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Crônica: Que seria de nós?

Marcio Lourenço Araújo, mais conhecido no universo da capoeiragem como Contra-Mestre Pernalonga, vem ao longo de sua história construindo fortes amizades e valorizando a cultura brasileira. Depois de ter se aventurado pelas bandas da Alemanha tem construido dia após dia com muito trabalho, carinho e dedicação uma casa forte, cercada de amigos dando estes todo o alicerce que a família Cazuá precisa para prosperar.
 
Este ano o Cazuá irá completar 3 anos de existência, tive o imenso prazer de estar presente em seu primeiro aniversário e irei fazer de tudo para estar presente em seu terceiro ano de luta e resistência.
 
Pernalonga me confessou em mensagem enviada diretamente do Brasil, onde passa férias, que acaba de concretizar mais um de seus sonhos: "acabo de realizar mais uma parte dos meus sonhos ,pois mandei dua alunas minhas, pecadinho  e malvadeza, duas treineis que estão comigo a muito tempo e isso e uma vitória pras mulhres da periferia e pra mim que  consegui realizar este sonho. Enquanto eu estou aqui elas ja dão aula no cazau.
Irmao este ano elas já vão estar dando oficina  no aniversario do cazua huhuhuh!!!"
 
Daqui fica a grande torcida para que todos os envolvidos com o fantástico trabalho de Marcio e seu Cazuá continuem dando bons frutos assim como fica a nossa torcida para que outros grupos e trabalhos se destaquem dentro e fora do Brasil, estando o canal aberto dentro do Portal Capoeira para publicarmos e incentivarmos estas experiências.
Luciano Milani
Que seria de nós?
 
Que seria de nós?
Sem ela… a mulher…
Que seria da Capoeira Angola sem a sua beleza e formosura, sem a sutileza dos seus gestos e o brilho dos seus olhares.
Que seria da perfeição?
Sem elas pra se espelhar…
que seria do homem?
Sem elas pra se encantar
 
Um giro numa roda… é volta do mundo…
Um giro na periferia… e lá está…
Com toda a sua força, contrastando com o seu charme… a mulher
Que na humildade da sua sabedoria cria os filhos, os irmãos, cuida da casa, sustenta a família, trabalha fora, faz a comida e ainda tem muito… muito amor pra dar.
 
De Angola, daqui… d’aculá… não importa ela é número pra somar.
 
 
 
O Contra Mestre Perna Longa tem feito um trabalho todo especial juntamente com o Grupo de Capoeira Angola Irmãos Guerreiros no incentivo e resgate da participação da mulher na Capoeira, o que tem dado incríveis resultados, seja para a beleza das suas vadiações, seja para a harmonia das suas rodas, mas principalmente pela força de sua natureza.
 
Nessa corrida vários trabalhos de percussão, canto, rodas e artesanato foram feitos explorando o que há de melhor nessas jóias raras, e tem dado muito resultado, que hoje é reconhecido internacionalmente, através dos intercâmbios entre o Cazuá (Bremen) e a Senzalinha (Brasil), aonde acontecem rodas, encontros e vadiações;
 
O curioso é que o que para a mulher brasileira “vadiação” tinha a conotação de um marido vagabundo na porta de um boteco bebendo e sambando com outras mulheres, hoje é trabalhando de uma forma mais lúdica, aonde elas vadiam com maestria, com beleza e graciosidade.
O Cazuá desenvolve um papel todo especial em Bremen, pois em um país aonde culturalmente as pessoas são menos emotivas e menos sensíveis, a Capoeira Angola através do seu encanto que se mostra através dos seus gestos e da sua harmonia, tem conseguido grande avanço no que se refere à sensibilidade nos seus movimentos suaves e sublimes, e já têm exportado verdadeiras pedras lapidadas no dia-a-dia das rodas, dos treinos, da convivência com outras meninas brasileiras que nesse intercâmbio trocam experiências, vivências, cultura e claro cabeçadas, rasteiras e muitas gargalhadas.
 
Esse trabalho se deve a vários fatores, o principal deles é que o trabalho dos Mestres Baixinho e Marrom que são pai e filho, por causa desta união e demonstração pratica de cumplicidade e amizade o trabalho é difundido nesses termos, aonde a ligação mais forte é o afeto, respeitando as diversidades e explorando as diferenças, para que possam chegar sempre ao melhor para o grupo em si, e como faz parte da mulher esse lado família, do cuidado, do carinho, da convivência, torna mais fácil o trabalho, que com muito empenho e força de vontade vem dando tantos frutos desde o tempo em que foi plantado… ou seja… sempre!
 
Corvo Poeta
08-03-07

Cronica: E AINDA ME CHAMAM DE RADICAL…

O pesquisador , escritor, professor e camarada Acúrsio Esteves, nos envia uma cronica onde faz uma critica e nos faz refletir sobre a importância e a responsabilidade do ensino… por que não dizer "PROPAGAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA" através da CAPOEIRA ou qualquer outro saber popular… com bases, origens e raízes sabidamente brasileiras, dentro de regimentos e fundamentos guiados por nós  "BRASILEIROS"… como principal exemplo, irei citar a capoeira, uma "Luta, Arte, Dança e tantos outros nomes…" que teve como fundamental meio de divulgação… a oralidade… dentro da cultura popular… Temos o dever (será???) de mantermos as raízes, nunca nos afastando das mudanças e processos dinâmicos inerentes da capoeiragem… "um elemento vivo…" mais não esquecendo que todo este processo precisa ser baseado em nosso elemento principal de identidade patriótica, de "brasilidade": A nossa língua… a nossa forma de expressão… nosso jogo de cintura… Mais sempre abertos a adaptações… traduções… e qualquer outro elemento que venha somar de forma relevante e que colabore no crescimento sustentável da nossa capoeira.
Luciano Milani


Algumas pessoas lendo meu livro A Capoeira da Indústria do Entretenimento, acham que a minha crítica às modificações impostas pela “sociedade do espetáculo” à capoeira é por demais contundente e até mesmo descabida. Elas acham que as “novidades” colocadas no jogo com o intuito de atrair espectadores são válidas. Continuo entrincheirado nas minhas convicções e com razões de sobra para tal atitude. Senão vejamos:
 
No mês de abril tive o prazer de receber como hóspede o administrador do site Portal Capoeira, Luciano Milani, que em merecidas férias aproveitava o tempo livre para pesquisar capoeira “na fonte” aqui em Salvador, mantendo uma extensa agenda na qual constavam encontros com mestres como o Mestre Decânio, Mestre Pelé da Bomba, Mestre Gagé, Mestre Bola Sete dentre outras personalidades da capoeira. Agendadas também estavam visitas à instituições como a Associação Baiana de Capoeira Angola e academias como a Fundação Mestre Bimba do Mestre Nenel.
 
Eu, cumprindo o papel de cicerone sempre que minhas atividades acadêmicas permitiam, estava no Pelourinho com Luciano e resolvemos fazer uma visita a uma academia para conversar um pouco com o mestre da casa. Ao chegarmos ele não estava, porém, tinha um monitor ou professor dando aula para uns três estrangeiros. Paramos para olhar quando, estarrecido, verifiquei que o referido professor estava dando a aula em (péssimo) inglês, talvez na tentativa de “agradar os clientes” ou talvez até de “se mostrar diferenciado” em relação aos demais profissionais da área que dão aula em português.
 
Ora, um dos orgulhos culturais que a capoeira carrega é de propagar aos quatro cantos do mundo o nosso idioma… Aí meu camarada, é complicado aceitar este argumento. Minha mãe tinha usava muito um ditado popular que diz: “Quem muito se abaixa o rabo aparece…”.
 
Esta subserviência, baseada na idéia que temos sempre que agradar os de fora ainda que para isso sacrifiquemos nossos bens culturais, não pode continuar. Temos que dar um basta.
 
No dia 31/5 ao assistir um noticiário local, me chamou a atenção a notícia de que um grupo de mulheres capoeiristas iria fazer uma turnê na Europa e salvo engano, iria à Alemanha durante a Copa do Mundo apresentar a arte brasileira da capoeira aos gringos. Tudo estaria nos conformes se eu não tivesse notado (maldito olho crítico) alguns detalhes na apresentação que elas fizeram para uma rede de TV local.
 
O que primeiro me chamou a atenção foi que na bateria estava constando como instrumento o nosso velho e querido violão. VIOLÃO… é mole ou quer mais? Relutei a acreditar no primeiro instante, porém, as imagens seguintes confirmavam que não precisaria ir com urgência no dia seguinte ao oftalmologista; era mesmo um sonoro violão, ali, bem ao pé do berimbau.
 
Pergunto: Onde nós vamos parar? Ou “O que estará por vir”? Daí para a guitarra elétrica ou instrumentos de sopro é um pulo. Eu já tinha visto o Balé Folclórico da Bahia colocar um “surdão”, mas violão é a primeira vez. Talvez até seja ignorância da minha parte porque se a gente reparar bem tanto violão quanto berimbau tem corda né? Afinidades…
Se vocês pensam que a “performance” das meninas pára por aí está se equivocando. Elas usavam um modelito azul, com a camisa em pontas amarrada no meio do tórax e calças com vários babados em cascata, fartos e coloridos abaixo do joelho. Algo mesmo espetacular!
 

Acho bem apropriado para a ocasião tomarmos a fala de um retórico dos mais importantes da história, Marco Túlio Cícero, 106 aC a 46 aC. São famosas suas catilinárias, discursos contra um político da época, um certo Catilina, senador, como ele próprio. Na sua mais famosa fala sempre citada em todo o mundo ele dispara:

Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra? Que em bom português significa: Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? Fazendo uma adaptação ao nosso caso questiono: Até quando, oportunistas, abusarão de nossa paciência? É simplesmente lamentável constatar estes abusos… E ainda me chamam de radical!

A Nova História

Existe hoje em evolução a chamada Nova História, que valoriza as análises SOCIOCULTURAIS dos chamados temas malditos que tratam dos excluidos sociais que são os pobres, vagabundos, prostitutas, negros, mulheres e índios…eles estão sendo escritos e preenchidas as lacunas da História. Dão voz à minoria social, à qual foi negada reconhecimento junto ao processo histórico. São os Esquecidos da História. Hoje, existe uma lei nº 10.639 de fev/2003 que obriga qualquer instituição de ensino no país, seja ela pública ou privada, no ensino fundamental e médio, a ensinar temas da Cultura Afro-Brasileira, no entanto isto não basta, as pessoas que devem ensinar devem também ser preparadas para tal. Um professor de Artes tem obrigação de entender que o berço da civilização do mundo é a África para poder ensinar. Um(a) professor(a) de capoeira, não pode ser apenas um(a) professor(a) de capoeira, tem que agir como educador(a), saber dos fundamentos e da história dos africanos e seu posicionamento passado, atual e futuro no mundo.

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Ginga Muleque

 Mestre Raules, o fundador da Associação Ginga Muleque

     Estou com 32 anos e quando era adolescente tinha uma porção de colegas. De repente eles começaram a sumir. Foram morrendo, pegando doença, para a cadeia… Daquela turma só sobraram eu e mais um. Comecei com a capoeira e ela me ajudou demais. Me ofereceram drogas várias vezes e eu sempre respondi que prefiro jogar capoeira, prestar atenção no que o mestre está falando sobre as tradições da capoeira, pegar um berimbau para tocar, que é uma viagem muito melhor.

     Eu dava aula na escola de Samba Colorado do Brás, que mantinha o Projeto Kinderê, e as crianças atendidas me fizeram lembrar dos meus amigos. Por que eles morreram? Por falta de oportunidade, até porque as mães tinham que trabalhar e deixavam os caras jogados. Meu pai tinha um pouco mais de condição, mas os deles, não. Muitos deles viviam direto na rua, até de madrugada. 

     A vida dessas crianças mudou muito, muito. Nós abrimos o espaço da academia às terças, sábados e domingos para elas não ficarem jogadas na rua. Aqui elas estão aprendendo. Na região há vários cortiços e muito ladrão. E as crianças aprendem com eles. Então, se elas tiverem uma pessoa de boa índole para se espelhar, acredito que vão melhorar, como está acontecendo.

     Às vezes a gente vê um menino que foi crescendo e virou marginal. Por quê? Não tem em quem se espelhar, só se espelha em coisa ruim, está sempre na rua, às vezes a mãe e o pai são uns coitados, a gente não pode culpar, saem às 6 da manhã para chegar às 6 da noite, para ganhar salário de R$ 250,00…

     Eu moro aqui na academia (nos fundos, há um quarto, dividido por uma chapa de eucatex, formando uma pequena sala-cozinha e um pequeno banheiro), mas o objetivo é sair, tirar essa parede, colocar computadores e ver se a gente consegue pagar um professor para ensinar a eles. Na verdade, estamos procurando parcerias, mas eu sou leigo nessa coisa de documentação. Não sei direito como funciona isso, se eles doam, se vêm e colocam, se vem professor, como é que funciona. Mas a nossa intenção é ter capoeira, teatro, dança, cada coisa puxando a outra. Pretendemos alugar o andar de baixo e fazer uma grande associação cultural, com a cultura do Brasil. Mas por enquanto esse é um projeto para o futuro.

Onde tudo começou

Quem foram estas mulheres que jogaram capoeira antes das nossas avós e bisavós? Como elas eram? Quem as escreveu e conheceu? O que elas faziam?

O primeiro livro que li sobre capoeira foi: “A Capoeira Angola no Brasil“ do Mestre Bola Sete. Um trecho do livro ascendeu uma chama em minha mente: “na década de 70 houve uma verdadeira revolução nas academias de capoeira, com a adesão de centenas de garotas…”. Então pensei: Quem eram as mulheres que precisaram da Capoeira para se libertar, se defender, fazer arruaças ou levantes? Quem preciso esconder "ser capoeira"?

Vocês sabem porquê o Estado do Amazonas tem este nome? Havia uma civilização de mulheres guerreiras vindas da Fenícia. Elas dominavam várias formas de combates e lutas. Chegaram a guerrear com espanhóis que ficaram surpresos pela sua força. Estes fatos foram relatados por europeus e índios do Brasil colonial.

Eu quero que vocês fiquem aguçadas sobre a nossa história. Porquê não existe nenhum livro sobre a nossa trajetória dentro da capoeira?

Saibam que é muito difícil de se coletar dados, eu pesquisei um pouco em cada lugar e com algumas pessoas. Talvez possam haver equívocos no que digo, pois as informações não são muito claras. É um jogo investigativo. Não sou dona da verdade, estou procurando-a e quero que todos tenham a consciência que isto é um estudo, o início de uma documentação fragmentada que pretendo, junto com as Mulheres Capoeiras, reunir em um só local.

A mulher no Brasil Colônia aparece como vítima não importando sua cor, raça ou credo, fosse ela índia, negra, branca, européia ou mulata. Elas eram surradas, estupradas, trancafiadas, raptadas, espancadas por maridos, padres, donos de engenho, pais, irmãos. Mas elas também aparecem como transgressoras, eram amantes de escravos fujões, roubavam e matavam seus maridos, participavam de atentados à Coroa Portuguesa, eram presas, degredadas, exiladas para Angola, da mesma forma que acontecia com homens brancos, negros, donos de terras, nobres, ou seja, como todos que fossem uma ameaça ao Reino Português.

Exatamente por esses fatores a Capoeira soube serví-las, como serviu também a muitos homens. Vocês percebem que aqui já não existem diferenças como sempre achávamos que houvessem? O quê nos leva à capoeira são os mesmos motivos que levaram os homens. Como disse o Mestre João Pequeno em resposta a uma pergunta feita pela Morena no "1º Encontro Nacional da Arte Capoeira" no Circo Voador no Rio de Janeiro: “As mulheres tinham um corpo humano, assim como o dos homens e sentem a mesma coisa que eles. Na capoeira considero as pessoas iguais.” (pag. 185. livro Capoeira O Galo já cantou, de Nestor Capoeira)

Esta será o primeiro texto de uma série que pretendo publicar aqui sobre as minhas pesquisas de Mulheres Capoeiras até 1.950. Aguardem.