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Lampião da capoeira

Fonte: Correio da Bahia

Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá, tinha fama de bandido e justiceiro no recôncavo baiano

Praça Batista Marques, antigo Largo da Cruz, onde Besouro enfrentou e debochou de 11 soldados, e conseguiu fugir , saltando da Ponte do Xaréu

O cabo José Costa saiu do quartel com passos firmes e apressados e tentou imprimir segurança à própria voz quando falou com os dez soldados que o acompanhariam na difícil missão que acabara de receber: prenderia Manoel Henrique vivo ou morto. A caminhada até o local onde o homem procurado estava pareceu estranhamente muito mais longa do que o comum, em parte devido ao calor escaldante de Santo Amaro da Purificação, em parte pelo nervosismo de cada um daqueles 11 homens. Sabiam que, ainda que estivessem armados, tinham uma tarefa quase impossível pela frente, e lutavam contra uma força que chegava a parecer sobrenatural. Talvez até a própria demora em chegar ao bar, no Largo da Cruz, fosse uma artimanha do tempo para proteger o temido Manoel.

Pode ser que o mesmo raio de sol que fez uma gota de suor escorrer pelo rosto do cabo José Costa tenha lançado um reflexo no fundo do copo de cachaça que Manoel Henrique entornava naquele instante. O certo é que ele pressentiu o perigo e, antes mesmo que o líquido transparente esquentasse seus músculos de lutador, já estava de pé, a tempo de escutar a ordem de prisão e lançar aos soldados seu inconfundível olhar de superioridade debochada. Antes que eles pudessem reagir, com movimentos rápidos e certeiros, rasteiras e rabos-de-arraia, desarmou um por um. O povo que assistia à cena, entre as frestas de janelas, e um ou outro que arriscou se aproximar foi testemunha de que Manoel largou as armas num canto e saiu andando tranqüilamente, com seu caminhar típico de capoeirista, deixando os soldados caídos no chão. Foi pior do que se os tivesse matado. Tanto que a vergonha dos policiais pela desonra foi mais forte que o medo. Levantaram-se rapidamente, a ponto de alcançarem o agressor quando passava exatamente pelo cruzeiro.

Quando ouviu os gritos e se virou, Manoel Henrique viu diante de si os 11 homens, agora com olhares sedentos de vingança, com armas empunhadas, prontos a atirar. Só teve tempo de, encostado na cruz de madeira, abrir os braços, numa entrega destemida à execução, corajoso até o fim. Não se ouviu nem mesmo a respiração das almas vivas quando abriram fogo sobre aquele que era o homem mais temido de todo o recôncavo, o único capaz de esvaziar ruas e feiras pelo simples mencionar de seu nome. Besouro Mangangá jazia no chão do Largo da Cruz. Mas qual não foi a surpresa quando os praças se aproximaram e viram Manoel se levantar, tão vivo quanto antes, e correr, em movimentos ágeis, pelo beco que leva à ponte do Xaréu. Sem hesitar, pulou da ponte, fazendo quase um vôo, e fugiu pelo mato.

Atrás de si, deixou policiais com uma expressão mista de raiva e surpresa, e um povo que, cada vez mais, se convencia de que estava diante não apenas do melhor e mais destemido capoeirista de todos os tempos, o único com coragem suficiente para – mais do que enfrentar – até debochar da polícia. Aqueles homens e mulheres começavam a acreditar que suas façanhas não eram apenas fruto de sua incrível agilidade e ousadia, mas de algo maior, uma espécie de sexto sentido, não explicado somente pelas forças que os homens conhecem. Já se comentava pelas redondezas de Santo Amaro que Besouro tinha o corpo fechado. Nenhuma arma de metal poderia atingi-lo mortalmente. O próprio apelido, aliás, vinha dessa crença: dizia-se que, quando se encontrava numa situação difícil, diante de inimigos numerosos demais, Manoel se transformava em besouro e saía voando.

Até hoje, há gente como Aloísio Lima, 92 anos, que garante ter assistido à cena relatada acima. Mais do que isso, seu Belo, como é conhecido em Maracangalha, afirma ter visto a cruz de madeira na qual Besouro se escorou, que hoje não existe mais, cravejada de balas.

Figura lendária

Existem diversas versões – algumas mais, outras menos espetaculares – para o episódio do Largo da Cruz. Mas essa é apenas uma das histórias que se contam sobre Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá. Difícil saber quais delas aconteceram de verdade, e, sobretudo, de que maneira aconteceram. Mais difícil ainda é descobrir como esse homem negro e pobre, nascido no fim do século XIX, numa época em que ser praticante de atividades ligadas à herança africana era considerado um crime, se tornou a figura mais respeitada no universo da capoeira. Sua fama cruzou os limites do recôncavo, chegou à capital baiana, ao restante do país e alcançou os quatro cantos do mundo.

Capoeirista corajoso num tempo em que não havia a divisão entre os estilos angola e regional, muito menos escolas de ensino da arte-luta, Besouro Cordão de Ouro – como também era conhecido – conseguiu a façanha de hoje ser um herói tanto para os seguidores do mestre Bimba, criador da regional, quanto para os discípulos de mestre Pastinha, líder máximo da capoeira angola. Mais impressionante ainda: teve menos de 30 anos de vida para construir toda essa fama, antes de ser assassinado, em 1924.

Hoje, não há nome mais cantado nas rodas de capoeira. Besouro inspirou a música Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, vencedora do Festival de Música da TV Record, na voz da cantora Elis Regina. Serviu de fonte também para um dos capítulos do livro Mar Morto, de Jorge Amado, e para o filme Besouro capoeirista, com o ator baiano Mário Gusmão. O curioso é que a mesma coragem e valentia lembradas nas canções, que o transformaram num herói, fizeram com que, em vida, tivesse fama de arruaceiro e fosse perseguido pela polícia em inúmeras ocasiões.

Mas como entender esse homem que ainda hoje provoca discussões apaixonadas? Um homem que é tido por alguns como um criminoso ousado, um fora-da-lei, e, ao mesmo tempo, é considerado por outros um justiceiro, protetor dos oprimidos? Não é à toa que há quem diga que Besouro representou para a capoeira o que Lampião foi para o cangaço.

Para tentar entender a história de Manoel Henrique, é preciso ter os olhos desconfiados e os ouvidos atentos de um capoeirista. Os casos de suas façanhas são contados por pessoas antigas, algumas que conviveram com ele, outras que ouviram falar de sua rebeldia. Entre uma roda e outra de capoeira, foi saveirista, vaqueiro e amansador de burro brabo. Chegou a ser soldado do Exército. Apesar da fama de violento, "não se tem notícia de que ele tenha matado alguém", afirma Antonio Reinaldo Lima dos Santos, o Lampião, capoeirista santo-amarense que desenvolve uma pesquisa sobre a vida de Manoel Henrique.

Até hoje, sua personalidade permanece envolta em mistério, fortalecendo ainda mais o mito em torno de seu nome. Sua certidão de nascimento nunca foi encontrada, nem documentos de identidade. Também não há qualquer imagem – seja fotografia ou pintura – dele. Besouro não deixou filhos conhecidos, nem mulher, nenhum grande amor que tenha ouvido suas confidências naquelas noites antigas. Seus amigos já partiram deste mundo. Sua única irmã viva não chegou a conhecê-lo: temia o próprio irmão.

Houve até quem desconfiasse da existência de Besouro. Sua passagem por esse mundo só foi comprovada há alguns anos, através de dois documentos encontrados no Arquivo Público da Bahia, em Salvador, e no de Santo Amaro. Neste último, Besouro é acusado por um crime cometido na Fazenda Rio Fundo, onde ele vivia como empregado de um poderoso proprietário da região. É naquele amplo terreno, em meio aos canaviais, que Besouro caminha, com seu inseparável facão. É lá, nas terras do poderoso José Antonio Rodrigues Teixeira, que começa nossa viagem em busca do mistério escondido no olhar daquele que Muniz Sodré afirmou ser tido como "o mestre dos mestres".


Fonte: Correio da Bahia

ASSESSORIA LITEROFILOSÓFICO

Títulos que formam o fundo cultural musicoliterofilosófico da capoeira

JUSTIFICATIVA

Não se pode compreender a  cultura dum povo sem conhecer a sua história
Para conhecer a história dum povo
É preciso conhecer a historia dos  seus grandes homens
Aqueles que fizeram a história do seu povo e determinaram seu destino
Nós somos apenas seguidores
Eternos copiadores
O Brasil tem o "Cruzeriro do Sul" como guia
Segue a trilha dos Orixás…
A "Via Láctea" do nosso Destino!
Chêêê Babá!

 
 Como disseram Carybé e Fatumbi

Um balalaô me contou:
"Antigamente, os orixás eram homens.
Homens que se tomaram orixás por causa de seus poderes.
Homens que se tomaram orixás por causa de sua sabedoria.
Eles eram respeitados por causa da sua força.
Eles eram venerados por causa de suas virtudes.
Nós adoramos sua memória e os altos feitos que realizaram.
Foi assim que estes homens se tomaram orixás.
Os homens eram numerosos sobre a terra.
Antigamente, como hoje,
muitos deles não eram valentes nem sábios.
A memória destes não se perpetuou.
Eles foram completamente esquecidos.
Não se tomaram orixás.
Em cada vila um culto se estabeleceu
sobre a lembrança de um ancestral de prestígio
e lendas foram transmitidas de geração em geração
para render-lhes homenagem."
(in "As  lendas africanas dos orixás" )

  • Darcy Ribeiro
    • O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil. Editora Companhia das Letras,1995.
  • Décio Freitas
    • Palmares: A guerra dos escravos. Biblioteca de História, Vol. n?? 2, Edições Graal Ltda, Rio de Janeiro/RJ, 5a. ed., 1990
  • Elyiette Guimarães de Magalhães
    • Orixás da Bahia (5a ed.).  S. A. Artes Gráficas, Salvador, 1977.
  • Francisco Pereira da Silva
    • Itinerários da capoeira
  • Gilberto Freire
    • Casa Grande e Senzala. Editora Nova Fronteira S.A, Rio de Janeiro/RJ.
  • José Jorge de Morais Zacharias
    • Ori Axé – A dimensão arquetípica dos orixás. Vector, S.Paulo/SP, 1998.
  • José Ramos Tinhorão
    • Os sons dos negros no Brasil (cantos – danças – folguedos: origens). Arte Editora, S. Paulo, 1988.
    • Os negros em Portugal – uma presença silenciosa. Editorial Caminho, Lisboa,1988.
  • José Rodrigues da Costa
    • Candomblé de Angola – Nação Kassanje (2a. ed.). PALLAS Ed. e Distrib. Ltda, Rio de Janeiro/RJ, 1991
  • Katia M. de Queiroz Mattoso
    • Bahia seculo XIX – Uma província do Império. Editora Nova Fronteira S.A. Rio de Janeiro/R,1992.J
  • Luís da Câmara Cascudo
    • Lendas Brasileiras. Edições de Ouro (Edit. Technoprint Ltda), Rio de Janeiro/RJ
    • Dicionário do Folclore Brasileiro. Ediouro S.A.,Rio de Janeiro/RJ
  • Marco Aurélio Luz
    • Agdá – dinâmica da Civilização Afro-Brasileira. Centro Editorial e Didático da UFBa – Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil -SECNEB, Salvador,/BA, 1955
  • Michael Ademola Adesoji
    • Nigéria – História e Costumes (Cultura do Povo Yorubá Origens dos seus Orixás). Livraria Editora Cátedra, Rio de Janeiro/RJ,1990
    • Oriki (Evocação dos Orixás ) Livraria Editora Cátedra, Rio de Janeiro/RJ
    • IFÁ – A testemunha do Destino e o Antigo Oráculo da Terra de Yorubá. Livraria Editora Cátedra, Rio de Janeiro/RJ
  • Monique Augras
    • O duplo e a metamorfose, a identidade mítica em comunicades nagô. 1983, Editora Vozes Ltda. Petropólis/RJ
  • Paulo Coêlho de Araújo
    • Abordagens sócio-antropológicas da luta/jogo da capoeira. Instituto Superior da Maia (série "Estudos e Monografias"), Maia, 1997.
  • Pierre Fatumbi Verger
    • Orixás – Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Corrupio Edições e Promoções Culturais Ltda, Salvador, 1981
    • Os libertos – sete caminhos na liberdade dos escravos da Bahia no século XIX. Corrupio Edições e Promoções Culturais Ltda, Salvador, 1989.
    • Artigos Tomo I – Esplendor e decadencia do culto de Iyami Osoronga "Minha mãe a Feiticeira" entre os iorubas – Contribuição especial das mulheres ao candomblé do Brasil – Contribuição estudo dos mercados nagôs do Baixo Benin (parceria com R. Bastide). Corrupio Edições e Promoções Culturais Ltda, Salvador, 1992.
    • Dieux d’Afrique. Editions Paul Hartmann, Paris,1954.
    • Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos dos séculos XVII a XIX (3a ed.).Corrupio, S. Paulo, 1987.
  • Perre Fatumbi Verger e Caribé
    • Lendas africanas dos Orixás. Corrupio Edições e Promoções Culturais Ltda, Salvador, 1985
  • Robert Jourdain
    • Música, cérebro e extase. Editora Objetiva, Rio de Janeiro/RJ, 1998.
  • Roberto Moura
    • Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, 2a ed., 1955. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/scretaria Municipal de Cultura/departamento Geral de Documentação e Informação Cultural/Divisão de Editoração.
  • Ronilda Iyakemi Ribeiro
    • Alma africana no Brasil – os iorubás. Editora Oduduwa, S. Paulo, 1996.
  • Stewart,R.J. 
    • Música e Pisiquê. Ed. Cultrix, São Paulo/SP, 1988.
  • Tame, D.
    • O poder oculto da música. Ed. Cultrix, São Paulo/SP, 1984.

A LENDA DOS ORIXÁS

 "As lendas africanas dos orixás"

Um balalaô me contou:
"Antigamente, os orixás eram homens.
Homens que se tomaram orixás por causa de seus poderes.
Homens que se tomaram orixás por causa de sua sabedoria.
Eles eram respeitados por causa da sua força
Eles eram venerados por causa de suas virtudes.
Nós adoramos sua memória e os altos feitos que realizaram.
Foi assim que estes homens se tomaram orixás.
Os homens eram numerosos sobre a terra.
Antigamente, como hoje,
muitos deles não eram valentes nem sábios.
A memória destes não se perpetuou.
Eles foram completamente esquecidos.
Não se tomaram orixás.
Em cada vila um culto se estabeleceu
sobre a lembrança de um ancestral de prestígio
e lendas foram transmitidas de geração em geração
para render-lhes homenagem."

 

Pierre Fatumbi Verger e Carybé

UNIÃO, ESPORTE E AMOR UNIVERSAL

Bendito seja o africano!
… da cadência dos soluços do degredo e da escravidão…
fez surgir a dança da liberdade, da igualdade e da fraternidade!
… que há de unir velhos e meninos…
… homens e mulheres…
… mestres e alunos…
… de todas cores e nações…
… nos cânticos dos "Salmos de São Salomão"!

Onde tudo começou

Quem foram estas mulheres que jogaram capoeira antes das nossas avós e bisavós? Como elas eram? Quem as escreveu e conheceu? O que elas faziam?

O primeiro livro que li sobre capoeira foi: “A Capoeira Angola no Brasil“ do Mestre Bola Sete. Um trecho do livro ascendeu uma chama em minha mente: “na década de 70 houve uma verdadeira revolução nas academias de capoeira, com a adesão de centenas de garotas…”. Então pensei: Quem eram as mulheres que precisaram da Capoeira para se libertar, se defender, fazer arruaças ou levantes? Quem preciso esconder "ser capoeira"?

Vocês sabem porquê o Estado do Amazonas tem este nome? Havia uma civilização de mulheres guerreiras vindas da Fenícia. Elas dominavam várias formas de combates e lutas. Chegaram a guerrear com espanhóis que ficaram surpresos pela sua força. Estes fatos foram relatados por europeus e índios do Brasil colonial.

Eu quero que vocês fiquem aguçadas sobre a nossa história. Porquê não existe nenhum livro sobre a nossa trajetória dentro da capoeira?

Saibam que é muito difícil de se coletar dados, eu pesquisei um pouco em cada lugar e com algumas pessoas. Talvez possam haver equívocos no que digo, pois as informações não são muito claras. É um jogo investigativo. Não sou dona da verdade, estou procurando-a e quero que todos tenham a consciência que isto é um estudo, o início de uma documentação fragmentada que pretendo, junto com as Mulheres Capoeiras, reunir em um só local.

A mulher no Brasil Colônia aparece como vítima não importando sua cor, raça ou credo, fosse ela índia, negra, branca, européia ou mulata. Elas eram surradas, estupradas, trancafiadas, raptadas, espancadas por maridos, padres, donos de engenho, pais, irmãos. Mas elas também aparecem como transgressoras, eram amantes de escravos fujões, roubavam e matavam seus maridos, participavam de atentados à Coroa Portuguesa, eram presas, degredadas, exiladas para Angola, da mesma forma que acontecia com homens brancos, negros, donos de terras, nobres, ou seja, como todos que fossem uma ameaça ao Reino Português.

Exatamente por esses fatores a Capoeira soube serví-las, como serviu também a muitos homens. Vocês percebem que aqui já não existem diferenças como sempre achávamos que houvessem? O quê nos leva à capoeira são os mesmos motivos que levaram os homens. Como disse o Mestre João Pequeno em resposta a uma pergunta feita pela Morena no "1º Encontro Nacional da Arte Capoeira" no Circo Voador no Rio de Janeiro: “As mulheres tinham um corpo humano, assim como o dos homens e sentem a mesma coisa que eles. Na capoeira considero as pessoas iguais.” (pag. 185. livro Capoeira O Galo já cantou, de Nestor Capoeira)

Esta será o primeiro texto de uma série que pretendo publicar aqui sobre as minhas pesquisas de Mulheres Capoeiras até 1.950. Aguardem.

A Mulher e a Capoeira

Review: Edição especial de Aniversário – Matéria escolhida pela equipe Portal Capoeira
Seção: Capoeira Mulheres

 

Desde a Antigüidade, na Grécia, eram poupadas as mulheres qualquer ligação com áreas relacionadas ao conhecimento e pensamento, já que os papéis materno e caseiro lhe eram designados. Analisando o contexto histórico da capoeira, é possível apontar a importância do sexo feminino no conteúdo cultural e na estruturação da capoeiragem. A partir daí a participação das mulheres foi tornando-se mais evidente e intensa, porém acoplada a um sentido estereotipado de masculinidade diante da marginalização daqueles que praticavam a capoeira. A marginalização seria uma das razões pela qual as mulheres continuam sendo alvo de atitudes preconceituosas e que questionam seu potencial e suas capacidades físicas.

Nestor Capoeira (1999) interpreta depoimentos de mulheres capoeiristas do Grupo Senzala em reunião. As mulheres capoeiristas presentes nesta reunião levantaram o problema da falta de documentação sobre a história da mulher na capoeira, a qual, certamente, contribuiria com pesquisas e estudo a respeito. Porém sabe-se que durante a época do Brasil Colonial, consta em sua história, mesmo que de forma pouco precisa, alguns registros de mulheres jogando capoeira. A República do Quilombo dos Palmares contava com mulheres guerreiras para sua resistência, e, a repercussão dessas mulheres se nivelou a dos homens escravos.
"(…) mulheres tão marginalizadas quanto os homens capoeiristas, assim como toda a cultura e o povo negro daquela época".(CAPOEIRA, 1999, p. 182).
Há fatores que implicam, desde o início, na participação de mulheres na capoeira. A desunião e competitividade entre mulheres são mais acentuadas, pois, provavelmente, lhe faltem maturidade e sensatez ao entender a significância da capoeira e o que ela representa como esporte e manifestação cultural.

"(…) uma mulher capoeirista deveria ser a primeira a incentivar outra capoeirista e isto nem sempre ocorria". (CAPOEIRA, 1999, p. 183).

Essa agressividade entre as mulheres que praticam capoeira provém da herança de gerações que apresentam esse tipo de relação, porém essa realidade vem mudando através da dedicação das mulheres. De acordo com Capoeira (1999, p. 186) "Várias idéias, antigas e estereotipadas, caíram por terra. A primeira é que capoeira é coisa ‘só de homem’. Outro mito que naufragou é que a capoeira masculiniza a mulher (…)".
São vários os motivos que levam mulheres a praticar a capoeira, desde a estética, saúde e bem-estar proporcionados até o rumo profissionalizante e educativo. É interessante observar o quanto a participação feminina na capoeira em escolas, clubes, academias e outros locais, tem se tornado mais evidente na quantidade, da qual destacam-se mulheres qualificadas tecnicamente e profissionalmente.

A princípio, compreende-se que o objetivo da persistência de algumas mulheres dentro da capoeira é se formarem profissionais e mestras, porém, devido ao fato de se próprio subestimarem, elas desacreditam que outras mulheres e, principalmente homens, treinariam sob sua liderança. Essa carência de apoio podem partir de seus mestres, do local de trabalho, dos relacionamentos profissionais e/ou até, das estratégias bloqueadoras da sociedade.
Recentemente, tem se promovido e divulgado muitos eventos e encontros femininos de capoeira, o que apresenta, aparentemente uma posição de destaque no meio capoeirístico, mas que na verdade é um indício de preconceito e exclusão da mulher, de forma que ela se sobressai isoladamente. Além disso, nos eventos exclusivamente femininos nota-se uma agressividade maior entre as mulheres. Para melhor entender, basta trocarmos os papéis: dificilmente, para não dizer nunca, foi divulgado um evento exclusivamente masculino, com o propósito de somente homens participarem.

No final do ano de 2002, fiz uma entrevista com uma profissional de capoeira, praticante há 15 anos aproximadamente, quando constatei diferenças entre os gêneros referente a postura e comportamento adotados pelo homem e pela mulher, num sentido generalizado. Foi colocado em questão a seriedade da mulher com a prática da capoeira em relação ao homem e através disso, foi possível afirmar que geralmente os homens se apresentam mais receptivos, interessados e, até, persistentes diante o aprendizado que a capoeira tem a oferecer.

Além disso, ao referir-se a promoção de eventos exclusivamente femininos a nossa entrevistada citou desvantagens que os encontros femininos as mulheres proporcionam, pois nestes momentos as mulheres demonstram muitas divergências dentro da roda de capoeira, pois tornam-se agressivas entre si ao sentirem a necessidade de provar o seu potencial, e aceitam com dificuldades levar algumas desvantagens durante um jogo dentro.

Outro fato tão importante quanto os demais em relação ao desempenho da mulher na capoeira é a interrupção dos treinamentos, pois podem diminuir a performance da mulher para a atividade de capoeira. A gravidez pode ser um fator forte neste aspecto, pois pode haver implicações na performance e se a mulher não tiver determinação e gosto pela capoeira ela não irá se profissionalizar nesta área e, nem mesmo, dará continuidade aos seus treinamentos.

Mesmo sendo relativamente menor o número de profissionais do sexo feminino na atividade de capoeira a mulher tem ocupado seu espaço e dado a sua parcela de contribuição para a sociedade e, em especial, para o aprendizado da capoeira.
Abaixo está representada a proporção de homens e mulheres profissionais em Capoeira no estado do Paraná, de acordo com a Federação Paranaense de Capoeira.
Na representação ao lado é evidente a diferença dos índices entre homens e mulheres profissionais da Capoeira e vale ressaltar que, neste Estado, dentre as mulheres não há mestras, mas há mestres entre os homens. O que vale é a proporção já mostrada, mas é evidente que deve ser levado em consideração que a minoria dos profissionais em capoeira são federados. Talvez isso ocorra porque esta questão envolve divergências quanto às propostas da Federação; rivalidades entre mestres e grupos, questões financeiras e a organização de grupos distintos de Capoeira, onde cada um segue uma filosofia diferenciada embasada em suas tradições.
Para Couto (1999), infelizmente a liberdade de ascensão do sexo feminino é inibida por questões preconceituosas, apesar das mulheres serem capazes de apresentarem um alto nível de desenvolvimento dentro da capoeira sem se igualarem ao sexo masculino.
Carolina Valentim "Pezinho"


Maculelê

MACULELÊ

Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, cidade marcada pelo verde dos canaviais, é terra rica em manifestações da cultura popular de herança africana. Berço da capoeira baiana, foi também o palco de surgimento do Maculelê, dança de forte expressão dramática, destinada a participantes do sexo masculino, que dançam em grupo, batendo as grimas (bastões) ao ritmo dos atabaques e ao som de cânticos em dialetos africanos ou em linguagem popular. Era o ponto alto dos folguedos populares, nas celebrações profanas locais, comemorativas do dia de Nossa Senhora da Purificação (2 de fevereiro), a santa padroeira da cidade. Dentre todos os folguedos de Santo Amaro, o Maculelê era o mais contagiante, pelo ritmo vibrante e riqueza de cores.

 

Sua origem, porém, como aliás ocorre em relação a todas as manifestações folclóricas de matriz africana, é obscura e desconhecida. Acredita-se que seja um ato popular de origem africana que teria florescido no século XVIII nos canaviais de Santo Amaro, e que passara a integrar as comemorações locais. Há quem sustente, no entanto, que o Maculelê tem também raízes indígenas, sendo então de origem afro-indígena. Conta a lenda que a encenação do Maculelê baseia-se em um episódio épico ocorrido numa aldeia primitiva do reino de Iorubá, em que, certa vez, saíram todos juntos os guerreiros para caçar, permanecendo na aldeia apenas 22 homens, na maioria idosos, junto das mulheres e crianças. Disso aproveitou-se uma tribo inimiga para atacar, com maior número de guerreiros. Os 22 homens remanescentes teriam então se armado de curtos bastões de pau e enfrentado os invasores, demonstrando tanta coragem que conseguiram pó-los em debandada.

 

Quando retornaram os outros guerreiros, tomaram conhecimento do ocorrido e promoveram grande festa, na qual os 22 homens demonstraram a forma pela qual combateram os invasores.


 

O episódio passou então a ser comemorado freqüentemente pelos membros da tribo, enriquecido com música característica e movimentos corporais peculiares. A dança seria assim uma homenagem à coragem daqueles bravos guerreiros.

 

No início deste século (XX), com a morte dos grandes mestres do Maculelê de Santo Amaro da Purificação, o folguedo deixou de constar, por muitos anos, das festas da padroeira. Até que, em 1943, apareceu um novo mestre – Paulino Aluísio de Andrade, conhecido como Popó do Maculelê, considerado por muitos como o “pai do Maculelê no Brasil”. Mestre Popó reuniu parentes e amigos, a quem ensinou a dança, baseando-se em suas lembranças, pretendendo incluí-la novamente nas festas religiosas locais. Formou um grupo, o “Conjunto de Maculelê de Santo Amaro”, que ficou muito conhecido. É nos estudos desenvolvidos por Manoel Querino (1851-1923) que se encontram indicações de que o Maculelê seria um fragmento do Cucumbi, dança dramática em que os negros batiam roletes de madeira, acompanhados por cantos. Luís da Câmara Cascudo, em seu “Dicionário do Folclore Brasileiro”, aponta a semelhança do Maculelê com os Congos e Moçambiques. Deve-se citar também o livro de Emília Biancardi, “Olelê Maculelê”, um dos mais completos estudos sobre o assunto.

 

Hoje em dia, o Maculelê se encontra integrado na relação de atividades folclóricas brasileiras e é freqüentemente apresentado nas exibições de grupos de capoeira, grupos folclóricos, colégios e universidades. Contudo, convém registrar as observações feitas por Augusto José Fascio Lopes, o mestre Baiano Anzol, ex-aluno do mestre Bimba e professor de Capoeira na Universidade federal do Rio de Janeiro: “…neste trabalho de disseminação, o Maculelê vem sofrendo profundas alterações em sua coreografia e indumentária, cujo resultado reverte em uma descaracterização. Exemplo: o que era originalmente apresentado como uma dança coreografada em círculo, com uma dupla de figurantes movimentando-se no seu interior sob o comando do mestre do Maculelê, foi substituído por uma entrada em fila indiana com as duplas dançando isoladamente e não tendo mais o comando do mestre. O gingado quebrado, voltado para o frevo, foi substituído por uma ginga dura, de pouco molejo.

 

Maculelê Maculelê, Puxada de Rede e Samba de Roda Portal Capoeira 2

 

“Mais recentemente, faz-se a apresentação sem a entrada em fila. Cada figurante posta-se isoladamente, sem compor os pares, e realiza movimentos em separado, mais nos moldes de uma aula comum de ginástica do que de uma apresentação folclórica requintada. “Deve-se reconhecer que não só o Maculelê mas todas as demais manifestações populares vivas ficam sempre muito expostas a modificações ao longo do tempo e com o passar dos anos. (…) Entendo que todas essas modificações devam ficar registradas, para permitir que os pesquisadores, no futuro, possam estudar as transformações sofridas e também para orientar melhor aqueles que vierem a praticar esse folguedo popular de extrema riqueza plástica, rítmica e musical que é o Maculelê.”

 
Mais Informações, Video em destaque:

“QUE FALE SANTO AMARO”. Em busca da verdade sobre a dança do Maculelê.

Mais do que uma simples verdade, o que buscamos é a manutenção da cultura de um povo. Neste documentário tentamos reunir, além de estudiosos santamarenses, pessoas verdadeiramente preocupadas em passar à frente o que lhes foi dado por seus antigos.

A ideia jamais foi levantar a verdade, e sim alertar as pessoas. E para isso ninguém melhor que a professora HILDEGARDES VIANNA, e o seu chamado: ”QUE FALE SANTO AMARO”, em sua coluna do JORNAL DA TARDE da década de 60. Eis, então, o primeiro passo.

Roteiro e direção LUCAS JASPER edição MAURÍCIO FARIAS produção executiva THELMA CHASE assistente de direção CAROLE CAVALCANTE assistente de produção TITO CHASE coordenação de pesquisa em Santo Amaro MARIA MUTTI colaboração FÁTIMA GAUDENZI coordenação da Casa da Coleção Emília Biancardi TAINÁ GARCIA direção geral EMÍLIA BIANCARDI

Mestre Bimba

Mestre Bimba

No dia 23 de novembro de 1899 nasceu no bairro de Engenho Velho, freguesia de Brotas, cidade de Salvador, Bahia, Manoel dos Reis Machado. Teve como pai Luís Cândido Machado, caboclo de Feira de Santana. Sua mãe, Maria Martinha do Bonfim, era uma crioula de Cachoeira.
Logo ao nascer o garoto ganhou um nome que se tornaria símbolo e sinônimo da Capoeira. Isso graças a uma frase dita à hora do parto: – olha a bimbinha dele! Esta exclamação definiu o resultado de uma aposta entre a mãe da criança – que imaginava uma menina – e a parteira, que previra um menino. Ninguém seria capaz de pensar, naquele momento, que Bimba passaria a ser um nome destinado a acompanhar o futuro capoeira em sua entrada na história do jogo.
O aprendizado de lutas se iniciou com o pai, à época famoso lutador de batuque – uma antiga forma de luta negra. Aos 12 anos começou a aprender Capoeira com o africano Bentinho, capitão da Cia. de Navegação Bahiana.
Segundo suas palavras, o sistema de aulas à época era bastante violento. As rodas eram formadas na Estrada das Boiadas (atual bairro da Liberdade), em Salvador, num ritmo bravio ao som do berimbau. Mestre Bimba costumava recordar um golpe formidável aplicado por Bentinho, que o acertara na cabeça, provocando um desmaio até o dia seguinte…
Seu trabalho como mestre-capoeira iria distinguir-se pela divulgação do jogo em todos os recantos do país e a elaboração de um sistema próprio de treinamento e transmissão dos conhecimentos e técnicas do jogo: a Capoeira Regional Bahiana.
Graças aos seus esforços foi aberta a primeira Academia de Capoeira com autorização oficial. Esta seria a forma adotada por inúmeros mestres para obter e legalizar um espaço, onde a prática do jogo não sofreria o perigo de perseguições. Afinal, era o ano de 1937 e o país vivia sob uma ditadura – período que sempre se destaca pela generalização
das arbitrariedade e cometimento de toda sorte de violências pelos detentores do poder.
E o que era tolerado em um dia poderia ser reprimido no outro.
Em sua vida Bimba foi trapicheiro, doqueiro, carroceiro, carpinteiro. Mas acima de qualquer coisa e por todo o tempo, mestre de capoeira. Um dos maiores nomes deste ofício.
Ninguém melhor que um contemporâneo de Bimba para descrevê-lo brincando a Capoeira. Ramagem Badaró – de conhecida família bahiana da zona de cultivo do cacau, que foi enfocada por Jorge Amado em Terras do Sem Fim -, jornalista, advogado e escritor, autor do romance O Sol, deixou interessante relato acerca do mestre, no artigo intitulado
‘Os negros lutam suas lutas misteriosas; Bimba é o grande rei negro do misterioso rito africano’, publicado em Saga – magazine das Américas, no ano de 1944, em Salvador.
"Tinha uma difícil missão a cumprir. Encontrar um assunto para uma reportagem que não fosse sobre guerras, suicídios ou crime. Um assunto diferente que não proviesse da fonte comum de todas as reportagens da cidade. Das delegacias de polícia, do Necrotério ou da Assistência.
Porque os casos de delegacia são sempre os mesmos: roubo, crime e sedução. Os de Necrotério são anacrônicos e os de Assistência, banalíssimos. ‘Estava nesse dilema, quando passou um negro de andar gingante de capoeira. Tinha resolvido o problema. Lembrei-me de mestre Bimba e da velha Roça do Lobo. Fui até o bairro elegante dos Barris, em cujos flancos se derramam em desordem as casas de taipa da vala do Dique. Presépios de palha da miséria sem esperança dos homens do povo. Quando comecei a descer pela picada aberta na ladeira pelos pés
descalços e calosos daquela gente que nasce com o atavismo dos párias e a herança do infortúnio, já os sons dos berimbaus traziam aos meus ouvidos o cartão de Boas Vindas do terreiro de mestre Bimba.
Continuei descendo, até que de repente o caminho se alargou e se confundiu com o terreiro onde os homens lutavam Capoeira. O povo formava um círculo ao redor dos dois homens lutando.
Jogando Capoeira no centro do círculo.
‘O berimbau batia compassadamente, tin-tin-tin… tin-tin-tin… tin-tin-tin…
enquanto os homens pulavam, caíam, levantavam-se num salto e deixavam-se cair outra vez, se golpeando mutuamente. O povo batia palmas acompanhando a música dos berimbaus e cantando
o estribilho da Capoeira:

Zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um…
Caí também no meio da turma e comecei a bater palmas e a tentar cantar o zum, zum da Capoeira (…)."
Badaró narra o instante que precede a entrada do mestre Bimba no jogo e a emoção que tomou conta dos espectadores.
"De súbito, o tin-tin nervoso dos berimbaus sumiu, calou-se, parou. Os berimbaus deixaram de tocar.
Os homens que estavam lutando também pararam. Com as roupas molhadas de suor desenhando nas dobras
do corpo os músculos possantes.
Os assistentes aplaudiram os homens que tinham acabado de lutar. E eles cantaram um corrido, agradecendo os aplausos.

Ai-ai de lelô
Iem-ien de lalá
Adeus meus irmãos
Nós vamos rezar
‘Nesse momento gritaram:
– Mestre Bimba vai lutar!
‘Todo mundo se voltou para trás, batendo palmas e gritando.
– Mestre Bimba… mestre… viva… viva… vivôôôôôô.
‘Um preto agigantado entrou no círculo formado pelo povo. Sorrindo. A multidão aplaudiu com mais força.

  

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