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A Capoeira por Lima Campos (1906)

Clássico da Literatura da Capoeira, com ilustrações de Kalixto
 
Jornal do Capoeira – www.capoeira.jex.com.br
Edição AUGUSTO MÁRIO FERREIRA – Mestre GUGA (n.49)
de 13 a 19 de Novembro  de 2005
Nota do Editor:
Temos publicado, aos poucos, algumas crônicas e textos da literatura clássica da Capoeira, sendo a maioria delas publicadas originalmente no Rio de Janeiro, entre o final do século XIX e início do século XX. O clássico que publicamos nesta edição – "A Capoeira", por Lima Campos, Revista Kosmos, 1906 – foi enviada foi há algum tempo pelo capoeira-pesquisador Carlos Carvalho Cavalheiro, Sorocaba, SP. Para abrilhantar tal clássico, o autor contou com famosas ilustrações de Kalixto. Tanto o texto quanto as ilustrações descrevem minúcias do cotidiano capoeirístico do Rio de Janeiro, com detalhes sobre seus jeitos, tipos e vestimentas. O facsimili enviado por Cavalheiro é parte integrante do acervo particular do historiador Adolfo Frioli. 
Miltinho Astronauta


A capoeira
(parte I)
 
Lima Campos, Rio de Janeiro
Revista Kosmos, 1906
 
"TYPOS E UNIFORMES DOS ANTIGOS NAGOAS E GUAYAMÚS SENDO OS PRINCIPAES DISTINCTIVOS DOS PRIMEIROS CINTA COM CORES BRANCA SOBRE A ENCARNADA E CHAPÉO DE ABA BATIDA PARA A FRENTE E DOS SEGUNDOS COM CORES ENCARNADAS SOBRE A BRANCA E CHAPÉO DE ABA ELEVADA NA FRENTE.
 Não te conto nada seu compadre! o samba esteve cuerêréca. No fim que houve uma chorumella de escacha. O Cara Queimada estava de sorte com a Quinota quando o marchante chegou. Ih! seu camarada! Foi um estrompicio!
O Marchante era sarado, foi logo encaroçando a joça. Eu tive que entrar com o meu jogo, sim, tu sabes, que não vou nisso, e ali eu estava separado, não havia cara que me levasse vantagem. Quando a coisa estava preta eu fui ver como era p’ra contar como foi."
"Das cinco grandes luctas populares: a savata francesa, o jiu-jitsu japonês, o box inglêz, o páu portuguêz e a nossa capoeira, temiveis pelo que possuem de acrobacia intuitiva de elasterio e de agilidade em seus recursos e avanços tacticos e em seus golpes destros é, sem duvida, a ultima, ainda desconhecida fóra do Brasil, mesmo na América, a melhor a mais terrível como recurso individual de defesa certa ou de ataque impune.
Nas outras (com bem limitada excepção de apenas alguns golpes detentivos ou de tolhimento no Jiu-jitsu e a limitadíssima excepção do celebre circulo defensivo descripto pelo movimento giratório contínuo do páu no jogo portuguêz) o valor está no ataque; na capoeira, porém, dá-se o contrario: o seu merito básico é a defesa; ella é por excelência e na essência defensiva
 
Leia Mais: Jornal do Capoeira

“Ou Mato ou Morro”: Capoeira como Weltanschauung

– Entrevista com Eduardo de Andrade Veiga – 

Entrevista realizada em São Paulo, em 20-10-99, por Luiz Jean Lauand. Eduardo Veiga, batizado por Bimba com o nome de guerra Duquinha, é capoeirista da velha guarda e foi discípulo de Mestre Bimba. É ainda professor aposentado da Univ. Federal da Bahia. Atuou também – aplicando a "filosofia da educação da capoeira" – como professor no Centro de Treinamento de Professores Anísio Teixeira (do Governo da Bahia). Edição: Luiz Jean Lauand.

"Ou mato ou morro: ou me escondo no mato, ou fujo para o morro…"

LJ: Poucos capoeiras refletem sobre sua arte e poucos intelectuais conhecem "por dentro" a capoeira. Nessa sua situação privilegiada – você foi assistente de Mestre Bimba e, por outro lado, vice-reitor de universidade – poderia falar-nos de como começou nessa arte e da capoeira como visão-de-mundo?
EV: Antes de mais nada, quero deixar registrado que este meu depoimento tem o caráter de uma homenagem a meu professor (de capoeira e, portanto, de vida), o grande Mestre Bimba, cujo centenário de nascimento se celebra no dia 23-11-99.
Comecei a jogar capoeira (quero observar, desde já, que capoeira "se joga": não é "arte marcial" de iniciativa agressiva; depois voltaremos a falar disso) ainda bastante jovem, em meados da década de 40, "vestindo farda" do Colégio dos Maristas de Salvador, e ingressei na capoeira como atividade complementar de minha formação pessoal. Escolher Mestre Bimba era seguir um caminho natural de excelência: Bimba já estava consagrado como grande capoeirista.
Por estranho que pareça, a Academia de Mestre Bimba ficava na "Laranjeiras", na época, a conhecida rua do meretrício. Só andar nesta rua já significava aprender: para chegar à Academia, era necessária a disposição de enfrentar eventuais problemas: a calçada era estreita, só uma pessoa podia passar e não raramente algum "valentão" – dos da zona – podia provocar… De modo que nós íamos pelo meio da rua.
Assim, a própria localização da Academia – já servia para ir ensinando duas lições, muito úteis para a mentalidade do capoeira: evitar o confronto desnecessário (no caso, evitar o passeio estreito) e evitar expor-se inutilmente ao perigo (passar perto das portas, de onde poderia surgir agressão de surpresa).
O ritual de ensino de Mestre Bimba começava por uma rigorosa seleção de quem entrava e de quem podia prosseguir na escola: tanto em termos de capacidade física como em termos de comportamento em relação aos colegas e ao mestre. Daí a escola ter um Regulamento – uma espécie de "código interno" – orientando a conduta dos discípulos. Nesse regulamento (talvez o primeiro código escrito de aprendizagem de comportamento da capoeira: um "código" seria impensável, por exemplo na capoeira de angola, extremamente fluída e espontânea…), encontravam-se normas como por exemplo: a de guardar silêncio durante a prática e observar atentamente o jogo dos companheiros. Mestre Bimba era também um educador muito sensível às fases de progresso dos alunos, sabendo extrair o potencial e avaliar as possibilidades de cada um.
A sentença que cunhei – um tanto jocosamente – "Ou mato ou morro" (no sentido de "Ou me escondo no mato, ou fujo para o morro…") – indica em sua formulação literal a temerária atitude de coragem irresponsável; já a jocosa interpretação poderia ser mal-entendida como pura e simples covardia. Na verdade, a capoeira não é nem uma coisa nem outra. A capoeira surge como objetivação, como consubstanciação da mentalidade do escravo, submetido a uma situação de desesperada injustiça e sem ter a quem recorrer ante o arbítrio de seus dominadores. Que defesa cabe em uma tal situação? Como sobreviver? Assim, desenvolveu-se entre os escravos – de modo mais ou menos inconsciente, mas profundamente racional – uma técnica, uma arte, um jogo, um jeito (ou talvez o único jeito) de ser e viver (ou sobreviver…). Isto corresponde a duas situações historicamente vivenciadas: a de enfrentamento direto dos desesperados escravos com o poderoso sistema dos senhores ("mato ou morro" no sentido literal) e o esquivar-se a qualquer confronto (esconder-se no mato), buscando o mato como espaço sobre o qual é possível uma forma de vida independente: os quilombos (é interessante observar que já os holandeses surpreendiam-se com a familiaridade, a facilidade, a desenvoltura com que os escravos transitavam pelos matos e morros…). Essa atitude é a base da capoeira. Subtrair-se ou, ao menos, procurar minimizar os horrores da escravidão, em busca de uma vida livre e digna (na medida do possível, evitando o desigual enfrentamento). Assim se compreendem certas "regras" (naturalmente, não escritas…) da capoeira em sua forma originária (a que deu origem a grandes mestres como Bimba), como por exemplo:
– Prontidão em observar o adversário e o ambiente. Como não se trata de iniciativa de agressão, mas de esquivar-se de um possível dano, é pela atenta observação que se vê a real dimensão do perigo e as rotas de fuga. Por exemplo, o capoeirista deve observar se o potencial agressor (e para o escravo – desde o "boçal", recém-desembarcado dos navios negreiros, ou o "ladino" ou "crioulo", já aclimatados – qualquer branco é um potencial agressor…) está de paletó aberto ou fechado (se aberto, há a possibilidade de ele sacar rapidamente uma arma…).
– Fazer sempre o papel do agredido ou do inocente. Como sua situação é de total desamparo social e jurídico, ser tido por agressor equivale à morte. Daí a malícia do capoeira: ele bate, mas como quem está apanhando; se recebe um golpe deve gritar e chorar como se a dor fosse muito superior à real, provocando compaixão ou desprezo… Pode desfazer-se em súplicas de misericórdia enquanto prepara um golpe fatal…
– Enquanto não mata, a pancada é suportável. Em todo caso, sempre há uma expectativa e, na primeira oportunidade real, o capoeirista aplica o seu golpe (daí a necessidade da rapidez e do reflexo, inclusive a partir de situação de imobilidade). Em outra formulação jocosa: na primeira oportunidade não é que ele dá o troco, ele "fica com tudo"…
Naturalmente, há diversos níveis de "capoeirismo", adaptados aos diversos graus de "encurralamento" social… Em qualquer caso, essa malícia para a luta, essa arte enquanto técnica, encontra uma representação simbólica no jogo entre amigos, que brincam capoeira (agora transformada em arte mesmo), entre ritmos, danças e cantos:

"Água de beber.

É Água de beber camarada…"

A estética substitui a violência e, também nesse sentido, pode-se falar de uma educação pela capoeira, independe de qualquer propósito de defesa ou ataque. Sobrevive a capoeira mesmo fora de um contexto de escravidão: ela, por assim dizer, ganha vida própria e emancipa-se das desumanas situações que lhe deram origem.
Por outro lado, muitos aspectos das relações de trabalho nacional (e, como se sabe, também do sincretismo religioso ou do futebol etc. etc.) são afins à mentalidade que estamos descrevendo. Não se trata só da escravidão formal; num caso extremo, "pratica capoeira", hoje, um trabalhador mal pago que faz "corpo mole" e conscientemente busca esforçar-se o mínimo possível (guardando, naturalmente, na presença do chefe, as formas externas de prontidão, solicitude, integração na firma etc. etc.). Um boy é encarregado de entregar uma correspondência urgente num endereço que requer uma hora de percurso. Ele acata solicitamente a ordem, sai com presteza e, mal virada a primeira esquina, já começa a treinar malabarismo, girando – com arte e maestria – a pasta na ponta do indicador direito; penteia-se ante as vitrines das lojas; no primeiro fliperama, desenvolve outras habilidades etc. Quando, após três ou quatro horas, retorna, queixa-se de dor de cabeça (o trânsito infernal, manifestações de greve…) e pede à secretária o reembolso do (pretenso) táxi que teve que tomar ("como o chefe falou que era urgente…").
Neste, e em tantos outros aspectos, a capoeira – totalmente incorporada à mentalidade nacional – é uma importante clave de interpretação do Brasil. Não se trata de "malandragem" ou preguiça, mas de um fenômeno complexo que inclui uma escravidão que persiste disfarçadamente: por que o escravo vai empenhar-se em algo que – de nenhum modo – lhe pertence ou beneficia? E não esqueçamos que "escravo" é um conceito relativo: só cessa de haver escravo, quando cessa de haver feitor… É nessa linha que se encontra o agudo pensamento de autores como Anande das Areias e Nestor Capoeira.
É evidente que a capoeira traduz realidades muito distintas das veiculadas por artes marciais, digamos, como o jiu-jit-su, caratê ou de ninjas & cia. O Brasil é diferente; o brasileiro procura não chocar de frente: ele pode te destruir, mas sempre com ares de vítima ou de quem não quer nada…
Evidentemente, toda essa mentalidade de que estamos falando pode degenerar em uma grave situação de caos – como aconteceu no final do século passado com as "maltas" capoeirísticas do Rio de Janeiro ou como acontece hoje com alguns políticos brasileiros… Daí o valor de Mestre Bimba que, como líder carismático, procurou racionalizar um código de honra e criar uma elite de capoeira: praticar a arte do escravo com a alma do príncipe! Quem não se dedicasse seriamente ao estudo ou ao trabalho, estava excluído da academia. Aliás, diga-se de passagem, muitos escravos negros provinham de famílias nobres africanas e, alguns, com nível cultural muito superior ao de seus senhores.
LJ: Que outros aspectos destacaria das práticas da capoeira? E da capoeira como meio de educação?
EV: Um aspecto importante na minha formação – eu, na época era muito moço – foi o de preparação para as dificuldades da vida. Para quem teve a feliz oportunidade de ser "puxado" (que significa, em linguagem de capoeira, "ensinado" – e vocês, professores de filosofia da educação, podem explorar as ricas sugestões desse termo -; um ensino em que o professor vai se adequando à capacidade do discípulo, como quem "puxa" para fazer aflorar o jogo próprio de cada um…) por mestre Decânio, certamente se lembra de como ele, logo que iniciava o treino, procurava alertar com um ligeiro e repentino tapa sem machucar, porém suficiente para deixar em desconforto ou furioso quem o recebesse. Ora, na aula seguinte e nas mais outras ou tantas quantas necessárias, o Decânio repetia esse gesto… Era um estímulo meio amargo, entretanto, em duas ou três vezes – ou um pouco mais – o remédio atingia o efeito desejado. E Decânio já procurava outro para dar o seu remédio pouco convencional e amargo. Nós, aprendizes, nos conscientizávamos de que quem não observa bem, literalmente "leva tapa na cara". Ele nos ensinava a ficar atento às possibilidades de agressão do adversário.
Outra lembrança "pedagógica". Menos drásticos, porém mais excitantes eram os treinos para a prontidão que mestre Bimba usava. Ele portava um apito. Na situação de treino, dois alunos deveriam enfrentar-se: um dos oponentes se armava antes da luta, porém só podia usar a arma ao ouvir o apito. O sinal era também válido para o outro: ao som do apito, poderia reagir. Como é óbvio, somente Mestre Bimba sabia o momento em que iria ocorrer o sinal. Fazia-o em função da aprendizagem. Isso porque, durante a luta há momentos oportunos (e outros que não o são) para se puxar uma arma. O mesmo se pode dizer em relação a tomá-la, podendo chegar ao ponto, de mesmo sendo capoeirista, o outro tomar-lhe a arma, antecipando-se ao gesto de sacar. Obviamente, só após a ordem de ação autorizada pelo apito. Nessa situação, a capoeira funciona também como metáfora da vida: há o momento certo de agir para acometer ou defender.
Uma terceira situação corresponde ao treinamento de dois iniciantes, que com o tempo vão aumentando gradualmente a precisão, velocidade e graça nas seqüências de golpes. Os alunos mais adiantados percebiam que os formados quando os "puxavam" com mais velocidade tinham o cuidado de não atingi-los, parando o golpe a poucos centímetros do ponto de impacto. Este gesto possibilitava ao aluno dar prosseguimento à seqüência de golpes e contragolpes. Por isso as solas ou pontas das "basqueteiras (kedis) pretas" de Aquiles Gadelha eram muito conhecidas dos alunos. Elas deram muitos sustos, pois a cada momento estavam em frente do peito ou do rosto perplexo dos aprendizes. Era o resultado das "bençãos" (pontapé frontal) e "martelos" (de lado) ou "armadas soltas estancadas" (golpe giratório). Não é este o papel de todo verdadeiro professor e educador que – auxilia o aluno, mostrando-lhe as dificuldades e o modo de superá-las, sem massacrá-lo, porém fazendo-o suar bastante? É nesse clima de solidariedade e confiança, ao som do berimbau, que se canta de verdade:

"Água de beber.

É Água de beber camarada…"

Nem sempre é apropriado estancar um golpe. Numa "armada solta", caso se encolha a perna no meio do caminho para não machucar o adversário, pode não ser uma boa alternativa. A percepção deve estar concentrada também no esboço de defesa que o aluno faz… E para isso o tempo é muito curto para se decidir o que fazer. No caso de se aplicar rasteira nas mãos durante os "aus" (rotação descendente substituindo o apoio dos pés pelas mãos) sucessivos, o procedimento correto de quem aplica a rasteira é de fazê-la com muita velocidade, porque caso contrário não encontrará o que puxar. Porém se encontra a mão apoiada, é para fazer o arrasto com muito vigor. Isto facilita o "rolê" (giro) de defesa do oponente. Este treino só é feito no curso de especialização. Em função do exposto "capoeirar" é saber aplicar golpes:
a) "em câmara lenta", suave e graciosamente;
b) desferir golpes com alta velocidade a partir de uma situação de repouso;
c) modificar a trajetória de um golpe ou estancá-lo em vista da percepção de algo "novo" após ter desfechado o golpe de defesa ou ataque;
d) durante o jogo da capoeira, o que se observa é uma "seqüência" de golpes desferidos em velocidades desde o lento quase imperceptível até aqueles em que a vista, talvez não acompanhe. O meio ambiente dos golpes é a ginga: e o ritmo e a velocidade seguem o compasso da orquestra, muitas vezes composta de um só berimbau dolente.
e) a ginga é tão importante que ela aparece sozinha no item 5 do Regulamento de Bimba e o "gingado" é conteúdo programático da primeira lição. O gingado é como uma rampa de lançamento para se disparar uma violenta cabeçada ou se defender dando um "au" com rolê saindo-se do raio de ação do oponente, que procura, mas não sabe mais onde, encontrar o adversário. Gingando, o capoeira determina as distâncias mais convenientes, inclusive para "amarrar o jogo" do adversário. Por mais que se descreva o gingado, sempre existe o inesperado no adversário: ele esconde manhas ou pode até não significar nada. Tanto simula e dissimula como esconde ou gera golpes ou defesas. É no gingado que os floreios e as negaças se harmonizam. Quando bem feitos, o adversário procura e nada encontra ou encontra sem esperar o que não procura… É malícia pura.
f) emprega-se a expressão "jogar capoeira" à semelhança de "manejar com destreza, jogar com armas". Então o capoeira é aquele que é destro no manejo de armas, a semelhança do jogo de florete ou espada. Somente que as suas armas por excelência são os dedos, as mãos abertas ou fechadas de frente ou lateral ou em "cutila", os pés, as articulações ligeiramente dobradas e a cabeça também são usadas. Sem dúvida, aprende-se também a usar armas simples e convencionais ou improvisadas;
g) joga-se também no sentido de brincar. É aprender brincando – é demonstrar que se sabe de forma alegre. Por isso o capoeirista não machuca quando joga em situação de aprendizagem ou demonstração. Conserva um sorriso as vezes até matreiro de quem com facilidade saiu-se de uma situação difícil ardilada. Pode também representar um pouco de zombaria face ao outro que nem se apercebeu claramente do que aconteceu, ou melhor, do que poderia ter acontecido….
Todos esses ensinamentos estão centradas no modelo de ser e de aprender de Mestre Bimba (sem demérito de outros grandes mestres), que inquestionavelmente é um referencial firme para tema.
Eu, em minha vida pessoal e também como professor (e professor de professores) sempre me remeto à capoeira como metáfora da vida: viver é capoeirar. E há também uma mentalidade de capoeira, mesmo quando você não é o oprimido. Uma vez, há muitos anos, um ladrão invadiu minha casa: eu e minha mulher acordamos com o sujeito ameaçando-nos com uma barra de ferro. Nem sei como, de um pulo já estava ao lado dele que, assustado, fugiu. Eu fui atrás, com muito furor, mas só até a porta: daí em diante, "persegui-o" um pouco, mas não para alcançá-lo (isso é capoeira pura), era só para estimulá-lo a fugir: rápido e para longe. Como consegui dar aquele pulo? Não sei! Inconscientemente, eu tinha me programado (capoeira é observação e antecipação) para, numa situação dessas, "virar um bicho" (um ladrão, por definição, não teme tanto a um homem, mas não há homem que não tema um bicho…)
Resumindo, eu diria que a capoeira, sim representa uma visão de mundo, marcada por um conjunto de atitudes de defesa em situação de forte desigualdade: seja o oponente um feitor; um governo (há empresas que praticam contra o governo a capoeira fiscal…); um professor, pai ou sargento opressor; um seqüestrador (li recentemente no Estadão as indicações da polícia para o caso de você ser seqüestrado e era um "manual de capoeira": indicavam por exemplo, não encarar, não discutir, dormir só quando o seqüestrador estiver acordado e vice-versa; etc.); ou mesmo o mundo como um todo, sempre ameaçador à fragilidade humana. Por isso, encontram-se traços de capoeira em qualquer cultura em que haja situações de opressão. A capoeira não se baseia na agressão positiva nem na mera resignação passiva; é a defesa racional levada ao limite do possível, na inaparência de jogo, ginga e lúdico.


Luiz Jean Lauand.

jeanlaua@usp.br

Esta matéria foi alvo de uma indicação do Sapujo – Teimosia (ORKUT), obrigado por garimpar este documento e assim podermos disponibilizar para todos capoeiristas…

Axé!

O QUE É CONCEIÇÃO?

Pergunta de Jean Paulo:

< o que é conceicao? ouvi dizer que era uma prisao, queri mais informacoes, tudo que tiver muito obrigado jean paulo >

Resposta:
O "Engenho da Conceição" citado na quadra cantada no disco de Bimba era uma prisão denominada de Engenho da Conceição, onde eram recolhidos os desordeiros e condenados outros.
Tradicionalmente um lugar temido pelo povo e portanto, também pelos capoeiristas, que muitas vezes eram injustamente carreados para o seu interior, sem esquecer as tantas outras em a Justiça os encaminhou justa e merecidamente por bebedeiras e brigas.
Quando Bimba reporta

"o Mesti Qui m’insinô…
<tá nu> Ingenho da Cunceiçãum!
Só devu saúdi i obrigaçãum"

está apenas exaltando a valentia do seu mestre… sempre brigando, e de vez em quando freqüentemente?) recolhido no Engenho da Conceição… naturalmente. para esfriar a cabeça. Enquanto na última estrofe a gigantesca dívida dum aluno ao mestre: tudo que possui … "saúde" pela prática do esporte… "obrigação" divida que não se paga senão pela eterna gratidão – pelos ensinamentos orais (sabedoria), pelos movimentos da capoeira, defesa nas horas difíceis, esquiva e proteção ante os perigos, armadilhas e agressões nos caminhos e descaminhos desta vida aventurosa.
Desconheço a origem do nome, que provavelmente indica o local onde foi construído prédio.
Durante minha juventude algumas vezes fui jogar futebol com os presidiários e assim passei a conhecê-la "por dentro". Um prédio muito grande, lembrando um convento com suas celas de monges, cercado por muros muito altos, com uma grande área livre onde se localizava o campo de futebol.
Atualmente é o Manicômio Judiciário.

FUMO E TRABALHO

Quem fuma no trabalho corre o risco de virar persona non grata.
Segundo a Associação de Defesa da Saúde dos Fumantes,
para usar o "fumódromo" o funcionário gasta em média 45 minutos diários.
Além disso,
o fumante é mais suscetível a doenças e afastamentos.
E a fumaça prejudica equipamentos de informática e de ar condicionado,
impregnando-se ainda em cortinas, tapetes e mobiliário.

A VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

JUSTIFICATIVA

A violência é o campo onde se desenvolvem as manifestações sociais neste ciclo histórico de globalização, expansionismo e  imperialismo capitalista, militar e tecnológico, repetindo a decadência do Império Romano. As mensagens  que transcrevemos abaixo, recebidas pela Internet, bem traduzem a preocupação e o receio que vem se apossando dos praticantes da capoeira-esporte, sem falar naqueles que, como eu,  provêem dos antigos e saudosos tempos da capoeria-jogo.
A capoeira transplantada de sua origem, alienada da sua cultura materna, vem se transformando num instrumento de retorno ao circo romano, em sua plenitude bárbara, sem código, sem leis, desprovida dos mais rudimentares princípios de civilidade, sem governo e sem piedade.
Trazemos o assunto à baila,  abrindo espaço para o debate democrático, sem preconceitos, sem mágoas, sem procurar atingir um companheiro, guardando ética e etiqueta, para avaliar a gravidade  do momento, estabelecer uma pausa para meditação sobre as suas  verdadeiras causas e decidir o melhor caminho para evitar os fatos que se avolumam em nossa comunidade.

OS TRÊS "ERRES" DA CAPOEIRA!

Capoeira é uma palavra estranha, que se escreve com um "rê" suave se pratica com três "erres" fortes.
O primeiro é o RITMO, o segundo o RITUAL, o terceiro o RESPEITO !
Sem os quais não se joga
… nem se aprende …
a capoeira!

A. A. Decanio Filho


PROTESTO CONTRA A VIOLÊNCIA
Jeronimo Santos da Silva

Axé Capoeira!!

Venho através desta relatar um incidente vergonhoso e covarde ocorrido no dia 19 de abril de 1998.
Após chegar de uma viagem pelo Brasil, fui convidado a participar de uma roda de Capoeira de demonstração ao público em Sydney, Austrália. Esta roda fazia parte do evento de Batizado e graduação do Sr. Edval Santos, vulgo "mestre Boa Morte" natural de Salvador, e residente em Melbourne. Esta roda foi realizada em Sydney em frente ao Bondi Pavilion, Bondi beach. A primeira parte do dito Batizado foi realizada na cidade de Melbourne.
Entre outros convidados constavam as presenças de mestre Barrão – Vancouver – Canadá, mestre Amém dos Santos, figurante do filme "Only The Strong" (ou Esporte Sangrento, no Brasil) que reside em Los Angeles – USA, e um certo mestre Ousado (não o conheço pessoalmente) residente em Londres. Todos, com exceção de Marcos Barrão, amigos próximos de "mestre" (??) Edval.
Para encurtar a história gostaria de me apresentar como mais uma vítimas da violência e desrespeito provindos de capoeiristas irresponsáveis (vulgos mestres de Capoeira) que infelizmente ainda circulam impunes nestes eventos nacionais e internacionais de Capoeira.
Parece até piada de mau gosto. Passei 6 semanas no Brasil jogando Capoeira nos meios mais diversos. Até em favelas eu circulei passando pelo Rio, São Paulo, Manaus e Belém sem nada de grave ocorrer nem sofrer um só arranhão.
Foi de volta em casa entretanto, no primeiro mundo, que venho a sofrer esse tipo de atentado covarde. Eu acabava de chegar de uma viagem de mais de 18 horas de vôo e cordialmente fui participar da roda e prestigiar o evento. Dei boas vindas aos visitantes e fui em seguida atingido com um pontapé brutal no olho direito pelo capoeirista Amém dos Santos nos primeiros segundos do jogo canalha e sujo que me "convidou" a fazer.
Após passar a noite em um hospital de emergência fui operado no dia seguinte por um cirurgião plástico. Estou passando bem no momento e minha visão felizmente não foi afetada. Meu corpo é fechado e minha mente sã!! Axé baba!!
Pra voces que não sabem, o tal do Amém dos Santos mora nos EUA fazem muitos anos e não conseguiu ainda se educar.
Conforme suas palavras eu (não saí da frente do seu "golpe sangrento") e o irresponsável não teve talento nem competência técnica para conter sua selvageria na roda.
O público presente ficou estarrecido com o acontecimento brutal. Havia crianças e famílias. Foi muito sangue que correu na minha face e minha filha Marina, (7 anos) presente na roda, ficou chorando abalada e sem entender o que se passara com o pai.
A comunidade brasileira na Austrália (e a Capoeira) infelizmente foi "graduada" (batizada?!) neste dia com uma medalha (ou cordel?!) de vergonha.
Conforme as más línguas foi tudo "coisa armada" da parte de Edval para finalmente (e sem êxito) tentar provar quem é o bom na roda da Austrália. Que Capoeira boa pra defesa pessoal é essa que ele promove: bate e tira sangue em roda de apresentação ao público!! E eu que não aprovo esse tipo de jogo e atitude na Capoeira que promovo tinha que levar um susto na roda!! Infelizmente só deu pra demonstrar foi um grande excesso de burrice e arrogância da parte do Edval e seu grupo "Filhos Da Bahia".
O tiro saiu pela culatra!! Não corri da raia, como diriam outros, e respeitei a presença do povo presente sem revidar de pronto a "gentileza" oferecida: Amém!! Graduei minha arte na vida e jogo com a Capoeira na "Real" — dinheiro no bolso, respeito ao próximo e educação! E não costumo me rebaixar a esse nível de deslealdade na roda (falta de camaradagem) pra provar que sou um bom mandingueiro.
Pois é, o covarde do Amém partiu bem cedo (escapou?!) de volta aos EUA na segunda dia 20 de abril. Eu ainda estou checando a possibilidade de "jogar" na roda com um processo legal em cima dele ou do responsável (irresponsável) pela promoção desse evento de tão baixo teor cultural.
E como já estava programadovou seguir na sexta-feira próxima ao Canadá e atender ao convite para prestigiar o Batizado que o Marcos Barrão estará promovendo em Vancouver nos dias 24, 25 e 26 de abril.
Sigo depois para os EUA para ministrar alguns workshops em Iowa e San Diego. Que o meu olho arrebentado e agora costurado possa servir de exemplo de Protesto contra a violência que muitos covardes e incompetentes sem talento e com mentalidade provinciana (que se in-titulam "mestres" de Capoeira) ainda promovem pelo mundo afora.
Esta carta serve como uma nota de aviso aos que por acaso venham a ter nos seus Batizados e nas rodas de Capoeira gente de tão baixo calão espiritual e moral… sem talento ou responsabilidade para jogar com a verdadeira arte da Capoeira na roda da vida atual.
Fica portanto registrado mais uma vez o meu apelo de protesto contra essa onda de violência absurda e imoral nas nossas rodas e eventos de Capoeira. E agradeço a todos vocês pela divulgação desta nota nos vossos meios sociais, quilombos e perante suas famílias. Meu muito obrigado pela atenção prestada. Meu Axé a todos vocês.

JERÔNIMO SANTOS DA SILVA – http://www.users.bigpond.com/SS.Jeronimo/index.html 


O DIREITO DE BRINCAR

Ari Roizenblit

Eh dificl saber o que ? importante com relacao a capoeira. Eu sou  aluno do Paulo Gomes de Sao Paulo e ja presenciei muito desta violencia e ate mesmo participei. Mas desde que cheguei aqui em Sydney tenho visto a capoeira como veiculo para unir os brasileiros em torno de uma cultura alegre e  bonita, mostrando uma arte marcial alternativa. Esta forma de brincar de capoeira nos destaca de uma forma positiva como grupo de pessoas, principalmente com tantos grupos diferentes etnicos e de imigrantes. O mesmo nao ocorre em outras partes do globo onde existem grupos grandes de brasileiros, que sao mal vistos como grupo. A violencia na capoeira serve para nos colocar no mesmo saco que kickboxing e outros. Para quem gosta bom, eu mesmo ja fiz taekwendo, mas prefiro a capoeira pela ideia de fazer um jogo a dois, e nao uma ideia individualista de quebrar meu parceiro. Como ocorreu com o Jeronimo, eu tambem fui muito bem recebido em diversas rodas de capoeira na California e tambem pelo mestre King Kong em Salvador. Capoeira fechada, com respeito. Como o Jeronimo, entrei numa roda em Bondi Beach para brincar de capoeira e levei uma rasteira do Edval. Nos segundos que se passaram, muita coisa se passou pela minha cabeca. As antigas rodas de capoeira, salas do besouro que o Paulo Gomes usava para treino, todas as tecnicas sujas. Mas preferi honrar o espirito brincalhao da capoeira de praia e de publico. Cumprimentei o Edval e simplesmente me retirei de sua roda tao inamistosa.

Apoio o Jeronimo, principalmente na defesa do nosso direito de brincar.

Ari Roizenblit


SOBRE O MESTRE AMÉN

Subject: Violencia na Capoeira ??
Date: Fri, 8 May 1998 12:19:36 -0300
From: "piter" <mejohnny@mandic.com.br>
To: <adecan@e-net.com.br>
CC: <mejohnny@mandic.com.br>

Caro Mestre Decânio,
Primeiramente gostaria de parabeniza-lo pela exelente pagina sobre Capoeira na internet, uma das melhores que existem.
Lendo em sua página o artigo sobre a violencia, mas precisamente na carta do "Mestre" Jêronimo Santos da Silva, não o conheço, mas acho que ele se equivocou em escrever aquilo sobre o "Mestre" Amém, pois eu tive a oportunidade de conhece-lo e conviver com ele um ano e meio de minha vida na Capoeira chegando a participar de muitos batizados aonde haviam diversos Capoeiristas de várias partes do mundo e nunca sequer vi "Mestre" Amém entrar em atrito com ninguém. Veja bem não quero criar nenhuma polêmica mesmo porque sou uma
criança no mundo da Capoeira, mas acho que o "Mestre" Jeronimo poderia esclarecer melhor o fato ocorrido naquele dia, pois tenho certeza que o "Mestre" Amém não machucaria ninguém que JOGUE Capoeira com ele. Sem mais pelo momento, agradeço ao senhor pelo ótimo site que venho sempre buscar novas informações.

Um abraço,
Piter


TEMAS PARA MEDITAÇÃO

PALAVRAS DO MESTRE

A. A. Decanio Filho

TODOS OS MESTRES CANTAM
"Baraúna caiu!"
"Quanto mais eu!"
"Quanto mais eu!"

BIMBA, MEU MESTRE, BEM ME DIZIA
Negativa, rasteira e queda fazem parte do jogo de capoeira.
A negativa é o preparo para cair,
com segurança e elegância.
Capoeirista pode cair….
sem se machucar… como o gato!
sem sujar a roupa…
macio como flor de algodão! FEIO É CAIR DE BUNDA!


PRÁ BATÊ NOS OTARU!
(Para bater nos otários)

A. A. Decanio Filho

Bimba ao falar sobre a eficiência da regional sempre enfatizou o elemento surpresa como fator decisivo, evidenciado na sua expressão:

"A regioná num seuve pa brigá c’us companhêro…
é prá batê nos otaru!"
(A regional não serve para brigar com os companheiros… é para bater nos otários!)

POR QUE …
todos os capoeristas conhecem seus recursos e limitações, tão bem quanto as esquiva e defesas,
enquanto os que desconhecem a sua prática (os leigos ou otários) podem ser surpreendidos pelos seus movimentos!

A primeira parte da frase acentua a importância do companheirismo que deve existir entre seus alunos, mais evidente noutras recomendações corriqueiras no meu tempo:

"A luta regioná num seuve p’a brigá cum ôtru regioná1, é bom prús otáru…
cúns colega a gente joga regioná…"2
"A genti num deve lutá nu berimbau, deve jogá3!"

Obviamente Mestre Bimba não preconisava "lutas" entre os seus alunos, até para não afastar da academia os mais tímidos e assim perder a renda mensal……
O "esquenta-banho" servia para treinamento de defesa pessoal, de movimentos proibidos sob o ritmo de berimbau, para treinamento de manobras novas, como "tira-teima", drenagem da agressividade ou diferenças pessoais, logo arrefecidas pelo banho frio sob o jato d’água do cano do banheiro, especialmente quando alguém "entrava pelo cano" durante o "esquentamento"…

O Mestre jamais aceitaria a desunião e o enfrentamento dos irmãos,
que deveriam formar uma única família, a dos filhos de Bimba!

1 A luta regional não serve para brigar com outro regional, é bom para os otários… com os colegas nós jogamos a regional.
2 Não devemos lutar no berimbau, devemos jogar!
3 A luta regional não serve para brigar com outro regional, é bom para os otários… com os colegas nós jogamos a regional…


ORIGEM E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

A. A. Decanio Filho

O estilo da capoeira depende principalmente, pela própria natureza deste jogo, do toque do berimbau, dos cânticos, do coro e do acompanhamento de palmas pela assistência, além do estado de espírito dos parceiros na roda.
No estado atual de evolução da "regional", o ritmo acelerado, o calor das palmas e do coro, obrigam os parceiros a um jogo extremamente rápido, que não permite sequer o gingado correto, dificulta o golpe de vista, impede a execução do movimentos com segurança e a visualização do objetivo do ataque, não permitindo sequer as esquivas e defesas seguras.
A preocupação em soltar os golpes em detrimento das esquivas, do gingado e da sincronia com toque do berimbau, vem deturpando os fundamentos do jogo de capoeira e gerando um estilo violento e potencialmente muito perigoso para os seus praticantes.
Além dos acidentes de maior ou menor gravidade durante a prática da "regional", hoje infelizmente tão freqüentes, encontramos algumas falhas de caráter técnico associadas, que tentaremos enumerar e discutir.
O afastamento excessivo entre os pés, o movimento de balanceio maciço do tronco e fuga para traz, impedem a distribuição do peso do corpo entre os dois pontos de apoio, impedindo os giros de cintura nas esquivas e descidas defensivas durante o gingado.
A falta dos movimentos de esquiva para baixo, negativa e cocorinha, possibilita o emprego dos movimentos de ataque de contra-ataque de membros superiores (socos. galopantes, asfixiantes, bochechos, telefone, etc.), mais fáceis e mais violentos, porém contrários à natureza e aos princípios éticos da capoeira.
A violência é decorrente da falta do gingado, da atitude mental de ataque, subseqüentes ao ritmo excessivamente rápido dos toque de berimbau, levam a um jogo a extremamente agressivo, impedindo o floreio e as esquivas típicas da capoeira.
Dentre os movimentos de esquiva destacamos a falta da cocorinha, movimento muito apropriado para a prática da rasteira, outro elemento pouco encontradiço nos jogos atuais.
Um defeito que estamos observando na cocorinha é aquele do apoio nas pontas dos pés, em lugar do assentamento das suas plantas no solo, como recomendava Bimba, que além de melhor apoio, produz o alongamento dos músculos das panturrilhas, melhorando a flexibilidade dos movimentos e a agilidade.
Outro defeito é a queda para traz durante a cocorinha, em  "queda de quatro"   ou "movimento de aranha", sempre condenado pelo Mestre, que, além de tornar os deslocamentos e esquivas lentos, expõe o peito e ventre indefesos aos ataques mais violentos do parceiro.
A defesa por bloqueio, adquirida do karatê e jiujitsu, em lugar da defensiva por esquiva acompanhando a direção do ataque e proteção do alvo pela mão em movimento, enrijece o corpo, diminui a agilidade e propicia maior impacto ao receber o golpe traumático.
O afastamento excessivo entre os parceiros permite movimentos violentos, descontrolados, despropositados, inócuos por não poderem atingir o alvo dado o distanciamento, porém que ao alcançarem, acidentalmente, pontos vitais podem causar lesões graves ou morte.
Perdemos assim o carater festivo da capoeira antiga e evoluimos (?) para um estilo mórbido, capaz de gerar a morte de parceiros que deviam estar irmanados por um esporte tão belo e pacífico.
A propósito da prevenção dos acidentes e óbitos, devemos lembrar os conselhos encontrados em "A herança de Pastinha" que transcrevemos a seguir.

1.4.21 – "aprender municiosamente às regras da capoeira"

"… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar municiosamente ás regras da capoeira de angola"; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,"… (8a,15-23;8a,20-23;8b,1-2)

Pastinha sabiamente reitera, é indispensável um código de honra a ser obedecido pelos capoeiristas!  "é o controle do jogo", pelo juiz, pelas regras, regulamentos e "pelo ritmo da orquestra", que evita a violência e os acidentes" .
Vale a repetição!

1.4.22 – "a capoeira vem amofinando-se"

… "e a capoeira vem amofinando-se quando no passado ela era violenta, muitos mestres, e outros nos chamavam atensão, quando não estava no ritimo, esplicava com decencia, e dava-nos educação dentro do esporte da capoeira, esta é arazão que todos que vieram do passado tem jogo de corpo e ritimo."… (9a,1-9)

Continua a insistência na presença dum juiz, árbitro ou mestre de cerimônia para acompanhar a evolução do jogo e advertir ou interromper a prática,  ante manobras proibidas, perigosas, desobediência ao ritmo do toque, cansaço do atleta, além de garantir a segurança física dos praticantes e da assistência e finalmente, assegurar a beleza do espetáculo!

1.422 – "todos os capoeiristas são maus?!

…"todos os capoeiristas são maus para seus camaradas? Mais não são todos, sim, no meu Centro tenho, e como conheço muitos que são educado; e não procura irritar ao companheiro: sim, é porque o mestre não interessa a irritação, e o procura o jeito que favoresse a prendizagem, o quer aprender rapido, e não tem enfluensia." (11b,6-13)

Na capoeira, como em todos os grupos sociais, encontramos os que semeiam a discórdia, a violência, alguns por falta de educação,  outros por doença mental   ou espiritual?! Coitados!

A maioria da juventude é sempre boa, generosa, não sofre as "influências" dos maus, disse o Mestre!

1.4.39 – "Não é permitido"

", por mestre nenhum, se ele mestre for conhecedor das regras da capoeira, não consentir jogar em roda, ou grupo sem fiscal, se não tem como pode ter controle, quem ajuda o campo? não pode entra em combate sem chegar sua vez. Todos os capoeiristas tem por dever obder <obedecer> as regras do seu esporte, cooperando para valorizar, porque, somos responsavel pelos erros, no causo de disputa, ou dezafio, procurar as autoridade é um juiz." (11b,13-23;12a,1)

A insistência do velho mestre na obediência aos regulamentos e regras, na submissão ao árbitrodurante o desenrolar do jogo, coibindo assim os abusos, frutos do entusiasmo, do calor da disputa, de diferenças pessoais, atinge aqui o seu ponto mais alto.

1.4.40 – "não dever ser aplicado"

"Não deve ser aplicado <movimento proibido> e nem forçar o seu companheiro para obter recursos <vantagens> é erros gravissimo, esta sujeito o fiscal suspender o jogo." (12a,1-4)

O reforço da autoridade do juiz, aqui chamado de "fiscal",   permite a interrupção do jogo para proteger a integridade física dos participantes. "é fau"!

1.4.41 – "É proibido no jogo"

…"É proibido no jogo e prinsiparmente em baixo, fonsional<aplicar, usar, empregar> golpes, ou truque, não por, é fau.Os golpes que não pode ser fonsionado em Demonstração; golpes de pescoço", dedo nos olhos," cabeçada solta," cabeçada presa," meia lua baixa," Balão a coitado," rabo de arraia," Tesoura fechada," chibata de clacanhar," chibata de peito de pé," meia lua virada," duas meia lua num lugar só," pulo mortal," virada no corpo com presa de calcanhar, presa de cintura," Balão na boca da calça," golpes de joelho e nem truques." (12a,4-16)

Rol dos golpes proibidos, especialmente em demonstrações ou jogos públicos, pelo risco do entusiasmo dos oponentes  ou pela tradição.

2.4.42 – "é

"Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo." (12b,1-10)

Aparece aqui a única diferença entre os estilos de Bimba e Pastinha… Bimba ao criar um sistema de ensino da capoeira, instrumento de luta, abandonou a tradição de não usar golpes traumáticos de mão. Permissão estendida aos balões e projeções, bem aceitos, estimulados, pela difusão das técnica orientais no meio social em que pontificava.

1.4.31 -"para a valentia"

"Não queiram a prender a capoeira para valentia, mais sim, para a defeza de sua intregridade fisica, pois um dia, pode ter necessidade de usa-la para sua defeza. Cuja defeza é contra a qualquer agressor, que venha-lhe ao encontro com navalha, faca, foice e outras armas."  (10b,17-23)

A defesa pessoal resulta dos reflexos desenvolvidos ao longo dos treinamentos diários, depende de tempo e persistência… Como a sabedoria dos mais velhos,  escondida sob o manto dos cabelos brancos, surge, não se sabe donde, nem como,  e nos surpreende na hora certa!
Não se aprende com violência e descontrole… "a pressa é inimiga da perfeição!"

1.5.6 – "a capoeira está dividida e, trez parte"

"note bem, amigo… a capoeira está dividida em trez parte, a primeira é a comum, é esta que vêr ao publico, a segunda e a terceira, é rezervada no eu de quem aprendeu, e é rezervada com segredo, e depende de p tempo para aprender. a prova está no conhecimento da capoeira do passado, e do prezente, a do passado era violenta era violenta, para malandragem, e a de hoje, é como todos verem, rezevamos a mizeria, pela Democracia. nos queremos divirtimento. E tudo mas depende da raça, de quem aprende a capoeira; e a minha raça ja envelheceu, tambem sou tradicional, vivo na Historia da capoeira; e amo ela,"… (14b,8-23)

As três faces da capoeira. aqui referidas são

  • a manifestação exterior, o jogo, aparente, exposta a todos presentes, visível nos treinos – mesmo nos chamados "secretos", nas exibições, nas demonstrações. A parte física, corporal, material. "Yin", diriam os orientais!
  • as duas restantes são invisíveis, sutis, subjetivas, escondidas "no eu de quem aprendeu" "Yang" na linguagem oriental! O inconsciente e o subconsciente capoeirano! O  "istinto" nas palavras de Bimba! As partes secretas, " rezervadas", disse Pastinha.  E assim devem ser preservadas!

Uma é mais superficial, psicomotora, os reflexos de defesa,   a manha, a malícia. A outra é mais profunda, filosófica, mística,a modificação do modo de viver, "O Axé da Capoeira!", diria minha Ialorixá Konderenê! "Taoista!",   diria LaoTsé!

2.2.4 – "Destruir os falsos princípios

"Eu nada aceito, que me venha destruir a teorias arquitetadas, é dever destruir os falsos principios que não constituiram ensinamento: …"(69a,6-10)

Sábia advertência aos que procuram inovar sem respeitar as tradições, sem conhecer a razão dos rituais, sem conhecer a cultura dos povos que trouxeram os fundamentos musicais  e místicos da capoeira!
É indispensável estudar a evolução da capoeira, desde as tradições orais africanas, preservadas em nossa cultura pelos seus descendentes até nossos dias, para resguardar o seu precioso valor!

2.2.5 – "procure os bons mestres"

"Todo ser sabio, procure os bons mestres, e va igualar a esse, porque não é aprendiz dos falso ensino; nào possuem em compensação a vaidade, nem orgulho, porque tudo que ele ensina; não é errado: eles tem experiença, e esta observando." (69a,13-17)

Procurar bons mestres para não aprender falsos princípios, nem servir de pasto ao orgulho e à vaidade dos falsos mestres!
Sábias palavras! Capazes de impedir o retorno à barbaria do circo romano, dando a volta por cima do mundo que Deus quis fosse belo e amoroso, diria nosso Mestre Pastinha.
"Eu tirei a capoeira de baixo da pata do boi e vocês estão jogando fora de novo! Não foi isso que eu criei e deixei de herança para vocês!" exclamaria nosso Mestre Bimba, triste e inconformado!


A RASTEIRA NA CAPOEIRA

Lúcia Palmares – Paris/França

Ultimamente, na capoeira no São Paulo e ainda mais na Europa, lamento a quase-disaparição da rasteira. A rasteira foi um símbolo de perícia dos capoeiristas.Era motivo de horas de treinamento na academia. Para conseguir o sucesso de colocar uma rasteira certeira, os capoeiristas trabalhavam o parceiro; existia o floreio, a ginga, as "enganações" que fazem parte da capoeira. Não devemos deixar sumir coisa tão importante da capoeira.
Lembro de um caso que demonstra como considerada era a rasteira, no tempo ainda recente que eu treinava na academia de Mestre Nô.
Um certo aluno, formado depois de anos de aprendizagem, considerou que, com a sua forma física e sua experiência, superava o seu mestre. Desafiou o mestre Nô num sábado a frente de todos os alunos e de diversas visitas. Nô foi para a roda, dizendo que se perdia, ia embora, deixando o aluno senhor da academia. Começou o jogo, num compasso médio, sem cantiga, e demorou bastante tempo. Havia muita tensão; quem tocava, tocava, os demais permaneciam silenciosos.
Havia momentos de superioridade de um sobre outro, e depois virava a vantagem. Nô cozinhou o aluno até dar uma rasteira fantástica que pegou nas duas pernas e mandou o aluno com as nádegas no chão. O aluno com raiva tentou partir para murros, mas os outros impediram. Ele, no final, ficou tão desgostoso que abandonou a capoeira.
É um caso entre muitos que eu vi, que dá para comprovar a importância simbólica da rasteira na capoeira.
Quem não lembra do talento do mestre Canjiquinha, de Um-por-Um (da Massaranduba), de Marcos "Alabama", na rasteira?
Nos batizados, a conclusão do jogo do novato era a derrubada com rasteira, excluindo outras formas de desequilibrantes.
Hoje vemos capoeiras que se dizem excepcionais não conseguirem dar uma rasteira nos alunos que se batizam. Vemos as intimidações dos capoeiras aos novatos, e golpes traumatizantes e balões efetuados sem técnica para derrubá-los. É lamentável ver que a nova geração de capoeiras tem elementos que não se orgulham numa técnica, e ficam tão inseguros na sua arte, que não abrem o jogo (mesmo que fosse no intuito de derrubar) para principiantes de uns meses de treinamento. Quem está assistindo de longe, vê as oportunidades que eles tem de fazer. Eles não o fazem, preferindo os movimentos violentos, para tristeza dos presentes, sejam eles alunos, parentes ou espectadores que conhecem a arte.
Parece, então, que a rasteira saiu do cardápio de muitos capoeiristas. Por que?
Será que novos métodos de treinamento excluíram a rasteira? Será que não faz parte da capoeira moderna? Será que a rasteira exige demais destes novos donos da capoeira? A rasteira pede muita consciência do outro. Assim que já notei, é preciso trabalhar, cozinhar bastante o oponente para que este se jogue num golpe decisivo… que acaba na própria derrubada. É o parecer de um mestre; mas precisa de cabeça, e de tempo.
Os jogos que assistimos tem por objetivo principal de mostrar movimentos. Sejam agressivos ou acrobáticos, não importa, os movimentos superam na mente dos jogadores a tática, a perícia na arte de manobrar o outro.
Em geral, concordamos com os que acham, como mestre Decanio, que o compasso rápido demais e a vontade de se impor num "vale tudo" prejudicam o jogo da capoeira, tirando a ginga, a rasteira, tudo que faz a beleza da nossa arte.
Se, como suponho, a capoeira da Bahia tem alguma coisa para ensinar ao mundo, (em prática para os nossos alunos europeus), é justamente esta coisa original. Por isso, não podemos aceitar ver um elemento fundamental como a rasteira desprezado.
Por isso, desenvolvemos um trabalho básico com nossos alunos, sejam homens ou mulheres, fracos ou fortes, novos ou velhos, no sentido de uma capoeira que se importa com o outro, parceiro e adversário no mesmo tempo.

NOTA: Lúcia Palmares é enfermeira, baiana, nascida em Salvador em 15/5/1955. Foi aluna de capoeira de Norival Moreira de Oliveira, o Mestre Nô, na academia Orixás da Bahia na Massaranduba, a partir de 1971 e recebeu o cordão de professor em 1979. Ensinou na academia Centro Suburbano de Capoeira (rua 2 de Julho, 19, Alto de Coutos) do Mestre Dinelson, de 1980 a 1990. Em 1987 recebeu o cordel de Contra-Mestre entregue pelo Mestre Nô. Em 1992 saiu de Salvador, foi para Santos (SP) continuou ensinando a capoeira trabalhando numa ONG. Em 1995 se mudou para a França. Hoje está começando novo grupo em Paris e pesquisando os aspectos culturais da capoeira. Poderá ser contatada pelo e-mail: polbrian@worldnet.fr


TREINAMENTO ESPECIAL DE RASTEIRA

A. A. Decanio Filho

  • Importância da posição inicial
    Da postura inicial do atacante dependerão principalmente a potência e a velocidade do movimento ou seja o desequilíbrio e a impulsão transmitidos ao objetivo deste movimento. Além do que o desenvolvimento ou a forma de aplicação da rasteira modificar-se-á consoante a postura inicial do seu executante, independentemente da oportunidade de aplicação e da posição do alvo.
  • Posições iniciais
    A rasteira poderá ser aplicada a partir de postura alta ou ortostática, baixa (com ou sem apoio de membro superior no solo) e em grau variável de agachamento.
    O uso mais generalizado é a partir duma postura semi-agachada, durante um esquiva descendente.
    O seu emprego em ortóstase, embora tecnicamente mais difícil, é muito rápido, seguro, eficiente, inesperado e de certo modo, mais potente; com a vantagem de preparar o praticante para o uso da dourada e das bandas (de frente e traçada).
  • O gancho do pé
    A posição do pé é em forma de gancho em torno do ponto de aplicação da rasteira (colocar fotografia em vários ângulos)
  • A flexão do joelho
    O joelho
    semifletido aumenta muito a eficiência do golpe, possibilitando o uso simultâneo da musculatura da perna do atacante, auxiliando o deslocamento do da base de apoio do adversário para diante e provocando seu desequilíbrio para trás, enquanto reduz o percurso do movimento do autor.
  • O calço da perna na rasteira em ortóstase
    Durante a aplicação da rasteira em pé (ortóstase), a flexão dorsal do pé em gancho com flexão simultânea do joelho, encosta a porção distal (a mais baixa) da perna do atacante naquela do atacado trava seus movimentos de fuga, enquanto assegura um contato mais firme do pé atacante com seu alvo.
  • Exercício de rasteira em tração de alça de borracha
    A tração, na direção do movimento da rasteira, duma alça de borracha de soro com cerca 0,8 M de extensão, enlaçada no tornozelo do treinando, desenvolve toda a musculatura empregada neste golpe e obriga o praticante a usar todo o corpo nesta impulsão. (Usar fotografia esclarecedora)
  • Rasteira em cepo
    Um pequeno cepo, confeccionado com tronco de madeira pesada, cerca de 0,30 M de diâmetro, com superfícies de corte paralelas, fica suficientemente pesado e equilibrado para ser arrastado com algum esforço num movimento de rasteira para desenvolver a potência muscular e o jeito indispensáveis a execução duma rasteira eficiente. Com a evolução da força e eficiência do praticante o peso e as dimensões deverão variar proporcionalmente.

Rasteira em parceiro sustentado

Um companheiro bem pesado e bem apoiado no solo com as pernas entreabertas, sustentado por trás e pelas axilas por um outro colega, deve ser arrastado e levantado pela rasteira.

Este mesmo método pode ser usado para aperfeiçoamento da "banda-traçada", da "dourada" e da "vingativa de laço", magistralmente praticadas pelo Dr. Cisnando.
Como alternativa podemos usar uma trave de madeira ou ferro, ou ainda uma corda grossa com nós para facilitar a pegada, em o parceiro se segura com as mãos para evitar a queda.
De modo semelhante podemos pendurar um saco forte, com cerca de 1 M de altura, cheio de areia, apoiado pelo fundo no chão para que seja deslocado com a rasteira, dourada, vingativa, banda-de costa ou banda traçada.

Rasteira em parceiro em guarda alta

Em qualquer oportunidade adequada, desde que haja tempo para a aplicação deste golpe desequilibrante, a rasteira poderá ser praticada.
Aqueles que desejarem se aperfeiçoar neste movimento podem fazer treinamento especial em um dos parceiros se abrigue a apenas a esquiva e aplicar rasteiras, enquanto o seu companheiro aplica os golpes que quiser.
Treinamento que deverá ser reservado aos formados de melhor desenvolvimento técnico.

Rasteira em armada solta

Um dos parceiros vai aplicando as armadas soltas enquanto o outro procura derruba-lo com rasteiras, sempre se esquivando em descenso na direção do golpe atacante.
Inicialmente os ataques devem ser mais lentos para desenvolver o golpe de vista, porém a velocidade deverá aumentar progressivamente consoante o grau de aprendizado dos participantes.
Num tempo mais avançado o treino da aplicação da rasteira deverá ser feito durante uma volta comum em que os parceiros jogam sem acerto prévio, procurando cada qual aproveitar a oportunidade de usar a rasteira durante a defesa duma armada solta aplicada por qualquer um dos dois.

  • Rasteira em meia-lua de frente
    O treinamento da rasteira durante a esquiva em defesa duma meia-lua de frente fez parte do treinamento avançado dos capoeiristas do meu tempo.
    É uma manobra muito boa em defesa pessoal, sobretudo porque o aplicador da mlf é pego de surpresa e perde a moral. Poderá ser praticada em parceiro bem treinado em cair sem se machucar ou sustentado por um ou dois companheiros para evitar a queda.
  • Rasteira em queixada
    As anotações anteriores são extensivas a este tópico.
  • Rasteira em martelo
    Todos os comentários a propósito da rasteira em mlf são adequados ao seu treinamento em defesa de martelo, sobretudo porque o atacante com martelo certamente cairá muito mal, dada a natureza deste golpe. Sua aplicação na prática exige muito velocidade portanto um treinamento prolongado. Evidentemente a esquiva descendente deverá ser feita na direção do golpe atacante, com muita velocidade, procurando se aproximar do atacante e sob proteção do membro superior (como na descida em cocorinha) para evitar o perigo do martelo atingir a cabeça do defensor.
  • Rasteira em galopante, asfixiante, "jab" e soco direto
    Da leitura dos tópicos anterior conclui-se facilmente a aplicação dos métodos enunciados aos ataque com os membros superiores.
  • importante é a repetição iterativa inicial, seguida dum treinamento mais avançado em que um dos parceiros desempenha o papel de agressor enquanto o outro apenas se defende e contra-ataca, para alcançar o estágio final em que ataque e defesa são improvisos.

A ORIGEM DA CAPOEIRA DA BAHIA SEGUNDO MESTRE NORONHA

O trecho abaixo reproduzido (escaneado) dos manuscritos de Noronha confirma a nossa versão da origem do jogo da capoeira ou, como preferimos chamar, da capoeira da Bahia

Transliteração datilográfica:

…"PORQUER E NOSSO PREVILEGIO. ACAPOEIRA VEIO DA AFRICA TRAZIDA PELLO AFRICANO TODOS NOIS SABEMOS DISCO POREM NÏ ERA EDUCADA QUEM EDUCOR ELLA FAMOS NOIS BAHIANO PARA SUA DEFEISA PESSOAL QUE ESTAR NOIUS MEIOS ÇOCIAL PORQUE É O ESPORTE MAIS ATRAENTE DO MUNDO"…

Versão em linguagem corrente

"Porque é nosso privilégio. A capoeira veio da África, trazida pelos africanos; todos nós sabemos disto; porém não era educada. Quem educou ela fomos nós, os baianos para sua defesa pessoal, que está no meio social, por que é o esporte mais atraente do mundo"…

Comentários

Apesar da baixa escolaridade, Noronha, era inteligente, observador e arguto, como a maioria dos mestres e capoeiristas de sua época, observando, analisando, deduzindo e concluindo a propósito da sua grande paixão, a capoeira.
Inserido em ambiente de cultura predominantemente oral, repetia a tradição, sem deixar de indagar a credibilidade das informações, cotejando-as com sua experiência pessoal e tentando inclui-las no contesto da época.

A tradição oral brasileira associava, naquela época, a capoeira aos africanos, especialmente angolanos, por ser praticada pelas classes populares, especialmente portuários e marítimos, constituída em sua grande maioria por africanos, seus descendentes (puros ou mestiços), indígenas e brancos pobres, aculturados ou boêmios; porém o Mestre Noronha percebeu que os componentes locais que lhe emprestavam um cunho regional, nitidamente distinto das manifestações angolanas.
Assim é que, apesar de a reconhece-la como fundamentada em elementos originalmente africanos, a capoeira é orgulhosamente encarada pelo Mestre como desenvolvida pelos baianos nos seus aspectos mais nobres, aqueles que lhe dão conteúdo educacional, social e permitem aplicações práticas (aptidão física, defesa pessoal, terapêutica) e lhe emprestam identidade própria.

Concorda portanto, o Mestre com tese por nós desenvolvida no início dos anos quarenta, da origem reconcaveana da capoeira.

POTENCIAL EVOLUTIVO DO GINGADO

A partir do gingado poderemos realizar movimentos, manobras, exercícios, evoluções consoante o ritmo, o objetivo ou o contexto a partir cada um dos segmentos e das múltiplas posturas do corpo.
A
ssim os padrões e variações tendem ao infinito, desde que um só movimento pode ser iniciado de posições e naturesas diferentes, tais como vertical, horizontal, agachada em várias alturas, de frente, de costas, em salto, em giro, etc, sem esquecer o número avantajado de partes anatômicas envolvidas (cada qual com sua posição inicial variável) nem as posições relativas dos diversos segmentos do corpo entre si.
As estas varáveis devemos acrescentar os movimentos e posturas dos componentes de cada segmento em atividade, a velocidade, aceleração, seqüência, simultaneidade e sincronia, entre outros fatores.
A classificação dos movimentos na capoeira pode ser feita:

  • quanto à origem:
    • básicos e derivados;
  • quanto ao objetivo ou à natureza:
    • defesa, esquivas, projeções, desequilíbrios, traumatizantes;
  • quanto à postura:
    • altos e baixos;
  • quanto ao segmento corpóreo envolvido:
    • cabeça, tronco, membros superior e inferior;
  • quanto ao eixo principal:
    • linear, circular, ceifante, giratório, helicóide, complexo;
  • quanto à velocidade:
    • lentos e rápidos.

A partir dos movimentos característicos da capoeira podemos evoluir para diferentes modalidades esportivas, consoante a predominância de movimentos ou manobras:

  • projeções, emprestando uma tonalidade semelhante ao Judô ou ao Aikidô;
  • golpes traumatizantes, assemelhando-se então ao Karatê, savate ou boxe;
  • agarramentos, chaves articulares e estrangulamentos ao modo de luta livre, greco-romana, olímpica, grappling ou Jiu-jitsu;
  • coreografias, de maneira similar ao balé ou samba;
  • acrobacias, lembrando a ginástica olímpica, de solo ou exibições de habilidades circenses;
  • defesa pessoal;
  • exercícios de carga respiratória e circulatória em busca de aptidão física.

A RELAÇÃO COMPLEMENTAR ENTRE ANGOLA E REGIONAL

O "branco" entra na "regional" de Mestre Bimba para aprender a brigar usando os dotes físicos adquiridos pela prática da capoeira e se deixa encantar pelo jogo de capoeira alcançando insensivelmente a capoeira lúdica de Mestre Pastinha através o jogo "de dentro" e de Iuna.
O "negro" dança o jogo de capoeira de Pastinha desenvolve reflexos, elasticidade mioarticular, força, equilíbrio, e coragem. Adquirindo instintivamente um sistema de defesa, de grande eficiência, baseado nos movimentos e reflexos adquiridos no jogo de capoeira.
A capoeira se desenvolve num processo circular, bi-polar, concordante com o sistema dialético da teoria Yin/Yang, consoante o qual em todo jogo existe a semente da maldade e em toda luta encontramos movimentos portadores do germe lúdico, dentro do conjunto do aperfeiçoamento do Ser.
De modo similar , enquanto Mestre Pastinha enfatizou os aspectos metafísicos, éticos e até religiosos da capoeira, preocupando-se com a perpetuação da sua obra; Mestre Bimba dedicou-se sobretudo aos componentes pragmáticos, legalização da sua prática, o aperfeiçoamento de sua técnica e a sua aplicação à defesa pessoal.
A complementação do embasamento somático pelos fundamentos psíquicos através as duas correntes geradas pelos criadores dos estilos "regional" e "angola", garante a unidade da capoeira como jogo e luta, ao tempo em que a transforma no "jeito brasileiro de aprender a ‘ser-estar’ no mundo" a que se refere César Barbieri, abrindo um leque de aplicações pedagógicas e terapêuticas cujos limites são imensuráveis.

INFORMAÇÕES GERAIS SOBRE CAPOEIRA

CONCEITO E DEFINIÇÃO
 
A capoeira baiana é um processo dinâmico, coreográfico, desenvolvido por 2 (dois) parceiros, caracterizado pela associação de movimentos rituais, executados em sintonia com ritmo ijexá1, regido pelo toque do berimbau, simulando intenções de ataque, defesa e esquiva, ao tempo em que exibe habilidade, força e autoconfiança, em colaboração com o parceiro do jogo, pretendendo cada qual demonstrar sua superioridade sobre o companheiro. O complexo coreográfico se desenvolve a partir dum movimento básico denominado de gingado2 do qual surgem os demais num desenrolar aparentemente espontâneo e natural, porém com um objetivo dissimulado de obrigar o seu parceiro a admitir a própria inferioridade.
Dentre as características mais importantes da capoeira destacamos a liberdade de criação, a estrita obediência aos rituais, a preservação das tradições, o culto dos antepassados e o respeito aos "mais velhos" como repositório da sabedoria comunitária.
 
1a) Ramo da nação nagô, formado por mulheres dissidentes, com rituais religiosos específicos.
1b) Ritmo musical de candomblé, usado no culto de Oxum, Oxalá, Nana Borokô, Nhançan, Yemanjá, Logunedé, Ogum, Oxosse, etc; lento, suave, calmo e magestoso.
2) Movimento ritmado de todo o corpo acompanhando o toque do berimbau, com a finalidade precípua de manter o corpo relaxado e o centro de gravidade do corpo em permanente deslocamento, pronto para esquiva, ataque, contra-ataque ou fuga É .o fulcro da capoeira, donde partem todos os seus movimentos!
Durante o gingado o praticante deve manter-se em movimento permanente, simulando tentativas de ataque, contra-ataque, sempre atento às intenções do parceiro, em contínua postura mental de esquiva e proteção dos alvos potenciais de ataques.
"O gingado é alma da capoeira!" nas palavras de Mestre Bimba. Por definição, só podemos aceitar no jogo de capoeira movimentos a partir e gerados do gingado, compatíveis com o ritual da roda e enquadrados no ritmo-melodia do toque de berimbau.
 
ORIGEM
 
A capoeira é o processo complexo constituído pela fusão ou caldeamento de fatores de varias origens:
1. Dos africanos herdamos os movimentos rituais fundamentais do candomblé: dos iorubás recebemos o ritmo ijexá e a rima tonal a cada 3 estrofes enquanto os bantos nos ofereceram o berimbau, o instrumento fundamental.
2. Os portugueses nos doaram: através a dança popular da chula, o uso do improviso (chula), do pandeiro e da viola.
3. Os brasileiros forneceram a nomenclatura dos movimentos, os temas dos cantos (fundo cultural literofilosófico popular), o ritual, os métodos de ensino, as modificações fonéticas dos termos usados nos cantos.
No Brasil a fusão de elementos africanos aos fatores locais (português e indígenas) originou, a partir do ritmo ijexá, uma família de manifestações culturais, cuja raiz comum lhes empresta uma similitude rítmica e coreográfica, que tentamos explicitar nos gráficos que se seguem.
O organograma abaixo procura visualizar, sinteticamente, o caldeamento dos componentes geradores e a associação dos mesmos na composição das várias unidades derivadas.
Parece-nos evidente que a capoeira reúne todos componentes originais, o que lhe outorga uma excepcional riqueza artística, melódica e dinâmica; um enorme potencial evolutivo e finalmente, um gama extenso de aplicações esportivas, coreográficas, terapêuticas, pedagógicas, etc, que abrange desde o simples jogo às franjas das artes marciais e da defesa pessoal.
 
  
MÚSICA
 
Na prática da capoeira, por ser esta regida pelo ritmo da sua orquestra de modo similar ao candomblé, adquirem papel primordial as características dos vários toques executados, bem como o acompanhamento do coro e compasso de palmas pelo conjunto de jogadores e dos assistentes.
Os mais lentos, calmos, são os preferidos pelos " angoleiros", mais apegados às tradições africanas e aos aspectos lúdicos da capoeira, considerada principalmente como um jogo de habilidades, coreografia e técnica, enquanto os "regionais são mais afeitos aos toques mais rápidos que acentuam a belicosidade inerente ao conceito de luta, objetivo final desta última modalidade.
Os principais toque no estilo ‘Regional’ são: Hino, Cavalaria, Santa Maria, São Bento Grande, São Bento Pequeno, Banguela, Idalina, Santa Maria, Amazonas, Banguelinha, Iuna.
É indispensável acentuar que cada mestre impõe aos toques o seu cunho pessoal, sem contudo descaracterizá-los, devido às influências da personalidade de cada qual, ao tom de voz e da afinação do instrumento-rei (o berimbau).
 
INSTRUMENTOS E ORQUESTRA
 
Os instrumentos usados na orquestra das rodas de capoeira bem expressam a miscigenação cultural que a plasmaram.
O berimbau, monocórdio oriundo do povo banto, cultural e geograficamente distanciado da cultura iorubana, da qual herdamos o ritmo ijexá, o sotaque e a rima tonal no terceiro verso, encontradas no canto dos antigos mestres.
A viola, usada no samba de chula, de barravento ou santamarense, da mesma família musical da capoeira, citada por Mestre Pastinha como de uso entre os antigos, é resquício da chula (dança popular portuguesa) ; enquanto o reco-reco, o xequeré e o agogô demonstram a sua filiação ao candomblé.
O uso do atabaque como vemos hoje, não tem justificativa histórica, nem tradicional, nem lógica.
Na minha vivência, o seu uso é posterior à criação da expressão "Capoeira de Angola" pelo Mestre Pastinha em 1941, para diferenciar seu grupo recém-criado (em 23 de janeiro de 1941), destinado a unir todos os mestres desvinculados do estilo regional, criado pelo Mestre Bimba cerca de 10 anos antes.
Seu emprego foi divulgado pelos grupos de apresentação folclórica a partir do "Olodum", fundado por Acordeon, Camisa Roxa, Ezequiel, Itapoan, Flecha, Onias e outros.
Mestre Bimba, entretanto,não admitia o seu emprego em treinamento, prática ou demonstrações, dado ao obscurecimento da percepção do ritmomelodia do berimbau, instrumento principal da orquestra ou bateria (como prefere o Mestre Pastinha), gerador e regulador dos movimentos dos parceiros do jogo de capoeira baiana.
Dizia o Mestre: "o pandeiro é o atabaque da capoeira", pelo que removia parte dos seus guizos para realçar a marcação do ritmo.
 
CÂNTICOS
 
O conteúdo dos cânticos exalta as qualidades do chefe da roda, relata a sua origem ou se refere a fato, personagem ou ocorrência notáveis, atuais ou históricos.
A forma de cantar valoriza o tom das vogais antes que a pronúncia correta das consoantes, adquirindo sonoridade mântrica, em harmonia com o tom do berimbau.
O canto e som do berimbau se fundem, no estilo angola, numa toada monótona, em que a presença do refrão empresta semelhança à ladainha, dum caráter suave, pacífico, extremamente cativante, permitindo movimentos mais lentos, relaxados, controlados, de grande beleza. Enquanto no estilo regional, o ritmo marcial, mais acelerado, impõe maior velocidade aos movimentos, tornando-os mais agressivos, de caráter reflexo, instintivos e obrigando a maior afastamento entre os parceiros.
Cada mestre tem um estilo próprio de tocar e cantar, modificando tema e conteúdo dos cânticos, os quais passam então a identificar cada roda pelo seu fundo cultural literofilosófico, destacando-se o curto improviso, a chula (1), reliquat da dança popular portuguesa deste nome.
Além desta, encontramos como categorias de cânticos, o corrido2, as quadras 3 e a ladainha4.
O conteúdo dos cânticos geralmente faz parte do repositório da comunidade a que pertence a roda ou repertório própria roda, tais como referências a fatos, personagens históricos, reverenciando-os consoante sua livre escolha, tecendo comentários de conteúdo filosófico ou ligados à sabedoria popular, ditos e axiomas. Destacamos o oriki (chamado de chula pelo Mestre Bimba nos primórdios da regional, conhecido como ladainha entre os atuais angoleiros), a louvação africana, saudação laudatória aos mestres, à terra natal, aos amigos, a Deus, aos Santos e aos orixás, que empresta caráter individual a cada grupamento ou roda.
O coro, ritornelo, refrém, estribilho ou refrão, une todos os presentes num canto orfeônico extremamente contagiante, criando uma atmosfera energética que transforma o grupamento social numa entidade global, capaz de geral um estado modificado (transicional) de consciência, coletivo, em todos os participantes da roda, jogadores e/ou assistência.
Consoante o estilo e o temperamento do mestre e portanto, da roda, há uma nítida preferência pelo suavidade e lentidão da ladainha (predominante entre os angoleiros) ou pelo calor e velocidade do corrido (mais a gosto dos regionais).
 
1 – Curto "improviso" de apresentação ou identificação entoado pelo cantador a título de abertura da sua composição. Geralmente faz a louvação dos seus mestres, da sua origem, da cidade, de fatos históricos, de algum outro elemento do fundo cultural da roda. Freqüentemente os cantadores usam uma chula como introdução aos corridos e às ladainhas, durante a qual é sugerido ou indicado refrão a ser entoado pelo coro.
2 – A própria denominação já traduz, ou lembra, a aceleração do ritmo que o caracteriza, juntamente com o nexo entre o verso do cantador e o refrão do coro que o repete parcial ou totalmente. O cantador entoa versos de frases simples, curtas, freqüentemente repetidas, e cujo conjunto é usado como refrão pelo coro da roda. O conteúdo do trecho cantado pode ser retirado duma quadra, dum mote, duma ladainha, dum corrido, ou do fundo comunal literofilosófico da roda ou grupo social. A diferenciação no entanto só aparece com nitidez durante a audição do conjunto, pois o mesmo conteúdo poderá ser cantado numa ou noutra categoria conforme a impostação da voz, ritmo, compasso e aceleração que o cantador, a orquestra, coro vocálico e o acompanhamento das palmas, além da própria estrutura, emprestam ao trecho.
3 – Curta estrofe de quatro versos, sem interrupção, de conteúdo variável, algumas vezes fazendo sotaques ou advertências jocosas a algum companheiro ou a fatos ou lendas da roda. Geralmente termina com uma chamada ou advertência ao coro, como "Camará!", "Vorta du mundu!", "Aruandê!", "Aruandi!", "Iêê!", "Êêê!", entre tantas outras.
4 – A ladainha é o ritmo dolente, lento, como na reza de mesmo nome na igreja católica, o coro repetindo o refrão independentemente do trecho entoado pelo cantador. O conteúdo da ladainha corresponde a uma oração longa, mensagem, desdobrada e relatada em curtas estrofes entrecortadas pelo refrão.
 
MOVIMENTOS
 
Todos os movimentos possíveis do corpo humano são admissíveis no jogo da capoeira, desde que sejam realizados a partir do gingado, em concordância com o toque do berimbau; enquadrados no ritual; não acarretem riscos de lesões ou prejuízo moral ao parceiro, aos demais participantes e/ou aos assistentes.
Os movimentos da capoeira a são classificados de vários modos:
 
fundamentais e derivados;
movimentos simples e manobras;
movimentos de esquiva, fuga, ataque, contra-ataque e balões;
golpes, floreios e defesas;
movimentos de entrada, de saída, de pedido ou chamadas;
seqüências de ensino ou fundamental, de balões, especiais (esquetches, defesa pessoal, acrobáticas, etc).
 
FILOSOFIA
 
A capoeira, em virtude de sua origem mestiça, tornou-se em repositório da sabedoria das culturas que plasmaram o povo brasileiro.Por ser um processo fundamentalmente musical e coreográfico, originário no candomblé, adaptou a tradição de louvação dos ancestrais (oriki) ao improviso introdutório da dança popular portuguesa denominada de chula, conservando este vocábulo como referencial.
Herdeira duma cultura oral, a capoeira apresenta nos cânticos dos antigos mestres a exibição da sua sabedoria através motes, axiomas, referencias históricas, aconselhamento ao modo africano, constituindo um fundo cultural literofilosófico característico do grupo social e da região em que se insere.
Por ser atividade lúdica de homens sadios, fortes, conscientes do seu valor, vitimas da escravatura, obrigados a esperteza como fator de conforto e sobrevivência, a sua filosofia é pragmática, um modo de ser, viver e sobreviver da melhor maneira possível
Associando calma, prudência, tolerância e esperteza, a capoeira tem por fundamento a esquiva, a negaça, a malícia, a simulação e a dissimulação de intenção e objetivo; indispensáveis sobrevivência às dificuldades e a alegria do viver bem.
Característica muito importante, também herança da cultura oral, é o respeito aos mais velhos, por serem o repositório da sabedoria grupal; ao lado dos cuidados com a juventude, garantia da perpetuação do sistema social e a integração indivíduo à comunidade, como fonte da segurança do cidadão.
A preservação da tradição com abertura ao progresso, possibilita a adaptação do passado ao presente, garante a continuidade no tempo, ajustando o grupamento social às condições históricas e geográficas da comunidade e ao porvir.
 
EVOLUÇÃO
 
O jogo de capoeira primitivo, o jogo de capoeira, lúdico, proscrito pela classe dominante, foi modificado na década de 30 por Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba, assumindo a forma de luta que recebeu a denominação de "Luta Regional Baiana"1 procurando escapar ao enquadramento legal e servindo de fundamento para um sistema de defesa pessoal. Sob a simpatia do governo federal a luta regional baiana foi aceita como esporte nacional e reconhecido pelo Comitê Olímpico, atualmente em vias de regulamentação final. A maioria dos mestres permaneceu, entretanto, fiel aos ritos antigos e sob a liderança de Vicente Ferreira Pastinha, Mestre Pastinha, se reuniram e fundaram o "Centro Esportivo de Capoeira Angola"", origem da atual denominação de capoeira angola e de angoleiros.
Estas duas formas, inicialmente limitadas à Bahia, se difundiram pelo país inteiro e posteriormente no mundo inteiro.
Os angoleiros criaram a Associação Brasileira de Capoeira de Angola, órgão supremo da categoria e com a finalidade de reunir as entidades públicas e privadas deste estilo.
Organizada oficialmente sob forma de federações estaduais, associações, ligas, clubes, academias e outras agremiações, a capoeira vem apresentando eventos culturais e desportivos periódicos e sendo objeto de estudos acadêmicos regionais, nacionais e internacionais. Estas formas institucionalizadas da capoeira entretanto não são as únicas encontradas atualmente, sendo comum a prática informal em praça pública e festas populares, sob aspecto de folclore ou "capoeira de rua"2.
 
1 – Estilo de jogo de capoeira criado por Mestre Bimba na década de 30.
2 – A pratica da capoeira fora das organizações oficiais, em ambiente público, está sendo atualmente designada pelo nome de "Capoeira de Rua", a título dum novo estilo (livre de regras e regulamentos) em adição àqueles de "Regional" e de "Angola".
 
FUNDAMENTOS DA CAPOEIRA
 
Os fundamentos da capoeira ou, como usam, incorretamente, alguns descuidados da nossa língua, suas "fundamentações", vêm sendo discutidos com certa freqüência a partir do uso infeliz desta palavra pelo Mestre Noronha, que se disse conhecedor único dos seus mesmos, sem os enunciar nos seus obscuros "escritos"…
Em trabalho algum encontrei, nem ouvi, conceito, nem definição, do emprego deste vocábulo pelos autores, o que vem aumentando a confusão entre os mestres e capoeiristas dum modo geral. É que nos meios populares baianos, especialmente nos terreiros de candomblé e nas rodas boêmias, o termo adquire uma conotação bem diversa daquela encontrada nos clássicos e dicionários de nossa língua. Uma vez que nestes grupamentos sociais, esta palavra é usado em referência à parte mais secreta e profunda do culto ou prática, somente acessível as camadas mais elevadas da comunidade, adquirindo então um atributo de secreto, sagrado, inacessível aos não-iniciados, ensinamento esotérico, hermético, misterioso, mágico.
ou seja, respeitando-se a grafia original: "Hoje vejo reduzido, os capoeirista, perdeiram suas
forças de vontade, não procuram o fundamento, só querem a prender a propria violencia."
O trecho acima, manuscrito pelo Mestre Pastinha, ilustra o emprego do termo "fundamento" pelos antigos capoeiristas no sentido de essência de conhecimentos sobre a capoeira, seus princípios morais, seu ritual, sua prática e seus efeitos sobre o comportamento de cada capoeirista, a razão de ser do seu ritual e do comportamento do jogador, bem como a sua origem, a influência relativa de cada um dos seus componentes, sua música, seu ritmo, seus cânticos, etc.
Concordando com Esdras "Damião" na estranheza do uso de Fundamento e Fundamentação no linguajar dos capoeiristas antigos e modernos (dialeto capoeirano?) vivo procurando porque tanto ênfase neste conceito.
Do longo convívio nos meios de capoeira, nos centros de candomblé e durante a prática médica nas classes menos favorecidas pela Deusa da Fortuna, posso extrair vários sentidos encontrados.
Inicialmente impõe-se o sentido de conhecimento teórico ou prático sobre assuntos de qualquer natureza, independente de estudos formais.
Quando se fala em idéia ou comportamento sem fundamento indica-se a falta de razão subjacente ou de base para tal.
Há uma nuança de mistério, de sacralização, quando empregada em referência a conhecimento reservado a certos grupos sociais como dos feitos do candomblé. Como no caso dos antigos mestres que se proclamavam detentores dos fundamentos da capoeira… somente eles o possuíam…
Ser conhecedor dos fundamentos da seita ou de qualquer outro ramo de atividade humana, social, científica ou artística é altamente valorizado nestes ambientes culturais baianos; motivo de orgulho e jactância, algo muito especial e envaidecedor.
É com admiração que se diz: "Fulano conhece muito bem os fundamento de samba!", enquanto outros estufam o peito e se gabam de serem os únicos conhecedores disto ou daquilo… especialmente entre os menos favorecidos de inteligência, cultura e sobretudo, modéstia… apesar de bem providos de auto-estima e vaidade.
É freqüente e natural, o intitulada "de conhecedor dos fundamentos" desdenhosamente se recusar a transmitir aos não-iniciados aqueles mistérios sagrados, dotados de poder mágico.
A atrapalhação provocada pelo emprego descuidado desta palavra por alguns estudiosos pouco habituados ao linguajar popular baiano, especialmente do seu uso nas rodas boêmias e nos terreiros de candomblé, aumentou pelo aparecimento de divagações literárias em torno de assunto, cuja definição e conceito os autores sequer conheciam, sem se aperceberem da leviandade, nem da gravidade da falha da científica cometida… palavras bem entoadas, frases bem torneadas, porém vazias… diríamos "sem fundamento" num barzinho da rua do Julião!
A propósito de "FUNDAMENTO" o "Novo Dicionário Aurélio"arrola os seguintes significados:
 
1. Base, alicerce.
2. Razões ou argumentos em que se funda uma tese, concepção, ponto de vista, etc.; base, apoio.
3. Razão, justificativa, motivo.
4. Aquilo sobre o que se apóia quer um dado domínio do ser (e então o fundamento é garantia ou razão do ser), quer uma ordem ou conjunto de conhecimentos (e então o fundamento é o conjunto de proposições ou de idéias mais gerais ou mais simples de onde esses conhecimentos se deduzem).
 
Do acima transcrito entendo que devemos a aceitar por definição como "fundamentos da capoeira" a sua razão de ser e as justificativas de sua maneira de ser, isto é os elementos que a identificam como "SER" em nosso mundo conceptual.
A primeira indagação que surge em nossa mente ao analisar o assunto é – QUE É O JOGO DE CAPOEIRA? A resposta técnica é "A capoeira baiana é um processo dinâmico, coreográfico, desenvolvido por 2 (dois) parceiros, caracterizado pela associação de movimentos rituais, executados em sintonia com ritmo ijexá, regido pelo toque do berimbau, simulando intenções de ataque, defesa e esquiva, ao tempo em que exibe habilidade, força e autoconfiança, em colaboração com o parceiro do jogo, pretendendo cada qual demonstrar habilidade superior à do companheiro. O complexo coreográfico se desenvolve a partir dum movimento básico denominado de gingado, do qual surgem os demais num desenrolar aparentemente espontâneo e natural, porém com um objetivo dissimulado de obrigar o seu parceiro a admitir a própria inferioridade. Dentre as características mais importantes da capoeira destacamos a liberdade de criação, a estrita obediência aos rituais, a preservação das tradições, o culto dos antepassados e o respeito aos mais velhos como repositório da sabedoria comunitária."
 
Ou poeticamente:
 
"A capoeira é uma luta…
ensinada e praticada como dança!
podendo ser usada como defesa…
e como ataque…
numa hora de "percisão"!
nas palavras dos Mestres
Bimba e Pastinha!
A capoeira é uma arte…
a arte de bem viver!
DISPUTADA COMO LUTA…
"mata até sem querer!"
… dizia Mestre Bimba…
"e o bom da vida é não morrer!"
… completava Mestre Pastinha!
 
OS FUNDAMENTOS DA CAPOEIRA
 
A prática da capoeira se desenvolve obedecendo aos seguintes parâmetros:
 
ritmo ijexá regido pelo berimbau;
movimentos rituais ritmodependentes;
disciplina e respeito à tradição, aos mais velhos e aos companheiros;
parceria;
movimentos em esquiva, circulares e descendentes;
dissimulação de intenção;alerta, calma, relaxamento e autoconfiança permanentes;
estado de consciência modificado (transe capoeirano); como analisaremos a seguir.
RITMO IJEXÁ
 
Por ser uma manifestação coreográfica do ritmo africano ijexá, o enquadramento dos movimentos da capoeira ao mesmo é fundamental à sua prática, conservando a continuidade da sua dinâmica, sem que se quebre a seqüência dos mesmos.
O andamento do toque ijexá leva uma estado transicional de consciência calmo, pacifico, prazeroso, possibilitando um jogo sem violência e bem cadenciado, permitindo aos parceiros estudo, análise, reflexão e criação de gestos rituais capazes de enriquecer o cabedal de reflexos de defesa, de esquiva e contra-ataques, que compõem o perfil do comportamento do verdadeiro capoeirista.
A aceleração excessiva do andamento provoca um estado de excitação incompatível com a calma indispensável à prática da capoeira, além de impossibilitar o gingado, transformando uma atividade lúdica em agressiva e potencialmente lesiva ou letal.
A observação dos movimentos rituais gerados pelos diferentes toques de atabaques, especialmente entre o ijexá dum lado e aqueles de alujá e adarrum, esclarecerá nitidamente a importância da cadência do toque da orquestra no desempenho dos parceiros do jogo de capoeira, do seu comportamento e estado mental.
 
MOVIMENTOS RITUAIS RITMODEPENDENTES
 
O conjunto dos movimentos dos participantes para ser reconhecido como jogo de capoeira deve ser ajustado ao ritmo/melodia do toque da orquestra e obedecer às regras tradicionais de cada estilo, especialmente àquelas que garantem a segurança da sua prática, i.e., a não-violência.
A capoeira baiana é, por definição e princípio, uma luta dissimulada sob forma de dança ou uma dança guerreira, ou ainda como declarou José Roberto "Pingo" (18 anos), aluno e filho pela capoeira de Mestre Canelão (Natal, RN):
"A capoeira não é violência, é um esporte, uma brincadeira sadia… a luta fica escondida."
Além do enquadramento dos movimentos ao ritmo e à melodia, é indispensável a estrita adesão ao seu ritual, isto é, às regras tradicionais que regem sua prática e garantem a segurança dos participantes.
m acordo de cavaleiros, um código de honra, transmitido pela tradição oral entre as gerações, desde suas origens, como disse o Venerável Mestre Pastinha nos seus "Manuscritos e Desenhos":
 
…"aprender municiosamente ás regras da capoeira"…
"… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar minuciosamente ás regras da capoeira de angola"; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe excesso do vale tudo,"… (8a,15-23; 8b,1-2)
Assim o Venerável Mestre Pastinha sabiamente reitera: é indispensável o código honra a ser obedecido pelos capoeiristas, pois  "é o controle do jogo" pelo juiz, pelas regras, regulamentos e pelo ritmo da orquestra, "que evita a violência e os acidentes"… vale a repetição!
 
DISCIPLINA E RESPEITO À TRADIÇÃO, AOS MAIS VELHOS E AOS COMPANHEIROS
 
Nas sociedades de cultura oral, como as africanas, o liame entre as gerações é indispensável à sobrevivência do grupamento e dos indivíduos, valorizando os mais velhos como depositários confiáveis da sabedoria e da experiência, imprescindíveis à educação dos mais jovens e menos experientes.
Manifestação cultural pela sua própria natureza, a capoeira depende da aproximação das gerações, o que integra a sociedade transformando-a num monólito, capaz de resistir às influências externas e perdurar no tempo.
A postura de respeito aos mais velhos certamente conduz àquela de respeito, estima e consideração aos companheiros de geração, os seus parceiros, unindo o grupo social, transformando-o numa família, num clã, num agrupamento tribal, numa unidade fundamental indissolúvel (com "sprit de corps", diria o Gal. Lieauty) à qual todos se orgulham de pertencer, como todos fazemos com nossa roda de capoeira.
 
PARCERIA
 
Do respeito às tradições e aos mais velhos facilmente alcançamos a noção de parceria, indispensável ao aprendizado, ao ensino e à prática da capoeira.
A capoeira, atividade fundamentalmente guerreira, intrinsecamente belicosa, potencialmente lesiva e mortal, não pode ser praticada sem confiança recíproca, sem um compromisso de não-agressividade, de não-violência, de respeito mútuo, como são as suas tradicionais regras do jogo, o seu ritual.
A este elo de camaradagem e respeito mútuo chamamos de "parceria", sem ele, morreriam todos os alunos no início do aprendizado ou desistiriam, tal a gravidade das suas lesões!
 
Sem a parceria
Cada "volta do mundo" seria uma batalha
Com morte do vencido e sem vencedor!
A Capoeira seria então o próprio Apocalipse
Cada Mestre o seu Cavaleiro!
 
MOVIMENTOS EM ESQUIVA, DESCENDÊNCIA E CIRCULARIDADE
 
Dizem os orientais que a esfera é a forma da perfeição e o círculo sua expressão mais autêntica.
Na dança ritual do candomblé os movimentos são circulares, manifestando em cada segmento e no conjunto o acoplamento ao toque (ritmo e andamento) de cada orixá.
Os movimentos circulares são os únicos que propiciam a esquiva, o escape da linha direta do ataque sem o afastamento para traz, que dificultaria ou impossibilitaria o contra-ataque.
Na capoeira, os movimentos, principalmente os deslocamentos, devem ser circulares ou melhor esféricos, girando em torno do centro de gravidade do parceiro, escapando ao seu ataque e contornando o seu flanco à procura dum ponto fraco ou abertura na guarda.
As esquivas descendentes, geram movimentos melhor apoiados no solo, portanto mais seguros, permitindo também a procura dos pontos mais baixos do corpo, habitualmente os mais vulneráveis, do adversário simulado.
Com a vantagem de que o jogador pode usar nesta postura os quatro membros e a cabeça como pontos de apoio no solo, além de dispor de maior amplitude de deslocamento, que aumenta a velocidade e força viva dos ataques e contra-ataques.
Sem falar que a rasteira, antigamente tão usada no jogo de capoeira e hoje tão raramente presenciada, é mais facilmente executada em posição mais agachada.
A atitude de esquiva é fundamental na capoeira, protegendo o praticante dos ataques, enquanto permite aproveitar a quebra da guarda, que sempre ocorre durante o movimento de ataque, para um contra-ataque oportuno.
 
DISSIMULAÇÃO DE INTENÇÃO
 
Decorrência da definição e conceito da capoeira baiana como uma dissimulação de luta sob forma de dança, adquire a simulação de intenção e a dissimulação depropósito ou de objetivos, um papel preponderante nesta vadiação dos mestiços do recôncavo baiano.
Joga melhor o mais inteligente, o mais manhoso, o mais malicioso, o mais enganador;o mais mentiroso, o mais mandingueiro, aquele que conseguir convencer o companheiro de algo que jamais fará e se aproveitar do gesto em falso do parceiro para desferir o seu golpe verdadeiro.
É preciso "pegar" o parceiro desprevenido, depois de atraí-lo para o "laço", para a armadilha em que o mesmo se enredará sem violência e sem maior esforço de parte do atacante.
O floreio, especialmente aqueles executados com os membros superiores, por não afetarem a postura e equilíbrio, nem exigir deslocamento espacial, é o instrumento mais adequado para simulação de ataques e/ou dissimulação de intenção ou objetivo.
O floreio mais eficiente é aquele que traz no seu bojo potencial de ataque a ser desencadeado instantaneamente no momento propício.
 
ALERTA, CALMA, RELAXAMENTO E AUTOCONFIANÇA PERMANENTES
 
O capoeirista necessita manter contínua sintonia com a mente do parceiro para detectar suas reais intenções e assim poder antecipar-se aos seus gestos e movimentos, seja de floreio, seja de ataque ou de esquiva.
Desta postura mental brota naturalmente o permanente acoplamento do indivíduo ao ambiente vizinho. Uma eterna vigilância. Um nexo inconsciente entre o indivíduo e o meio, que empresta ao capoeirista um ajustamento instantâneo às variáveis exteriores sejam físicas ou espirituais, que o conduz à premunição dos perigos e às reações, defensivas ou de esquiva, adequadas.
Muitas vezes o contra-ataque surge, surpreendente como relâmpago em dia de sol, como bote de jararaca aparentemente adormecida.
Na minha opinião, esta é a razão maior da influência comportamental nos deficientes, da melhoria do rendimento intelectual concomitante e das suas condições psicológicas. Somente a calma absoluta permite o relaxamento indispensável ao desencadeamento dos reflexos de defesa, ataque e contra-ataque com tempo mínimo de latência.
Apenas em perfeita tranqüilidade conseguimos manter oestado de alerta em relaxamento; capaz de liberar todas as vias neuroniais, aferentes e aferentes, para o trânsito dos estímulos periféricos e reações motoras reflexas, inconscientes e instantâneas, de esquiva, defesa, ataque e contra-ataque, características do capoeirista, durante o jogo ou em momento de perigo.
Podemos assim valorizar a advertência do Venerável Mestre Pastinha ao declamar:
"Quanto mais calmo o capoeirista… melhor para o capoeirista…"
Com o passar do tempo, a repetição interminável de situações de perigo aparente ou real, o eterno suceder de imprevistos que desencadeiam reações instantâneas, algumas surpreendentes, porém sempre adequadas, gera uma atitude inconsciente de autoconfiança, a qual facilita mais ainda o desenvolvimento deste processo de preservação da integridade do SER, a jóia mais preciosa que a capoeira pode oferecer ao seu aficionado.
É a "tranqüilidade dos fortes" ou, como prefere Esdras "Damião", "a calma é a virtude dos fortes!"
 
ESTADO DE CONSCIÊNCIA MODIFICADO (O TRANSE CAPOEIRANO)
 
Sob a influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá e pelo ritual da capoeira, o seu praticante alcança um estado modificado de consciência em que o SER se comporta como parte integrante do conjunto harmonioso em se encontra inserido naquele momento. O capoeirista deixa então de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusiona-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira. Passa a agir como parte integrante do quadro ambiental em desenvolvimento. Agindo como se conhecesse ou percebesse simultaneamente o passado, o presente e o futuro… tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá a seguir…  ajustando-se natural, insensível e instantaneamente ao processo atual.
 
JOGO
 
A prática da capoeira como jogo, é a sua forma original, a única que merece o nome de tradicional, o tronco donde emergem os demais aspectos e aplicações da capoeira, seja sob forma de luta, aplicações pedagógicas, médicas, acrobáticas, coreográficas ou de defesa pessoal.
Através sua prática chegamos à recuperação ou mantença da aptidão física na terceira idade e a desenvolver o jeito brasileiro de viver ou seja, viver "de bem com a vida".
 
DESPORTO
 
Por ser uma atividade complexa abrangendo numerosos componentes, tais como:musica orquestrada e orfeônica (instrumental, ritmo, melodia, canto de conteúdo literofilosófico, etc); coreografia; lúdico (jogo); pugilísticos (luta); parceria; habilidade acrobática; ritual; conhecimentos e habilidades técnicas sistematizadas; seqüências de defesa pessoal; etc, a capoeira apresenta diversas categorias para apreciação e julgamento ou competições. Assim é que podemos realizar concursos de variadas naturezas, tais como:
 
jogo individual de habilidade técnica;
jogo de habilidade técnica em parceria;
coreografia individual;
coreografia em parceria (dupla);
demonstrações de seqüências de movimentos de ensino em parceria;
jogo individual de habilidade acrobática;
jogo de habilidade acrobática em parceria (dupla);
demonstrações de seqüências acrobáticas (esquetches);
concurso de orquestras;
concursos de cânticos (chulas, quadras, ladainhas e corrido);
concurso de letras e seu conteúdo literofilosófico;
concurso de ritmo e melodia; etc.
 
LUTA
 
A pratica da capoeira sob qualquer de seus estilos desenvolve os verdadeiros fundamentos de qualquer método de luta ou defesa pessoal, como 
 
sentido de alerta ante os perigos, aparentes ou não;
os reflexos de esquiva, fuga, defesa e contra-ataque;
aptidão física;
força, flexibilidade e agilidade;
disciplina, autoconfiança e humildade.
Mesmo sem o treinamento especial, o capoeirista, pelo seu modo de ser (tranqüilo, alegre e afável), está apto a se esquivar de situações de conflitos (a melhor defesa pessoal segundo o Mestre Kazuo Yoshida é não se envolver em discussões e brigas) e até a se defender fisicamente de situações de agressão desarmada ou de se safar com um mínimo de estragos de possíveis agressões armadas.
 
DEFESA PESSOAL
 
A prática freqüente do jogo de capoeira com ênfase na esquiva, cria uma série de reflexos defensivos, inconscientes, abrangendo esquiva e contra-ataque, que constituem um sistema de defesa pessoal, ajustado a cada situação atual, independentemente de experiência anterior do quadro presente.
Ao contrário das artes marciais, a capoeira por ser um constante improviso, vai se ajustando a cada nova situação, instantaneamente, através dos reflexos criados pelas situações vivenciadas no dia a dia do seu jogo.
A defesa pessoal do capoeirista é instintiva e vem acoplada à pratica da capoeira como jogo, em decorrência lógica da atitude mental de esquiva e da simulação constante de situações de perigo iminente no jogo; podendo entretanto ser aperfeiçoada pelas seqüências especiais nos estágios mais avançados do treinamento pessoal.
 
PEDAGOGIA
 
O jogo de capoeira, por ser uma simulação de luta, por não envolver ostensivamente o perigo implícito desta última, permite o desenvolvimento da auto-confiança e dos reflexos de adaptação a condições de perigo.
Simultaneamente, o transe capoeirano, liberando as reações de ajustamento às condições externas do freio da consciência e do medo, torna-se um instrumento precioso no desenvolvimento duma personalidade sadia.
A disciplina exigida pela prática da capoeira acresce novos valores à personalidade do aprendiz, tais como o respeito à ética, o cumprimento das normas e regulamento, a obediência os preceitos e tradições, a noção de parceria e o companheirismo indispensáveis ao aprendizado, os quais contribuem para a formação do caráter forte e equilibrado.
 
APTIDÃO FÍSICA
 
A capoeira pelos seus atributos:
 
riqueza de movimentos envolvendo alongamentos, relaxamentos, contrações isométricas e isotônicas;
prazer do balanço ritmomelódico e o envolvimento dos 3 aspectos do SER (corpo, alma e espírito);
modificação estado de consciência, abolindo os bloqueios; conscientes, subconscientes ou inconscientes, bem como o estresse;
solicitação pneumocirculatória;
estabelecimento de reflexos de autopreservação e defesas anti-traumáticas e a conseqüente abolição do medo;
ativação sensorial e motora das vias de condução interneuronais e dos centros de controle cerebrais e espinhais;
aperfeiçoamento dos mecanismos de equilíbrio corporal;
comprometimento de todo o corpo no processo de treinamento;
aprimoramento do sentido de localização espacial;
desenvolvimento da visão periférica;
globalização ou integração de todos setores orgânicos;
socialização pelo ritual de respeito, disciplina e parceria;
permite a elaboração de sistemas de capacitação física, individuais ou coletivos, seguros, ajustáveis às condições individuais de cada praticante (desde que acompanhado por profissionais competentes).
 
PSICOTERAPIA
 
A prática do jogo de capoeira, por ser este uma coreografia dialética simulando e dissimulando intenção ou condição de perigo, cria uma atitude mental de confiança nos próprios recursos para sobreviver aos perigos. Incorporando os reflexos defensivos e a autoconfiança.
Banindo os bloqueios nervosos, que paralisam os mecanismo de auto-preservação, pela certeza de que estamos apenas brincando, dramatizando ou simulando em segurança uma condição de perigo, lentamente apresentada e da qual sabemos previamente que podemos escapar pela meio de simples esquiva.
Eliminam-se assim o medo, a timidez que são substituídos pela espontaneidade, extroversão e alegria.
 
CAPOEIRA NA TERCEIRA IDADE
 
A pratica da capoeira,
 
pela multiplicidade de seus movimentos,
pela facilidade de ajustamento às condições pessoais de cada praticante,
pelas modificações mentais que acarreta,
pela integração entre os vários componentes do Ser,
por ser uma atividade fundamentalmente lúdica e portanto prazerosa,
por desenvolver uma estado transicional de consciência capaz de escapar aos bloqueios de natureza mental e às limitações físicas do praticante,
por se prestar a inúmeros níveis de carga de trabalho;  pode ser usada como método de manutenção da aptidão física, de capacitação ou de recuperação da aptidão física, correção de desgastes pela idade ou seqüela de complicações  decorrentes de doenças próprias do envelhecimento.
 
Cumpre entretanto realçar que sua prática depende de avaliação prévia das condições orgânicas e funcionais do candidato e acompanhamento médico adequado para impedir   possíveis complicações por sobrecarga de esforço.
 
REEDUCAÇÃO MOTORA
 
O acompanhamento musical e o jogo em parceria facilitam a eliminação dos bloqueios e liberam os movimentos, enquanto a prática individual possibilita o trabalho mental de concentração nos músculo comprometidos, complemento indispensável ao bom êxito do trabalho.
Em reeducação motora poderemos usar movimentos repetidos envolvendo os músculo lesados, selecionados entre aqueles da seqüência fundamental de ensino, a partir do gingado, sob ritmo de berimbau, seja em prática individual, seja em prática individual, seja em parceria.
 

Pra Cantar…

Capoeira é da nossa cor. 
Au ê, au ê, au ê ê.
E lê lê lê lê lê lê lê lê o
Au ê, au ê, au ê ê.
E lê lê lê lê lê lê lê lê o

É cultura da raça brasileira,
Capoeira,
É da nossa cor.
Berimbau
É da nossa cor.
Atabaque
É da nossa cor.

Esse ano eu vou. 

Esse ano eu vou prá Bahia de qualquer maneira
Esse ano eu vou prá Bahia de qualquer maneira
Vou tocar berimbau
Dar salto mortal
E jogar capoeira
Vou tocar berimbau
Dar salto mortal
E jogar capoeira

Quem não foi à Bahia não sabe a mandinga dessa brincadeira
Quem não foi à Bahia não sabe a mandinga dessa brincadeira

Acende o candieiro
Autor: Edson Show
Iaiá, acende o candieiro, iaiá
Só a luz ofuscante da candeia
E o clarão da lua cheia
É o que faz o terreiro clarear
Oh Iaiá
Iaiá, oh Iaiá
Acende o candieiro, iaiá
Só a luz ofuscante da candeia
E o clarão da lua cheia
É o que faz o terreiro clarear
Hoje tem festa,
no Quilombo dos Palmares
Já se ouve pelos ares
O som estridente do tambor
Ô Ioiô, no rabo de arraia, certeiro
No jogo de Angola, rasteiro
No bote da cobra coral
Com a ligereiza dos raios
Destreza fundamental
Quem paga o pato é o capitão do mato
Na luta do bem contra mal
Oh Iaiá
Iaiá, oh Iaiá
Oh a balança na barra da saia
Levanta, sacode a poeira do chão
Oh abre a roda que agora o pau vai comer
No samba duro angolano
na ginga do maculelê
Oh abre a roda que agora o pau vai comer
No samba duro angolano
na ginga do maculelê
Ô quem tem sangue do quilombola não cai
Finge que vai, mas não vai
Risca seu nome no vento
Rei Gangazumba vem dar inicio ao festejo
Sua voz é um lampejo
Que comanda o ritual.
O seu lamento
era um grito de guerra
Que escoava sobre a terrra
Formando um Quilombo immortal
Oh Iaiá
Iaiá, oh Iaiá
Acende o candieiro, iaiá
Só a luz ofuscante da candeia
E o clarão da lua cheia
É o que faz o terreiro clarear

Galo já cantou, já raiou o dia
Galo já cantou, já raiou o dia
Até parece que estou lá na Bahia
Galo já cantou, já raiou o dia (Coro)
Na roda de capoeira
Eu me sinto na Bahia
Galo já cantou, já raiou o dia (Coro)
Quando eu ouço um berimbau
O meu corpo se arrepia
Galo já cantou, já raiou o dia (Coro)
Capoeira die e noite
Capoeira noite e dia
Galo já cantou, já raiou o dia (Coro)
E fiz da capoeira
A minha filosofia
Galo já cantou, já raiou o dia (Coro)
Avisa aos capoeiras
Lá vem a cavalaria
Galo já cantou, já raiou o dia (Coro)
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