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Religiosidade na Capoeira

Dentre os vários aspectos expressos pela capoeira, o componente mítico-religioso sempre foi para mim, um dos que mais suscitou curiosidade. Debates, opiniões e muitas histórias contadas e recontadas através da tradição oral presente na cultura popular, são a motivação para a minha pesquisa nesse universo.

O aspecto mágico e misterioso, conhecido no universo da capoeiragem como “mandinga”, por exemplo, é um dos elementos importantes para uma compreensão mais aprofundada sobre essas questões. O substantivo “mandinga” se refere possivelmente à região Mandinga, na África ocidental, banhada pelos rios Níger, Senegal e Gâmbia. Entre os africanos trazidos para o Brasil, havia a crença de que nessa região habitavam muitos feiticeiros. Daí podemos compreender melhor o sentido que esse termo acabou ganhando na capoeira

O grande mestre Valdemar da Liberdade disse uma vez que os mestres de antigamente “…tinham muita mandinga, viravam folha, viravam bicho. Aquilo era próprio para barulho. Besouro era um grande capoeirista, mas tudo debaixo de oração”. Cobrinha Verde se dizia católico, mas não deixava de recorrer também às tradições religiosas africanas para o “fechamento de seu corpo” no sentido de se proteger dos inimigos “desse mundo e do outro”, dizia ele.

Os depoimentos dos capoeiras mais antigos evidenciam a mandinga enquanto componente fundamental da capoeira. O termo mandinga pode designar a malícia do capoeirista durante o jogo, fazendo fintas, fingindo golpes e iludindo o adversário. Mas pode referir-se também a uma certa dimensão sagrada, um vínculo que muitos praticantes de capoeira possuem com os preceitos de algumas religiões afro-brasileiras. Em geral, boa parte das manifestações de origem africana no Brasil, de uma forma ou de outra, trazem algum aspecto que evidencia uma aproximação maior ou menor com as religiões afro-brasileiras.

Mas dizer que a capoeira possui aspectos de religiosidade, não significa dizer que ela está diretamente ligada a essa ou àquela religião em particular, pois existem praticantes de capoeira de todas as religiões. Na capoeira não se pergunta qual a religião do capoeirista antes do jogo: simplesmente se convida para jogar.

A capoeira tem religiosidade, mas não tem religião !!!

A religiosidade da capoeira se manifesta através dos seus rituais, dos cânticos, da celebração, da memória dos seus ancestrais, da sua ligação com esse passado de luta e sofrimento. A dimensão do “sagrado” na capoeira se mostra através desses aspectos, e por isso podemos dizer que a religiosidade é um componente importante da capoeira, sobretudo da capoeira angola, embora muitos grupos de capoeira regional também valorizem essa dimensão.

Esses saberes populares que determinam a religiosidade presente na capoeira expressam um vasto campo de significados e de suas ligações com o “sagrado”, assim como muitas outras manifestações e tradições presentes no universo da cultura popular no Brasil. A dimensão do sagrado, tem para o povo simples de nosso país, um sentido muito especial e profundo e que determina suas crenças, seus modos de vida, seus sonhos, suas lutas, suas vitórias e suas derrotas.

 

 

Pesquisadores pedem registro de reisado como patrimônio cultural

Uma área de 300 metros quadrados, coberta parcialmente com sapê, um mestre da cultura popular guiando com seus cânticos (ou toadas) o pequeno grupo que dança em reverência ao rei. Foi desta forma que terminou o primeiro dia de atividades do 4º Encontro Mestres do Mundo e o 3º Seminário Nacional de Culturas Populares, que vai até sábado (6), nos municípios de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha (CE). Este é o cenário de um reisado, expressão da cultura popular que pode se tornar patrimônio cultural do Brasil.

O pesquisador Oswald Barroso, que participa do evento, defende o pedido de registro do reisado como patrimônio cultural como um dos encaminhamentos do seminário. Este ano, a capoeira e o processo artesanal de produção do pão de queijo foram assim reconhecidos.

“O reisado é um dos mais representativos. Está presente no conjunto do Brasil, incorporado na vida popular e, longe de desaparecer, há cidades no Ceará, por exemplo, que reúnem mais de 50 grupos de reisados de vários tipos. Além disso, tem uma complexidade que eu penso que outros folguedos não têm. Um apanhado dessas nuances seria fundamental não só para entender o Brasil, mas a alma humana”, defende o pesquisador.

No Cariri, região ao sul do Ceará que sedia o evento, a cultura do reisado é muito forte. Na verdade, é uma das expressões da cultura popular mais presentes no território brasileiro, que ganha formas e criações de acordo com o lugar. Há pelo menos quatro tipos de reisados: o de congo, o de caretas, as bandas cabaçais e as torés indígenas.

Pela tradição, o rei representa um dos reis magos – escolhidos por Deus para conhecer seu filho (Jesus) – e conduz seu povo. O que se observa nas apresentações é o caminho para chegar lá, onde o povo encontra criaturas, inimigos, e têm que combatê-los. A história se mistura à luta dos escravos nos quilombos, que tinham que batalhar pela vida e pelo território com índios e brancos. O reisado é considerado uma tradição do período natalino, ao contrário dos bois, que são do período junino.

Oswald, que é ator, jornalista e sociólogo, tem dois livros sobre a tradição e desenvolveu a teoria do “teatro como desencantamento”, com base em seus estudos de mais de duas décadas sobre o reisado.

“O reisado é a incorporação do arquétipo do rei, que, dentro de cada roceiro, cada carroceiro, cada biscateiro, há um rei dentro de si. Eles vivem desencantados nessa vida comum, e, na brincadeira, eles se encantam e entram em outra dimensão da realidade, do maravilhoso. Nessa dimensão, eles são reis, rainhas, embaixadores. Então eles vivem a dimensão do eterno, do paraíso, da utopia. Vivem a dimensão do sagrado”, sintetiza.

O pesquisador da Federação de Reisado do Estado do Rio de Janeiro, Afonso Furtado, conta que o reisado já quase desapareceu da Baixada Fluminense pela falta de incentivos. Por isso, considera que oportuna a proposta de registro do folguedo.

“É uma idéia muito apropriada para o momento. E é um desafio para nós porque, à medida que o reisado vai do Amazonas ao Rio Grande do Sul apresentando diferenças claras, teremos que registrar tudo. É um desafio, mas não é impossível”, afirma.

Fonte: http://www.pernambuco.com/
Da Agência O Globo