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Nietzsche e a tradição

Trombei há pouco com esse artigo: http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_7_10.htm

A abrangência do texto começa pelas “festas de boi”, mas eu creio que podemos expandí-la para qualquer folguedo popular, capoeira incluída. E justamente caminhando nessa linha de pensamento, de festas populares sendo alteradas com o decorrer do tempo, de personagens transitando entre festas, me lembrei de uma conversa que tive com um amigo faz um tempo: o que é a tradição, e como ela nos serve ?

Na época, acabamos indo esbarrar em  Nietzsche (“Alvorada”):

Conceito de moralidade dos costumes.

Em comparação com o modo de vida de todos os milênios de humanidade, nós, humanos conteporâneos, vivemos uma era imoral: o poder do costume está fantasticamente enfraquecido, e o senso de moral, tão rarefeito que poderia ser descrito mais ou menos como evaporado. Isso é o motivo de perguntas fundamentais sobre a origem da moralidade serem tão difíceis para nós, recém-chegados – e mesmo quando as formulamos, descobrimos ser impossível enunciá-las – porquê elas soam estranhas ou porquê elas parecem depreciar a própria moralidade !

Isso é, por exemplo, o caso da proposição mestra: a moralidade não é nada além da obediência aos costumes, de quaisquer tipos que eles possam ser; os costumes, entretanto, são o modo tradicional de nos comportarmos e avaliarmos. Nas coisas nas quais nenhuma tradição comanda, não há moralidade; e quão menos a vida é determinada pela tradição, menor o círculo da moralidade. O ser humano livre é imoral porquê em todas as coisas ele está determinado a confiar apenas em si mesmo, e não em uma tradição: em todas as condições da humanidade, “mal” significa o mesmo que “individual”, “livre”, “caprichoso”, “não-usual”, “inédito”, “incalculável”.

Julgada pelos padrões dessas condições, uma ação realizada não porquê a tradição comanda, mas por outros motivos (por exemplo, porquê é útil ao indivíduo), ainda que sejam exatamente os motivos pelos quais a tradição foi um dia criada, é chamada imoral e sentida como imoral por aquele que a realizou: porquê não foi realizada com obediência à tradição.

O que é a tradição ? Uma autoridade maior à qual se obedece, não porquê ela comanda o que é útil para nós, mas simplesmente porquê ela comanda. O que distingue então o sentimento de existência da tradição, do sentimento de medo em si ? É o medo da presença de um intelecto superior que comanda, de um poder incompreensível e indefinido, de algo mais que pessoal – há superstição nesse medo. Originalmente, toda a educação e cuidado com a saúde, casamento, cura de doenças, agricultura, guerra, discurso e silêncio, negociação com outros povos e com deuses, pertencia ao domínio da moralidade: tais atividades demandavam que se observasse prescrições sem que se pensasse como um indivíduo.

Originalmente, entretanto, tudo era costume, e quem quer que desejasse se elevar acima disso devia tornar-se um ditador de leis e curandeiro e algum tipo de semi-deus: isso quer dizer, ele tinha que criar costumes – algo assustador, mortalmente perigoso !

O fato é que a conversa nunca terminou, mas as pulgas continuam me mordendo a orelha. “Tudo o que é demais, é muito”, “toda unanimidade é burra”, diz o povo… Em excesso, até carinho da mamãe e canja de galinha fazem mal. E o excesso de zelo com a tradição, como fica ? Não corremos o risco de engessar a história que nós próprios construímos diariamente ?

Outro dia postei um vídeo no YouTube, e achei um comentário interessante:

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“Nunca vi um angoleiro que prestasse colocar joelho no chão, dar aú na frente da cabeça do camarada, ou botar a cabeça no pé do camarada… é por isso que esses dois estão na praça da Republica, sem uniforme, e sem nexo…”

De onde vem a tradição de “não por o joelho no chão” ? Será provinda daquela necessidade antiga de “não sujar a roupa” ? O conceito ainda se aplica em tempos modernos ? Eu não coloco o joelho no chão porquê aprendi assim – mas qual o motivo real, o rationale por trás ? E quanto à falta de uniforme ? Quanto tempo um costume precisa existir para virar tradição ? Uniformes na capoeira existem há uns 70-80 anos… A roda na praça da República acontece há uns 40 anos (até onde sei) – já deu tempo de ter criado as suas próprias tradições ? Existem tradições universais, dentro da capoeira ?

 

* Teimosia – http://campodemandinga.blogspot.com

LIVRO BRASIL, NEGRO POR DECENDÊNCIA

Esta obra, visa levar ao conhecimento dos leitores, acontecimentos que marcaram nossa cultura, durante o período escravista e visa esclarecer o comportamento estabelecido pelos colonos portugueses, políticos, e ate mesmo pela igreja. Atos e conseqüências que levou a construção de projetos de leis, algumas aprovadas e cumpridas, outras vetadas. Leis estas contraditórias que gerou atos enlouquecentes para com a sociedade constituída por afro-descendentes.

Povo guerreiro, enviado ao Brasil como escravos, foram vendidos como mercadoria, procedentes de países como Angola, Benguela, Cabinda e Moçambique entre tantos outros. Ao chegar aqui, construíram historia, incrementaram a culinária brasileira, trouxeram alimentos como; a manga, o coco, o jerimum, a galinha d’angola, o azeite de dendê entre tantos outros que constitui necessários ao padrão de vida do consumidor brasileiro. Inovadores e criativos eles foram. Adaptaram aqui, formas de sobrevivências, como por exemplo: as vendas ambulantes, de verduras, peixes, roupas, calçados e artesanato. Costumes que ainda podem ser vistos pelas ruas do Brasil. Tudo isso se da devido à herança cultural deste povo.

Colaboradores da colonização do país, e com a miscigenação dos brasileiros, a constituição do mulato, cor em que o brasileiro é identificado quase em toda sua maioria. Introduziram palavras dos dialetos africanos na língua portuguesa, herdada da presença dos portugueses no Brasil em seu descobrimento no século XV.

Salve! Salve! Os índios, importantes edificadores de nosso país, grande influenciadores na culinária brasileira, com diversos alimentos como; a mandioca, o milho, a batata-doce, o cará, pinhão, cacau, amendoim, palmito, mamão e o caju, estas são parte das influências indígenas na alimentação brasileira.

Foram escravizados antes dos negros africanos, forçados ao trabalho escravo, no período do pau-brasil. Grandes contribuintes com nossa cultura brasileira, suas danças, lutas, costumes, culinária e até mesmo a língua, titulada “tupi-guarani”, que nomeou uma das maiores expressões culturais brasileira, hoje reconhecida internacionalmente, a caa-pu-eera (mato ralo) hoje introduzida como “a capoeira”.

Axé a todos os capoeiras, que bravamente escreveram sua historia no cenário brasileiro, em meio as dificuldades impostas pelo império, e mais tarde, pelo próprio governo, ainda sim sobreviveram e enrriqueceram a nossa cultura, hoje patrimônio do nosso Brasil, e de todos os que se orgulham de ser brasileiros.

Salve! A todos que lutaram bravamente em todas as guerras, como a do Paraguai, e em todas aquelas que passaram despercebida pela sociedade, e que nunca foram reconhecidas pelo poder público. Guerra essa travada entre si próprio, pelo fato de ser descendente de uma classe social menos favorecida, parabéns a todos os brasileiros, índios , africanos e descendentes, que moram nas favelas, nos morros, e que com unhas e dentes, sobrevivem a guerra do dia a dia e da descriminação.

 

Darcy Junior de Aguiar (Cascão)

DANCEBRAZIL & Mestre Jelon no New York Times

There was enough appreciative whistling to make a construction worker blush at Skirball Center at New York University on Saturday night, when DanceBrazil rolled through town with its crowd-pleasing style of high-octane, high-flying, pelvis-swiveling choreography. And let’s not forget the revealing costumes: the phrase “six-pack abs” doesn’t begin to do these folks justice.

Act II of “Ritmos,” or rhythms, by DanceBrazil’s artistic director, Jelon Vieira, was true to its title. Accompanied by Tote Gira’s live, percussive feast of a score, the work moved between silky samba sections and explosions of capoeira, Brazil’s martial arts dance. The performers, all men save for two women, might spend a bit less time hamming it up for the crowd and a bit more focusing on the intimate social dynamics that can make capoeira — with its spinning, lashing kicks and power moves executed in close quarters — so captivating. Still, it’s hard to be grumpy in the face of such an unabashed display of bravado, especially by dancers like these, whose rhythmic intelligence elevates sometimes stock material.

“Inura,” a premiere by the former Alvin Ailey dancer Carlos dos Santos Jr., is more ambitious, described in program notes as an exploration of the energy associated with the Yoruba deity Exu. Tania León’s score, which she conducted, features a spookily strange chorus and intriguing orchestration, creating a richly ritualistic mood. Here the women are given more to do, often taking central roles in sensual, impressionistic passages that meld capoeira with a modern fusion of styles reminiscent of Ailey.

These passages, like Manny Vega’s costumes, are sometimes more fussy than complex. Yet the eye and ears are drawn in and inclined to linger. CLAUDIA LA ROCCO

LAURA PAWEL

Dance Company

Baryshnikov Arts Center

“This is old school,” my neighbor said to me in a stage whisper during intermission at Laura Pawel’s dance program at the Baryshnikov Arts Center on Friday night. “Very Sarah Lawrence.” Ms. Pawel, who formed her company in 1968 after graduating from Sarah Lawrence College, approaches movement from a pedestrian, post-Judson Dance Theater aesthetic. There is a good deal of talking while moving; and the dancing, characterized by skipping, walking and shuffling, isn’t strenuous but deftly composed. Ms. Pawel experiments with improvisation within set choreographic structures.

Dancing with Ms. Pawel in the short trilogy of dances, “Sphinx,” “Phoenix” and “Griffins,” Pamela Finney was a grounded, austere counterpart to the choreographer’s lissome walks on demipoint and wiggling fingers. But the majority of works were for the group. In “Brambles,” from 2007, the dancers slyly commented on the aging process while contrasting off-kilter phrases with stillness. “I didn’t bump my head on the corner of anything today, and it doesn’t hurt,” Ms. Finney observed with deadpan flair.

The approach of talking and dancing extended to Ms. Pawel’s “There Might Be Mangoes,” a premiere for six brightly costumed performers set to live jazz music by the Cecilia Coleman Quartet. While the lines were funny in “Brambles” because the dancers seemed unaware of their humor, the dialogue was overly self-conscious in “Mangoes.” For Ms. Pawel to succeed in making an old form look alive, innocence can’t be sacrificed for a laugh. GIA KOURLAS

 
DanceBrazil members performing Jelon Vieira’s “Ritmos.”
By THE NEW YORK TIMES
Published: March 22, 2009

Skirball Center
for the Performing Arts

 
Fonte: http://www.nytimes.com

O PAPEL DA LUTA REGIONAL BAIANA

Em lugar do "Cinturão de Campeão"… o título de Doutor!

Durante a terceira década deste século, isto é, em torno dos 7 anos de idade, comecei a tomar conhecimento das dificuldades encontradas pelas atividades culturais africanas em Salvador.
Apesar da mestiçagem da minha origem sangüínea (indígena, africana, portuguesa e italiana) a linhagem cultural era nitidamente branca e pude perceber a repulsa sutil dos mais velhos aos costumes populares afro-brasileiros.

Os baianos aceitavam de bom grado a presença dos quitutes africanos na dieta e o trabalho humilde dos descendentes dos africanos, porém olhavam enviesado as suas manifestações culturais.
A proscrição à prática dos costumes e religiões africanas era evidente no samba, considerado como prática de malandros, marginais e desocupados e, sobretudo, na perseguição feroz ao candomblé e à capoeira.
Na revolução de 30 tomei conhecimento da fuga do temido Pedro Gordilho, feito temeroso pelo seu afastamento de cargo de Chefe de Polícia pelos revolucionários e pela consciência da injusta e desumana perseguição aos populares de Salvador e às suas manifestações culturais.

O fato foi mais notável aos meus olhos porque ouvi os fuxicos de haver o Comando da Região Militar encarregado meu pai da guarda, proteção e remoção do assustado ex-algoz do alcance da justa represália almejada pelas vítimas dos seus abusos de poder.
As referências desairosas Lídio, por ser tocador de pandeiro e sambador do largo da Saúde e a outros "malandros, desordeiros e desocupados", boêmios.

E as restrições se estendiam ao genial Dorival Caymi, cuja paixão pela música do nosso povo, à falta de transporte mais cômodo, o conduzia à pé para Itapoan a fim de cantar e tocar com os pescadores, donde surgiram suas maravilhosas criações de tonalidade iorubana, que era considerado companhia inconveniente ("mau exemplo", capaz de desencaminhar os mais jovens…) até para seu irmão mais moço Osvaldo, meu vizinho e companheiro de infância, em face da boêmia e intimidade com os costumes afro-brasileiros.
Ainda hoje oiço a vendedora apregoando, "mercando" dizíamos então, pontualmente às dez horas da noite pelas ruas da Saúde e do Godinho, seu canto de venda "Iê-êêê… acarajé…" com seu sotaque iorubano…

Este contraste entre a aceitação da culinária e recusa das manifestações culturais africanas modificou-se após a revolução de 30, graça à chegada a Salvador de dois cearenses, transformados em admiradores dos costumes africanos graças à capoeira e ao carisma de Manoel dos Reis Machado, Bimba.
Cisnando Lima, apaixonado pelas artes marciais, veio para Salvador a fim de estudar medicina, trazendo o desejo de aprender capoeira, cantada em verso e prosa nas lendas em sua terra natal. Aqui chegando permaneceu na vizinhança do Interventor Ten. Juracy Montenegro Magalhães, a quem devemos a grande revolução social que reconheceu a cultura africana como legítima em todas as suas manifestações, especialmente a capoeira e candomblé.

Cisnando que privava da intimidade do Interventor Juracy Magalhães, de cuja guarda pessoal tomava parte, propiciou uma demonstração privada de capoeira de Bimba e seus alunos ("brancos" , os acadêmicos e "do mato") que provocou a admiração, o respeito e a consideração da autoridade máxima do nosso estado pelo nosso Mestre e pela Capoeira, abrindo o caminho para a demonstração posterior para o Pres. Getúlio Vargas, a qual iniciou a fase final da integração da cultura africana em nosso país.
Assim é que Bimba, através Cisnando chegou a Juracy, que conduziu Bimba e seus alunos a Getúlio, que legalizou a capoeira, reconhecendo-a como a luta nacional brasileira, oficializando posteriormente a sua prática através o Ministério da Educação.
A aceitação da capoeira como prática legal deve-se portanto ao trabalho e ao carisma de Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba, o instrumento que iniciou a derrubada dos preceitos e preconceitos contra as manifestações culturais negras.

E pela entrada aberta pelo nosso Mestre com a ferramenta social da capoeira saíram da ilegalidade todas as demais práticas festivas, religiosas, profanas e desportivas afro-brasileiras. Inicialmente a liberação, mediante permissão da autoridade policial das manifestações culturais festivas e religiosas, ainda com limitação de horário (encerramento até às 22:00 horas) para o candomblé sob pretexto da perturbação do silêncio, sendo incluídas nesta mesma categoria todas as demais atividades similares.
Um passo importante na implantação da democracia em nosso país. Desde que a verdadeira democracia é baseada na igualdade de direitos e deveres entre homens unidos pelo respeito mútuo e amor fraterno.
Deste modo Bimba é um marco histórico tão importante quanto o Zumbi dos Palmares na evolução social da cultura negra na sociedade brasileira e da modernização da sociedade brasileira iniciada com a revolução de 1930.
Estes importantes fatos sofreram modernamente uma multiplicação pela atividade dos mestres contemporâneos que levaram a todos os recantos do nosso país e ao resto do mundo a mensagem libertadora e democratizante da capoeira.

É importante enfatizar que a despeito da evolução da dinâmica da "regional", acompanhada lenta e progressivamente pela turma de angoleiros, ao lado da modificação do conteúdo literofilosófico dos cânticos pela adaptação aos meios culturais em que foi implantada, à própria personalidade dos mestres contemporâneos e ao momento histórico atual do país e do mundo, o toque de berimbau mantém constante o axé da capoeira fazendo de cada capoeirista uma unidade no conjunto harmonioso da Capoeira.
Deste modo cada canto de capoeira é um hino de liberdade, de igualdade e de fraternidade, diriam os revolucionários franceses.

Salve Bimba!
Paladino da raça negra!
Libertador da cultura africana!