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Cartilha do Itamaraty alerta para tráfico de jogadores, modelos e até capoeiristas

Com base em relatos de consulados desde 2010 foram constatados casos de exploração também de modelos, músicos, dançarinos, cozinheiros e professores de capoeira

São Paulo – O governo federal, em ação da rede consular desenvolvida desde 2010, identificou uma vertente do crime de tráfico de pessoas, mais comumente conhecido pelo abuso sexual: a exploração do trabalho, fora do Brasil.

Foram relatados casos de jogadores de futebol, modelos, músicos, dançarinos, churrasqueiros, cozinheiros de restaurantes étnicos e professores de capoeira com agentes e empresários que os colocam em situação de irregularidade migratória, exploração, abusos, maus-tratos, acomodação precária e retenção de passaportes e pagamentos. Na maioria, brasileiros jovens, sem experiência profissional e de residência no exterior. A partir dessa constatação surgiu a proposta da cartilha “Orientações para o trabalho no exterior – modelos, jogadores de futebol e outros profissionais brasileiros”, que será lançada amanhã (29), no Palácio do Itamaraty, em Brasília. O documento foi elaborado pelas áreas consular e cultural do Itamaraty e tem parceria da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Ford Models. A proposta é fornecer informações e alertas sobre os riscos da irregularidade migratória. Em São Paulo, o lançamento será na SP Fashion Week, entre 11 e 16 de junho.

Armênia, China, Cingapura, Coreia do Sul, Filipinas, Grécia, Índia, Indonésia, irã, Malásia, Tailândia e Turquia são os países de onde vem a maioria dos relatos. Para jogadores de futebol, os convites para atuar no exterior costumam ser irresistíveis, mas o sucesso não chega para todos. Segundo Luiza Lopes da Silva, diretora do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior, da Divisão de Assistência Consular do Itamaraty, muitas vezes os garotos são levados a começar a trabalhar sem visto e com base em contratos injustos.

Para esses, a cartilha traz esclarecimentos e recomendações sobre transferência internacional, transferência sem contrato, viagem para testes, contratos, custeio de passagens, visto de trabalho e de negócios, clubes e agentes, retenção de passaportes, choque cultural, entidades locais de assistência e regulação, precauções antes de viajar e ao chegar ao exterior.

“Os meninos-alvo dos agentes mal intencionados são os mais jovens, que demonstram ter futuro. Eles se iludem com as promessas e acabam enfrentando enormes dificuldades, especialmente porque não dominam o idioma local nem o inglês e têm dificuldade de pedir ajuda. Aí ficam na mãos desses agentes, que extorquem, cobram dívidas, às vezes dão alojamentos que viram uma espécie de confinamento”, relata Luiza. Ela afirma que eles não ficam muito tempo nessa situação, mas que a experiência é traumática para a vida e não ajuda em nada a carreira.

A diretora se diz orgulhosa dessa iniciativa porque as informações foram chegando aos poucos e ao se materializarem na cartilha foi possível verificar que era a preocupação de muita gente, só ainda não havia sido verbalizada. Sobre as modelos, Luiza ressalta que elas não vão para passarelas, não vão fazer fotos de revistas nem terão a vida glamourosa com que sonham. “Elas são direcionadas para atividades paralelas, como vendas on line, catálogos para vendas. Muitas acham que estão sofrendo, mas que valerá a pena, mas são anos perdidos, é um atraso, um beco sem saída”, garante.

Segundo Luiza, o papel do governo é ajudar a conscientizar para que essas pessoas controlem a impetuosidade. “Otimismo é bom, mas não muito”, diz. Exemplo disso foi o que ocorreu com três garotas que viajaram para a Índia alimentando o sonho de ser modelos. Na semana passada, o juiz federal João Batista Gonçalves, da 6ª Vara Civil de São Paulo, deferiu pedido de liminar da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal, que em ação civil pública relatou que as agências de modelos Dom Agency Models, de Passos (MG), e Raquel Management, de São José do Rio Preto (SP), enviaram as garotas para o exterior, uma delas menor de idade, com contratos de trabalho que não foram cumpridos. As agências estão impedidas de enviar modelos para o exterior por decisão do juiz federal. As duas agências são acusadas de tráfico internacional de pessoas.

Segundo informação da cartilha, o exercício da profissão sem contrato registrado e sem visto de trabalho é comumente associado a regime de servidão por dívidas. “Os salários, normalmente estipulados por sessão de trabalho, passam a ser quase totalmente retidos pelo empregador, a título de reembolso da passagem áerea e de pagamento do alojamento, sendo-lhes entregues diárias irrisórias, por vezes insuficientes até mesmo para alimentação.”

Os casos entre churrasqueiros, cozinheiros, dançarinos, músicos e professores de capoeira têm uma configuração comum que também as qualifica como tráfico – mas poucos admitem a condição de vítimas desse tipo de crime. “O normal é: ‘fui enganado, peguei um agente de má-fé, prometeram uma coisa e fizeram outra'”, relata Luiza. Mas ela garante: “É tráfico sim, embora não tenha cara. Para nós não interessa se a pessoa se vê como vítima, o que importa é que está se formando uma rede para levar as pessoas para exploração”.

O documento destaca que naturalmente há casos de sucesso, como cozinheiros que acabaram abrindo o próprio negócio. “Para cada caso de sucesso, contudo, muitos outros são de dificuldade, privações e abusos.”

 

Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br

Professor de capoeira angrense é valorizado no exterior

ANGRA DOS REIS

O Professor de capoeira angrense, Robson Francesco Leite, o Arisco participou do XIV Jogos Europeus de Capoeira na cidade de Guimarães em Portugal, que foi realizado do dia 05 ao dia 09 de abril. Ele foi um dos organizadores do evento, que também teve a ilustre presença do Mestre Camisa, e participação de vários Países. Arisco está entre os nomes mais importantes do esporte no mundo. Em Angra do Reis ele é o precursor do Abada capoeira, entidade que divulga o esporte na cidade.

Arisco também participou a convite do Professor Furacão de um Seminário de Capoeira, Curso, Batizado e Troca de Cordas em Nova Iorque nos EUA, entre os dias 11e 15 de abril, onde este evento foi supervisionado pelo Mestre Nagô de Nova Iguaçu – RJ. O Professor Arisco aproveitou para visitar a famosa academia do Mestre João Grande que foi aluno de Mestre Pastinha.

Dos 17 a 22 de Abril, Arisco ministrou aulas de Capoeira, participou de apresentações públicas e do Batizado e Troca de Cordas do Instrutor Xodó na cidade da Vero Beach na Flórida – EUA.

O professor Arisco enfatizou que está muito satisfeito com esta viagem que duraram 24 dias, citou que foi muito importante para seu aprendizado e para sua historia como capoeirista. “Os Europeus e os Americanos gostam muito da capoeira e valorizam muita a nossa cultura. Através desse intercâmbio cultural pretendo realizar em Angra um evento internacional de capoeira para beneficiar nossa cidade, que nesse 24 dias de viajem pude perceber que a nossa cidade é bem quista no exterior, pude perceber com receptividade que tive”, declarou o Arisco.

 

Fonte: http://www.avozdacidade.com

 

TV Portal Capoeira: o novo canal da capoeira

Você faz o evento, no Brasil ou no exterior, e a gente vai lá registrar. Esse é o novo serviço que o Portal Capoeira oferece aos grupos, entidades e federações de capoeira. A partir de agora, você pauta o seu evento com pelo menos 30 dias de antecedência, para pautas no Brasil, e com 60 dias de antecedência, para pautas no exterior. E o Portal Capoeira desloca a sua reportagem da cidade de Brasília para qualquer parte do mundo para acompanhar ao vivo o seu Batismo, Troca de Cordas, Encontro ou Festival.

Essa é uma grande novidade em termos de cobertura jornalística, um serviço de reportagem especializado em capoeira. A TV Portal Capoeira já realizou coberturas experimentais nos festivais dos grupos Ibeca (Holanda e Alemanha), Alto Astral Capoeira (Portugal) e Aluá (Espanha). Veja como exemplo a reportagem sobre o grupo Aluá Capoeira no youtube (TVMano Lima).

A reportagem vai entrevistar o público, os promotores e os mestres e demais convidados de cada evento. Em seguida, as imagens são editadas e a matéria vai pro ar na página do Portal Capoeira e no youtube. A reportagem será supervisionada pelo jornalista Mano Lima, repórter de TV, colunista do Portal Capoeira, editor da revista Capoeira em Evidência e autor dos livros “Dicionário de Capoeira”, “Eu, você e a capoeira” e “A ginga dos mais vividos” e por Luciano Milani, editor do Portal Capoeira, professor e pesquisador.

Nessa parceria, o Portal oferece o serviço jornalístico gratuitamente. E o grupo que sugeriu a pauta arca com o transporte e estadia (alimentação e hospedagem) do repórter e, conforme a disponibilidade, do cinegrafista. A produção, será assinada pelo Portal Capoeira e editada em Português. Caso o grupo deseje e forneça um tradutor, será incluída uma legenda no idioma que o grupo indicar.

O vídeo editado poderá ser reproduzida e distribuído livremente, comercialmente ou não, pelo grupo. Com isso, os capoeiristas têm acesso a uma nova e eficiente mídia pra divulgar seus projetos e ações, com um investimento financeiro reduzidíssimo, uma vez que os custos de produção de vídeo são muitos altos, o que inviabiliza que os grupos menores tenham o seu próprio portfólio audiovisual.

 

Serviço:

Para agendar o seu evento e solicitar a presença da nossa reportagem, entre em contato com o jornalista Mano Lima, no email mano.lima@yahoo.com.br, ou nos telefones (61) 9190 4256 e 8101 0915 (Brasil), ou com Luciano Milani, editor do Portal Capoeira, no email mail@portalcapoeira.com, ou nos telefones + 351 938 304 080 e + 351 279 343 053 (Portugal)

Capoeira reforça intercâmbio cultural entre Brasil e Líbano

O Líbano recebeu, entre os dias 19 e 24 de abril, a visita do capoerista Mestre Nenel (Manoel Nascimento Machado), filho do legendário Mestre Bimba  (Manuel dos Reis Machado – 1900-1974), um dos mais célebres capoeristas brasileiros e considerado o pai da capoeira regional, que ele criou em 1928 – uma mistura de batuque com capoeira Angola.

 

Mestre Bimba recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia em 1996. Seu filho, Mestre  Nenel, criou a fundação “Filhos de Bimba”,  em 1986,  com o objetivo de guardar os ensinamentos do seu pai. Viaja sempre pelo Brasil e exterior para visitar as escolas que seguem a tradição de seu pai. No exterior, há escolas nos EUA, na Europa e no Líbano, a primeira do Oriente Médio.

 

Em 2009, o jovem Nassib El-Khoury, libanês, após ter estudado e praticado capoeira da tradição de Mestre Bimba, criou uma escola em Beirute, com a assitência dos capoeristas e professores brasileiros Roberta Cecilia Meireles Santana e Ricardo Santos de Jesus. A escola conta com aproximadamente 40 jovens, rapazes e moças, libaneses que praticam a capoeira. Além disso, a escola ensina a língua  portuguesa e a cultura brasileira, um dos princípios dos Filhos de Bimba é transmitir também a cultura no exterior.

 

Meste Nenel visitou o Líbano para avaliar os estudantes capoeristas libaneses, e esteve também no centro de estudos e culturas da América Latina, na Universidade Saint-Esprit de Kaslik (CECAL-USEK, diretor Roberto Khatlab), com o qual já vinha mantendo correspondência. A tradição de Mestre Bimba, conservada por seu filho, Mestre Nenel, transmite  não só uma técnica esportiva, mas tambem uma cultura e trabalho para o desenvolvimento da pessoa como um todo. Os Filhos de Bimba também têm como objetivo um trabalho junto aos estudantes, sendo que o princípio de Mestre Bimba, a capoeira, é a formacao do cidadão.

 

A escola dos Filhos de Bimba está em contato com a Universidade e vários estudantes já praticam a capoeira. A Escola também está em contato com o Grupo infantil de tradições brasileiras Alecrim, ligado ao Conselho de Cidadãos Brasileiros do Líbano, e que iniciará um programa com as criancas de Baalbeck, no Vale do Bekaa.

 

Fonte: www.fbeclebanon.com – http://www.icarabe.org/noticias/

Mestre Pinatti 80 Voltas ao Mundo

O internacionalmente conhecido Mestre Djamir Pinatti, um dos veteranos da capoeira paulistana, irá comemorar no próximo dia 13 de abril sua 80ª Volta do Mundo.
A roda-festa terá lugar no Terreiro de São Bento Pequeno. Sua roda de aniversário já se tornou tradição na cidade.
A cada ano que passa mestre Pinatti faz questão de jogar com um número maior de convidados. Neste ano, por completar 80 anos de vida, Pinatti irá realizar 80 jogos ininterruptos, sendo alguns na base da malandragem, outros na base do jogo mesmo.

Luciano Milani


Caro amigo Milani, quero lembra-lo que faço em 13/04, terça feira, a noite, com inicio as 19 horas, uma grande roda, para comemorar meus 80 anos, e quando jogarei com 80 convidados, como é já tradicional na minha Academia, sita a rua Vergueiro, 2684, metrô Ana Rosa. Gostaria que voce colocasse no seu famoso PORTAL. Por outro lado aproveito o ensejo para lhe desejar muita saude e muito sucesso nesse seu trabalho incessante pela nossa CAPOEIRA.!!! Pinatti

 

Pinatti, Capoeira Paulista… Sim Senhor!!!

Mestre Pinatti, que no próximo mes irá completar oitenta anos de “estrada” e cerca de meio século de Capoeira.

Pinatti, Nasceu em Orlândia, interior de Sâo Paulo, em 13 de abril de 1930.

Em meados de 1948 foi jogador de futebol semi-profissional jogando como meio campo em várias equipes da zona sul da capital de São Paulo, destacando-se o Estrêla da Saúde.

Entre os anos 50 e 60, foi fisiculturista (halterofilismo) no auge dessa modalidade. Nesta mesma época chegou a faixa prêta de Karatê, estilo Shotokan, integurando a primeira turma de Mestres formados da América Latina.

A partir de de 1962, motivado pela obra de Lamartine Pereira da Costa, em um livro sobre a prática da Capoeira, iniciou-se nessa arte. Fruto da nova paixão esportiva, cultural e marcial, foi um dos criadores da ACADEMIA DE CAPOEIRA REGIONAL DE ELITE DE SÃO PAULO.

Conta ainda em seu histórico o fato de ter fundado e presidido a FEDERAÇÃO PAULISTA DE CAPOEIRA nos anos 70, realizando e participando de diversos campeonatos estaduais e brasileiros. Citado em várias obras sobre capoeira, além de inúmeras revistas do gênero. Por ser um dos nomes mais respeitados da modalidade, é constantemente chamado para homenagens e participações em eventos da capoeira em todo o Brasil e exterior.

Em 1969 fundou a ASSOCIAÇÃO DE CAPOEIRA SÃO BENTO PEQUENO juntamente com Mestre Limão, evidenciando o estilo de jogo CAPOEIRA ANGOLINHA, eclético entre os estilos Regional e Angola.

Até hoje por sua sua academia, Mestre Pinatti já formou mais de 180 alunos, por sete gerações, que encontram-se espalhados pelo Brasil e exterior.

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Mestre Russo & O ZELADOR

No próximo dia 25 de setembro(quinta feira) as 19 horas será exibido no TEATRO RAUL CORTEZ (Praça do Pacificador-Centro de Duque de Caxias-RJ) o longa metragem O ZELADOR. Este documentário conta um pouco da trajetória de mestre Russo como uma das figuras mais importantes da tradicional roda de capoeira que já acontece desde 1973 no centro de Caxias.

Mestre Russo: "a valorização atual da capoeira está ligada ao fato de ela estar fazendo sucesso no exterior. “É como aconteceu com o samba, que ganhou força ao ir para fora. O reconhecimento lá fora faz o reconhecimento aqui dentro”, diz. Ele próprio foi destaque no jornal inglês The Times no último dia 5 de julho, por causa do filme O Zelador, produzido por ingleses, sobre ele e sua tradicional roda de rua em Duque de Caxias, RJ. “Lá fora ninguém me pede documento”, garante o mestre, que viaja no mínimo duas vezes por ano para o exterior, “fazendo turnezinhas”.

{youtube}feB6J_JBhsA{/youtube}
Pequeno depoimento sobre a capoeira como Patrimonio Imaterial

 

O ZELADOR ( Para ver o trailer do Filme, clique aqui )

O Zelador was filmed in an extremely under-privileged suburb of Rio de Janeiro (Baixada Fluminense). In 1971-1976 the United Nations made a study of trouble spots worldwide …their conclusion was that Belford Roxo in Baixada Fluminense was the most violent place on earth. Even today the homicide investigation rate is only 1.3%. Mestre Russo grew up in this environment. He is a 50 year-old Carioca (man from Rio) who has led a capoeira existence for close to 40 years. At the age of 11, fatherless and from a family of 9 brothers he gave himself to capoeira.

Russo used this capoeira culture as an instrument for education and survival. He met his wife Eliane and has 2 sons.

“…capoeira…it is his mission in life…” remarked his 11 year-old son.

Mestre Russo not only uses the capoeira culture as a didactic for himself, but has integrated this powerful culture into his family totally. Russo is a ‘zelador’ (caretaker) of culture.

The manifestation of this cultural devotion can be seen in a place called Caxias, where every Sunday for 33 years Mestre Russo has met with other capoeiristas to play, sing dance and fight in the street.

Mestre Russo has defended the integrity of this roda many times, enduring many forms of discrimination and has even been stabbed. The significance of the traditional Roda de Caxias is that it was juxtaposed directly against the political turmoil of the 70s and 80s in Brazil. The street capoeira environment was a form of cultural expression that was eyed with great suspicion by the right wing military hard liners who ran the country with a rod of steel. The Roda de Caxias survived this repression and is now one of, if not, THE most traditional street rodas in Brazil today.

Mestre Russo is an organic academic and poet. He strives to share his knowledge and love equally with his family and a group of young men from his region, who, like him, endure tremendous hardships and danger. These young men form the core of his group, or his extended family as he calls it. This part of his work started in 1996 and has given hope and joy to all associated with it.

This film O ZELADOR is a record of his life. How, as a youth, he discovered the value of his ancestral culture and recognized its power. He and his students continue with the development of capoeira and provide a link to a culture that has existed for many years within this impoverished region of Rio de Janeiro. The film is a social document of one man and his family living with the unique culture of Afro-Brazilian capoiera and charts its significance within the political and cultural history of Brazil. It is the story of a man who has gained the love and respect from students and contemporaries alike, who all owe so much to this remarkable person, teacher, father and a true master.

Genre Documentary

Running time Approx 84 minutes

Format DV Cam / Super 8

Language Brazilian Portuguese (English Subtitles)

Production Company Bantam Films

O Zelador is an independently funded production

Mestre Burguês – Aniversário & Roda

Em homenagem e comemoração ao seu aniversário, o Portal Capoeira, publica uma matéria especial sobre: Antonio de Menezes, o Mestre Burguês, que no próximo dia 06 de Setembro estará comemorando o seu aniverário com uma grande roda*. Nesta matéria ainda disponibilizamos uma entrevista realizada pela Revista Praticando Capoeira nº 33. Desejamos muitas felicidades, saúde e paz a toda família Muzenza.

Mestre e Presidente do Grupo Muzenza, há 32 anos lecionando no sul do Brasil. Técnico e Mestre de 18 campeões brasileiros, Campeão Brasileiro em 1987 (pela Confederação Brasileira de Pugilismo), editou 2 livros de capoeira “O Estudo da Capoeira – 1976” e “Cânticos de Capoeira – 1978” Gravou 20 CDs, 6 DVDs e ministrou cursos em mais de 30 países, realizador de vários eventos mundiais.

Mestre Burguês

Mestre Burguês

Antonio de Menezes, o Mestre Burguês, nasceu em 06/09/1955 em Laranjeiras/SE. Aos três meses de idade mudou-se com a família para o Rio de Janeiro.

Aos doze anos de idade, deu seus primeiros passos na capoeira com um amigo de colégio, Nelson, em Ramos. Os dois para não apanhar do China, um menino que gostava de bater em todo mundo, compraram o livro "Capoeira Sem Mestre" e começaram a treinar.

Com o passar do tempo, entrou em contato com as rodas de Mestre Mentirinha em Ramos, Bonsucesso e identificaou-se com o estilo de Mestre Paulão, fundador do grupo Muzenza.

Nessa época, Mestre Paulão estava iniciando as aulas com Mestre Sillas, no Clube do Bolinha, e Burguês decidiu matricular-se.

O apelido resultou do fato de após arrecadar garrafas e chumbo pelas ruas e vender ferro velho, pagar adiantado a mensalidade de 3 meses.

Mestre Burguês, dedicou-se bastante à capoeira e depois de alguns anos, Mestre Paulão, ocupado com suas atividades na marinha, transferiu o comando do grupo a Burguês, que é o presidente até hoje.

Em 1975, após lecionar em Madureira e Meyer (RJ), foi para Curitiba, transferindo a matriz da Muzenza para o Paraná iniciando um trabalho voltado para as raízes da capoeira, implantando essa modalidade em clubes, escolas, comunidades carentes, univesidades e quartéis.

Ao longo de sua carreira realizou vários congressos, encontros nacionais, fundou a Federação Paranaense de Capoeira, a confederação


Entrevista: Revista Praticando Capoeira nº 33

Ha mais de 30 anos difundindo a capoeira no Brasil e no mundo desde que assumiu o comando do Grupo Muzenza, em 1975, transferindo a matriz para o Paraná, Mestre Burguês vem trabalhando incansavelmente pelo desenvolvimento da capoeira. Implantou trabalhos em clubes, academias, escolas, comunidades carentes, universidades e quartéis;fundou a Federação Paranaense de Capoeira e a Super Liga Brasileira; publicou vários livros; realizou inúmeros eventos, entre eles campeonatos mundiais, encontros e festivals; lançou dezenove CDs e dois DVDs.

Numa entrevista exclusiva para a revista Praticando Capoeira Mestre Burguês fala sobre o trabalho do Grupo Muzenza no Brasil e em outros paises, a expansão da capoeira no exterior, os maiores problemas que a capoeira e o capoeirista enfrentam atualmente, alem de dar dicas de como ser um capoeirista bem sucedido.

Entrevista

Praticando Capoeira: Como está, atualmente, o trabalho do Grupo Muzenza no Brasil e no exterior?

Mestre Burguês: O trabalho no Grupo Muzenza tem crescido especialmente nas escolas e comunidades carentes. Estamos procurando desenvolver cada vez mais o trabalho de alto rendimento. Também estamos trabalhando na divulgação e preservação dos verdadeiros mestres. No exterior, o trabalho tem crescido cada vez mais. Procuramos implantar a capoeira nas escolas de Portugal, Espanha e Israel. Tambem temos divulgado nosso trabalho com menores infratores e drogados, procurando sociabilizá-los através da capoeira. Já temos alcangado bons resultados!

Praticando Capoeira: Qual a tendência que a capoeira tende a seguir fora do Brasil?

Mestre Burguês: Me preocupa muito como a capoeira esta sendo vendida fora do Brasil, já que ela não para de crescer em todos os continentes. Muitos professores despreparados, que não estao transmitindo todas as vertentes que a capoeira oferece nem os seus fundamentos e tradições.

Praticando Capoeira: E dentro do Brasil?

Mestre Burguês A capoeira no Brasil está passando por uma série de crises, entre elas a falta de alunos. A tendência é o capoeirista voltar ao passado tendo que trabalhar em outra profissao e lecionar capoeira a noite ou nos finais de semana.

Praticando Capoeira: Como a capoeira é vista, hoje, fora do Brasil (tanto a Capoeira Regional como a Capoeira Angola)?

Mestre Burguês A Capoeira Regional tem sido vista como uma grande obra realizada pelo Mestre Bimba mas pouco transmitida como ela foi ensinada. A Capoeira Angola é bem vista apesar de ter poucos mestres divulgando a arte.

Praticando Capoeira: Os conflitos que acontecem entre os grupos no Brasil tambem existem no exterior?

Mestre Burguês Nao, pois a mentalidade dos capoeiristas no exterior e totalmente outra. Lá vemos professores ajudando colegas de outros grupos, que no Brasil são inimigos. Vejo que podera haver uma mudança de fora pra dentro do Brasil.

Praticando Capoeira: Quais os maiores problemas que a capoeira e o capoeirista enfrentam atualmente?

Mestre Burguês Um dos grandes problemas da capoeira é a falta de reconhecimento do governo com a nossa arte, já que ela é uma das grandes divulgadoras da nossa cultura. O capoeirista tem sofrido por nao ter sua profissão regulamentada.

Praticando Capoeira: Como resolvê-los?

Mestre Burguês Acredito que para tentar resolver essas questões precisaremos de muita união e amor pela capoeira.

Praticando Capoeira: Quais as dicas que voce daria para aqueles que querem se desenvolver na capoeira (em todos os sentidos): performance de jogo, financeiramente, reconhecimento na comunidade, etc?

Mestre Burguês Para você ter uma grande performance de jogo é necessário ter muita dedicação, procurar estar sempre atento em pesquisar e fazer cursos com os verdadeiros mestres tradicionais. Aqueles que querem crescer financeiramente na profissão, além de trabalhar muito, devem guardar tudo aquilo que ganham e investir bem para sempre ser um mestre bem sucedido financeiramente. 0 reconhecimento pela comunidade é só com o tempo e com o trabalho que apresentar.

Praticando Capoeira: Para você, o que e ser capoeirista?

Mestre Burguês Ser capoeirista é respeitar a arte, fazê-la com amor e a transmitir com honestidade, lealdade, educação e humildade. Ser capoeirista e ter caráter.

Praticando Capoeira: Fale um pouco sobre o novo CD que esta lançando.

Mestre Burguês Esse é o nosso 19° CD. Procuramos, como sempre, dar oportunidade as novas revelações do nosso grupo. São vinte cantigas no ritmo de Sao Bento Grande da Regional. O lançamento oficial aconteceu nos dias 26 e 27 de novembro, no Rio de Janeiro, no Encontro Brasil Intemacional Capoeira Muzenza.

Praticando Capoeira: Quais sao seus pianos para o futuro?

Mestre Burguês O langamento do terceiro DVD Muzenza, quatro livros que estão em fase final, o 20° CD e o 4° Mundial Muzenza no Rio de Janeiro.

 

Mestre Burguês* Mestre Burguês convida você para a Roda de capoeira do seu aniversário, neste próximo sábado, 6 de setembro de 2008, às 15:00 horas, no Colégio Militar do Rio de Janeiro, na Rua São Francisco Xavier, 267, Tijuca/RJ (Próximo ao Maracanã – Estádio de Futebol).
MAIORES INFORMAÇÕES:
55 (21) 9190.3234 / 9824.0348 / 9226.2196
Envia a todos AQUELE AXÉ !!!

Fonte: http://www.mestreburgues.com.br

A CAPOEIRA É DO BRASIL? A CAPOEIRA NO CONTEXTO DA GLOBALIZAÇÃO

Introdução
 
Este artigo analisa o processo de globalização da capoeira no contexto da reestruturação produtiva do capitalismo. O campo empírico das investigações concentrou-se em experiências com capoeira em seis países da Europa (Portugal, Itália, Espanha, Inglaterra, Polônia e Noruega). A investigação se materializou a partir de um estágio de doutoramento, realizado entre 05 de abril e 31 de agosto de 2003, no Instituto de Ciências Sociais (ICS), da Universidade de Lisboa.
Ao longo dos últimos anos, a capoeira vem se inserindo vertiginosamente nos mais diferentes espaços institucionais das médias e grandes cidades do Brasil e em vários países do exterior, consolidando um avanço histórico controvertido. Se, por um lado, à época da escravidão, era associada às lutas de negros escravizados em busca da liberdade, por outro, atualmente, ela tem sido vinculada majoritariamente à lógica do mercado.
 
O desenvolvimento da capoeira apresenta contradições importantes que se expressam pela visível expansão e deslocamentos que ela vem operando no contexto nacional e internacional. Nos últimos anos, constatamos a saída de expressivo número de capoeiras para o exterior em busca de melhores condições de sobrevivência que, além de contribuírem, efetivamente, com o seu processo de expansão no mundo, influenciam também na inversão dos fluxos migratórios. No exterior propagam apaixonantes discursos que realçam a capoeira à condição de prática “exótica”, “tropical”, “brasileiríssima”.
 
Objetivo
 
O principal objetivo desse artigo é analisar o processo de internacionalização da capoeira a partir de experiências sistematizadas em seis países da Europa.
 
Metodologia
 
Foi adotada uma combinação de observações participantes com entrevistas semi-estruturadas, através das quais procuramos interagir e compartilhar com o cotidiano dos sujeitos, observando e registrando suas ações. Foram observadas aulas práticas e teóricas, intercâmbios, comemorações, exibições e confraternizações. Foram entrevistados os líderes de grupos que já desenvolvem trabalhos sistematizados no exterior há mais de três anos. 
Ciente da complexidade do processo de análise de dados qualitativos, convém destacar que procedemos a análise e a interpretação dos dados numa perspectiva não-linear, atentando para os critérios relativos à credibilidade, transferibilidade, consistência e confirmabilidade, durante toda a investigação, através de teorizações progressivas em um processo interativo com a coleta de dados.
 
A Internacionalização da Capoeira: De Símbolo de Brasilidade a Patrimônio Cultural da Humanidade
 
Quando muitos capoeiras brasileiros começaram a sair do país, a partir do início da década de 1970, para trabalhar em grupos folclóricos no exterior, em busca de apoio e reconhecimento, não tinham idéia da magnitude que esse fenômeno viria a ter três décadas mais tarde. No início, tudo era muito difícil e a rua era, freqüentemente, o único espaço que eles encontravam para expressar sua arte ou para manter contatos com outros artistas do cotidiano, como palhaços e malabaristas das mais diversas origens.
 
O principal motivo da saída do Brasil de uma avalanche de mestres, professores e iniciados em capoeira para o exterior é determinado por fatores econômicos e está relacionado com a busca de melhores opções de trabalho, reconhecimento e prestígio. Se, no Brasil, a mensalidade para se fazer aulas de capoeira três vezes por semana oscila em torno de R$ 30,00 (trinta reais, o equivalente a US$ 10 – dez dólares), nas principais cidades americanas e européias este valor corresponde a apenas uma hora de atividade. Para fazer uma aula de capoeira na Academia Alvin Alley Ballet, em Nova York, com a Mestra brasileira Edna Lima, o interessado tem que pagar US$ 20 (vinte dólares) (SANTANA, 2001, p. 7).
 
Esse movimento de expansão traz conseqüências inusitadas para a capoeira e é visto, por muitos, como algo sedutor, embora venha causando inquietações por parte de alguns preocupados com a “manutenção” das suas tradições. Se, por um lado, muitos alegam que isso vem contribuindo para um certo distanciamento dos princípios e valores que delegaram à capoeira um emblema de “luta de resistência” contra a exploração, por outro, muitos consideram que esse processo está contribuindo para a valorização das referências culturais africanas e para despertar um interesse maior pelo Brasil e pela cultura brasileira.
Muitos analistas apregoam que, nos EUA, a capoeira tem contribuído, também, para revitalizar o elo entre os negros americanos e a África, cuja relação foi abalada pelo processo violento de segregação desencadeado em séculos passados. Na busca desse “elo perdido”, muitos americanos vêm para o Brasil com o objetivo de “beber na fonte” e procuram conhecer os mestres mais representativos desta arte-luta.
 
Convém destacar que o grande interesse dos estrangeiros pela capoeira se desdobra imediatamente em dois desejos, conhecer o Brasil e falar o português. Muitos mestres e professores que ministram aulas no exterior, em busca de um apelo ao mais “tradicional”, fazem questão de se expressarem no idioma português. Falar português nas aulas de capoeira é um requisito que opera como uma espécie de “selo de qualidade” e vem contribuindo para abrir campos de trabalhos antes impensáveis. O Hunter College, uma das mais tradicionais faculdades de Nova York, já oferece cursos regulares de português, em decorrência da demanda provocada pela capoeira (Nunes, 2001, p. 3).
 
O movimento de difusão da capoeira no contexto mundial é mais visível e intenso em direção aos Estados Unidos e à Europa. Com raras exceções, comprometidas politicamente em desenvolver trabalhos de “retorno” dessa arte-luta à África, a maioria das iniciativas se destina aos países centrais do capitalismo.
 
Essa exportação não convencional (na forma de um símbolo étnico), que se expressa pelo movimento de saída de capoeiras do Brasil para trabalharem em outros países, assume dimensões complexas e controvertidas.
 
Neste movimento complexo, a capoeira vem se inserindo de forma cada vez mais abrangente em vários setores da comunidade internacional. Como conseqüência, algumas “bandeiras” cultivadas e defendidas por seus precursores, como a oralidade, o improviso, a “mandinga”, a resistência cultural, são subestimadas, para darem lugar a outras categorias mais “sintonizadas” com o momento atual, tais como: “mercadoria étnica”, “folia de espírito”, “malhação” e “espetacularização” etc. (VASSALLO, 2003).
 
O abandono de determinados rituais considerados “tradicionais” é outro aspecto que intriga experimentados capoeiras incomodados com os lampejos de modernidade que, freqüentemente, desconstroem procedimentos rudimentares, mas que, para muitos, exercem um poder simbólico muito eficiente nesse contexto.
 
Estamos presenciando a construção de uma diáspora brasileira, e a capoeira insere-se, indubitavelmente, como um dos carros chefes desse processo. O fato é que ela vem se expandindo em escala geométrica por todo o globo, e o incremento desse movimento de internacionalização tem ocorrido em comunhão com outros símbolos da cultura brasileira, como o carnaval, o samba, o pagode etc. É possível afirmar que essa diáspora brasileira se constrói sob os ditames da “globalização econômica” que produz uma brasilidade idealizada, construída por cima e ao largo das gritantes diferenças culturais e econômicas que moldam a realidade concreta do povo brasileiro.
 
Acompanhando e Analisando Experiências Significativas de Capoeira pela Europa
 
Por ocasião das nossas investigações, visitamos importantes instituições de ensino e pesquisa, em especial, faculdades de Educação Física em diferentes países. Em algumas delas, existem trabalhos sistematizados de capoeira que funcionam como projetos de extensão ou como atividades extracurriculares, em que professores brasileiros são contratados por tempo determinado para ministrarem atividades aos que se interessarem. Geralmente, os discípulos pagam taxas que oscilam entre vinte e cinqüenta euros por mês (que corresponde entre sessenta e cento e cinqüenta reais) e, é do montante dessas taxas que provém o pagamento do professor de capoeira, como é o caso dos projetos do Estádio Universitário da Universidade de Lisboa, da Universidade de Varsóvia e da Universidade de Oslo.
 
O primeiro trabalho de ensino sistematizado de capoeira na Europa foi empreendido pelo reconhecido Mestre Nestor Capoeira . Embora alguns capoeiras brasileiros tenham realizado espetáculos pela Europa desde 1951, foi Nestor Capoeira quem iniciou o processo de ensino sistematizado desta manifestação na Europa, na London School of Contemporary Dance, Inglaterra.
 
A partir do Mestre Nestor Capoeira, milhares de workshops e oficinas pipocaram por toda a Europa. Em entrevista, o referido Mestre declarou que, embora tenha sabido da passagem de Mestre Artur Emídio pela Europa, para participar de shows e ministrar oficinas, foi ele que, em 1971, começou a ministrar aulas sistemáticas de capoeira no Velho Continente.
 
Ao longo dos últimos trinta anos, o movimento da capoeira na Europa intensificou-se significativamente, fazendo com que ela adquirisse expressiva densidade, mas no começo, tudo era muito difícil pela falta de informação sobre o que realmente significava esse misto de dança-luta-jogo.
 
O depoimento do Mestre Barão, que desenvolve um conhecido trabalho de capoeira em Porto, ao norte de Portugal, serve para ilustrar esse complexo e conflituoso movimento:
Eu nasci perto de Aracaju (capital do estado de Sergipe-Brasil), em Itaporanga da Juda, lá no meio do mato, numa família humilde, mas honesta também. Depois fomos para Santos-SP, morar lá no Nova Sintra, no morro. A gente morava numa casinha humilde, morava num quarto onde todo mundo dormia junto. Depois eu ia estudar, depois das aulas eu ia vender doce no ponto final dos ônibus, em Santos. Vender bananinha para ajudar minha família, né. Depois eu parei de vender doce e fui trabalhar com um português, carregando lavagem nas costas de domingo a domingo. Depois fui trabalhar na oficina, aprender a função de mecânico. Aí, estudei. Depois fiz um concurso, entrei nas docas. Aí, ganhei uma passagem e vim cair aqui em Portugal. Cheguei aqui em 1994. Tenho nove anos aqui. E faço também um trabalho social porque eu gosto de ajudar as crianças mais carentes porque é importante você fazer uma criança sorrir, não só no Natal, mas também no ano todo (…) (Mestre Barão, comunicação pessoal, 08 de junho de 2003).
 
Mestre FalcãoMestre Umoi, que há treze anos reside em Portugal, destacou que, no início, teve que dar aula na rua para convencer as crianças a fazerem capoeira. Dizia que iria ensiná-las a “dar pernadas”. Segundo ele, precisou utilizar dessa possibilidade para levar os “miúdos” a se interessarem pelas “pernadas do Brasil”.
Quando eu cheguei aqui, em agosto de 1990, pelo menos na região da Grande Lisboa, onde eu me instalei, não tinha capoeira. Ninguém tinha conhecimento do que era capoeira e, claro, eu vim pra cá na tentativa mesmo de ensinar a capoeira. Comecei a procurar as academias aqui e a primeira reação dos donos das academias geralmente era que não queriam nada com galinheiros aqui em Portugal, porque capoeira aqui em Portugal significa galinheiro. Então isso dificultou muito o início do trabalho aqui (Mestre Umoi, comunicação pessoal, 27 de junho de 2003).
 
 Os trabalhos dedicados e ininterruptos de muitos mestres e professores deram continuidade à iniciativa implementada por Nestor Capoeira e contribuíram para que essa manifestação adquirisse grande densidade, diversidade, visibilidade e prestígio social.
 
Na Europa, essa densidade expressa-se pelo rico acervo cultural embutido nos seus gestos, cantos e história, que extrapolam as referências de sua baianidade e edificam uma brasilidade, embora idealizada, à medida que não leva em consideração as evidentes diferenças culturais (e econômicas) presentes neste país de dimensões continentais. Essa “desbaianização” e “brasilização” concomitante da capoeira é resultado dessa mobilidade visível que se expressa pela saída de capoeiras das mais diferentes cidades brasileiras, em direção ao Velho Mundo e à América do Norte. Esse movimento contribui para ampliar as referências culturais dessa manifestação e ornamentar esse carimbo de brasilidade. Um professor norueguês nos afirmou que: “hoje em dia, as pessoas já conhecem bem o que é a capoeira e querem a capoeira (…) Quem procura a capoeira já tem uma idéia que é uma coisa brasileira e querem isso!” (Professor Torcha, comunicação pessoal, Oslo, Noruega, 18 de agosto de 2003).
 
O fato é que a capoeira, com esse “carimbo” de Brasil, embutido em suas cantigas, comportamentos, ramificou-se e expandiu-se significativamente e tem servido, atualmente, como veículo de agregação de povos de vários cantos do mundo, adquirindo, assim, uma identidade supra-nacional. O Mestre Umoi, já citado, nos afirmou:
A capoeira está quebrando a barreira do oceano que divide o Brasil, a África, a Europa, a América do Norte. A capoeira é do capoeirista. E a gente já tem muitos bons capoeiristas aqui na Europa. Você vê muito angoleiro alemão jogando uma Angola tão boa e até melhor do que muito capoeirista que nunca saiu de Salvador, que nunca saiu do Brasil. Aí você fala. Ah!  é porque é alemão? Não, é porque é capoeirista (Mestre Umoi, comunicação pessoal, Amsterdã, 18 de agosto de 2003).
O que movimenta milhares de europeus nas rodas de capoeira, em suas mais diversas formas, são os sistemas de representações significativas, construídos e usufruídos coletivamente em relação ao que se convencionou chamar de “fundamento” da capoeira. O alimento para esses sistemas de representações pode ser encontrado nos uniformes, nas estampas das camisetas, nos sítios da internet, nas cantigas ecoadas nas rodas etc.
 
Ao fazer análise das experiências dos capoeiras em Paris, Vassallo (2003) afirma que esse fundamento está articulado com o que consideram ser a cultura brasileira. Essa articulação incluiria “o domínio da língua portuguesa, bem como as danças, o ritmo e, sobretudo, a visão de mundo característicos daqui” (VASSALLO, op. cit., p. 8 e 9).
Sem considerar que muitos professores mudam de país com certa freqüência, contabilizamos, no primeiro semestre de 2003, a presença de 35 (trinta e cinco) professores, entre mestres, contramestres e instrutores de capoeira, em atividade sistemática, somente em Portugal. 
 
A maioria dos mestres e professores de capoeira que atua na Europa é proveniente do Nordeste Brasileiro, em especial, das cidades de Recife e Salvador, mas existem professores de praticamente todos os estados brasileiros trabalhando com esta manifestação no Velho Continente.
 
Desde o início da década de 1970, Paris vem recebendo muitos capoeiras de diversos grupos brasileiros. A professora Úrsula, há mais de dez anos radicada na França, argumenta que, quando lá chegou, poucas pessoas conheciam a capoeira. Atualmente, apesar de muitos “caloteiros” que chegam lá dizendo que são mestres, sem nunca terem passado por uma academia, a capoeira já é bastante difundida e, freqüentemente, “as mulheres são maioria nas aulas” (CARVALHO, 2002, p. 17).
É fato inconteste também, que os capoeiras, na Europa, caminham para uma espécie de “profissionalização” moldada por trabalhos freqüentemente desregulamentados, instáveis, dispersos e ocasionais. Essa condição laboral precária, freqüentemente clandestina, em que se inserem os brasileiros responsáveis pela disseminação da capoeira no exterior,  diferencia-se, frontalmente, das carreiras previsíveis, de rotinas estáveis que, até pouco tempo, caracterizavam os postos convencionais de trabalho.
 
A luta pela sobrevivência e o desejo de reconhecimento a partir de novas experiências são os principais motivos que levam tantos professores de capoeira a deixar o Brasil e a se “jogar” em promessas incertas de “vida boa” no exterior. Entretanto, o que eles freqüentemente encontram são opções de trabalhos dispersos, desregularizados, fluídos e “invisíveis”, tal como os fiddly jobs (expressão de MACDONALD apud MACHADO PAIS, 2001, p. 21), ou como free lancer, que se caracterizam como vias alternativas para “ganhar a vida”.
 
 A chegada dos professores de capoeira na Europa, geralmente, é marcada por muita frustração e dificuldade. O depoimento do Mestre Matias, mineiro, que se mudou para a Suíça em 1989 e, atualmente, desenvolve trabalhos em várias cidades daquele país, faz coro com muitas outras experiências de mestres e professores que se “jogaram” em busca de melhores horizontes.
Foi muito dura a chegada na Suíça, ralei muito, toquei berimbau na neve, nas estações de trem, entendeu, porque os capoeiristas que tinham lá não faziam roda de rua. Eu ia para a rua sozinho, às vezes tocava o meu berimbau, tentava saltar, às vezes fazia coisas malucas e também era um modo de me libertar. O berimbau era o meu companheiro. Era o modo de eu me livrar daquela angústia, daquela saudade, daquela vontade de estar no Brasil, no meio dos alunos, dos colegas. Aquele país frio, você chega e toma aquele choque, não conhece ninguém, porque a língua é outra. Então foi uma barra enorme que eu enfrentei, mas, graças a Deus, eu superei tudo isso e hoje eu não vou dizer que falo perfeito o alemão, porque eu moro na parte alemã, mas falo bem (Mestre Matias, comunicação pessoal, Madrid – Espanha, 29 de junho de 2003).
 Com as novas e severas leis adotadas pelo serviço imigratório dos países europeus, passar pela alfândega é uma vitória aclamada em conversas de bastidores de eventos. Geralmente, os professores imigrantes chegam nos aeroportos com vistos de turistas e muitos apetrechos de capoeira (berimbau, pandeiros, uniformes etc.) que, via de regra, causam desconfiança da polícia alfandegária.
 
Para aqueles que conseguem passar por essa primeira barreira, se deparam com outras dificuldades similares a do Mestre Umoi, cujo depoimento explicita uma atribulada realidade.
 
Então, foi assim. No início foi uma fase muito negativa que eu tive aqui em Portugal. Porque juntou tudo. O meu pai morrendo lá no Brasil, eu aqui desempregado, vivendo sem dinheiro e veio aquela fase que eu já te contei ontem – a do pãozinho com água. Que foi uma fase que hoje em dia eu conto isso com piada, com graça, porque, realmente, é uma escola, é um exercício de humildade. Mas, aqui em Portugal, eu comi pão com água! Não era água com açúcar porque não tinha açúcar. Era pão com água mesmo. Mas, assim… acreditando que essa bodega podia um dia dar certo (Mestre Umoi, comunicação pessoal, Lisboa – Portugal, 27 de junho de 2003).
 
O fato é que, a despeito de freqüentes desesperos e até deportações, muitos professores de capoeira vislumbram a possibilidade de conquistar, no exterior, o status e o reconhecimento que provavelmente jamais conseguiriam no Brasil. “Eu sou um pássaro”, “ninguém me segura”, “já me sinto lá”, eram frases prontas, freqüentemente proferidas por um dinâmico professor recifense, que, apesar de ter sido deportado pelo serviço alfandegário de Portugal, retornou, via Espanha, para as terras lusitanas, e vem levando a vida como uma grande aventura mesclada de flutuações e incertezas nebulosas, mas com muita arte e alegria contagiante.
 
O que me tirou do Brasil foi a violência, não foi a falta de dinheiro. A violência da política, a violência da televisão, a violência das drogas, a violência da rua. Foi isso que me afastou do meu país. Não foi pra buscar dinheiro aqui na Europa não, porque o dinheiro você ganha lá também. Tem pessoas superfelizes com capoeira no Brasil dando aula que não precisaram sair do Brasil para ir a lugar nenhum. Hoje eu estou aqui, ando para todos os lados, não tenho preocupação com nada. Se eu vou acordar amanhã bem ou mal. Mas é isso ai… O que me fez vir par Europa foi justamente isso. No Brasil, a gente anda muito inseguro, dentro do ônibus, dentro do cinema, dentro do shopping, numa praia. Aonde você vai, você tem insegurança. E aqui na Europa você tem total segurança e liberdade. É só isso. (Instrutor ET,  comunicação pessoal, Lisboa – Portugal, 25 de agosto de 2003). 
 
Na Europa, os capoeiras brasileiros “querem ser mais brasileiros do que são”. Assim afirmou uma capoeira italiana que fez intercâmbio no Brasil,  “apaixonou-se” pela arte e está, atualmente, fazendo uma tese no campo da Antropologia, sobre o “espírito” da Capoeira Angola. É bem verdade que no exterior, os professores brasileiros terminam essencializando o Brasil a partir da supervalorização de “fundamentos brasileiros” da capoeira, contribuindo, dessa forma, para promover, além das clássicas hierarquias já presentes no universo da capoeira (graduações), uma hierarquia entre os praticantes não brasileiros, baseada no domínio dos nossos símbolos. Em busca desses fundamentos, alguns são criticados por se arvorarem a falar sua língua nativa com sotaque abrasileirado. 
 
Para Vassallo (2003), essa naturalização da brasilidade da capoeira é discriminatória, e o aprender capoeira se transforma num ideal inatingível, já que os brasileiros conteriam os seus “fundamentos” no sangue. A capoeira não seria, portanto, uma construção social, mas uma substância naturalizada nos corpos e no sangue dos brasileiros.
 
É importante destacar que os professores de capoeira que saíram do Brasil para trabalhar na Europa encontram-se numa condição menos desconfortável em relação aos demais imigrantes, vez que não disputam com os “nativos” um posto de trabalho. Terminam gozando de reconhecido prestígio, à medida que são possuidores de uma habilidade, de uma especialidade “made in brazil”, que funciona como um selo de qualidade muito requisitado pelos jovens europeus, em geral. São portadores, portanto, de saberes “exóticos” e “culturais” que, de certa forma, desafiam os modos tradicionais de entrada no campo produtivo e terminam redefinindo o sentido do trabalho, atualmente caracterizado por turbulência, flexibilidade e instabilidade.
Alguns poucos conquistam certa segurança, a partir de contratos com instituições públicas e privadas sólidas. Um mestre que trabalha em Portugal relatou-nos, durante um evento na Noruega, que se sente muito valorizado como “professor de capoeira” de uma instituição pública. Na oportunidade em que ele demonstrava o seu orgulho, mostrando a carteira que lhe concedia essa habilitação, ele questionava: “Será que no Brasil eu teria condições de ter uma carteira dessas?” Ele mesmo responde: “Jamais!”. E complementa, ressentido: “no nosso país, a cada esquina, tem uma roda de capoeira, em cada esquina tem um mestre de capoeira, mas que, infelizmente, não têm valor. Morrem de fome, morrem na pobreza e são esquecidos”. (Mestre Ulisses, comunicação pessoal, Oslo, Noruega, 17 de Agosto de 2003).
 
Outro aspecto a destacar a partir das experiências dos capoeiras brasileiros na Europa diz respeito ao fato desta manifestação cultural aglutinar, por intermédio dos concorridos eventos, pessoas oriundas de diferentes camadas sociais em um mesmo espaço de convívio. Em geral, um mestre ou professor alterna trabalhos em espaços nobres com os chamados “trabalhos sociais”. Via-de-regra, nos finais de semana, ou nos eventos, os integrantes desses diferentes “espaços” encontram-se e se confraternizam em movimentadas rodas.
 
O mestre Barão transita, com suas aulas de capoeira, em universos aparentemente inconciliáveis da Cidade do Porto, no norte de Portugal.
Eu dou aula no bairro Lagarteiro, um bairro bem complicado. É um bairro social que o pessoal chama aquilo lá de inferno. Dou aula também para ciganos num outro bairro também complicado do Porto. Eu estou lá fazendo um trabalho social com eles. Saio desse bairro social e vou para um ginásio que treina só ricos, que é só empresários (Mestre Barão, Comunicação pessoal, 08 de junho de 2003).
 
Constatamos que o processo de mundialização do capital não elimina “símbolos tradicionais”, mas incide sob suas formas de tratamento e explicita a heterogeneidade e a diversidade cultural que caracterizam as sociedades complexas. 
O fato é que nesse movimento, a capoeira, com todas as implicações que uma manifestação cultural engendra, afirma-se como manifestação de expressiva densidade à medida que, mestres e professores “ensinam” os seus “fundamentos” para pessoas provenientes das mais diferentes origens e culturas e, com isso, vêm contribuindo para a quebra de tabus e estereótipos construídos no interior do seu próprio movimento histórico. Se a capoeira “é brasileira”, se “está no nosso sangue”, como ela pode ser ensinada a pessoas que não têm o sangue brasileiro nas veias? Travassos (1999, p. 266) questiona: “Como se poderia ensinar algo que está inscrito no sangue, nos corpos e nas mentes de uns e não de outros?”
 
Conclusões
 
Da análise desse intrincado e rico movimento de internacionalização da capoeira, é possível formular três considerações fundamentais: a) a capoeira adquiriu, nos últimos dez anos, grande densidade, visibilidade e poder simbólico, e se transformou em um dos principais cartões postais do Brasil no exterior; b) o significado que os sujeitos apreendem de suas práticas, emocionalmente compartilhadas, está vinculado com a intensidade das interações e com a plenitude da experiência. Nessas práticas intersecionam as dimensões ético-políticas, históricas, culturais e econômicas da vida em sociedade, e c) a capoeira insere-se no modelo cultural capitalista e está sujeita, portanto, a estratificação social própria de uma sociedade dividida em classes, expressando-se em possibilidades diversificadas de acordo com as classes sociais onde está inclusa.
 
 Pudemos verificar que, tal como outras práticas significativas, a capoeira é condicionada por valores e regras sociais que podem transformá-la em heroína ou vilã. Como construção social, que permanentemente se manifesta, e como manifestação cultural que permanentemente se constrói, ela é influenciada pelo tempo histórico em que se situa, mas também, edificada a partir dos interesses e das ações dos sujeitos que, através dela, atuam e disputam poder na sociedade.
 
Embora uma parcela significativa da capoeira a trate como símbolo étnico (capoeira é brasileira! capoeira é africana! capoeira é afro-brasileira!), esta análise nos leva a pensá-la como uma manifestação com status de patrimônio cultural da humanidade e, por esse motivo, um direito social inalienável de qualquer ser humano que se sinta atraído pelo seu “axé”. Nessa perspectiva ela não teria pátria, embora carregaria símbolos de sua inquestionável brasilidade.
As análises aqui efetuadas nos levam a depreender que os dilemas particulares engendrados numa determinada prática relacionam-se com os dilemas mais amplos presentes na sociedade. A principal luta do capoeira, nos dias de hoje não deve ser contra um determinado feitor, individualmente, como acontecia antigamente, nem tampouco, contra outros praticantes de capoeira; a luta da capoeira deve coletiva e emplacada contra todo e qualquer tipo de opressão, discriminação e pela construção de uma sociedade universal efetivamente justa, livre e democrática.
 
Referências
 
CARVALHO, L. C. Na roda com a mulher. Revista Praticando Capoeira. São Paulo, ano II, n. 17, 2002.
MACHADO PAIS, J. Ganchos, tachos e biscates: Jovens, trabalho e futuro. Âmbar: Porto, 2001.
NUNES, V. Capoeira made in NYC. Correio Braziliense. Brasília-DF, Caderno Coisas da Vida, p. 1 e 3, 13 mar. 2001.
SANTANA, J. Velhos mestres. Correio da Bahia. Salvador: Caderno Correio Repórter, p. 1-7, 15 abr. 2001.
TRAVASSOS, S. D. Negros de todas as cores: capoeira e mobilidade social. In: BACELAR, J. & CAROSO, C. (Orgs.). Brasil: um país de negros? Rio de Janeiro: Pallas; Salvador-BA: CEAO, p. 261-271, 1999.Mestre Falcão
VASSALLO, S. P. A transnacionalização da capoeira: etnicidade, tradição e poder para brasileiros e franceses em Paris. In: Anais da Quinta Reunião de Antropologia do Mercosul.  Florianópolis-SC, 30 de novembro a 03 de dezembro de 2003.
 
Endereço do autor:
 
JOSÉ LUIZ CIRQUEIRA FALCÃO
Servidão das Vassouras, nr. 65, Canto da Lagoa
00862-272 – Florianópolis-SC
Fone (48) 234 7558
falcaox@cds.ufsc.br

Cabello: De Piracicaba para o Mundo…

O piracicabano Eldio Basso Rolim Filho, ganhou o mundo quando tinha 23 anos. Foi para os Estados Unidos e lá ficou por mais de 20 anos. Conhecido internacionalmente como Cabello, se transformou em uma referência da cultura afro-brasileira por divulgar a capoeira, ser percussionista, artesão e integrar uma das maiores companhias de sapateado do mundo, a Urban Tap (“sapateado urbano”, aquele feito na rua e baseado na improvisação. De volta ao país e morando na Bahia, Cabello esteve em Piracicaba visitando seus pais. Em entrevista ao Jornal de Piracicaba, disse que vai continuar trabalhando no exterior, mas quer popularizar a cultura em terras tupiniquins.
 
O interesse pelas manifestações de origem africana começou em Piracicaba, quando Cabello conheceu a capoeira. “Comecei com o mestre Gil, do grupo Novo Engenho, depois tive contato com os mestres Suassuna, Cosme e Zequinha”, fala o capoeirista. “Dou aulas no mundo todo e sempre entre uma viagem e outra venho para Piracicaba. Acabei de chegar da Nova Zelândia. Cresci e vivi aqui, no Centro e na Paulista, pois meu pai era um comerciante famoso, dono das lojas O Cacau”, conta.
 
Foi depois de 1990 que a carreira de Cabello decolou. “Fui morar em uma comunidade de artistas, na Califórnia. Trocava as aulas de capoeira pela moradia. Depois mudei para Nova York, pois naquela época a dança e a música dominavam a cidade”, fala. Lá Cabello conheceu o mestre da capoeira de Angola, João Grande, e conseguiu entrar como performer no circuito de artes de Nova York.
URBAN TAP – Entre um show e outro, o capoerista conheceu Tamango, um mestre do sapateado que realizava shows em East Village – bairro de artistas dos anos 80. “Ele sempre me chamava para participar das jams (sessões de improvisação) com percussão e capoeira. Trabalho com a Urban Tap, ou seja com o Tamango, desde 1995, com shows marcados até 2007”, conta.
As apresentações da trupe são baseadas na improvisação. “Descobri que o sapateado e a capoeira são irmãos de origem, como o samba, o candomblé, o folclore, o jazz americano. Se não tivéssemos a influência africana, não existiria o que hoje chamamos de cultura brasileira”.
CAXIXI – E como todo bom capoeirista, Cabello não poderia deixar de fazer seus próprios instrumentos de percussão, como o caxixi – de origem africana, que se tornou popular no Brasil acompanhando o berimbau. “Ele é todo orgânico, feito com tiras de cipó trançadas e sementes. Consegui produzir um instrumento que tem um som particular e sobretudo brasileiro”, conta. “Quando viajo, todos querem os meus caxixis. Resolvi criar uma empresa e hoje vendo para o mundo”.
Segundo Cabello, os sapateadores e capoeiristas são embaixadores da cultura afro-brasileira no exterior e o país já é respeitado por isso. “As pessoas já reconhecem o Brasil por essa arte transmitida pela cultura oral. Agora estou morando em Ilhéus, na Bahia, onde criei a Fazenda Cultural Ouro Verde para promover cursos e workshops. Preciso respirar o ar brasileiro para poder disseminar nossa arte pelo mundo”, confessa o piracicabano.

Capoeirista versátil

Mestre Boa Gente, 60 anos, já fez incursões pelo samba, maculelê, rádio e teatro

Mestre Boa Gente desenvolve um trabalho social no Vale das Pedrinhas, ensinando a crianças e jovens carentes:

`Eu aprendo ensinando´

Quem vê o andar gingado de mestre Boa Gente, arrastando chinelos e calças brancas pelo Vale das Pedrinhas, nem imagina que ele possua tantas habilidades além da boa e velha capoeira. Iniciado desde os 6 anos nos movimentos da arte africana, Boa Gente conheceu a capoeira em todas as suas vertentes, experimentando diferentes formas de dança e combate. Seus pés calejados já trilharam desde os passos delicados da dança de salão até a brutalidade pujante dos ringues de vale-tudo. E como se não bastasse tanta versatilidade, Boa Gente já fez incursões pelo samba, maculelê, taekwondô, dança afro, rádio, teatro, e o que mais o seu corpo de 60 anos lhe permitir. "A história aqui é longa. É coisa de mais de 30 anos", adverte ele, preparando-se para uma longa entrevista em sua rádio comunitária no Vale das Pedrinhas.

Cercado de alunos carentes do bairro, mestre Boa Gente desenvolve com eles um trabalho social reconhecido no Vale das Pedrinhas e em todos os cantos do mundo. Servindo de tema para um documentário da National Geographic, o dia-a-dia da Associação de Capoeira Mestre Boa Gente já foi exibido para milhões de pessoas ao redor do globo. No terraço de sua casa, em Vale das Pedrinhas, são ministradas aulas gratuitas para mais de 150 crianças, que aprendem com ele os segredos da dança, capoeira, maculelê e até mesmo da locução de rádio, o que comprova a enorme quantidade de conhecimento acumulado. "Eles aprendem um pouquinho de tudo, e aí é que entra a versatilidade: você tem que encontrar o que o outro se adapta melhor", explica ele, deixando óbvio o seu talento para descobrir talentos.

Após as aulas, mestre Boa Gente convida os alunos para participar da elaboração e locução de notícias da rádio comunitária, se inteirando sobre os problemas do bairro onde vivem e conhecendo os princípios da atividade jornalística. "É para tirar a timidez deles nas aulas, aprender a falar", justifica. Criada por ele em 1969, a tradicional Rádio Comunitária de Vale das Pedrinhas divulga notícias gerais e principalmente locais, prestando serviço a toda comunidade. "Aqui é documento, criança que se perde, cachorrinho… se furar um tubo a gente liga para a Embasa", exemplifica ele, enquanto anota a divulgação do enterro de um morador da comunidade.

Atividades diversas

Os trabalhos na rádio e na associação são divididos com o de professor de capoeira dos alunos de uma escola particular, o Colégio São Paulo. Tendo estudado até a 1ª série, mestre Boa Gente acredita que tem aprendido muito com seus alunos. "Eu aprendo ensinando. Hoje, são eles que me ensinam computador", revela modestamente, apontando para um de seus alunos da comunidade.

Pai de quatro filhos, Boa Gente conheceu cedo as artimanhas da capoeira, quando ainda atendia pelo nome de batismo, Vivaldo da Conceição, e vendia nas ruas do interior bananas e mingaus. Na época, ele acabou se mudando de Ibicaraí, "município velho, mas que ninguém conhece", no sul da Bahia, para a cidade de Ilhéus, acompanhando a irmã que acabara de se casar. De Ilhéus para São Paulo, a cidade dos sonhos, seria um pulo, se sua mãe não tivesse exigido que ele fosse para Salvador, local que considerava mais seguro.

Aqui chegando, morador do Calabar, Vivaldo conheceu Mestre Gato, grande capoeirista do bairro, e com ele deu seus primeiros passos e golpes rumo à arte da capoeira. "Naquele tempo, ela era feita na rua, não se fazia em teatro. A capoeira era discriminada, coisa de preto, marginal", conta ele.

Como na rapidez dos movimentos de capoeira, Boa Gente foi se tornando conhecido no meio, e realizou apresentações públicas na academia do famoso mestre Pastinha e na Associação Atlética da Bahia. Com a visibilidade, surgiu seu primeiro convite para o exterior, e lá, nas terras frias da Bélgica, seus golpes de capoeira ficaram marcados entre as manifestações folclóricas de vários países do mundo.

Filho de Ogum

De 1973 para cá, os convites para o exterior não pararam mais: sua capoeira, dança e arte vêm sendo divulgada nos Estados Unidos, em Portugal, Peru, Canadá e, recentemente, no México, onde acaba de receber um convite para reapresentar a peça da qual é protagonista, sobre Zumbi dos Palmares. "Todo ano eu viajo para o exterior. Agradeço a Deus e aos orixás", conta o filho de Ogum, creditando aos convites que recebe à sua versatilidade nata.

Levando a cultura africana aos quatro cantos do mundo, ele já participou de seis documentários estrangeiros, e acaba de voltar de uma viagem a Hollywood, onde ajudou a ensinar capoeira aos dois mais caros atores de artes marciais do cinema americano. "Na primeira vez que fui, fiquei um pouco nervoso. Cair dentro de uma cidade como aquela, sem falar a língua, vindo da periferia de Salvador, do terceiro mundo…", recorda ele, apreensivo. Hoje, a profusão de cartazes, matérias jornalísticas em inglês e fotos no exterior, expostos em sua casa e na rádio comunitária, demonstram que mestre Boa Gente venceu mais essa luta.

Disposto a divulgar a cultura local, ensinando capoeira em várias escolas e universidades do exterior, ele não pensa em morar fora da Bahia. A idade um pouco avançada, assim como o amor pela cultura local, impedem-no de viver no exterior: mestre Boa Gente não saberia viver sem o tempero baiano, o sol do Verão, ou mesmo um bom prato de feijoada. Mesmo assim, seus olhos brilham ao falar das viagens e experiências que viveu, confirmando sua versatilidade e incansável vontade de aprender. Isso porque, nas horas vagas, o capoeirista ainda arranja tempo para estudar inglês, e já fala espanhol com facilidade. "Vou continuar lutando", anuncia o mestre, sempre disposto a dar novos passos na capoeira, na arte e na vida.