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Nestor Capoeira: Encontros com grandes Mestres – Leopoldina

A figura do Mestre, assim como a denominação “mestre”, é algo seminal.

Nos próximos dois livros (em 2013) desta trilogia falarei dos mestres do passado. Eu tive muita sorte: conheci os grandes mestres que instauraram a “era das academias”. Agora, gostaria apenas de contar como conheci alguns deles.

Meu encontro com mestre Leopoldina

A rigor, mestre Leopoldina não foi um dos que “instauraram a era das academias”; ele só começou a jogar em 1950, no Rio.

Mas foi quem me iniciou na capoeira; foi quem abriu as portas da “cultura popular”, e foi quem me apresentou a “filosofia da malandragem”. E fez isso sem fazer força, sem se preocupar em ser “mestre”.

Além disto, meu encontro com Leopoldina é uma estória que merece ser contada.

Demerval Lopes de Lacerda (1933-2007), o mestre Leopoldina, nasceu no Rio de Janeiro num sábado de carnaval.

Foi criado pela mãe e, depois por tias e outras senhoras que o acolheram. Mas, menino ainda, fugiu de casa para vender balas junto a outros moleques que dominavam as linhas da Estrada de Ferro Central do Brasil, que une o centro da cidade aos subúrbios mais distantes do Rio. Foi na Central do Brasil que ele se “formou” e fez “pós-graduação”.

Adolescente, foi por vontade própria, numa época de vacas muito magras, para o SAM – o temido Serviço de Asssistência ao Menor, atual FUNABEM. Leopoldina não tinha reclamações desta época; ao contrário, jovem malandro criado nas ruas, entrou logo para o time dos “diretores”. Entre outras coisas, aprendeu a nadar, dando regularmente a volta na ilha onde estava situado o reformatório, o que lhe deu uma excelente forma física.

Ao sair do SAM, já com 18 anos em 1951, e velho demais para vender bala e amendoin nos trens, começou a vender jornais e, em breve, montou uma equipe de pivetes. Pela primeira vez, começou a ganhar dinheiro, vestir altas becas e frequentar o mulherio da Zona do Mangue, onde breve fez fama devido ao tamanho de seu pênis – ganhou o apelido de Sultão. Leopoldina frequentava regularmente as prostitutas, não raro mais de uma vez ao dia, sem nunca usar qualquer proteção, como as “camisinhas-de-vênus”, e incrivelmente nunca pegou doença venérea.

Foi nessa época que conheceu Quinzinho, Joaquim Felix de Souza, um jovem e perigoso marginal, chefe de quadrilha, que já havia cumprido pena na Colonia Penal e carregava algumas mortes nas costas. Quinzinho era capoeirista e foi o primeiro mestre de Leopoldina na arte da “tiririca”, a capoeira dos malandros cariocas, sem berimbau, descendente da capoeira das maltas dos 1800s.

Drauzio Varela, o médico da Penitenciaria do Carandiru que escreveu um livro de grande sucesso, e que mais tarde virou filme, menciona Quinzinho em seu Estação Carandiru:

Seu Valdomiro é um mulato de rosto vincado e cantos grisalhos na carapinha…

Os setenta anos e as histórias de cadeia ao lado de bandidos lendários como Meneguetti, Quinzinho, Sete Dedos, Luz Vermelha, e Promessinha, fizeram de seu Valdo um homem de respeito no presídio.

Leopoldina contou (num depoimento a Nestor Capoeira, gravado em DVD, em 2005, Mestre Leopoldina, o último bom malandro), como conheceu seu primeiro mestre, Joaquim Felix, o Quinzinho, por volta de 1950; quando Leopoldina tinha uns 18 anos de idade e Quinzinho tinha, talvez, uns 23 anos de idade.

 

Leopoldina:

” Eu olhava pra ele (Quinzinho), olhava para os caras em volta, e ele berava pra mim:

– Desembandeira!

Quando eu me preparava pra atacar, ele fazia aquelas coisas com o corpo.

Eu pensei: ‘Vou matá-lo!’

Dentro da (estação de trens) Central do Brasil, escondido nos trilhos, eu tinha uma faca de 8 polegadas que eu costumava esconder ali. De madrugada, eu pegava a faca e caia na noite. Então eu deixei o Quinzinho e entrei na Central pra pegar aquela faca.

Neste momento, um jornaleiro que nunca mais vi, acho que já morreu, chamado Rosa Branca, me viu muito agitado e perguntou: ‘que que tá acontecendo?’

 

Eu respondi: ‘Quinzinho roubou o meu chapéu e eu vou dar uma facada conversada nele’. “

Leopoldina explicou o que é a facada conversada:

“A facada conversada é o seguinte: eu teria de esperar pelo momento em que ele estivesse bebendo, aproximar por tras, bater no seu ombro para que ele se virasse.

Quando ele se virasse eu furava ele pela frente… não pelas costas. Porque se eu fosse preso depois, eu teria considerção na cadeia: ‘esse é malandro, deu uma facada conversada no cara’. Mas se eu esfaqueasse pelas costas eles iam dizer: ‘covarde’, e iam descer o pau.”

Para a sorte de Leopoldina, Rosa Branca acalmou-o e ele não procurou Quinzinho. Mas pouco tempo depois, Leopoldina estava num ponto final de onibus, e encontrou Quinzinho mais uma vez.

Leopoldina:

“Desceram do ônibus, Mineiro Bate Pau, um outro cara chamado Peão, Testa de Ferro, e aí, Quinzinho.

Quando eu vi Quinzinho, eu gelei. E pensei: ‘é agora!’

Mas ninguém ali sabia do ocorrido entre nós e começaram a falar comigo. Quinzinho, vendo que eu era respeitado e amigo da malandragem, se aproximou e disse:

‘Eu não quero problema com você, porque você é malandro’.

Ele estava segurando uma cuíca e passou ela pra um dos caras. Ele passou a cuíca e, de repente, me deu uma geral (revistar alguém a procura de armas)!

Imagina só. Ele disse, ‘Eu não quero problema com você porque voce é malandro, etcetera e tal’, e em seguida me deu uma geral!”

As semanas foram passando e Leopoldina, que estva louco para aprender capoeira, foi, aos poucos, se aproximando de Quinzinho.

Leopoldina:

“Eu disse: ‘Quinzinho, quero te pedir um favor’

‘O que?’, ele respondeu (desconfiado).

‘Eu quero que você me ensine capoeira’

‘Então vai no Morro da Favela amanhã’

Puxa, eu não ficaria tão feliz se alguém me desse um milhão de reais.

Aquele primeiro dia, eu voltei pro Morro do São Carlos e fui dormir na esteira. No dia seguinte eu não conseguia levantar. Meu corpo todo estava doendo. E ao mesmo tempo, eu estava preocupado que ele não ia querer mais me ensinar se faltasse à segunda aula.

‘Como é que eu vou?’, e na Favela ainda tinha que subir mais de uns cem degraus.

Então eu fui no dia seguinte e disse pro Quinzinho:

‘Não pude vir porque estava todo doído’

E ele (sem me dar papo):

‘É assim mesmo… é assim mesmo’.

E começou a me ensinar: ‘faz assim…. faz assim’.”

“Aí, um dia o Juvenil apareceu. Ele disse ‘alô’, olhou pra mim e disse: ‘vamos brincar?’

Eu olhei pro Quinzinho e como ele não disse nada, eu respondi: ‘vamos’.

O Juvenil tirou o chapéu, o colete, a gravata, e ficou nú da cintura pra cima. Assim que nós começamos a brincar, ele me deu um chute que me pegou de raspão na cabeça.

O Quinzinho estava sentado com a 7.65 enfiada na cintura. Ele estava de shorts. Naquele tempo (aprox. 1955) se usava short de futebol e não essas sungas de hoje. Todo mundo usava shorts. E ele estava com um lenço no colo, escondendo a pistola.

Quando o Juvenil deu aquele chute, Quinzinho se levantou e enfiou a pistola na cara do Juvenil:

‘Não faça isso! Não faça isso, se não ele fica covarde e não aprende!’ “

Eu (Nestor Capoeira) acho esta estória, contada pelo Leopoldina, incrível.

Vejam bem: o Quinzinho era um jovem e perigoso marginal, chefe de quadrilha que, na verdade, não tinha nem um método de ensino estruturado; como já existia na Bahia, com mestre Bimba, desde 1930; ou como Sinhozinho, no Rio no mesmo período. Leopoldina explicou como Quinzinho ensinava: ia jogando com o aprendiz e dizendo, “faz assim… faz assim”.

No entanto, quando encarnava o “mestre de capoeira”, Quinzinho tinha uma ética impecável – “Não faça isso, se não ele fica covarde e não aprende!”. Mais impecável ainda, pois naquele tempo, Rio dos 1950s, aluno aprendia capoeira levando porrada pra “ficar esperto”.

Eu vejo esta passagem como algo muito emblemático da complexidade do mundo da capoeira, com seus bizarros paradoxos; que, na verdade, não parecem tão estranhos assim para aqueles que tem o corpo e a cabeça feitos pelos fundamentos da malícia.

Alguns anos mais tarde, Quinzinho foi, mais uma vez, preso e, desta vez, assassinado na prisão da Ilha Grande pelo Chefe de Segurança, Chicão.

Leopoldina sumiu da área, com medo de represálias de marginais inimigos. Quando voltou às ruas, conheceu Artur Emídio, que tinha chegado recentemente de Itabuna, e tornou-se aluno de Artur por volta de 1954, conhecendo então a capoeira baiana jogada ao som do berimbau.

Mais tarde, Leopoldina foi trabalhar no Cais do Porto e acabou conseguindo entrar para a Resistência, um dos ramos da estiva. Aposentou-se cedo, antes dos 45 anos de idade devido a um acidente de trabalho que, felizmente, não deixou seqüelas; e, com um salário razoável de aposentado, pode viver mais intensamente a vida de capoeirista e malandro alto-astral.

Eu (Nestor Capoeira) conheci Leopoldina em 1965, aos 18 anos de idade.

Leopoldina tinha 31 de idade, e apesar de estar em grande forma, cheio de energia, o corpo magro e musculoso todo talhado; seu rosto parecia o de um homem muito mais velho. O curioso é que os anos passaram e ele continuou com o mesmo rosto e o mesmo corpo.

Eu cursava o primeiro ano da Escola de Engenharia da UFRJ, na distante (em relação à Copacabana, onde eu morava com meus pais) Ilha do Fundão. Um dia, eu estava no pátio da escola conversando com alguns amigos quando vi, longe na estrada, um cara que se aproximava pedalando a toda velocidade; era o Leopoldina que vinha de bicicleta da Cidade de Deus até a Ilha do Fundão – é longe.

A medida que foi se aproximando comecei a perceber os detalhes da roupa da figura: chapeuzinho de aba curta, desses usados pelos sambistas; um colete vermelho com bolinhas brancas, completamente aberto sobre o peito nú, que balançava no vento feito as asas de um pássaro; calça boca-de-sino listrada de verde-pistache e cinza, e um largo cinto de couro preto com uma enorme fivela na cintura; sapatos de sola plataforma com uns 3 centímetro de altura, todo cravejado de estrelinhas prateadas.

Ele entrou pelo pátio adentro a toda velocidade e então deu um tremendo cavalo-de-pau e, girando, acabou parando ao lado de uma pilastra, onde calmamente encostou a bicicleta depois de saltar.

Aí reparei numa coisa mais estranha ainda: ele levava, preso entre os lábios, uma espécie de graveto pintado de preto, vermelho e branco com uns 30 ou 40 centímetros de comprimento. De repente, o graveto começou a se mexer e se enrolou em volta do pescoço daquela estranha pessoa: Leopoldina criava cobras em casa, e aquela – uma falsa coral – era uma de suas preferidas.

Eu perguntei para um amigo:

“Porra, quem é esse cara?”.

“É o mestre Leopoldina; ensina capoeira na Atlética”, que era a parte desportiva dos diretórios estudantis.

Leopoldina era gentil e amistoso com os alunos. Não permitia que um aluno mais velho batesse num iniciante.

Carregava os mais interessados para o samba, para o candomblé e a umbanda, para os morros, para os desfiles de carnaval na Avenida Presidente Vargas.

Era, sem tentar sê-lo, um Mestre completo, que iniciava aqueles universitários, eu entre eles, na cultura “popular” brasileira; na filosofia da malandragem alto-astral – “o bom negócio é bom pra todo mundo” (em oposição à chamada Lei de Gérson, “levo a melhor em todas”, dos 171 e golpistas); e num enfoque da mulher e do sexo radicalmente revolucionários – “ninguém pertence à ninguém” -, tanto para a moral burguesa como para os enfoques machistas.

Leopoldina achava que só se deve dar aulas de capoeira duas vezes por semana, e aulas de apenas uma hora; o resto seria correr as rodas e jogar.

Seu método de ensino consistia de um breve aquecimento (uma corrida em volta da sala e alguns “polichinelos”), algumas “sequências” de golpes e contragolpes para duplas de alunos (similares às que aprendeu com Artur Emídio, por sua vez baseadas nas sequências de mestre Bimba), ocasionalmente um treino de golpes (os alunos se aproximam em fila de uma cadeira e davam, um a um, o golpe por cima da cadeira) e, no final da aula, uma roda de uns 15 a 20 minutos.

Suas aulas geralmente tinham de 4 a 8 alunos; Leopoldina nunca teve “sucesso” no que se refere ao número de alunos; tampouco deu aulas por mais de 5 anos no mesmo local.

Creio que sou o único aluno de Leopoldina em atividade, mas meu estilo de jogo é bastante diferente do dele: Leo era mais baixo que eu – devia medir 1,70m e pesar uns 65 kg -, tinha um estilo mais rápido, mais leve, mais arisco; sua ginga tinha mais personalidade que a minha, e era extremamente malandra e expressiva; embora seus golpes não se equiparassem aos da rapaziada de ponta de Senzala (onde fiquei de 1968 a 1992 e completei minha formação), Leo tinha muita visão de jogo e objetividade quando queria.

Outro aspecto importante, da vida de Leopoldina, foi seu relacionamento com o samba.

Saiu com a Mangueira, pela primeira vez, no carnaval de 1961, aos 28 anos de idade. A Mangueira foi a primeira escola de samba a colocar a capoeira em seus desfiles, o que deu uma grande visibilidade à capoeira. Leopoldina chegou a organizar um grupo de 60 capoeiristas na ala V.C. Entende, a ala show da Mangueira. E continuou saindo até aproximadamente 1974.

Eu mesmo (Nestor Capoeira) desfilei várias vezes na Mangueira, a convite de Leopoldina, quando ainda era um novato de capoeira, por volta de 1968/1970.

Na verdade, quando o conheci em 1965, embora fosse conhecido e querido no meio da capoeiragem, Leopoldina não era renomado, como foi Artur Emídio ou, mais tarde, o Grupo Senzala. Sua fama cresceu lentamente com o tempo, nas viagens que fazia constantemente à São Paulo (e depois ao resto do Brasil e estrangeiro), e na amizade que conquistou no hegemônico Grupo Senzala carioca.

Mas principalmente por sua personalidade alto-astral e positiva, alguém que só fazia amigos e evitava as inimizades. E mais ainda, por suas músicas de capoeira que, ao mesmo tempo, eram inovadoras na letra e principalmente na harmonia mas agradavam até aos jogadores mais chegados à tradição.

Aos poucos sua figura começou a ser associada, e com razão, aos últimos “bons malandros” e ao próprio Zé Pelintra, uma entidade da Umbanda.

Em 2005, com mais de 70 anos de idade, estava em grande forma física, jogando no seu ritmo rápido com 4 ou mais capoeiras jovens, um jogo seguido ao outro, e era um dos (“velhos”) mestres mais conhecidos de nosso tempo, junto com os mestre João Pequeno e João Grande (antigos alunos de mestre Pastinha, de Salvador).

Seus maiores interesses eram as mulheres, a capoeira, o samba, os carrões (que comprava e equipava com muitos cromados e pinturas), as viagens no Brasil e exterior (onde começou a ir por volta de 1990), as festas, as amizades; enfim, as curtições de quem ama e está de bem com a vida.

Leopoldina morreu em 2007, vitima de câncer, aos 74 anos de idade.

Homenagem ao Mestre Leopoldina

Convidamos todos a participarem do Encontro em Homenagem a Mestre Leopoldina, organizado pelos Mestres: Meinha, Marcão e Contramestre Caranguejo, esse encontro já passou por Praia Grande e Campinas tendo seu encerramento neste Final de Semana com diversas atividades.

Sábado dia 01/05 às 15 horas Roda na 24 de maio em frente as Lojas “S dobrado” e “Ginga Aruanda”

E em seqüência a partir das 17:00 o barracão abrirá as portas em apoio a essa Homenagem.

Teremos a presença de diversos Mestres da Velha Guarda da Capoeira de São Paulo com muita Vadiação e Papoeiragem.

Domingo dia 02/05  está previsto diversas atividades (local ainda a confirmar)
Então não deixe de ver seus e-mails e venham fazer parte desta Festa.

Abraço a todos
Prof. Ratão

A MORTE DA FIGURA PÚBLICA MESTRE LEOPOLDINA

Faleceu o Mestre de capoeira Leopoldina ás 16:30h do dia 17/10/2007, na cidade de São José dos Campos/SP, Brasil[1].
 
Abro a caixa de e-mails e lá está a notícia encaminhada por meu amigo Pedro[2].
Morreu o Mestre Leopoldina.

É de sentir o falecimento de uma figura dessas… Leopoldina, embora não tenha qualquer ligação direta com a "nossa" capoeira da Bahia, é seguramente dos últimos representantes (no Rio, acho que o mais emblemático) de um certo "ser" capoeirístico, de uma certa maneira de tocar a vida típica da "fina flor" da malandragem dos tempos de outrora (na Bahia ou no Rio). E é uma pena que a conveniência política me impeça de arrolar outros exemplos vivos na Bahia, que é meu território… [3]

Leopoldina era o símbolo acabado de uma "delicadeza já perdida"[4] ou de uma "malandragem provinciana", poética; malandragem vaidosa, elegante e criativa. Um conceito, portanto, contingencial de "malandro". E é por essa via que posso compreender o quanto orgânicas, intuitivas e legítimas tinham de ser as tão propaladas "negaças", "mandingas", "manhas" e “malícias”[5] que, pela capoeira, nossos ancestrais (categoricamente representados por figuras como Leopoldina) legaram uma perspectiva de mundo, uma maneira de driblar – com elegância e originalidade – carências materiais tão aparentes para nós, míopes repetidores dos inócuos, sabidos e ressabidos discursos sociais.
 
Trata-se, pois, de atentar para aquilo que subjaz, que está por trás, porque no que toca a miséria e abandono sofridos por Cartola, Pastinha ou Waldemar, muito já sabemos e pouco agimos[6]. É quando jogar capoeira, levar um samba, vestir-se de branco impecável ou cumprir suas obrigações transcendentes engendra dignidade na pessoa humana. É disso que não nos apercebemos e é isso que morre, não tão lentamente quanto possa parecer, quando morre um Leopoldina. Dignificar-se pelo seu modo de ser e proceder é tão importante quanto a dignidade humana de que nos falam os jornais e revistas, dignidade enfaticamente material. São direitos humanos que “dignificam” com padrões pré-moldados e classificam por índices econômicos, mas excluem o único sustentáculo efetivo daquilo que faz dos Leopoldinas da vida Mestres de verdade: a capacidade de aplicar a sabedoria de um povo a um instrumental artístico-cultural que se renova criativa e ludicamente com riqueza intrínseca inabalada[7]. Leopoldina não era mestre de capoeira porque tinha muitos alunos. Também não o era porque dominou as técnicas[8] sofisticadas. Era mestre porque fez capoeira como extensão do seu modelo de viver e ver as coisas, matriz de uma cultura que não busquei quando me matriculei na academia; mas com a qual, a partir das primeiras experiências naquela coletividade, pude me identificar e inebriar. O olhar mágico de capoeirista que estava me tornando levou-me a rever preconceitos e aprender com aqueles que infelizmente não compreenderão estas linhas, mas que insisto em chamar de Mestres e assisti-los com atenção. Mas não por humildade e sim em razão da esperteza malandra que eles mesmos me ensinam. Malandragem “que já não é normal”[9], que já se esvai antes mesmo de contagiar, deixando-nos carentes de certas sutilezas não apenas romanticamente bonitas, mas talvez enormemente relevantes para a chance de nos fazer melhor. E quando perdemos isso declinamos também de uma maneira historicamente capoeirística de sermos felizes. Felizes na simplicidade digna que nos leva a repensar a importância[10] dos mega-batizados, dos grupos colossais ou das aparições na TV. É isso que representa a morte do Mestre Leopoldina: a perda de algo que parece afixado ao tempo passado, estéreo, sem continuidade ou proliferação, mas desesperadamente essencial.
 
MALANDRAGEM[11]
 

Antigamente,
Tudo era diferente,
No Rio a gente era gente,
Que beleza de lugar,
Ali na Lapa ,
Tinha toda a malandragem,
Do Samba e da capoeira,
Vale a pena recordar,
A malandragem,
Não era como hoje em dia,
Havia mais poesia,
No jeito de malandrar,
O bom malandro,
De branco era boa praça,
Cantava e fazia graça,
Era um tipo popular,
Mas respeitado,
Porque bom da capoeira,
Derrubava de rasteira,
Sem nem mesmo se sujar,
E de noitinha,
Embaixo dos lampiões,
Lindas moças ruquiões
Olhavam onde passar,
Lá pelos arcos,
Desenhando de beleza,
O céu que a mãe natureza
Reservou pra esse lugar,
O céu que a mãe natureza
Reservou pra esse lugar,
O céu que a mãe natureza
Reservou pra esse lugar,
O céu que a mãe natureza
Reservou pra esse lugar,
Ê viva meu Deus
Iê viva meu Deus camará
Iê que me ajudou
Iê quem me ajudou camará
Iê viva meu Mestre
Iê viva meu Mestre camará

 

 
 

Esforço-me para acreditar naquilo que, certa ocasião, na Gamboa de Baixo[12], depois de ter “mordido uma cachaçinha”[13] com o M. Bola Sete, disse-me o mesmo amigo Pedro (do e-mail) – que curiosamente é professor, doutor, documentarista, intelectual e sei lá mais o quê: “Sempre haverá uma resistência. Por mais que a aculturação dominadora se apresente com toda a sua força, toda sua sedução, setores continuarão desenvolvendo maneiras e maneiras originais e ricas, de preservar sua identidade, de ser (existir)”. Esforço-me… muito esforço.

Benício Golfinho tem 24 anos, é branquelo, flácido, católico, não conheceu Leopoldina pessoalmente, não tem nenhum compromisso científico, trabalha com roupa social e nunca morou no subúrbio (nem dos ricos nem dos pobres). Mas agradece ao mundo descortinado pela capoeira e capoeiristas por cada segundo que joga nas rodas de rua, por ter aprendido a respeitar o samba como algo musicalmente fantástico, por cada ida ao terreiro (sem exotismo racista no olhar), por andar gingando, por não ver a “nega do balaio grande” como depósito de esperma, por negacear com o cotidiano e por todos os momentos de pura felicidade que desfrutou longe dos seus colegas e perto de seus amigos, malandramente.

 

[1] http://www.capoeirajogoatletico.com/blog/?p=627

[2] Decididamente a coincidência é só no nome, porque ele não parece com o amigo de Raulzito.

[3] Sim, porque a vontade é de dizer “Vão! Corram e procurem, façam documentários, escrevam livros sobre essa gente, ‘o tempo urge’!”

[4] Expressão aproveitada do vídeo “O País da Delicadeza Perdida” (Chico Buarque)

[5] “A capoeira é mandinga, é manha, é malícia (…)” (Pastinha)

[6] Ajamos, portanto.

[7] É evidente que louvar nostalgicamente a representavidade de tal cultura – personificada na figura pública do Mestre – não significa rejeitar os avanços da atualidade. Significa alertar que tais avanços não devem implicar na extinção absoluta daquilo que nos é mais sagrado: nossa tradição. Treinemos nas academias, mas não pensemos que para aprender capoeira só levantar bem as pernas basta.

[8] Aliás, o conceito de “técnica” na capoeira deveria ser mais estudado pelos pesquisadores, porque foi indubitavelmente com esteio nela e em suas mutações que toda a estética capoeirística foi se desenvolvendo, enquanto a capoeiragem fazia suas migrações (da clandestinidade para o Mercado Modelo dos gringos, do cais para a rua, do preto para o branco, da rua para os Balés Folclóricos, da rua para a academia, do Brasil para o mundo, do mundo para o Brasil, do Brasil multicultural para a africanidade resgatada etc).

[9] Trecho da música “Homenagem ao Malandro”, de Chico Buarque: “Eu fui a Lapa e perdi a viagem / que aquela malandragem não existe mais / Agora já não é normal o que dá de malandro regular, profissional / (…) Mas o malandro para valer, não espalha / aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal / Dizem as más línguas que ele até trabalha / Mora lá longe chacoalha, no trem da central”

[10] “Importância” no sentido de imprescindibilidade, não de rejeição com algo em si negativo, mas apenas desnecessário.

[11] Ladainha cantada por M. Peixinho no dicos do Centro Cultural Senzala.

[12] Bairro (ou pequena comunidade) de Salvador-BA.

[13] Expressão por ele cunhada no mesmo dia.

Nota de Falecimento: Mestre Leopoldina

 

Mestre Leopoldina, faleceu no dia de hoje (17/10/2007), ás 16:30h na cidade de São José dos Campos-SP.

 

Nossos mais profundos e sinceros sentimentos a todos os familiares e amigos do Mestre Leopoldina, que com certeza deixará saudades em nossa capoeiragem, pois acabou de dar a sua "Volta ao Mundo"…

 

Fica com Deus Mestre… e com todos os camaradas que já estão te esperando para "Vadiar" ai no céu…

Com certeza é mais uma importante peça deste mundo de meu Deus que irá deixar muita saudade para a Capoeira carioca, do Brasil e do Mundo.

Mestre Leolpoldina, descanse em PAZ…

 

Da Rod@ Virtual, através do Mestre Jeronimo chega a triste notícia de que o Grande Mestre Leopoldina, está passando por um momento muito delicado e que seu estado de saúde é bastante delicado.

Desejamos do fundo do coração e com toda a energia que a capoeira pode manifestar e dissiminar as melhoras ao mestre da "fina flor da malandragem" e muita força para os familiares e amigos mais próximos… nesta etapa complicada e tortuosa da estrada da vida…

usem os comentários para fazer uma corrente de energia positiva e boas vibrações para a melhora do nosso LEO – Mestre Leopoldina.

Luciano Milani


 

Olá, Mestre Jerônimo, sei que o senhor tem contato com muitos capoeirista e divulga diverssos assuntos sobre a capoeira, gostaria que se possível o senhor divulgasse uma notícia que é muito importante, não sei o senhor sabe mas o Mestre Leopoldina está muito mal de saúde já fazem 02 meses, ele está internado em um hospital em São José dos Campos, ficou praticamente um mês na UTI, ele sofreu um derrame e está com uma discompensação de diabetes, hoje ele não está andando nem falando, o quadro clínico dele esta semana piorou um dos rins parou e perdeu visão de um olho, quem quiser saber infomrações sobre ele ligue para (12) 39131188, fale com o Mestre Zé Carlos – Tinta-Forte ou com a filha do Mestre Leopoldina a Sandra que estão cuidando dele aqui na cidade de São José dos Campos SP.

Obrigada!

Daniela Cunha

 

 


 

Tive a honra de conhecer o inesquecível Mestre Leopoldina em meu primeiro contato com a capoeira, quando produzi o filme de Antonio Carlos da Fontoura, CORDÃO DE OURO. Ali estavam alguns dos maiores nomes da capoeira de hoje mas houve um, que foi com quem mais me relacionei, por pura simpatia e facilidade de comunicação, pela parte dele, que foi justamente o Mestre Leopoldina. Me lembro muito das nossas conversas sobre a vida e a capoeira, embora desta última eu nada soubesse e da primeira, hoje entendo que nada sabia. Foi meu primeiro encontro com um Mestre de capoeira e por isso ouso dizer, embora não pratique essa linda arte, que Mestre Leopoldina foi meu mestre. Foi ele quem primeiro me falou de capoeira, em um filme que eu havia entrado a pedido de um amigo e que hoje me orgulho de ter estado nele. Mais tarde conheci Bimba, o que muito me emocionou. Mas o conheci apenas pela voz dos corações e mentes que haviam sido tocados por ele. Com Leopoldina foi diferente. Por isso, no dia que o meu filme MESTRE BIMBA, A CAPOEIRA ILUMINADA estava estreando, no FESTIVAL DO RIO, foi uma visão maravilhosa para mim, do palco, ver chegando na platéia o meu Mestre, graças a Deus a tempo de eu poder vê-lo e homenageá-lo. Agora sim, a sessão podia começar. MESTRE LEOPOLDINA, que você tenha muita força para superar essas difíceis horas. Queremos tê-lo de volta às rodas mas, se esse não for o seu destino, saiba que o que você fez aqui na terra não será esquecido. Todos teremos para sempre um pouco de você que ficou no CORDÃO DE OURO e no lindo filme da ROSE LACRETTA. Mas a sua maior parte estará nos corações de todos os capoeiristas, também para sempre.


Um forte abraço, meu Mestre


Luiz Fernando Goulart

 


 

 

Assim como o amigo rogo para que o mestre, por quem nutro profunda admiração, tenha força neste difícil momento. E que as forças superiores possam auxiliá-lo e orientá-lo.

 
 

Saudade/RJ


Pessoal,

Acabei de ligar pro BR, falei com o Mestre Ze carlos, (12) 39131188, ele me relatou que o estado do Mestre Leopoldina eh final, esta nas ultimas.

Espero que o Mestre melhore, mas, se esta sofrendo, que Oxala o tenhaem bom tempo.

Sarava meu amigo, Leo, Mestre Leopoldina, obrigado pela tua Vida, a Capuera!

Axe’ pra quem fica, Axe’ pra quem vai!

Mestre Jeronimo

O Mestre Leopoldina, faleceu no dia de hoje (17/10/2007), ás 16:30h na cidade de São José dos Campos-SP.

 

 

Video: Trechos do filme “Cordão de Ouro”, estrelado pelo Mestre Nestor Capoeira na década de 70

Trechos do filme "Cordão de Ouro", estrelado pelo Mestre Nestor Capoeira na década de 70. Também participam do filmes os mestres Leopoldina, Camisa, Peixinho, Lua Rasta e outros.
 
Excerpts of the movie "Cordão de Ouro", starring Mestre Nestor Capoeira (recorded in the 70’s). Also features mestres Leopoldina, Camisa, Peixinho , Lua Rasta and others


Cordão de Ouro – O filme (Parte 1)
 
 
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 Cordão de Ouro – O filme (Parte 2)
 
 
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 Cordão de Ouro – O filme (Parte 3)
 
 
 {youtube}t9S87N3jy2s{/youtube}
 
 
Cortesia: Bruno Souza

Video: Roda com o Mestre Leopoldina, durante a 1a. Jornada Cultural de Capoeira – 1987

Roda com o Mestre Leopoldina, durante a 1a. Jornada Cultural de Capoeira, promovida pelo Mestre Macaco e o Grupo Ginga em 1987 (Ouro Preto)
 
Roda with Mestre Leopoldina, during the 1st. Capoeira Cultural Journey, promoted by Mestre Macaco and Grupo Ginga in 1987 (Ouro Preto)


 
{youtube}0SDwuaa5xsg{/youtube}
 
  
Cortesia: Bruno Souza

TV: Mestre Leopoldina, a fina flor da malandragem

TVE BRASIL – 23h (informações do site www.tvebrasil.com.br)
 
26/02/06 – Mestre Leopoldina, a fina flor da malandragem
Origem: Rio de Janeiro
A malandragem através das músicas, das histórias e da pessoa de Mestre Leopoldina, mestre de capoeira reverenciado mundialmente.
Direção
Rose La Creta
Co-produção
Rose La Creta / Olhar Feminino / TVE Brasil / Fundação Padre Anchieta – TV Cultura
 
MESTRE LEOPOLDINA, A FINA FLOR DA MALANDRAGEM
 
Relação da Capoeira com o Arquétipo do Malandro no Rio de Janeiro.
O Documentário MESTRE LEOPOLDINA – a fina flor da malandragem será narrado através da lendária figura viva de Mestre Leopoldina, sua vida, suas histórias e sua importância para o universo da Capoeira.
Seu arquivo pessoal de fotos, jornais e vídeos que ilustram momentos de sua trajetória profissional como exímio capoeirista, músico, compositor , cantor de músicas de capoeira , showman, participando ainda de espetáculos de teatro, documentários para tv e de escolas de samba no Brasil no mundo.
Mestre Leo narra sua história na primeira pessoa, de modo a trazer para o espectador a emoção e a reflexão de sua filosofia de vida.
Através de seu relato, o documentário nos revela que a Capoeira, prática pertinente à identidade cultural dos afro-descendentes e brasileiros em geral, tem uma filosofia própria e vem ganhando um significado e uma importância que ainda não foram devidamente valorizados, apesar de sua crescente popularidade, especialmente entre os jovens – calcula-se 500 mil praticantes de capoeira espalhados hoje por todo o Brasil e mais 50 mil pelo mundo, principalmente Europa e EUA.
O filme tem como referência o modelo de comportamento do "Malandro Carioca", "herdeiro solitário e destronado das maltas de antigamente" em seu processo de evolução até o "malandro redimido" . O filme destaca a importância deste arquétipo, constatando que ele povoa o imaginário brasileiro, a ponto de surgir na religião da Umbanda, uma "linha de malandros" dirigidos pelo sr. Zé Pelintra, que vem dar conselhos aos vivos.
A cidade do Rio de Janeiro é pano de fundo para o relato de Mestre Leopoldina e sua correspondência gestual com o arquétipo do malandro sr Zé Pelintra, no Centro de Umbanda, pelas ruas e na cidade de Deus, onde Leopoldina mora há mais de 20 anos.
 
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Capoeira, Dinâmica e Informação

Crônica sobre a dinâmica da Capoeira e das informações nos veículos de comunicações virtuais
 
 
Mestre Edson Carneiro, respeitável folclorista e estudioso da cultura do Negro-Banto, e especialmente de Capoeira Angola, deixou diversas lições para todo bom Capoeira-Pesquisador.
 
O próprio título de um de seus livros – Dinâmica do Folclore – já é uma lição, onde o autor demonstra que não adianta tentar congelar as manifestações culturais como se fossem estáticas, e pior ainda, como se fossem Regionais.
 
Edson Carneiro tratou de descrever a Capoeira de sua época, mas dando a deixa de que a mesma poderia – e está – se modificando ou se adequando com o passar dos tempos. E é bem o temos visto ultimamente. Até mesmo como reflexo deste processo quase que inevitável da globalização.
 
Um bom exemplo disto é a apaixonante Capoeira Angola, que outrora estava por desaparecer, quando os Mestres Moraes e Cobrinha Mansa, ainda no Rio de Janeiro, entraram em campo – ou deveria dizer na Roda – e viraram o jogo. Coisas da angola… Para certificarem-se do que estou falando, basta ler o livro "Capoeira: pequeno manual do jogador", de autoria de Nestor Capoeira, edição de 1998.
 
Hoje, felizmente, podemos ter acesso a um número infinito de informações, seja em livros especializados sobre o tema Capoeira ou teses doutorais, também sobre o assunto. Algumas negando a Capoeira como Patrimônio Cultural Brasileiro. Outras, por outro lado, valorizando exatamente esta face de nossa arte. Alguns trabalhos vêem o componente Negritude como um dos pilares da Capoeira, outros, ao contrário, passam por cima disto e correm para uma Academia de Ginástica.
 
Além dos livros, teses e revistas, basta entrar em alguma ferramenta de busca na internet e digitarmos combinações de palavras-chave com os assuntos correlatos à Capoeira, e Chazan… aparece centenas e milhares de endereços para pesquisa. O problema, geralmente, é a qualidade das informações, ou seja, a maioria das páginas tem conteúdo repetitivo, buscando sempre fortalecer uma versão comercial unificada do que vem a ser, realmente, Capoeira. É claro, é jogada de marketing de uns e outros. Mas quem paga o preço, que aliás tem sito cada vez mais caro – vejam os preços dos workshops pelo mundo afora – é o próprio Capoeirista.
 
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