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Livro: Capoeira e Religiosidade (Espiritualidade)

Para alguém que foi criado na Europa ocidental, onde a religião, em grande parte, foi remetida para o domínio privado de cada pessoa, e que chega ao Brasil e vê os adesivos colados na parte de trás do carros dizendo “100% Jesus”, ou “Deus é fiel”, é como um pequeno choque cultural. Mesmo sabendo que o catolicismo ainda está forte na América do Sul, a ideia (talvez ultrapassada) do iluminismo, na qual a religião é apenas um estágio antes do laicismo e do conhecimento científico, é uma convicção que está fortemente impregnada na minha consciência.

Ver gente que exprime tão abertamente a sua ligação com uma religião, quase de uma maneira comercial, sem ser necessariamente muito conservador nem atrasado, é uma coisa que, no início, é difícil de aceitar ou compreender. Quando se entra no mundo da capoeira, uma arte marcial brasileira, também se percebe as ligações entre capoeira e as várias religiões, como as religiões dos afrodescendentes.

Estas religiões são interligadas e até fonte das demais expressões culturais africanas, que foram trazidas pelos escravos dos vários países da África no tempo de cativeiro. Religiões que por razão de sobrevivência segundo vários2  – foram trazidas ao sincretismo com a religião dominante dos senhores, o catolicismo. Ao lado disso ainda existem as crenças dos índios, de quem eu sabia muito menos, mas que na história da capoeira também têm um papel, com a pluralidade de religiões e crenças que existem entre eles3.

Como um holandês quase ateu vai conseguir entender este mundo de interligações e conexões religiosas que formam parte da base deste arte marcial que é a capoeira?
Na sociedade holandesa (como numa grande parte da Europa ocidental) a influência aparente da religião é muita mais fraca do que no Brasil: as igrejas ficam cada vez mais vazias e são utilizadas como centros culturais ou mesquitas4.

Lá, o raciocínio –o racionalizar de todos os fenómenos e o secularismo estão fortes e puxaram a fé para o domínio privado, se é que ainda existe. Neste domínio, o catolicismo batalha espaço com as várias formas de protestantismo, as religiões orientais, e o secularismo. Em 2008 o CBS (Instituto Central da Estatística holandês) fez uma pesquisa na qual 29% do povo holandês se considerou católico, 19% protestante (reformado, luterano, evangélico), 4% muçulmano, 6% disse ter outra religião (judeu, hinduísta, budista, cristão ortodoxo) e 42% sem religião5. Movimentos pentecostais estão presentes de maneira marginal e as religiões dos afro-descendentes não desempenham um papel significante para a sociedade.

Isto não é apenas uma enumeração de dados religiosos; isto nos diz algo sobre a sociedade onde isto acontece, que é bem diferente da sociedade brasileira. Não só porque tem relativamente menos fiéis, ou porque eles estão divididos de uma maneira diferente. É também porque quando vemos a religião como uma parte fundamental da cultura, a presença ou a ausência de uma oumais religiões, tem uma forte influência naquela sociedade.

Como consequência, chegamos a uma primeira divisão entre as culturas holandesa (e “o mundo ocidental”, como gostamos de dizer na Europa) e a brasileira. Temos que entender primeiro que para o africano que foi trazido para o Brasil, como para o indígena, mas também para o ‘catolicismo popular’6 , os aspectos da vida estão muito mais interligados do que o Europeu (ainda) reconhece7.

Não há uma divisão “secular”: sua religião determina o trabalho que você faz, a comida que você come, e como resolve os problemas físicos. A religião, para a maioria dos holandeses e no mundo ocidental tornou-se uma coisa particular, privada, que você pratica aos domingos na igreja. Mas para uma grande parte das pessoas em outras partes do mundo, as ligações religiosas existem em contexto pessoal e social. Para o europeu, estas coisas estão bem separadas.

A razão desta diferença é tema para um outro debate, e aqui não há espaço para entrar8. O que importa para meu propósito é que esta diferença existe. Porque, mesmo a situação social e religiosa na Holanda (e Europa ocidental) sendo bem diferente daquela que encontrei no Brasil, a capoeira se espalhou e se desenvolveu em ambos os países e continentes.

Claro que o berço da capoeira é o Brasil, e que ela tem muito mais história lá, e um nível alto que é mais amplo espalhado. Mas no fundo a capoeira ficou a capoeira. Há jogadores bons na Europa (e nos outros continentes) que podem se meter com qualquer um no Brasil, que entendem o jogo, sabem dos rituais e de tudo o mais. Não-Brasileiros que dão aula e se tornam contramestres e até mesmo mestres.

Tem gente cantando sobre a escravidão, sobre os orixás, os santos, fazendo orações, mesmo sem nunca terem vivido esta cultura. Não se consideram (necessariamente) religiosas, e as religiões ‘ligadas’à capoeira são, na grande parte, alheias à eles, porque não fazem parte da situação social onde eles vivem.

Como explicar este fenômeno? Como uma cultura que às vezes é tão diferente, é tão ‘facilmente’ incorporada no mundo inteiro por pessoas de culturas totalmente alheias, até que ponto os praticantes de capoeira incorporaram uma certa religiosidade ou espiritualidade que faz parte desta cultura onde a capoeira nasceu? Será então que a capoeira leva a uma certa religiosidade das religiões que são parte da cultura brasileira, ou devemos entender este fenômeno de uma maneira diferente?

Para começar a entender isto, considero as religiões e crenças de um ponto de vista acadêmico, quer dizer racionalizado, até mesmo categórico e talvez um pouco abstrato. Então eu não imagino falar sobre a espiritualidade de cada um, ou como todos os capoeiras convivem ou praticam suas religiões, ou qualquer outro aspecto que seja pessoal, individual.

Fé é fé e tem pouco de acadêmico;  ela também não é entendida por todos os fiéis da mesma maneira. E estou também consciente que a capoeira tem uma significação diferente para cada um que a pratica. O que eu procuro aqui é tentar entender uma parte deste fenômeno com os instrumentos e conhecimentos acadêmicos que eu tenho ao meu dispor9.

 

2. Ferretti (1997), Vassallo (2009)

3. Subsistem hoje tribos em um número muito pequeno, face o que houve antes. Mesmo assim, depois de cinco séculos de genocídios e agressões, distribuem-se em diferentes etnias e algumas nações indígenas; várias tribos com suas culturas próprias e, em seu interior, com sistemas religiosos peculiares. Mesmonos casos em que inúmeros do seus membros já se converteram a alguma confissão cristã. Então não é uma vaga espécie única de religião com um misterioso deus supremo: Tupã. Brandão, (2004) Mas a influência destas religiões e crenças no mundo de capoeira ainda é pouco pesquisada.

4. O que provavelmente também não vai durar muito tempo, vendo que os muçulmanos no ocidente já pensam de outra maneira sobre qual deveria ser a papel da sua religião dentro a sociedade.

5. CBS, 2009

7. Esta antiga forma de catolicismo ibérico politeísta forma parte central do meu argumento. Por isso vou entrar nesta forma mais adiante.

8. Por exemplo, só na maneira de preparar a comida já existem hábitos e costumes baseados na crença. E para quem é filho de santo, sabe-se que não pode comer alguns alimentos, de acordo com o santo.

9. Se a causa desta diferença foi o iluminismo europeu ou o desenvolvimento das sociedades modernas que passavam certo nível de complexidade e assim atingiram um alto nível de funcionalidade diferenciada onde não se pode manter a universalidade social de uma visão de mundo essencialmente religiosa, (Luckmann (1990) ou que há outras explicações, eu deixo para o leitor.

 

Dolf van der Schootcapofilosofo@gmail.com

Nota de Falecimento: Mestre Camisa Roxa

Capoeira Chora com o Falecimento do Mestre Camisa Roxa…

Nossos mais profundos sentimentos a toda família Abada-Capoeira pela perda deste grande Mestre, Camisa Roxa Ao que Sabemos o Mestre Sofreu uma queda de uma Laje resultando em sua Morte, mais uma triste noticia para a Capoeira, assim que tenhamos mais noticias informaremos a todos.

Lembrando: Edvaldo Carneiro e Silva (Mestre CamisaRoxa)
Mestre Camisa Roxa foi considerado o melhor aluno de Mestre Bimba. Grão-Mestre é Abadá-capoeira, título vida para o qual foi escolhido por um conselho de notáveis Mestres do conhecimento. Sua função é mentor e consultor,e seu título o mais alto grau na Abadá-capoeira. É o mais relatado capoeira Capoeira pelo mundo, viajou para mais de 50 países, trazendo uma manifestação da arte Capoeira e da cultura brasileira. 

Camisa Roxa nasceu em 1944, na Fazenda Estiva, no interior da Bahia. Ele começou a praticar capoeira aos 10 anos de idade como forma de entretenimento, que mais tarde foi copiado por todos os seus outros irmãos. Na década de 60, foi para Salvador para fazer o grau científico e começou a treinar na Academia de Mestre Bimba, onde ele treinou e foi considerado o melhor aluno de Mestre. Seus irmãos Ermival, Pedrinho e uma camisa também formaram na Academia de Bimba.

O Grão Mestre apelido surgiu devido ao fato de que ele sempre frequentava rodas de Capoeira da Bahia vestindo uma camisa roxa (roxa em Português), que ele gostava. Ela também gostava de jogar no tradicional Capoeira rodas de Mestre Pastinha academia eo rhodes de Mestres Waldemar e Traíra Rua Pero Vaz, onde era muito respeitado pela sua postura e possuidor de grande conhecimento dos fundamentos da Capoeira.
Camisa Roxa Capoeira pensar como um todo, reunindo Regional e Angola. “Na verdade, poucas pessoas entendem a verdadeira intenção de Mestre Bimba”, diz o Grão Mestre. “Primeiro ele ensinou seu método de Capoeira novamente elevado, mas com o tempo a pessoa deve aprender a jogar em” completa.

Camisa Roxa é responsável pela coordenação Abadá-capoeira na Europa, e realiza regularmente oficinas de reciclagem para instrutores e professores que agem dessa forma. Ele também é o organizador do Encontro de Primavera Capoeira na Europa e Jogos Europeu Abadá-capoeira. Estes eventos têm como objetivo a integração e atualização dos capoeiristas na Europa através de aulas teóricas e práticas ministradas por professores convidados do Brasil.

Hoje o Grão Mestre dedica grande parte de seu tempo para pesquisar a capoeira, sempre à procura de novas maneiras e aumentar a sua visibilidade no mundo. Para ele, no Brasil deveria ser mais unidade entre os diferentes grupos, para que seja possível estabelecer uma ordem nas atividades e ensinamentos. “Talvez uma Capoeira mais disciplina e unidade entre os líderes, produzindo uma Capoeira com mais responsabilidade e profissionalismo”, diz ele. Camisa Roxa diz passar sua experiência procura recompensar tudo o que deu Capoeira hoje.

 

Fonte: Equipe Rabo de Arraia – http://www.rabodearraia.com

Évora – PT: Nosso Reencontro

Caro capoeira, mestre, contramestre ou professor,

se aproxima a data do nosso reencontro de Évora. Será nos dias 13, 14, 15 e 16 de Setembro e a ideia é fazer dessa data, um momento dedicado à capoeiragem que une, de forma não tendenciosa, as diferentes correntes existentes na arte da Capoeira.

Esse ano, teremos a presença do jornalista e escritor Mano Lima que estará, junto com o professor Luciano Milani, fazendo a cobertura jornalística do evento e lançando seu mais novo livro “Eu, Você e a Capoeira”. O Jornalista Mano Lima é o idealizador e escritor do Dicionário da Capoeira, já em segunda edição.

O mestre Ousado também estará presente lançando o livro que fala da sua trajetória na capoeira. O mestre Ousado, hoje, vive e trabalha em Singapura.

Teremos a participação de muitos capoeiristas do Leste Europeu, Europa Central, além dos já habituais participantes vindos de países mais próximos a Portugal. Contaremos também com uma delegação do Brasil dos Estados de São Paulo, Goiás e da nossa capital Brasília.

De Portugal, esperamos receber um número significativo que já abraça e encara o Nosso Encontro, como um evento feito por e para todos nós, sem a defesa de nenhuma estampa que simboliza alguma entidade.

Estamos reunindo esforços para termos, também, uma representação cabo-verdiana e angolana no nosso Reencontro.

Temos a confirmação, pra esse ano, de dois representantes asiáticos vindos de Singapura e de Macau. Isso será muito importante na medida em que teremos, unidos pela capoeira, representantes das Américas (Brasil e Canadá), Africa (Angola e Cabo Verde), Europa e Ásia.

Peço a você que realize a divulgação junto aos seus alunos e demais conhecidos capoeiristas, informando-lhes o endereço de inscrição online que dou à seguir: www.nossoreencontro.portalcapoeira.com


Com um abraço amigo, me despeço e fico na expectativa do nosso reencontro.
Umoi Souza

Portugal: 4º Campeonato Europeu de Capoeira

O Algarve irá receber de 4 a 7 de Março, a Capoeira ao mais alto nível Europeu, com a realização, em Albufeira do 4º Campeonato Europeu de Capoeira, prova que irá receber as melhores equipas do grupo Muzenza de Capoeira, oriundas de toda a Europa.

O Grupo Muzenza tem tradição na organização de campeonatos. No ano 2000 surge a ideia de organizar campeonatos Mundiais, que estão na 5ª edição e no ano de 2007, motivado pelo acelerado desenvolvimento da Capoeira na Europa, decide-se realizar o Campeonato Europeu de Capoeira, em Lisboa – Portugal. O 2º Campeonato Europeu realizou-se em Maio de 2008 em Paris – França, o 3ª Campeonato em Valladolid – Espanha e para a 4ª edição deste evento foi eleita a cidade de Albufeira – Portugal, onde esperamos ter muitos participantes não só pela grande quantidade de professores e praticantes que existem em Portugal, como também por oferecer um fácil acesso aos outros países participantes. Podendo também os atletas, professores e Mestres, desfrutar das belas paisagens de Albufeira, apreciar o mar envolvendo-se com a areia, numa fusão que privilegia a natureza e o bem-estar.

Com este Campeonato pretendemos mostrar a Capoeira como modalidade desportiva, divulgar, preservar e potencializar essa arte que faz parte da história do Brasil e que tem um grande poder como instrumento para a promoção da saúde, do ócio, da cultura e da educação; promover o intercâmbio entre os vários segmentos da comunidade capoeirística e aperfeiçoamento técnico-táctico e estético-ritual da prática da Capoeira e dos interessados nesta modalidade.

 

 

A Direção

Associação Capoeiragem Malta do Sul / Grupo Muzenza Capoeira (Algarve-Portugal)

Crônica: Dia da Consciência Negra

20 DE NOVEMBRO: DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, (?).
Por que “Dia da Consciência Negra”?; por que não “Dia de … Zumbi …”?

De Zumbi ainda não sabemos o nome, além do Francisco. Padre Melo nas tantas cartas que enviou a amigos lhe referiu sempre na condição de “pai”, ou pai, citando somente o primeiro nome. Já se conhece uma carta enviada pelo Rei, (D. Pedro II) a Zumbi, nela é tratado só por  ‘Capitão Zumbi”  Das muitas cartas que certamente Zumbi enviara, a céus e terra, tantas para a realeza, ainda não  conhecemos seus textos, portanto não se sabe como assinava. Mas Zumbi foi batizado, com certeza em convento oficial. Mesmo os acentos do batismo a Igreja Católica nunca o exibiu a nenhum historiador, pesquisador, ou à Nação, por dever.

Com o arranjo “Consciência Negra”, o Legislativo dá uma no cravo e outra na ferradura – ou seja, “atende” à comunidade negra e  não contraria à doutrina de estado do Estado Brasileiro. A República ainda não comporta uma homenagem a Zumbi. E não comporta por dois motivos: a) Uma das razões está no âmbito do Cristianismo;  b) a outra está nas relações da América Latina com a Europa, uma relação de dependência, ainda com fortes características coloniais.

A escravidão africana foi um engenho de duas mãos de um mesmo corpo – A Europa:  a) pensado e gerido pelo Cristianismo; b) sustentado militarmente pelos grandes impérios Europeus da época. O Cristianismo tem como pano de fundo, como coluna de sustentação a morte. O próprio Cristo, só se torna divindade em função da morte; a sua “vida” (do Cristo), se dera pela morte, e só se dera pela morte;  o objetivo só podia ser alcançado pela morte, etc. Ora, para o cristianismo se o Estado Brasileiro reverenciar a Zumbi o estará  colocando no mesmo patamar  de Jesus Cristo, e Zumbi foi Um dos “neófitos” a quem o cristianismo não pode dar “atestado de bons antecedentes”.

A segunda razão está na relação de dependência da América para com a Europa. A Escravidão Africana na América foi obra da Europa. Quem lucrou, em todos os sentidos, com a escravidão africana foi a Europa. E só a Europa. Com a independência dos países da América, cada um deles, até mesmo os EUA, assume a responsabilidade pela Escravidão Africana. A Europa como que “transferiu” todos os danos da escravidão para estas novas nações. Assim o Brasil fica responsável pelo seu período de escravidão e não Portugal. E não a Inglaterra enriquecida.

O Cristianismo urde a escravidão africana dentro da mais “absoluta e perfeita legalidade” projetada para nunca ser questionada; a Europa a manteve a ferro e fogo sob a mesma égide do inquestionável. E assim mantêm, a Europa via suas ex-colônias, o espólio da escravidão africana sob acordos militares e para-militares debaixo do mesmo entendimento do inquestionável. Uma homenagem a Zumbi, um rebelado, na condição de Herói, iniciará a ruir o instituto do inquestionável. O inquestionável é de tal ordem importante na História da Escravidão Africana que talvez em toda a América Latina, (no Brasil com certeza), apenas Perdigão Malheiros se lhe  referiu.

Confrontar à Escravidão Africana no Brasil começou por Palmares, a que nós projetamos os milhares e milhares de negros em Zumbi. A reparação da Escravidão Africana começará, em qualquer tempo, por Palmares, por Zumbi. Esta reparação não isentará a Europa. Neste sentido será prudente que nas nossas manifestações culturais, notadamente a Capoeira, que percorrem o Mundo iniciem as divulgações deste nosso entendimento.

*Matéria originalmente publicada no Portal Capoeira em Novembro de 2006 – Publicação especial mês da Consciência Negra.
André Pêssego – Berimbau Brasil, SP

André Pêssego é Técnico Industrial, especializado em eletrotécnica; autor, escritor, Praticante de Capoeira, (sem virtude alguma na arte mãe.) Berimbau Brasil, Grupo do Mestre João Coquinho.

Portugal: VII Algarve Open de Capoeira

Na sequência da programação desportiva para 2009, a Associação de Capoeiragem Malta do Sul / Grupo Muzenza de Capoeira está a organizar com o patrocínio da Câmara Municipal de Lagoa e da Junta de Freguesia de Lagoa o  “7º Algarve Open de Capoeira”, sob a orientação do Mestre Namorado e Professor Pena, decorrerá nos dias 1 e 2 de Maio de 2009, em Lagoa (Algarve – Portugal), no Pavilhão da Escola EB2/3 Jacinto Correira.
 
O “7º Algarve Open de Capoeira”, visa principalmente o intercâmbio dos diversos capoeiristas de Portugal e da Europa, bem como o desenvolvimento e a importância da prática e divulgação da capoeira na Europa e no Mundo.
 
O “7 Algarve Open de Capoeira” é, fundamentalmente, vocacionado para as turmas infantis, composto pelo Rodas de Rua | Gincanas| Baptizado e Troca de Graduações.

 

VII Algarve Open de Capoeira 

1 e 2 de Maio 2009 | Lagoa

 

PROGRAMA:

 

 

 

 

 

Sexta dia 1

 

 

16:00h – Inauguração e Assinatura do Protocolo de Cedência da Sede (Sesmarias – antiga escola primária de Vale de Lapa)
19:00h – Aula com o Mestre Burguês (Presidente do Grupo Muzenza)
20:30h – Roda de Abertura do Evento (Jardim 5 de Outubro)

 

 

 

 

 

Sábado dia 2

 

 

9:00h às 14:00h – Aulas com Mestres e professores convidados

                         – Gincana Infantil

                        (Pavilhão da Escola EB2/3 Jacinto Correia)

 

 

16:00h – Apresentação 2009

           – Baptizado e troca de graduações

           (Pavilhão da Escola EB2/3 Jacinto Correia)

 

 

 

20:00h – Festa de Encerramento (Sede da Associação)

 

 

 

PARTICIPAÇÃO DE:

 

 

MESTRES:
Burguês (BRA), Carson (BRA), Zambi (BRA), Sargento (POR),Feijão (ESP), Nikimba (ESP)

 

CONTRA-MESTRES:
Nil (POR), Fabinho (ESP)

 

PROFESSORES:
Busca Longe (BRA)

 

Professores, instrutores de toda a Europa

Co-Organização:
Associação de Capoeiragem Malta do Sul | Câmara Municipal de Lagoa

 

Realização:

Mestre Namorado | Professor Pena

Secretariado:

Nuno Guerreiro – Internético

Bahia: Capoeira é tema de espetáculo nos Alagados

Pensa Capoeira no Alagados é o nome do espetáculo que mescla música, teatro de rua, artesanato, maculelê e capoeira e será mostrado, no dia 31 de agost, às 10 horas, no fim de linha do Uruguai.

Com a participação de cem artistas, entre crianças e adultos, a apresentação é fruto de uma parceria entre o Instituto Cultural Brasil Itália Europa (ICBIE), com sede na Ribeira, e a entidade Filhos do Sol Nascente, que fica nos Alagados.

O espetáculo será gratuito para levar um pouco de arte e cultura às famílias que ainda vivem nas palafitas.

Fonte: http://www.atarde.com.br/

Estátua símbolo de Bruxelas ganha roupa de capoeirista

O Manneken-Pis, monumento mais célebre de Bruxelas, capital da Bélgica, se vestiu de capoeirista nesta sexta-feira para celebrar a Independência do Brasil e promover a primeira Bienal de Artes Plásticas Brasileiras do país.
 
Será a primeira vez que a pequena escultura de bronze, símbolo da capital européia, portará um traje típico brasileiro.
 
O petulante menino de 55 centímetros de altura, que guarda uma antiga fonte pública da cidade fazendo xixi e completamente nu, só leva roupas em homenagem a ocasiões especiais, uma tradição que começou em 1747 por iniciativa do rei Luís 15.
 
Este ano ele já foi Elvis Presley, Nelson Mandela e Mozart por um dia.
As diminutas roupas depois são expostas no Museu da Cidade de Bruxelas, que reúne 780 fantasias de diferentes origens já utilizadas pelo Manneken-Pis.
 
Cultura brasileira
 
"Ter o Manneken-Pis vestido de brasileiro é uma grande honra e dará um caráter mais popular e mais lúdico à bienal", afirmou à BBC Brasil a artista plástica Inêz Oludé da Silva, organizadora da Bienal de Artes Plásticas Brasileiras.
 
"Escolhi o abadá da capoeira porque é uma boa maneira de mostrar essa cultura de resistência. Cada vez estão chegando mais brasileiros à Bélgica e é importante mostrar que também somos portadores de cultura, que não estamos aqui unicamente para invadir, para extrair algo, mas também para aportar coisas."
 
Esse é também o objetivo por trás da bienal, que entre 14 e 30 de setembro mostrará nas Casa das Culturas de Saint Gilles, em Bruxelas, uma seleção de telas, fotografias, vídeos e instalações de 14 artistas brasileiros residentes na Europa.
 
Ao total, serão 70 obras expressando "o sentimento dos brasileiros que fazem parte da Europa". "Eu tinha um grande desejo de divulgar algo mais sobre o Brasil além dos clichês comuns aos europeus: Carnaval, futebol, favelas ou pessoas carentes", conta a organizadora, que vive na Bélgica há 31 anos.
 
Os artistas que participam da bienal foram selecionados por dois curadores independentes a partir de um edital publicado nas embaixadas brasileiras da Europa.
 
 
Enviado por: Bruno "Teimosia"

Baiana defende título mundial

“Vai ser uma grande responsabilidade defender o título dentro de casa. Este ano vou estar com uma torcida muito grande”, diz a instrutora Moema Lúcia Ribas Duarte, campeã feminina dos Jogos Mundiais de Capoeira de 2005, única mulher a se classificar entre os 64 melhores capoeiristas da última edição do evento. Pelo regulamento da competição, homens e mulheres competem juntos.

Baiana, 34 anos e formada em educação física, ela contará com o apoio de seus mais de 100 alunos das rodas que orienta no Parque Júlio César, na Pituba, e na Baixa do Tubo, no Vale do Matatu. Torcida que, no entanto, estará desfalcada de seu maior incentivador: Muralha, marido e também instrutor da Abadá, partiu há seis meses para Palma de Mallorca, na Espanha, em busca de melhores condições de trabalho. “Aqui a nossa arte não é valorizada”, lamenta Moema, que ganha pouco mais de R$ 2 mil por uma jornada de 40 horas semanais de aulas em academias e escolas. Em dezembro, ela e a filha de 12 anos do casal devem partir para a Europa e juntar-se ao marido.

A decisão foi tomada justamente em função do dilema que vive entre a família e o trabalho. As poucas horas que tem para ver a filha, à noite, Moema divide com os treinamentos. Além de Moema, outra esperança baiana para o mundial na categoria adulto é Tijolinho, atual campeão do Norte-Nordeste.

Fonte: A Tarde Online – http://www.atarde.com.br/esporte/noticia.jsf?id=779468

A CAPOEIRA É DO BRASIL? A CAPOEIRA NO CONTEXTO DA GLOBALIZAÇÃO

Introdução
 
Este artigo analisa o processo de globalização da capoeira no contexto da reestruturação produtiva do capitalismo. O campo empírico das investigações concentrou-se em experiências com capoeira em seis países da Europa (Portugal, Itália, Espanha, Inglaterra, Polônia e Noruega). A investigação se materializou a partir de um estágio de doutoramento, realizado entre 05 de abril e 31 de agosto de 2003, no Instituto de Ciências Sociais (ICS), da Universidade de Lisboa.
Ao longo dos últimos anos, a capoeira vem se inserindo vertiginosamente nos mais diferentes espaços institucionais das médias e grandes cidades do Brasil e em vários países do exterior, consolidando um avanço histórico controvertido. Se, por um lado, à época da escravidão, era associada às lutas de negros escravizados em busca da liberdade, por outro, atualmente, ela tem sido vinculada majoritariamente à lógica do mercado.
 
O desenvolvimento da capoeira apresenta contradições importantes que se expressam pela visível expansão e deslocamentos que ela vem operando no contexto nacional e internacional. Nos últimos anos, constatamos a saída de expressivo número de capoeiras para o exterior em busca de melhores condições de sobrevivência que, além de contribuírem, efetivamente, com o seu processo de expansão no mundo, influenciam também na inversão dos fluxos migratórios. No exterior propagam apaixonantes discursos que realçam a capoeira à condição de prática “exótica”, “tropical”, “brasileiríssima”.
 
Objetivo
 
O principal objetivo desse artigo é analisar o processo de internacionalização da capoeira a partir de experiências sistematizadas em seis países da Europa.
 
Metodologia
 
Foi adotada uma combinação de observações participantes com entrevistas semi-estruturadas, através das quais procuramos interagir e compartilhar com o cotidiano dos sujeitos, observando e registrando suas ações. Foram observadas aulas práticas e teóricas, intercâmbios, comemorações, exibições e confraternizações. Foram entrevistados os líderes de grupos que já desenvolvem trabalhos sistematizados no exterior há mais de três anos. 
Ciente da complexidade do processo de análise de dados qualitativos, convém destacar que procedemos a análise e a interpretação dos dados numa perspectiva não-linear, atentando para os critérios relativos à credibilidade, transferibilidade, consistência e confirmabilidade, durante toda a investigação, através de teorizações progressivas em um processo interativo com a coleta de dados.
 
A Internacionalização da Capoeira: De Símbolo de Brasilidade a Patrimônio Cultural da Humanidade
 
Quando muitos capoeiras brasileiros começaram a sair do país, a partir do início da década de 1970, para trabalhar em grupos folclóricos no exterior, em busca de apoio e reconhecimento, não tinham idéia da magnitude que esse fenômeno viria a ter três décadas mais tarde. No início, tudo era muito difícil e a rua era, freqüentemente, o único espaço que eles encontravam para expressar sua arte ou para manter contatos com outros artistas do cotidiano, como palhaços e malabaristas das mais diversas origens.
 
O principal motivo da saída do Brasil de uma avalanche de mestres, professores e iniciados em capoeira para o exterior é determinado por fatores econômicos e está relacionado com a busca de melhores opções de trabalho, reconhecimento e prestígio. Se, no Brasil, a mensalidade para se fazer aulas de capoeira três vezes por semana oscila em torno de R$ 30,00 (trinta reais, o equivalente a US$ 10 – dez dólares), nas principais cidades americanas e européias este valor corresponde a apenas uma hora de atividade. Para fazer uma aula de capoeira na Academia Alvin Alley Ballet, em Nova York, com a Mestra brasileira Edna Lima, o interessado tem que pagar US$ 20 (vinte dólares) (SANTANA, 2001, p. 7).
 
Esse movimento de expansão traz conseqüências inusitadas para a capoeira e é visto, por muitos, como algo sedutor, embora venha causando inquietações por parte de alguns preocupados com a “manutenção” das suas tradições. Se, por um lado, muitos alegam que isso vem contribuindo para um certo distanciamento dos princípios e valores que delegaram à capoeira um emblema de “luta de resistência” contra a exploração, por outro, muitos consideram que esse processo está contribuindo para a valorização das referências culturais africanas e para despertar um interesse maior pelo Brasil e pela cultura brasileira.
Muitos analistas apregoam que, nos EUA, a capoeira tem contribuído, também, para revitalizar o elo entre os negros americanos e a África, cuja relação foi abalada pelo processo violento de segregação desencadeado em séculos passados. Na busca desse “elo perdido”, muitos americanos vêm para o Brasil com o objetivo de “beber na fonte” e procuram conhecer os mestres mais representativos desta arte-luta.
 
Convém destacar que o grande interesse dos estrangeiros pela capoeira se desdobra imediatamente em dois desejos, conhecer o Brasil e falar o português. Muitos mestres e professores que ministram aulas no exterior, em busca de um apelo ao mais “tradicional”, fazem questão de se expressarem no idioma português. Falar português nas aulas de capoeira é um requisito que opera como uma espécie de “selo de qualidade” e vem contribuindo para abrir campos de trabalhos antes impensáveis. O Hunter College, uma das mais tradicionais faculdades de Nova York, já oferece cursos regulares de português, em decorrência da demanda provocada pela capoeira (Nunes, 2001, p. 3).
 
O movimento de difusão da capoeira no contexto mundial é mais visível e intenso em direção aos Estados Unidos e à Europa. Com raras exceções, comprometidas politicamente em desenvolver trabalhos de “retorno” dessa arte-luta à África, a maioria das iniciativas se destina aos países centrais do capitalismo.
 
Essa exportação não convencional (na forma de um símbolo étnico), que se expressa pelo movimento de saída de capoeiras do Brasil para trabalharem em outros países, assume dimensões complexas e controvertidas.
 
Neste movimento complexo, a capoeira vem se inserindo de forma cada vez mais abrangente em vários setores da comunidade internacional. Como conseqüência, algumas “bandeiras” cultivadas e defendidas por seus precursores, como a oralidade, o improviso, a “mandinga”, a resistência cultural, são subestimadas, para darem lugar a outras categorias mais “sintonizadas” com o momento atual, tais como: “mercadoria étnica”, “folia de espírito”, “malhação” e “espetacularização” etc. (VASSALLO, 2003).
 
O abandono de determinados rituais considerados “tradicionais” é outro aspecto que intriga experimentados capoeiras incomodados com os lampejos de modernidade que, freqüentemente, desconstroem procedimentos rudimentares, mas que, para muitos, exercem um poder simbólico muito eficiente nesse contexto.
 
Estamos presenciando a construção de uma diáspora brasileira, e a capoeira insere-se, indubitavelmente, como um dos carros chefes desse processo. O fato é que ela vem se expandindo em escala geométrica por todo o globo, e o incremento desse movimento de internacionalização tem ocorrido em comunhão com outros símbolos da cultura brasileira, como o carnaval, o samba, o pagode etc. É possível afirmar que essa diáspora brasileira se constrói sob os ditames da “globalização econômica” que produz uma brasilidade idealizada, construída por cima e ao largo das gritantes diferenças culturais e econômicas que moldam a realidade concreta do povo brasileiro.
 
Acompanhando e Analisando Experiências Significativas de Capoeira pela Europa
 
Por ocasião das nossas investigações, visitamos importantes instituições de ensino e pesquisa, em especial, faculdades de Educação Física em diferentes países. Em algumas delas, existem trabalhos sistematizados de capoeira que funcionam como projetos de extensão ou como atividades extracurriculares, em que professores brasileiros são contratados por tempo determinado para ministrarem atividades aos que se interessarem. Geralmente, os discípulos pagam taxas que oscilam entre vinte e cinqüenta euros por mês (que corresponde entre sessenta e cento e cinqüenta reais) e, é do montante dessas taxas que provém o pagamento do professor de capoeira, como é o caso dos projetos do Estádio Universitário da Universidade de Lisboa, da Universidade de Varsóvia e da Universidade de Oslo.
 
O primeiro trabalho de ensino sistematizado de capoeira na Europa foi empreendido pelo reconhecido Mestre Nestor Capoeira . Embora alguns capoeiras brasileiros tenham realizado espetáculos pela Europa desde 1951, foi Nestor Capoeira quem iniciou o processo de ensino sistematizado desta manifestação na Europa, na London School of Contemporary Dance, Inglaterra.
 
A partir do Mestre Nestor Capoeira, milhares de workshops e oficinas pipocaram por toda a Europa. Em entrevista, o referido Mestre declarou que, embora tenha sabido da passagem de Mestre Artur Emídio pela Europa, para participar de shows e ministrar oficinas, foi ele que, em 1971, começou a ministrar aulas sistemáticas de capoeira no Velho Continente.
 
Ao longo dos últimos trinta anos, o movimento da capoeira na Europa intensificou-se significativamente, fazendo com que ela adquirisse expressiva densidade, mas no começo, tudo era muito difícil pela falta de informação sobre o que realmente significava esse misto de dança-luta-jogo.
 
O depoimento do Mestre Barão, que desenvolve um conhecido trabalho de capoeira em Porto, ao norte de Portugal, serve para ilustrar esse complexo e conflituoso movimento:
Eu nasci perto de Aracaju (capital do estado de Sergipe-Brasil), em Itaporanga da Juda, lá no meio do mato, numa família humilde, mas honesta também. Depois fomos para Santos-SP, morar lá no Nova Sintra, no morro. A gente morava numa casinha humilde, morava num quarto onde todo mundo dormia junto. Depois eu ia estudar, depois das aulas eu ia vender doce no ponto final dos ônibus, em Santos. Vender bananinha para ajudar minha família, né. Depois eu parei de vender doce e fui trabalhar com um português, carregando lavagem nas costas de domingo a domingo. Depois fui trabalhar na oficina, aprender a função de mecânico. Aí, estudei. Depois fiz um concurso, entrei nas docas. Aí, ganhei uma passagem e vim cair aqui em Portugal. Cheguei aqui em 1994. Tenho nove anos aqui. E faço também um trabalho social porque eu gosto de ajudar as crianças mais carentes porque é importante você fazer uma criança sorrir, não só no Natal, mas também no ano todo (…) (Mestre Barão, comunicação pessoal, 08 de junho de 2003).
 
Mestre FalcãoMestre Umoi, que há treze anos reside em Portugal, destacou que, no início, teve que dar aula na rua para convencer as crianças a fazerem capoeira. Dizia que iria ensiná-las a “dar pernadas”. Segundo ele, precisou utilizar dessa possibilidade para levar os “miúdos” a se interessarem pelas “pernadas do Brasil”.
Quando eu cheguei aqui, em agosto de 1990, pelo menos na região da Grande Lisboa, onde eu me instalei, não tinha capoeira. Ninguém tinha conhecimento do que era capoeira e, claro, eu vim pra cá na tentativa mesmo de ensinar a capoeira. Comecei a procurar as academias aqui e a primeira reação dos donos das academias geralmente era que não queriam nada com galinheiros aqui em Portugal, porque capoeira aqui em Portugal significa galinheiro. Então isso dificultou muito o início do trabalho aqui (Mestre Umoi, comunicação pessoal, 27 de junho de 2003).
 
 Os trabalhos dedicados e ininterruptos de muitos mestres e professores deram continuidade à iniciativa implementada por Nestor Capoeira e contribuíram para que essa manifestação adquirisse grande densidade, diversidade, visibilidade e prestígio social.
 
Na Europa, essa densidade expressa-se pelo rico acervo cultural embutido nos seus gestos, cantos e história, que extrapolam as referências de sua baianidade e edificam uma brasilidade, embora idealizada, à medida que não leva em consideração as evidentes diferenças culturais (e econômicas) presentes neste país de dimensões continentais. Essa “desbaianização” e “brasilização” concomitante da capoeira é resultado dessa mobilidade visível que se expressa pela saída de capoeiras das mais diferentes cidades brasileiras, em direção ao Velho Mundo e à América do Norte. Esse movimento contribui para ampliar as referências culturais dessa manifestação e ornamentar esse carimbo de brasilidade. Um professor norueguês nos afirmou que: “hoje em dia, as pessoas já conhecem bem o que é a capoeira e querem a capoeira (…) Quem procura a capoeira já tem uma idéia que é uma coisa brasileira e querem isso!” (Professor Torcha, comunicação pessoal, Oslo, Noruega, 18 de agosto de 2003).
 
O fato é que a capoeira, com esse “carimbo” de Brasil, embutido em suas cantigas, comportamentos, ramificou-se e expandiu-se significativamente e tem servido, atualmente, como veículo de agregação de povos de vários cantos do mundo, adquirindo, assim, uma identidade supra-nacional. O Mestre Umoi, já citado, nos afirmou:
A capoeira está quebrando a barreira do oceano que divide o Brasil, a África, a Europa, a América do Norte. A capoeira é do capoeirista. E a gente já tem muitos bons capoeiristas aqui na Europa. Você vê muito angoleiro alemão jogando uma Angola tão boa e até melhor do que muito capoeirista que nunca saiu de Salvador, que nunca saiu do Brasil. Aí você fala. Ah!  é porque é alemão? Não, é porque é capoeirista (Mestre Umoi, comunicação pessoal, Amsterdã, 18 de agosto de 2003).
O que movimenta milhares de europeus nas rodas de capoeira, em suas mais diversas formas, são os sistemas de representações significativas, construídos e usufruídos coletivamente em relação ao que se convencionou chamar de “fundamento” da capoeira. O alimento para esses sistemas de representações pode ser encontrado nos uniformes, nas estampas das camisetas, nos sítios da internet, nas cantigas ecoadas nas rodas etc.
 
Ao fazer análise das experiências dos capoeiras em Paris, Vassallo (2003) afirma que esse fundamento está articulado com o que consideram ser a cultura brasileira. Essa articulação incluiria “o domínio da língua portuguesa, bem como as danças, o ritmo e, sobretudo, a visão de mundo característicos daqui” (VASSALLO, op. cit., p. 8 e 9).
Sem considerar que muitos professores mudam de país com certa freqüência, contabilizamos, no primeiro semestre de 2003, a presença de 35 (trinta e cinco) professores, entre mestres, contramestres e instrutores de capoeira, em atividade sistemática, somente em Portugal. 
 
A maioria dos mestres e professores de capoeira que atua na Europa é proveniente do Nordeste Brasileiro, em especial, das cidades de Recife e Salvador, mas existem professores de praticamente todos os estados brasileiros trabalhando com esta manifestação no Velho Continente.
 
Desde o início da década de 1970, Paris vem recebendo muitos capoeiras de diversos grupos brasileiros. A professora Úrsula, há mais de dez anos radicada na França, argumenta que, quando lá chegou, poucas pessoas conheciam a capoeira. Atualmente, apesar de muitos “caloteiros” que chegam lá dizendo que são mestres, sem nunca terem passado por uma academia, a capoeira já é bastante difundida e, freqüentemente, “as mulheres são maioria nas aulas” (CARVALHO, 2002, p. 17).
É fato inconteste também, que os capoeiras, na Europa, caminham para uma espécie de “profissionalização” moldada por trabalhos freqüentemente desregulamentados, instáveis, dispersos e ocasionais. Essa condição laboral precária, freqüentemente clandestina, em que se inserem os brasileiros responsáveis pela disseminação da capoeira no exterior,  diferencia-se, frontalmente, das carreiras previsíveis, de rotinas estáveis que, até pouco tempo, caracterizavam os postos convencionais de trabalho.
 
A luta pela sobrevivência e o desejo de reconhecimento a partir de novas experiências são os principais motivos que levam tantos professores de capoeira a deixar o Brasil e a se “jogar” em promessas incertas de “vida boa” no exterior. Entretanto, o que eles freqüentemente encontram são opções de trabalhos dispersos, desregularizados, fluídos e “invisíveis”, tal como os fiddly jobs (expressão de MACDONALD apud MACHADO PAIS, 2001, p. 21), ou como free lancer, que se caracterizam como vias alternativas para “ganhar a vida”.
 
 A chegada dos professores de capoeira na Europa, geralmente, é marcada por muita frustração e dificuldade. O depoimento do Mestre Matias, mineiro, que se mudou para a Suíça em 1989 e, atualmente, desenvolve trabalhos em várias cidades daquele país, faz coro com muitas outras experiências de mestres e professores que se “jogaram” em busca de melhores horizontes.
Foi muito dura a chegada na Suíça, ralei muito, toquei berimbau na neve, nas estações de trem, entendeu, porque os capoeiristas que tinham lá não faziam roda de rua. Eu ia para a rua sozinho, às vezes tocava o meu berimbau, tentava saltar, às vezes fazia coisas malucas e também era um modo de me libertar. O berimbau era o meu companheiro. Era o modo de eu me livrar daquela angústia, daquela saudade, daquela vontade de estar no Brasil, no meio dos alunos, dos colegas. Aquele país frio, você chega e toma aquele choque, não conhece ninguém, porque a língua é outra. Então foi uma barra enorme que eu enfrentei, mas, graças a Deus, eu superei tudo isso e hoje eu não vou dizer que falo perfeito o alemão, porque eu moro na parte alemã, mas falo bem (Mestre Matias, comunicação pessoal, Madrid – Espanha, 29 de junho de 2003).
 Com as novas e severas leis adotadas pelo serviço imigratório dos países europeus, passar pela alfândega é uma vitória aclamada em conversas de bastidores de eventos. Geralmente, os professores imigrantes chegam nos aeroportos com vistos de turistas e muitos apetrechos de capoeira (berimbau, pandeiros, uniformes etc.) que, via de regra, causam desconfiança da polícia alfandegária.
 
Para aqueles que conseguem passar por essa primeira barreira, se deparam com outras dificuldades similares a do Mestre Umoi, cujo depoimento explicita uma atribulada realidade.
 
Então, foi assim. No início foi uma fase muito negativa que eu tive aqui em Portugal. Porque juntou tudo. O meu pai morrendo lá no Brasil, eu aqui desempregado, vivendo sem dinheiro e veio aquela fase que eu já te contei ontem – a do pãozinho com água. Que foi uma fase que hoje em dia eu conto isso com piada, com graça, porque, realmente, é uma escola, é um exercício de humildade. Mas, aqui em Portugal, eu comi pão com água! Não era água com açúcar porque não tinha açúcar. Era pão com água mesmo. Mas, assim… acreditando que essa bodega podia um dia dar certo (Mestre Umoi, comunicação pessoal, Lisboa – Portugal, 27 de junho de 2003).
 
O fato é que, a despeito de freqüentes desesperos e até deportações, muitos professores de capoeira vislumbram a possibilidade de conquistar, no exterior, o status e o reconhecimento que provavelmente jamais conseguiriam no Brasil. “Eu sou um pássaro”, “ninguém me segura”, “já me sinto lá”, eram frases prontas, freqüentemente proferidas por um dinâmico professor recifense, que, apesar de ter sido deportado pelo serviço alfandegário de Portugal, retornou, via Espanha, para as terras lusitanas, e vem levando a vida como uma grande aventura mesclada de flutuações e incertezas nebulosas, mas com muita arte e alegria contagiante.
 
O que me tirou do Brasil foi a violência, não foi a falta de dinheiro. A violência da política, a violência da televisão, a violência das drogas, a violência da rua. Foi isso que me afastou do meu país. Não foi pra buscar dinheiro aqui na Europa não, porque o dinheiro você ganha lá também. Tem pessoas superfelizes com capoeira no Brasil dando aula que não precisaram sair do Brasil para ir a lugar nenhum. Hoje eu estou aqui, ando para todos os lados, não tenho preocupação com nada. Se eu vou acordar amanhã bem ou mal. Mas é isso ai… O que me fez vir par Europa foi justamente isso. No Brasil, a gente anda muito inseguro, dentro do ônibus, dentro do cinema, dentro do shopping, numa praia. Aonde você vai, você tem insegurança. E aqui na Europa você tem total segurança e liberdade. É só isso. (Instrutor ET,  comunicação pessoal, Lisboa – Portugal, 25 de agosto de 2003). 
 
Na Europa, os capoeiras brasileiros “querem ser mais brasileiros do que são”. Assim afirmou uma capoeira italiana que fez intercâmbio no Brasil,  “apaixonou-se” pela arte e está, atualmente, fazendo uma tese no campo da Antropologia, sobre o “espírito” da Capoeira Angola. É bem verdade que no exterior, os professores brasileiros terminam essencializando o Brasil a partir da supervalorização de “fundamentos brasileiros” da capoeira, contribuindo, dessa forma, para promover, além das clássicas hierarquias já presentes no universo da capoeira (graduações), uma hierarquia entre os praticantes não brasileiros, baseada no domínio dos nossos símbolos. Em busca desses fundamentos, alguns são criticados por se arvorarem a falar sua língua nativa com sotaque abrasileirado. 
 
Para Vassallo (2003), essa naturalização da brasilidade da capoeira é discriminatória, e o aprender capoeira se transforma num ideal inatingível, já que os brasileiros conteriam os seus “fundamentos” no sangue. A capoeira não seria, portanto, uma construção social, mas uma substância naturalizada nos corpos e no sangue dos brasileiros.
 
É importante destacar que os professores de capoeira que saíram do Brasil para trabalhar na Europa encontram-se numa condição menos desconfortável em relação aos demais imigrantes, vez que não disputam com os “nativos” um posto de trabalho. Terminam gozando de reconhecido prestígio, à medida que são possuidores de uma habilidade, de uma especialidade “made in brazil”, que funciona como um selo de qualidade muito requisitado pelos jovens europeus, em geral. São portadores, portanto, de saberes “exóticos” e “culturais” que, de certa forma, desafiam os modos tradicionais de entrada no campo produtivo e terminam redefinindo o sentido do trabalho, atualmente caracterizado por turbulência, flexibilidade e instabilidade.
Alguns poucos conquistam certa segurança, a partir de contratos com instituições públicas e privadas sólidas. Um mestre que trabalha em Portugal relatou-nos, durante um evento na Noruega, que se sente muito valorizado como “professor de capoeira” de uma instituição pública. Na oportunidade em que ele demonstrava o seu orgulho, mostrando a carteira que lhe concedia essa habilitação, ele questionava: “Será que no Brasil eu teria condições de ter uma carteira dessas?” Ele mesmo responde: “Jamais!”. E complementa, ressentido: “no nosso país, a cada esquina, tem uma roda de capoeira, em cada esquina tem um mestre de capoeira, mas que, infelizmente, não têm valor. Morrem de fome, morrem na pobreza e são esquecidos”. (Mestre Ulisses, comunicação pessoal, Oslo, Noruega, 17 de Agosto de 2003).
 
Outro aspecto a destacar a partir das experiências dos capoeiras brasileiros na Europa diz respeito ao fato desta manifestação cultural aglutinar, por intermédio dos concorridos eventos, pessoas oriundas de diferentes camadas sociais em um mesmo espaço de convívio. Em geral, um mestre ou professor alterna trabalhos em espaços nobres com os chamados “trabalhos sociais”. Via-de-regra, nos finais de semana, ou nos eventos, os integrantes desses diferentes “espaços” encontram-se e se confraternizam em movimentadas rodas.
 
O mestre Barão transita, com suas aulas de capoeira, em universos aparentemente inconciliáveis da Cidade do Porto, no norte de Portugal.
Eu dou aula no bairro Lagarteiro, um bairro bem complicado. É um bairro social que o pessoal chama aquilo lá de inferno. Dou aula também para ciganos num outro bairro também complicado do Porto. Eu estou lá fazendo um trabalho social com eles. Saio desse bairro social e vou para um ginásio que treina só ricos, que é só empresários (Mestre Barão, Comunicação pessoal, 08 de junho de 2003).
 
Constatamos que o processo de mundialização do capital não elimina “símbolos tradicionais”, mas incide sob suas formas de tratamento e explicita a heterogeneidade e a diversidade cultural que caracterizam as sociedades complexas. 
O fato é que nesse movimento, a capoeira, com todas as implicações que uma manifestação cultural engendra, afirma-se como manifestação de expressiva densidade à medida que, mestres e professores “ensinam” os seus “fundamentos” para pessoas provenientes das mais diferentes origens e culturas e, com isso, vêm contribuindo para a quebra de tabus e estereótipos construídos no interior do seu próprio movimento histórico. Se a capoeira “é brasileira”, se “está no nosso sangue”, como ela pode ser ensinada a pessoas que não têm o sangue brasileiro nas veias? Travassos (1999, p. 266) questiona: “Como se poderia ensinar algo que está inscrito no sangue, nos corpos e nas mentes de uns e não de outros?”
 
Conclusões
 
Da análise desse intrincado e rico movimento de internacionalização da capoeira, é possível formular três considerações fundamentais: a) a capoeira adquiriu, nos últimos dez anos, grande densidade, visibilidade e poder simbólico, e se transformou em um dos principais cartões postais do Brasil no exterior; b) o significado que os sujeitos apreendem de suas práticas, emocionalmente compartilhadas, está vinculado com a intensidade das interações e com a plenitude da experiência. Nessas práticas intersecionam as dimensões ético-políticas, históricas, culturais e econômicas da vida em sociedade, e c) a capoeira insere-se no modelo cultural capitalista e está sujeita, portanto, a estratificação social própria de uma sociedade dividida em classes, expressando-se em possibilidades diversificadas de acordo com as classes sociais onde está inclusa.
 
 Pudemos verificar que, tal como outras práticas significativas, a capoeira é condicionada por valores e regras sociais que podem transformá-la em heroína ou vilã. Como construção social, que permanentemente se manifesta, e como manifestação cultural que permanentemente se constrói, ela é influenciada pelo tempo histórico em que se situa, mas também, edificada a partir dos interesses e das ações dos sujeitos que, através dela, atuam e disputam poder na sociedade.
 
Embora uma parcela significativa da capoeira a trate como símbolo étnico (capoeira é brasileira! capoeira é africana! capoeira é afro-brasileira!), esta análise nos leva a pensá-la como uma manifestação com status de patrimônio cultural da humanidade e, por esse motivo, um direito social inalienável de qualquer ser humano que se sinta atraído pelo seu “axé”. Nessa perspectiva ela não teria pátria, embora carregaria símbolos de sua inquestionável brasilidade.
As análises aqui efetuadas nos levam a depreender que os dilemas particulares engendrados numa determinada prática relacionam-se com os dilemas mais amplos presentes na sociedade. A principal luta do capoeira, nos dias de hoje não deve ser contra um determinado feitor, individualmente, como acontecia antigamente, nem tampouco, contra outros praticantes de capoeira; a luta da capoeira deve coletiva e emplacada contra todo e qualquer tipo de opressão, discriminação e pela construção de uma sociedade universal efetivamente justa, livre e democrática.
 
Referências
 
CARVALHO, L. C. Na roda com a mulher. Revista Praticando Capoeira. São Paulo, ano II, n. 17, 2002.
MACHADO PAIS, J. Ganchos, tachos e biscates: Jovens, trabalho e futuro. Âmbar: Porto, 2001.
NUNES, V. Capoeira made in NYC. Correio Braziliense. Brasília-DF, Caderno Coisas da Vida, p. 1 e 3, 13 mar. 2001.
SANTANA, J. Velhos mestres. Correio da Bahia. Salvador: Caderno Correio Repórter, p. 1-7, 15 abr. 2001.
TRAVASSOS, S. D. Negros de todas as cores: capoeira e mobilidade social. In: BACELAR, J. & CAROSO, C. (Orgs.). Brasil: um país de negros? Rio de Janeiro: Pallas; Salvador-BA: CEAO, p. 261-271, 1999.Mestre Falcão
VASSALLO, S. P. A transnacionalização da capoeira: etnicidade, tradição e poder para brasileiros e franceses em Paris. In: Anais da Quinta Reunião de Antropologia do Mercosul.  Florianópolis-SC, 30 de novembro a 03 de dezembro de 2003.
 
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JOSÉ LUIZ CIRQUEIRA FALCÃO
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