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Portugal: Gingando para Cidadania 2011

Fórum: um manifesto pela mudança através da capoeira Dia 20 de Julho – ICS, Universidade de Lisboa

Em julho de 2010, a ACGBC – Associação Cultural Ginga Brasil Capoeira realizou o primeiro encontro Gingando para Cidadania. O evento foi apoiado pelo programa Juventude em Acção e teve a forma de um intercâmbio entre jovens de dois países: Portugal e Estónia. A temática da iniciativa justificou-se pela necessidade de utilizar a capoeira como ferramenta de educação não-formal na promoção da cidadania entre os jovens na Europa, conectando e fazendo-os trocar ideias sobre as suas problemáticas quotidianos nos respetivos países. Entretanto, este ano, a organização resolveu dar continuidade ao projecto, resguardando o mesmo título e a filosofia inicial, por acreditar que o encontro desenvolveu o caráter natural de um movimento e que ganhou corpo no seio da capoeira e da sociedade em que nos inserimos.

Faz-se necessário debater a capoeira, examiná-la na sua fase atual, verificar os ganhos e as perdas de uma arte que se mercantilizou muito, mas, sobretudo, resgatar o seu potencial de intervenção social numa sociedade marcada por crises de várias ordens. Urge também dialogar com o conhecimento académico e estabelecer com ele um princípio de troca que é salutar nos dois sentidos.

No momento em que lançamos essa proposta ocorrem noutras partes da Europa movimentos de vanguarda com os quais nos coligamos na promoção de valores. Nos dias 30 de junho e 3 de julho ocorre o  encontro “Movement for Change : The Capoeiragem Conference 2011” organizado pela ONG Kabula Arts liderada pelo Mestre Carlão em Londres. O encontro pretende prestar homenagens a dois importantes Mestres João Grande e Gato e servir como uma plataforma de debates sobre a capoeira na Europa. Não era sem propósito que estes movimentos ocorrem em duas cidades emblemáticas do continente europeu, Londres e Lisboa, cidades que possuem uma longa história colonial e pós-colonial com as culturas do atlântico negro, para além de serem metrópoles cosmopolitas que abrangem uma diversidade populacional bastante acentuada.

Assim, convocamos a comunidade de capoeiristas a tomar parte nesta iniciativa e dar seu contributo no debate que urge realizar. O Fórum: um manifesto pela mudança através da capoeira constitui a primeira fase do Gingando para Cidadania 2011 e terá início em Lisboa, no dia 20 de Julho. A segunda fase decorrerá na cidade em São João da Madeira, entre os dias 21 e 24 de Julho, conforme a programação que segue abaixo.

 

Saudações capoeirísticas

Objetivo: A partir das experiências acumuladas e das pesquisas já realizadas pelos intervenientes, refletir sobre a globalização da capoeira e as mudanças intrínsecas a este fenómeno, nomeadamente, as suas novas aplicações no contexto não-formal do ensino e sua afirmação no mundo virtual.

 

Público-alvo: Pesquisadores da área das Ciências Sociais, professores da área do desporto, professores de capoeira e danças, representantes de associação jovens, entre outros. Estima-se a presença de cerca de 40 pessoas.

 

Programação Dia 20 de Julho

10h – 10:20 Abertura, apresentação do projeto, do Juventude em Acção e dos participantes da mesa

Responsável: Raquel Lobão – Jornalista, Mestre em Comunicação Empresarial, Doutoranda em Ciências da Comunicação

10h20 – 10h50 De mogadouro para o mundo: o jogo da capoeira no cyberspaço

Responsável: Luciano Milani – Professor de capoeira, webdesigner, dinamizador do site portalcapoeira.com

10:50 – 11h 10 Movement for Change : Londres e o paradigma da Roda Global

Responsável: Mestre Carlão – Mestre de capoeira, Master’s degree in Philosophy of Art,  Presidente do Kabula Arts London.

11h10 – 11h35 Debate entre os participantes

11h35 – 12:40 Roda / aula

 

14h30 – 14h50 – Mandinga for export: a malandragem  como capital simbólico na era global

Responsável: Ricardo Nascimento – Professor de capoeira, Mestre em sociologia da cultura e Doutorando em Antropologia

14h50 – 15h10  The mobility of culture elements: Capoeira in Poland

Responsável: Kasia Kobolwska – Doutora em Sociologia, Autora do livro “Capoeira in Poland”

15h10- 15h45 – Perguntas do público

15h45- 16h – Coffee Break

16h-17h20 – Mostra do filme Capoeira, Fly away beetle.

17h30 –18h00-  Bate Papo com o produtor Márcio Abreu / professor de Capoeira Angola, Bacharel em História com concentração em Patrimônio Cultural e Mestre em Estudos Culturais pela Universidade de Nottingham.

18: Roda de encerramento / sorteio de material de capoeira Bassula

19h – Saída para o jantar

Meios de divulgação: Sites institucionains – ACGBC, ICS e Kabula; 10 cartazes A3 a serem colocados em pontos estratégicos, Portal Capoeira, Comunidade Virtual ACGBC Portugal

Organização:

ACGBC – Associação Cultural Ginga Brasil Capoeira e ICS – Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

Apoio:

Juventude em Ação, Kabula Arts London, Portal Capoeira, ALCC- Associação Lusofonia, Cultura e Cidadania, Bassula

Sites:

www.gingabrasilcapoeira.ptwww.portalcapoeira.comwww.lusofonia.com.ptwww.kabula.orgwww.juventude.ptwww.bassula.com

Intercâmbio internacional de jovens Portugal x Estónia

Intercâmbio Internacional Gingando para Cidadania, que será realizado neste mês de julho em São João da Madeira e conta com o apoio da Programa Juventude em Acção.

Trata-se de um projecto ligado à secção da Capoeira que tem o objectivo de desenvolver o senso de cidadania europeia nos jovens e mostrar-lhes que o desporto é um ótimo instrumento de inclusão social.

O Gingando para Cidadania é um projecto aprovado pela Agência Nacional para Gestão do Programa Juventude em Acção (ANGJPA), no âmbito da Acção 1.1. Conta com a organização e o apoio da AEJ, da Associação Cultural Ginga Brasil Capoeira e da Ong Berimba. Entre os dias 19 e 25 de julho, um grupo de 14 jovens estonianos virão a São João da Madeira para conhecer a cultura portuguesa, praticar capoeira, participar do Campeonato de Capoeira Ginga Brasil 2010 e do Batizado e Entrega de Cordas. Entre as actividades previstas, estão workshops de danças folclóricas e música portuguesa, uma peça de teatro e visitas culturais ao Porto e Guimarães. Na segunda etapa, que acontecerá entre os dias 2 e 9 de agosto, 14 jovens de São João da Madeira viajarão até Taillinn, capital da Estónia, para conhecer a cultura local e igualmente participar das actividades planeadas pelo grupo de jovens estonianos. O objectivo do projecto é promover o senso de cidadania europeia entre portugueses e estonianos, amenizar os problemas de inclusão social e mostrar que a capoeira pode ser uma ferramenta de ensino não-formal.

Em anexo, é possível ver o logotipo do evento e seu cartaz de divulgação. Para mais informações (programação detalhada das actividades,preços, etc) , por favor, entre em contacto. Podemos providenciar também outras imagens com boa resolução.

Ficha técnica

Projecto: Gingando para Cidadania

Tipo: Intercâmbio internacional bilateral entre Portugal e Estónia
Datas: 1ª fase, de 22 a 29 de julho e 2ª fase, de 4 a 12 de agosto
Locais: 1ª fase, em São João da Madeira e 2ª fase, em Taillinn
Organizadores: Associação Estamos Juntos e Ong Berimba
Apoio: Agência Nacional da Juventude de Portugal

Site: www.gingandoparacidadania.blogspot.com

Responsável: Raquel Evangelista
Contacto: 936885268 ou raquellobao80@gmail.com

Método Brincadeira de Angola: Capoeira para Crianças a partir de um ano

Apresentarei neste artigo o método “BRINCADEIRA DE ANGOLA – capoeira para crianças”, que poderá ser utilizado para subsidiar professores que sentem necessidade de embasamento na sua prática com crianças pequenas, a partir de um ano. “-UM ANO??? COMO EH QUE PODE, ELES NÃO FAZEM NADA AINDA!!! NÃO EH POSSÍVEL ENSINAR CAPOEIRA PARA CRIANÇAS DE UM ANO!”, é a reacção que sempre recebo ao apresentar o método. Lembro a todos que, há duas décadas, diziam o mesmo sobre aulas para crianças de 4 ou 5 anos…

Desde os anos 90 vemos um crescimento enorme das aulas de capoeira para crianças, crescimento este que não foi acompanhado por uma preparação pedagógica dos professores, inclusive este que vos escreve.

Como a maioria dos professores, comecei a dar aulas muito jovem e, sem um prepare específico, me vi perdido nos primeiros dias. Isto foi em 1995… na época em que ligávamos para uma escola oferecendo capoeira e eles dizia: “capoeira não, vocês não tem judo?”…

Com o passar dos anos, me especializei em capoeira para crianças e desenvolvi o método “BRINCADEIRA DE ANGOLA-Capoeira para crianças”. Continuei pesquisando e,  sentindo a necessidade de maior aprendizado, ingressei no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, onde me formei e por onde publiquei diversos artigos sobre capoeira e educação no meio academico.

O método BRINCADEIRA DE ANGOLA foi criado pela necessidade de se ultrapassar as aulas clássicas de capoeira para crianças, aulas estas muitas vezes adaptadas de jogos da Educação Física Escolar(EFE).

O intuito foi elaborar uma Pedagogia da Capoeira, especifica desta arte, tendo por base o estudo do ethos da capoeira, do que a distingue de outros campos do saber: a ancestralidade como base, os Mestres como meio e a emancipação como fim.

O método utiliza conhecimentos de diversas áreas academicas, reconhecendo o valor da EFE, da Psicologia, da Pediatria etc, mas eh fundamentalmente baseado nos conhecimentos ancestrais da Capoeira, divididos em 4 áreas complementares:  Movimento, Musica, Social, Afetiva.

Falarei neste artigo somente do aspecto psicomotor, de forma resumida. Sobre maiores detalhes podem contatar-me ou visitar o  site www.brincadeiradeangola.com.br – “Capoeira para crianças no Rio de Janeiro”.

MOVIMENTO NATURAL

Observando o jogo de Capoeira Angola de mestres como João Pequeno, impressiona a simplicidade dos movimentos utilizados e a ausência de estresse muscular, em posições corporais naturais ao corpo humano, como queda-de-quatro, cocorinha, rabo-de-arraia etc. A Capoeira Angola, praticada desta forma, eh  a base da simplicidade do método BRINCADEIRA DE ANGOLA  para crianças a partir de um ano, pois a maioria das crianças nesta idade já dominou os 5 estágios necessários para se mover com um repertório corporal similar ao utilizado pelo mestre João Pequeno e outros grandes mestres de capoeira Angola, que sabiamente chegam a uma idade avançada ainda vadiando capoeira.

Relaciono estes estágios com o mundo animal:

  1. Animais aquáticos: Contração e expansão.
  2. Repteis: Arrastar-se
  3. Quadrúpedes: Andar em quatro apoios
  4. Símios: acocorar-se
  5. Humano: Eretibilidade

 

Fases: 1- Animais aquáticos: Contração e expansão. 2- Repteis: Arrastar-se. 3- Quadrúpedes: Andar em quatro apoios. 4- Símios: acocorar-se. 5- Humano: Eretibilidade

Fase 1 – Animais aquáticos

Nesta fase acompanhamos os primeiros movimentos que a criança utilizou em seu desenvolvimento uterino, um meio aquático: contracao e expansão.
Preservar estes movimentos é essencial para a saúde corporal e para isso utilizamos materiais simples como colchões ou rolos de espuma, auxiliando as crianças a realizar rolamentos laterais ou frontais, como cambalhotas. Futuramente estes movimentos darão lugar a formas mais elaboradas de contração e expansão, como queda-de-rim.

Fase 2- Réptil

O arrastar eh a próxima fase no desenvolvimento motor da criança, quando ela realiza movimentos de oposição entre braços e pernas para se locomover.  Trabalhamos esta fase incentivando a criança a arrastar-se sobre rampas e colchões, preservando o movimento natural que futuramente será utilizado no jogo de chão da capoeira, como na “tesoura de Angola”.

Fase 3 – Quadrúpede

O andar em quatro apoios e crucial para a saúde da coluna vertebral, pois eh nesta fase que se definem as curvaturas lombares e cervicais. Nas aulas de capoeira eh extremamente simples utilizar jogos com animais para se trabalhar este movimento.

Fase 4- Símios

O acocorar confortavelmente, com a planta dos pés completamente chapadas no chão, eh um dos movimentos mais preciosos no repertório corporal humano e, infelizmente, devido ao mau uso de cadeiras e outros apetrechos modernos, extremamente árduo para adultos com encurtamentos musculares. Estes mesmos adultos que hoje não conseguem fazer uma simples cocorinha (mesmo que consigam fazer um mortal parafuso), perderam algo valioso no caminho: a naturalidade do movimento.
A evolução natural do movimento passa necessariamente do acocorar para o ficar de pé, ou seja, toda criança com desenvolvimento saudável, ira equilibrar-se primeiro de cócoras, para depois se levantar.
Nas aulas de capoeira eh possível intervir precocemente para a manutenção deste precioso movimento, nossa “cocorinha”.

Fase 5 – Eretibilidade

Em torno de um ano de idade a criança já se levanta e ensaia o seu futuro andar, que será dominado quando a oposição entre o movimento dos braços e das pernas for alcançado. Se simplesmente o professor de capoeira tocar seu berimbau e deixar a criança dançar livremente, sem apresentar modelos pré-determinados de ginga, ele verá o nascimento de uma ginga espontânea, criativa e natural ao corpo da criança.

Para pensar…

A criança de um ano de idade já tem domínio de todas estas fases, estando apta a ser iniciada no mundo da capoeira.
Fica para o professor a prazerosa missão de ser o catalisador deste processo, criando as condições necessárias para um aprendizado autêntico, emancipador e autónomo, pois construído de forma harmonica entre a naturalidade da evolução motora infantil e a sabedoria da gestualidade da capoeira.

 

Omri Breda (Ferradura) – Rio de Janeiro – omriferra@yahoo.com – www.brincadeiradeangola.com.br

O Desenvolvimento Sensório-Motor na Primeira Infância – Piaget & Capoeira

O DESENVOLVIMENTO SENSÓRIO-MOTOR NA PRIMEIRA INFÂNCIA

Conhecendo as Teorias de Piaget para a Prática da Capoeira

Muito tem se discutido, em relação a melhor maneira de desenvolver a motricidade na criança. Encontramos na literatura uma série de artigos e publicações que sugerem abordagens diferentes e conteúdos específicos para se atingir o desenvolvimento motor e sensorial. Não se pode, segundo experiências no trabalho com crianças da educação infantil, se valer de um único método e assim de uma abordagem específica para atingir estes  desenvolvimentos nas crianças. Cabe sim, um conhecimento das situações que são propostas por cada uma delas e uma visão que amplie a área de atuação do professor e possibilite novas estratégias para se lidar com o problema da construção motora.

Sabemos que a rua ainda é uma preciosa escola na formação motora da criança.

Especialmente nas regiões interioranas (em se tratando de Brasil) onde o fluxo de automóveis e a violência ainda não são comuns como nas grandes metrópoles. A criança que na rua empinou uma pipa, rodou um peão, vivenciou tradições em brincadeiras, saltou, correu, escondeu-se, e pilotou o seu carrinho de corridas, certamente já possui um repertório motor mais diverso em relação à criança que se criou dentro de um apartamento e vivenciou mais a TV e o computador do que a rua e as suas magias e complexidade de jogos e brincadeiras que ela sugere naturalmente. Com isso, muitas vezes as crianças chegam às pré-escolas com uma deficiência enorme no seu repertório motor, cabendo ao educador que trabalha o físico, diagnosticar este fenômeno e trabalhar no sentido de minimizar este problema.

FREIRE (1996) destaca em relação ao desenvolvimento motor que a psicologia infantil e depois a psicomotricidade, dedicaram parte de seus trabalhos a descrição dos movimentos que as crianças realizam ao longo de seu desenvolvimento, muitas vezes, contudo, desconsiderando aspectos fundamentais desse desenvolvimento como o cultural e o social. Ou seja, as análises pautam-se muito por aquilo que se supõe existir internamente em cada individuo do que por aquilo que lhe falta e é exterior a ele. Resumindo, o que quero dizer é que não acredito na existência de padrões de movimentos, pois, para tanto, teríamos que acreditar também na padronização do mundo.

Constato isso sim, a manifestação de esquemas motores, isto é, de organizações de movimentos construídos pelo sujeitos, em cada situação, construções essas que dependem, tanto dos recursos biológicos e psicológicos de cada pessoa, quanto das condições do meio ambiente em que ela vive. E se não vivenciaram situações de corrida, rolamentos, construção dos próprios brinquedos e demais processos naturais do cotidiano das brincadeiras de rua, porque não trazer este universo para dentro das escolas de educação infantil e assim possibilitar a todos a ampliação do seu repertório motor e seus esquemas, como sugerido na crônica enviada a este portal anteriormente denominada “Do Giga Byte ao Pandeirinho” tratando da questão de isolamento tecnológico em contrapartida à educação através da prática da capoeira.

Portanto, ao descrever qualquer ação, qualquer movimento, não podemos deixar de considerar, que o ser humano é uma entidade que não se basta por si. Parte do que ele precisa para viver não esta nele, mas no mundo fora dele. Como afirma MANUEL SERGIO, citado por FREIRE (2003) o homem é um ser carente, pois lhe falta parte do que precisa para compor a vida. Nem se quer para o simples ato de respirar ele se basta, necessita para isto do oxigênio da atmosfera.
Boa parte das descrições do desenvolvimento infantil, referem-se aos atos de pegar, engatinhar, sugar, andar, correr, saltar, girar, rolar e assim por diante, movimentos que constatamos em quase todas as crianças. O que se espera é que as crianças possam, da melhor forma possível, apresentar em cada período de vida uma boa qualidade de movimentos, de acordo com certos modelos teóricos apresentados, ou seja, que aos três anos, por exemplo, corram ou andem com certa habilidade, que saltem de uma certa forma aos quatro anos, rolem de tal maneira aos cinco e assim por diante. É claro que é desejável que todos tenham habilidades bem desenvolvidas, mas o risco que se corre é o de se estreitar à visão para o problema, destacando o ato motor como alguma coisa que ocorre unilateralmente.

E sabemos que não é exatamente assim que devemos agir dentro da construção das habilidades desenvolvidas nas crianças. Nós professores somos responsáveis por propor, interagir e abrir espaço para auxiliar a criança neste processo e fazer com que isto se torne uma “via de mão dupla” com erros e acertos com perguntas e respostas.

Se não resta dúvidas de que devemos respeitar o estágio em que a criança se encontra em relação ao seu desenvolvimento global, somos responsáveis por identificar estas etapas e assim estabelecer a pedagogia correta no ensino corporal da capoeira aos nossos alunos. Muitos educadores, baseiam-se nas teorias de Piaget para que se crie base na elaboração dos planejamentos de  suas aulas dentro da educação das crianças.

PIAGET (1982) em seus estudos sobre crianças, descobriu que elas não raciocinam como os adultos. Esta descoberta o levou a recomendar aos adultos que adotassem uma abordagem educacional diferente ao lidar com crianças. Ele modificou a teoria pedagógica tradicional que, até então, afirmava que a mente de uma criança é vazia, esperando ser preenchida por conhecimento. Na visão de Piaget, as crianças são as próprias construtoras ativas do conhecimento, constantemente criando e testando suas teorias sobre o mundo. Ele forneceu uma percepção sobre as crianças que serve como base de muitas linhas educacionais atuais.

De fato, suas contribuições para as áreas da Psicologia e Pedagogia são imensuráveis. A essência do trabalho de Piaget ensina que ao observarmos cuidadosamente a maneira com que o conhecimento se desenvolve nas crianças, podemos entender melhor a natureza do conhecimento humano. Suas pesquisas sobre a psicologia do desenvolvimento e a epistemologia genética tinham o objetivo de entender como o conhecimento evolui.

Piaget formulou em 1923 sua teoria de que o conhecimento evolui progressivamente por meio de estruturas de raciocínio que substituem umas às outras através de estágios. Isto significa que a lógica e formas de pensar de uma criança são completamente diferentes da lógica dos adultos. Em muitos casos, acaba-se por desprezar esta crescente do conhecimento infantil e ao invés de buscar a solução racional de um problema que poderá surgir durante as aulas, apenas repreende-se violentamente esta criança sem respeitar a sua individualidade e a sua capacidade de transformação cognitiva. Vimos por muitos anos isto acontecer dentro do ambiente de ensino da capoeira e das mais diversas modalidades, muitas vezes por arrogância outras por simples falta de conhecimento no assunto. É de grande importância a nós, educadores físicos, conhecermos sobre os estudos de Piaget e assimilarmos a sua teoria que divide em fases, o desenvolvimento das crianças. Fases estas que são:
Fase 1: Sensório-motor

No estágio sensório-motor, que dura do nascimento ao 18º mês de vida, a criança busca adquirir controle motor e aprender sobre os objetos físicos que a rodeiam. Esse estágio se chama sensório-motor, pois o bebê adquire o conhecimento por meio de suas próprias ações que são controladas por informações sensoriais imediatas.

Fase 2: Pré-operatório

No estágio pré-operatório, que dura do 18º mês aos 8 anos de vida, a criança busca adquirir a habilidade verbal. Nesse estágio, ela já consegue nomear objetos e raciocinar intuitivamente, mas ainda não consegue coordenar operações fundamentais.

Fase 3: Operatório concreto

No estágio operatório concreto, que dura dos 8 aos 12 anos de vida, a criança começa a lidar com conceitos abstratos como os números e relacionamentos. Esse estágio é caracterizado por uma lógica interna consistente e pela habilidade de solucionar problemas concretos.

Fase 4: Operatório formal

No estágio operatório formal – desenvolvido entre os 12 e 15 anos de idade – a criança começa a raciocinar lógica e sistematicamente. Esse estágio é definido pela habilidade de engajar-se no raciocínio abstrato. As deduções lógicas podem ser feitas sem o apoio de objetos concretos. No estágio das operações formais, desenvolvido a partir dos 12 anos de idade, a criança inicia sua transição para o modo adulto de pensar, sendo capaz de pensar sobre idéias abstratas. Segundo nossas experiências com aulas dentro da educação física infantil, algumas crianças demonstram, com maior rapidez o processo gradativo de evolução de seus conhecimentos. Na maioria dos casos são hiper ativos e necessitam de uma maior atenção por parte do professor e em outras vezes demonstram atitudes comportamentais diferenciadas. Ou são muito calmos e preferem isolar-se ou são de fato muito agitados e inquietos.
No geral, o comportamento das crianças, segue a teoria estabelecida em 1923 por PIAGET e evoluem de maneira lógica e igualitária. Os seus conhecimentos vão se tornando cada vez mais complexos e o educador contribuirá, através de estímulos, com este desenvolvimento. Seja ele motor, afetivo, sensorial ou psicológico. Neste sentido a capoeira se torna uma bela ferramenta para o desenvolvimento das mais diversas habilidades, cabendo ao educador sempre se situar dentro da fase que determinada criança vive naquele determinado momento.
Texto: Professor Beija-Flor (Ricardo Costa)  

visite: http://bfcapoeira.vilabol.com.br

DF – Mestre Gilvan & Censo Cultural 2007

TAGUATINGA FAZ O CENSO CULTURAL
 
A Divisão Regional de Cultura de Taguatinga (DRC/RAIII), inicia apartir do dia 12/02 a primeira fase do Censo Cultural de 2007, que tem como objetivo fazer um mapeamento de quem trabalha com a cultura no Distrito Federal e entorno, nesta fase estarão sendo cadastrados artistas plásticos, atores, dançarinos, músicos, compositores, poetas, escritores, artesãos, designer, cartunistas, artistas gráficos e quem trabalham com vídeos.
 
Após a primeira fase, mais duas etapas estão previstas, estas com o objetivo de mapear 1º – “Quais as instituições e empresas que incentivam a cultura no DF”, 2º- “Quais são os fornecedores de insumos para o mercado Cultural”, ainda sem data prevista e 3º – A volta da implantação dos Projetos: “Empresa Amiga da Cultura” e “Despertar da Arte”.
 
A DRC de Taguatinga quer saber quem trabalha com cultura no DF, quem incentiva e quem oferece produtos e serviços a esses artistas afirma o novo Diretor de Cultura Gilvan Alves de Andrade – Mestre Gilvan, as informações do Censo Cultural assim como outras informações farão parte de um grande banco de informações culturais que ficará a disposição do público em geral.
 
Para fazerem parte do Censo Cultural os artistas devem procurar a DRC, Área Especial Central, Praça do Relógio de Taguatinga.
Telefone: 3451-2571/99622511
 
“Cultura é um bom negócio”

Mestre Itapoan, aluno de Bimba

Mestre Itapoan, aluno de Bimba, no filme “MESTRE BIMBA, A CAPOEIRA ILUMINADA”
 
Sobre a fase “Capoeirista de Rua” de Bimba :

“Mestre Bimba teve uma fase de capoeirista de rua. Chegou ao ponto inclusive, teve preso tantas outras vezes, que o delegado chamou ele uma vez e quis botar ele como inspetor de quarteirão do bairro que ele morava, porque aí, ele ia se policiar porque era o inspetor e não ia brigar entendeu? Ia ficar mais calmo. Mas ele disse que não que capoeira sempre teve contra a polícia, como é que ele ia ficar do lado da polícia?”

ADOLESCÊNCIA, DROGAS E CAPOEIRA

Apesar de nos considerarmos como um individualidade imutável, permanente, invariável, cada um de nós é um processo em evolução, algumas vezes explosiva, outras em suave transição, porém em contínua transformação.
No transcurso desta progressão surgem períodos críticos, dos quais o primeiro e talvez o mais difícil, é o nascimento, apesar de obscurecido por uma aparente inconsciência do Ser; seguido em importância pelo da adolescência, que definirá todo o futuro, por marcar a transição da segurança do lar para a incerteza do ambiente social, nem sempre benfazejo, nem hospitaleiro, no qual o jovem tem que encontrar sua própria subsistência e realizar os seus sonhos.
A adaptação do recém-chegado ao novo ambiente deve ser feita sem rotura das ligações afetivas da família, célula matriz e nutriz da sociedade, através do complexo educativo, onde adquire papel preponderante a formação do caráter, viga mestra da personalidade.
O adolescente, até então sob a proteção do amor e do carinho familiar, começa a ser protegido pelas leis que regem as relações entre individualidades pressupostamente em igualdade de direitos, liberdade e fraternidade.
Se por um lado a escola convencional oferece a formação e o arcabouço intelectual, o esporte molda o caráter, através o contato e a disputa entre colegas sob leis de estrito cavalheirismo, ética e ritual;  promovendo o desenvolvimento da parceira, da humildade individual, da integração comunitária, do respeito ao oponente, da disciplina e sobretudo, da honestidade e lisura no trato.
O esporte, além de representar uma válvula de drenagem para o excesso de energia vital, favorece a afirmação da personalidade e o desenvolvimento da autoconfiança, pela convivência pacífica e segura com situações críticas, que exigem resolução acertada, sempre sob a proteção dum ritual de segurança.
O jogo da capoeira da Bahia, por ser praticada em qualquer idade, é um esporte que aproxima a infância, a adolescência, a maturidade e os mais velhos, unindo várias gerações, integrando diferentes fases históricas da mesma cultura, gerando uma comunidade amalgamada pela alegria e pelo prazer, como podemos ver na foto do encontro das duas gerações na festa de  Benício "Golfinho" Boida de Andrade Júnior.

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Dr. Benício e seu filho "Golfinho", dialogando alegremente na linguagem dos movimentos da capoeira!

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Vovô Capoeira e os alunos do seu neto, Mestre Canelão, na harmonia da roda da capoeira

O texto seguinte, do Dr. Benício Boida de Andrade, apresenta sucinta e claramente o drama da chegada do adolescente ao novo palco em que desempenhará um papel para o qual nem sempre estará bem preparado.


ADOLESCÊNCIA

Dr. Benício Boida de Andrade
benicio@nuxnet.com.br

INTRODUÇÃO

Para ser bem compreendida, deve ser dividida em BIOLÓGICA (que é a fase da vida que vai dos 13 aos 20 anos) e PSICOLÓGICA que não tem idade definida, podemos encontrar pessoas que envelhecem apresentando características de adolescente e outras pessoas que aos 15 anos de idade não tem mais o comportamento de adolescente.
O AURÉLIO define a adolescência como o período da vida humana entre a puberdade e a virilidade (dos 14 aos 25 anos) – período que se estende da terceira infância à idade adulta, caracterizado psicologicamente por persistentes esforços de auto-afirmação. Corresponde à fase de absorção de valores sociais e elaboração de projetos que impliquem plena integração social.
PUBERDADE é o conjunto de transformações psicofisiológicas ligadas à maturação sexual, que traduzem a passagem progressiva da infância à adolescência.
O adolescente se caracteriza pela fase de indefinição, de dúvidas, de múltiplas interrogações. Ele não entende exatamente o que ele é pois, ao tempo em que a sociedade lhe cobra responsabilidades de adulto, seus pais lhe proíbem, por exemplo de ir a uma festa sozinho(a). Este conflito lhe traz uma especial vulnerabilidade.
Antes porém, na primeira e segunda infância o ser humano passa por pelo menos duas fases importantíssimas que prepararão sua estrutura psicológica para ser um adolescente mais ou menos vulnerável às inúmeras seduções de práticas nocivas ao ser humano, que ele estará exposto principalmente ao adolescer. Do ponto de vista didático podemos chamar estas fases de fase da esponja e fase do filtro.
Na FASE DA ESPONJA (que vai dos 0 aos 7 anos), a criança absorve tudo que os adultos lhe dizem, com uma capacidade enorme de absorver e arquivar informações, funcionando o seu cérebro como o mais complexo computador que se tem conhecimento na humanidade. Podemos dizer que o seu HD (Hard Disk – disco rígido) tem capacidade impossível de se mensurar sua configuração, assim também como a sua memória RAM é fantasticamente capaz de trabalhar acessando ao mesmo tempo milhares de informações arquivadas.
Na FASE DO FILTRO (que vai dos 7 aos 14 anos), aquele fantástico computador já seleciona as informações que recebe, elegendo ídolos que funcionam como verdadeiros padrões e cujas opiniões e informações fornecidas são tomadas sempre como verdades absolutas, estando representados sempre por pessoas que estão mais próximas como: os pais; os tios; os professores; o motorista a empregada doméstica; etc. Nestas duas fases anteriores à adolescência estará se formando a estrutura psico-emocional que o adolescente disporá para enfrentar com maior ou menor equilíbrio os conflitos naturais desta especial etapa de sua vida que o definirá como um adulto mais ou menos adequado ao mundo.
A partir dos 14 anos temos o adolescente propriamente dito, quando ele está preparado para contestar todos os valores socialmente estabelecidos. O adolescente tem necessidade de questionar valores, fazer conflito, e seu primeiro alvo é a famíliaonde ele está inserido e a autoridade presente a ser confrontada é representada pelos pais. É importante para o adolescente ter quem lhe faça oposição, pois desse conflito resulta a sua aprendizagem de ser, de definição de atitudes, que se dá nesse confronto, onde ele entende o que quer, o que o outro quer, o que pode e o que não pode, o que consegue e o que não consegue.
É através do confronto que ele vai perceber o seu tamanho, suas características, suas forças e fraquezas, suas aptidões, enfimo conhecimento mais amplo de si próprio.
O adolescente, precisa sair desse confronto razoavelmente bem sucedido, para poder crescer e tornar-se adulto. Senão ele vai ser um fracassado, aquele que perde todos os confrontos, que é oprimido, reprimido.
Em nossos valores sociais há uma espécie de consumo de sucessos e o adolescente se fascina por esse valor (jogar futebol e outros esportes, ganhar bonecas bonitas e boas, tirar boas notas na escola, ter mais namorados, etc.).
Se ele perde sempre num mundo onde se tem de ganhar ou pelo menos emparelhar, para não ser um adulto com baixa auto-estima, deslocado do mundo atual, ele terá dificuldades no seu desempenho como adulto nesta sociedade competitiva.
Se o indivíduo por exemplo tem 15 anos, trabalha numa fábrica e traz o dinheiro para casa para ajudar no sustento, ele não é um adolescente, ele é um homenzinho ou uma mulherzinha (no bom sentido) que por dificuldade econômica, queimou etapas de sua vida. Mas, se apesar de precisar trabalhar, esse jovem não para no emprego, não assume seus compromissos, então ele absorveu valores de uma classe sócio-econômica à qual ele não pertence. Ele não está ajustado.
A sociedade por seu lado ignora no adolescente o adulto recém-formado, desvaloriza a sua capacidade, teme as mudanças que ele possa postular, classifica esse indivíduo como um rebelde em potencial, limita os seus direitos, impõe normas que o enquadram nos padrões vigentes.
Os adultos tem a necessidade de preservar a sociedade, mantê-la segura mesmo com as flagrantes desigualdades econômicas e sociais em que ela está alicerçada.
Em geral quando falamos de adolescência, limitamo-nos aos jovens que integram famílias com boas condições de vida; mas a maioria dos adolescentes no Brasil pertence a famílias com problemas de base, falta-lhes habitação, instrução e alimentação adequadas, estão cuidando da sobrevivência através do trabalho em subempregos, explorados por serem menores, fazendo parte do "econômico" na sua família.
É essa maioria que na luta pela sobrevivência acaba por enveredar pela marginalização; a contravenção e o crime são muitas vezes a saída para sobreviver.
Há pouca diferença entre o adolescente e o jovem pobre, que acabam na marginalidade.
O menor de idade pobre não tem quem se responsabilize por ele, pois os pais são considerados sem condições de fazê-lo. Freqüentemente acabam em instituições que, ao invés de corrigir os problemas, servem como escola de aperfeiçoamento para o crime.
Enfim, 80% ou mais dos nossos jovens não chegam a ser problema durante a adolescência porque ainda não tem a possibilidade de ser "adolescente"; passam direto da infância à idade adulta.
Adolescente pobre só é lembrado quando torna-se notícia nas páginas policiais dos jornais. Os meninos nas contravenções e no crime, e as meninas como vítimas de crimes sexuais.
É nesse contexto que o adolescente acaba se envolvendo com tóxicos socialmente aceitos ou não, ora consumindo-os, considerado como viciado, ora difundindo-os e considerado pelas leis como traficante; em ambos os casos sujeitos mais à repressão policial do que aos cuidados médicos e orientação psicológica.

DROGAS

Em 1995 a comercialização de drogas ilícitas no mundo todo envolveu cifras da ordem de 300 bilhões de dólares ( quase três vezes a dívida externa brasileira).
O consumo de drogas em vários países do mundo atinge proporções de epidemia. Muitas pessoas se comportam como se o problema não existisse: "Não é comigo, meus filhos, meus amigos não estão envolvidos, sou contra (ou a favor); as drogas devem ser combatidas, (ou liberadas) e ponto final". – Se coloca a responsabilidade na droga.
Seria ingênuo imaginar-mos que se vai eliminar o problema, apenas combatendo-o do ponto de vista jurídico-policial.
>Como pretender acabar com uma produção e um tráfico que envolvem bilhões de dólares, grupos poderosos organizados internacionalmente, e até governos?
É claro que estas medidas devem ser tomadas.

É dever de todo cidadão cobrar das autoridades competentes o combate ao tráfico e à produção.

Mas, isso não é tudo. Não podemos falar das drogas com sensacionalismo exacerbado, de seus efeitos maléficos apenas, embora, isto seja importante.

É preciso saber que,
quem procura as drogas não está sendo movido pelos seus malefícios a médio ou longo prazo,
mas, pelo prazer imediato (ou pelo alívio imediato do desprazer).
Um prazer que não se está conseguindo encontrar nos seus relacionamentos interpessoais,
nem na sua atuação social, nem na sua realização como indivíduo!

Não podemos desconhecer esta fonte de prazere a devemos analisar colocando num prato da balança os supostos benefícios e no outro prato da mesma balança as consequências a médio e longo prazo. 

Não podemos também, culpar apenas as más companhias
(embora elas possam existir).
É preciso que haja no indivíduo uma receptividade, uma vulnerabilidade às drogas.

O tratamento dos viciados não pode ser visto como uma simples desintoxicação,
como se a droga fosse um vírus ou uma bactéria que causou uma contaminação acidental.

Os médicos podem desintoxicar um viciado, até trocando todo o seu sangue, mas, isso não muda sua estrutura mental, seus sentimentos, sua maneira de pensar e de se colocar no mundo daquela pessoa que procurou determinada droga em função de um determinado efeito.
A dependência física também é muito variável, e alguns indivíduos que usam drogas potentes como a morfina para diminuir a dor de um câncer por exemplo, apresentam o fenômeno da adaptação, mas, não ficam obrigatoriamente dependentes do ponto de vista psicológico. Os epilépticos tomam barbitúricos, drogas causadoras de uma grande adaptação, sem ficar dependentes. Fica claro então, que a dependência está relacionada e muito com a finalidade para a qual o indivíduo usa a droga.

Para entendermos melhor o problema das drogas
devemos levar em conta que elas resultam de uma tríade:
indivíduo/droga/meio sócio-cultural-familiar.

Não podemos tirar a responsabilidade
do indivíduo que a usa,
da família à qual pertence
e
da sociedade em que está inserido!

Entre nós, uma sociedade de consumo em que a televisão aconselha a ingerir uma droga ao menor sinal de dor – já que pensar na causada dor "não resolve", o negócio é fazer passar logo. Numa sociedade em que o álcool e os cigarros são anunciados e vendidos através de mensagens extremamente sedutoras e erotizadas, torna-se muito difícil combater o uso das drogas.
Para nós que fazemos parte desta sociedade e estamos preocupados com as drogas, é necessário adquirir conhecimentos mais profundos, sair da posição defensiva do contra ou a favor de um mito para pensar no significado humano do uso da droga.
Só depois de ampliado o conhecimento será possível desenvolver uma atitude pessoal em relação ao problema e aos usuários.
Essa elaboração se aplica sobretudo aos profissionais da área de saúde e educação.

Em cada escola,
por exemplo poderia haver
um núcleo,
ou uma pessoa
com
uma atitude interna elaborada e segura,
que soubesse identificar:

1) O indivíduo que experimenta por mera curiosidade.
2) O indivíduo que tem algumas experiências e para.
3) O indivíduo que busca ativamente a droga e a usa:
a) Como um estímulo de vida
b) Como dependente

É preciso sabermos que

de cada 100 pessoas que experimentam algum tipo de droga, apenas 10 se tornam dependentes,
portanto
não seria adequado prender ou internar todos aqueles que experimentaram,
mas,
há a necessidade de uma abordagem preventiva, esclarecedora, que ainda não assumimos.
Há de se ter tratamentos diferentes para diferentes níveis de envolvimento!


A RELAÇÃO DOS ADOLESCENTES COM AS DROGAS

O processo de aprofundamento é mais ou menos o mesmo em qualquer tipo de droga: cigarro; álcool; maconha; etc.
Ninguém começa fumando 2 maços de cigarro por dia ou bebendo 1 litro de aguardente por dia.
Dividimos portanto, a escala de aprofundamento em quatro fases:

a) FASE DA CURIOSIDADE:
É quando o adolescente quer se experimentar para ter noção do seu eu, para ver como reage em determinadas situações. No adolescente a curiosidade está especialmente aguçada. O primeiro cigarro é fumado sempre por curiosidade.

b) FASE DA AVENTURA:
É quando o adolescente já conhece bastante sobre o cigarro ou sobre a bebida, e sabe, portanto, o que procura. Mas, procura só quando a circunstancia a favorece e sem maiores escolhas; fuma qualquer tipo de cigarro, toma qualquer bebida. Sabe por exemplo que a bebida lhe proporciona uma certa euforia, ou desinibição. Mas, não muda por causa disso o seu ritmo de vida, seu modo de viver. Bebe quando pinta, o que pinta e pronto. 

c) FASE DA MULETA:
Nesta fase há um maior compromisso com a droga e já tem uma apetência específica por uma determinada droga. Fuma "hollywood", bebe "vodca". E costuma ter em sua casa um bom estoque de sua droga preferida, a ser consumida sempre em determinadas circunstâncias. Há uma relação definida entre o adolescente e a droga.

d) FASE DO VÍCIO:
nesta fase há uma relação de dependência. Você vai dormir, vê que está sem cigarros e fica nervoso: "e se eu acordar às 3 da manhã e quiser fumar?". É melhor levantar-se, pegar o carro e ir comprar.Você não tem mais controle no hábito que agora é vício.

O tóxico
– maconha, cocaína
– segue também este caminho
curiosidade/aventura/muleta/vício .

Agora,
o que levaria o indivíduo a passar da curiosidade ao vício?
vai depender da estrutura de personalidade de cada um, de seu ambiente familiar e social.

Quando se fala em tóxicos é preciso ter muito cuidado para não estimular a curiosidade do adolescente, naturalmente já muito aguçada. Ao se falar que um tóxico produz certo efeito de bem estar, um barato muito grande, o adolescente pode se sentir estimulado a experimentar "numa boa". Ele não precisa de reforço para experimentar, precisa de reforço para segurar um pouco sua curiosidade. É bom levar em conta que, muitas vezes ele precisa de um argumento perante a turminha que anda transando um determinado tóxico.

O adolescente precisa contar com a possibilidade de alguém francamente contra.
Na turma dele o mais provável é que todos sejam a favor.
O pai, o educador não devem se intimidar de dizer que são realmente contra,
para ser contra, é preciso:
ter argumentos,
reconhecer os efeitos dos tóxicos,
conhecer significado de certas palavras como"barato"
que é um estado de breve euforia que substitui um estado anterior de baixo astral.

Durante uma determinada fase da vida do adolescente, ele vai preferir a companhia de sua turma à companhia dos pais. É preciso entender, no entanto, que durante a adolescência o jovem tem necessidade de se desligar da família e buscar nos amigos (que vivem o mesmo problema) o apoio para isso.
A turma representa o papel intermediário entre a ruptura, normal e necessária, com o vínculo familiar e as parcerias mais definitivas que os jovens estabelecerão ao longo de sua vida.
Ao lado dos amigos eles se preparam para a vida social e para a saída do ninho.
É nesse momento que identificamos o momento de maior vulnerabilidade do adolescente, quando ele experimenta pela primeira vez sentimentos fortes como: a primeira paixão; o primeiro beijo; o primeiro orgasmo e o primeiro contato com as drogas, socialmente aceitas ou não.

Durante a fase de "barato" que falávamos acima, aparecem alterações de percepção que são freqüentes:
O jovem sai do mundo real e curte uma situação que só ele vivee que dificilmente consegue contar a outro.
Seria como contar o gosto da laranja a quem nunca chupou laranja.
A depender da profundidade de ação da droga, o adolescente pode ter ilusões; alucinações e delírios.
Viajar,também é uma expressão muito comum para quem usa drogas.Viajar num sol, numa nuvem, num copo.
Trata-se de uma hiperconcentração num detalhe, desligando-o de todo o resto.
Durante uma aula por exemplo, um aluno sob efeito da maconha pode isolar uma só frase do professor, viajar nela e esquecer todo o resto.
As drogas que dão"barato" são amaconha ( a mais acessível)e as substâncias voláteiscomo o éter; clorofórmio; benzina; cola de sapateiro; etc.
Elas contém hidrocarbonatos e, quando evaporam exalam um cheiro, às vezes bem desagradável, que absorvido pelo cérebro, pode propiciar viajem. A pessoa delira, vê coisas, alucina. Existem também vários medicamentos como os aerossóis em geral, e a cada dia aparecem novas drogas com ações semelhantes.
Essas drogasao penetrar no organismo na forma gasosa vão lesar as células nervosas, destruindo neurôniosque não regeneram e não são substituídas por outras no organismo, sua lesão deixa dano irreparávele estas células são encontradas predominantemente no cérebro.
Quando a fumaça da maconha penetra no organismo, provoca algumas reações imediatas: o coração dispara, a conjuntiva ocular fica avermelhada e a saliva seca. Pode haver alteração psíquica, como ilusão, alucinação e delírio, perda da noção do tempo e do espaço.
Os efeitos mais graves são a longo prazo pelo acúmulo do THC (delta-9-tetrahidrocarbinol) nas células gordurosas do cérebro, fígado, dos rins e do baço, necessitando de um período de até 3 meses para ser eliminado.

A maconha é 10 vezes mais cancerígena que o cigarro comum.

Fetos expostos à sua ação revelaram má formação congênita. O efeito da maconha sobre as células em desenvolvimento é catastrófico. Nas células já desenvolvidas o efeito é menor e traz atrofia cerebral a longo prazo.

Diminui a produção de hormônios, de espermatozóides e reduz o desejo sexual.
Não influi no objeto da escolha, tanto o homossexual como o heterossexual continuam na mesma.

O efeito mais sério e irreversível da maconha é a longo prazo sobre a personalidade do indivíduo, após as lesões cerebrais irreversíveis. A vítima nunca culpa a maconha de nada. O mal está sempre em outra coisa qualquer.
E assim o indivíduo vai perdendo o ELAN VITAL, A FORÇA DA VIDA, que é essa força que nos faz ficar aqui esta noite, discutindo estes problemas, depois de um dia estafante. A decisão de estar aqui bateu com alguma aspiração de vocês.
O viciado vai perdendo estas aspirações, passa a viver numa faixa muito estreita de interesses.
Prefere ficar horas sentado, sem viver ligações reais e afetivas com as pessoas, com os projetos de vida.
É a SÍNDROME AMOTIVACIONAL e ocorre justamente numa idade em que a pessoa tem tanta coisa pela frente.
O adolescente encontra-se numa fase de auto-afirmação social muito intensa. Ele não tem medo de ser rejeitado pela família, onde, supõe-se ter lugar garantido mas, tem verdadeiro pavor de ser rejeitado pela turma.
A melhor garantia para ele nesse momento é uma boa alimentação afetiva e valorização humana em casa.
Quanto mais carente se revelar, mais tenderá buscar afirmação perante os outros.

Nessa idade a pressão da turma é sempre mais forte que a familiar.
Se a turma é a favor da maconha, a regra é o adolescente fumar também,
ainda que se sinta mal por fumar.
O importante nesta hora é ter estrutura interna para decidir.
A grande infiltração dos tóxicos não vem pelos traficantes e sim pelos colegas.

Nunca existe só um culpado.
Mesmo numa família bem estruturada o jovem pode experimentar a maconha,
e a família no desespero pode tomar atitudes que mais atrapalham do que ajudam.
É preciso ter uma posição clara,
aberta ao diálogo,
sem repressão.
Repressão fecha o diálogo,
os pais serão os últimos a saber,
quando já estiver na fase do vício.

Pais que não suportam frustrações, também transmitem um modelo perigoso para os filhos.
Pessoas que não suportam ser contrariadas, por qualquer coisinha já estão apelando para remédios.
Ou fumam e bebem demais.
O excesso de cigarros, fica como um sub-vício na família, um modelo, que sem perceber, o filho pode adotar, um dia, mais à frente emmomentos difíceis.
Para que o jovem se sinta forte para enfrentar suas dificuldades e as pressões do ambiente, ele precisa de muito alimento afetivo. O alimento do diálogo franco, do amor generoso, da valorização dentro de casa. Em um espaço cada vez menor. Há muita correria para vencer na vida e os jovens terminam vítimas dela.
O pai nunca para e diz ao filho: Estou com um problema, o que você acha?
Pai que se revela incapaz de parar, conversar e pedir ajuda, passa ao filho um modelo de que cada um tem mais é que se virar sozinho.
Como vai se queixar depois de que o filho nunca sentou com ele para conversar sobre a vida? sobre tóxicos? sobre sexo? por exemplo.


ALGUNS SINAIS CARACTERÍSTICOS DO ENVOLVIMENTO COM DROGAS

OLHOS VERMELHOS:
o álcool; a maconha; a cocaína; a cola e o éter.
DEDOS AMARELOS:
provenientes do cigarro de maconha que o jovem costuma fumar até o finalzinho.
IRRITAÇÃO E AGRESSIVIDADE:
qualquer observação dos pais sobre o comportamento do jovem desencadeia nele uma crise de agressividade.
AFASTAMENTO DOS FAMILIARES E DOS VELHOS AMIGOS:
O jovem não conversa mais em casa. entra e vai direto para o quarto.
RELACIONAMENTO COM NOVOS AMIGOS:
A nova turma é composta agora de pessoas que se drogam.
VENDAS DE OBJETOS QUE SEMPRE ESTIMOU:
De repente, ele vende o tênis preferido, o casaco, um instrumento musical, o skate, para comprar droga.
MUDANÇAS DE HORÁRIO:
Chega tarde em casa, acorda também muito tarde.
DESMOTIVAÇÃO PARA O ESTUDO E O TRABALHO:
Que resulta na expulsão da escola ou na perda do emprego.
FURTOS DE PEQUENOS OBJETOS EM CASA:
Dinheiro, jóias da mãe, aparelhos eletrônicos, rádio, etc.
PRISÃO NA RUA PORTANDO DROGA:
Se a situação lhe parece familiar, converse imediatamente com seu filho. Não perca tempo e não tente se enganar.

Estresse: O Assassino Silencioso

Na segunda quinzena de julho, o mundo surpreendeu-se com a notícia de que a espaçonave russa, a estação espacial Mir (paz), ficara sem energia por uma ordem errada do comandante Vladimir Tsibliev.

O médico, que cuida dos tripulantes, Igor Goncharov, explicou, com a maior naturalidade, que o engano fora resultante do estresse do comandante. Nunca a palavra estresse ganhou tamanha notoriedade em circunstâncias tão dramáticas.

Formatação/Editoração modificada por AADF

E o que é estresse? Não há ainda uma definição para o mesmo nos compêndios de patologia médica. É o dicionário Aurélio que nos diz que o estresse (em bom português) é "o conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras capazes de perturbar a homeostase" (equilíbrio).

Hoje o termo estresse é amplamente usado na linguagem atual e nos meios de comunicação. Designa uma agressão, que leva ao desconforto, ou as conseqüência desta agressão. É uma resposta a uma demanda, de modo certo ou errado.

O estresse corresponde a uma relação entre o indivíduo e o meio. Trata-se, portanto, de uma agressão e reação, de uma interação entre a agressão e a resposta, como propôs o médico canadense Hans Selye, o criador da moderna conceituação de estresse. O estresse fisiológico é uma adaptação normal; quando a resposta é patológica, em indivíduo mal-adaptado, registra-se uma disfunção, que leva a distúrbios transitórios ou a doenças graves, mas, no mínimo agrava as já existentes e pode desencadear aquelas para as quais a pessoa é geneticamente predisposta. Aí torna-se um caso médico por excelência. Nestas circunstâncias desenvolve-se a famosa síndrome de adaptação, ou a luta-e-fuga (fight or flight), na expressão do próprio Selye.

Segundo a colocação dada ao estresse por este autor, num congresso realizado em Munique, em 1988, "o estresse é o resultado do homem criar uma civilização, que, ele, o próprio homem não mais consegue suportar". E, em se calculando que o seu aumento anual chega a 1%, e que hoje atinge cerca de 60% de executivos (veja uma pesquisa anexa), pode-se chamar de a "doença do século" ou, melhor dizendo, " "a doença do terceiro milênio". Trata-se de um sério problema social econômico, pois é uma preocupação de saúde pública, pois ceifa pessoas ainda jovens, em idade produtiva e geralmente ocupando cargos de responsabilidade, imobilizando e invalidando as forças produtivas da nação; e é mais importante ainda no Brasil que, por ser um país ainda jovem, exclui da atividade pessoas necessárias ao seu desenvolvimento. Não se sabe exatamente a incidência no Brasil, mas nos Estados Unidos gastam-se de 50 a 75 bilhões de dólares por ano em despesas diretas e indiretas: isto dá uma despesa e 750 dólares por ano por pessoa, que trabalha.

A vulnerabilidade hereditária, mais a preocupação com o futuro, num tempo de incertezas, de um o país que estabiliza a moeda, mas aumenta o número de desempregados, ao mesmo tempo em que a qualidade de vida piora, existem os medos do envelhecimento em más condições, e do empobrecimento, além de alimentação inadequada, pouco lazer, a falta de apoio familiar adequado e um consumismo exagerado. Todos são fatores pessoais, familiares, sociais, econômicos e profissionais, que originam a sensação de estresse e seu conseqüente desencadeamento de doenças, de uma simples azia à queda imunológica, que pode predispor infecções e até neoplasias.

A Universidade de Boston elaborou um teste rápido e auto-aplicável (anexo), onde você pode "medir" o nível de seu estresse.

Se você passou incólume, pare de ler o artigo.

Mas, se você se "encontrou" nos itens apontados, mesmo em nível baixo, siga cuidadosamente a exposição.

O Que Provoca o Estresse?

São os grandes problemas da nossa vida que, de modo agudo, ou crônico, nos lançam no estresse. Diversos pesquisadores notaram que a mudança é um dos mais efetivos agentes estressores. Assim, qualquer mudança em nossas vidas tem o potencial de causar estresse, tanto as boas quanto as más. O estresse ocorre, então, de forma variável, dependendo da intensidade do evento de mudança, que pode ir desde a morte do cônjuge, o índice máximo na escala de estresse, até pequenas infrações de trânsito ou mesmo a saída para as tão merecidas férias.

Certos eventos em nossas vidas são tão estressantes, que caracterizam a situação de trauma (lesão ou dano) psíquico. Recentemente as ciências mentais reconheceram uma nova síndrome, batizada de Distúrbio de estresse pós-traumático, uma verdadeira doença, pertencente ao estudo da angústia. Tornou-se bem sistematizada a partir da volta dos "viet-vets", ou veteranos da guerra do Vietnam. Esta doença ocorre com quadros agudos de angústia, grave e até invalidante, quando a ex-vítima é exposta a situações similares, tornando a desencadear todos os sintomas ansiosos severos, que conheceram durante a violência a que estiveram submetidos: são os "flash-backs", que revivenciam as situações traumatizantes.

Isto não é aplicado apenas a veteranos de guerra; vejam-se os crescentes índices de violência urbana e as suas vítimas, que vivem quadros de desespero permanente, quando não atendidos adequadamente em serviço psiquiátrico de reconhecida competência na área. Bombas, acidentes automobilísticos ou aéreos, desabamentos, assaltos com extrema violência, seqüestros prolongados, estupros, etc. são causas comuns do distúrbio de estresse pós-traumático. O tratamento costuma ser demorado, mas tende a um bom prognóstico.

Quais São as Bases Funcionais do Estresse ?

Da Silva, um cirurgião americano do século passado, foi o primeiro a perceber que soldados feridos só caíam prostrados após alcançarem a meta: isto é, lutavam ainda sob efeito de ‘adrenalina’. O fisiologista Walter Cannon observou que as reações alerta/luta e fuga em animais desencadeavam um maciço aumento das catecolaminas urinárias (substâncias decorrentes do metabolismo da adrenalina).

O cientista que estudou pela primeira vez o estresse, Hans Selye descreveu uma resposta fisiológica generalizada ao estresse, caracterizada pela seguinte seqüência:

A percepção de um perigo eminente ou de um evento traumático é realizado pela parte do cérebro denominado córtex; e interpretado por uma enorme rede de neurônios que abrange grandes partes do encéfalo, envolvendo, inclusive, os circuitos da memória;

Determinada a relevância do estímulo, o córtex aciona um circuito cerebral subcortical, localizado na parte do cérebro denominada sistema límbico, através das estruturas que controlam as emoções e as funções dos sistemas viscerais (coração, vasos sanguíneos, pupilas, sistema gastrintestinal, etc.) através do chamado sistema nervoso autônomo. Estas estruturas são a amídala e o hipotálamo, principalmente. A ativação dessas vias vai causar alterações como dilatação pupilar, palidez, aceleração e aumento da força das batidas cardíacas e da respiração, ereção dos pelos, sudorese, paralisação do trânsito gastrintestinal, secreção da parte medular das glândulas adrenais (adrenalina e noradrenalina), etc.; e que constituem os sinais e sintomas da ativação tipo luta-ou-fuga descrevidos por Cannon;

Ao mesmo tempo, o hipotálamo comanda uma ativação da glândula hipófise, situada na base do cérebro, com a qual tem estreitas relações. No estresse, o principal hormônio liberado pela hipófise é o ACTH (o chamado hormônio do estresse), que, carregado pelo sangue, vai até a parte cortical (camada externa) das glândulas adrenais (situadas sobre os dois rins), e provocando um aumento da secreção de hormônios corticosteróide. Estes hormônios têm amplas ações sobre praticamente todos os tecidos do corpo, alterando o seu metabolismo, a síntese de proteínas, a resistência imunológica, as inflamações e infecções provocadas por agressões externas, etc. O seu grau de ativação pode ser avaliado medindo-se a quantidade de cortisol no sangue.

Essa descarga dupla de agentes hormonais de intensa ação orgânica: de um lado a adrenalina, pela medula da adrenal, e de outro, os corticóides, pela sua camada cortical, levaram os cientistas a caracterizar essas glândulas como sendo o principal mediador do estresse.

Essas respostas são normais em qualquer situação de dano, perigo, doença, etc. Assim, dizemos que existe um certo nível de estresse que é normal e até importante para a defesa do organismo, ao qual denominamos de eustress. O perigo para o organismo passa a ocorrer quando a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal se torna crônico e repetido. Nesse momento, começam a surgir as alterações patológicas causadas pelo nível constantemente elevado desses hormônios.

Assim, reconhece-se que o estresse tem três fases, que se sucedem quando os agentes estressores continuam de forma não interrompida em sua ação:

A fase aguda

Esta é a fase em que os estímulos estressores começam a agir. Nosso cérebro e hormônios reagem rapidamente, e nós podemos perceber os seus efeitos, mas somos geralmente incapazes de notar o trabalho silencioso do estresse crônico nesta fase.

A fase de resistência

Se o estresse persiste, é nesta fase que começam a aparecer as primeiras conseqüências mentais, emocionais e físicas do estresse crônico. Perda de concentração mental, instabilidade emocional, depressão, palpitações cardíacas, suores frios, dores musculares ou dores de cabeça freqüentes são os sinais evidentes, mas muitas pessoas ainda não conseguem relacioná-los ao estresse, e a síndrome pode prosseguir até a sua fase final e mais perigosa:

A fase de exaustão

Esta é a fase em que o organismo capitula aos efeitos do estresse, levando à instalação de doenças físicas ou psíquicas.

Problemas Causados pelo Estresse

O estresse pode ser causador e/ou agravador de uma série de doenças, que vão da asma, às doenças dermatológicas, passando pelas alérgicas e imunológicas; todas elas relacionadas de alguma forma à ativação excessiva e prolongada do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.

Na área do sistema digestivo, é sabido por todos que o estresse pode desencadear desde uma simples gastrite, até uma úlcera: o famoso cirurgião Alípio Corrêa Neto, da USP e da Escola Paulista de Medicina (hoje Universidade Federal de São Paulo), dizia que se alguém afirmasse, há 20 anos atrás, que a úlcera péptica era psicossomática (leia-se somatoforme), ririam dele; hoje, se deixasse de dizê-lo, ririam dele.

Mas, é principalmente em nível de coração, ou mais precisamente, em nível das coronárias, que o estresse pode ser um matador silencioso.

Uma ativação repetida e crônica do sistema nervoso autônomo, numa pessoa que já tenha problemas de lesão da camada interna das artérias coronárias (aterosclerose), provocadas por fumo, gordura excessiva na alimentação, obesidade ou colesterol elevado, etc., vai levar a muitos problemas, tais como diminuição do fluxo sanguíneo adequado para manter a oxigenação dos tecidos musculares cardíacos (miocárdio). Isso leva à chamada isquemia do miocárdio, que é acompanhada de dores no coração (angina), principalmente quando se faz algum esforço, e até ao infarto do coração (ataque cardíaco), provocado pela morte das células musculares do coração, por falta de oxigênio. A adrenalina tem o poder de contrair esses vasos, agravando o problema de quem já os tem com o diâmetro reduzido pelas placas. O resultado para essas pessoas pode ser até a morte, que muitas vezes acompanha um estresse agudo.

Outros problemas comuns são a ruptura da parede dos vasos enfraquecidos pela placa aterosclerótica, ou a trombose (entupimento completo do vaso coronariano). Um pequeno coágulo (trombo) pode desencadear uma cascata de coagulação, que também pode levar à morte. O nível elevado de adrenalina também pode provocar alterações irregulares do ritmo cardíaco, denominadas de arritmias ("batedeira"), que também diminuem o fluxo de sangue pelo sistema cardiovascular.

Outros sintomas

No campo clínico (somático) os distúrbios ainda ditos ‘neuro-vegetativos’ são comuns: quadro de astenia (sensação de fraqueza e fadiga), tensão muscular elevada com cãibras e formação de fibralgias musculares (nódulos dolorosos nos músculos dos ombros e das costas, por exemplo), tremores, sudorese (suor intenso), cefaléias tensionais (dores de cabeça provocas pela tensão psíquica) e enxaqueca, lombalgias e braquialgias (dores nas costas e nos ombros e braços), hipertensão arterial, palpitações e batedeiras, dores pré-cordiais, colopatias (distúrbios da absorção e da contração do intestino grosso) e até dores urinárias sem sinais de infecção.

O laboratório clínico fornece outros detalhes indicativos da intensa ativação patológica no estresse: aumento da concentração do sangue e do conteúdo de plaquetas (células responsáveis pela coagulação sangüínea), alteração do nível de cortisol, alterações de catecolaminas urinárias e alterações de hormônios hipofisários e sexuais, além dos aumentos de glicemia (açúcar no sangue) e colesterol, este por conta do LDL, ou o ‘mau colesterol’.

Sintomas psíquicos

Nas ocasiões estressantes, e mesmo fora delas, manifesta-se uma gama de reações de ordem psicológica e psiquiátrica. Ou, pelo menos temporárias, perturbações de comportamento ou exacerbação de problemas sociopáticos.

Os problemas ansiosos com a sintomatologia clínica, além de irritabilidade, fraqueza, nervosismo, medos, ruminação de idéias, exacerbação de atos falhos e obsessivos, além de rituais compulsivos, aumentam sensivelmente. A angústia é comum e as exacerbações de sensibilidade com provocações e discussões são mais freqüentes.

Do ponto de vista depressivo, a queda ou o aumento do apetite, as alterações de sono, a irritabilidade, a apatia e adinamia, o torpor afetivo e a perda de interesse e desempenhos sexuais são comumente encontrados.

Existem também as "fugas", que todos conhecemos. Quando não se apela para a auto-medicação com ansiolíticos (um perigo!), a pessoa refugia-se na bebida e mesmo no consumo de drogas ilícitas de uso e abuso, além de aumentar a quantidade de cigarros fumados, quando for fumante.

São estas as condições da derrocada à qual o estresse leva a pessoa, principalmente quando esta tiver uma personalidade hiperativa.

Como Diminuir o Estresse ?

Em um excelente artigo sobre estresse, principalmente no trabalho (e a maior parte de nós trabalha), o psiquiatra Cyro Masci sugere medidas profiláticas iniciais, secundárias e terciárias. Mas, em resumo, quando possível, devemos parar para pensar; para nos darmos a liberdade de termos um tempo para refletir sobre cada um de nós e seus esquemas pessoais, familiares, sociais, de trabalho, de estudos e até econômico-financeiros. Devemos reformular a vida, procurando reduzir as áreas geradoras de estresse. Um bom psiquiatra pode nos ajudar nesta tarefa.

Muitas vezes haverá a necessidade de uso concomitante de um tratamento medicamentoso, geralmente através dos modernos antidepressivos serotoninérgicos (ISRS) com ou sem ansiolíticos e/ou beta-bloqueadores por um tempo definido: começo, meio e fim.

Quando já existe um quadro orgânico instalado, desde uma simples gastrite a asma ou alteração cardiorrespiratória, a busca de atendimento clínico é fundamental. A correção da alteração clínica é imprescindível. E esta pode ir de um simples a complexo tratamento ou resumir-se somente às necessárias mudanças do modo de viver, incluindo lazer ou uma pequena prática esportiva constante (porque não uma caminhada diária?, que faz bem a qualquer um de nós).

Mas, a principal atitude ainda é um alerta ao modo de viver e de trabalhar com as vivências e com as emoções que a vida nos proporciona. E aí está verdadeira e milenar sabedoria.


[1] DR. VLADIMIR BERNIK, Médico psiquiatra (pela AMB/ABP e pelo CFM). Coordenador da Clínica de Estresse de S. Paulo. Ex-Professor Regente de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas de Santos (até 1995). Consultor do Comitê Centre for Health Economics da Organização Mundial da Saúde junto à Universidade de York. ex-presidente da Sociedade de Hipnose Médica de São Paulo e ex-vice-presidente da Sociedade Brasileira de Hipnose. Médico do Trabalho (MTb – 1982) e integrantes da primeira turma de Especialistas em Medicina do Trabalho da AMB/ANAMT (janeiro de 1984). Ex-médico perito do Instituto Médico Legal de S. Paulo e perito judicial. Autor do "Primeiro Curso de Psiquiatria para o Médico Clínico" e de mais 158 trabalhos científicos. publicados.