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Em busca do grupo perfeito…

Certa feita uma mãe, que havia sido praticante de capoeira, resolveu sair em busca do grupo ideal para seu filho, logo na primeira esquina percebeu uma academia com grande propaganda de aulas de capoeira. Em sua chegada ao local havia uma escada que dava acesso ao pavimento superior, onde funcionavam as aulas de capoeira. A escada era toda enfeitada com muitas fotos e banners com imagens de homens musculosos sem camisa executando movimentos aéreos, alongados e na maioria das vezes, com expressões faciais simulando raiva ou dor.

A mãe pensou:  …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira…..    Já no piso superior, a mãe notou que havia uma pessoa dando aula para muitas outras, na sala havia uma musica muito alta e com ritmo acelerado, as pessoas estavam perfiladas, todas de frente para um homem musculoso e com uma roupa cheia de marcas, como um estandarte humano de propaganda. Este homem também conduzia a aula com gritos fortes, palavras de ordem e uma voz intimidadora de grande expressão.  A mãe pensou:  …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira…..

A mãe, de forma paciente, aguardou o termino da aula e dirigiu-se para falar com o professor, inicialmente a mãe lhe perguntou: Que estilo de capoeira se pratica aqui, pois estou procurando um bom grupo para meu filho? O professor então, com um sorriso largo e simpático, tomou um gole de um isotônico famoso, da mesma marca que estava estampada em seu uniforme e disse: …Aqui nos praticamos a capoeira moderna, uma capoeira mais ágil, forte, bonita e acima de tudo, muito eficiente como luta……   A senhora já ouviu falar em Anderson Silva, campeão do UFC?  Antes da mãe responder o professor continuou: …..Pois então, como estou lhe dizendo, a capoeira hoje já esta ate no vale tudo e aqui nos ensinamos de tudo…. Pode ficar tranquila, aqui seu filho vai aprender a ser homem, pois eu mesmo vou acompanha-lo de perto, ensinando-lhe desde o nosso aperto de mão oficial de nosso grupo ate as melhores técnicas de finalização em situações de jogo mais duro. Aqui com certeza vamos coloca-lo no eixo e ele ainda estará pronto para resolver qualquer situação nas ruas.

A mãe agradeceu ao professor pela explicação e de maneira educada foi se despedindo e se afastando, quando o professor lhe disse: E sobre seu filho, quando a senhora ira traze-lo para fazer a matricula?….Tenha muito cuidado, pois os grupos de capoeira desta região não são bons…O nosso esta mais preparado para atende-la, pois temos muitas filiais espalhadas pelo mundo e eu ainda sou professor de Educação Física…..  A mãe, que já não suportava mais ficar calada, educadamente pediu um minuto de atenção ao professor, sentou-se em um local mais reservado com o mesmo e lhe disse: … Professor, como se chama? Ele respondeu:… Sou conhecido nas rodas como “Xicara sem alça”…   A mãe disse: … Muito prazer senhor Xicara…  Quero lhe agradecer novamente pelas explicações, mas não tenho intenção de matricular meu filho aqui, pois fiquei imaginando como se sente um parafuso torto recebendo marteladas para ficar no eixo….Com certeza, se o parafuso pudesse falar diria ..AI AI…Está doendo, e como meu filho pode falar, iria incomodar muito o senhor com seus gritos…. Sobre a parte da eficiência técnica para luta, penso que não será necessária para ele, pois tenho ensinado para meu filho que a melhor maneira de lidar com os conflitos será sempre o dialogo e por incrível que pareça, aprendi isso com um capoeira chamado Joao Pequeno de Pastinha, mas com certeza o senhor não deve conhece-lo, pois …..esta capoeira aqui esta diferente daquela que pratiquei, mas talvez seja porque estou muitos anos sem praticar e isso tudo represente a evolução da capoeira….. A mãe continuou …Gostaria de encontrar um grupo para meu filho que fosse capaz de ensina-lo  a conviver com a diversidade e aqui o senhor me disse que ate o aperto de mão esta padronizado. Quero um grupo em que meu filho possa desenvolver sua individualidade na relação com o coletivo e que acima de tudo SEJA FELIZ…..Quando vi a forma que o senhor ensina, percebi logo que o senhor conhecia uma parte da Educação Física tecnicista, pois também sou professora de Educação Física, contudo, penso que este método adotado aqui não esta de acordo com a ancestralidade da capoeira, pois mata a autonomia e diminui o poder de criatividade e criticidade dos educandos, portanto professor “Xicara”, recomendo ao senhor que estude mais sobre a capoeira e os antigos Mestres e só depois tente verificar, qual corrente metodológica da Educação Física será mais apropriada para cumprir nossa tarefa ancestral com a capoeira.

O professor “Xicara sem alça” ficou em silencio, ainda perplexo com tudo que havia escutado da simples mãe. A mãe despediu-se e com um sorriso feliz, desejou ao professor um bom dia e lhe fez um ultimo pedido. Que buscasse os mais antigos e com eles tentasse entender o significado de SER capoeira, pois o objetivo principal da capoeira, como pratica humana, sempre será levar felicidade aos seus praticantes, independente de estilos e formatações mercadológicas, pois se esta capoeira atual representa a evolução, tenho medo de como será no tempo de meus netos.

A historinha acima, mesmo que de maneira fantasiosa, ilustra bem os conflitos vividos na capoeira nos dias de hoje, assim precisamos ficar atentos para não reforçarmos o “opressor” que vive sendo “gestado” internamente, por conta de nossa formação tradicional, adestradora e comercial.

 

Fraternalmente..

Mestre Jean Pangolin

 

“Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”
Nemo Nox

Jean Adriano Barros da Silva
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Escravidão

A ESCRAVIDÃO NA ÁFRICA

A escravidão, na África, começa com seu próprio povo; as tribos brigavam entre si, e as populações derrotadas, nestas guerras, serviam como recompensa. Os derrotados viravam escravos, para servirem ali mesmo ou para serem embarcados para outras regiões. Havia guerras com o exclusivo fim de produzir cativos; o reino do Sego, a confederação Ashanti, o reino do Dahomé e as cidades-estados iorubas foram nações escravizadoras, que anualmente, lançavam seus exércitos em operações de envergadura. Guerreiros promoviam rápidos ataques nos territórios vizinhos, onde aprisionavam um punhado de aldeãos. As operações escravizadoras destruíam e desorganizavam a produção artesanal e pastoril de comunidades inteiras, fora as perdas de vidas motivadas pelos combates. Para cada africano desembarcado vivo nas Américas, dois outros teriam morrido, na África ou em alto mar, em decorrência das violências, diretas ou não movidas pelo tráfico.

Eram muitos os caminhos que levavam um africano ao cativeiro. Uma enorme quantidade de cativos vendidos aos escravistas resultava do seqüestro furtivo de crianças e jovens por africanos em busca de lucro fácil. Crianças eram trocadas pelos pais, em momentos de carestia, por alimentos. Africanos viciados em jogos de azar perdiam filhos, esposas e a própria liberdade em apostas. A justiça africana também foi responsável pelo envio de milhares de homens e mulheres ao cativeiro. Inúmeros atos eram punidos com a perda da liberdade e com a venda do culpado. Um criminoso era entregue aos parentes do falecido para ser vendido. O adultero passava a ser propriedade do marido traído, os casais espertos faziam verdadeiras armadilhas à jovens inexperientes, que pegos se transformavam em escravos. Homens e mulheres acusados de feitiçaria, o roubo, dividas não pagas, em fim qualquer tipo de delito faziam com que estes indivíduos virassem parte da carga de um tumbeiro.

O TRÁFICO

Terminada a compra dos cativos, os negreiros começavam os preparativos para travessia atlântica. Os alimentos e a água eram embarcados em quantidades mínimas. O espaço útil se destinava a ser atulhado de escravos. Um copo de água a cada três dias, para alguns capitães, era suficiente para manter em vida, por meses, um negro. Eram comuns as lutas e disputas nos porões escuros dos navios, por um pouco de espaço. Como mercadorias, antes de subirem aos navios os negros eram carimbados. Sinetes de ferro ardente marcavam os braços, as nádegas, os rostos ou qualquer outra parte do corpo o sinal do proprietário ou da nação escravista. Negros aterrorizados jogavam-se ao mar ou organizavam desesperadas revoltas. Cativos negavam-se a comer, e enlouqueciam. Os negreiros encerravam os cativos nos porões, quando da partida dos tumbeiros. O que além de prevenir desesperadas rebeliões, impedia que os negros vissem como se manobravam os navios. Nos movimentos de revoltas, dentro dos navios, os chefes identificados, eram torturados e executados. Houve revoltas que levaram à destruição dos navios e à morte dos tripulantes e escravos.

Os primeiros africanos foram transportados em caravelas ou naus; e as mais variadas embarcações – charruas, carrancas, patachos, chumacas etc. começaram a ser utilizadas como tumbeiros, e transportavam em média de 100 a 400 indivíduos. Já no final do séc. XIX, eram usados modernos navios a vapor com capacidade para transportar até 1.000 escravos. Era altíssima a mortalidade de escravos transportados por estas embarcações, a taxa de mortalidade chagava a 14% do total, pois uma viagem da costa ocidental ao Brasil durava de 30 a 40 dias; e os navios que partiam de Moçambique viajavam em torno de 2 meses.
Embarcados os cativos eram alimentados duas vezes ao dia, pela manhã por voltas das 10 horas e das 4 horas da tarde, quando recebiam para comer arroz, farinha de mandioca, feijão, milho e pequena quantidade de peixe salgado. Geralmente os alimentos eram mal preparados e sem temperos, os cativos sofriam, então, de vômitos e disenteria durante e após a travessia. Como os escravos doentes defecavam, urinavam e vomitavam sem que pudessem aproximar-se das precárias latrinas ou dos baldes; mandavam-se lavar, duas vezes por semana, as cobertas com vinagre ou água do mar; mesmo assim, na chegada dos navios se constatava um fedor aterrorizante que escandalizavam os espectadores nos portos. Os homens nus, os sexos desproporcionadamente grandes nos corpos magérrimos, a balançarem entre as pernas; as mulheres curvadas, esqueléticas, os peitos caídos, as barrigas chupadas, as crianças, pequenos zumbis, só olhos e pescoço.

Os tumbeiros saídos da costa da África aportavam no Brasil, após uma viagem que variava de 30 a 40 dias, e os provenientes de Moçambique, por diversos motivos, chegavam a demorar quatro meses no mar. O sofrimento e a mortalidade da carga, em um e outro caso, diferiam significativamente. Muitas vezes, ao avistarem a costa, até os negros batiam palmas e cantavam de contentamento. Terminava a viagem infernal. Nas proximidades dos portos, os negreiros sentiam-se mais seguros, distribuíam as reservas de água e de alimentos, permitiam que os cativos permanecessem mais tempo ao ar livre. Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Luis eram os portos que recebiam os navios chegados da África, quando estes não se dirigissem diretamente para os portos Rio Grande (RS), Desterro, Belém e outros.

A ESCRAVIDÃO NO BRASIL

No ano de 1432 o navegador português Gil Eanes introduziu em Portugal a primeira leva de negros escravos, e a partir desta época os portugueses passaram a traficar os escravos com as ilhas Madeiras e em Porto Santo, logo levaram o negro para os Açores e depois para Cabo Verde e finalmente para o Brasil.

A primeira expedição colonizadora chegou ao Brasil em 1532, dando inicio à escravatura, que se desenvolveu em solo brasileiro em função da estrutura econômica e social do regime colonialista. A principio os índios foram à mão-de-obra escrava mais usada. Em seguida começaram a chegar ao Brasil os primeiros escravos vindos da África; alguns autores datam a chegada dos primeiros escravos em 1532, com a expedição de Martim Afonso de Sousa, e em outros estudos dizem ser por volta de 1550; independente de datas, o fato é que os navios negreiros aqui chegaram e fizeram deste tráfico a atividade importadora mais lucrativa do comércio exterior brasileiro, dando forças ao cultivo do açúcar, do fumo e do algodão, e também foram absorvidos pela economia mineradora e pelo serviço doméstico.

A escravidão é o regime social definido pela lei como a forma mais absolutamente involuntária de servidão humana, na qual os serviços de um escravo são obtidos pela força, e a pessoa é considerada propriedade de seu dono, o qual dispõe de sua vida; no caso do negro, é um absurdo o fato de transformar uma pessoa num ser inferior apenas por que ela tem outra cor, ou principalmente por que ela tem outra formação, esta escravidão racista transformou o negro em mercadoria, deslocando-o para um lugar estranho ao seu viver, onde não falavam a sua língua, onde não tinham os seus costumes, onde ele foi desumanizado, coisificado, animizado por seu senhor de escravo.

Mesmo sofrendo todas estas injustiças, e todas estas pressões o negro continua um ser humano, e aqui procurou continuar a amar, a ter filhos, a ter amizades, a trabalhar a sua maneira, a manter a sua religião, procurou manter a sua língua, procurou fugir, procurou sabotar o trabalho de seu senhor de escravo, procurou comprar a sua liberdade e procurou construir o seu mundo fora da escravidão. A escravidão só é aceita por quem escraviza.
O negro, na África, era encurralado pelo próprio negro; havia tribos que capturava o inimigo para vender, um Yorubá não considerava um Fon como seu semelhante, o considerava como inimigo e como individuo inferior que podia ser escravizado, e assim também acontecia entre outras tribos inimigas.

O escravo negro era uma mercadoria cara, valia muito dinheiro; e havia recomendações de como carregar os navios, só que a cobiça das pessoas que praticavam o tráfico era tão grande que colocavam nos navios muito mais gente do que cabia, de maneira que havia uma mortandade muito grande dos escravos embarcados. Havia um mercado especial para o escravo jovem, o chamado escravo português ou escravo do ouro, por que era comprado, geralmente, com ouro; e o escravo de boa aparência, de boa qualidade física que tinha entre 17 e 25 anos de idade, valia muito mais do que os outros

Embora toda esta maldade da escravidão, houve casos em que o escravo se afeiçoava ao seu senhor e a família a qual servia, pois mesmo sendo regime de escravidão, é uma relação entre seres humanos; sabe-se de escravo que virou homem de confiança de seu senhor, e até chagava a representá-lo em algumas ocasiões, como na compra e venda de mercadorias, no transporte de seus valores etc..; houve casos de formação de sociedade do escravo com seu dono; claro que estes são fotos raros , havia diferenciação entre o escravo que trabalhava no campo cortando cana e plantando café, e o escravo que estabelecia um determinado tipo de relação pessoal com seus senhores, que podia até ser afetiva; contudo no geral o escravo vivia nas senzalas, quase sempre com excesso de trabalho e em condições precárias de higiene e salubridade, o que reduzia a vida útil à cerca de sete anos nas áreas de açúcar e do ouro. A mentalidade escravocrata era muito difundida na colônia e no império, provocando a desvalorização do trabalho manual e a presença do escravo em quase todas as atividades, como a extração de diamantes, a lavoura do tabaco, o artesanato e o trabalho doméstico.

Escravos e escravas eram também alugados por seus proprietários para a realização de atividades remuneradas, é claro que os valores passavam a seus senhores que compravam mais escravos com o ganho. Admitiam-se casamentos entre escravos e ocorriam também alforrias, quando o escravo era libertado, através de compra da própria liberdade ou por ocasião da morte de seus proprietários.
Os negros eram vendidos por seus sobás (chefes de tribos africanas) aos portugueses, e trazidos para o Brasil, principalmente para as regiões de Pernambuco e Bahia, até meados do séc. XVII; e no inicio do século XVIII seus maiores compradores passaram a ser o Rio de Janeiro e Salvador, e ainda neste mesmo século foram introduzidos nas regiões cafeeiras do Pará e do Maranhão e logo para o sul do Brasil; muitos destes deslocamentos eram feitos a pé, de um estado para o outro.

O grupo mais importante introduzido no Brasil foi o sudanês, que dos mercados de salvador, se espalhou pelo país, deste grupo a etnia mais notável foram os yorubás ou nagôs, da Nigéria, e os Jêjes do Daomé, seguindo-se os minas da costa norte-guineana, além dos tapás, bornus, galinhas, hauças, fulas ou fulanis e os malês ou mandingas. Esta presença comum dos grupos de idioma yorubá explica a maior influencia desta cultura principalmente nos segmentos religiosos . Dentro da própria África, a cultura yorubá predominava do Golfo da Guiné ao Sudão; tinham uma civilização adiantada, os costumes sociais, a organização política e a religião serviam de modelo a muitos outros povos. Os yorubás dominavam bem a agricultura, aliás, boa parte do que sabemos sobre agricultura tropical e sobre o pastoreio extensivo do gado, devemos ao povo africano, que dominava também a lida com o ferro e a produção de um aço de alta qualidade, o artesanato em cobre, madeira e as técnicas de mineração do ouro. É preciso saber que, antes da descoberta do ouro no Peru, no México e no Brasil, sobretudo o grosso do ouro que alimentava o sistema financeiro Europeu, Árabe e Islâmico vinha da África, principalmente de Burê, Bambuc, do País Ashanti, Sofala e Zimbábue, a África era o grande centro produtor de ouro.

Os bantos de Angola, tinham técnicas mais primitivas de agricultura praticadas por mulheres, e os homens criavam gado, e se vestiam com cascas de arvores, já na parte sudoeste, usavam vestimentas de couro e mantinham hábitos de caçadores e usavam armas de ferro; banto é uma família lingüística, ao qual faziam parte, também, os negros do Congo, Guiné e Moçambique; também faziam parte deste grupo os cabindas, benguelas, macuias e angicos. Por não terem nações identificadas e serem misturados de maneira aleatória, os bantos tiveram dificuldades de se integrar culturalmente. Alguns, escravos selecionados pelos senhores de terra, desempenhavam tarefas domésticas, e deste contato próximo, no interior da casa-grande, entre negros bantos e a elite branca que começou a se formar o sincretismo de raças, culturas e idiomas. Muitos hábitos, costumes, linguagem e alimentos do Brasil contemporâneo origina-se na cultura banto.

O negro não apenas povoou o Brasil, mas também contribuiu com o crescimento econômico, com as diversas matrizes culturais que serviram como fonte de desenvolvimento para o nosso país. Em 1830 se faz a proibição do tráfico de escravos no Brasil, porém esta proibição só pega em 1850, e a partir de 1852, não desembarcam mais escravos no Brasil; o último navio negreiro vindo para o país é uma corveta americana que é aprisionada em águas brasileiras; e aí começa haver um tráfico interno no Brasil, os negros começam a serem vendidos para o sul do país, para serem mão de obra na plantação de café; então há um relativo esvaziamento da escravatura no norte e uma grande marcha em direção ao sul; este foi um tráfico pouco estudado, mas extremamente feroz, violento, difícil.
O número de africanos introduzidos no Brasil durante o período superior a três séculos, em que houve a realização do tráfico, estima-se um total de 6.700.000 entrados no Brasil do séc. XVI ao XIX. De uma forma geral o negro era muito mal tratado, as senzalas eram constituídas.

Por uma serie de barracões, pequenos e abafados, com uma só porta e sem janelas, com chão de terra batida, que servia de lugar para dormir; a alimentação era racionada e geralmente eram servidos de feijão, farinha de mandioca e um pedaço de carne seca. Qualquer erro era cobrado com os mais severos castigos, desde a palmatória às chicotadas, que deixavam as costas e nádegas dos negros em carne viva, e ainda colocavam, nas feridas, montes de sal para que a dor se prolongasse por dias, para não ser esquecido o castigo recebido. Por esses motivos e muito mais, logo no inicio do século XVII, cerca de quarenta escravos fugitivos dos engenhos de Pernambuco, chegaram à serra da Barriga. Uma região de solo fértil, com extensas palmeiras; seus novos habitantes por isso deram o nome ao lugar de Palmares. A população dos Palmares, inicialmente era composta de escravos masculinos. Com o decorrer do tempo a aldeia começou a crescer; já havia criação de animais, lavraram-se campos, plantaram milho, feijão e mandioca, que passou a constituir a sua alimentação, além da criação de aves e porcos.

Com o crescimento da aldeia, já com a presença das mulheres, Palmares se transformou no quilombo mais importante da história da escravidão no país. As aldeias eram distanciadas umas das outras, tinham vidas independente, com chefes próprios, a principio estes chefes haviam pertencido à nobreza na África. Seus principais lideres foram Ganga Zuma e Ganga Zona, chefes das aldeias mais importantes, eram tios daquele que mais tarde se tornou o maior chefe dos Palmares, o negro guerreiro chamado Zumbi.
Várias expedições foram organizadas, durante anos, contra Palmares, todas sem sucesso. Palmares torna-se o centro de resistência contra a escravatura, em pleno séc. XVII, os negros eram considerados livres neste local. Outras expedições foram organizadas contra Palmares, e aos poucos iam enfraquecendo os quilombos, mas, apesar de já estarem com menos poder os negros, chefiados por Zumbi, continuam a fazer frente aos ataques inimigos.
Finalmente em seis de fevereiro de 1694, ajudados pelos canhões, os soldados abriram caminho, encurralando os negros contra um precipício. Mesmo ferido Zumbi consegue fugir e só foi aprisionado quase dois anos depois quando um negro, preso no caminho de Recife, em troca da vida, indicou o lugar onde o líder Zumbi estava. No dia vinte de novembro de 1695, Zumbi foi morto, teve sua cabeça decepada, e levada para Recife, por seu algoz, André furtado de Mendonça.

O quilombo dos Palmares, embora tenha sido o mais importante, não foi o único; no séc. XVIII, formaram-se quilombos no Maranhão, em Minas Gerais, às margens do rio das Mortes e em Araxá, todos destruídos.
Em 1807, a Inglaterra aboliu seu tráfico de escravos, e passou a reprimir o tráfico de outros países, inclusive Portugal. Para reconhecer a Independência do Brasil a coroa inglesa exigiu o fim do comércio de escravos, e o Brasil assinou um acordo em 1827, comprometendo-se a acabar com o tráfico de escravos, mas esse acordo não foi cumprido, e o tráfico continuou até 1850. O movimento abolicionista foi crescendo e depois de várias leis paliativas, finalmente foi promulgada a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

A RELIGIÃO DOS ESCRAVOS

Os escravos africanos eram proibidos de praticar suas várias religiões nativas. A igreja Católica Romana deu ordem para que os escravos fossem batizados, e eles deveriam participar da missa e dos sacramentos. Apesar das instituições escravagistas e da igreja, entretanto, foi possível aos escravos, comunicar, transmitir e desenvolver sua cultura e tradições religiosas. Houve vários fatos que nos ajudaram a manter esta continuidade: os vários grupos étnicos continuaram com sua língua materna; havia um certo número de líderes religiosos entre os escravos; e os laços com a África eram mantidos pela chegada constante de novos escravos.

Desde o começo pais e mães de santos buscavam reafricanizar a religião. Isto foi possível em parte, por que a rota dos navios entre a África e o Brasil conservou viva a conexão entre os povos. Isto continuou mesmo depois da abolição da escravatura em 1888. Escravos libertos que puderam viajar para as áreas iorubás foram iniciadas no culto dos orixás e então, ao retornar ao Brasil puderam fundar terreiros e revitalizar a prática religiosa.
A partir da segunda metade do séc. 19, surgiram grupos organizados, que recriavam no Brasil cultos religiosos que reproduziam não somente a religião africana, mas também outros aspectos da sua cultura na África. Nascia a religião afro-brasileira, primeiro na Bahia, conhecida como Candomblé, e depois pelo país afora, recebendo nomes locais como Xangô em Pernambuco, tambor-de-mina no Maranhão e batuque no Rio Grande do Sul. Os principais criadores dessas religiões foram negros de nações Yorubás ou nagôs, especialmente os provenientes de Oyó, Lagos, Queto, Ijexá, Abeocutá e Iquiti, os das nações Fons ou Jêjes, sobretudo os mahis e os daomeanos, e os Bantos de Angola e Congo. Os ritos se desenvolveram na Bahia, em Pernambuco, Alagoas, maranhão, Rio Grande do Sul e, posteriormente no Rio de Janeiro e mais tarde em São Paulo.

As religiões afro-brasileiras ainda carregam os efeitos de sua interação com outras tradições religiosas, especialmente o catolicismo. Os Orixás, Voduns e Inquices, foram justapostos com santos católicos e o interior dos terreiros possuía numerosos elementos católicos, incluindo estátuas de santos, enquanto os objetos religiosos africanos eram escondidos. As religiões afro-brasileiras eram proibidas , e os terreiros eram freqüentemente visitados pela policia. Por isso seus participantes deviam sempre buscar caminhos para fortalecer a aparência católica dos orixás e dos terreiros. O sincretismo se tornou assim estratégia de sobrevivência por um longo período.

A MULHER ESCRAVA

A escravidão desenraizava o negro de seu meio social e desfazia seus laços familiares. O tráfico negreiro, enquanto pôde operar livremente, garantiu a reposição dos braços escravos indispensáveis ao funcionamento da sociedade colonial. Enquanto durou o tráfico, foram os senhores indiferentes à duração da vida de seus escravos. A situação da escrava empregada no trabalho produtivo, esteve necessariamente determinada pela sua condição de “coisa”, propriedade do senhor. Mas esta condição, compartilhada com o homem escravo, soma-se a particularidade advinda do fato de ser mulher, isto é, ocupar um papel privilegiado de reprodução biológica. A realização combinada dos potenciais produtivos e reprodutivos da escrava privilegiou o lucro imediato e conduziu objetivamente ao consumo de escravos no processo de produção.

Compreende-se que sas “negras pejadas” e as que amamentavam não eram poupadas do trabalho: duras fadigas impediam em algumas o regular desenvolvimento do feto, em outras minguava a secreção do leite, em quase todas geravam o desmazelo pelo tratamento dos filhos, e daí as doenças e a morte das pobres crianças. A negra quando grávida, não recebia condições mínimas necessárias ao desenvolvimento do feto; e quando a gravidez vingava, estas condições levavam, muito freqüentemente, a matarem os próprios filhos. A mulher escravizada, sobrepondo-se aos naturais impulsos maternos, interrompia sua gestação ou eliminava o recém nascido. Assim o fazendo, quebrava o implacável elo que prendia sua descendência à escravidão. O aborto voluntário e o infaticídeo eram tidos pelos escravistas como formas conscientes de oposição ao cativeiro.
A mulher escrava fazia ponte entre a senzala e o interior da casa grande e representava o ventre gerador. As negras mais bonitas eram escolhidas pelo senhô para serem concubinas e domésticas. Objeto dos desejos sexuais sádicos dos homens, do senhor de engenho ao menino adolescente, a negra sofria por parte da mulher branca os castigos mais variados. Se a beleza dos seus dentes incomodava a desdentada sinhá, esta mandava arrancá-los. A escrava adoçava a boca do senhor e recebia chicotadas à mando da senhora, mas cumpria as tarefas que normalmente estariam destinadas à mãe de família.

A negação dos escravos enquanto seres humanos implicaram necessariamente na negação de sua subjetividade, que foi violada, negada, ignorada, principalmente nas relações entre eles: mãe escrava – filhos, pai escravo – filhos e homem-mulher escravos. Era o senhor quem decidia sobre a possibilidade e qualidade da relação entre o homem e a mulher escrava, sobre se haveria ou não vida familiar, se casados ou concubinos seriam ou não separados, se conviveriam com os filhos e onde, como e em que condições morariam; não era certo a convivência em família. A legislação a respeito do casamento escravo era apenas mais um aspecto no qual prevaleceria o poder de fato do senhor sobre seus escravos. Ao ser mãe a mulher negra estava ameaçada com a separação eterna de seus filhos, pois o seu destino era incerto; se fosse vendida perderia a ligação com os filhos para sempre. Mesmo comprometida com um negro, a escrava, ainda assim, estava sujeita aos desejos sexuais de seu senhor, ; e um escravo não poderia queixar-se da infidelidade de sua mulher e vingar-se de seu sedutor.

A MÃE PRETA

Enquanto a amamentação da criança escrava serve a preservação da “mercadoria escrava-leiteira”, dela pode se beneficiar o filho da ama. A existência de mães pretas revela mais uma faceta da exploração da senzala pela casa-grande, cujas conseqüências inevitáveis foram a negação da maternidade da escrava e a mortandade de seus filhos. Para que a escrava se transformasse em mãe preta de criança branca, foi lhe bloqueada a possibilidade de ser mãe de seu filho preto. A proliferação dos nhonhôs implicava o abandono e a morte dos negrinhos. Além disto os pais – senhores – são por hábito bárbaros e castigam fortemente os seus escravos à vista de seus filhos, que facilmente também se habituam à crueldade: é assim que se viam meninos e meninas esbofetearem a cara da escrava-ama que lhes dava o leite, é assim, que milhares deles castigam com cruéis açoites aqueles mesmos escravos que lhe os carregaram, que os alimentaram, que os embalaram na infância. Numa sociedade cuja ideologia dominante atribui à maternidade o papel de função básica da mulher, a escrava transformada em ama de leite conhece, na negação de sua maternidade, a negação de sua condição de mulher. Mesmo em contato estreito e continuo com a família branca, a ama escrava não recebia benefícios sequer dos cuidados mínimos que lhe pudesse garantir uma boa saúde. Nem mesmo quando era constantemente acusada de ser portadora de doenças graves, principalmente a sífilis. No entanto, seria igualmente possível que muita mãe preta tenha sido contaminada pelo menino de peito, alastrando-se também por esse meio, da casa grande à senzala, a mancha da sífilis. A sifilização da ama de leite, entretanto, não teve origem unicamente na criança branca. À apropriação e a utilização da escrava como ama de leite da criança branca raramente deixaria de se acrescentar, assim para mucamas, cozinheiras, amas-secas etc., também a apropriação de seu corpo como objeto sexual do homem branco.

OBJETO SEXUAL

A sexualidade possível à senhora é aquela que lhe impõem as relações familiares patriarcais, norteadas pelos rígidos preceitos religiosos e morais. A escrava escapa a essas determinações que cerceiam as mulheres de classe dominante; sua sexualidade não está a serviço da procriação e da reprodução ideológica da família branca. Estar fora do círculo familiar e do jugo patriarcal sobre ele exercido representa, para a escrava, estar além dos limites e normas que regulam a sexualidade da mulher branca. A sexualidade da escrava aparece para o senhor livre de entraves ou amarras de qualquer ordem, alheia à procriação, às normas morais e a religião, desnudada de toda série de funções que são reservadas às mulheres brancas, para ser apropriada num só aspecto: o objeto sexual. As escravas aparecem aí sem honra e sem religião, ou seja totalmente à margem dos padrões morais e religiosos dominantes na sociedade. A utilização sexual da escrava pelos senhores, determinaria, em grande parte, o tipo de relação que cada membro da família patriarcal estabelece com ela.

Assim, às escravas também passam ser as iniciadoras sexuais dos filhos do senhor. As relações sexuais entre o filho do senhor e a escrava parecem ter sido discretamente consentidas pela senhora. Mas, que tipo de relação sexual poderia emergir entre seres igualizados sob o chicote? A escrava era obrigada a ceder os desejos libidinosos se seu senhor para não se expor, com a recusa, a toda sorte de torturas; não poderia guardar a honra de sua filha, nem mesmo a sua contra tentativas do seu poderoso senhor e nem o escravo poderia queixar-se da infidelidade de sua mulher, e vingar-se de seu sedutor.

A CRIANÇA NEGRA E A ESCRAVIDÃO

Bem pouca atenção é dada ao estudo da criança escrava. Isto talvez se deva, em parte, ao fato de a população escrava, no Brasil, ter sido composta majoritariamente por homens e mulheres em idade produtiva. A baixa taxa de crescimento da população cativa, devido a menor proporção de mulheres do que de homens escravos, e as dificuldades de sobrevivência da criança escrava tem certamente contribuído ainda mais para ocultar este segmento

Varias razões têm sido apontadas para a venda de crianças na África como escravas: eram consideradas como bocas inúteis em certas regiões e determinados períodos; outras foram trocadas por prisioneiros; em épocas de carência, famílias se vendiam espontaneamente para não morrerem de fome, entre outros motivos.

A falta de interesse por este tráfico devia-se ao fato de os escravinhos não serem imediatamente produtivos, aliado a isto, as altas taxas de mortalidade infantil e infanto-juvenil acarretavam riscos de grande prejuízos. Apesar desses fatores, o percentual de crianças embarcadas nos portos africanos chagou a representar, em certas épocas, cerca de 20% do total dos escravos traficados.

No Brasil, as crianças nascidas eram logo batizadas e ainda assim consideradas gente sem alma. A Igreja, esteio dos poderosos, agia da mesma forma no tratamento dado aos negros. O moleque, pequeno escravo, companheiro do sinhozinho em brincadeiras e aventuras, servia também de saco de pancadas. A vida de trabalho da criança escrava começava cedo. Depois de cinco ou seis anos de idade, essas crianças eram entregues a tirania dos outros cativos que os domavam a chicotadas, habituando-se à força aos rigores da vida escrava. Muitas vezes, desde pequenas as crias eram obrigadas a acompanhar suas mães ao campo e com elas compartilhavam várias atividades agrícolas: tiravam ervas daninhas, semeavam, apanhavam frutos, cuidavam de animais domésticos.

Aos sete ou oito anos iniciava-se uma nova etapa na vida das crianças escravas: passavam a fazer os serviços mais pesados e regulares. Deixavam para trás as ultimas regalias infantis, aquelas que viviam na casa grande e começavam a desempenhar funções especificas para sua idade ou já eram treinadas para a função que desempenhariam posteriormente. As crianças que ficavam na casa grande eram empregadas no serviço do senhor e de seus familiares, trabalhando como pajem, moleque de recado ou criada. Buscavam jornal, encilhavam os cavalos, lavavam os pés das pessoas da casa e mesmo de visitantes, escovavam as roupas, engraxavam os sapatos, serviam a mesa, espantavam os mosquitos, balançavam a rede, buscavam água no poço e carregavam pacotes e outros objetos. Nas fazendas, nos engenhos e nas chácaras, aos oito anos as crianças eram enviadas às plantações, colhiam e beneficiavam café, descaroçavam algodão, descascava,m mandioca, fabricavam cestos e cordas.

Assim como as meninas eram enviadas às “escolas de mucamas”, os meninos eram mandados para aprender algum oficio mecânico, como de sapateiro, barbeiro, marceneiro ou alfaiate. Meninas escravas carregavam os bebes brancos no colo, sendo obrigadas a cuidar das demais crianças. Mais barata, a criança escrava tornava-se uma mercadoria acessível às camadas intermediárias, dedicadas ao pequeno comércio e ao artesanato doméstico. Assim como havia mercado de trabalhos para as crianças africanas escravizadas, também havia para as crianças escravas nascidas no Brasil. Para muitos senhores era mais rendoso criar negros do que plantar café. Os rapazes de certa idade eram mandados para a cidade e entregues ao oficio pelos quais ganhavam dez vezes mais do que se fossem utilizados trabalhando na terra. Algumas crianças que trabalhavam descascando e lavando mandiocas, tinham os dedos duros, mutilados, tortos e calejados: “como as mãos dos escravos, pareciam haver perdido as características humanas.

A condição de criança escrava não livrava os escravinhos dos maus tratos: eram castigados, separados de seus familiares, trabalhavam duro, ficando muitas vezes com marcas físicas dos castigos e do excesso de trabalho.
Alguns proprietários compravam crianças escravas como brinquedos para seus filhos; essas crias, transformadas em “tetéias por causa da pouca idade, ignoravam a distancia respeitosa que havia entre eles e seus senhores moços” e acabavam por se rebelar e fazer ameaças contra as dentadas, beliscões e outras tiranias em relação à idade mais ou menos avançada dos senhorzinhos; os pais, em vez de repreenderem seus filhos, castigavam rigorosamente a criança negra, cujo único crime o mais das vezes era fugir e não deixar o senhorzinho morder-lhe à vontade.

A Lei do Ventre Livre, na verdade não teve grande eficácia para melhorar as condições de vida da criança negra no Brasil. Ao lado da denuncia de perpetuação de fato de sua condição de escrava, destacou-se o prognóstico do aumento do número de abandono dos filhos de suas cativas, por parte dos senhores. No Rio de Janeiro, paralelamente à escravização de fato dos filhos de escravos após 1871, teve um significativo aumento do abandono de crianças negras, como conseqüência não desprezível da Lei do Ventre Livre.

Nas sociedades do antigo regime europeu era bastante difundido o costume de entregar recém-nascidos a amas de leite, que cuidavam da criança durante a primeira infância. Transplantada para o Brasil, esta prática tornou generalizados o aluguel e a compra de escravas para amamentarem os bebês das famílias brancas. Esse costume tinha como contrapartida a desintegração da frágil família escrava, separando as cativas de seus filhos. Desde a terceira década do século XIX, os médicos e sanitaristas da Academia de Medicina iniciaram uma vigorosa campanha contra o uso das amas-de-leite escravas, atribuindo dificuldades de aprendizagem, difusão de doenças como a sífilis e até mesmo apego a superstições, ao contato prolongado e íntimo das crianças brancas com as amas-de-leite negras, sobretudo as de origem africana. Em suas teses esses médicos evidenciavam o papel utilitário da Roda dos Expostos para os senhores que comercializavam escravas amas-de-leite, dando assim, um extraordinário aumento de crianças enjeitadas, principalmente na cidade do Rio de Janeiro. Não era de se estranhar que os senhores preferissem auferir os lucros proporcionados pelo aluguel das amas-de-leite do que arcar com o ônus da criação de seus filhos, correndo o risco de só poderem aproveitar-se mais tarde do trabalho de metade das crianças que havia sustentado, por causa das altas taxas de mortalidade da época.

 

Fontes diversas, entre as mais relevantes Wikipédia, a enciclopédia livre.

Capoeira ajuda libaneses a suportar traumas da guerra

Levada por um mestre americano à Beirute, a capoeira brasileira ajudou libaneses a suportar os horrores da guerra.

O antropólogo americano Arbi Sarkissian, de origem armênia, introduziu a capoeira no Líbano no início de 2006. Durante a guerra entre Israel e o Hizbollah, em 2006, que devastou o sul do país e atingiu Beirute com bombardeios aéreos e navais, muitos alunos fugiram do Líbano ou se refugiaram em regiões mais seguras.

Mas mesmo em meio à guerra, quatro libaneses se reuniam para continuar praticando, e acabaram fundando o "Capoeira Sobreviventes", que conta até com uma comunidade no site de relacionamentos Facebook.

"A gente ficava deprimido com a guerra, com toda aquela destruição e mortes. Naqueles momentos, a capoeira ajudou a gente a manter nossa mente e espírito", disse a profissional em marketing Cynthia Daher, uma das "sobreviventes".

Sucesso

O mestre Sarkissian conta que no início o grupo era pequeno, mas que aos poucos o interesse foi aumentando: "Havia um grupo de amigos libaneses, que chamamos de núcleo. Eles tomaram gosto pela capoeira e começamos a fazer apresentações em casamentos e festas".

Atualmente o grupo conta com 20 alunos, inclusive três americanos. Sarkissian dedica cinco dias da semana para ensinar a luta e dança brasileira para alunos de nível iniciante e intermediário.

Ele aprendeu capoeira no ano 2000 quando conheceu mestres brasileiros em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ele conta que desde que começou a se interessar pela capoeira, a paixão pela cultura brasileira principalmente a baiana só aumentou.

"Eu havia feito o curso de Estudos Latino-Americanos na Universidade, estudando espanhol e português. Quando conheci os mestres brasileiros, fui convidado a praticar a capoeira e simplesmente me apaixonei."

Após visitar a Bahia duas vezes em 2005, para se aperfeiçoar no português e na capoeira, Sarkissian decidiu introduzir a arte em um país onde o Brasil é muito apreciado o Líbano.

Relaxamento

Segundo Sarkissian, o relativo sucesso do grupo se deve à visão das pessoas de que a capoeira pode ser uma forma de relaxar, exercitar e, acima de tudo, de se divertir.

Depois da guerra, os alunos retornaram, assim como as aulas de capoeira. "O que me surpreendeu é que ninguém abandonou, todos voltaram e o grupo aumentou", destacou Sarkissian.

De acordo com ele, os libaneses recebem muito bem as apresentações, às vezes feitas em praças e mercados públicos.

Amor pelo Brasil

Outro praticante, o escritor americano Jackson Allers disse que há uma atração natural pela cultura brasileira. "Muitos países têm um amor pelo Brasil, não apenas pelo seu futebol, mas também por sua arte, dança e música", afirmou Allers à BBC.

Sarkissian também ministra oficinas em que os alunos fabricam seus próprios berimbaus e outros instrumentos da capoeira. Além disso, alguns praticantes tentam aprender o português.

"Nós memorizamos as canções usadas na capoeira, mas eu precisava aprender o significado, queria aprender o idioma", disse Daher.

Nas noites de sexta-feira, um pequeno grupo se reúne para aprender português com o professor brasileiro Richard de Araújo, que está no Líbano por meio de um acordo entre os governos libanês e brasileiro para ensinar o idioma em um universidade pública.

"Dou aulas particulares para alguns praticantes de capoeira e outros que querem apenas aprender o idioma", explicou Araújo.

Para Daher, é emocionante começar a entender o significado do que canta nas rodas de capoeira. "Acho o português um idioma muito bonito e poético, estou apaixonada pelo Brasil", salientou.

Fonte: Folha Online

Uberaba – Capoeirista diz ser o verdadeiro autor de projeto premiado

Conforme o Jornal da Manhã noticiou no dia 10, após ser selecionado pelo Ministério da Cultura como um dos grupos vencedores do Prêmio Capoeira Viva 2007, o Muzenza Mirim de Uberaba ganhou do governo federal
R$ 6 mil. No entanto, Wagner Borges Silva, coordenador da equipe, afirma que o dinheiro não chegou ao grupo.

De acordo com ele, o projeto vencedor nem mesmo estava em prática na cidade. "Trata-se de uma parceria que tínhamos com a Prefeitura, em que dávamos aulas de capoeira nas escolas municipais da cidade. Porém, desde 2004 esse projeto está parado", explica.

O coordenador conta, ainda, que o projeto atendeu em torno de 1.880 crianças, em15 escolas, durante os quatro anos em que foi desenvolvido. "Realmente é um bom projeto, pois, para participar, a criança tinha que estar estudando. Então, nossa equipe ia para a escola fora do horário de aula dos alunos e ensinava as técnicas da capoeira", relembra.

Tanto tempo depois do encerramento das atividades, Silva conta que se surpreendeu com a notícia de que o projeto havia sido selecionado. "Nós não o inscrevemos. Ficamos assustados em saber que ele havia sido escolhido. De cara, percebemos que havia algo errado", relata.

No entanto, o coordenador confessa que a surpresa foi ainda maior ao descobrir que o projeto estava inscrito em nome de outra pessoa, segundo ele, uma mulher que não faz parte do grupo. "Nunca ouvi falar no nome dela. É uma farsante utilizando o nosso grupo e, agora, vai pegar esse dinheiro", conta.

Como o projeto era desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, o capoeirista conta que se reuniu, no começo da semana, com representantes do órgão, na tentativa de resgatarem o prêmio e descobrir quem está por trás da farsa. "Após a reunião, marcamos uma reunião com o Ministério da Cultura, que será realizada na semana que vem. Vamos desmascarar essa mulher e processá-la", diz.

Ministério. Na Secretaria de Incentivo e Fomento à Cultura (Sefic), do Ministério da Cultura, foi confirmada a inscrição do projeto em nome de Eleusa das Graças Gomes, que teria apresentado toda a documentação exigida. Seu nome consta, inclusive, no site oficial. No entanto, na Secretaria, não souberam informar se o prêmio já havia sido resgatado. Diante da denúncia, a situação deverá passar por análise.

Jornal da Manhã – Uberaba
http://www.jmonline.com.br

SP: Notícias da capoeira em Porto Feliz

É recente o estudo sobre a capoeira antiga no Estado de São Paulo, embora haja algumas informações esparsas sobre a sua prática em diversas localidades do solo paulista. Assim, temos referência no livro de João Amoroso Neto sobre o bandido Dioguinho da luta deste com um negro capoeira da região de Ribeirão Preto. O folclorista Alceu Maynard Araújo informou que a capoeira era ensinada em Botucatu por um carioca chamado Menê. O historiador João Campos Vieira, natural de Tatuí, mas radicado em Porto Feliz, afirma que a tradição popular dizia que "Dioguinho usava navalha no pé e dava rabo de arraia. Era uma capoeira defensiva" *1. As crônicas paulistas ainda dizem respeito a um conflito entre capoeiras e a polícia da capital ocorrido em 1892.
O antropólogo e historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, no seu livro A Capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808 – 1850), transcreveu a notícia do escravo Izaías, "vindo da vila de Iguape, termo de São Paulo, é dado a capoeira …" *2. No programa Terra Paulista, foi citado que na cidade de Bananal, Vale do Paríba, ainda se praticava uma "capoeira diferente".

Aos poucos, a história da capoeira paulista vai sendo desvendada. Em Porto Feliz, cidade do interior de São Paulo, ainda se pode encontrar alguns ex-praticantes da antiga capoeiragem e mesmo testemunhas dessa manifestação.

 
O professor Olivério Rubini informa, por exemplo, que praticava a pernada a qual "era uma brincadeira que antecedia a chegada de todos, onde algumas crianças procuravam derrubar outras com rasteiras. Talvez a diferença com a capoeira era a espontaneidade e a ausência de regras e acompanhamento musical" *3. A pernada parece, então, ser a capoeira primitiva. O local onde se praticava a pernada portofelicense era um terreno baldio usado como campo de futebol e que hoje é a avenida Capitão Joaquim de Toledo, ao lado da Escola Monsenhor Seckler.
 
Segundo o professor Rubini essa prática ocorria na década de 1940 a 1950.
 
Outra informação sobre a capoeira em Porto Feliz é o relato do senhor José Aparecido Ferraz, conhecido por Zequinha Godêncio. Desde o ano de 1946 ele acompanhava as brincadeiras de capoeira. Aos vinte anos, por volta de 1951, começou a participar das brincadeiras e treinar a capoeira. Havia em Porto Feliz um capoeirista conhecido por Toninho Vieira. Vendo esse capoeirista treinar e jogar, Zequinha começou a praticar imitando-o. "O professor foi só mais ver…", afirmou *4.
 
Outra informação interessante de Zequinha Godêncio diz respeito a perseguição policial à prática da capoeira, embora nessa época já não constasse mais no Código Penal. A mesma reclamação fez um capoeirista de Sorocaba, conhecido por Chiu, que disse que por volta da década de 1950 a polícia ainda perseguia quem praticasse a capoeira. Zequinha informou que havia um bar de um "turco" onde se reuniam os capoeiristas e ficavam jogando. O delegado, Barreto, prendia os capoeirista. "No outro dia cedo ele soltava e elevava ao Porto do Martelo. Chegava lá tinha que lutar com ele. Se a gente jogava ele dentro d’água, saía. Não voltava pra cadeia" *5. O delegado, segundo Zequinha, gostava de desafiar os capoeiristas para uma luta. Aqueles que levassem a melhor poderiam ir. Caso contrário, ficariam mais alguns dias na cadeia.
 
Zequinha lembra alguns nomes de capoeiristas de Porto Feliz: Orides, Pedro (sobrinho de João Xará), Faísca. Também informou que a capoeira era brincada sem acompanhamento musical. "A gente só ia gritando: Aeh!, olha lá, Ah!, Opa! Ia gritando e dando giro" *6. O pessoal de Porto Feliz, na década de 1950, costumava vir a Sorocaba onde no bairro da Árvore Grande brincavam a capoeira com os sorocabanos. "Era lá na Árvore Grande. De lá tinha um chamado Aparecidinho. Tinha Aparecido, um chamado Paulinho. Era os mais chegados" *7.
 
Ainda sobre a capoeira antiga de Porto Feliz, o colecionador Rubens Castelucci informa que havia um pessoal que brincava no largo da Laje, antiga rua da Laje. Segundo Rubens, o prefeito Lauro Maurino promovia muitas apresentações de capoeira e congada em comícios políticos e em festas. Vinham pessoas de Capivari para auxiliar o grupo de Porto Feliz nas apresentações.
 
Essas notícias de Porto Feliz servem de parâmetro para mostrar que há muito ainda sobre a capoeira paulista a ser pesquisado. Algumas pessoas têm se dedicado a isso, como Miltinho Astronauta em São José dos Campos e Érika Balbino, de São Paulo. O resultado desse trabalho já começa a aparecer.
 
 

 

Notas

*1 Entrevista ao autor concedida em 03 out 2006.
*2 LÍBANO, Op. cit., pp. 120 – 121.
*3 Carta ao autor datada de 04 maio 2006.
*4 Entrevista concedida em 02 nov 2006.
*5 Idem.
*6 Entrevista concedida em 02 nov 2006.
*7 Idem.

 
Carlos Carvalho Cavalheiro
La Insignia. Brasil, julho de 2007.
 
Fonte: http://www.lainsignia.org
Enviado por: [email protected] Virtual

Entrevista e matéria especial com o autor de: A capoeira escrava e outras tradições rebeldes

A capoeira escrava e outras tradições rebeldes
Ao estudar a prática dos negros, historiador encontra aspectos desconhecidos das relações entre escravos, senhores e Estado

O historiador carioca Carlos Eugênio Líbano Soares não tem dúvidas: a capoeira nasceu na América, apesar de articulada por elementos comuns na cultura africana – entre eles a dança e a língua – e é uma resposta dos escravos a um novo ambiente urbano, que começou a ser formado no início do século 18. A tese está no livro “A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850)”, publicado pela Editora da Unicamp. Soares vasculhou arquivos em Portugal, Angola e no Brasil para fundamentar sua obra.

Não foi a primeira incursão do pesquisador pelo tema. Em “A negregada instituição: os capoeiras na corte imperial, 1850-1890” (Editora Access), livro premiado pelo Arquivo Municipal do Rio de Janeiro e sua dissertação de mestrado defendida na Unicamp em 1993, Soares promove uma leitura inédita da capoeira, ancorada na literatura e numa vasta documentação política e policial. Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, por exemplo, foram fontes de pesquisa. A obra de Plácido de Abreu, escritor português pouco conhecido na chamada época de ouro da literatura (final do século 19 e começo do 20), foi da mesma forma objeto de análise. Abreu foi capoeira, assim como muitos imigrantes de várias nacio-nalidades na época. Depois acabou denunciando-a como algo marginal e perigoso.

Em geral, lembra o pesquisador, a capoeira era estudada como tema antropológico. “Falava-se muita bobagem da mais importante manifestação de rua do século 19 no Brasil”, testemunha Soares, que privilegiou a abordagem historiográfica da capoeira ligada à escravidão, sua área de pesquisa na Unicamp. A inserção do tema numa perspectiva histórica fez surgir até uma linha de estudo que vem conquistando adeptos, além de revelar aspectos até então desconhecidos.

Um deles, abordado em “A negregada…”, revela as ligações políticas dos escravos com a elite, sobretudo após a Guerra do Paraguai, que foi um divisor de águas na segunda metade do século 19. Os capoeiras eram uma espécie de esteio eleitoral de um grupo do Partido Conservador, que acreditava na negociação política do fim da escravidão. Conhecido como Grupo do Visconde do Rio Branco, seus integrantes promoveram a Lei do Ventre Livre e, depois, a Lei Áurea. Nesse contexto de apoio eleitoral, os capoeiras atacavam os membros do Partido Liberal e do Partido Republicano, garantindo a vitória dos conservadores nas urnas. “Não era o capanguismo clássico do meio rural, havia uma troca de favores”, diz Soares, que manteve em “A capoeira escrava” a mesma linha investigativa e de rigor na pesquisa de seu primeiro livro. A seguir, trechos da entrevista concedida pelo historiador.

Jornal da Unicamp – O que levou o senhor a voltar à primeira metade do século 19, depois de abordar um período posterior em seu primeiro livro?
Carlos Soares – Há todo um debate envolvendo a origem da capoeira, de onde ela veio etc. Fala-se muita bobagem, muita asneira. Como a capoeira do século 19 passou por um período fortemente escravista, com uma população africana muito grande, meu objetivo era palmilhar essa coisa da origem. Mas sabendo que a origem não está no século 19, e sim no século 18. Está nos primórdios da sociedade urbana. A capoeira é um fenômeno urbano, que anuncia uma leitura de negros africanos e crioulos para o mundo urbano colonial.

P – O senhor poderia precisar quando a capoeira surgiu?
R – Você tem, a partir do início do século 18, a formação de uma sociedade urbana colonial pela primeira vez, em Minas e no Rio de Janeiro. A grande cidade do ciclo do ouro era o Rio de Janeiro, para onde convergiam todas as remessas de ouro que iam para a corte. A cidade cresceu muito, tanto que virou capital da colônia. Houve ali uma espécie de revolução urbana durante o século 18, que com certeza trouxe os africanos, já que até 1700 a população escrava no Rio era quase toda indígena.

P – O senhor cita, em seu livro, a união entre grupos diferentes de capoeiras. Como vê a chamada organização de rua dentro desse contexto?
R – De um lado você tinha africanos vindos de um ponto distante do continente e que não se conheciam originalmente. Eles estavam num ambiente novo, tenso, de concentração, porque a cidade colonial era pequena, mas concentrava uma população densa. Os africanos traziam bagagens culturais diferentes, mas alguns elementos eram mais ou menos articuláveis, a língua, por exemplo. Acredito que também a dança foi importante, já que os povos se articularam nesse sentido. A capoeira, então, era uma forma de união desses diversos grupos. Agora, é importante colocar que o termo capoeira foi dado pela ordem policial. Eles eram identificados assim. Isso cria um problema, já que de certa forma você tem uma identificação grupal que não parte do grupo, mas sim do seu rival.

P – E como eles chamavam a dança?
R – Os termos da documentação são o “jogo do capoeira”. Agora, da dança é o seguinte: todos esses povos trazem uma bagagem cultural com diversas danças e artes marciais. Eu estive em Angola pesquisando em 1995 e, no Museu Etnográfico de Luanda, pude perceber que essas danças, por mais diferentes, tinham um ponto comum. Possivelmente essas semelhanças fossem articuladas na América. Quer dizer: capoeira, na minha hipótese, nasceu na América. Ela não nasceu na África. Ela foi formada com elementos africanos e articulada de forma inédita no território escravista.

P – Como as nações étnicas se relacionavam com a capoeira?
R – Eles criaram uma coisa nova em cima de elementos já tradicionais. Foram muitos os elementos. A capoeira nunca foi uma prática de um grupo ou nação determinada. Ela sempre foi um pólo de união de diversos grupos. É um espaço mais ou menos aberto. Você tem os grupos com diversas origens: os benguelas, os cabindas. Isso aponta que ela era um ponto de união de grupos diferenciados, e não uma coisa étnica, determinada. Ela foi transformada pelas interações africanas.

P – Muitos estudiosos relacionavam a capoeira aos meios de resistência dos escravos no mundo rural. Como se originou essa teoria?
R – No início do século 20, sobretudo na Semana de Arte Moderna, quando há uma tentativa de se resgatar a história do negro, não mais como inferior e perigoso, mas como pertencente à nacionalidade, nasce também o estereótipo da resistência. Isso era novo para a época. E nesse mito da resistência, o principal era o quilombo, numa visão até idílica. Tornou-se até mais idílica depois. Estudiosos estavam naquela época presos ao modelo da escravidão rural – que durou mais tempo e que, por isso, seria o modelo principal –, a escravidão agrária, da senzala, onde estava a maioria quando houve a Abolição.

P – E a escravidão urbana?
R – Estava um pouco esquecida. Aí colocaram a capoeira dentro desse modelo da escravidão rural, que plasmou mesmo a memória da Abolição, com a fazenda, a senzala, o cafezal e tudo o mais. Então se criou uma versão da história da capoeira no século 20 ligada ao quilombo, à história da resistência. Fora isso, o movimento negro pegou esses elementos também e os trabalhou meio que embolados. Durante muitos anos foi passada essa coisa de que a capoeira era não sei o quê do quilombo, que era uma espécie de panacéia para todos os elementos da cultura negra. As fontes de época, tanto na primeira como na segunda metade, são muito claras: a capoeira é urbana. Aliás, cheguei nela através da escravidão urbana. Quando comecei a pesquisar, antes mesmo de entrar no mestrado, meu objetivo era mostrar a escravidão urbana. Em geral, a nossa academia está muito presa a esse modelo do quilombo, da questão rural. E há poucos trabalhos sobre escravidão urbana.

P – Nesse contexto, a capoeira passa também a ser um elemento de resistência?
R – A capoeira é uma resposta de escravos urbanos a um novo ambiente. O quilombo é importante, mas não se misturava muito. Havia uma visão idílica de que o capoeira queria fugir para o quilombo, distante, nas montanhas. E ali que se criava um reino isolado. Os escravos do quilombo têm contato com os escravos da senzala; então, não é uma coisa isolada. Muito menos a fuga é uma coisa da liberdade, abstrata. O capoeira não é um escravo que vai fugir. Ele vive dentro do ambiente urbano e tem ganhos dentro desse ambiente. Existem casos, lógico, ligados à fuga, mas em geral isso é raro, porque, invariavelmente, é uma forma de luta adaptada a esse meio urbano.

P – Como os capoeiras transitavam nesse meio urbano?
R – A cidade colonial era repleta de becos, de vielas, de ruas estreitas, uma cidade congestionada. Uma cidade de pequenas fachadas e grandes quintais, com toda uma ordenação labiríntica. A capoeira é uma forma de luta adaptada a esse ambiente. O objetivo não é destruir o inimigo, mas sim possibilitar que ele fuja daquela cena em que foi agredido. É uma forma de defesa.


P – De certa forma, eles se prevaleciam da topografia da cidade?

R – Esse mundo urbano era um mundo violento. Sendo assim, era preciso dominar uma forma de luta para se manter nele. O escravo não era só atacado por policiais brancos, mas sim por outros escravos também. Para usufruir as regalias da cidade, ele precisava de uma forma de defesa. Quando um senhor colocava um escravo na rua – como artesão ou até para buscar água –, esse africano tinha que ser safo, tinha que se livrar, ser esperto, se não ele era roubado facilmente. E aí o senhor perdia mercadoria. O próprio senhor estimulava o escravo a se defender. A capoeira não era uma coisa contra o senhoriato. Era uma forma até de maximizar os lucros, já que o capoeira era um escravo que se defendia.

P – Como se estabeleciam as relações entre polícia e senhores?
R – Os senhores reclamavam das prisões porque, bem ou mal, os escravos geravam lucros. Havia fuga é lógico, mas dentro da cidade. Ele sabia que se chegasse na casa senhorial sem o pagamento, seria castigado. Ele fugia então para conseguir o dinheiro. Fugia também por causa de mulher, festa etc. Os escravos tinham muitas relações fora da escravidão. Eles tinham a figura do padrinho, em geral outro homem branco, que empenhava a palavra para o senhor em caso de fuga, intermediando a volta do escravo, conseguindo a garantia de que não seria castigado. Eles se relacionavam com libertos, com escravos, com ciganos, com todo o mundo.

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