Blog

esses

Vendo Artigos etiquetados em: esses

Festa, Capoeira, Frevo e Samba

Todos sabemos que a contribuição africana para a formação da cultura brasileira é imensa. Os africanos trazidos para cá como escravos, acabaram sendo os principais responsáveis por constituir algumas das características mais marcantes da nossa cultura: a musicalidade, a espontaneidade, a expressividade corporal e a criatividade presente nas mais variadas manifestações das culturas tradicionais de nosso povo.

Nesse sentido, a capoeira, o frevo e o samba, são três das manifestações de nossa cultura que reúnem essas características herdadas dessa ancestralidade africana. Essas expressões têm muita coisa em comum, mas principalmente, chama-nos atenção o fato de estarem sempre ligadas à festa: algo sobre o que, nós brasileiros, diga-se de passagem, entendemos muito bem.

O samba, que surge em nosso país em diversos locais, assumindo diferentes formas e sotaques, sempre esteve ligado à necessidade dos africanos e seus descendentes em festejar, dançar, cantar, beber e comer, enfim, compartilhar seus momentos de alegria, mesmo apesar do duro sofrimento a que eram submetidos no passado, e de certa forma ainda hoje no presente. A festa sempre fez parte do samba – e o samba da festa. Onde quer que se juntem pessoas nesse país para comemorar alguma coisa, o samba quase sempre se faz presente.

A capoeira, que se constituiu como uma estratégia de enfrentamento à violência do regime escravagista e do poder opressor em nosso país, teve como cenário de expansão e consolidação justamente as famosas “festas de largo” no início do século XX, em Salvador da Bahia. É justamente nessas festas populares – como Bonfim, Iemanjá e Conceição da Praia – que se inicia o processo de afirmação e aceitação social da capoeira através dos grandes mestres que começam a ganhar notoriedade nesses espaços, tais como os famosos Bimba, Pastinha, Noronha, entre outros.

E o frevo, que ao que tudo indica, surgiu a partir dos blocos carnavalescos do Recife e Olinda, no início do século XX, onde a rivalidade entre essas agremiações, fazia com que houvesse o enfrentamento entre elas, quando os caminhos se cruzavam durante a festa. Por isso, a necessidade de haver valentões dispostos a esses enfrentamentos – geralmente capoeiristas, que iam à frente desses cordões e, ao som das orquestras de metais e percussão, evoluíam com seus passos ágeis e coreografias bem desenhadas, dando origem à essa dança tão popular no carnaval de Recife e Olinda.

Percebemos então, que o sujeito social que freqüentava cada uma dessas manifestações era o mesmo, ou seja, o capoeirista era também o dançarino de frevo e vice-versa. Isso acontecia também com o sambista no Rio de Janeiro, que inclusive se vestia de forma muito parecida com o capoeirista da época: terno branco, chapéu de palha, lenço de seda no pescoço, e muitas vezes também a famosa navalha. Sem falar na perseguição policial que ambos sofriam, por serem tidos como vadios, marginais e capadócios.

 

Esses elementos nos dão pistas interessantes para tentarmos compreender o contexto social desse período histórico, onde esses sujeitos sociais: o capoeira, o sambista e o dançarino de frevo, compartilhavam do mesmo universo e transitavam com muita desenvoltura nesses ambientes, tendo como pano de fundo, justamente, a festa.

A festa sempre teve lugar de destaque na cultura brasileira, e talvez isso explique um pouco do nosso espírito alegre, nosso bom humor e nossa postura otimista diante das dificuldades da vida. São nos espaços festivos que exercitamos nossa sociabilidade, nosso sentido comunitário, nosso compartilhar de dores e alegrias, nossa sentido de pertença e identidade. A capoeira, o samba e o frevo, são ótimos exemplos desse exercício de cidadania. São manifestações que possuem o forte poder de agregar pessoas em torno da celebração, do encontro e da valorização da vida.

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).

Aposentadoria para os “Velhos Mestres”

Pastinha morreu na miséria. Bimba em situação precária. Bobó, Gato, Cobrinha Verde, Waldemar, Caiçara e mais recentemente Bigodinho, todos passaram seus últimos dias de vida sem um amparo digno que a condição de “guardiões da capoeira” deveria lhes proporcionar. E assim como eles, quantos e quantos mestres das tradições populares vivem e morrem no mais completo abandono, sem qualquer auxílio por parte das autoridades nesse país.

O que seria da nossa cultura popular sem esses personagens ?? Quem é que tem a incumbência de transmitir para as gerações futuras, esses saberes e tradições acumulados durante séculos  ???  Os mestres e mestras de capoeira, do maracatu, do samba, das congadas, dos reisados, das marujadas, das religiões afro-brasileiras e de tantas outras manifestações espalhadas por esse Brasil afora, são peças fundamentais para a preservação e valorização dessas tradições que tanto enriquecem o patrimônio cultural do nosso país.

Por isso deveriam ser tratados com mais respeito !!!!

É preciso que se diga, é bem verdade, que algumas ações nesse sentido começam a ser implementadas por políticas públicas no âmbito da cultura. Uma nova concepção de gestão de políticas culturais ainda embrionária, começa a dar sinais de amadurecimento em vários órgãos públicos desse país.

Mas isso ainda é pouco ! É preciso uma maior conscientização por parte da sociedade, no sentido de exigir que essas políticas públicas sejam mais efetivas, que possam garantir mudanças mais substanciais na forma de valorizar, incentivar e apoiar as iniciativas provenientes da cultura popular, favorecendo o reconhecimento desses saberes ancestrais, como vitais para a construção de uma sociedade brasileira mais humana, justa e solidária. Os valores e princípios presentes no universo das culturas populares muito tem a nos ensinar !

E isso passa pela valorização dos mestres, guardiões desses saberes ancestrais. É preciso que medidas concretas de proteção social e valorização desses sujeitos, sejam tomadas urgentemente no sentido de garantir a esses mestres e mestras, um mínimo de condições para exercerem suas atividades, e mais do que isso, de VIVEREM com a dignidade que merecem.

No último dia 27 de abril, foi apresentado um projeto de lei na Câmara Federal em Brasília, de autoria do deputado Edson Santos – PT/RJ, que institui o Programa de Proteção e Promoção dos Mestres e Mestras dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares.

 

Vamos ficar atentos e acompanhar esse processo !!!

A capoeira, o poder público e o fantasma dos maus capoeiras…

A cada nova experiência que vivenciamos em nossas tratativas de interface com o poder público, vemos sempre a capoeira ser testada em sua mais emotiva visão: a de se fazer representar perante tais poderes e não buscar evidenciar suas limitações, reais ou imaginárias, enquanto comunidade organizada que é um pressuposto nesse tipo de relação.

Essas inúmeras vezes em que vimos esse diálogo acontecer, ficou patente que temos sempre um problema que vagueia o subconsciente coletivo dos capoeiristas, que é a existência constante de uma referência e da busca da punição, controle ou simples extirpação desse contexto dos maus capoeiristas…

Esses personagens consomem uma energia incrível de nossos esforços na busca de dialogar com os órgãos públicos e representam o nosso mais inevitável e lamentável subconsciente coletivo, que é para onde sempre enviamos ou resgatamos esse personagem, produto principalmente de nossas limitações enquanto organização ou instituição capoeiristica.

É óbvio que em qualquer grupo humano existem os bons e os maus profissionais.

Não se trata de negar isso.

O que temos que perceber é o quanto nos custa essa luta constante com eles, aliás, sempre ausentes nesses debates… por razões óbvias também sabemos porque eles estão sempre ausentes:

  • primeiramente porque, caso estejam presentes irão, obviamente, se identificar como parte dos que são do bem
  • também por ser muito difícil fazer uma acusação frontal, do tipo: você é do grupo dos maus capoeiras… obviamente se isso acontecer iremos ter um outro tipo complicado de situação, que será de um desequilibrado bate-boca entre os participantes de qualquer reunião;
  • devemos e precisamos perceber que enquanto não houver um esclarecimento público a respeito da ética capoeiristica, ficará sempre muito difícil decidir quais serão os bons e os maus… por exemplo, os capoeiristas mais tradicionais e conseqüentemente menos violentos ou agressivos em seus estilos de jogo e didática, são hoje taxados de sarobeiros, que na verdade é algo de significado impreciso, provavelmente servindo antes para discriminar estilos e condutas menos performáticas;
  • se detivéssemos a clareza suficiente para identificar quais seriam os maus capoeiras, estaríamos aí diante de um outro dilema: quais os elementos para se fazer um julgamento deles…? ou seja, se estiverem incorrendo em alguma forma de crime, como assédio sexual, exploração sexual de menores, lesões corporais, etc., eles

estarão devidamente enquadrados como criminosos, passivos de punição pela legislação penal… a comunidade da capoeira não tem que substituir esses códigos e essas leis para resolver esses problemas, obviamente isso seria uma inocente tentativa de fazer justiça com as próprias mãos;

  • supondo que se chegue a conclusão de que se trata, enfim, de um mau capoeirista, segundo critérios mais clássicos de se avaliar as condutas tradicionais da capoeira, como questões de auto-graduação; sistemas de treinamento; tratamento agressivo com alunos ou capoeiristas de outros grupos (diversas formas de incentivo à xenofobia relativamente comum dentro dos grupos de capoeira). formas presunçosas de se auto proclamar detentor deste ou daquele mérito; uso indevido de conhecimentos e patentes de movimentos, toques, músicas, técnicas, etc.; ou mesmo o incitamento de alunos ao estilo de jogo mais agressivo ou violento… quem, na representatividade da capoeira irá julgar esses casos?? Segundo que critérios?? Quem pode se dizer detentor dessa verdade e dessa norma??
  • Em caso de admitirmos que não podemos julgar esses eventos dentro da capoeira, por que levar esses dilemas para um foro envolvendo terceiros? no caso o poder público nada pode fazer quando nós mesmos temos dúvidas sobre o que é legitimo e o que não é.
  • Há um outro aspecto que fica muito patente nessas discussões que é quanto ao desgaste que as reuniões sofrem por causa desse tema… é incrível como os capoeiristas deixam que esses fantasmas roubem nossa energia quando estamos diante de uma oportunidade inédita (como nos fóruns do pró-capoeira, nos congressos realizados pelo Ministério do Esporte, entre outros). Vale nesse caso a sabedoria de grandes mestres que sempre disseram: não fale do diabo porque ele aparece… em outras palavras nós os valorizamos quando permitimos que ocupem nosso tempo dentro de tão raras oportunidades.

Fica claro para nossos interlocutores do poder público que a capoeira tem um grande problema por causa de seus maus representantes e, no entanto, sabemos que isso representa uma minoria que sequer deveria ser tão considerada, senão vejamos:

  • Sabemos que a estatística de problemas graves envolvendo a capoeira é muito menor do que muitos outros esportes;
  • Sabemos que mesmo os ditos maus são tantas vezes responsáveis por grandes projetos dentro da capoeira e tantas vezes produzem grandes atletas, os quais acabam por perceber que estão no lugar errado e buscam outros espaços para seu aprendizado e crescimento, ou mudam de atitude por seus próprios critérios;
  • Sabemos ainda que estamos hoje diante de uma série de estímulos do mercado de lutas, que levam muitos mestres e professores a buscarem a marcialidade da capoeira como seu principal interesse… muitas vezes exclusivamente por uma questão de sobrevivência econômica e financeira… quem pode, de sã consciência, punir por isso ou condená-los? Temos que ter em conta a liberdade de escolha de estilo e de prioridade de foco de cada um;
  • Quanto aos sistemas de graduação que possam parecer a alguns sem mérito ou sem sentido, não cabe a nenhum de nós questionar, a menos que seja dentro de fóruns íntimos da própria capoeira, onde esse assunto possa ser discutido, de preferência dentro da mesma entidade a que pertençam os atores da discussão, sempre lembrando que isso é uma das mais históricas polêmicas dentro da capoeira e que ninguém pode se considerar o detentor da verdade ou da razão inquestionável, pois se trata de um tema delicado e impreciso, já conhecido de todos nós, cuja solução é, além de muito difícil, um eterno pomo da discórdia entre pessoas que muitas vezes partilham visões e interesses comuns, imagine num sentido mais amplo como cheguei a ver durante uma reunião do Pró-Capoeira do Ministério da Cultura, um dos grupos temáticos incluiu que o governo devia “implantar um sistema de graduação unificado”… será que estamos pedindo ao governo para nos impor algo assim?
  • Vale lembrar que não faz diferença praticamente nenhuma para uma questão cultural que envolva a capoeira a  questão da “graduação”, esse conceito foi introduzido pelo Mestre Bimba em um determinado contexto histórico e isso nos foi legado por ele como uma recurso de organização de nossa instituição capoeirista, seja por razões administrativa, econômica ou mesmo hierárquica, isso jamais deveria ter se tornado um cavalo de batalha onde tanta energia já se perdeu, a livre manifestação cultural da capoeira é uma de suas premissas, e direitos;
  • Vista sob a ótica desportivizante, a graduação tampouco é uma exigência de nenhum comitê olímpico ou marcial, onde são considerados, apenas, categorias compostas de idade e peso… no máximo estilos…  ou seja, mais uma vez sabemos que essa discussão é estéril e desnecessária… a não ser, claro, para grupos que partilhem de uma mesma organização, seja uma associação, federação, liga, escola, etc…
  • Muitos poderão entender que estejamos defendendo o caos na capoeira, perdoe-me os que assim pensam, mas estou apenas defendendo a razão no lugar de uma emoção infantil e estéril que a nada serve, mormente em locais e na presença de representantes do governo, muitas vezes interessados apenas em entender como podem ajudar a capoeira.

 

Fato é que temos que amadurecer nossa capacidade de dialogar com o poder público, seja porque temos antes de mais nada um direito de fato relacionado com essa relação entre a capoeira e ele (o poder público), seja porque muitas vezes as pessoas que estão participando de uma reunião conosco – a maioria das vezes técnicos-burocratas do governo, não possuem a mínima condição seja de resolver nossas questões históricas e muito menos de encontrar para nós os nossos fantasmas do mau…

Se não tivermos essa consciência e essa maturidade, qualquer diálogo será muito difícil e as nossas expectativas de participação no bolo do orçamento público será algo que teremos que esperar muito mais tempo até que possam se materializar como algo sólido para nós, os capoeiristas, os mestres, os professores, os estudiosos do assunto, os produtores, os patrocinadores, os alunos, os parceiros, os interessados em nosso trabalho dentro de escolas e outros espaços públicos.

Enfim a nossa maturidade profissional é um requisito para uma negociação mais racional e menos emocional com qualquer instituição ou poder público.

 

Mestre Skisyto (skisyto@gmail.com)

Graduação da 1ª mestra Pernambucana de capoeira

A Federação Pernambucana de Capoeira tem a honra de CONVIDAR a você,  seus CAMARADAS e ALUNOS, para este importante e histórico momento da CAPOEIRA PERNAMBUCANA.

DONA ISA,  capoeirista desde os anos 80, representa um importantíssimo segmento de nossas tradições, O FEMININO. Precursora Feminina, fundadora do Grupo Malê, da ACAJAGUAR (que funcionou no quintal de sua casa por 17 anos), e da Federação Pernambucana de Capoeira. Árbitra Nacional e Estadual, Competidora Tri-Campeã Pernambucana – Categoria Monografia. Toca, canta e joga. Palestrante, Fundadora do Conselho Pernambucano de Capoeira em 04/01/2009, promotora de Batismos, Graduações e Competições, sendo em todos esses aspectos PIONEIRA PERNAMBUCANA, sem direcionamentos à Grupos, Associações ou Federações.

Merece nosso reconhecimento e incentivo.

 

DONA ISA MULATINHO

NOME DE BATISMO: OUBERÉM OBÁ (RAINHA)

 

LOCAL: CASCAVEL: Rua Maria Digna Gameiro, 237 – Candeias

DIA: 26/09/2010  (Domingo).

HORA: 08:00 às 12:00 horas.

Presença do BATUQUE DOS MESTRES.

 

Grato por sua presença.

Atenciosamente,

 

Mestre Mulatinho

Recife, 15 de setembro de 2010.

A Mercadorização da Capoeira

O crescimento da capoeira a nível mundial tem sido um fenômeno importantíssimo de divulgação e valorização dessa arte-luta que durante muito tempo sofreu uma perseguição implacável no Brasil. Porém essa “globalização” da capoeira traz também conseqüências negativas. O capitalismo sabe muito bem como se apropriar dos bens produzidos pela sociedade – sejam eles materiais ou imateriais – para adequá-los à sua lógica perversa. Percebemos assim, uma tendência que vem crescendo nos últimos anos, de transformação da capoeira em mais uma mercadoria na prateleira dos “shopping centers das culturas globalizadas”. Se por um lado, isso garante a divulgação dessa manifestação para um público cada vez maior, por outro faz com que ela perca muito dos seus traços identitários que a caracterizam como cultura tradicional de resistência.

Muito nos preocupa uma determinada visão sobre capoeira – que predomina atualmente numa parcela muito grande de mestres, professores e alunos – que enfatiza somente os aspectos mercadológicos dessa manifestação, priorizando modismos e uma estética “espetacularizada” e superficial da prática da capoeira, em detrimento de uma visão mais profunda, preocupada com a historicidade, a ancestralidade, os aspectos rituais, a filosofia e os valores implícitos nessa prática, que tornam o praticante de capoeira, um sujeito mais consciente sobre si mesmo, e sobre a sociedade da qual faz parte.

E em nossa opinião, é justamente aí que reside o valor educativo da capoeira. Ela só pode servir como instrumento de educação, se estiver voltada para esses valores mais profundos da existência humana, que a experiência africana no Brasil soube tão bem traduzir. Uma manifestação que foi capaz de resistir a séculos de violência e opressão e soube preservar as formas tradicionais de transmissão dos saberes através da oralidade, do respeito aos mais velhos e aos antepassados, da valorização dos rituais, do respeito ao outro (mesmo sendo ele adversário!), do sentido de solidariedade e da vida em comunidade. Esses valores constituem-se em saberes riquíssimos que estão presentes na capoeira e, que num processo educativo, têm muito a contribuir na formação de sujeitos mais humanizados e conscientes de seu papel na sociedade.

Por outro lado, se a capoeira for vista apenas como uma estratégia de marketing, como prática corporal de modismos feita por corpos musculosos e acrobáticos, dissociada de seus aspectos históricos e culturais, ou como mera mercadoria de consumo, voltada para grandes massas que se satisfazem com práticas superficiais e descompromissadas, ela então deixa de ter esse caráter de prática libertadora e contestadora da ordem social injusta – característica que sempre a acompanhou desde sua origem – para transformar-se em mais uma mera atração do parque de diversões da “feliz” e excludente sociedade de consumo capitalista.

Não podemos deixar que isso aconteça !!!

 

Pedro Abib (Pedrão de João Pequeno) é professor da Universidade Federal da Bahia, músico e capoeirista, formado pelo mestre João Pequeno de Pastinha. Publicou os livros “Capoeira Angola, Cultura Popular e o Jogo dos Saberes na Roda”(2005) e “Mestres e Capoeiras Famosos da Bahia”(2009). Realizou os documentários “O Velho Capoeirista” (1999) e “Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras” (2008).


Coluna: “Crônicas da Capoeiragem” por Pedro Abib

Mais um envolvente texto da Coluna Crônicas da Capoeiragem, sob a tutela do nosso grande camarada e parceiro, Pedro Abib, enfocando histórias, casos, experiências, opiniões, críticas, enfim, um texto de uma lauda sobre o universo da capoeiragem.

Projeto cria áreas de preservação do patrimônio cultural

O Projeto de Lei 3056/08, do deputado Angelo Vanhoni (PT-PR), institui as Unidades de Preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro e estabelece os critérios para a sua criação, implantação e gestão. Caberá ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) identificar os aspectos étnicos, históricos, culturais e socioeconômicos do grupo ou dos grupos que constituirão as áreas de proteção. O Iphan também deverá delimitar as terras consideradas suscetíveis de reconhecimento e demarcação.

O texto define como unidades de preservação os “territórios habitados por povos e comunidades tradicionais, participantes do processo civilizatório” do Brasil. Para constituírem uma unidade de preservação, esses povos devem preservar bens de natureza material e imaterial referentes à sua identidade, ação e memória.

Entre esses bens, a proposta destaca língua própria, formas de expressão; modos de vida; criações científicas, artísticas e tecnológicas; obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artísticas e culturais; e conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Combate à discriminação

O projeto estabelece que as unidades de preservação devem levar em conta aspectos como etnia, raça, gênero, idade, religiosidade e orientação sexual. Também devem ser considerados, segundo o texto, a segurança alimentar e nutricional e o desenvolvimento sustentável como forma de promoção da melhoria da qualidade de vida das populações. Outro princípio para orientar a formação das unidades deve ser o combate a todas as formas de discriminação, incluindo a intolerância religiosa.

Angelo Vanhoni argumenta que o País já conta com normas para a preservação da cultura indígena (Estatuto do Índio) e da afro-brasileira (Decreto 3.912/01), mas lembra que não há leis proporcionais à importância de outros grupos. Ele destaca especificamente os imigrantes que chegaram ao País a partir do século 19, como alemães, italianos, poloneses e japoneses.

Com o objetivo de preservar as contribuições desses povos à cultura nacional, o projeto determina que, nos processos de reforma agrária onde houver unidades de preservação do patrimônio dessas populações, os novos colonos devem receber treinamento sobre as técnicas agrícolas tradicionais.

A proposta determina também que as escolas, públicas ou privadas, de municípios que contem com unidades de preservação ensinem o idioma da população tradicional.

Tramitação

O projeto terá análise em caráter conclusivo nas comissões de Direitos Humanos e Minorias; de Educação e Cultura; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Reportagem – Maria Neves
Edição – João Pitella Junior

(Reprodução autorizada desde que contenha a assinatura `Agência Câmara`)

Agência Câmara
Tel. (61) 3216.1851/3216.1852
Fax. (61) 3216.1856
E-mail:agencia@camara.gov.br

Conselho Nacional de Justiça cria programa que reúne projetos em defesa da infância

Brasília – Um programa que reúne o Cadastro Nacional de Adoção e projetos para registro civil de todas as crianças e adolescentes, combate à prostituição infantil, seqüestro internacional e reinserção social de menores em conflito com a lei. Essa é a definição do programa Nossas Crianças, lançado hoje (12), em Brasília, pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Conselho Nacional de Justiça cria programa que reúne projetos em defesa da infância

Em parceria com o governo do Distrito Federal, essas ações serão planejadas num edifício próximo à rodoviária de Brasília, que fica no ponto mais central da capital do país. O edifício, que já foi sede do Touring Club do Brasil (de serviços automobilísticos), estava abandonado e servia de ponto para prostituição de menores, tráfico e consumo de drogas e abrigo para moradores de rua.

A idéia é que, por meio de parcerias com os governos estaduais, as ações do programa cheguem a todo o país. No Distrito Federal, o projeto é reforçado por meio de outro, também lançado hoje: o ExpressAção, com quatro unidades móveis que vão atuar na periferia, servindo de salas de aula para oficinas de capoeira, artes, esportes e atividades produtivas.

“Na verdade temos um regime de co-responsabilidade. Temos as Varas da Infância e da Adolescência. Então, temos aqui uma grande responsabilidade nesse setor. Só que não podemos fazer nada sozinhos, como o governo também não pode fazer nada sozinho. Temos que celebrar essas parcerias, de modo que não estamos fazendo crítica nenhuma e sim uma autocrítica”, afirmou o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, presente ao lançamento.

Apadrinhado pelo vocalista da banda de rock mineira Jota Quest, Rogério Flausino, o programa também conta com a parceria da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) – os jogadores da seleção brasileira entrarão em campo com faixas sobre os direitos da criança na sociedade.

“Eu não tenho dúvida de que muito do que não acontece para esses meninos [em termos de oportunidade] é uma falta de atenção da sociedade. Às vezes, as famílias desses meninos já estão tão dilaceradas, muitas vezes porque o pai e a mãe vêm da mesma situação. A gente tem que ir lá, salvar esses garotos, por meio da escola, desses caminhões, que param e mudam a vida de um menino”, disse Flausino.

O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, detalhou a atuação das unidades do ExpressAção: “As carretas têm professores de capoeira que vão para a periferia, aulas de todo tipo de esporte, aulas de dança, desenho, educação, tudo o que tem a ver com o resgate da criança para a cidadania. Aonde chegar uma carreta dessas, vai chegar alegria, esperança.”

Gilmar Mendes mencionou ainda outros projetos do CNJ, que devem chegar a todo o Brasil em breve: “No CNJ, há um banco de idéias. Por exemplo, há um programa aqui na Vara da Infância do Distrito Federal, chamado Anjos do Amanhã, que estamos tentando projetar para o Brasil todo. Esse é o nosso trabalho, um trabalho de mediação, de colocar esses programas à disposição de todos.”O Conselho Nacional de Justiça lançou um hotsite para o programa Nossas Crianças. Para acessá-lo, clique aqui. Nele, é possível obter informações sobre como se tornar voluntário.

Morillo Carvalho
Repórter da Agência Brasil – http://www.agenciabrasil.gov.br

Crônica: Na contramão

Estamos tão acostumados com as leis mesquinhas do capitalismo, que nem percebemos que ainda existe gente capaz de reagir a esses preceitos. Gente do bem. Gente que está em falta. Gente que faz a diferença. Gente que segue na contramão, fazendo desse mundo um lugar melhor pra se viver. Gente que devemos ter sempre por perto, para nos servir de exemplo.

Conhecemos pessoas assim no projeto de Assessoria de Imprensa que desenvolvemos, durante este semestre, numa organização não governamental (ONG) de Itajaí (SC). Os capoeiras conhecidos como Capitã, Sansão e Massa mantém há dois anos, o projeto “Ginga Moleque”. A organização oferece aulas gratuitas de capoeira às crianças carentes do município. Sem precisar arcar com nenhuma despesa, os alunos devem apresentar boas notas na escola e disciplina nas aulas.

Sem receber nenhum tipo de remuneração, os voluntários e idealizadores do projeto enfrentam muitas dificuldades para mantê-lo vivo. Estes impedimentos vão desde o preconceito religioso dos familiares das crianças, até problemas de infra-estrutura como falta de uniformes, instrumentos e sede para oferecimento das aulas. Os coordenadores arcam com muitas das despesas do grupo, uma vez que não possuem nenhum patrocínio da comunidade.

A ONG Ginga Moleque atende cerca de 50 crianças, com idades entre quatro e quatorze anos. Além das reuniões durante a semana, aos sábados, o grupo também é atração para outros jovens no Centro Educacional Cacildo Romagnani (Caic), através do Projeto Municipal Escola Aberta..

Ficamos felizes em perceber que em meio a tanta ausência de caráter e valores, existe no mundo quem acredite e aposte no futuro de crianças pobres, quem faz mais do que culpar a omissão do governo na educação, quem arregace as mangas e faça a idéia acontecer.

Que bom seria se todos os brasileirinhos pudessem ter educadores como esses, capazes de semear esperança em meio à exclusão e o descaso social. Quem dera que todas as grandes empresas deste país se propusessem a apoiar projetos assim.

*Acadêmicas de Jornalismo da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Contato:

Carina Carboni Sant’Ana – 47 9138 1281/ E-mail: carinacs@univali.br

Luana Fachini Lemke – 47 9177 8259/ E-mail: luana.lemke@univali.br

Luana Martins – 47 9921 3920 / E-mail: luana_martins_jornalismo@hotmail.com

O Elo Perdido – Parte 2

A capoeira e os capoeiristas até 1930, estavam nas favelas, nos guetos, nos cais, nos armazéns, nas festas populares, nas feiras, com sua natureza combativa, irreverente. Não havia estilo de capoeira e nem escolas. Aprendia-se no dia-a-dia, nas rodas, nas feiras. Era coisa de vagabundos, marginais, negros… Éramos assim rotulados.
Os capoeiristas eram todos de uma mesma classe, classe inferior. Cada qual com seu jeito próprio de expressar fisicamente suas amarguras ou alegrias, porém com os mesmos objetivos culturais,mesmo que inconscientes, que era ser e existir com dignidade.
 
Promoveram fortes conflitos com a polícia, desencadeando uma verdadeira guerra à sociedade da primeira classe. O que era considerado pelos poderosos, bagunça, desordem, carnificina, para os capoeiristas era nada mais do que reivindicação dos direitos básicos. Era o nosso sindicato. Por isso, tentaram aniquilar os capoeiristas com prisões, assassinatos, leis federais, deportações, aliciações, como fazem nos dias de hoje, com os que ousam liderar qualquer movimento contra os interesses dos poderosos, são assassinados, comprados ou desmoralizados.
 
Os capoeiristas estavam apavorando a sociedade branca por terem espírito combativo, resistente, não se intimidavam, nem se vergavam diante do sistema. E a capoeira continuou combatendo, reivindicando, revidando, porém dissimulada, com sua identidade avessa, marginal, temida, respeitada. Os poderosos, na tentativa de suprimir a capoeira e os capoeiristas, passaram a conhecer o poder combativo e resistente dos mesmos. Não tendo êxito com pancadas e assassinatos, gerando sempre mais revolta e revide, mudaram a tática de combate à capoeira. Infiltraram-se, nos adotaram, e com a falsidade de sempre, de que iriam nos incluir, nos respeitar, simplesmente nos amansaram, enfraquecendo os ideais da luta cultural e quase nos matam o espírito.
 
Essa adoção da capoeira pelo governo teve início na época em que Getúlio Vargas foi o ditador do Brasil, na década de 30. Sabemos que os políticos representam os poderosos e tudo que fazem é para simplesmente se manterem no poder e darem continuidade ao covarde projeto de seus antepassados: “comer sem trabalhar”. No momento em que nossos reais inimigos nos adotaram, o conflito que era declarado, entre as elites e os da classe inferior, que antes invadiam, pilhavam os candomblés, reprimiam os capoeiristas, na tentativa e suprimir toda cultura afro, ficou mascarado. Aparentemente não havia mais conflito, a capoeira passaria a ser esporte nacional, passando a ser consumida pela classe média, que eram os filhos dos opressores. Sendo a capoeira um embate à eles mesmos, jamais poderiam compreender a fundo o que representava a capoeira para os que estavam na miséria. Só compreende realmente, quem sofre na pele, o que não era o caso da classe média. Tanto é verdade que Jair Moura, escritor e capoeirista, um dos poucos que o Mestre Bimba graduou, diz que “a capoeira antes de Bimba era instrumento de ataque e defesa manejado principalmente (na Bahia) por desordeiros indisciplinados das camadas mais humildes da população e que a maior contribuição de Bimba foi transformar a capoeira num esporte que granjeou muitos adeptos, além da criação de uma verdadeira metodologia para o aprendizado da luta dos negros, tornando-a um verdadeiro curso de educação física”. Verdadeiro absurdo, Jair Moura desvaloriza toda capoeira antes da adoção pelo governo, não percebe a face de resistência cultural, julgando-os simplesmente desordeiros. Não foi Bimba quem tirou a capoeira da “margem” e sim o Governo, para sua conveniência. Não estou culpando-os, tinham outros valores, comiam, estudavam, viajavam, iam ao teatro, eram direcionados para leitura etc… Muitos, até acredito que se sensibilizavam com tamanha desigualdade, mas muito longe de compreenderem de fato tal contraste.
 
O que me entristece é saber que muitos da classe inferior, que conseguiram com muito esforço e sacrifício estudarem, quebrando a regra da ignorância, foram absorvidos totalmente pelo sistema. E hoje cheios de títulos, trabalham para distanciar cada vez mais a capoeira de seu objetivo, transformando-a em simples atividade esportiva. Deturparam o trabalho do Mestre Bimba, que foi o escolhido pela elite para servir de modelo referência para todo esse processo de descaracterização dos reais objetivos culturais da capoeira.
 
Mestre Bimba foi um grande lutador e quando foi chamado para ir ao Palácio do Governo da Bahia, não tinha dúvida de que iria ser preso. A capoeira até então era “coisa” de malandro (da perspectiva da elite) e uma ameaça aos bons costumes. Sendo o Mestre negro e capoeirista, não restavam dúvidas quanto à sua prisão. Mas foi surpreendido pelo Interventor Geral da República, convidando-o para exibir sua capoeira aos “ilustres convidados”. Em 1937 então, Mestre Bimba foi autorizado pelo Governo a ensinar a capoeira em recintos fechados, tirando-a da “marginalidade”. Não é de estranhar tanta flexibilização por parte do Governo? Com certeza fizeram exigências, resultando em uma nova tradição para capoeira, tradição essa que não a associasse ao caráter marginal da então capoeira que era jogada e ensinada inclusive pelo próprio Mestre Bimba, antes de toda essa falsa abertura pelo Governo.
 
Mestre Bimba foi e sempre será para nós um grande capoeirista, mas para as elites não passou de inocente útil aos seus interesses. A capoeira saiu dos guetos, não os capoeiristas, tanto é verdade que depois de usado, Mestre Bimba foi descartado pelos mesmos, vindo a morrer na miséria como todos os de sua classe.
 
A classe média passou a consumir a capoeira, enxertaram seus valores, que não eram os valores dos que estavam nas favelas e promoveram a capoeira na versão burguesa mundo afora. Esse é o modelo de capoeira que ganhou espaço na mídia, visibilidade e apoio, em detrimento da capoeira cultural dos resistentes velhos mestres. A capoeira adentrou a sociedade, porém sem espírito, totalmente desprovida de suas raízes, sem identidade, sem causa, sem ideais.
Essa abertura do Governo à capoeira, não foi conquista dos capoeiristas, se fosse realmente nossa conquista, a capoeira não precisaria ser remodelada para o consumo das classes abastadas, perdendo totalmente a identidade.
 
Precisamos resgatar urgentemente para nossa expressão física, o espírito, os ideais por melhores condições de vida, por equilíbrio social entre os que trabalham e os que mandam trabalhar. Esse é o elo perdido, esses são os objetivos. Caso contrário, continuaremos a reproduzir o sistema social escravista, dentro de uma arte libertária.
 
Não estamos incluídos no contexto social, uma guerra social mascarada, onde as armas são as canetas e nossa total desarticulação. Com isso estamos permitindo que usem o nosso sindicato contra nós mesmos. Se não resgatarmos esse elo, a capoeira não terá mais o objetivo que teve no passado, que era combater a desigualdade social.
 
Para que possamos entender a capoeira de hoje, temos que urgentemente nos informar, ler as histórias do passado, para nos situarmos no presente. Sei que para nós é muito difícil ler, não somos educados para leitura e sim para televisão, propositalmente. A televisão trabalha para os ricos, adentra nossos lares, maquiando a escravidão, incentivando o racismo, impondo valores, modas, hábitos, atitudes, padrões. Onde há uma televisão ligada não há diálogo, ficam todos consumindo novelas e outros programas que nada contribuem para nossa vidas. Estamos descendo rio abaixo sem sabermos dos fatos anteriores, das escolhas feitas no passado, quem as fez e em que circunstâncias foram feitas, das quais estamos sofrendo as consequências.
 
Continuaremos reclamando e transferindo para o outro, o que por ignorância reproduzimos. Portanto, temos que nos organizar, nos unir, independente de grupos, ou estatutos, que foi outra forma eficaz de nos dividir. Temos que mandar à merda todos esses títulos, esses valores não servem para a capoeira, esses são valores dos burgueses.
 
Temos que parar de reproduzir o racismo, doença que nos divide, promovida hereditariamente pelas elites, sendo hoje fortemente mascarada, mas que convive conosco dia-a-dia. O fato de minha pele ser mais clara, ou mais escura, não significa que eu seja totalmente branco, ou negro, ou índio. Mesmo que haja entre nós alguém “puro”, não deve ser motivo para divisão. Nossa luta deve ser por equilíbrio social, respeito à nossa cultura, e não por supremacia de raças, sendo que estamos todos na mesma condição social. Se não nos livrarmos dessa doença chamada racismo, vamos continuar comendo restos e carregando esses miseráveis com nosso trabalho. Não podemos permitir que nos façam esquecer a escravidão do índio e do negro, com falsas histórias, ou queimando documentos como fez Rui Barbosa. Mas não devemos com isso nos dividir, pois hoje somos todos escravos. Compreendo que o negro sofra duplamente, sendo a sociedade hipócrita e racista.
 
Como se não bastassem as Federações de capoeira, que nos manipulam, vigiam, nos ditando regras, agora já temos os CREF´S, que vão criar seus filhos com o suor de nossas gingas.
 
Temos que reassumir a capoeira, exercitando as duas faces. Resgatar verdadeiramente os nossos verdadeiros Mestres. Valorizá-los de
verdade, e não simplesmente usá-los, como acontece atualmente.
As nossas reivindicações devem ser por direitos básicos, uma vez que pagamos por esses benefícios, através de duros impostos, que são desviados para o prazer e luxúrias da elite. Queremos escolas públicas em condições dignas, onde nossos heróicos professores da rede pública possam realizar seus trabalhos e serem valorizados. Universidades gratuitas para todos e em boas condições. Que o plano de saúde pública, que pagamos, realmente atenda com agilidade e eficiência os “contribuintes”.
 
Somos usados para produzir e para consumir, portanto, quem depende de quem afinal? Temos que compreender como funciona o sistema e atuarmos em benefício comum da classe. Somos os responsáveis por toda riqueza, que vem lá de trás com a escravidão do negro e do índio com a permissão e presença da Igreja Católica, que recebia 5% de cada escravo vendido.
 
Apesar de sendo nós os que alavancamos as riquezas, assim mesmo nos desvalorizam, imaginem quando as máquinas nos substituírem de vez, quando não precisarem mais dos nossos braços, onde seremos somente consumidores. Então, estará perdida de vez nossa luta.
 
Seremos jogados ao vento, como fizeram com os escravos em 1888 com a promulgação da Lei Áurea. Que por interesses comerciais, substituíram a mão-de-obra escrava dos negros, pela dos europeus. E ainda se não bastasse, tornaram a Princesa Isabel, uma escravocrata, na redentora dos negros. Infelizmente, muitas pessoas, inclusive capoeiristas, acreditam nessa mentira, são os que só vêem os fatos por cima. As histórias que nos contam, estão todas armadilhadas. Antes de acreditarmos nesses desgraçados, temos que ponderar, analisar a fundo os fatos. Sem eira nem beira, os negros foram jogados para as ruas, não tiveram direito sequer a um pedaço de terra para continuarem a sobreviver, depois de séculos de serventia e maus-tratos. As histórias se repetem, portanto: mãos à obra.
 
Dizem que é destino ser pobre, que somos incapazes, burros, inferiores, mas isso não é verdade, temos as mesma capacidade e potencial, o que falta é igualdade de condições. É muito cômodo apontar o dedo para as pessoas, e rotulá-las de burras, vagabundas, faveladas, quando temos quem nos ajude a enxergar o caminho, ou quando estamos inseridos nas classes abastadas da madrasta sociedade. Quando avançarmos na sociedade e tivermos nossos direitos
assegurados, então faremos nós mesmos nossas próprias escolhas.
Poderemos optar por estudar ou não, irmos ao dentista ou não, enfim… Teremos opção de escolha, o que não temos hoje.
 
Porque o mundo ainda é uma grande senzalaPortanto, temos um sindicato, temos uma força que é a capoeira, precisamos conhecê-la a fundo. Buscarmos dentro de nós alguma centelha de nobreza e aplicarmos nesse ideal. É uma luta árdua, onde não deve haver espaço para vaidades pessoais ou benefícios isolados.
 
Uma luta que levará tempo e sacrifício, devemos começar por nós mesmos.
Temos que tornar nossos espaços, onde exercitamos o físico, também em espaço cultural, ensinando os alunos não somente a jogar, a cantar, mas também a pensar, ajudando-os a situarem-se na história, para que sejam mais do que jogadores de capoeira ou valentões, sejam pensadores conscientes, para que possam contribuir para causa, passando à frente a mensagem.
Temos que substituir as cordas (graduações) por uma causa. Tornar os encontros de capoeira, para além do jogo, do canto. Temos a obrigação moral de contribuir para a vida dos nossos alunos, e não reproduzirmos o sistema, aproveitando-se da ignorância para tê-los às nossas conveniências.
 
A escravidão está em todos os lugares, mascarada de muitas formas, sendo promovida por capitães-do-mato travestidos, muitos deles de mestres de capoeira…”abre o zóio siri di mangue”.
 
Em causa estão as atitudes, não as pessoas!!!
 
Salve a liberdade… Viva Zumbi!
 
Leia Também:  ELO PERDIDO – PARTE 1
 
CENTRAL CATARINENSE DE CAPOEIRA
Fundada em 29 de julho de 1998
CAÁ-PUÊRA
EDIÇÃO ESPECIAL:
O ELO PERDIDO – PARTE 2
POR MESTRE PINÓQUIO
MAIO DE 2007
 
ASSOCIAÇÃO CULTURAL CAPOEIRA QUILOMBOLA
“Porque o mundo ainda é uma grande senzala”
 

DF – Mestre Gilvan & Censo Cultural 2007

TAGUATINGA FAZ O CENSO CULTURAL
 
A Divisão Regional de Cultura de Taguatinga (DRC/RAIII), inicia apartir do dia 12/02 a primeira fase do Censo Cultural de 2007, que tem como objetivo fazer um mapeamento de quem trabalha com a cultura no Distrito Federal e entorno, nesta fase estarão sendo cadastrados artistas plásticos, atores, dançarinos, músicos, compositores, poetas, escritores, artesãos, designer, cartunistas, artistas gráficos e quem trabalham com vídeos.
 
Após a primeira fase, mais duas etapas estão previstas, estas com o objetivo de mapear 1º – “Quais as instituições e empresas que incentivam a cultura no DF”, 2º- “Quais são os fornecedores de insumos para o mercado Cultural”, ainda sem data prevista e 3º – A volta da implantação dos Projetos: “Empresa Amiga da Cultura” e “Despertar da Arte”.
 
A DRC de Taguatinga quer saber quem trabalha com cultura no DF, quem incentiva e quem oferece produtos e serviços a esses artistas afirma o novo Diretor de Cultura Gilvan Alves de Andrade – Mestre Gilvan, as informações do Censo Cultural assim como outras informações farão parte de um grande banco de informações culturais que ficará a disposição do público em geral.
 
Para fazerem parte do Censo Cultural os artistas devem procurar a DRC, Área Especial Central, Praça do Relógio de Taguatinga.
Telefone: 3451-2571/99622511
 
“Cultura é um bom negócio”