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CAL organizou aula de capoeira na Escola Rainha D. Amélia

A Casa da América Latina organizou, no âmbito do seu programa educativo A Minha América Latina, uma aula de capoeira no dia 11 de março, na Escola Secundária Rainha D. Amélia, em Lisboa.

A demonstração ficou a cargo dos membros da academia Abadá Capoeira.

 

http://casadamericalatina.wordpress.com

Ciclo de Palestras Memorial da Justiça: Capoeira, Cangaço e Escravidão

Memorial da Justiça irá promover, nos dias 10, 11 e 12 de abril, seu primeiro Ciclo de Palestras. Na ocasião, serão discutidas questões relacionadas à escravidão, capoeira e cangaço, conforme folder anexo.

Convidamos todos a participarem conosco do evento.

As inscrições podem ser realizadas por meio do envio da ficha de inscrição anexa devidamente preenchida para o email[email protected] . A  ficha de inscrição também está disponível para download no site do TJPE (www.tjpe.jus.br).

As vagas são limitadas e serão ocupadas de acordo com a data e hora do envio da ficha de inscrição preenchida. Para que cada inscrição seja confirmada, email será enviado pela equipe da organização do evento para cada inscrito.

Conto com a presença de todos e peço que divulguem nosso Ciclo de Palestras.

*Preencher todos os campos e enviar para o e-mail: [email protected]
Celular:
Estado:
Cidade:
Nacionalidade:
CPF:
Formação/Instituição:
E-mail:Telefone:
CEP:
Bairro:
Rua:
Endereço/Contatos:
RG:
Nome (não abreviar, observar grafia correta)*:

Atenciosamente,
Mônica Pádua
Chefe do Memorial da Justiça do TJPE

DF: Politicas Públicas & Capoeira

A Câmara Legislativa promove debate nesta quinta-feira (16) para debater a inclusão da capoeira entre as políticas públicas do Distrito Federal.

A audiência pública é uma iniciativa do deputado Wasny de Roure (PT) e acontecerá no auditório da Casa, a partir das 15 horas. Foram convidados para participar do evento representantes das áreas de educação e cultura do GDF e de entidades representativas da capoeira no DF.

De acordo com Wasny de Roure, o objetivo principal é estimular e regulamentar a prática da capoeira nas escolas públicas e nos espaços esportivos e culturais da capital da República, favorecendo o seu reconhecimento e ampliando as suas perspectivas como ferramenta pedagógica no processo educativo.

“A capoeira é herança de nossos antepassados africanos, portadora de relevantes aspectos educativos e tem resultados muito positivos para a saúde e bem-estar dos seus praticantes, sejam eles crianças, jovens ou adultos”, destaca o deputado.

 

Luís Cláudio da Silva Alves – Coordenadoria de Comunicação Social – http://www.cl.df.gov.br

Teresina: 24 horas de Capoeira

Grupo realiza primeira 24 horas de Capoeira de Teresina. As rodas vão começar a partir das 18 horas de sábado e vão até as 18 horas de domingo.

O grupo Solnascente está realizando o Primeiro 24 horas de Capoeira de Teresina, na praça principal do bairro São João, na zona Leste de Teresina, em frente ao clube Eldorado. Além de rodas de capoeira também acontecerá o 5º Encontro Feminino de Capoeira.

O evento terá a participação de 300 a 400 capoeiristas do grupo de Teresina e de esportistas de Brasília, sob o comando do mestre Romeu da Bahia.

Segundo um dos coordenadores do evento, Tiago Craveiro, o objetivo é divulgar o trabalho sócio-educativo e a cultura da capoeira, suas tradições e raízes.

O grupo solnascente já atua a 13 anos em Teresina e está realizando um curso de Capoeira Angola com o mestre Romeu nesta sexta-feira, em sua sede, no Dirceu II, zona Sudeste de Teresina.
 
 
Caroline Oliveira
[email protected]

Sorocaba: Made in Brazil

Um jogo, uma dança, uma luta e esporte. Tudo isso é a capoeira, genuinamente brasileira, que vem ganhando adeptos ao redor do mundo. Nascida nas senzalas e quilombos no período da escravidão, ela deixa de ser marginalizada e ganha espaço ao lado dos esportes.

Aquilo que foi criado para ser uma defesa contra o inimigo, se transformou em esporte e cultura.

Manoel Troiano dos Santos, o mestre Cuco, contou que em Sorocaba existem cerca de 50 núcleos de capoeira, divididos em oito associações. “São mais de 10 mil praticantes em toda a cidade.”

Entre eles está Regina França, capoeirista há seis anos. “Assisti uma apresentação na praça e quis praticar”, lembra. Para ela, o esporte sempre traz novos desafios a serem superados, além de manter o corpo em forma. Regina joga capoeira durante duas horas, três ou quatro vezes por semana.

Mestre Cuco acredita que é preciso tirar da capoeira a imagem do preconceito. “A capoeira hoje é instrumento educativo. Ela saiu das ruas e da marginalidade para entrar nas escolas e nas casas das pessoas.”

Modelo exportação

De acordo com Cuco, a capoeira já é pratica em 150 países, sempre com as regras e o formato criando no Brasil. “A música é brasileira e as cores dos cordões representam a bandeira do país.”

O esporte, que já fez um campeonato mundial, busca agora a inclusão nas Olimpíadas. Para isso, precisa realizar cinco competições desse nível.

Assim como nas artes marciais, o atleta que aumenta de nível, troca de cordão, até chegar ao branco, usado pelos mestres.

Benefícios

A prática da capoeira representa um grande benefício para o organismo. Cuco, que é formado em Educação Física, disse que duas horas de treino representa a perda de 700 calorias. Ele acrescentou que o esporte permite um fortalecimento ósseo e muscular. “Existem pessoas que praticam a capoeira até os 80 anos.”

Para os iniciantes, a aula começa com orientações sobre os fundamentos e golpes. Em cerca de três meses, disse o mestre, o capoerista já pode participar da roda.

Cuco deixa claro que a capoeira apenas simula uma lita, mas não há agressão entre os participantes.

Liga Regional na cidade

Com o objetivo de integrar as associações de Sorocaba e região, foi criada este ano a Liga Regional Sorocabana de Capoeira. “Queremos regularizar e oferecer um suporte aos praticantes”, explica o presidente, Manoel dos Santos, o mestre Cuco.

Ao todo, 72 cidades fazem parte da área de cobertura da Liga. Cuco explicou que a entidade, que é filiada à Fecaesp (Federação de Capoeira do Estado de São Paulo) vai organizar cursos de capacitação e regulamentar o trabalho realizado na região. “Através de nós, as associações também poderão participar das competições.”

O vice-presidente da Liga, José Aparecido Mendes, o mestre Cupim, diz que a entidade vai realizar seletivas regionais para indicar atletas para campeonatos importantes. “Dessa forma poderemos levar os melhores da nossa região.” Cupim é o atual campeão brasileiro na categoria peso pesado.

Capoeira não tem idade

Com apenas seis anos, Matheus Almeida, pratica a capoeira há um ano e meio. Ao lado de Nathália Almeida, 8, ele já aprende os primeiros golpes. “Parei de fazer futebol porque não dava tempo e gosto mais da capoeira”, conta o menino.

Nathália sabe que não é comum uma menina jogar capoeira, mas ela não se importa. Os dois farão seu primeiro batizado (mudança de cordão) ainda este mês.

A presença de crianças nas aulas mostra que, além de não representar nenhum risco, a capoeira é um instrumento educativo. O esporte já é praticado em muitas escolas de Sorocaba.

O mestre Cuco explicou que a capoeira tem um caráter educativo e disciplinar muito importante no desenvolvimento da criança. “Muitas crianças melhoram seu temperamento quando fazem capoeira.”

Jacqueline França – [email protected]

ÉTICA NA OU DA CAPOEIRA?

"A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes,
um ensino ético realizado através de situações simbólicas."

Para nós estrangeiros o gosto pela capoeira não pode vir da sua imagem como símbolo da brasilianidade ou da africanidade dentro da brasilianidade. A história social europeia tem produzido o boxe e a savate ; nas Antilhas o Ladja (ou Danmié) apresenta tão bem a herança Afro que nem os velhos "majors" remanescentes da arte, nem os revivalistas, atraem muitos adeptos. É que em muitos municípios, mesmo com esmagadora maioria Afro-antilhesa, a prática, como todas em que o tambor participa, é proibida, por ser indigna da grande civilização francesa, a qual domina absolutamente o terreno. Esta cultura é a que tem formalizado,com a obra do Barão Pierre de Courbertin, a reativação dos Jogos Olímpicos e outras medidas de normalização dos esportes. Para isto, se valeu da tradição aristocrata do duelo, fonte do espírito de sujeição à regras, e de jogos populares pouco regrados.
Ao estudar estes jogos do passado, constatamos que se desenvolveram a partir das tenções que os praticantes sofriam no seu cotidiano. Especificamente, as formas antigas, na França ou na Inglaterra, das lutas (em suas modalidades populares) como dos jogos de bola, tinham muitas vezes um conteúdo social, que podia ocasionalmente ser considerado danoso ou subversivo. A proibição da capoeira na fase de modernização do Brasil não é um caso único. A regulação os jogos foi um esforço de controle social, exercido ou pelos especialistas tradicionais da questão, padres e pedagogos, ou pelos industrialistas. Integrados hoje na economia do espetáculo, o esporte é considerado pelos seus promotores como exercício higiénico e educativo. Higiénico, combate os efeitos da divisão do trabalho, em qual os indivíduos, particularmente os operários do sistema de produção de massa e os empregados de escritórios, vêem o seu corpo deteriorado pelas tarefas repetitivas ou o sedentarismo; educativo, pratica a concorrência para que o melhor ganhe, mostra um retorno graduado pelos investimentos pessoais; higiénico, dá espaço de esvaziamento para tensões psicológicas dirigida por ele contra um adversário ritual; educativo, coloca a ênfase sobre o respeito das regras, aprendizagem da legalidade; higiénico, põe em contato setores diversos da sociedade; educativo, ensina a cada um o seu lugar, integrando os dominados através de esportes coletivos onde os postos de comando são atribuídos aos integrantes de classe alta; higiénico, tira a mocidade da bebida e das demais drogas; educativo, ensina a dignidade na derrota e a submissão às decisões do árbitro.
No decorrer do século, a sociedade tem evoluido para uma concorrência generalizada entre estruturas equivalentes. Sem falar do mercado, onde vemos um sem-número de sabões, de biscoitos, de carros mais ou menos similares, as religião fornecem um exemplo : quantas denominações cristãs? Porque foi achado necessário separar-se tanto, quando a diferença teórica é tão pouca? Os esportes, similarmente, evoluiram para acabar todos, nos seus princípios e na sua estruturação, modalidades diversas da mesma metáfora da sociedade industrial. Ultimamente, o desenvolvimento tem chegado a um paradoxo. Não cabe aqui tentar uma explicação, mas o fato é que temos um desemprego considerável. Neste contexto, o princípio de competição para seleção dos mais aptos não permite mais a conservação de uma posição à altura da dos pais para todos os rebentos.A família, de que se falava que estava em crise, voltou a atuar para ajudar fornecendo patrocínio. O dinheiro comprou longos espaços de adaptação profissionais não pagos para que os filhos se tornassem mais atraentes, independente das suas capacidades, para os empregadores. O esporte, portanto, apresenta agora na vista comum uma projeção falsificada do funcionamento social. Como espetáculo, vira celebração de uma cultura em crise ou até em decadência, como opção pessoal, ilude o praticante. Em resposta, apareceram e foram oficializados uma série de "esportes" com ênfase diferente, onde o aspeto agonístico está quase ausente. O seu princípio comum é o do concurso acrobático. O indivíduo solitário consegue fazer algo inédito. Um júri atribui o prémio. A arbitrariedade da decisão é compensada pelo seu lado político (coletivo). No entanto, os folguedos populares que não foram integrados pelo espírito esportivos continuam (ou não) existir discretamente. Pois nem todos entraram no molde. E cada povo imigrante trouxe as suas modalidades próprias, que nem sempre se prestavam à esportivismo. Como o desemprego cria condições aventurosas em todos os setores, o número dos que procuram o sucesso em novas direções vai aumentando: decisão arriscada, mas não mais do que a participação à concorrência maior pelos postos já definidos.
A capoeira é um destes rumos, e certamente já vemos dois jeitos de integra-la ao quadro, de acordo com diversas opções pessoais. Como modalidade de luta, a única chance dela é o seu exotismo, que faz ela adotada por praticantes de um determinado esnobismo, e por galos que prefirem ser o dono de um pequeno terreno do que se expor ao vasto mundo. Como jogo acrobático, e possivelmente em conjunto com efeito de exotismo e de moda, atrai aqueles, já aludidos, que perderam os valores de competição para seleção dos melhores e se entregam à decisões coletivas (metáfora da política) para a valorização do seu esforço. Estes muitas vezes temem o contato e confronto com um outro e tornam essencial e permanente a regra de parceria que a capoeira tem no seu treino.
Ainda existe outro caso — o meu, por sinal. Gosto da capoeira porque a capoeira, vadiação, brinquedo, baderna, jogo, NÏ É um esporte, dos que são uma simples projeção metafórica da sociedade industrial : regrados, sem acesso dos indivíduos à definição das regras; burocráticos, policiados, insensíveis às pequenas variações locais.
A perspetiva de ver regras impostas à capoeira olho com muita suspição. A capoeira não tem regras? Acredito que sim, tem; mas, isso é importante, a capoeira não tem regulamento, não tem regras EXPLÍCITAS. A diferença da expressão do que é o certo através de símbolos e através de explicitação num discurso é capital.
Pretendo elaborar alguma coisa no assunto, mas a não ser a falta de tempo para um escrito do qual quero que obedece às regras formais da cientificidade e mantenha um rigor no seu raciocínio, existe uma contradição no meu propósito. É preciso alguma meditação antes de explicitar a necessidade de não explicitar regras.
Em defesa da ausência de regras, já posso destacar que isso permite adaptação às mutações do meio social. Certamente, a capoeira já mudou, e muito do Brasil colonial para cá. Segundo, o juridismo de normas, de regras escritas é integral da cultura europeia — para ser mais preciso, da cultura dos mestres, dominantes europeios. Não é só no Brasil que os dominados tem tentado burlar regras para quais não foram consultados. Não sou anarquista. Não dou valor geral à eliminação de regras. Não julgo o resultado do espalhamento (violento) da cultura dita ocidental. Mas o fato atual é que o crescimento da civilização industrial, da divisão do trabalho, da especialização inclusive das tarefas de dominação, da burocratização, fazem que não existe mais lugar de decisão, onde se determinariam regras. Os moradores da aldeia planetar são dominados por regras que sempre, qualquer seja o nível onde estão endereçados os protestos, são determinadas um além. Existe, em consequência, uma crise da aceitação dos regulamentos.
Ponto de vista, isto, que pode muito bem não ser dos capoeiristas, brasileiros socialmente dominados, suburbanos, biqueiros, donos de ofícios desvalorizados, em ânsia de merecido reconhecimento social, que procuram-lo através de organização oficialmente padronizada. Aceitam estes constrangimentos mais do que construem-los — na vida tem que ter jogo de cintura.
Mas não é o caso, se não me engano, dos organizadores do grupo Palmares da Paraíba de quem recebemos a comunicação sobre a ética, nem dos autores de textos sobre a ética que encontramos no Internet. Se trata de pessoas já bem integradas, já que o acesso ao Web requer alguns recursos financiais e sobretudo uma determinada familiaridade com a lógica do escrito e dos computadores.
O que vemos na rede é expressão de un desejo de colocação de regras éticas oriundas do estado (ética cívica) ou da sociedade civil (éticas esportivas, religiosas, liberais, étnico-culturais) para a capoeira. É uma ação similar à do barão de Courbertin, que pode muito bem se chamar de violência simbólica.
Simbólica, porque exercida sobre os símbolos, isto é, são as ferramentas mentais que permitem às pessoas de constituir uma visão do mundo própria. Violência, porque aproveitam da dominação do verbo na sociedade e do prestígio da fala bem construída para apagar os comportamentos que constituem, de fato, expressão de outra construção simbólica do mundo. Sei que muitas pessoas, particuliarmente as "educadas", ficaram, devido à educação especializada no domínio do discurso, insensíveis aos símbolos não verbais. Não digo que isto não seja certo. O discurso é mesmo a chave para todos os caminhos do sucesso social. Mas não é o único meio de constituir símbolos. Todo mundo se vale do seu corpo para soltar mensagens, e os letrados, que em consequência da sua especialização não entendem estes sinais antes de verbaliza-los, precisam de reconhecer com alguma humildade que a reação direita ao fluxo de símbolos corporais é mais eficiente no relacionamento social. É mais rápida, mais precisa, e reage às variações do intercâmbio. Para estes, como para bom número de europeios, o treino na capoeira é verdadeira reeducação.
Mas para aprender, é preciso de um professor. Não pode ser o aluno que dita as regras — um fenómeno, digo passando, que encontramos muito por aí, o do aluno que acredita que aquilo que aprendeu na vida é válido sempre, portanto válido na capoeira, portanto que já sabe tudo e só precisa de algumas técnicas. No caso do textos sobre a ética, sem tirar nada da capoeira que os autores já tem, assistimos à manobra do mesmo cunho. Sendo que existem regras éticas; sendo que essas regras são universais; sendo que a capoeira é parte do universo; declaram os autores: as regras éticas devem se aplicar à capoeira. Mas não é nada disso. A capoeira não precisa de ética. A capoeira tem ética. A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes, um ensino ético realizado através de situações simbólicas.
Por enquanto, não quero explicitar mais. Isto já é demais para os praticantes não letrados, que são os primeiros usuários deste ensino da capoeira, que nem por isso deixa de ser útil para os outros, mais formados e deformados para e pelo discurso. Se, porém, subsidisse uma dúvida sobre o fato que a capoeira tem ética em si, indicarei, simplesmente, que se a ética é prescrição de uma atitude certa frente à vida social, então, a atitude capoeira é adaptada para quem não pode ou não quer competir por um dos poderes centrais da sociedade : uma PARTICIPAÇÃO DESCONFIADA.
Ponho este exemplo de transcrição discursiva par convencer aqueles que não entendem assunto qualquer se não é traduzido em discurso, para incentivar eles a comecer a aprender.

"Polô"

ÉTICA NA CAPOEIRA?

“A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes,
um ensino ético realizado através de situações simbólicas.”

Ética na ou da capoeira ?

Para nós estrangeiros o gosto pela capoeira não pode vir da sua imagem como símbolo da brasilianidade ou da africanidade dentro da brasilianidade. A história social europeia tem produzido o boxe e a savate ; nas Antilhas o Ladja (ou Danmié) apresenta tão bem a herança Afro que nem os velhos “majors” remanescentes da arte, nem os revivalistas, atraem muitos adeptos. É que em muitos municípios, mesmo com esmagadora maioria Afro-antilhesa, a prática, como todas em que o tambor participa, é proibida, por ser indigna da grande civilização francesa, a qual domina absolutamente o terreno. Esta cultura é a que tem formalizado,com a obra do Barão Pierre de Courbertin, a reativação dos Jogos Olímpicos e outras medidas de normalização dos esportes. Para isto, se valeu da tradição aristocrata do duelo, fonte do espírito de sujeição à regras, e de jogos populares pouco regrados.
Ao estudar estes jogos do passado, constatamos que se desenvolveram a partir das tenções que os praticantes sofriam no seu cotidiano. Especificamente, as formas antigas, na França ou na Inglaterra, das lutas (em suas modalidades populares) como dos jogos de bola, tinham muitas vezes um conteúdo social, que podia ocasionalmente ser considerado danoso ou subversivo. A proibição da capoeira na fase de modernização do Brasil não é um caso único. A regulação os jogos foi um esforço de controle social, exercido ou pelos especialistas tradicionais da questão, padres e pedagogos, ou pelos industrialistas. Integrados hoje na economia do espetáculo, o esporte é considerado pelos seus promotores como exercício higiénico e educativo. Higiénico, combate os efeitos da divisão do trabalho, em qual os indivíduos, particularmente os operários do sistema de produção de massa e os empregados de escritórios, vêem o seu corpo deteriorado pelas tarefas repetitivas ou o sedentarismo; educativo, pratica a concorrência para que o melhor ganhe, mostra um retorno graduado pelos investimentos pessoais; higiénico, dá espaço de esvaziamento para tensões psicológicas dirigida por ele contra um adversário ritual; educativo, coloca a ênfase sobre o respeito das regras, aprendizagem da legalidade; higiénico, põe em contato setores diversos da sociedade; educativo, ensina a cada um o seu lugar, integrando os dominados através de esportes coletivos onde os postos de comando são atribuídos aos integrantes de classe alta; higiénico, tira a mocidade da bebida e das demais drogas; educativo, ensina a dignidade na derrota e a submissão às decisões do árbitro.
No decorrer do século, a sociedade tem evoluido para uma concorrência generalizada entre estruturas equivalentes. Sem falar do mercado, onde vemos um sem-número de sabões, de biscoitos, de carros mais ou menos similares, as religião fornecem um exemplo : quantas denominações cristãs? Porque foi achado necessário separar-se tanto, quando a diferença teórica é tão pouca? Os esportes, similarmente, evoluiram para acabar todos, nos seus princípios e na sua estruturação, modalidades diversas da mesma metáfora da sociedade industrial. Ultimamente, o desenvolvimento tem chegado a um paradoxo. Não cabe aqui tentar uma explicação, mas o fato é que temos um desemprego considerável. Neste contexto, o princípio de competição para seleção dos mais aptos não permite mais a conservação de uma posição à altura da dos pais para todos os rebentos.A família, de que se falava que estava em crise, voltou a atuar para ajudar fornecendo patrocínio. O dinheiro comprou longos espaços de adaptação profissionais não pagos para que os filhos se tornassem mais atraentes, independente das suas capacidades, para os empregadores. O esporte, portanto, apresenta agora na vista comum uma projeção falsificada do funcionamento social. Como espetáculo, vira celebração de uma cultura em crise ou até em decadência, como opção pessoal, ilude o praticante. Em resposta, apareceram e foram oficializados uma série de “esportes” com ênfase diferente, onde o aspeto agonístico está quase ausente. O seu princípio comum é o do concurso acrobático. O indivíduo solitário consegue fazer algo inédito. Um júri atribui o prémio. A arbitrariedade da decisão é compensada pelo seu lado político (coletivo). No entanto, os folguedos populares que não foram integrados pelo espírito esportivos continuam (ou não) existir discretamente. Pois nem todos entraram no molde. E cada povo imigrante trouxe as suas modalidades próprias, que nem sempre se prestavam à esportivismo. Como o desemprego cria condições aventurosas em todos os setores, o número dos que procuram o sucesso em novas direções vai aumentando: decisão arriscada, mas não mais do que a participação à concorrência maior pelos postos já definidos.
A capoeira é um destes rumos, e certamente já vemos dois jeitos de integra-la ao quadro, de acordo com diversas opções pessoais. Como modalidade de luta, a única chance dela é o seu exotismo, que faz ela adotada por praticantes de um determinado esnobismo, e por galos que prefirem ser o dono de um pequeno terreno do que se expor ao vasto mundo. Como jogo acrobático, e possivelmente em conjunto com efeito de exotismo e de moda, atrai aqueles, já aludidos, que perderam os valores de competição para seleção dos melhores e se entregam à decisões coletivas (metáfora da política) para a valorização do seu esforço. Estes muitas vezes temem o contato e confronto com um outro e tornam essencial e permanente a regra de parceria que a capoeira tem no seu treino.
Ainda existe outro caso — o meu, por sinal. Gosto da capoeira porque a capoeira, vadiação, brinquedo, baderna, jogo, NÏ É um esporte, dos que são uma simples projeção metafórica da sociedade industrial : regrados, sem acesso dos indivíduos à definição das regras; burocráticos, policiados, insensíveis às pequenas variações locais.
A perspetiva de ver regras impostas à capoeira olho com muita suspição. A capoeira não tem regras? Acredito que sim, tem; mas, isso é importante, a capoeira não tem regulamento, não tem regras EXPLÍCITAS. A diferença da expressão do que é o certo através de símbolos e através de explicitação num discurso é capital.
Pretendo elaborar alguma coisa no assunto, mas a não ser a falta de tempo para um escrito do qual quero que obedece às regras formais da cientificidade e mantenha um rigor no seu raciocínio, existe uma contradição no meu propósito. É preciso alguma meditação antes de explicitar a necessidade de não explicitar regras.
Em defesa da ausência de regras, já posso destacar que isso permite adaptação às mutações do meio social. Certamente, a capoeira já mudou, e muito do Brasil colonial para cá. Segundo, o juridismo de normas, de regras escritas é integral da cultura europeia — para ser mais preciso, da cultura dos mestres, dominantes europeios. Não é só no Brasil que os dominados tem tentado burlar regras para quais não foram consultados. Não sou anarquista. Não dou valor geral à eliminação de regras. Não julgo o resultado do espalhamento (violento) da cultura dita ocidental. Mas o fato atual é que o crescimento da civilização industrial, da divisão do trabalho, da especialização inclusive das tarefas de dominação, da burocratização, fazem que não existe mais lugar de decisão, onde se determinariam regras. Os moradores da aldeia planetar são dominados por regras que sempre, qualquer seja o nível onde estão endereçados os protestos, são determinadas um além. Existe, em consequência, uma crise da aceitação dos regulamentos.
Ponto de vista, isto, que pode muito bem não ser dos capoeiristas, brasileiros socialmente dominados, suburbanos, biqueiros, donos de ofícios desvalorizados, em ânsia de merecido reconhecimento social, que procuram-lo através de organização oficialmente padronizada. Aceitam estes constrangimentos mais do que construem-los — na vida tem que ter jogo de cintura.
Mas não é o caso, se não me engano, dos organizadores do grupo Palmares da Paraíba de quem recebemos a comunicação sobre a ética, nem dos autores de textos sobre a ética que encontramos no Internet. Se trata de pessoas já bem integradas, já que o acesso ao Web requer alguns recursos financiais e sobretudo uma determinada familiaridade com a lógica do escrito e dos computadores.
O que vemos na rede é expressão de un desejo de colocação de regras éticas oriundas do estado (ética cívica) ou da sociedade civil (éticas esportivas, religiosas, liberais, étnico-culturais) para a capoeira. É uma ação similar à do barão de Courbertin, que pode muito bem se chamar de violência simbólica.
Simbólica, porque exercida sobre os símbolos, isto é, são as ferramentas mentais que permitem às pessoas de constituir uma visão do mundo própria. Violência, porque aproveitam da dominação do verbo na sociedade e do prestígio da fala bem construída para apagar os comportamentos que constituem, de fato, expressão de outra construção simbólica do mundo. Sei que muitas pessoas, particuliarmente as “educadas”, ficaram, devido à educação especializada no domínio do discurso, insensíveis aos símbolos não verbais. Não digo que isto não seja certo. O discurso é mesmo a chave para todos os caminhos do sucesso social. Mas não é o único meio de constituir símbolos. Todo mundo se vale do seu corpo para soltar mensagens, e os letrados, que em consequência da sua especialização não entendem estes sinais antes de verbaliza-los, precisam de reconhecer com alguma humildade que a reação direita ao fluxo de símbolos corporais é mais eficiente no relacionamento social. É mais rápida, mais precisa, e reage às variações do intercâmbio. Para estes, como para bom número de europeios, o treino na capoeira é verdadeira reeducação.
Mas para aprender, é preciso de um professor. Não pode ser o aluno que dita as regras — um fenómeno, digo passando, que encontramos muito por aí, o do aluno que acredita que aquilo que aprendeu na vida é válido sempre, portanto válido na capoeira, portanto que já sabe tudo e só precisa de algumas técnicas. No caso do textos sobre a ética, sem tirar nada da capoeira que os autores já tem, assistimos à manobra do mesmo cunho. Sendo que existem regras éticas; sendo que essas regras são universais; sendo que a capoeira é parte do universo; declaram os autores: as regras éticas devem se aplicar à capoeira. Mas não é nada disso. A capoeira não precisa de ética. A capoeira tem ética. A capoeira para mim é, entre outras coisas talvez menos importantes, um ensino ético realizado através de situações simbólicas.
Por enquanto, não quero explicitar mais. Isto já é demais para os praticantes não letrados, que são os primeiros usuários deste ensino da capoeira, que nem por isso deixa de ser útil para os outros, mais formados e deformados para e pelo discurso. Se, porém, subsidisse uma dúvida sobre o fato que a capoeira tem ética em si, indicarei, simplesmente, que se a ética é prescrição de uma atitude certa frente à vida social, então, a atitude capoeira é adaptada para quem não pode ou não quer competir por um dos poderes centrais da sociedade : uma PARTICIPAÇÃO DESCONFIADA.
Ponho este exemplo de transcrição discursiva par convencer aqueles que não entendem assunto qualquer se não é traduzido em discurso, para incentivar eles a comecer a aprender.

“Polô”

 

Pol Briand, Paris/FR