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CV-Em que canto ficou o fundamento

Uma crítica por Fabinho, Porto Alegre

A capoeira encontra em nosso imaginário infinitas e incontáveis versões e interpretações. Do leigo ao mestre, incorpora-se a cada dia um pouquinho do toque de cada um que passa por ela. Alguns deixam marcas profundas na alma da Capoeira, outros deixam cicatrizes, outros ainda, simplesmente sopram por suas vicinais apenas como uma brisa passageira.

Ecoa nos modernos resgates da capoeira contemporânea o tal do "fundamento". Os bravos guerreiros de não muitas décadas atrás, alguns ainda vivos, mitos vivos, ícones perenes de nossa capoeiragem atentam para o fundamento. Onde está o fundamento da capoeira? Ou os fundamentos? Em uma nova visão de capoeira globalizada vê-se a capoeira, ora deturpar a regional como capoeira moderna, ora a angola com o mau uso do parafrasear Pastiniano de que a "capoeira é tudo que a boca come".

A cantiga é fundamento de capoeira, sim senhor. Ouso em afirmar que tem relação com a filosofia da capoeira. Muita gente, inclusive mestres, dizem que a capoeira não tem filosofia, como se isso fosse privilégio de intelectuais ou atributo das artes marciais orientais. A herança oral que tanto se invoca e remonta a nossa história recente brasileira intercede por uma cantiga dentro do fundamento.

Sabemos nós, capoeiristas de 2004, que a chula que se canta hoje é distinta da chula de capoeira de 50 anos atrás. Isso é muito delicado e de região para região do Brasil se percebe nuances distintas. No exterior, também os "sotaques" mudam de idioma como se fosse apenas uma formalidade, como se a musica da capoeira fosse apenas uma expressão de musicalidade ou de interpretação ou de arte. Simplismo de mais.

Capoeira é luta? Sim. É dança? Sim. É música? Sim. Ela é tudo no seu bojo e não é nada em particular desmembrada de seu contexto.

Soa-me difícil entender, por mais esclarecido que pretensiosamente tente ser, por que a "torpedeira Piauí" é diferente de Aírton Senna (na cantiga de Mestre Gegê / RJ)? São contos e são encantos vislumbrados pelos mestres compositores. Mas, em que momento esta visão do cotidiano, passado e repassado oralmente na fundamentação da cantiga, toma rumos completamente distintos na capoeiragem?

A pouco, meu amigo, Mestre Jerônimo, brasileiro e pioneiro da capoeira na Austrália, lançou seu terceiro CD. O primeiro trabalho como escrevi no jornal eletrônico Capoeira Virtual era um belo CD de "World Music", o segundo, da mesma forma, se mostrava um CD de capoeira mais preocupado com a estética da angola "tradicional". Mas, seu terceiro trabalho, mescla questões que entram em conflito tácito com o que se entende por fundamentos. Neste trabalho (Buxada de Bullshit), Mestre Jerônimo trás muitas coisas de sua realidade de capoeira na Austrália (não capoeira australiana). Mestre JC faz um outro CD de "World Music" com tiradas de reggae, xaxado, baião, repente e outros ritmos contidos no sangue brasileiro do músico profissional Jerônimo. Todavia, neste trabalho " e o enfoque é pelo lançamento de um CD " ele comete o erro crasso: há um aluno cantando uma ladainha em inglês. Não adiantou o Mestre Lucas de Sergipe ter "avisado" em seu Lp.

Na minha própria residência em conversa informal com Jerônimo, disse que era um absurdo. Mas, fundamentos à parte, qual o problema de se gravar um CD de capoeira em Iorubá, improvisar em francês, cantarolar em inglês ou em chinês?

No filme Blade Runner (O Caçador de Andróides)de Ridley Scott existe uma língua ou dialeto futurista que trás elementos de português, inglês, francês, espanhol, etc. Mas, além de ficção científica é uma projeção artística de futuro. Cantar capoeira em outra língua que não o português, além de violentar uma essência, fundamento da arte, fere um princípio básico de comunicação: se a "mensagem" que parte do "emissor" para o "receptor" não é compreendida, a comunicação está incompleta. Ruídos semânticos ou físicos à parte, conversar em idioma desconhecido do interlocutor já se basta em falta de educação. Quando se desce em um preceito ao pé do berimbau, independente da nacionalidade ou idioma, a essência é a mesma. Segundo o Dr. Decânio, os três "Rs" são inerentes à prática e a vida capoeirística: são eles: RITMO, RESPEITO e RITUAL. Isso é tão próprio da capoeira que imaginar uma roda fora desta "simplicidade", me parece tudo menos a capoeira.

Saber cantar, o que cantar e o que se "chama" para a roda constitui atributo tão inerente à figura do mestre que muito me causa estranheza certos "mestres" mal saberem bater em um berimbau ou permitir que "microfones"ou CDs tomem conta de uma bateria.

Sou do tempo – embora jovem – que descer no pé do berimbau fora do preceito, merecia um belo puxão de orelhas. Sou do tempo que comprar errado era diferente do "cair de pára quedas" na roda. Ainda estão em minhas jovens reminiscências que aluno não comprava jogo de mestre. Tenho claro para mim que tem hora pra cantar, comprar e jogar (ou não jogar). E que o capoeira deve fazer tudo isso sabendo chegar "e estar bem chegado" em qualquer roda. Cantar martelo, desafio, MPB, Chula "moderna", "Hino de Grupo" está virando uma "nova" fundamentação de roda que está aí para os capoeiras de hoje.

Parafraseando Mestre Waldemar: "Todo mundo quer ser bom, mas ruim ninguém quer ser", ganho um espaço interessante na argumentação que trago a baila. Porém, direciono-me no mesmo erro que acabo de criticar, quando se usa de forma vã, deturpada e fora do contexto a idéia de Pastinha de que a capoeira é "tudo que a boca come". Capoeira não é "tudo que a boca come" quando tange permissividade e visões pessoais. A capoeira está além e adiante de qualquer pessoa que queira adulterá-la. Ela é 100% sábia e identifica historicamente quem direciona efetivamente seu caminho natural e desinteressadamente. O rumo da maré.

Não é por que temos CDs, DVDs, mídias mil que esqueceremos a mão e o pé no chão, o pau pereira e a brincadeira. Não é por que se dá aula "on-line" e por que o Mestre vídeo está aí, que vamos fazer de nossa capoeira, Mc Donald"s pra gringo consumir. Viver de capoeira não significa explorá-la. Quem está no exterior deve pensar em uma visão comensal e quem está chegando agora deve se preocupar com "seu lugar na fila" e não esquecer de quem tem cabelos brancos.

Ainda acredito na "comunidade capoeirística".

Fabinho

Web site: www.capoeirafabinho.cjb.net

Capoeira ajuda libaneses a suportar traumas da guerra

Levada por um mestre americano à Beirute, a capoeira brasileira ajudou libaneses a suportar os horrores da guerra.

O antropólogo americano Arbi Sarkissian, de origem armênia, introduziu a capoeira no Líbano no início de 2006. Durante a guerra entre Israel e o Hizbollah, em 2006, que devastou o sul do país e atingiu Beirute com bombardeios aéreos e navais, muitos alunos fugiram do Líbano ou se refugiaram em regiões mais seguras.

Mas mesmo em meio à guerra, quatro libaneses se reuniam para continuar praticando, e acabaram fundando o "Capoeira Sobreviventes", que conta até com uma comunidade no site de relacionamentos Facebook.

"A gente ficava deprimido com a guerra, com toda aquela destruição e mortes. Naqueles momentos, a capoeira ajudou a gente a manter nossa mente e espírito", disse a profissional em marketing Cynthia Daher, uma das "sobreviventes".

Sucesso

O mestre Sarkissian conta que no início o grupo era pequeno, mas que aos poucos o interesse foi aumentando: "Havia um grupo de amigos libaneses, que chamamos de núcleo. Eles tomaram gosto pela capoeira e começamos a fazer apresentações em casamentos e festas".

Atualmente o grupo conta com 20 alunos, inclusive três americanos. Sarkissian dedica cinco dias da semana para ensinar a luta e dança brasileira para alunos de nível iniciante e intermediário.

Ele aprendeu capoeira no ano 2000 quando conheceu mestres brasileiros em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ele conta que desde que começou a se interessar pela capoeira, a paixão pela cultura brasileira principalmente a baiana só aumentou.

"Eu havia feito o curso de Estudos Latino-Americanos na Universidade, estudando espanhol e português. Quando conheci os mestres brasileiros, fui convidado a praticar a capoeira e simplesmente me apaixonei."

Após visitar a Bahia duas vezes em 2005, para se aperfeiçoar no português e na capoeira, Sarkissian decidiu introduzir a arte em um país onde o Brasil é muito apreciado o Líbano.

Relaxamento

Segundo Sarkissian, o relativo sucesso do grupo se deve à visão das pessoas de que a capoeira pode ser uma forma de relaxar, exercitar e, acima de tudo, de se divertir.

Depois da guerra, os alunos retornaram, assim como as aulas de capoeira. "O que me surpreendeu é que ninguém abandonou, todos voltaram e o grupo aumentou", destacou Sarkissian.

De acordo com ele, os libaneses recebem muito bem as apresentações, às vezes feitas em praças e mercados públicos.

Amor pelo Brasil

Outro praticante, o escritor americano Jackson Allers disse que há uma atração natural pela cultura brasileira. "Muitos países têm um amor pelo Brasil, não apenas pelo seu futebol, mas também por sua arte, dança e música", afirmou Allers à BBC.

Sarkissian também ministra oficinas em que os alunos fabricam seus próprios berimbaus e outros instrumentos da capoeira. Além disso, alguns praticantes tentam aprender o português.

"Nós memorizamos as canções usadas na capoeira, mas eu precisava aprender o significado, queria aprender o idioma", disse Daher.

Nas noites de sexta-feira, um pequeno grupo se reúne para aprender português com o professor brasileiro Richard de Araújo, que está no Líbano por meio de um acordo entre os governos libanês e brasileiro para ensinar o idioma em um universidade pública.

"Dou aulas particulares para alguns praticantes de capoeira e outros que querem apenas aprender o idioma", explicou Araújo.

Para Daher, é emocionante começar a entender o significado do que canta nas rodas de capoeira. "Acho o português um idioma muito bonito e poético, estou apaixonada pelo Brasil", salientou.

Fonte: Folha Online