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Capoeira e Educação Libertária para Formação de Sujeitos Autônomos

CAPOEIRA E EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA PARA FORMAÇÃO DE SUJEITOS AUTÔNOMOS
as práticas de ensino nas rodas de rua do RJ Omri Ferradura Breda Professor especializado em capoeira na Educação Infantil

 

Introdução

O ensino da Capoeira como ferramenta educacional foi amplamente difundido a partir da década de 1990, da creche à universidade em todo o território nacional. Entretanto, é associado a uma visão restrita que considera apenas os aspectos motores, musicais e artísticos da prática. O papel libertário histórico da Capoeira é geralmente negligenciado. O trabalho visa caracterizar a Capoeira como prática educativa transformadora no desenvolvimento da autonomia. São analisadas experiências educativas espontâneas em rodas de Capoeira desenvolvidas nas ruas. Os conceitos de autonomia, autoritarismo, liberdade e disciplina em nível político, social e individual são aqui enxergados em sentido amplo e relacionados diretamente com as teorias de educação libertária. Nesse sentido, tendo em vista a pluralidade de visões acerca do tema, recorri aos estudos de Michael Alexandrovich Bakunin, Alexander Sutherland Neill, Paulo Freire, Maurício Mogika e Silvio Gallo, entre outros. Concluo apresentando como a Capoeira se legitima em poderosa ferramenta pedagógica para uma educação democrática.

Se existe uma palavra que define o papel da Capoeira nas lutas sociais de que tomou parte, determinando seu papel como arma de resistência cultural, essa palavra é liberdade.

Por ser esse conceito tão temido e oprimido ao longo da História, o negro capoeirista1 sempre representou uma ameaça ao sistema político brasileiro, conhecido pela seletividade com que contempla as liberdades individuais e coletivas da elite social e das camadas populares.

A Capoeira, pela sua própria origem e ancestralidade, foi duramente perseguida, e seus praticantes foram dizimados pela ação do Estado. A partir da Era Vargas, contudo, a ideologia ufanista foi paulatinamente incorporando-a como símbolo da Pátria, “Esporte Nacional”. O turismo passou a consumi-la e a determinar uma nova estética, baseada em acrobacias impressionantes. A prática rebelde passou a ser aceita, mas somente de forma normatizada, regulamentada, institucionalizada. Formas sutis de arregimentação social se revelaram mais profícuas do que a mera repressão.

O objetivo de conceder legitimidade sob os auspícios do Estado era melhor para poder controlar, vigiar e, em última instância, suprimir o caráter transgressor da Capoeira. Não obstante, a capacidade de adaptação, de disfarce, de camaleonização da cultura negra permitiu a ela mudar em muitos aspectos, preservando sua essência, seu caráter libertário.

Neste trabalho serão analisadas as potenciais contribuições da Capoeira na área da Educação, especialmente no tocante ao desenvolvimento da autonomia, nos níveis individual e político, tendo em vista o ensino socialmente comprometido.

A relevância do tema é afirmada levando em conta a abrangência nacional da Capoeira, sua aplicabilidade e presença em todos os ambientes educacionais formais e não formais nos mais diversos níveis sociais e a efetividade dos resultados atingidos em inúmeras instituições educativas.

Os objetivos deste trabalho são: analisar as contribuições da Capoeira para a construção da autonomia; caracterizar a Capoeira como prática educativa libertária e refletir sobre a sabedoria ancestral da educação espontânea não institucionalizada das rodas de Capoeira realizadas na rua.

Metodologia

Os principais marcos teóricos utilizados na conceituação das relações entre liberdade e autonomia foram os estudos de Bakunin, Alexander Neill, Paulo Freire, Maurício Mogika e Silvio Gallo. Os autores pesquisados divergem em relação a várias questões. O objetivo neste trabalho não é analisar a obra deles, e sim dialogar com eles, relacionando seus estudos à potencial contribuição da cultura afro-brasileira à educação.

Foram analisados, in loco, aspectos relacionados à didática da Capoeira em rodas de rua, na condição de professor-pesquisador dessa arte desde 1991. As observações específicas quanto ao caráter politicamente transformador da Capoeira nas práticas institucionalizadas ou não estão baseadas nessa experiência pessoal.

Desenvolvimento

O trabalho interliga o campo da educação ao da política, da sociologia e do saber popular. Esse modelo se justifica pela impossibilidade de explicar os fenômenos ligados à Capoeira fora de uma visão sistêmica. Segundo Mogika (1999), “na pedagogia e na psicologia humanistas o ser humano é entendido como um organismo complexo, no qual são indissociáveis mente, corpo e sociedade, isto é, ele é um ser bio-psico-social” (p. 61). Esta também é uma das principais características da cosmovisão africana: encarar o homem como um ser integral, no qual mente-corpo-espírito-sociedade estão interligados. A Capoeira como prática educativa situa a África na vanguarda do pensamento humanista, muitos séculos à frente da filosofia compartimentalizada ocidental só recentemente voltada ao holismo.

Definindo a Capoeira

Tentar conceituar a Capoeira requer um exercício de imaginação, dada a pluralidade de perspectivas assumidas pelos diversos praticantes e estudiosos do tema.

É na própria diversidade, na capacidade de assumir perspectivas opostas sem que uma anule a outra, que reside a força da Capoeira. Arte marcial, esporte, dança, teatro, folclore, todas essas definições parciais já foram utilizadas na tentativa de conceituá-la. É necessário afirmar essas diferenças como facetas de um todo para compreendê-la como arte que pode e deve se adaptar às diversas contingências históricas e sociais. Mestre Pastinha2, poeticamente chamou-a de “mandinga de escravo em ânsia de liberdade”. Ao afirmarmos que a Capoeira é caracterizada por uma atitude de afirmação da liberdade desde a sua gênese (“mandinga de escravo em ânsia de liberdade”), acreditamos que solidificar conceitos seria restringir essa arte a uma doutrina estanque; “provocar o seu sepultamento, negar sua principal força seria a negação do princípio básico da liberdade” (GALLO, on line). Ou seja, podemos apresentar aspectos da Capoeira, não defini-la.

Aceitando essa premissa iremos, sem assumir reducionismos, priorizar para fins deste trabalho um corte epistemológico que afirme a Capoeira como arte educativa libertária e socialmente comprometida com a mudança.

Autonomia e educação para a liberdade

A prática libertária da Capoeira tem como objetivo favorecer o desenvolvimento da autodisciplina e da autonomia no educando. Não obstante, a vivência dessa filosofia na prática diária não ocorre sem conflitos. Sendo assim, antes de analisarmos as relações de ensino-aprendizagem na Capoeira é fundamental definir como iremos trabalhar os conceitos de autonomia, liberdade, licenciosidade, autoridade, autoritarismo e disciplina.

Liberdade e autonomia

Bakunin defendia a liberdade como:

o direito absoluto de todo homem ou mulher de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para os seus atos, de determiná-los apenas por sua própria vontade e de (…) serem responsáveis primeiramente perante si mesmos, depois, perante a sociedade (p. 74). Para Mogika, o termo liberdade significa irrestrição; já a autonomia seria

a capacidade de definir suas próprias regras e limites, sem que estes precisem ser impostos por outro: significa que aquele agente é capaz de se autorregular. Logo, na palavra autonomia estão implícitos, simultaneamente, a liberdade relativa do agente (…) e a limitação derivada da relação com o mundo natural e social (MOGIKA , 1999, p. 59). Na roda de Capoeira o jogador não é proibido de fazer o que quer que seja, pois se trata de um jogo sem regras formais; porém a liberdade do indivíduo é contingenciada por acordos tácitos estabelecidos na relação com as liberdades dos demais. Exemplificando: um capoeirista não é proibido de, num acesso de raiva, gratuitamente arrancar os dentes de outro com um chute, mas se o fizer será punido pelo meio social. A decisão e a responsabilidade pelo autocontrole ficam a cargo do indivíduo. É nesse sentido que a prática da Capoeira vai auxiliar na formação da autonomia, posto que, segundo Freire (1996, p. 107), ela se constitui

“na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas” e que “uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade”. É no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade (idem, ibidem). Liberdade individual e licenciosidade

Concordo com Neill (1980) nas suas premissas básicas: 1) A liberdade trata dos direitos da pessoa; e 2) a licenciosidade consiste em ultrapassar os direitos alheios.

No exemplo citado, é clara a escolha que o indivíduo tem entre assumir um ou outro extremo; na prática da Capoeira, a capacidade de se disciplinar é o que garante ao jogador o gozo de sua própria liberdade.

Liberdade como valor político

A liberdade individual pregada pela Capoeira só se realiza em comunhão com a liberdade de todos, ou seja, esse conceito só pode ser vivido se estendido a todos. Bakunin (1980) entendia a liberdade de cada um como um valor que, longe de ser delimitado pela liberdade alheia, encontrava nela “sua confirmação e sua extensão ao infinito; a liberdade ilimitada de cada um pela liberdade de todos, a liberdade pela solidariedade, a liberdade na igualdade” (op. cit., p. 41). E ainda:

Não é verdadeiro que a liberdade de um homem seja limitada pela de todos os outros. Só sou livre quando minha personalidade, refletindo-se, como em inúmeros espelhos na consciência de outros homens livres (…), retorna-me reforçada pelo reconhecimento de todos. A liberdade de todos, longe de ser um limite da minha (…), é, ao contrário, sua confirmação, sua realização e sua extensão infinita (idem, p. 33). Portanto, nessa visão não há contradição entre a liberdade individual e conscientização política; pelo contrário, a primeira é condição complementar à segunda. Somente cidadãos autorregulados, autodisciplinados serão capazes de viver em “uma democracia participativa, em que cada pessoa participe ativamente dos destinos políticos de sua comunidade” (GALLO, on line).

Autoridade, autoritarismo e disciplina

A autoridade é uma qualidade que se demonstra pelo exemplo, pelo conhecimento e pelo respeito e empatia com o aluno. Ela não pode ser confundida com o autoritarismo, que se impõe na pressuposição de que o professor “sabe mais” (Capoeira, Biologia, Matemática) e deve ser “respeitado” por isso. Respeitado aqui significa ser ouvido sem contestação alguma por parte do aluno. A autoridade democrática, segundo Freire (1996), não necessita fazer discurso sobre si mesma, pois ela é uma realidade, assim como uma cadeira ou um sentimento.

Freire defendia que a autoridade do professor deve sempre ser acompanhada pela liberdade do aluno; somente dessa forma ela se legitima e oferece as condições para o surgimento da única disciplina que merece ser chamada como tal, a autodisciplina.

Resultado da harmonia ou do equilíbrio entre autoridade e liberdade, a disciplina implica necessariamente o respeito de uma pela outra. (…) O autoritarismo e a licenciosidade são rupturas desse equilíbrio (…), são formas indisciplinadas de comportamento. Assim como inexiste a disciplina no autoritarismo e na licenciosidade, desaparece em ambos, a rigor, autoridade ou liberdade (FREIRE, 1996, p. 89). A Capoeira de rua

A relação mestre-discípulo do período anterior era caracterizada pela liberdade dada ao aprendiz. A imensa maioria dos Capoeiras antigos passou por diversos tipos de ensinamento com diferentes mestres, sempre de forma não sistemática. Era no Mundo (e não na Academia) que se aprendiam os conhecimentos a serem aplicados no Mundo: a malícia, a malandragem, a violência, a arte. A Capoeira “acadêmica” sempre teve como contraparte as práticas livres de capoeiristas free-lancers, autônomos, desvinculados do sistema, que faziam da rua seu meio de expressão. Diferentemente de hoje, quando a maioria dos capoeiristas realiza rodas em seus próprios espaços, até a década de 1960 a norma eram as rodas de rua, feitas em praças públicas, feiras e festas populares. Essas manifestações espontâneas foram diminuindo de frequência nas décadas seguintes.

A Capoeira como capital cultural

Iremos analisar agora como as chamadas “rodas de rua” se caracterizam por espaços educacionais democráticos.

Tomemos como referência a chamada Roda Livre de Caxias, manifestação cultural realizada desde a década de 1970 no município de Duque de Caxias. Veremos como a trajetória da roda se confunde com a de seus fundadores. É a partir de seus exemplos concretos que demonstrarei o potencial transformador da Capoeira.

Rabelo (2005) narra o caminho traçado por esse grupo de jovens criados em áreas desfavoráveis da Baixada Fluminense, que souberam por meio da Capoeira transformar a adversidade em oportunidade.

Não bastasse a discriminação sofrida pela sua cor e classe social por parte da sociedade, esses jovens, por se recusarem a assumir os valores militarizados vigentes na época, eram também marginalizados no próprio meio da Capoeira institucionalizada. Buscaram, então, como alternativa, levar a Capoeira para a rua e dela fizeram a sua escola.

Mestre Cinésio Peçanha “Cobra Mansa”4 (radicado em Washington-DC, EUA), Mestre Rogério Peixoto (radicado em Kassel, Alemanha), e Mestre Jurandir Nascimento (radicado em Seattle – EUA), por meio da Capoeira, saíram da Baixada Fluminense para se tornarem “embaixadores culturais” brasileiros. Seus passaportes estão carimbados pelas dezenas de países por onde passam anualmente ministrando cursos de nossa cultura: Inglaterra, França, Alemanha e Finlândia. Para compreendermos como a Capoeira possibilitou uma educação autônoma para esses mestres, precisamos analisar as condições em que se deu a sua “formação escolar” na roda de rua. Tomaremos como exemplo a prática de seu atual guardião, Mestre (ou “Zelador”) Russo5.

A jornada de um intelectual orgânico brasileiro

Russo afirma em seus discursos públicos: “Só tive oportunidade de estudar até a admissão ao ginásio, os cinco primeiros anos; o resto foi a Capoeira que me fez “correr atrás”. Aprendi a oratória na prática de artista de rua, contando piada para manter o publico entretido ente um salto e outro por dentro de argolas incrustadas com facas”.

Russo é um orador popular; como percebido em seu discurso, a oratória pública foi exercitada inicialmente com o humor. Posteriormente, Russo refinou sua arte utilizando a própria Capoeira para suas reflexões filosóficas.

Durante a execução da roda, não raro interrompe seu andamento e mantém o povo que passa por lá atento às suas observações sobre variados temas. Por exemplo, partindo da discriminação sofrida no meio da Capoeira, Russo utiliza a indução, indo do particular para o genérico, para falar sobre a discriminação em geral, tocando publicamente em temas tabus, como preconceito de classe, cor, gênero, religião.

Após provocar a reflexão no público não capoeirista, Russo faz o caminho inverso: parte do geral para o particular, narrando como a sociedade de controle6 atua de tal forma que o Capoeira passa a reproduzi-la no seu campo individual, sem mesmo perceber a contradição entre a sua prática autoritária e a premissa básica da Capoeira, que é a liberdade.

Sem ter ouvido falar de Focault, Freire ou Gramsci, ele justifica a necessidade de falar em praça pública com o argumento de que “a palavra também é poder”; portanto, o povo pode e deve se utilizar dela. Sua erudição já lhe rendeu um livro publicado (RABELO, 2005) e diversos estudos acadêmicos sobre sua prática.

Howell (2004), a seu respeito, escreveu: “Russo é um “intelectual orgânico” respeitado pela coletividade. Apesar de pobre, já foi à Europa e aos EUA como convidado de honra. Sua formação foi puramente cultural e é um exemplo do potencial sucesso da educação cultural preconizada por Paulo Freire” (p. 21). A prática espontânea da Capoeiragem em espaços públicos e orientada para o povo auxilia na formação de uma consciência crítica em relação à cidadania e no desenvolvimento da autonomia. Mestre Russo é a prova viva disso.

Outro exemplo é a chamada Conexão Carioca de Rodas de Rua, liderada por diversos mestres de Capoeira desde o ano 2010. Esse movimento inclui, em um ambiente de não violência e de respeito mútuo, praticantes de diversas linhas de Capoeira, num processo educativo a que chamo “didática libertária das rodas de rua”.

A didática libertária da roda de rua

A maior parte das rodas de Capoeira leva o nome de quem as comanda, isto é: “Roda do Mestre Fulano ou Mestre Beltrano”. Isso não se dá nas rodas de rua. Em geral, elas se colocam com nomes dos logradouros que ocupam, muitas vezes escolhidos por serem locais representativos da cultura negra: Caxias, Arco do Telles, Cais do Valongo etc.

Em geral, a didática libertária da roda de rua tem como características principais a liberdade de ação igualitária; a descentralização da autoridade; a participação popular; e o internacionalismo, assim:

A liberdade de ação igualitária é a possibilidade de qualquer capoeirista, independentemente de seu grupo de Capoeira, idade, nacionalidade, tempo de serviço, status, posto dentro da Capoeira (mestre, professor, aluno) ou habilidade, se expressar musical, artística ou fisicamente sem receio de ser coagido ou reprimido por conta de sua condição. Na prática da roda isso se expressa no chamado “jogo de compra”, em que o capoeirista adentra a roda no momento em que julga apropriado, sem necessidade de pedir permissão a quem quer que seja. Na maioria das rodas esse procedimento resulta em desordem ou é desencorajado por conta da vaidade dos jogadores mais graduados, que insistem em se exibir um sem-número de vezes, nas rodas de rua não raro um jogo pode levar até vinte minutos sem interrupção. Minha teoria é de que a liberdade oferecida tende a gerar a autodisciplina. A descentralização da autoridade – Apesar da presença constante de diversos mestres na roda, estes não interferem constantemente em seu andamento, tampouco regulam a entrada ou o tempo de jogo dos participantes com a mesma rigidez autoritária que muitas vezes praticam em suas escolas. O controle é feito de forma tácita pela própria coletividade dos capoeiristas. Tende a imperar na rua o respeito pelo outro e, quando há excesso individual por parte de algum dos presentes, os demais zelam pelo bom andamento da roda, dialogando com este ou inibindo-o fisicamente. Acredito que essa falta intencional de uma autoridade central cria um clima de responsabilização coletiva pelo bem comum. “Neste sistema já não há propriamente poder. O poder baseia-se na coletividade, e torna-se a expressão sincera da liberdade de cada um, a realização fiel e séria da vontade de todos” (BAKUNIN, s/d, p. 60). A participação popular – Segundo Mestre Russo, um dos principais objetivos da roda de rua de Caxias é “devolver ao povo o que ao povo pertence: a sua própria cultura”. Ao contrário das rodas organizadas por grupos de Capoeira na rua, nas quais a participação popular costuma se restringir à condição de espectador, as rodas abertas caracterizam-se por serem de rua, ou seja, abertas ao povo, que ali atua de forma ativa. É comum a participação de mendigos, crianças de rua, esfarrapados e loucos lado a lado com capoeiristas profissionais. A liberdade é tão prezada que até mesmo “entidades espirituais” jogam7. O internacionalismo – Caracteriza-se pela afirmação da aceitação da alteridade e, consequentemente, pela negação a qualquer forma de discriminação na roda. A inimaginável cena de finlandeses, ingleses, americanos ou japoneses visitando a Baixada Fluminense é comum todos os domingos, na Praça do Pacificador, em Caxias, ou nas diversas rodas espalhadas pelas ruas do Rio. Esses estrangeiros são aceitos e participam de forma igualitária dentro de uma cultura notadamente brasileira. A Capoeira, sob essa ótica, de certa forma deixa de ser um “bem”, uma “posse” brasileira, e passa a ser uma cultura “brasileiro-universal”, pois essas pessoas são parte integrante do meio. É interessante perceber que, no imaginário popular, desde a fundação do Estado Novo a Capoeira tem sido representada como símbolo da Pátria, mas, paradoxalmente, atualmente tem botado em xeque a noção de identidade nacional, quando se une o enaltecido passado africano ao presente internacionalismo.

Segundo Gallo, a noção de identidade nacional foi concomitante à criação do Estado-nação:

a constituição dos Estados-nações europeus foi um empreendimento político ligado à ascensão e consolidação do capitalismo, sendo, portanto, expressão de um processo de dominação e exploração”; portanto, “é inconcebível que a construção de uma sociedade libertária possa se restringir a uma ou a algumas dessas unidades geopolíticas às quais chamamos países (on line). Ainda a esse respeito, no ideal de Bakunin (1980), seria necessário reduzir

o assim chamado princípio da nacionalidade, princípio ambíguo, cheio de hipocrisias e de armadilhas, princípio de Estado histórico, ambicioso, ao princípio muito maior, muito simples e único legítimo, da liberdade: cada um (…) tem o direito de ser ele próprio, e ninguém tem o direito de impor-lhe seus costumes, sua vestimenta, sua língua, suas opiniões e suas lei; cada um deve ser absolutamente livre em si.< Todas estas ideias estreitas, ridículas, criminosas, de grandeza, de ambição e de glória nacional são boas apenas (…) para enganar os povos e amotiná-los uns contra os outros, para melhor submetê-los (idem, ibidem, p. 57-58). A liberdade e a prosperidade das nações deveria levar à superação das diferenças regionais, “à comunicação entre todos os países, à abolição das fronteiras, dos passaportes e das alfândegas” (idem, ibidem, p. 91).

Ao defender a igualdade entre capoeiristas brasileiros e estrangeiros, a Capoeira supera o nacionalismo e se afirma como elo entre os povos. As rodas de rua são um encontro ecumênico, pluriétnico e multicultural. A didática da rua é a didática da Capoeira libertária, e em sua vivência a democracia se afirma.

Conclusão

As práticas da Capoeira ilustram o modo como se poderia aplicar o conhecimento popular na Educação, em uma concepção libertária e democrática. Porém, para que a autonomia individual se realize em ato político democrático, é necessário que o indivíduo se imbua de responsabilidade social, o que, entre outras coisas, num país como o Brasil significa fazer da ação pedagógica um instrumento de transformação social.

A ação política na Capoeira se caracteriza pela luta social em prol de uma sociedade justa que recuse a discriminação e as desigualdades sociais. Cada sujeito tem responsabilidade pela conscientização dos demais. Por isso é fundamental encarar a formação do sujeito autônomo como condição para a mudança.

Segundo Bakunin (s/d, p. 31), “a liberdade dos indivíduos não é absolutamente um fato individual (…). Nenhum homem pode ser livre fora e sem o concurso de toda a sociedade humana”.

O educador cultural deve estar sempre a favor da mudança, se quiser se fazer merecedor de seu papel. A mudança estimula seu aluno homem-mulher-criança a não se resignar diante dos inúmeros mecanismos de controle da liberdade que nos impedem de viver nossa condição humana em plenitude.

 

Bibliografia

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SOLER, Reinaldo. Jogos cooperativos para a educação infantil. Rio de Janeiro: Sprint, 2003.

Capoeiristas de Araucária se destacam no Brasileiro

Atletas se classificam para o Mundial

A equipe de capoeira da Prefeitura de Araucária, treinada pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, competiu nos dias 14, 15 e 16 de dezembro, o Campeonato Brasileiro de Capoeira em Vitória (ES), que foi uma seletiva para o Campeonato Mundial de Capoeira.

Araucária foi representada por quatro atletas e um técnico. Os quatro atletas: Marcelo Isaias Sampaio (Professor Canarinho), Everton Pereira de Oliveira (Grilo), Ludmila G. Pinheiro e Diego Henrique da Silva (Esquilo), que também compõem a equipe da Federação Paranaense de Capoeira, foram campeões por equipe.

Na categoria de dupla, os atletas Canarinho e Grilo foram vice-campeões. Na categoria individual adulto (peso médio) o capoeirista Grilo foi campeão e na categoria individual adulto (meio pesado) o atleta Canarinho ficou com o vice-campeonato. O torneio reuniu aproximadamente 430 atletas de diversas federações do país. Devido ao excelente resultado na Seletiva, os araucarienses estarão representando não somente o município, mas o país.

De acordo com o técnico da equipe de Araucária, Piero F. Rosa (Pirata), “estamos bem preparados para o mundial, apesar do nível da competição ser muito alto. Esperamos que eles se saiam bem nas disputas dos títulos, pois a qualidade técnica deles é muito boa”, afirma.

O Campeonato Mundial de Capoeira será realizado nos dias 2 e 3 de fevereiro de 2008, em São Paulo (SP).

 

Fonte: http://www.bemparana.com.br/

Crônica: Capoeira, um caminho para a vitória pessoal

Todos nós trazemos "marcas" emocionas, advindas de nossas experiências corpóreas. Na jogo da capoeira, estas vivências ajudam a moldar a nossa personalidade e a desenvolver nossas emoções. É através de desafios, fantasias, aventuras e competições que conhecemos a tão almejada vitória ou a frustrante derrota, duas vertentes da qual vivenciamos a cada "volta ao mundo" e que é responsável pela formação da nossa poderosa representação mental.

O jogo da capoeira alimenta as nossas emoções, proporcionando a mente uma idéia viva e concreta de conquista, quando conseguimos dar um salto, fazer uma parada de mão ou quando simplesmente jogamos capoeira, desenvolvemos soberanamente um verdadeiro êxtase de crença em nossa capacidade de realização e habilidade, assim impregnamos em nossa mente e materializamos, através do corpo físico, alicerces emocionais para o sucesso e a vitória. Porém não devemos esquecer o outro lado, onde fracassos e derrotas também ficam gravados. A derrota se bem administrada pode ser o nosso trampolim para a vitória, já que é através dela que podemos perceber e refletir sobre as nossas dificuldades e assim trabalhar para que elas sejam sanadas e nossos objetivos sejam alcançados. Assim estaremos encontrando soluções para que a tão gratificante e almejada vitória seja alcançada.
 
Tudo que vivenciamos no jogo da capoeira fica arquivado em nossa mente. Podemos utilizar este arquivo a qualquer momento, percebendo as experiências vitoriosas que obtivemos através das conquistas obtidas pelo corpo durante a prática da capoeira. Estas vivências com certeza alimentam e reforçam a nossa capacidade de acreditar em nós mesmos e são transferidas para outros contextos como trabalho, escola, família etc. Se eu consigo me esquivar de uma meia lua de compasso em alta velocidade, fica fácil se esquivar de pessoas mal intencionadas ou de qualquer forma de opressão que venha anular a nossa capacidade de conquista, se eu canto e me expresso na roda de capoeira, fica fácil falar em público e transmitir minhas idéias, se eu coopero com meu parceiro de jogo eu coopero nas minhas relações pessoais, se eu perder o emprego, não irrei ficar depressivo e desistir dos meus objetivos, pois aprendemos que levar uma rasteira pode parecer uma derrota, mais ensina a grandeza de cair sem se machucar e a levantar com elegância e continuar o jogo.
                             
Além disso, a riqueza de movimentos da capoeira, é de relevante importância para o desenvolvimento da nossa inteligência, durante o jogo adquirimos o conhecimento de espaço, tempo, distância, visão espacial e agilidade de raciocínio. Para conseguirmos realizar todas estas façanhas, exigimos mais do nosso cérebro, resultando na dilatação e ampliação da nossa mente.
 
Como isto acontece: nós capoeiristas somos privilegiados, já que a capoeira é um dos poucos “esportes” considerados individual e coletivo ao mesmo tempo, recebendo os benefícios de ambos. A Capoeira como prática individual fornece a crença e a perseverança, gerada através da luta solitária e pela busca da auto-superação, assim é reforçada a capacidade de acreditar em si. Esta capacidade é materializada para o plano emocional, fazendo com que venhamos a apreender a lidar com os problemas de nossas vidas e a resolvê-los da melhor maneira possível. Como prática coletiva a capoeira é extremamente eficaz para a integração social, uma roda de capoeira é uma aula de sociedade, onde existem regras, e leis. Todos se revezam em suas funções, em quanto uns cantam outros batem palmas, outros jogam ou tocam, assim nos submetemos a um grupo, a um ritual e desta forma nos aprimoramos como ser social
 
Dento deste contexto o mestre de capoeira deve perceber e valorizar o talento individual de cada um. Promovendo, estimulando e reforçando cada conquista obtida pelo aluno, por menor que seja. A prática do elogio faz com que o aluno reconheça que uma pequena evolução, é uma grande vitória. Enfim, é durante muitas “voltas ao mundo”, e jogando com diversos capoeiristas que construiremos o nosso caráter e desenvolveremos a nossa personalidade.
 
Devemos apenas tomar cuidado para que a capoeira não se torne uma vilã, sendo responsável pela construção de homens sem valores, e sem o sentido intrínseco de educação. E pior, fazer com que ela deixe de ser sinônimo de alegria, festa, saúde, brincadeira e poesia, visando apenas à competição e a vitória a qualquer custo. Portanto, a capoeira deve se tornar um meio para que venhamos a explorar o extraordinário potencial humano que existe em cada um de nós.
 
Um grande Axé a todos.

Professor Renato e DavidRenato Bendazzoli é Professor de CAPOEIRA do Grupo Mar de Itapuã, iniciou nos mistérios dessa arte, em 1994, com MESTRE PEQUENO, vindo a se formar, em 1998. Em 1999 começou a lecionar, em 2003 se formou em Educação física. Durante todos esses anos de dedicação a capoeira, à atividade física e ao esporte, atendeu a muitos alunos, colocando em prática meu método de ensino, que utiliza o corpo como ferramenta para o desenvolvimento físico, intelectual e emocional. Assim, procura implementar o potencial de cada pessoa que passa por suas mãos. Atualmente, leciona capoeira em colégios, academias e treinamento individual.
Contato:
renato.prof@uol.com.br

SP: Jogos Regionais & Capoeira

São Caetano lidera os Jogos Regionais e São Bernardo fica em terceiro
 
Após dois dias de competição dos Jogos Regionais que começaram na quarta-feira, São Caetano aparece com 43 pontos na classificação geral em primeiro lugar, e já desponta como um dos favoritos para vencer a competição. A cidade vem seguida de perto por Santos, com 42 pontos, e São Bernardo com 36. Desse modo, são duas cidades do ABC entre as três primeiras. Santo André está apenas na 8ª posição, Diadema em 10º e Mauá em 11º.
 
Os atletas de São Caetano e São Bernardo fizeram bonito e mostraram muita ginga nas competições de Capoeira realizadas na quinta-feira.
A equipe feminina de São Caetano ficou em primeiro lugar, garantindo o ouro. Já no masculino a disputa entre as duas cidades foi grande, terminando com São Bernardo em primeiro e São Caetano em segundo.
No individual, o destaque de São Caetano ficou por conta da atleta peso médio Fernanda Itantilo, que ficou com o ouro, e segundo ela, a competição de capoeira é baseada na técnica, no ritmo e no conhecimento da tradição do esporte.
O peso leve Thiago Carvalho, que garantiu o bronze no individual para São Caetano, disse que os movimentos sempre precisam ser feitos de forma correta acompanhando a música. A equipe de capoeira de São Caetano é treinada por Geraldo José dos Santos, o Mestre Gera, no Clube Recreativo e Esportivo Gisela, no bairro Boa Vista.
 
Na natação as duas cidades também travaram uma grande disputa. No feminino São Caetano levou vantagem e terminou na primeira colocação por equipe, deixando São Bernardo no terceiro lugar. Mas no masculino São Bernardo alcançou a segunda posição, dando a volta por cima de São Caetano, que ficou em terceiro lugar.

Orquestra Nzinga de Berimbaus

Criada em 1999 pelo Grupo Nzinga de Capoeira Angola,  a Orquestra surgiu da necessidade de transformar  em música o trabalho ligado à tradição angoleira no Brasil, em seus aspectos de filosofia, dança, ritmo, jogo, luta e brincadeira.

Orientada pelos coordenadores do Grupo, Janja, Paulinha e Poloca, que contribuem com a experiência adquirida em mais de 20 anos dedicados ao estudo e prática da Capoeira Angola, a Orquestra estimula a pesquisa individual dos componentes levando-os a desenvolver uma linguagem própria e um jeito particular de entender e se expressar através do berimbau.

Foto: Arquivo INCAB.