO e DARIDO, 2005: 181) afirma que “temos, agora, uma idéia de como nasceu, de quais as origens da Capoeira: mistura de danças, lutas e instrumentos musicais de diferentes culturas, de diferentes nações africanas”.

Na escravidão a Capoeira era uma fonte de luta disfarçada em dança para camuflar, já que a sua prática era extremamente proibida. Prova disso é sua introdução no Código Penal, 1890 até a década de 30 (CAPOEIRA, 2001), onde dizia que os capoeiristas presos em flagrantes estavam sujeitos a penas de dois a seis meses de prisão e os reincidentes seriam submetidos a chibatadas e poderiam ser enviados a ilhas isoladas, onde permaneceriam durante três meses submetidos a trabalho forçado. A Capoeira era usada pelos escravos como forma de defesa contra os senhores de engenho, policiais violentos, ou até para acertar diferenças e marcar hierarquia dentro da própria comunidade. Após a abolição da escravatura em 1888, tem-se início a marginalidade, onde os ex-escravos ou negros “livres” foram excluídos da sociedade, se aglomerando nos cortiços. Esses lugares representavam o centro da marginalidade, por isso os negros eram reprimidos constantemente através de abusos e perseguições dos policiais.

Os negros então sem ter o que fazer, usava a Capoeira como um artifício da malandragem. Faziam serviços sujos, como roubar e matar. A Capoeira era então, mais do que nunca, rejeitada pela sociedade e vista como “coisa de negro”, de vadio ou malandro. Na década de trinta, o presidente Getúlio Vargas, retirou a Capoeira do Código Penal, mas com interesse político. A Capoeira é legalizada, mas imposto que ela seja praticada em ambiente fechado como forma de controle desta manifestação. Surge aí o período das academias, onde a Capoeira sai das ruas e da marginalidade e começa a ser praticada e ensinada em recinto fechado. Isso por que após Getúlio Vargas ter extinguido a Capoeira do código penal em 1934, concomitantemente ele obrigou que tanto os cultos quanto à Capoeira sejam realizados fora das ruas, criando assim também, uma forma de controlar estas manifestações advindas da cultura negra.

A partir de 1930, no Brasil, essa manifestação cultural nos mostra dois tipos: a Angola e a Regional. A Capoeira angola era a praticada pelos escravos, porém com algumas significações, estas apresentadas com a inserção de instrumentos como o berimbau, o pandeiro, o agogô, atabaque, música na roda de Capoeira e o uso de vestimentas apropriadas para sua prática. Teve como principal personagem o saudoso mestre Pastinha e apresenta algumas diferenças da Capoeira regional. O jogo é mais lento e baixo, os praticantes brincam, dançam com verdadeira mandinga e não utilizam a violência. Tem por características a tradição dos mestres da antiga e as músicas mais lentas. Já a Capoeira regional, criada na década de 1930 por mestre Bimba (IORIO e DARIDO, 2005) apresenta outras características como a incorporação de golpes de outras lutas, a movimentação rápida, a formação de um método pedagógico de seqüências de golpes, ataque e defesa, a música mais rápida e a combatividade, tornando-a um pouco violenta.

POLÍTICA EDUCACIONAL E INDÚSTRIA CULTURAL

A sociedade capitalista em que vivemos sempre veio procurando utilizar-se da instituição escolar para transmitir ao futuro trabalhador somente o conhecimento necessário para a continuação do processo de produção em benefício da classe dominante.

Concordando com Faria Filho (1997), a escola trabalha a corporeidade para a ordem e a disciplina e, tendo toda a organização escolar voltada para esse contento, a disciplina da Educação Física vem assumindo explicitamente essa tarefa. neste sentido, a mesma compartilharia da lógica de negar o saber popular e fortalecer práticas sistematizadas que conduzam à educação do corpo como princípio de rendimento e contentação: um corpo controlado e eficiente.

Contrapondo essa situação, a Capoeira como manifestação cultural afro-brasileira precisa ser contemplada nas aulas de Educação Física escolar como um conteúdo que contribua para a formação dos alunos, pois: “A Capoeira encerra em seus movimentos a luta de emancipação dos negros no Brasil escravocrata. Em seu conjunto de gestos, a Capoeira expressa de forma explícita a “voz” do oprimido na sua relação com o opressor” (COLETIVO DE AUTORES, 1992: 57).

Num país onde pulsam a Capoeira, o samba, o bumba-meu-boi, o maracatu, o frevo, o afoxé, o xaxado, o candomblé entre outras manifestações, é surpreendente o fato da Educação Física durante muito tempo ter desconsiderado essas produções da cultura popular como objeto de ensino-aprendizagem.

No entanto, acreditamos que a Educação Física já deu um passo importante à frente dos cursos formadores de professores; o modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo a postura corporais são assim produtos de uma herança cultural, ou seja, o resultado à operação de determinadas culturas e que também são fontes riquíssimas de pesquisas e estudos.

VAMOS JOGAR CAPOEIRA

Quando se fala em linguagem vem em mente uma maneira de se expressar verbalmente. Porém para a Educação Física a linguagem tem um outro conceito, o qual está diretamente relacionado com a cultura corporal. Portanto, é de fundamental importância que o professor saiba adequar a atividade aos alunos respeitando a relação do corpo com o meio social. Assim o corpo torna-se veículo de comunicação espontânea e natural que auxiliará na integração dos alunos.

Além de trabalhar diferentes modalidades esportivas cabe ao professor dar atenção também a ginástica, dança, luta e o jogo para que haja o cumprimento dos pré-requisitos básicos da Educação Física baseando-se no Coletivo de Autores, e nesse contexto a Capoeira se adequou perfeitamente já que segundo Falcão (1998), a Capoeira exige concentração, dedicação e auto estima, formando um leque de temáticas importantíssimas a serem trabalhadas em sala de aula “… por isso, percebemos a necessidade de compreender as possibilidades pedagógicas da Capoeira nas aulas de educação física” (FALCÃO, 1998: 36).

Portanto, a Capoeira deve ser trabalhada na escola de forma a possibilitar a ação-reflexão-ação, para que não se torne uma prática puramente mecânica, desvinculada do seu contexto socio-cultural, possuindo assim uma dimensão de interpretação crítico-politica, que a torna um componente imprescindível para a capacidade de formular reflexões históricas, contextualizadas com a nossa própria identidade cultural.

A CAPOEIRA NO CONTEXTO ESCOLAR DO MUNICÍPIO DE GUANAMBI-BA

Para a realização desta pesquisa foram entrevistados treze (13) professores das sete (7) escolas que tinham a Educação Física como componente curricular, totalizando 100% dos atuantes na rede estadual de Guanambi-BA. Para essa aproximação adotamos o método quanti-qualitativo o qual consiste em descrições detalhadas de situações com o objetivo de compreender os professores quanto ao tema questionado, e também quantificá-los em relação à prática da Capoeira. Buscando uma melhor analise e interpretação dos dados, utilizamos questionários semi-estruturados, com o auxilio do gravador de voz. Por serem os professores de Educação Física responsáveis pela elaboração e planejamento de suas diretrizes, ou seja, o conteúdo a ser ministrado na escola, é que escolhemos justamente eles para aplicar os questionários e verificar a adesão da Capoeira nas aulas de Educação Física Escolar, fazendo uma ligação com a influência que o tema pesquisado tem para os alunos e para a sociedade. Com isto buscamos os resultados desse processo no sentido de contribuir para compreensão de como a Capoeira se encontra no contexto atual das escolas estaduais locais, qual o seu significado para os professores dessas escolas caracterizando aí a práxis, e por último tentando apontar qual o lugar da Capoeira na escola como conteúdo das aulas de Educação Física.

Os dados nos mostram que, 100% dos professores não trabalham com a Capoeira nas aulas, alegando falta de espaço, material e/ou ainda o não conhecimento técnico da modalidade. O que nos faz lembrar de João Batista Freire (1992) ao citar que “muitas vezes o que falta no professor é a criatividade”, pois geralmente ficamos presos às atividades propostas nos livros.

Podemos perceber através da pesquisa que os professores sabem a importância da prática da Capoeira no ambiente escolar, porém não a introduziram ainda nesse contexto, citando motivos como a própria cultura da cidade, que, por ser localizada perto do estado de Minas Gerais tende a adquirir a cultura mineira onde a Capoeira não é tão difundida, e ainda por não terem espaço, materiais ou até mesmo afinidade com essa manifestação da cultura corporal, o que segundo eles os desqualificariam como mediadores desse processo, demonstrando assim que ainda hoje a Educação Física das escolas estaduais do município de Guanambi apresentam um modelo tradicional onde é enfatizado outras modalidades, reforçando a cultura da esportivização acompanhando a escola, em geral, no que diz respeito a reprodução dos valores dominantes na sociedade esquecendo dos referenciais que as culturas como à afro-brasileira, indígenas entre outras oriundas de camadas da classe “ dominada” oferecem e merecem ser destacadas e trabalhadas em sala de aula.

Analisando os dados obtidos compreendemos que a qualificação profissional dos professores atuantes entrevistados é algo que nos chama atenção. Podemos observar que 4 não são graduados (30%) em Educação Física e entre os 7 graduados (54%) apenas 1 não cursou a disciplina. Ainda constatamos que 1 está em processo de graduação (8%) e o outro possui outra graduação (8%), completando assim 100%.

Apesar de terem, ou não, cursado a disciplina, os professores alegam a falta da técnica (pratica)5 como um dos principais fatores da não adesão desta riquíssima cultura corporal afro brasileira nas aulas de Educação Física, deixando-nos um vazio quanto à metodologia aplicada na disciplina nos cursos de ensino superior. O que queremos dizer é que, apesar de terem cursado a disciplina na graduação, os professores das escolas não utilizam a Capoeira como conteúdo nas suas aulas usando como subterfúgio a falta de espaço e materiais, ou mesmo a falta de vivência, o que segundo eles os desqualificam como mediadores do ensino desta modalidade. Isso nos leva a refletir qual a relevância da disciplina Capoeira no ensino superior.

Recentemente a Capoeira vem sendo incorporada como prática educativa escolar por meio das aulas de Educação Física. Por volta de 1999 foi realizado o primeiro curso superior de Capoeira na Universidade Gama Filho (UGF), no Rio de Janeiro. Entre 1997 e 1998 a Universidade de Brasília (UNB) realizou o primeiro curso de pós-graduação em Capoeira na escola, no Brasil. (FALCÃO, 1998)

Atualmente a Capoeira é obrigatória no currículo escolar dos cursos de Educação Física no Brasil. A incorporação dela como disciplina nos cursos de formação é mais uma das maneiras de tentar buscar e resgatar na história dos negros a sua real importância sócio-cultural para nossa nação.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

É mister que os professores estejam atentos as riquezas e possibilidades que a Capoeira proporciona através de sua diversidade e relevância histórica e sócio-cultural. Através da Capoeira o professor pode e deve estimular a expressão corporal nos seus alunos sendo possível desenvolver aspectos psicomotores, cognitivos, afetivos e sociais dando inclusive possibilidade do professor estabelecer relações com as demais disciplinas, concretizando assim, a tão sonhada interdisciplinaridade.

Todas essas informações sobre a Capoeira podem ser trabalhadas nas escolas de várias maneiras. A partir da visão dos PCNs(1998) pode-se abordá-la nas dimensões atitudinais, procedimentais e conceituais de seus conteúdos, levando os alunos a conhecerem essa manifestação pertencente a nossa cultura. (IORIO e DARIDO, 2005)

Infelizmente é comum nas escolas brasileiras lembrar da nossa cultura apenas em datas comemorativas, reduzidas a culinária (acarajé, abará, etc.), algumas danças (maculelê ou samba de roda) e/ou ainda com demonstrações de grupos de Capoeira que na maioria preparam um espetáculo o que podemos chamar de “Capoeira show”. O que pretendemos na verdade é conscientizar e alertar os nossos leitores no sentido que elementos riquíssimos e tão próximos da nossa cultura vem perdendo cada vez mais espaço no contexto escolar e social.

Autores:

João Narciso Barbosa Neto1

Marlon Messias Santana Cruz2

Rafael Borel Fiscina3

Wesley da Silva Moraes4


REFERÊNCIAS

ARAÚJO, R. C. A África e a afro – descendência: um debate sobre a cultura e o saber. In: SILVA, C. (org.). Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras. São Paulo: Summus, 2003.

BRACHT, Valter. A constituição das teorias pedagógicas da educação física. Caderno Cedes ano XIX, Nº 48, Capinas – SP, Agosto 1999.

BRASIL. Ministério da Educação e do desporto, lei Nº 9394/96, de 20 d dezembro de 1996. Estabeleceu as diretrizes curriculares e bases da educação nacional.

CAPOEIRA, Nestor. Capoeira: os fundamentos da malícia. ed. 8. Rio de Janeiro: Record, 2001.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

IÓRIO, Laércio Schwantes. DARIDO, Suraya Cristina. Capoeira. In Eucação Física na Escola: implicações a prática pedagógica/ Coordenação Suraya Cristina Darido, Irene Conceição Andrade Rangel – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

KUNZ, Elenor. Didática da Educação Física 1/Org, Elenor Kunz-2 ed. Ijuí: Ed. Ijuí, 2001. (Coleção Educação Física).

FALCÃO, José Luís Cirqueira. Para além das metodologias prescritivas na Educação Física: a possibilidade da capoeira como complexo temático no currículo de formação profissional. In: Pensar a Prática: revista da pós-graduação em Educação Física/Universidade Federal de Goiás, faculdade de Educação Física – vol:7, n 2, P. 155-170, jul./dez. 2004. Goiânia: Ed. UFG, 1998.

FARIA FILHO, L. M. de. História da escola primária e da Educação Física no Brasil: alguns apontamentos. In: Trilhas e Partilhas: educação física na cultura escolar e nas práticas sócias. SOUZA, E. S. & VAGO, T. M. (orgs). Belo Horizonte: Cultura, 1997.

FREIRE, João Batista. Educação de Corpo Inteiro: teoria e prática da educação física. 3.ed. São Paulo: Editora Scipione, 1989;

KUNZ, Elenor. Educação Física: ensino e mudanças. 3.ed. unijuí; 2004 (Coleção Educação Física).

NISTA – PÍCCOLO, Vilma L. Educação Física Escolar: ser… ou não ter? Vilma L. Nista Piccolo, org. 3. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1995.

SOLER, Reinaldo. Educação física escolar. Rio de Janeiro, Sprint, 2002.

 

Memorial da Capoeira Pernambucana

A CAPOEIRA LIBERTÁRIA E REVOLUCIONÁRIA

MEMORIAL DA CAPOEIRA PERNAMBUCANA

A capoeira na sua gênese, no século XIX, foi um dos elementos representativos da cultura de um espaço como o da cidade de Recife; tão diverso e mestiço sob o ponto de vista da origem e etnia de seus elementos componentes. Sua forma de expressar esta relação se deu através de uma comunicação gestual, onde os elementos deste cenário eram provenientes da interação entre as diversas categorias que criavam o tecido deste contexto cultural.

O memorial da capoeira Pernambucana, convida para seu seminário de abertura, dia 24 de fevereiro as 10 horas.
Seus coordenadores, Mestre Gil Velho e Mestre Mulatinho, apresentarão as ações e objetivos do projeto, com ensaios de capoeiragem pernambucana.

Programação

10:00 horas

Oficina: Musicalidade e comunicação gestual da capoeira Pernambucana
Mestre Gil Velho

13:00 horas

Mesa Redonda: A capoeira como regate contexto cultural do indivíduo. Mestre Gil Velho, Mestre Mulatinho e Mestre Corisco.

14:30 horas

Almoço e festa

Local: Rua Maria Digna Gameiro 237 Candeias.

Informações:

Tel: 99906174 33261221

e-mail: gilvelho@yahoo.com.br

Entrevista Mestre Gil Velho

Gil Clementino Cavalcanti de Albuquerque Filho (Mestre Gil Velho), filho de Gil clementino Cavalcanti de Albuquerque e Maria Amélia Campelo Cavalcanti de Albuquerque, nasceu em Recife em 1948.

1 – Qual foi seu 1º contato com a capoeira?

Nasci em Recife, capital de Pernambuco, no final da década de 40, século XX. Venho de uma família tradicional, os Cavalcanti de Albuquerque, cuja história se confunde com a própria história do espaço pernambucano. A mistura de elementos indígenas, lusos, holandeses e afro na sua formação, me transmitiu uma memória genética que flui nos meus insight e interagem no meu processo vivencial.
Assim, quando meu Pai se muda para o Rio de Janeiro, no inicio da década de 50, passo a simbiotizar esta perspectiva genética com a leitura da realidade percebida do espaço carioca. Torno-me um pernambucano carioca, com uma passagem rápida por Copacabana e um pouso longo em Ipanema, onde passo minha infância e adolescência.
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JOVENS VICIADOS!!! EM CAPOEIRA.

“A Capoeira no setor da saúde mental como ferramenta de desintoxicação, redução de danos e recolocação social”
Trocam o dia pela noite. Muitos estão no tráfico de drogas e geralmente são viciados em substâncias como maconha, cocaína e crack ou mesclado. Refletem aquilo que está ao seu redor: a violência, o ódio e a vingança. Ganham uns “trocos” neste negócio com as drogas trabalhando para traficantes e levando uma vida de dependência não só química, mas também financeira. Seus valores são reduzidos e geralmente a auto estima está abalada em razão da falta de apoio familiar e psicológico. De fato, uma situação difícil de lidar. Como resgatar um jovem envolvido com o tráfico e com as drogas buscando sua reinserção na sociedade e uma vida mais saudável? Ainda assim, como garantir que não recaia diante das drogas e do álcool? Esta problemática vem sendo discutida buscando-se métodos de tratamento e alternativas em auxílio para o trabalho psicológico, psiquiátrico e terapêutico. Neste contexto de discussões, insere-se a arte capoeira como um conteúdo riquíssimo de possibilidades para o auxílio dos pacientes.
 
Baseando-se nas experiências e vivências dentro do ambiente de recuperação em dependência química, observamos que através da prática da capoeira e de suas variações como os instrumentos e ritmo, a prática corporal e o esquema motor, a historicidade, o fundamento e toda a alegria e espontaneidade que sua prática proporciona, atingimos uma empatia com este jovem, normalmente rebelde e inflexível. Não esquecendo da disciplina que é colocada em prática, há ainda um sentido de beleza e troca de energias positivas quando o som flui, quando o primeiro tom sai das cordas do berimbau, quando o jovem entra na roda e transcende todos os seus limites e até frustrações. O importante é de fato ressaltar a capacidade que a arte capoeira possui de preencher qualquer tipo de lacuna/espaço.Como a água que completa todo e qualquer frasco. Como o fogo que pode através da química tomar conta de tudo o que é combustível. Como o ar que envolve a atmosfera. Enfim, algo mutável e amplamente adaptável a diferentes contextos.
    
Nas práticas da capoeira dentro deste setor, em primeiro momento há um olhar de resistência tanto de pacientes quanto de profissionais que lidam com adolescentes em estado de dependência química. Contudo, após a primeira etapa de apresentação e planejamento; a barreira é quebrada. E quando se ouve o som mágico da capoeira e quando todos se prontificam a somar; o contexto muda radicalmente de posição. A capoeira então passa a ser vista de outra maneira, a recepção é bem diferente e se torna um jogo onde todos ganham. Percebemos isto ao final de qualquer atividade de capoeira realizada dentro de ambientes de ressocialização e tratamento em dependência. Em geral, os jovens estão mais calmos e conseguem comentar com mais clareza sobre os seus problemas. Conseguem colocar para fora suas angústias e frustrações através de uma atividade que envolve disciplina e ludicidade, expressão corporal e esportividade.
   
Trabalha-se o físico e o psicológico, proporcionando um campo aberto para observações e diagnósticos deste paciente que está dialogando corporalmente, trazendo suas vivências, seus desejos e suas ambições. Por isso que um trabalho multiprofissional neste sentido, ou seja, envolvendo vários profissionais da área da saúde, é de fundamento importância para o sucesso do tratamento. Em certos casos, o jovem não consegue verbalizar de fato o que sente, mas deixa evidente em momentos de uma aula de capoeira a sua personalidade e o seu caráter. O corpo fala e devemos estar atentos para interpretar tal dialogo. Não é objetivo vender neste espaço uma imagem irreal, fora da verdade destes jovens. A capoeira talvez seja uma pequenina gota neste oceano de procedimentos e condutas para o setor de saúde mental. Mas ela está dentro, misturando-se com outras especialidades e alternativas. Somando para juntos lutarem contra um mal, talvez o pior, que assola toda humanidade. O problema com drogas e álcool é gigantesco; monstruoso. Difícil de vencer! Requer coragem, vontade, auxílio e continuidade. O rastro de violência e desgraças proporcionadas por ele é alarmente, tirando vidas e destruindo gerações. Não podemos deixar de pensar nisto. Mas quando se ouve o relato de jovens que hoje se tornaram atuantes na sociedade através de uma ajuda, um despertar, uma palavra; se atinge a glória! A sensação de dever cumprido. Que seja apenas um salvo, dentre muitos, a tocar um berimbau e jogar na roda de cara limpa, a um dia colocar em prática os seus ensinamentos; este já não estará condenado a morte precocemente.
 
Zum Zum Zum….Capoeira Salva Um!!!
 
PROFESSOR BEIJA-FLOR
CAPOEIRA ADAPTADA
http://bfcapoeira.vilabol.com.br
 

Capoeira, comunicação gestual, controvérsia e modernidade…

 Pesquisando sobre o Mestre Gil Velho, à pedido de uma colega, acabei encontrando este texto, que confesso achei bastante interessante.
Fica aqui a dica para a leitura do texto e do "contexto"


(Cevtradg-L) ENC: resposta ao Cobra Mansa – Me. Gil Velho
 
To:  <cevtradg-l@xxxxxxxxxx>
Subject:  (Cevtradg-L) ENC: resposta ao Cobra Mansa – Me. Gil Velho
From:  "(marina)" <vinha@xxxxxxxxxxxxxx>
resposta ao Cobra Mansa – Me. Gil Velho

Caro Cobrinha Mansa.
 
Gostei de seu comentário a respeito de meus ensaios sobre, "identidade e território na capoeira", e gostaria de esclarecer que no que foi colocada, a subjetividade é a grande relação que mapeia a minha percepção. A capoeira, hoje, no que diz respeito a sua identidade e territorialização, não tem nada de subjetivo, pois é um processo construído por indução. Digo isto porque participei deste processo, no momento mais forte de sua construção, que é a década de 60. Neste período, os arquitetos de sua fase original, sai de cena, o ideário nacionalista da fase original, ganha uma nova roupagem e novos discursos e mitificação. Salvador deixa de ser o centro da capoeira moderna, Bimba caí no ostracismo. O eixo passa a ser o Rio e São Paulo.´Foi deste eixo que se irradia o processo de massificação da capoeira. O estilo de movimentação gestual que implementa esta revolução é o próximo a regional do Bimba, repetindo o que ocorreu em Salvador na época de 30.Onde o grande Mestre edifica a base da capoeiragem moderna, logo copiado por todos em Salvador, a ponto de ser o grande divisor, pois quem não era Bimba era a outra, chamada de Angola.
 
A partir desta época é que se cria um movimento que se aprende por pacotes estabelecidos e aí que entra o que a baixo transcrevo do meu recente artigo.  
 
Na capoeira, a falta de uma identidade que caracterize sua personalidade é o marco da controvérsia contemporânea. A capoeira só se estabelece quando cria uma identidade social. Este fato ocorreu no século XIX, na cidade do Rio de Janeiro. Neste cenário ela territorializa-se e personaliza estes ambientes. O fator de construção deste espaço cultural foi à diversidade de seus componentes, oriundos de um contexto, tão diverso e mestiço, sob o ponto de vista da origem e etnia, que compunha a realidade urbana carioca.
 
A forma de expressar esta relação se deu através de uma comunicação gestual, onde na teatralidade das interações entre seus elementos, a trama do tecido cultural era visualizada.Na sua contemporaneidade, a capoeira perde a sua identidade social, pois é desfeita sua estrutura coletiva, desfaz-se dos territórios e com isto acaba sua magia. Todo o universo da riqueza de sua invisibilidade, produto do espontâneo, é quebrado ao formalizar sua relação.
A diferença entre a capoeira moderna e a original está exatamente na construção do espontâneo da segunda e no procedimento induzido da arquitetura da primeira. As controvérsias, geradas na mitificação e discursos na capoeira moderna, são frutos de seu artificialismo, onde o indivíduo some do seu espaço construtor, sendo um mero copiador de sua comunicação gestual engessada em pacotes formais.
 
A territorialização de um contexto é feita no espontâneo (espontaneamente). A leitura desta realidade só é possível através de uma perspectiva antropológica vivenciada, ou seja, os atores tecem no espaço a estrutura que dará forma a sua realidade. O que exige uma consciência, deste atores, de que são personagens da construção deste contexto.
Os discursos, étnicos, nacionalistas, da repressão, corporativista iniciativa e o classista, mostram bem a necessidade de estabelecer uma idéia carregada de verdades e tradições que os qualifique, como a linha que contempla a identidade social, na contemporaneidade da capoeira.Identidade que a capoeira hoje não tem, porém necessita criar, mas não no artificialismo dos discursos e mitos, procedimento usual no sistema atual, mas sim na interação entre a realidade do indivíduo e do contexto do qual está inserido.
 
A ótica da comunicação gestual se coloca para os discursos e mitificação, como divisor entre ser capoeira e fazer capoeira. Enquanto um procura criar referências, o outro é em si a própria referência, pois as relações são construídas na própria vivencia, criando uma unicidade entre indivíduo e contexto. A ótica da construção de referência mostra a sua relação direta com a racionalidade, onde toda perspectiva é fragmentada e, por conseguinte não interativa. Não sendo interativa não há troca, sem troca não se constrói contexto, sem contexto não existe identidade.
 
O retorno a organicidade, no ato de vivenciar um contexto é, de fato, o único elemento plausível de restaurar, na capoeira, sua identidade social ao proporcioná-la ser elemento da construção do espaço onde se insere.A identidade cultural é dinâmica, pois é construída no processo interativo que forma um determinado espaço. Seus elementos estão em constante troca e com isto produzindo mutação na organização da forma de um contexto. Ao desenvolver a consciência do momento vivenciado, o indivíduo, percebe sua identidade com o contexto, o que lhe confere percepção do espaço que está inserido.
Na fase embrionária de sua modernidade, o gestual é engessado pela construção de um padrão funcional e estético, voltado para ter um lugar nas artes marciais. Foram selecionados, dentro do gestual espontâneo, os elementos com as características mais próximas da forma globalizada da arte marcial.
 
O indivíduo, corpo estranho na modernidade, some do cenário da capoeira, passa a ser um elemento de enfeite, sua personalidade não é interessante na construção do tecido gestual. A necessidade do retorno do indivíduo na construção do contexto por ele vivenciado é de extrema importância na sustentabilidade da capoeira. A construção de um contexto capoeira se faz por informações gestuais personalizadas, as quais ao interagir com as demais existentes neste ambiente, produz no espaço vivencial, uma forma única tanto em termos de tempo como espaço, ou seja, uma unicidade.
Ao conferir identidade ao processo capoeira, o que passa pelo indivíduo, cria-se na capoeira um movimento de legitimação, pois a capacita edificar identidade social no contexto que se insere.
 
Parte destes comentários são de trechos de meu artigo, porém  mostram a minha preocupação em ver a capoeira se massificar no Brasil e agora no Mundo, porém muito mais como produto de entretenimento do que algo que venha contribuir  com  a  edificação de identidade do indivíduo, para este se perceber construtor de seu contexto e não um mero boneco repetido de uma realidade virtual induzida. Nesta perspectiva, podemos restaurar os princípios da capoeira original e dá a capoeira moderna uma sustentabilidade para sua continuidade.
 

O Revivalismo Africano e suas implicações para a prática da capoeira

 
Paulo Coêlho de Araújo
Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física
Estádio Universitário – Pavilhão III – Santa Clara
Coimbra – Portugal


Enfocando o contexto cultural brasileiro, indubitavelmente, podem-se constatar as influências culturais de cariz africano na constituição do corpo de cultura do Brasil.
Dentre as muitas expressões culturais desse país supramencionado é na manifestação Capoeira,
prática corporal multifacetada, que se evidencia a preservação de muitos dos traços culturais dos diversos grupos étnicos para o Brasil, traficados durante o período colonial português. Apesar dos processos aculturativos ocorridos nas suas matrizes originais, não mais poderiam configurar-se muitas das ex-pressões culturais como manifestações genuínas dos seus pontos deorigem em África, vindo a enquadrar-se nesse novo país, como expressões nacionais, sem, contudo, perder as características essenciais de africanidade tão presentes nos elementos musicais, rítmicos, ritualísticose outros. Em face do exposto, este trabalho busca demonstrar a presença de movimentos sincréticos no contexto dessa luta brasileira, uma vez que os seus praticantes, quer de forma voluntária, quer de forma involuntária, conseguiram repor em destaque muitos dos elementos culturais africanos que estavam em vias de extinção nesse novo país.
 

FOTO-ANÁLISE – GINGADO Decanio e Boinha

Decanio e Boinha
 
O capoeirista ao gingar deve estar relaxado! Para estar relaxado deve estar calmo. Para estar calmo deve estar confiante em si. Para confiar não pode ter medo. Para não ter medo necessita confiar no parceiro e em si mesmo. Para confiar no parceiro deverá obedecer ao ritual e aos preceitos de ética implicitos no jogo da capoeira da Bahia!
As fotos acima exibem a tranqüilidade e o prazer de Boinha, já na terceira idade jogando capoeira com um antigo parceiro.
Observem a foto de conjunto e os detalhes do contexto… tudo é alegria e prazer… o resto é lucro!
A capoeira-jogo pode e deve ser praticada na terceira idade para a manutenção da vitalidade e da alegria de viver!

REFLEXÕES SOBRE A RELAÇÃO CAPOEIRA E MÚSICA

Introdução

A temática envolvida na disciplina – Música e Instrumentação na Capoeira -, dentro de um tão restrito tempo em que foi abordada , a duração de uma semana apenas, naturalmente limita todos os desdobramentos que o tema permite e perpassa, ressalvando-se o seu pleno aproveitamento, dentro da melhor distribuição que a situação permitia, seja do ponto de vista do nível do conhecimento do tema pela turma – predominantemente leigos e neófitos dentro da problemática da capoeira como um todo e, mais ainda, no terreno bastante complexo e pouco explorado da sua música, seja também dentro de um tão restrito e já comentado tempo de duração da matéria.

Por isso, malgrado o próprio limite que as condições de uma matéria tão declaradamente destinada à uma abordagem introdutória pelo contexto em que se deu, me permito no presente oferecer algumas reflexões que oportunizem outras dimensões ao tema, sem pretender esgotá-lo (o que seria de todo infeliz tal pretensão por uma infinidade de motivos!), senão pelo menos elencar alguns elementos temáticos tendo a música da capoeira como foco de primeiro plano de debate e, em segundo plano, melhor dizendo, num contexto mais amplo, a relação da música com os estados de consciência, tentando trazer tal questão para o cerne do debate da capoeira enquanto investida de uma reciprocidade dialética com a música, ou, no mínimo com a musicalidade, do ponto de vista de seus fatores rituais e operativos maiores: a capoeira tem sua alma na música que a alimenta!

Além desse aspecto (estados de consciência), poderemos ainda, à guisa de uma outra faceta do tema música e sua relação com a capoeira – e vice-versa! -, trazer à baila um outro elemento teórico e, algumas vezes, retórico, dentro da   problemática da História da Capoeira – os rituais originais aos quais se atribui a gênese da capoeira, e lançar algumas questões não necessariamente novas mas, talvez , apenas pontuais, relativamente a tais origens, particularmente a generalidade de certos conceitos e designações que se fizeram referência para a formulação de teses e avaliações históricas da capoeira, seja do ponto de vista da História, da Sociologia, da Antropologia e, no caso em foco, na Música, enquanto elemento modelador de acepções interpretativas da capoeira.

Da História e da Estória

Diante da fragilidade de uma bibliografia produzida diretamente dentro da própria capoeira, visando sistematizar e respaldar teses e teorias, bem como produzir estudos de caráter reconhecidamente científico, minha opção foi procurar na bibliografia produzida para a Área da Música, donde poderíamos inferir alguns insights aplicáveis às questões da capoeira.Porisso, a bibliografia inicialmente recolhida, após a constatação de que as obras internas à capoeira não avançaram muito no sentido dessa compreensão, foram as da música, estudos sobre as origens (Tinhorão, J.R., Os Sons dos Negros no Brasil), sobre a relação da música com os estados de consciência (Stewart, R.J., Música e Psique), além de uma incursão inicial no estudo da música enquanto fenômeno de extrapolação transcendental e revolucionário (Tame, D., O Poder Oculto da Música), obras essas que, num primeiro momento alimentaram e aguçaram a vontade de suscitar as facetas acima mencionadas do problema, transportando as questões da capoeira para uma incursão transdisciplinar, através de insumos no meu entender pertinentes, haja vista a própria limitação dos estudos específicos dentro da comunidade de estudiosos da capoeira e a indiscutível relação temática da musica em relação à capoeira e vice-versa. Cabe destacar, também, como parte dos estudos que utilizamos, texto relativo à fragilidade da produção teórica relativa à capoeira (Araújo, P.C., UNEB – Ba / F.C.D.E.F. – U.P.).

Justificativa/Contextualização

Dentro do debate atual da capoeira, seja na esfera das federações e da Confederação Brasileira de Capoeira – CBC, da Associação Brasileira de Professores de Capoeira – ABPC, bem como nas discussões que contam com figuras representativas da tradicional capoeira baiana – correntes ligadas a Capoeira Regional de Mestre Bimba e correntes ligadas à Capoeira Angola de Mestre Pastinha, enfim, no contexto da capoeira de raízes predominantemente baianas, encontramos calorosas discussões e críticas que são formuladas à aceleração dos ritmos musicais das rodas atuais – particularmente temos lido/visto serem publicados diversos artigos do Dr. Decanio (Angelo A. Decanio Filho), através dos quais esse conceituado estudioso – representante de um pensamento que abrange a lógica e os fundamentos da capoeira tanto do ponto de vista da Capoeira Regional quanto da Capoeira Angola – respectivamente segundo as correntes de Mestre Bimba e Mestre Pastinha, para não deixarmos essa contextualização em aberto, haja vista uma enorme gama de derivações e novas correntes que tem surgido, desconectadas e descomprometidas com essas vocações tradicionalistas e conservadora dos valores inerentes àquelas filosofias capoeirísticas, características desses dois grandes Mestres da Bahia e que não é minha intenção questionar ou analisar. O Dr. Decanio, como é mais conhecido aludido escritor, devido à sua condição de Médico Cirurgião, chega à atribuir o caráter predominantemente bélico existente nas rodas atuais à aceleração exagerada do ritmo, em particular do São Bento Grande de Angola, durante praticamente todo o curso de referidas rodas, onde constata que uma tal aceleração impõe os seguintes riscos aos praticantes:

  • a obrigatoriedade do afastamento entre os jogadores – uma vez que o ritmo de jogo é praticamente impossível a dois;
  • conseqüência do distanciamento, é uma atrofia nos reflexos de esquiva sincronizada com o movimento de ataque do parceiro, o que acaba criando situações inusitadas e colisões algumas vezes fatais, quando não deixam seqüelas seríssimas aos atletas;
  • a movimentação solo que acaba acontecendo, cria o primado da performance acrobática individual e leva a cabo uma série de traumatismos, particularmente nas articulações – joelhos, colunas, calcanhares, etc…, provocando uma esteira de conseqüências nada agradáveis de afastamentos, alguns definitivos da prática da capoeira;
  • a desvinculação entre a movimentação do corpo e o ritmo proposto pelos berimbaus, causando um prejuízo delicado na relação música X ritmo/jogo X corpo!

Nos transmite o Dr. Decanio, num outro trecho em que trata da temática da música na capoeira, os seguintes dizeres:

  • Na capoeira, o ritmo ijexá, especialmente tocado pelo berimbau, conduz o ser humano a um nível vibratório, dos sistemas neuro-endócrino e motor, capaz de manifestar, de modo espontâneo e natural, padrões de comportamento representativos da personalidade de cada Ser em toda sua plenitude neuro-psico-cultural, integrando componentes genéticos, anatômicos, fisiológicos, culturais e experienciais vivenciadas anteriormente, quiçá inclusive no momento. (Decanio, p.51,1996).

Na CBC, a questão da música aparece como um problema instrumental e operacional mais específico, pois a realização de competições na capoeira parte da definição de estilos, ou, pelo menos, de ritmos, e a constatação a que infelizmente temos visto chegar é de que os capoeiristas competidores não tem mantido uma relação de concordância ou harmonia com os ritmos musicais ou com as temáticas propostas dos toques de berimbaus: o espírito predominante em ritmos de regional ou de angola tem sido o mesmo, e a falta de conhecimento dos fundamentos de cada ritmo está a cada dia mais patente nas competições que temos assistido, gerando uma massa de jogos indistintos, onde fica clara uma movimentação monolítica e despersonalizada, sem consistência alguma com a essência dos toques de berimbaus…

Mas, nossas justificativas não param aí. Do ponto de vista da literatura musical, vamos encontrar aspectos concernentes à questão da musica e suas conseqüências no estado de consciência dos ouvintes/envolvidos, que alimentam com diversos enfoques interessantes a nossa temática. Dentre essas, David Tame (op.cit) discute a transformação havida na musica, quando da chamada eclosão da nova música clássica, citando diversos compositores e o caráter pagão, agressivo e ferozmente ímpia (Tame,1984,pag.103), algo que imediatamente nos transporta para os símbolos que passaram a ser utilizados como marcas da modernidade (figuras alusivas à morte sendo naturalizada nos rituais de rock, nos estilos heavy metal, punks, funks entre outros), e isso nasceu dentro de um contexto de musicalidade extremamente sofisticada e complexa, como é o caso da obra de Igor Stravisnky, que permaneceu diversas décadas figurando entre os símbolos dessa nova era musical, impregnada de um tom cult desprovido de valores tradicionalmente associados à música – a transcendência da condição humana limitada, o transporte para esferas maiores da consciência e da elevação espiritual… Segundo esse autor, todo esse trajeto havido na música – a começar pela música clássica, se refletiu diretamente na qualidade de vida humana e nos valores que passaram a predominar na chamada era moderna, ao lado e talvez como consequência do pensamento materialista que passou a nortear todo o pensamento ocidental, o que acabou afetando não só o mundo capitalista (Europa e América) como também repercutiu negativamente na própria essência tradicionalmente mais espiritualizada da China e demais povos orientais. Vamos nos encontrar com esse tema dentro da capoeira, quando percebermos que os argumentos que sustentam a lógica (ou a retórica) criados pelos defensores do processo de modernização, sob a justificativa de que se trata da evolução e da modernidade, são comuns para a capoeira também! O caráter revolucionário da música como um todo é discutido por esse autor citado, que assevera o fato de, ao contrário do que possa parecer aos menos atentos, as revoluções a maioria das vezes, manifesta-se primeiro na música para depois manifestar-se na política, na cultura como um todo, ou nos costumes e, numa amostra da dita modernidade, sob a ótica vanguardista da música, vemos uma pérola dessa análise, vendo a clareza das transformações que se dão na esfera da racionalidade materialista dentro da esfera da música: (…) o expressionismo levou o zelo anti-romântico ao ponto de não reconhecer sentimentos, calcando sua nova doutrina estética no estágio mental da suspensão de sentimentos… (op.cit, p..96)
Ficam patentes numa tal tese, uma linha de pensamento que substitui o sentimento por uma atitude esteticamente justificada: o ritmo reproduz a pressa moderna que contribui dentro do processo de individualização urbana e segrega os indivíduos de suas reflexões comuns, é a competição manifestada nos processos aparentemente distantes: dentro da esfera da música! No caso das rodas de capoeira, essa realidade se manifesta no ar tenso dos presentes, a alta liberação da adrenalina e um desprezo confesso e deliberado a qualquer exigência melódica de compassos relaxados, que possam lembrar, mesmo que de longe, a batida melancólica da viola, no comentário do Mestre Pastinha: …"falando em capoeira, nunca mais vi jogar com viola, porquê? Há tocadores, mais perdeu o amor a este esporte, mudaram a idea, ‘e eu não perco minhas ideas" e, comenta ainda o Mestre Decanio: "A presença da viola, é o traço de união com a chula portuguesa, pois corresponde ao violão nesta última, marcando o compasso do folguedo." (Decanio, 1996, pag.17). O tema, como foi previamente declarado, está sendo apenas introduzido, dado o caráter restrito da própria discussão dentro do contexto da disciplina ora enfocada, o que não pretende servir de escusa à sua pouca profundidade no presente artigo, mas, apenas, reconhecer que uma empresa desse porte irá requerer muito mais do que algumas horas de reflexão e do recolhimento de material bibliográfico de tão restrito alcance como o atualmente disponível ao meu alcance. No entanto, malgrados os aspectos limitantes aqui identificados, podemos perceber que existem aspectos e políticas do aprendizado da capoeira que vem sendo propalados e defendidos, algumas vezes sob uma roupagem e um discurso modernizante, que tem produzido verdadeiras aberrações em relação aos tradicionais traços de irmandade e de festa, característicos da capoeira, substituindo-se o caráter festivo pelo competitivo e agressivo, matando os elementos lúdicos da capoeira e substituindo-os por um ritual sem regras e sem cerimônia, onde a falta de respeito pela música começa e termina junto com a falta de respeito entre os próprios participantes, sob o manto sagrado da criatividade, onde carecem os conhecimentos sobre as raizes, tanto musicais quanto rituais da capoeira, enquanto manifestação forjada no direito à livre manifestação do espírito de folguedo e de festa que vieram dentro da consciência afro, tendo encontrado o seu eco perfeito nos nossos índios, depois caboclos, mulatos, urbanos, rurais, festivos sinais iniciais de brasilidade, ora corrompidos por valores narcísicos e alienados, inspirados no mercado do corpo e da força… A capoeira e sua música se perdem da sua vocação de transe espiritual e em seu lugar entra uma espécie de transe estético, atávico em sua justificativa de origem, primeva manifestação pré-histórica de barbarismo… Se parecer exagero, no primeiro momento, basta contabilizarmos as mortes e as lesões que vem se avolumando na História corrente dessas rodas… Seria isso tudo apenas algo moderno?

Pela reabertura da questão das origens

Outro tema que me propus no início do presente, foi revolver o contexto de alguns conceitos que vem se propalando no universo semântico e teórico da capoeira, no que tange às origens da mesma, genericamente atribuída ao batuque, ao candomblé, aos jogos e rituais das nações africanas: tais como a Cujuinha, a Dança da Zebra, e outros rituais e folguedos afro-brasileiros, registrados em diversas obras de cunho histórico do Brasil Colonial.
Numa busca ao sentido do conceito do batuque, por exemplo, encontramos uma série de referências a essa manifestação, nas quais podemos logo perceber tratar-se de uma definição do branco, portugueses ou outros estudiosos europeus! Ficam, à guisa da proposta inicial desse texto, abertas as seguintes questões, no que diz respeito ao fato Histórico do qual se possa inferir que a capoeira deva ter suas origens ligadas ao batuque:

  • se o batuque era o que aparece em um sem-número de obras e estudos históricos cientificamente respaldados, como distinguir de qual a modalidade de batuque foi possível derivar-se a luta-guerreira da capoeira?
  • E, se a resposta a essa pergunta for o batuque enquanto dança/folguedo do recôncavo baiano, do qual se sabe o próprio Mestre Bimba teve uma herança cultural direta através do seu próprio pai, ficaria ainda a dúvida sobre alguns outros tipos de dança/folguedo que também possuía toda uma lógica guerreira em seus rituais – como o jongo, no Rio de Janeiro, e outros pontos da própria Bahia, de onde teria derivado inúmeras formas de jogo de capoeira, genericamente denominada Angola, também associadas essas manifestações com o batuque?
  • Se o batuque era um conceito português – ou branco, por assim dizer, quais os rituais afro-negros que se ocultavam sob o manto da generalidade com que os dominadores tratavam os folguedos e as danças denominadas batuque?
  • Dentre os rituais denominados batuques, como se definiam os estilos de combate, se é fato que havia uma grande miscelânea de manifestações naquele contexto do batuque: ou seja, danças, cantos, folguedos e, ao que parece, inclusive luta!
  • Como se organizavam essas manifestações? Seriam esses espaços do batuque um alquimia social em que se misturariam elementos religiosos – a umbanda, diversão e o aprendizado político da guerra/capoeira?
  • Nesse caso, os denominados batuques seriam uma associação cultural do negro, patrocinada pelos senhores benevolentes dentre os quais alguns se tornaram participantes e, provavelmente, tenham apoiado o aprendizado
    da própria capoeira?

No contexto dessa questão, quis apenas abrir alguns temas que poderiam ser amplamente desenvolvidos para uma melhor visualização da Capoeira, dentro dos estudos de suas origens, seus elementos formadores e sua gênese enquanto manifestação complexa de uma dinâmica histórica, talvez até o momento pouco aprofundada, ou pelo menos ainda permite muitos estudos para o seu aprofundamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • TAME, David – O poder Oculto da Música, Editora Cultrix – 1984, S.Paulo-SP
  • FILHO, A. A. Decanio. – Falando em Capoeira, Coleção São Salomão – S/Editora – Salvador – BA, 1996.
  • STEWART, R. J. – Música e Psique – Ed. Cultrix – 1987 – São Paulo – SP
  • TINHORÃO, J.R. – Os Sons dos Negros no Brasil – Ed. Art Editora – 1988 – S.Paulo-SP
 
 Reginaldo da Silveira Costa "Squisito"