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Vai o homem, fica o nome…

Capoeira leal, capoeira pegada, capoeira justa, capoeira de dentro, capoeira de baixo, capoeira de fora, capoeira de cima, capoeira traiçoeira, capoeira brincada, capoeira jogada, capoeira lutada, capoeira escorregada, capoeira caída, capoeira mandingada, capoeira levantada, capoeira pulada, capoeira sambada, capoeira sacolejada, capoeira bambolejada.

Tem capoeira para todo corpo, e todo corpo tem sua capoeira. Mestre João Pequeno foi doutor no papel, mas antes, bem antes de ser doutor no papel, foi doutor na mandinga. Conheceu a arte querendo ser valentão, e achou o grande sentido da arte em ter seu golpe freado, manejado – porquê segundo ele mesmo, “o capoeirista para bater não precisa acertar”. O golpe vai até onde for preciso, e quem está em volta sabe quando entrou e quando não entrou.

Mestre de mestres, formador de homens, professor no sentido mais estrito possível – um sujeito raro e doce, no nosso mundo tão corrido, imediatista e superficial.

Conheci o Mestre João Pequeno em um momento ligeiro, em 2003. Poucos minutos de conversa antes da roda em sua academia, e outros poucos dentro do carro do Mestre Decanio, enquanto o levávamos do Forte Santo Antônio à sua residência. Calado e observador, deixa a marca de seu trabalho na história.

João Pequeno, de pequeno só teve o nome… Deixou esse mundo, mas o que deixou nesse mundo foi maior.

Gigantesco João Pequeno, Enorme João Pequeno, Gigante João Pequeno!

 

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Quando eu aqui cheguei

A todos eu vim louvar

Vim louvar a Deus,

primeiro morador desse lugar

Agora eu tô cantando

Cantando e dando louvor

Vou louvando a Jesus Cristo

Porque nos abençoou

Abençoe essa cidade

Com todos os seus moradores

E na roda de capoeira

Abençoe os jogadores,

 

Camaradinho!

 

Camugerê, vosmecê como vai ?

Camugerê!

Como vai vosmecê ?

Camugerê!

 

Vai o homem, fica o nome.

 

Axé,

Teimosia

Presidente Lula: O Capoeirista

Lula diz ser capoeirista e desafia rivais eleitorais

Em seu primeiro discurso de 2010, em evento que anunciou recursos para programas de moradia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou um recado para os adversários das eleições de outubro. Lula pediu para se “evitar o jogo rasteiro na campanha” e disse que é “capoeirista” e está preparado “para não deixar o pé chegar no meu peito”.

 

Folha Online

O Capoeirista

Ao advertir que neste ano não encarnará o “Lulinha paz e amor” e que está pronto para revidar o “jogo rasteiro” da oposição e os chutes “do peito para cima”, o presidente Lula propositadamente elevou o tom, antecipando a escala e os instrumentos que pretende usar para tentar eleger a sua sucessora.

Mesmo sem intimidade alguma com essa dança-jogo-luta e seus maravilhosos e criativos golpes – rabo-de-arraia, meia-lua, queixada, bênção, martelo e tantos outros –, há tempos Lula pratica o que há de mais precioso na capoeira: a ginga.

Com maestria, ginga entre falar uma coisa e fazer outra – embalado não pela cadência do berimbau, mas pelo som de sua própria voz.

Esconde-se na hora certa, sabe tudo e, quando lhe convém, nada sabe. Acusa outros por delitos que lhe estão por demais próximos e move-se habilmente entre ofensores e ofendidos, entre seus ricos hábitos e os daqueles que vivem na miséria.

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Livro: Capoeira Angola por Mestre Pastinha

O livro: “Capoeira Angola”, escrito por Vicente Ferreira Pastinha, com prefácio de Jorge Amado foi originalmente lançado em 1964, pela Gráfica Loreto. A edição disponivel para download é datada de 1988, já em sua 3ª edição. Capa: Carybé. 

“É muito raro sair acidentado algum capoeirista em conseqüência da prática da Capoeira em demonstrações esportivas, porém, tratando-se de enfrentar um inimigo, a Capoeira não é dotada somente de grande poder agressivo, mas possui uma qualidade que a torna mais perigosa – é extremamente “maliciosa”.

O capoeirista lança mão de inúmeros artifícios para enganar e distrair o adversário: Finge que se retira e volta rapidamente; deita-se e levanta-se; avança e recua; finge que não está vendo o adversário para atraí-lo; gira para todos os lados e se contorce numa “ginga” maliciosa e desconcertante.

Não tem pressa em aplicar o golpe, ele será desferido quando as probabilidades de falhar sejam as mínimas possíveis.

O capoeirista sabe aproveitar de tudo o que o ambiente lhe pode proporcionar”.

  • fonte:texto extraído do livro “Capoeira Angola”, de Mestre Pastinha

 

Fundação Cultural do Estado da Bahia 1988

Agradecimentos:

Bruno Sousa – Teimosia

 

A importância das cadeiras no desenvolvimento do golpe de vista e na segurança do jogo de capoeira

Dedicado a Guanais e Lemos, que me fizeram aprender o mecanismo de perda de consciência, desmaio, pela hipertensão intracraniana por compressão das veias jugulares no colar-de-força.[1]

Mestre Pastinha escreveu:

2.2.31 – …”eu não enventei[2]“…

… “eu não enventei;”…

…”eu vi e achei bom”…

… “e aprendi no circo[3] de cadeiras,”…

… “para aprender o jogo de dentro…”
(77a,11-b13)

… Nós todos vimos…

… achamos bom…

… aprendemos com os mais velhos!

… Pastinha acentua a importância…

… da proximidade entre os parceiros no jogo de capoeira…

… os antigos mestres usavam obstáculos…

…. círculo de cadeiras…

… mesas…

… ou de ambos…

… para desenvolver a agilidade…

… e “golpe de vista”

.. indispensáveis à pratica da capoeira…

… especialmente no jogo de dentro..

… que simula a luta com arma branca!

HerPast p.77

Pastinha sabiamente acentua importância da proximidade entre os parceiros no jogo de capoeira e afirma que os antigos MESTRES usavam obstáculos periféricos, circundantes, circunvizinhos…

círculos de cadeiras

mesas …

luzes apagadas…

como usávamos eu e Guamais[4] em nossos treinos secretos…

olhos vendados, além das luzes apagadas…

como fazíamos eu e Jose Sobrinho “Zezinho” em nossos treinos de Judô!

ou ambos meios…

Para desenvolver as percepções extra-sensoriais como em Ioga e Artes Marciais!

Esta referência de Vicente Ferreira Pastinha ao uso de seu Mestre das cadeiras para delimitar a área de movimento ou jogo e assim desenvolver a noção de localização espacial durante o preparo técnico do capoeirista é muito importante por que revela preocupação desde os tempos antigos com a localização espacial do capoeirista dentro do ambiente do jogo.

Desta maneira o capoeirista desenvolve um sexto – sentido e adquire noção e domínio do espaço restrito de jogo, perde o medo de se aproximar do parceiro-adversário, especialmente útil no jogo-de-dentro, e extremamente importante na criação de oportunidades de contra-ataque e ou bloqueio do uso de arma-branca, seja faca, punhal, estoque, facão, navalha, tesoura ou mesmo guarda-chuva, borduna, sombrinha, cadeira, banco, cacete, cassetete, quiçá garrafa de vidro ou panela.

Reflexo utilíssimo no corpo-a-corpo, na prevenção de impacto sobre os assistentes ou circundantes e origem da sensação de coragem, segurança, autodomínio, autoestima, calma e autoconfiança tão característica do capoeirista.

O treino individual cercado por 4, 6 ou 8 cadeiras simulando outros tantos adversários aperfeiçoa o sentido de localização espacial, avaliação de distância e golpe-vista, extremamente importantes no jogo, na luta, no trabalho, no transito e no cotidiano.

Nos anos quarenta (do século passado…), depois das aulas e treinos currículo, Bimba me entregava a chave para abrir a Academia no dia seguinte às 5 horas da manhã e o nosso grupo (Guanais, cabo Néri, Lemos) para um treino de briga (vale-tudo) em ambiente fechado com cacetes e armas-brancas[5].

Treino com luz apagada, cadeiras, mesas e bancos espalhados aleatoriamente pela sala, grupo de 3 amigos íntimos…

testados pelo Tempo…

verdadeiros…

confiáveis reciprocamente,

grupo excelente para aperfeiçoamento dos reflexos de esquiva e contra-ataque…

sem acidentes… nem incidentes

pelo dominância da esquiva sobre o ataque…

sem soltar golpes a esmo…

E a lembrança de Hector Caribé a recomendar…

A saída de salto mortal para trás..

Pela janela…

Quando acuado contra a parede…

Sem outra saída…

No andar térreo…

Naturalmente!

Lembrando também…

Os treinos de Judô como Zezinho Sobrinho para adivinhar o que outro iria fazer…

Sem a proteção do tatami

No chão de cimento do pátio da casa de

Olhos vendados…

Sem lâmpadas acesas…

E Um sempre percebia…

O que o Outro ia fazer

Era o SEXTO-SENTIDO!


 

[1] Quando eu acordava já estava deitado no chão e aprendi a sacudir o corpo e jogar o agarrador à distância… Quanta saudade, amigos!

[2] Inventei

[3] Circulo

[4] Filho de índios, meu colega de curso ginasial, órfão de pai. Deixou de estudar para trabalhar para educar os seus irmãos mais jovens. dentre os quais destaco o docente de medicina Dr. Sócrates Guanais um dos fundadores do Hospital Cardio-Pulmonar. Grande homem! Maior e Melhor Amigo! Grande Professor!

[5] Navalhas, punhais, estoques, facas e facões.

Entrevista exclusiva com José Luiz Oliveira Cruz, Mestre Bola Sete.

"A humildade foi a maior lição que tive nesses 37 anos de Capoeira Angola"
 
José Luiz Oliveira Cruz, o mestre Bola Sete, nasceu em 31 de maio de 1950, iniciou na capoeira em 1962 como auto didata, em 1968 começa a treinar com o grande capoeirista Pessoa Bababá, marinheiro da marinha Mercante e discípulo de Mestre Pastinha, em 1969 ingressa na academia de Vicente Ferreira Pastinha, onde ocupou o cargo de Fiscal de Campo, diplomado pelo próprio Mestre Pastinha em 1979, hoje trabalha no Setor de Transporte, na Secretaria da Indústria, Comércio e Mineração, é membro do concelho da Associação Brasileira de Capoeira Angola, Bola Sete diz que os valores tradicionais dessa arte estão sendo esquecidos.
 
"A capoeira praticada hoje não é autêntica, pois é feita apenas para impressionar com seus saltos acrobáticos e agressivos"

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“Ou Mato ou Morro”: Capoeira como Weltanschauung

– Entrevista com Eduardo de Andrade Veiga – 

Entrevista realizada em São Paulo, em 20-10-99, por Luiz Jean Lauand. Eduardo Veiga, batizado por Bimba com o nome de guerra Duquinha, é capoeirista da velha guarda e foi discípulo de Mestre Bimba. É ainda professor aposentado da Univ. Federal da Bahia. Atuou também – aplicando a "filosofia da educação da capoeira" – como professor no Centro de Treinamento de Professores Anísio Teixeira (do Governo da Bahia). Edição: Luiz Jean Lauand.

"Ou mato ou morro: ou me escondo no mato, ou fujo para o morro…"

LJ: Poucos capoeiras refletem sobre sua arte e poucos intelectuais conhecem "por dentro" a capoeira. Nessa sua situação privilegiada – você foi assistente de Mestre Bimba e, por outro lado, vice-reitor de universidade – poderia falar-nos de como começou nessa arte e da capoeira como visão-de-mundo?
EV: Antes de mais nada, quero deixar registrado que este meu depoimento tem o caráter de uma homenagem a meu professor (de capoeira e, portanto, de vida), o grande Mestre Bimba, cujo centenário de nascimento se celebra no dia 23-11-99.
Comecei a jogar capoeira (quero observar, desde já, que capoeira "se joga": não é "arte marcial" de iniciativa agressiva; depois voltaremos a falar disso) ainda bastante jovem, em meados da década de 40, "vestindo farda" do Colégio dos Maristas de Salvador, e ingressei na capoeira como atividade complementar de minha formação pessoal. Escolher Mestre Bimba era seguir um caminho natural de excelência: Bimba já estava consagrado como grande capoeirista.
Por estranho que pareça, a Academia de Mestre Bimba ficava na "Laranjeiras", na época, a conhecida rua do meretrício. Só andar nesta rua já significava aprender: para chegar à Academia, era necessária a disposição de enfrentar eventuais problemas: a calçada era estreita, só uma pessoa podia passar e não raramente algum "valentão" – dos da zona – podia provocar… De modo que nós íamos pelo meio da rua.
Assim, a própria localização da Academia – já servia para ir ensinando duas lições, muito úteis para a mentalidade do capoeira: evitar o confronto desnecessário (no caso, evitar o passeio estreito) e evitar expor-se inutilmente ao perigo (passar perto das portas, de onde poderia surgir agressão de surpresa).
O ritual de ensino de Mestre Bimba começava por uma rigorosa seleção de quem entrava e de quem podia prosseguir na escola: tanto em termos de capacidade física como em termos de comportamento em relação aos colegas e ao mestre. Daí a escola ter um Regulamento – uma espécie de "código interno" – orientando a conduta dos discípulos. Nesse regulamento (talvez o primeiro código escrito de aprendizagem de comportamento da capoeira: um "código" seria impensável, por exemplo na capoeira de angola, extremamente fluída e espontânea…), encontravam-se normas como por exemplo: a de guardar silêncio durante a prática e observar atentamente o jogo dos companheiros. Mestre Bimba era também um educador muito sensível às fases de progresso dos alunos, sabendo extrair o potencial e avaliar as possibilidades de cada um.
A sentença que cunhei – um tanto jocosamente – "Ou mato ou morro" (no sentido de "Ou me escondo no mato, ou fujo para o morro…") – indica em sua formulação literal a temerária atitude de coragem irresponsável; já a jocosa interpretação poderia ser mal-entendida como pura e simples covardia. Na verdade, a capoeira não é nem uma coisa nem outra. A capoeira surge como objetivação, como consubstanciação da mentalidade do escravo, submetido a uma situação de desesperada injustiça e sem ter a quem recorrer ante o arbítrio de seus dominadores. Que defesa cabe em uma tal situação? Como sobreviver? Assim, desenvolveu-se entre os escravos – de modo mais ou menos inconsciente, mas profundamente racional – uma técnica, uma arte, um jogo, um jeito (ou talvez o único jeito) de ser e viver (ou sobreviver…). Isto corresponde a duas situações historicamente vivenciadas: a de enfrentamento direto dos desesperados escravos com o poderoso sistema dos senhores ("mato ou morro" no sentido literal) e o esquivar-se a qualquer confronto (esconder-se no mato), buscando o mato como espaço sobre o qual é possível uma forma de vida independente: os quilombos (é interessante observar que já os holandeses surpreendiam-se com a familiaridade, a facilidade, a desenvoltura com que os escravos transitavam pelos matos e morros…). Essa atitude é a base da capoeira. Subtrair-se ou, ao menos, procurar minimizar os horrores da escravidão, em busca de uma vida livre e digna (na medida do possível, evitando o desigual enfrentamento). Assim se compreendem certas "regras" (naturalmente, não escritas…) da capoeira em sua forma originária (a que deu origem a grandes mestres como Bimba), como por exemplo:
– Prontidão em observar o adversário e o ambiente. Como não se trata de iniciativa de agressão, mas de esquivar-se de um possível dano, é pela atenta observação que se vê a real dimensão do perigo e as rotas de fuga. Por exemplo, o capoeirista deve observar se o potencial agressor (e para o escravo – desde o "boçal", recém-desembarcado dos navios negreiros, ou o "ladino" ou "crioulo", já aclimatados – qualquer branco é um potencial agressor…) está de paletó aberto ou fechado (se aberto, há a possibilidade de ele sacar rapidamente uma arma…).
– Fazer sempre o papel do agredido ou do inocente. Como sua situação é de total desamparo social e jurídico, ser tido por agressor equivale à morte. Daí a malícia do capoeira: ele bate, mas como quem está apanhando; se recebe um golpe deve gritar e chorar como se a dor fosse muito superior à real, provocando compaixão ou desprezo… Pode desfazer-se em súplicas de misericórdia enquanto prepara um golpe fatal…
– Enquanto não mata, a pancada é suportável. Em todo caso, sempre há uma expectativa e, na primeira oportunidade real, o capoeirista aplica o seu golpe (daí a necessidade da rapidez e do reflexo, inclusive a partir de situação de imobilidade). Em outra formulação jocosa: na primeira oportunidade não é que ele dá o troco, ele "fica com tudo"…
Naturalmente, há diversos níveis de "capoeirismo", adaptados aos diversos graus de "encurralamento" social… Em qualquer caso, essa malícia para a luta, essa arte enquanto técnica, encontra uma representação simbólica no jogo entre amigos, que brincam capoeira (agora transformada em arte mesmo), entre ritmos, danças e cantos:

"Água de beber.

É Água de beber camarada…"

A estética substitui a violência e, também nesse sentido, pode-se falar de uma educação pela capoeira, independe de qualquer propósito de defesa ou ataque. Sobrevive a capoeira mesmo fora de um contexto de escravidão: ela, por assim dizer, ganha vida própria e emancipa-se das desumanas situações que lhe deram origem.
Por outro lado, muitos aspectos das relações de trabalho nacional (e, como se sabe, também do sincretismo religioso ou do futebol etc. etc.) são afins à mentalidade que estamos descrevendo. Não se trata só da escravidão formal; num caso extremo, "pratica capoeira", hoje, um trabalhador mal pago que faz "corpo mole" e conscientemente busca esforçar-se o mínimo possível (guardando, naturalmente, na presença do chefe, as formas externas de prontidão, solicitude, integração na firma etc. etc.). Um boy é encarregado de entregar uma correspondência urgente num endereço que requer uma hora de percurso. Ele acata solicitamente a ordem, sai com presteza e, mal virada a primeira esquina, já começa a treinar malabarismo, girando – com arte e maestria – a pasta na ponta do indicador direito; penteia-se ante as vitrines das lojas; no primeiro fliperama, desenvolve outras habilidades etc. Quando, após três ou quatro horas, retorna, queixa-se de dor de cabeça (o trânsito infernal, manifestações de greve…) e pede à secretária o reembolso do (pretenso) táxi que teve que tomar ("como o chefe falou que era urgente…").
Neste, e em tantos outros aspectos, a capoeira – totalmente incorporada à mentalidade nacional – é uma importante clave de interpretação do Brasil. Não se trata de "malandragem" ou preguiça, mas de um fenômeno complexo que inclui uma escravidão que persiste disfarçadamente: por que o escravo vai empenhar-se em algo que – de nenhum modo – lhe pertence ou beneficia? E não esqueçamos que "escravo" é um conceito relativo: só cessa de haver escravo, quando cessa de haver feitor… É nessa linha que se encontra o agudo pensamento de autores como Anande das Areias e Nestor Capoeira.
É evidente que a capoeira traduz realidades muito distintas das veiculadas por artes marciais, digamos, como o jiu-jit-su, caratê ou de ninjas & cia. O Brasil é diferente; o brasileiro procura não chocar de frente: ele pode te destruir, mas sempre com ares de vítima ou de quem não quer nada…
Evidentemente, toda essa mentalidade de que estamos falando pode degenerar em uma grave situação de caos – como aconteceu no final do século passado com as "maltas" capoeirísticas do Rio de Janeiro ou como acontece hoje com alguns políticos brasileiros… Daí o valor de Mestre Bimba que, como líder carismático, procurou racionalizar um código de honra e criar uma elite de capoeira: praticar a arte do escravo com a alma do príncipe! Quem não se dedicasse seriamente ao estudo ou ao trabalho, estava excluído da academia. Aliás, diga-se de passagem, muitos escravos negros provinham de famílias nobres africanas e, alguns, com nível cultural muito superior ao de seus senhores.
LJ: Que outros aspectos destacaria das práticas da capoeira? E da capoeira como meio de educação?
EV: Um aspecto importante na minha formação – eu, na época era muito moço – foi o de preparação para as dificuldades da vida. Para quem teve a feliz oportunidade de ser "puxado" (que significa, em linguagem de capoeira, "ensinado" – e vocês, professores de filosofia da educação, podem explorar as ricas sugestões desse termo -; um ensino em que o professor vai se adequando à capacidade do discípulo, como quem "puxa" para fazer aflorar o jogo próprio de cada um…) por mestre Decânio, certamente se lembra de como ele, logo que iniciava o treino, procurava alertar com um ligeiro e repentino tapa sem machucar, porém suficiente para deixar em desconforto ou furioso quem o recebesse. Ora, na aula seguinte e nas mais outras ou tantas quantas necessárias, o Decânio repetia esse gesto… Era um estímulo meio amargo, entretanto, em duas ou três vezes – ou um pouco mais – o remédio atingia o efeito desejado. E Decânio já procurava outro para dar o seu remédio pouco convencional e amargo. Nós, aprendizes, nos conscientizávamos de que quem não observa bem, literalmente "leva tapa na cara". Ele nos ensinava a ficar atento às possibilidades de agressão do adversário.
Outra lembrança "pedagógica". Menos drásticos, porém mais excitantes eram os treinos para a prontidão que mestre Bimba usava. Ele portava um apito. Na situação de treino, dois alunos deveriam enfrentar-se: um dos oponentes se armava antes da luta, porém só podia usar a arma ao ouvir o apito. O sinal era também válido para o outro: ao som do apito, poderia reagir. Como é óbvio, somente Mestre Bimba sabia o momento em que iria ocorrer o sinal. Fazia-o em função da aprendizagem. Isso porque, durante a luta há momentos oportunos (e outros que não o são) para se puxar uma arma. O mesmo se pode dizer em relação a tomá-la, podendo chegar ao ponto, de mesmo sendo capoeirista, o outro tomar-lhe a arma, antecipando-se ao gesto de sacar. Obviamente, só após a ordem de ação autorizada pelo apito. Nessa situação, a capoeira funciona também como metáfora da vida: há o momento certo de agir para acometer ou defender.
Uma terceira situação corresponde ao treinamento de dois iniciantes, que com o tempo vão aumentando gradualmente a precisão, velocidade e graça nas seqüências de golpes. Os alunos mais adiantados percebiam que os formados quando os "puxavam" com mais velocidade tinham o cuidado de não atingi-los, parando o golpe a poucos centímetros do ponto de impacto. Este gesto possibilitava ao aluno dar prosseguimento à seqüência de golpes e contragolpes. Por isso as solas ou pontas das "basqueteiras (kedis) pretas" de Aquiles Gadelha eram muito conhecidas dos alunos. Elas deram muitos sustos, pois a cada momento estavam em frente do peito ou do rosto perplexo dos aprendizes. Era o resultado das "bençãos" (pontapé frontal) e "martelos" (de lado) ou "armadas soltas estancadas" (golpe giratório). Não é este o papel de todo verdadeiro professor e educador que – auxilia o aluno, mostrando-lhe as dificuldades e o modo de superá-las, sem massacrá-lo, porém fazendo-o suar bastante? É nesse clima de solidariedade e confiança, ao som do berimbau, que se canta de verdade:

"Água de beber.

É Água de beber camarada…"

Nem sempre é apropriado estancar um golpe. Numa "armada solta", caso se encolha a perna no meio do caminho para não machucar o adversário, pode não ser uma boa alternativa. A percepção deve estar concentrada também no esboço de defesa que o aluno faz… E para isso o tempo é muito curto para se decidir o que fazer. No caso de se aplicar rasteira nas mãos durante os "aus" (rotação descendente substituindo o apoio dos pés pelas mãos) sucessivos, o procedimento correto de quem aplica a rasteira é de fazê-la com muita velocidade, porque caso contrário não encontrará o que puxar. Porém se encontra a mão apoiada, é para fazer o arrasto com muito vigor. Isto facilita o "rolê" (giro) de defesa do oponente. Este treino só é feito no curso de especialização. Em função do exposto "capoeirar" é saber aplicar golpes:
a) "em câmara lenta", suave e graciosamente;
b) desferir golpes com alta velocidade a partir de uma situação de repouso;
c) modificar a trajetória de um golpe ou estancá-lo em vista da percepção de algo "novo" após ter desfechado o golpe de defesa ou ataque;
d) durante o jogo da capoeira, o que se observa é uma "seqüência" de golpes desferidos em velocidades desde o lento quase imperceptível até aqueles em que a vista, talvez não acompanhe. O meio ambiente dos golpes é a ginga: e o ritmo e a velocidade seguem o compasso da orquestra, muitas vezes composta de um só berimbau dolente.
e) a ginga é tão importante que ela aparece sozinha no item 5 do Regulamento de Bimba e o "gingado" é conteúdo programático da primeira lição. O gingado é como uma rampa de lançamento para se disparar uma violenta cabeçada ou se defender dando um "au" com rolê saindo-se do raio de ação do oponente, que procura, mas não sabe mais onde, encontrar o adversário. Gingando, o capoeira determina as distâncias mais convenientes, inclusive para "amarrar o jogo" do adversário. Por mais que se descreva o gingado, sempre existe o inesperado no adversário: ele esconde manhas ou pode até não significar nada. Tanto simula e dissimula como esconde ou gera golpes ou defesas. É no gingado que os floreios e as negaças se harmonizam. Quando bem feitos, o adversário procura e nada encontra ou encontra sem esperar o que não procura… É malícia pura.
f) emprega-se a expressão "jogar capoeira" à semelhança de "manejar com destreza, jogar com armas". Então o capoeira é aquele que é destro no manejo de armas, a semelhança do jogo de florete ou espada. Somente que as suas armas por excelência são os dedos, as mãos abertas ou fechadas de frente ou lateral ou em "cutila", os pés, as articulações ligeiramente dobradas e a cabeça também são usadas. Sem dúvida, aprende-se também a usar armas simples e convencionais ou improvisadas;
g) joga-se também no sentido de brincar. É aprender brincando – é demonstrar que se sabe de forma alegre. Por isso o capoeirista não machuca quando joga em situação de aprendizagem ou demonstração. Conserva um sorriso as vezes até matreiro de quem com facilidade saiu-se de uma situação difícil ardilada. Pode também representar um pouco de zombaria face ao outro que nem se apercebeu claramente do que aconteceu, ou melhor, do que poderia ter acontecido….
Todos esses ensinamentos estão centradas no modelo de ser e de aprender de Mestre Bimba (sem demérito de outros grandes mestres), que inquestionavelmente é um referencial firme para tema.
Eu, em minha vida pessoal e também como professor (e professor de professores) sempre me remeto à capoeira como metáfora da vida: viver é capoeirar. E há também uma mentalidade de capoeira, mesmo quando você não é o oprimido. Uma vez, há muitos anos, um ladrão invadiu minha casa: eu e minha mulher acordamos com o sujeito ameaçando-nos com uma barra de ferro. Nem sei como, de um pulo já estava ao lado dele que, assustado, fugiu. Eu fui atrás, com muito furor, mas só até a porta: daí em diante, "persegui-o" um pouco, mas não para alcançá-lo (isso é capoeira pura), era só para estimulá-lo a fugir: rápido e para longe. Como consegui dar aquele pulo? Não sei! Inconscientemente, eu tinha me programado (capoeira é observação e antecipação) para, numa situação dessas, "virar um bicho" (um ladrão, por definição, não teme tanto a um homem, mas não há homem que não tema um bicho…)
Resumindo, eu diria que a capoeira, sim representa uma visão de mundo, marcada por um conjunto de atitudes de defesa em situação de forte desigualdade: seja o oponente um feitor; um governo (há empresas que praticam contra o governo a capoeira fiscal…); um professor, pai ou sargento opressor; um seqüestrador (li recentemente no Estadão as indicações da polícia para o caso de você ser seqüestrado e era um "manual de capoeira": indicavam por exemplo, não encarar, não discutir, dormir só quando o seqüestrador estiver acordado e vice-versa; etc.); ou mesmo o mundo como um todo, sempre ameaçador à fragilidade humana. Por isso, encontram-se traços de capoeira em qualquer cultura em que haja situações de opressão. A capoeira não se baseia na agressão positiva nem na mera resignação passiva; é a defesa racional levada ao limite do possível, na inaparência de jogo, ginga e lúdico.


Luiz Jean Lauand.

jeanlaua@usp.br

Esta matéria foi alvo de uma indicação do Sapujo – Teimosia (ORKUT), obrigado por garimpar este documento e assim podermos disponibilizar para todos capoeiristas…

Axé!

Novos Artigos publicados no site Capoeira da Bahia

Mestre Decanio, nos brinda com  sua experiência e vivacidade, publicando novas matérias em seu site…
 
Não deixe de visitar e beber nesta fonte de sabedoria… 
 

A VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

JUSTIFICATIVA

A violência é o campo onde se desenvolvem as manifestações sociais neste ciclo histórico de globalização, expansionismo e  imperialismo capitalista, militar e tecnológico, repetindo a decadência do Império Romano. As mensagens  que transcrevemos abaixo, recebidas pela Internet, bem traduzem a preocupação e o receio que vem se apossando dos praticantes da capoeira-esporte, sem falar naqueles que, como eu,  provêem dos antigos e saudosos tempos da capoeria-jogo.
A capoeira transplantada de sua origem, alienada da sua cultura materna, vem se transformando num instrumento de retorno ao circo romano, em sua plenitude bárbara, sem código, sem leis, desprovida dos mais rudimentares princípios de civilidade, sem governo e sem piedade.
Trazemos o assunto à baila,  abrindo espaço para o debate democrático, sem preconceitos, sem mágoas, sem procurar atingir um companheiro, guardando ética e etiqueta, para avaliar a gravidade  do momento, estabelecer uma pausa para meditação sobre as suas  verdadeiras causas e decidir o melhor caminho para evitar os fatos que se avolumam em nossa comunidade.

OS TRÊS "ERRES" DA CAPOEIRA!

Capoeira é uma palavra estranha, que se escreve com um "rê" suave se pratica com três "erres" fortes.
O primeiro é o RITMO, o segundo o RITUAL, o terceiro o RESPEITO !
Sem os quais não se joga
… nem se aprende …
a capoeira!

A. A. Decanio Filho


PROTESTO CONTRA A VIOLÊNCIA
Jeronimo Santos da Silva

Axé Capoeira!!

Venho através desta relatar um incidente vergonhoso e covarde ocorrido no dia 19 de abril de 1998.
Após chegar de uma viagem pelo Brasil, fui convidado a participar de uma roda de Capoeira de demonstração ao público em Sydney, Austrália. Esta roda fazia parte do evento de Batizado e graduação do Sr. Edval Santos, vulgo "mestre Boa Morte" natural de Salvador, e residente em Melbourne. Esta roda foi realizada em Sydney em frente ao Bondi Pavilion, Bondi beach. A primeira parte do dito Batizado foi realizada na cidade de Melbourne.
Entre outros convidados constavam as presenças de mestre Barrão – Vancouver – Canadá, mestre Amém dos Santos, figurante do filme "Only The Strong" (ou Esporte Sangrento, no Brasil) que reside em Los Angeles – USA, e um certo mestre Ousado (não o conheço pessoalmente) residente em Londres. Todos, com exceção de Marcos Barrão, amigos próximos de "mestre" (??) Edval.
Para encurtar a história gostaria de me apresentar como mais uma vítimas da violência e desrespeito provindos de capoeiristas irresponsáveis (vulgos mestres de Capoeira) que infelizmente ainda circulam impunes nestes eventos nacionais e internacionais de Capoeira.
Parece até piada de mau gosto. Passei 6 semanas no Brasil jogando Capoeira nos meios mais diversos. Até em favelas eu circulei passando pelo Rio, São Paulo, Manaus e Belém sem nada de grave ocorrer nem sofrer um só arranhão.
Foi de volta em casa entretanto, no primeiro mundo, que venho a sofrer esse tipo de atentado covarde. Eu acabava de chegar de uma viagem de mais de 18 horas de vôo e cordialmente fui participar da roda e prestigiar o evento. Dei boas vindas aos visitantes e fui em seguida atingido com um pontapé brutal no olho direito pelo capoeirista Amém dos Santos nos primeiros segundos do jogo canalha e sujo que me "convidou" a fazer.
Após passar a noite em um hospital de emergência fui operado no dia seguinte por um cirurgião plástico. Estou passando bem no momento e minha visão felizmente não foi afetada. Meu corpo é fechado e minha mente sã!! Axé baba!!
Pra voces que não sabem, o tal do Amém dos Santos mora nos EUA fazem muitos anos e não conseguiu ainda se educar.
Conforme suas palavras eu (não saí da frente do seu "golpe sangrento") e o irresponsável não teve talento nem competência técnica para conter sua selvageria na roda.
O público presente ficou estarrecido com o acontecimento brutal. Havia crianças e famílias. Foi muito sangue que correu na minha face e minha filha Marina, (7 anos) presente na roda, ficou chorando abalada e sem entender o que se passara com o pai.
A comunidade brasileira na Austrália (e a Capoeira) infelizmente foi "graduada" (batizada?!) neste dia com uma medalha (ou cordel?!) de vergonha.
Conforme as más línguas foi tudo "coisa armada" da parte de Edval para finalmente (e sem êxito) tentar provar quem é o bom na roda da Austrália. Que Capoeira boa pra defesa pessoal é essa que ele promove: bate e tira sangue em roda de apresentação ao público!! E eu que não aprovo esse tipo de jogo e atitude na Capoeira que promovo tinha que levar um susto na roda!! Infelizmente só deu pra demonstrar foi um grande excesso de burrice e arrogância da parte do Edval e seu grupo "Filhos Da Bahia".
O tiro saiu pela culatra!! Não corri da raia, como diriam outros, e respeitei a presença do povo presente sem revidar de pronto a "gentileza" oferecida: Amém!! Graduei minha arte na vida e jogo com a Capoeira na "Real" — dinheiro no bolso, respeito ao próximo e educação! E não costumo me rebaixar a esse nível de deslealdade na roda (falta de camaradagem) pra provar que sou um bom mandingueiro.
Pois é, o covarde do Amém partiu bem cedo (escapou?!) de volta aos EUA na segunda dia 20 de abril. Eu ainda estou checando a possibilidade de "jogar" na roda com um processo legal em cima dele ou do responsável (irresponsável) pela promoção desse evento de tão baixo teor cultural.
E como já estava programadovou seguir na sexta-feira próxima ao Canadá e atender ao convite para prestigiar o Batizado que o Marcos Barrão estará promovendo em Vancouver nos dias 24, 25 e 26 de abril.
Sigo depois para os EUA para ministrar alguns workshops em Iowa e San Diego. Que o meu olho arrebentado e agora costurado possa servir de exemplo de Protesto contra a violência que muitos covardes e incompetentes sem talento e com mentalidade provinciana (que se in-titulam "mestres" de Capoeira) ainda promovem pelo mundo afora.
Esta carta serve como uma nota de aviso aos que por acaso venham a ter nos seus Batizados e nas rodas de Capoeira gente de tão baixo calão espiritual e moral… sem talento ou responsabilidade para jogar com a verdadeira arte da Capoeira na roda da vida atual.
Fica portanto registrado mais uma vez o meu apelo de protesto contra essa onda de violência absurda e imoral nas nossas rodas e eventos de Capoeira. E agradeço a todos vocês pela divulgação desta nota nos vossos meios sociais, quilombos e perante suas famílias. Meu muito obrigado pela atenção prestada. Meu Axé a todos vocês.

JERÔNIMO SANTOS DA SILVA – http://www.users.bigpond.com/SS.Jeronimo/index.html 


O DIREITO DE BRINCAR

Ari Roizenblit

Eh dificl saber o que ? importante com relacao a capoeira. Eu sou  aluno do Paulo Gomes de Sao Paulo e ja presenciei muito desta violencia e ate mesmo participei. Mas desde que cheguei aqui em Sydney tenho visto a capoeira como veiculo para unir os brasileiros em torno de uma cultura alegre e  bonita, mostrando uma arte marcial alternativa. Esta forma de brincar de capoeira nos destaca de uma forma positiva como grupo de pessoas, principalmente com tantos grupos diferentes etnicos e de imigrantes. O mesmo nao ocorre em outras partes do globo onde existem grupos grandes de brasileiros, que sao mal vistos como grupo. A violencia na capoeira serve para nos colocar no mesmo saco que kickboxing e outros. Para quem gosta bom, eu mesmo ja fiz taekwendo, mas prefiro a capoeira pela ideia de fazer um jogo a dois, e nao uma ideia individualista de quebrar meu parceiro. Como ocorreu com o Jeronimo, eu tambem fui muito bem recebido em diversas rodas de capoeira na California e tambem pelo mestre King Kong em Salvador. Capoeira fechada, com respeito. Como o Jeronimo, entrei numa roda em Bondi Beach para brincar de capoeira e levei uma rasteira do Edval. Nos segundos que se passaram, muita coisa se passou pela minha cabeca. As antigas rodas de capoeira, salas do besouro que o Paulo Gomes usava para treino, todas as tecnicas sujas. Mas preferi honrar o espirito brincalhao da capoeira de praia e de publico. Cumprimentei o Edval e simplesmente me retirei de sua roda tao inamistosa.

Apoio o Jeronimo, principalmente na defesa do nosso direito de brincar.

Ari Roizenblit


SOBRE O MESTRE AMÉN

Subject: Violencia na Capoeira ??
Date: Fri, 8 May 1998 12:19:36 -0300
From: "piter" <mejohnny@mandic.com.br>
To: <adecan@e-net.com.br>
CC: <mejohnny@mandic.com.br>

Caro Mestre Decânio,
Primeiramente gostaria de parabeniza-lo pela exelente pagina sobre Capoeira na internet, uma das melhores que existem.
Lendo em sua página o artigo sobre a violencia, mas precisamente na carta do "Mestre" Jêronimo Santos da Silva, não o conheço, mas acho que ele se equivocou em escrever aquilo sobre o "Mestre" Amém, pois eu tive a oportunidade de conhece-lo e conviver com ele um ano e meio de minha vida na Capoeira chegando a participar de muitos batizados aonde haviam diversos Capoeiristas de várias partes do mundo e nunca sequer vi "Mestre" Amém entrar em atrito com ninguém. Veja bem não quero criar nenhuma polêmica mesmo porque sou uma
criança no mundo da Capoeira, mas acho que o "Mestre" Jeronimo poderia esclarecer melhor o fato ocorrido naquele dia, pois tenho certeza que o "Mestre" Amém não machucaria ninguém que JOGUE Capoeira com ele. Sem mais pelo momento, agradeço ao senhor pelo ótimo site que venho sempre buscar novas informações.

Um abraço,
Piter


TEMAS PARA MEDITAÇÃO

PALAVRAS DO MESTRE

A. A. Decanio Filho

TODOS OS MESTRES CANTAM
"Baraúna caiu!"
"Quanto mais eu!"
"Quanto mais eu!"

BIMBA, MEU MESTRE, BEM ME DIZIA
Negativa, rasteira e queda fazem parte do jogo de capoeira.
A negativa é o preparo para cair,
com segurança e elegância.
Capoeirista pode cair….
sem se machucar… como o gato!
sem sujar a roupa…
macio como flor de algodão! FEIO É CAIR DE BUNDA!


PRÁ BATÊ NOS OTARU!
(Para bater nos otários)

A. A. Decanio Filho

Bimba ao falar sobre a eficiência da regional sempre enfatizou o elemento surpresa como fator decisivo, evidenciado na sua expressão:

"A regioná num seuve pa brigá c’us companhêro…
é prá batê nos otaru!"
(A regional não serve para brigar com os companheiros… é para bater nos otários!)

POR QUE …
todos os capoeristas conhecem seus recursos e limitações, tão bem quanto as esquiva e defesas,
enquanto os que desconhecem a sua prática (os leigos ou otários) podem ser surpreendidos pelos seus movimentos!

A primeira parte da frase acentua a importância do companheirismo que deve existir entre seus alunos, mais evidente noutras recomendações corriqueiras no meu tempo:

"A luta regioná num seuve p’a brigá cum ôtru regioná1, é bom prús otáru…
cúns colega a gente joga regioná…"2
"A genti num deve lutá nu berimbau, deve jogá3!"

Obviamente Mestre Bimba não preconisava "lutas" entre os seus alunos, até para não afastar da academia os mais tímidos e assim perder a renda mensal……
O "esquenta-banho" servia para treinamento de defesa pessoal, de movimentos proibidos sob o ritmo de berimbau, para treinamento de manobras novas, como "tira-teima", drenagem da agressividade ou diferenças pessoais, logo arrefecidas pelo banho frio sob o jato d’água do cano do banheiro, especialmente quando alguém "entrava pelo cano" durante o "esquentamento"…

O Mestre jamais aceitaria a desunião e o enfrentamento dos irmãos,
que deveriam formar uma única família, a dos filhos de Bimba!

1 A luta regional não serve para brigar com outro regional, é bom para os otários… com os colegas nós jogamos a regional.
2 Não devemos lutar no berimbau, devemos jogar!
3 A luta regional não serve para brigar com outro regional, é bom para os otários… com os colegas nós jogamos a regional…


ORIGEM E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CAPOEIRA

A. A. Decanio Filho

O estilo da capoeira depende principalmente, pela própria natureza deste jogo, do toque do berimbau, dos cânticos, do coro e do acompanhamento de palmas pela assistência, além do estado de espírito dos parceiros na roda.
No estado atual de evolução da "regional", o ritmo acelerado, o calor das palmas e do coro, obrigam os parceiros a um jogo extremamente rápido, que não permite sequer o gingado correto, dificulta o golpe de vista, impede a execução do movimentos com segurança e a visualização do objetivo do ataque, não permitindo sequer as esquivas e defesas seguras.
A preocupação em soltar os golpes em detrimento das esquivas, do gingado e da sincronia com toque do berimbau, vem deturpando os fundamentos do jogo de capoeira e gerando um estilo violento e potencialmente muito perigoso para os seus praticantes.
Além dos acidentes de maior ou menor gravidade durante a prática da "regional", hoje infelizmente tão freqüentes, encontramos algumas falhas de caráter técnico associadas, que tentaremos enumerar e discutir.
O afastamento excessivo entre os pés, o movimento de balanceio maciço do tronco e fuga para traz, impedem a distribuição do peso do corpo entre os dois pontos de apoio, impedindo os giros de cintura nas esquivas e descidas defensivas durante o gingado.
A falta dos movimentos de esquiva para baixo, negativa e cocorinha, possibilita o emprego dos movimentos de ataque de contra-ataque de membros superiores (socos. galopantes, asfixiantes, bochechos, telefone, etc.), mais fáceis e mais violentos, porém contrários à natureza e aos princípios éticos da capoeira.
A violência é decorrente da falta do gingado, da atitude mental de ataque, subseqüentes ao ritmo excessivamente rápido dos toque de berimbau, levam a um jogo a extremamente agressivo, impedindo o floreio e as esquivas típicas da capoeira.
Dentre os movimentos de esquiva destacamos a falta da cocorinha, movimento muito apropriado para a prática da rasteira, outro elemento pouco encontradiço nos jogos atuais.
Um defeito que estamos observando na cocorinha é aquele do apoio nas pontas dos pés, em lugar do assentamento das suas plantas no solo, como recomendava Bimba, que além de melhor apoio, produz o alongamento dos músculos das panturrilhas, melhorando a flexibilidade dos movimentos e a agilidade.
Outro defeito é a queda para traz durante a cocorinha, em  "queda de quatro"   ou "movimento de aranha", sempre condenado pelo Mestre, que, além de tornar os deslocamentos e esquivas lentos, expõe o peito e ventre indefesos aos ataques mais violentos do parceiro.
A defesa por bloqueio, adquirida do karatê e jiujitsu, em lugar da defensiva por esquiva acompanhando a direção do ataque e proteção do alvo pela mão em movimento, enrijece o corpo, diminui a agilidade e propicia maior impacto ao receber o golpe traumático.
O afastamento excessivo entre os parceiros permite movimentos violentos, descontrolados, despropositados, inócuos por não poderem atingir o alvo dado o distanciamento, porém que ao alcançarem, acidentalmente, pontos vitais podem causar lesões graves ou morte.
Perdemos assim o carater festivo da capoeira antiga e evoluimos (?) para um estilo mórbido, capaz de gerar a morte de parceiros que deviam estar irmanados por um esporte tão belo e pacífico.
A propósito da prevenção dos acidentes e óbitos, devemos lembrar os conselhos encontrados em "A herança de Pastinha" que transcrevemos a seguir.

1.4.21 – "aprender municiosamente às regras da capoeira"

"… todos aqueles que queira se dedicar a esse esporte, que como capoeirísta; quer como juiz? Deve procurar municiosamente ás regras da capoeira de angola"; para que possa falar ou dicidir com autoridade. Infelizmente grande parte de nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não discambe exesso do vale tudo,"… (8a,15-23;8a,20-23;8b,1-2)

Pastinha sabiamente reitera, é indispensável um código de honra a ser obedecido pelos capoeiristas!  "é o controle do jogo", pelo juiz, pelas regras, regulamentos e "pelo ritmo da orquestra", que evita a violência e os acidentes" .
Vale a repetição!

1.4.22 – "a capoeira vem amofinando-se"

… "e a capoeira vem amofinando-se quando no passado ela era violenta, muitos mestres, e outros nos chamavam atensão, quando não estava no ritimo, esplicava com decencia, e dava-nos educação dentro do esporte da capoeira, esta é arazão que todos que vieram do passado tem jogo de corpo e ritimo."… (9a,1-9)

Continua a insistência na presença dum juiz, árbitro ou mestre de cerimônia para acompanhar a evolução do jogo e advertir ou interromper a prática,  ante manobras proibidas, perigosas, desobediência ao ritmo do toque, cansaço do atleta, além de garantir a segurança física dos praticantes e da assistência e finalmente, assegurar a beleza do espetáculo!

1.422 – "todos os capoeiristas são maus?!

…"todos os capoeiristas são maus para seus camaradas? Mais não são todos, sim, no meu Centro tenho, e como conheço muitos que são educado; e não procura irritar ao companheiro: sim, é porque o mestre não interessa a irritação, e o procura o jeito que favoresse a prendizagem, o quer aprender rapido, e não tem enfluensia." (11b,6-13)

Na capoeira, como em todos os grupos sociais, encontramos os que semeiam a discórdia, a violência, alguns por falta de educação,  outros por doença mental   ou espiritual?! Coitados!

A maioria da juventude é sempre boa, generosa, não sofre as "influências" dos maus, disse o Mestre!

1.4.39 – "Não é permitido"

", por mestre nenhum, se ele mestre for conhecedor das regras da capoeira, não consentir jogar em roda, ou grupo sem fiscal, se não tem como pode ter controle, quem ajuda o campo? não pode entra em combate sem chegar sua vez. Todos os capoeiristas tem por dever obder <obedecer> as regras do seu esporte, cooperando para valorizar, porque, somos responsavel pelos erros, no causo de disputa, ou dezafio, procurar as autoridade é um juiz." (11b,13-23;12a,1)

A insistência do velho mestre na obediência aos regulamentos e regras, na submissão ao árbitrodurante o desenrolar do jogo, coibindo assim os abusos, frutos do entusiasmo, do calor da disputa, de diferenças pessoais, atinge aqui o seu ponto mais alto.

1.4.40 – "não dever ser aplicado"

"Não deve ser aplicado <movimento proibido> e nem forçar o seu companheiro para obter recursos <vantagens> é erros gravissimo, esta sujeito o fiscal suspender o jogo." (12a,1-4)

O reforço da autoridade do juiz, aqui chamado de "fiscal",   permite a interrupção do jogo para proteger a integridade física dos participantes. "é fau"!

1.4.41 – "É proibido no jogo"

…"É proibido no jogo e prinsiparmente em baixo, fonsional<aplicar, usar, empregar> golpes, ou truque, não por, é fau.Os golpes que não pode ser fonsionado em Demonstração; golpes de pescoço", dedo nos olhos," cabeçada solta," cabeçada presa," meia lua baixa," Balão a coitado," rabo de arraia," Tesoura fechada," chibata de clacanhar," chibata de peito de pé," meia lua virada," duas meia lua num lugar só," pulo mortal," virada no corpo com presa de calcanhar, presa de cintura," Balão na boca da calça," golpes de joelho e nem truques." (12a,4-16)

Rol dos golpes proibidos, especialmente em demonstrações ou jogos públicos, pelo risco do entusiasmo dos oponentes  ou pela tradição.

2.4.42 – "é

"Todos os mestres tem por dever fazer ciente que é falta usar as mãos no seu adversario; se não fizer assim, não prova ser mestre, os que tem educação prova a sua decensia jogando com seu camarada e não procura conquista para enporcalhar seu companheiro, já é tempo de compreender, ajudar do seu esporte, é a judar a moralisar; levantar a capoeira, que já estava decrecendo." (12b,1-10)

Aparece aqui a única diferença entre os estilos de Bimba e Pastinha… Bimba ao criar um sistema de ensino da capoeira, instrumento de luta, abandonou a tradição de não usar golpes traumáticos de mão. Permissão estendida aos balões e projeções, bem aceitos, estimulados, pela difusão das técnica orientais no meio social em que pontificava.

1.4.31 -"para a valentia"

"Não queiram a prender a capoeira para valentia, mais sim, para a defeza de sua intregridade fisica, pois um dia, pode ter necessidade de usa-la para sua defeza. Cuja defeza é contra a qualquer agressor, que venha-lhe ao encontro com navalha, faca, foice e outras armas."  (10b,17-23)

A defesa pessoal resulta dos reflexos desenvolvidos ao longo dos treinamentos diários, depende de tempo e persistência… Como a sabedoria dos mais velhos,  escondida sob o manto dos cabelos brancos, surge, não se sabe donde, nem como,  e nos surpreende na hora certa!
Não se aprende com violência e descontrole… "a pressa é inimiga da perfeição!"

1.5.6 – "a capoeira está dividida e, trez parte"

"note bem, amigo… a capoeira está dividida em trez parte, a primeira é a comum, é esta que vêr ao publico, a segunda e a terceira, é rezervada no eu de quem aprendeu, e é rezervada com segredo, e depende de p tempo para aprender. a prova está no conhecimento da capoeira do passado, e do prezente, a do passado era violenta era violenta, para malandragem, e a de hoje, é como todos verem, rezevamos a mizeria, pela Democracia. nos queremos divirtimento. E tudo mas depende da raça, de quem aprende a capoeira; e a minha raça ja envelheceu, tambem sou tradicional, vivo na Historia da capoeira; e amo ela,"… (14b,8-23)

As três faces da capoeira. aqui referidas são

  • a manifestação exterior, o jogo, aparente, exposta a todos presentes, visível nos treinos – mesmo nos chamados "secretos", nas exibições, nas demonstrações. A parte física, corporal, material. "Yin", diriam os orientais!
  • as duas restantes são invisíveis, sutis, subjetivas, escondidas "no eu de quem aprendeu" "Yang" na linguagem oriental! O inconsciente e o subconsciente capoeirano! O  "istinto" nas palavras de Bimba! As partes secretas, " rezervadas", disse Pastinha.  E assim devem ser preservadas!

Uma é mais superficial, psicomotora, os reflexos de defesa,   a manha, a malícia. A outra é mais profunda, filosófica, mística,a modificação do modo de viver, "O Axé da Capoeira!", diria minha Ialorixá Konderenê! "Taoista!",   diria LaoTsé!

2.2.4 – "Destruir os falsos princípios

"Eu nada aceito, que me venha destruir a teorias arquitetadas, é dever destruir os falsos principios que não constituiram ensinamento: …"(69a,6-10)

Sábia advertência aos que procuram inovar sem respeitar as tradições, sem conhecer a razão dos rituais, sem conhecer a cultura dos povos que trouxeram os fundamentos musicais  e místicos da capoeira!
É indispensável estudar a evolução da capoeira, desde as tradições orais africanas, preservadas em nossa cultura pelos seus descendentes até nossos dias, para resguardar o seu precioso valor!

2.2.5 – "procure os bons mestres"

"Todo ser sabio, procure os bons mestres, e va igualar a esse, porque não é aprendiz dos falso ensino; nào possuem em compensação a vaidade, nem orgulho, porque tudo que ele ensina; não é errado: eles tem experiença, e esta observando." (69a,13-17)

Procurar bons mestres para não aprender falsos princípios, nem servir de pasto ao orgulho e à vaidade dos falsos mestres!
Sábias palavras! Capazes de impedir o retorno à barbaria do circo romano, dando a volta por cima do mundo que Deus quis fosse belo e amoroso, diria nosso Mestre Pastinha.
"Eu tirei a capoeira de baixo da pata do boi e vocês estão jogando fora de novo! Não foi isso que eu criei e deixei de herança para vocês!" exclamaria nosso Mestre Bimba, triste e inconformado!


A RASTEIRA NA CAPOEIRA

Lúcia Palmares – Paris/França

Ultimamente, na capoeira no São Paulo e ainda mais na Europa, lamento a quase-disaparição da rasteira. A rasteira foi um símbolo de perícia dos capoeiristas.Era motivo de horas de treinamento na academia. Para conseguir o sucesso de colocar uma rasteira certeira, os capoeiristas trabalhavam o parceiro; existia o floreio, a ginga, as "enganações" que fazem parte da capoeira. Não devemos deixar sumir coisa tão importante da capoeira.
Lembro de um caso que demonstra como considerada era a rasteira, no tempo ainda recente que eu treinava na academia de Mestre Nô.
Um certo aluno, formado depois de anos de aprendizagem, considerou que, com a sua forma física e sua experiência, superava o seu mestre. Desafiou o mestre Nô num sábado a frente de todos os alunos e de diversas visitas. Nô foi para a roda, dizendo que se perdia, ia embora, deixando o aluno senhor da academia. Começou o jogo, num compasso médio, sem cantiga, e demorou bastante tempo. Havia muita tensão; quem tocava, tocava, os demais permaneciam silenciosos.
Havia momentos de superioridade de um sobre outro, e depois virava a vantagem. Nô cozinhou o aluno até dar uma rasteira fantástica que pegou nas duas pernas e mandou o aluno com as nádegas no chão. O aluno com raiva tentou partir para murros, mas os outros impediram. Ele, no final, ficou tão desgostoso que abandonou a capoeira.
É um caso entre muitos que eu vi, que dá para comprovar a importância simbólica da rasteira na capoeira.
Quem não lembra do talento do mestre Canjiquinha, de Um-por-Um (da Massaranduba), de Marcos "Alabama", na rasteira?
Nos batizados, a conclusão do jogo do novato era a derrubada com rasteira, excluindo outras formas de desequilibrantes.
Hoje vemos capoeiras que se dizem excepcionais não conseguirem dar uma rasteira nos alunos que se batizam. Vemos as intimidações dos capoeiras aos novatos, e golpes traumatizantes e balões efetuados sem técnica para derrubá-los. É lamentável ver que a nova geração de capoeiras tem elementos que não se orgulham numa técnica, e ficam tão inseguros na sua arte, que não abrem o jogo (mesmo que fosse no intuito de derrubar) para principiantes de uns meses de treinamento. Quem está assistindo de longe, vê as oportunidades que eles tem de fazer. Eles não o fazem, preferindo os movimentos violentos, para tristeza dos presentes, sejam eles alunos, parentes ou espectadores que conhecem a arte.
Parece, então, que a rasteira saiu do cardápio de muitos capoeiristas. Por que?
Será que novos métodos de treinamento excluíram a rasteira? Será que não faz parte da capoeira moderna? Será que a rasteira exige demais destes novos donos da capoeira? A rasteira pede muita consciência do outro. Assim que já notei, é preciso trabalhar, cozinhar bastante o oponente para que este se jogue num golpe decisivo… que acaba na própria derrubada. É o parecer de um mestre; mas precisa de cabeça, e de tempo.
Os jogos que assistimos tem por objetivo principal de mostrar movimentos. Sejam agressivos ou acrobáticos, não importa, os movimentos superam na mente dos jogadores a tática, a perícia na arte de manobrar o outro.
Em geral, concordamos com os que acham, como mestre Decanio, que o compasso rápido demais e a vontade de se impor num "vale tudo" prejudicam o jogo da capoeira, tirando a ginga, a rasteira, tudo que faz a beleza da nossa arte.
Se, como suponho, a capoeira da Bahia tem alguma coisa para ensinar ao mundo, (em prática para os nossos alunos europeus), é justamente esta coisa original. Por isso, não podemos aceitar ver um elemento fundamental como a rasteira desprezado.
Por isso, desenvolvemos um trabalho básico com nossos alunos, sejam homens ou mulheres, fracos ou fortes, novos ou velhos, no sentido de uma capoeira que se importa com o outro, parceiro e adversário no mesmo tempo.

NOTA: Lúcia Palmares é enfermeira, baiana, nascida em Salvador em 15/5/1955. Foi aluna de capoeira de Norival Moreira de Oliveira, o Mestre Nô, na academia Orixás da Bahia na Massaranduba, a partir de 1971 e recebeu o cordão de professor em 1979. Ensinou na academia Centro Suburbano de Capoeira (rua 2 de Julho, 19, Alto de Coutos) do Mestre Dinelson, de 1980 a 1990. Em 1987 recebeu o cordel de Contra-Mestre entregue pelo Mestre Nô. Em 1992 saiu de Salvador, foi para Santos (SP) continuou ensinando a capoeira trabalhando numa ONG. Em 1995 se mudou para a França. Hoje está começando novo grupo em Paris e pesquisando os aspectos culturais da capoeira. Poderá ser contatada pelo e-mail: polbrian@worldnet.fr


TREINAMENTO ESPECIAL DE RASTEIRA

A. A. Decanio Filho

  • Importância da posição inicial
    Da postura inicial do atacante dependerão principalmente a potência e a velocidade do movimento ou seja o desequilíbrio e a impulsão transmitidos ao objetivo deste movimento. Além do que o desenvolvimento ou a forma de aplicação da rasteira modificar-se-á consoante a postura inicial do seu executante, independentemente da oportunidade de aplicação e da posição do alvo.
  • Posições iniciais
    A rasteira poderá ser aplicada a partir de postura alta ou ortostática, baixa (com ou sem apoio de membro superior no solo) e em grau variável de agachamento.
    O uso mais generalizado é a partir duma postura semi-agachada, durante um esquiva descendente.
    O seu emprego em ortóstase, embora tecnicamente mais difícil, é muito rápido, seguro, eficiente, inesperado e de certo modo, mais potente; com a vantagem de preparar o praticante para o uso da dourada e das bandas (de frente e traçada).
  • O gancho do pé
    A posição do pé é em forma de gancho em torno do ponto de aplicação da rasteira (colocar fotografia em vários ângulos)
  • A flexão do joelho
    O joelho
    semifletido aumenta muito a eficiência do golpe, possibilitando o uso simultâneo da musculatura da perna do atacante, auxiliando o deslocamento do da base de apoio do adversário para diante e provocando seu desequilíbrio para trás, enquanto reduz o percurso do movimento do autor.
  • O calço da perna na rasteira em ortóstase
    Durante a aplicação da rasteira em pé (ortóstase), a flexão dorsal do pé em gancho com flexão simultânea do joelho, encosta a porção distal (a mais baixa) da perna do atacante naquela do atacado trava seus movimentos de fuga, enquanto assegura um contato mais firme do pé atacante com seu alvo.
  • Exercício de rasteira em tração de alça de borracha
    A tração, na direção do movimento da rasteira, duma alça de borracha de soro com cerca 0,8 M de extensão, enlaçada no tornozelo do treinando, desenvolve toda a musculatura empregada neste golpe e obriga o praticante a usar todo o corpo nesta impulsão. (Usar fotografia esclarecedora)
  • Rasteira em cepo
    Um pequeno cepo, confeccionado com tronco de madeira pesada, cerca de 0,30 M de diâmetro, com superfícies de corte paralelas, fica suficientemente pesado e equilibrado para ser arrastado com algum esforço num movimento de rasteira para desenvolver a potência muscular e o jeito indispensáveis a execução duma rasteira eficiente. Com a evolução da força e eficiência do praticante o peso e as dimensões deverão variar proporcionalmente.

Rasteira em parceiro sustentado

Um companheiro bem pesado e bem apoiado no solo com as pernas entreabertas, sustentado por trás e pelas axilas por um outro colega, deve ser arrastado e levantado pela rasteira.

Este mesmo método pode ser usado para aperfeiçoamento da "banda-traçada", da "dourada" e da "vingativa de laço", magistralmente praticadas pelo Dr. Cisnando.
Como alternativa podemos usar uma trave de madeira ou ferro, ou ainda uma corda grossa com nós para facilitar a pegada, em o parceiro se segura com as mãos para evitar a queda.
De modo semelhante podemos pendurar um saco forte, com cerca de 1 M de altura, cheio de areia, apoiado pelo fundo no chão para que seja deslocado com a rasteira, dourada, vingativa, banda-de costa ou banda traçada.

Rasteira em parceiro em guarda alta

Em qualquer oportunidade adequada, desde que haja tempo para a aplicação deste golpe desequilibrante, a rasteira poderá ser praticada.
Aqueles que desejarem se aperfeiçoar neste movimento podem fazer treinamento especial em um dos parceiros se abrigue a apenas a esquiva e aplicar rasteiras, enquanto o seu companheiro aplica os golpes que quiser.
Treinamento que deverá ser reservado aos formados de melhor desenvolvimento técnico.

Rasteira em armada solta

Um dos parceiros vai aplicando as armadas soltas enquanto o outro procura derruba-lo com rasteiras, sempre se esquivando em descenso na direção do golpe atacante.
Inicialmente os ataques devem ser mais lentos para desenvolver o golpe de vista, porém a velocidade deverá aumentar progressivamente consoante o grau de aprendizado dos participantes.
Num tempo mais avançado o treino da aplicação da rasteira deverá ser feito durante uma volta comum em que os parceiros jogam sem acerto prévio, procurando cada qual aproveitar a oportunidade de usar a rasteira durante a defesa duma armada solta aplicada por qualquer um dos dois.

  • Rasteira em meia-lua de frente
    O treinamento da rasteira durante a esquiva em defesa duma meia-lua de frente fez parte do treinamento avançado dos capoeiristas do meu tempo.
    É uma manobra muito boa em defesa pessoal, sobretudo porque o aplicador da mlf é pego de surpresa e perde a moral. Poderá ser praticada em parceiro bem treinado em cair sem se machucar ou sustentado por um ou dois companheiros para evitar a queda.
  • Rasteira em queixada
    As anotações anteriores são extensivas a este tópico.
  • Rasteira em martelo
    Todos os comentários a propósito da rasteira em mlf são adequados ao seu treinamento em defesa de martelo, sobretudo porque o atacante com martelo certamente cairá muito mal, dada a natureza deste golpe. Sua aplicação na prática exige muito velocidade portanto um treinamento prolongado. Evidentemente a esquiva descendente deverá ser feita na direção do golpe atacante, com muita velocidade, procurando se aproximar do atacante e sob proteção do membro superior (como na descida em cocorinha) para evitar o perigo do martelo atingir a cabeça do defensor.
  • Rasteira em galopante, asfixiante, "jab" e soco direto
    Da leitura dos tópicos anterior conclui-se facilmente a aplicação dos métodos enunciados aos ataque com os membros superiores.
  • importante é a repetição iterativa inicial, seguida dum treinamento mais avançado em que um dos parceiros desempenha o papel de agressor enquanto o outro apenas se defende e contra-ataca, para alcançar o estágio final em que ataque e defesa são improvisos.

Mestre Bimba

Mestre Bimba

No dia 23 de novembro de 1899 nasceu no bairro de Engenho Velho, freguesia de Brotas, cidade de Salvador, Bahia, Manoel dos Reis Machado. Teve como pai Luís Cândido Machado, caboclo de Feira de Santana. Sua mãe, Maria Martinha do Bonfim, era uma crioula de Cachoeira.
Logo ao nascer o garoto ganhou um nome que se tornaria símbolo e sinônimo da Capoeira. Isso graças a uma frase dita à hora do parto: – olha a bimbinha dele! Esta exclamação definiu o resultado de uma aposta entre a mãe da criança – que imaginava uma menina – e a parteira, que previra um menino. Ninguém seria capaz de pensar, naquele momento, que Bimba passaria a ser um nome destinado a acompanhar o futuro capoeira em sua entrada na história do jogo.
O aprendizado de lutas se iniciou com o pai, à época famoso lutador de batuque – uma antiga forma de luta negra. Aos 12 anos começou a aprender Capoeira com o africano Bentinho, capitão da Cia. de Navegação Bahiana.
Segundo suas palavras, o sistema de aulas à época era bastante violento. As rodas eram formadas na Estrada das Boiadas (atual bairro da Liberdade), em Salvador, num ritmo bravio ao som do berimbau. Mestre Bimba costumava recordar um golpe formidável aplicado por Bentinho, que o acertara na cabeça, provocando um desmaio até o dia seguinte…
Seu trabalho como mestre-capoeira iria distinguir-se pela divulgação do jogo em todos os recantos do país e a elaboração de um sistema próprio de treinamento e transmissão dos conhecimentos e técnicas do jogo: a Capoeira Regional Bahiana.
Graças aos seus esforços foi aberta a primeira Academia de Capoeira com autorização oficial. Esta seria a forma adotada por inúmeros mestres para obter e legalizar um espaço, onde a prática do jogo não sofreria o perigo de perseguições. Afinal, era o ano de 1937 e o país vivia sob uma ditadura – período que sempre se destaca pela generalização
das arbitrariedade e cometimento de toda sorte de violências pelos detentores do poder.
E o que era tolerado em um dia poderia ser reprimido no outro.
Em sua vida Bimba foi trapicheiro, doqueiro, carroceiro, carpinteiro. Mas acima de qualquer coisa e por todo o tempo, mestre de capoeira. Um dos maiores nomes deste ofício.
Ninguém melhor que um contemporâneo de Bimba para descrevê-lo brincando a Capoeira. Ramagem Badaró – de conhecida família bahiana da zona de cultivo do cacau, que foi enfocada por Jorge Amado em Terras do Sem Fim -, jornalista, advogado e escritor, autor do romance O Sol, deixou interessante relato acerca do mestre, no artigo intitulado
‘Os negros lutam suas lutas misteriosas; Bimba é o grande rei negro do misterioso rito africano’, publicado em Saga – magazine das Américas, no ano de 1944, em Salvador.
"Tinha uma difícil missão a cumprir. Encontrar um assunto para uma reportagem que não fosse sobre guerras, suicídios ou crime. Um assunto diferente que não proviesse da fonte comum de todas as reportagens da cidade. Das delegacias de polícia, do Necrotério ou da Assistência.
Porque os casos de delegacia são sempre os mesmos: roubo, crime e sedução. Os de Necrotério são anacrônicos e os de Assistência, banalíssimos. ‘Estava nesse dilema, quando passou um negro de andar gingante de capoeira. Tinha resolvido o problema. Lembrei-me de mestre Bimba e da velha Roça do Lobo. Fui até o bairro elegante dos Barris, em cujos flancos se derramam em desordem as casas de taipa da vala do Dique. Presépios de palha da miséria sem esperança dos homens do povo. Quando comecei a descer pela picada aberta na ladeira pelos pés
descalços e calosos daquela gente que nasce com o atavismo dos párias e a herança do infortúnio, já os sons dos berimbaus traziam aos meus ouvidos o cartão de Boas Vindas do terreiro de mestre Bimba.
Continuei descendo, até que de repente o caminho se alargou e se confundiu com o terreiro onde os homens lutavam Capoeira. O povo formava um círculo ao redor dos dois homens lutando.
Jogando Capoeira no centro do círculo.
‘O berimbau batia compassadamente, tin-tin-tin… tin-tin-tin… tin-tin-tin…
enquanto os homens pulavam, caíam, levantavam-se num salto e deixavam-se cair outra vez, se golpeando mutuamente. O povo batia palmas acompanhando a música dos berimbaus e cantando
o estribilho da Capoeira:

Zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um…
Caí também no meio da turma e comecei a bater palmas e a tentar cantar o zum, zum da Capoeira (…)."
Badaró narra o instante que precede a entrada do mestre Bimba no jogo e a emoção que tomou conta dos espectadores.
"De súbito, o tin-tin nervoso dos berimbaus sumiu, calou-se, parou. Os berimbaus deixaram de tocar.
Os homens que estavam lutando também pararam. Com as roupas molhadas de suor desenhando nas dobras
do corpo os músculos possantes.
Os assistentes aplaudiram os homens que tinham acabado de lutar. E eles cantaram um corrido, agradecendo os aplausos.

Ai-ai de lelô
Iem-ien de lalá
Adeus meus irmãos
Nós vamos rezar
‘Nesse momento gritaram:
– Mestre Bimba vai lutar!
‘Todo mundo se voltou para trás, batendo palmas e gritando.
– Mestre Bimba… mestre… viva… viva… vivôôôôôô.
‘Um preto agigantado entrou no círculo formado pelo povo. Sorrindo. A multidão aplaudiu com mais força.

  

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